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A terra vermelha nos sapatos é um indício. Mas é indício do fato de que se pisou terra vermelha. Para decidir que é a terra de Wigmore Street, é necessário excluir, a partir de outras considerações, que Watson se afastou do bairro. o indício torna‑se revelador só a partir de uma abdução mais ampla. É necessário já ter formulado uma hipótese sobre os movimentos de Watson e o tempo de que dispôs para realizá‑los. Depois, o fato de Watson ter selos em casa é um indício muito vago; quando muito, seria indício (negativo) de carta enviada, a falta de um selo. Se não falta o selo, temos o indício (duplamente negativo) do fato de que Watson não enviou selos usando o próprio stock doméstico. Seria preciso já ter suposto que Watson é uma pessoa tão parcimoniosa a ponto de não resolver comprar selos na rua e tão previdente a ponto de não resolver enviar uma carta de repente. Só a partir desta série de abduções torna‑se relevante o indício negativo da não‑falta de selos. E só depois que Watson manifesta seu espanto pela prodigiosa adivinhação, Holmes tem certeza de que sua aposta abdutiva está correta (cf. Eco 1981, e Eco‑Sebeok 1983).
Segundo esta linha, são indícios também os traços estilísticos (verbais, visuais, sonoros) cuja recorrência (ou ausência) permite estabelecer a paternidade de um texto. Mas as decisões filológicas também são regidas pela 'conjectura' (que é uma abdução).
12.4 Exemplos, amostras e amostras fictícias
A ostensão de um objeto pode ter muitas funções semióticas, como já vimos no exemplo proposto por Santo Agostinho. Pode remeter a uma classe de objetos de que é membro, a outros membros daquela classe, pode representar um comando, um pedido, um conselho de algum modo ligado àquela classe de objetos. Posso indicar um maço de cigarros para expressar o conceito de cigarro, de fumaça, de mercadoria, para ordenar que alguém vá comprar cigarros, para oferecer um cigarro, para sugerir qual foi a causa da morte de alguém. As ostensões são signos fracos que geralmente têm de ser reforçados por outras expressões com função meta‑serniótica. Em situações de decodificação precisas, o signo ostensivo

pode adquirir uma determinada necessidade semiótica: no decorrer de uma chamada, a mão levantada significa que o sujeito que faz tal gesto é o portador do nome pronunciado. Para as amostras e as amostras fictícias valem regras retóricas do tipo sinedóquico (parte pelo todo, um gesto está por todo um comportamento) ou metonímico (a ação sugere o instrumento, um objeto evoca o próprio contexto), como acontece na arte dos mímicos.


12.5 Vetores
Entre as modalidades regidas pela ratio difficilis, os vetores (setas, dedos que apontam, sinais de direção numa impressão, entoações ascendentes ou descendentes) parecem os mais ancorados num destino extensional. Assim como os índices peircianos, eles parece tornar‑se expressivos só em conexão com um objeto ou estado de coisas. De fato, como já dissemos com relação à seta de Buyssens os vetores também expressam um conjunto de instruções para a própria inserção contextual (ef. in Eco 1975, § 2, a análise dos indicadores). Uma seta à venda numa loja de placas de sinalização expressa como conteúdo, a instrução de que, em qualquer lugar em que ela for colocada, ordenará ou aconselhará a seguir numa determinada direção (se quiser sair, então passe por aqui; se não quiser colidir com outros veículos e se não quiser ser punido, então prossiga na direção correspondente à orientação da seta). Diante do vetor linguistico /ele/, a instrução resultante é a de procurar na sequência contextual imediatamente anterior a ocorrência de um nome próprio, de um substantivo masculino, de uma descrição definida que expresse « humano + homem » com que /ele/ possa ser relacionado Neste sentido, são vetores também os signos que foram definidos como 'alvos' (cf. § 2.6), e, portanto, os limites e os perímetros. Se Rómulo tivesse marcado os limites de Roma, então (se Remo os tivesse ultrapassado) era signo (sinal) de que ele deveria ter morrido. O limite marcado estava pela cidade futura, pelo poder que o havia instituído, pelas penas que este poder podia cominar. Naturalmente dependendo do contexto, os vetores podem assumir, em geral por convenção, maior ou menor necessidade. Uma seta pode ordenar ou aconselhar.
12.6 Estilizações
Pertencem a esta categoria (regida pela ratio facilis) as insígnias, bem como os emblemas e as empresas, na acepção renascen-
58 SEMIÓTICA E FILOSOFIA DA LINGUAGEM
tista e barroca do termo*, em que algumas expressões de tipo reconhecível constituem verdadeiros textos enigmáticos a serem reconstruídos por sutis inferências. Pode haver também estilizações regidas por códigos fortes, como os brasões e as figuras das cartas de baralho; outras regidas por códigos mais fracos, abertas a múltiplos conteúdos, como os chamados 'símbolos' e, maior dentre eles, os chamados 'arquétipos' (mandala, suástica chinesa).
12.7 Unidades combinatórias
Categoria regida pela ratio facilis, compreende tanto as palavras da linguagem verbal quanto os gestos dos alfabetos cinésicos, os códigos de sinalização naval, muitos elementos da sinalização de trânsito etc. Veja‑se em Prieto (1966) como tanto a expressão quanto o conteúdo podem ser objeto de diferentes sintaxes combinatórias. Parecem constituir o repertório de funções sígnicas mais claramente baseado na equivalência, porém a bicondicionalidade da relação é muito duvidosa. Um determinado sinal ‑naval significa « doente a bordo », mas um doente a bordo é signo (indício) muito vago do fato de que será emitido aquele sinal. O sinal que significa «doente a bordo» abrirá antes para múltiplas consequências ilativas e, portanto, conotará outras inferências semióticas possíveis. Uma unidade combinatória também implica sempre um pacote de escolhas contextuais.
12.8 Unidades pseudocombinatórias
São elementos de um sistema expressivo não correlatos a um conteúdo (pelo menos não segundo um código fixo). Hjelmslev (1943) observava que se trata de 'sistemas simbólicos' no sentido de que, embora sejam interpretáveis, não são biplanares (o conteúdo possível está conforme com a expressão): se há um significado num lance de xadrez, ele consiste na série de lances sucessivos que o lance anterior torna possíveis. E deste género seriam os jogos, as estruturas musicais, os sistemas formalizados, as combinações de elementos não‑figurativos na pintura. Mas é próprio dos sistemas 'monoplanares' apresentar cada antecedente como o signo prognóstico do consequente. Jakobson (1974), por diversas vezes, sublinhou este aspecto das composições musicais e da pintura abstrata, remissão contínua da parte
"Empresa (divisa). Forma alegórica constante de corpo (imagem) e alma (discurso), comum nos séculos XV, XVI e XVII. A empresa difere do emblema, segundo seus teóricos, pela:

quantidade de imagens e palavras;

b) clareza alegórica. A empresa utiliza poucas imagens e palavras e tende ao hermetismo (enigma)". HANSEN, J.A. Alegoria: construção e interpretação da metáfora. São Paulo, Atual, 1986, p. 111. (N. do T.)
ao todo e de uma parte a outra parte, estimulação de esperas, fenómeno de significância difundido ao longo de toda uma textura cronológica ou espacial. É necessário, portanto, discordar de Hjelmslev e definir como caráter constitutivo do signo não a não‑conformidade biplanar, mas exatamente a interpretabilidade (cf. § 13).
12.9 Estímulos programados
Nesta categoria estão os estímulos capazes de provocar uma resposta não mediata, e que resultam significativos do efeito previsto somente para quem os emite, não para quem os recebe. Se o critério semiótico fosse a equivalência chata, deveriam ser excluídos da categoria dos signos. Na perspectiva que nos interessa, constituem, ao contrário, um caso de signo fraco que, a partir da causa efetuada, permite inferir o efeito possível e variadamente provável.
12.10 Invenções
Tratadas difusamente por Eco (1975), elas representam aqueles casos extremos de ratio difficilis em que a expressão é inventada freqüentemente na hora em que se procede pela primeira vez à definição do conteúdo. A correlação, portanto, não é estabelecida por nenhum código, é só condenda. Nestes casos, o procedimento abdutivo ajuda o intérprete a reconhecer as regras de codificação inventadas pelo emissor. Podem ser grafos, figuras topológicas, invenções pictóricas ou linguísticas (pense‑se na linguagem transmental da vanguarda russa ou no último Joyce). Ás vezes, regras preexistentes ajudam a compreender o trabalho de nova codificação (nos grafos, nas experimentações linguísticas); às vezes, a invenção permanece por muito tempo não‑significante, ou significa, quando muito, sua recusa ou impossibilidade de significar. Mas, neste caso também, reafirma que a característica fundamental do signo é exatamente a sua capacidade de estimular interpretações.
12.11 Conclusões
Esta resenha de possibilidades de produção sígnica mostrou que existe um continuum semiótico que vai da codificação mais forte à mais aberta e indeterminada. A tarefa de uma semiótica geral é a de localizar (como estamos fazendo aqui) uma estrutura formal única subjacente a todos estes fenómenos, isto é, a da implicação, geradora da interpretação.

A tarefa das semióticas específicas, ao contrário, dependendo do sistema de signos estudado, será a de estabelecer regras de maior


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ou menor necessidade semiótica das implicações (regras de institucionalidade).
13 O critério de interpretância
Condição de um signo não é portanto só a da substituição (aliquid stat pro aliquo*), mas a de que haja uma possível interpretação.
Por interpretação (ou critério de interpretância) deve‑se entender o que entendia Peirce ao reconhecer que cada interpretante (signo, ou seja, expressão ou sequência de expressões que traduz uma expressão anterior) não só retraduz o 'objeto imediato' ou conteúdo do signo, mas amplia sua compreensão. o critério de interpretância permite partir de um signo para percorrer, etapa por etapa, toda a esfera da semiose. Peirce dizia que um termo é uma proposição rudimentar e que uma proposição é uma argumentação rudimentar (1902c, CP 2.342‑44). Ao dizer /pai/, já defini um predicado de dois argumentos: se pai, então alguém que é filho deste pai.

O conteúdo interpretado permite‑me ir além do signo originário, permite‑me entrever a necessidade da futura ocorrência contextual de um outro signo. E da proposição «todo pai tem ou teve um filho » pode‑se chegar a examinar toda uma tópica argumentativa, e o mecanismo intensional dispõe‑me a proposições a serem verificadas extensionalmente.

Neste ponto, vê‑se como era discutível a condenação do signo baseada na acusação de igualdade, semelhança, redução das diferenças. Esta condenação dependia da chantagem do signo linguístico 'raso', entendido como correlação, baseada na equivalência sem saídas, substituição de idêntico por idêntico. O signo, ao contrário, é sempre o que me abre para algo mais. Não há interpretante que, ao conformar o signo que interpreta, não modifique, mesmo que só um pouco, seus limites.

Interpretar um signo significa definir a porção de conteúdo veiculada em suas relações com as outras porções derivadas da segmentação global do conteúdo; e definir uma porção através do emprego de outras porções, veiculadas por outras expressões. Se a interpretação é levada muito adiante, há a possibilidade de pôr em crise não só o conteúdo detectado no começo, mas o próprio critério global de segmentação, o que significa pôr em questão a maneira de a forma do conteúdo segmentar o continuum.


* “alguma coisa está por outra". (N. do T,
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Hjelmslev leva a pensar que,há um continuum da expressão e um continuum do conteúdo. Na verdade, o modelo da função sígnica, repensado à luz da semiótica peirciana, deveria ser reformulado da seguinte forma:
Contínuum
C

Substância

Forma
E



Forma

Substância


ou Matéria
A matéria, o continuum do qual os signos falam e através do qual falam, é sempre a mesma: é o objeto dinâmico de que fala Peirce, que motiva o signo, mas do qual o signo não dá conta imediatamente porque a expressão desenha um objeto imediato (o conteúdo). Uma determinada civilização organiza o conteúdo em forma de campos, eixos, subsistemas, sistemas parciais, nem sempre coerentes entre si, frequentemente articuláveis segundo a perspectiva contextual escolhida (e 'contexto' pode ser tanto a cultura de um milênio como uma poesia ou um diagrama). Estes segmentos de conteúdo não correspondem somente a entidades fisicamente reconhecíveis (mulher, cão, casa), a conceitos abstratos (bem, mal), a ações (correr, comer), a géneros e a espécies (animal, figura plana), mas também a direções ou a relações (em cima, antes, em direção de, se e então, ou seja). Entre estas porções, articuláveis em sequências mais amplas, articulam‑se ligações inferenciais nos modos acima descritos. Para expressar estas porções escolhem‑se porções formalizáveis e formalizadas de continuum, que é o mesmo do qual se fala, isto é, o mesmo mas enquanto segmentado pelo conteúdo. Às vezes, os elementos materiais escolhidos para expressar usam porções de contimium diferentes do continuum expresso (sons para expressar relações espaciais); às vezes, a mesma porção de continuum é matéria de expressão e matéria de conteúdo (relações espaciais num diagrama para expressar relações espaciais numa superfície tridimensional).

A matéria segmentada para expressar expressa outras segmentações da matéria. Neste jogo, o mundo (o continuum, a densa substância da matéria, manipulando a qual age a semiose) é questionado,


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de um signo ao outro. Através da formulação de objetos imediatos e sua constante redefinição por interpretantes sucessivos, muda‑se constantemente a forma que é reconhecida pelo objeto dinâmico.
14 Signo e sujeito
Então, se se podia dizer que o signo como igualdade e identidade é coerente com uma noção esclerosada (e ideológica) de sujeito, o signo, como momento (sempre em crise) do processo de semiose, é o instrumento através do qual o próprio sujeito se constrói e se desconstrói constantemente. O sujeito entra numa crise benéfica porque participa da crise histórica (e constitutiva) do signo. O sujeito é aquilo que os constantes processos de ressegmentação do conteúdo permitem que ele seja. Neste sentido (embora o processo de ressegmentação tenha de ser realizado por alguém, e surja a suspeita de que seja uma coletividade de sujeitos), o sujeito é falado pelas linguagens (verbais ou não), não pela cadeia significante, mas pela dinâmica das funções sígnicas. Somos, como sujeitos, o que a forma do mundo produzida pelos signos nos permite ser.

Somos, talvez, em alguma parte, a pulsão profunda que produz a semiose. No entanto, reconhecemo‑nos apenas como semiose em ato, sistemas de significação e processos de comunicação. Somente o mapa da semiose, como se define num determinado estágio do percurso histórico (com as rebarbas e os detritos da semiose anterior que arrasta consigo), nos diz quem somos e o que (ou como) pensamos.

A ciência dos signos é a ciência de como se constitui historicamente o sujeito. Provavelmente Peirce estava pensando nisto ao escrever: «Uma vez que o homem só pode pensar através de palavras ou de símbolos externos, estes poderiam começar a dizer: "Você não significa nada que nós não tenhamos lhe ensinado, logo você significa apenas por dirigir algumas palavras como interpretante de seu pensamento". Então, de fato, os homens e as palavras educam‑se reciprocamente: cada acréscimo de informação num homem comporta ‑ e é comportado por ‑ um correspondente acréscimo de informação de uma palavra... A palavra ou signo que o homem usa é o próprio homem, pois, como o fato de que cada pensamento é um signo ‑ considerado junto com o fato de que a vida é um fluxo de pensamentos ‑ prova que o homem é um signo, assim o fato de que cada pensamento é um signo externo prova que o homem é um signo externo, isto é, o homem e o signo externo são idênticos, no mesmo sentido em que as palavras homo e homem são idênticas. Assim, minha linguagem é a soma de mim mesmo,, uma vez que o homem é o pensamento » (1868).
II
Dicionario versus

enciclopédia


1 Os significados do significado
1.10 Remetido
Sentido, conteúdo, significado, significatio, signifié, signified, meaning, Bedeutung, denotação, conotação, intensão, referência, sense, Sinn, denotatum, significatum, são todos termos que no curso da tradição filosófica, linguística, semiótica foram de alguma forma considerados equivalentes a /significado/, conforme o quadro teórico explícito ou implícito a que o falante remetia.
Geralmente, o termo /significado/ é usado em contextos semióticos (linguística, filosofia da linguagem e similares), mas é encontrado também em contextos gnosiológico‑fenomenológicos (o significado perceptivo) ou mais amplamente em contextos ontológicometafísicos (o significado da existência).

Antes de decidir que aqui nos encontramos diante de um ponto de intersecção de simples homonímias, convirá esclarecer o problema do significado no quadro de referência estritamente semiótico.

O consenso das pessoas define genericamente um signo como aliquid que stat pro aliquo.

O aliquid é uma expressão concreta (e, em outras palavras, uma entidade física produzida pelo homem ou reconhecida como 'capaz de agir como substituto de alguma outra


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coisa) ou uma classe ou um tipo de expressões concretas possíveis. É mais difícil de compreender o que seja essa alguma outra coisa a que o aliquid remete ou no lugar do qual está. Como Jakobson (1974) definiu cada signo como uma relation de renvoi, decidimos usar provisoriamente para alguma outra coisa o termo neutro 'Remetido'.
Suponha‑se que um emissor produza para um destinatário, em referência a uma língua comum L, a expressão /A rainha é mulher/. É ela composta de cinco expressões simples (a‑rainha ‑  ‑ é ‑ mulher) com cuja variação se poderia produzir uma expressão composta diferente como /As rainhas são mulheres/. Apesar da referência a uma língua L, o destinatário deve decidir ainda se a expressão:
I) se refere a um indivíduo físico real (por exemplo, Elizabeth da Inglaterra);
II) se refere a uma personagem imaginária (por exemplo, a rainha de Alice);
III) remete aos atributos sexuais de qualquer pessoa que exerce uma certa função constitucional;
IV) se refere a uma figura das cartas do baralho ou à classe de todas as figuras desse tipo;
V) constitui uma afirmação não desenvolvida sobre os géneros gramaticais;
VI) reflete uma opinião indireta sobre a lei sálica;
VII) vale como ordem cifrada para uma companhia de comandos
Em qualquer desses casos a expressão está no lugar de sete Remetidos diferentes, e o Remetido pode ser um indivíduo, um conceito, um estado de coisas, uma crença. O que de alguma forma constitui o Remetido como Remetido é que este é o correlato de algum modo 'ausente' ou 'invisível' de uma expressão físicamente presente. O Remetido está sempre de algum modo em uma outra parte no momento em que a expressão é produzida. o problema do significado está contido no problema dessa 'ausência', embora nem todos os Remetidos sejam significados.
1.2 Referência e significado
Na realidade, nos casos I e II, pretende‑se fazer uma asserção acerca de um estado de coisas em um dado mundo, em outras palavras, dizer I) que Elizabeth da Inglaterra, considerada como existente no universo da nossa experiência, é do sexo feminino ou que
65 DICIONÁRIO VERSUS ENCICLOPÉDIA
II) a rainha de Alice, considerada como existente no mundo imaginado por Lewis Carroll, é do sexo feminino. Em outras palavras, em ambos os casos, pretende‑se realizar uma referência a um indivíduo e às propriedades desse indivíduo, àquilo que é o caso, num mundo possível (sendo o mundo da nossa experiência um dos tantos mundos possíveis [cf. Eco 1979]). A referência representa um tipo de uso que se pode fazer das expressões (cf. Strawson 1950). Para usar uma expressão a fim de se referir a um estado de um mundo possível devem‑se atribuir a algumas expressões indivíduos correspondentes e atuais nesse mundo: se, na realidade, se diz /Alice no País das Maravilhas não amava Touro Sentado/, o destinatário pode perguntar‑se a que indivíduo se refere /Touro Sentado/ dado que, com base em seu conhecimento do mundo possível de Lewis Carroll, não existe nesse mundo nenhum indivíduo com esse nome.
Se a menina Alice, que de fato existe nesse mundo, é o referente da expressão /Alice/, nesse mundo /Touro Sentado/ é uma expressão sem referente. Não é por isso que se deve dizer que seja uma expressão sem Remetido. Ainda que as regras da linguagem L que é usada não especificassem que Touro Sentado era um chefe indígena, o destinatário compreenderia por razões sintáticas que deve ser alguma coisa que Alice não amava (talvez um fruto ou um animal). É ainda difícil de compreender o que possa ser aquilo que o destinatário 'entende' ou 'compreende', mas é certo a) que não é a expressão enquanto presença física produzida e que não é b) aquele tipo de Remetido que seria um indivíduo considerado como existente no mundo possível de Lewis Carroll. É, portanto, um tipo de Remetido que não é um estado desse mundo possível e que, todavia, exerce um papel no processo de comunicação. Nada impede, por exemplo, que /Touro Sentado/ possa referir‑se a um indivíduo atual num mundo possível diferente do de Alice.
Decidimos definir provisoriamente como significado o que poderia localizar um Remetido (um indivíduo, uma relação, um conceito, uma propriedade, um estado de coisas) em ao menos um mundo possível, independentemente de cada atribuição de existência atual. Para comprovar, considere‑se que, se se afirma, com uma certa razão, que não pode existir em nenhum mundo possível um círculo quadrado, complementarmente a expressão /círculo quadrado/ aparece privada de um significado definível ou interpretável. Ou, pode‑se vagamente acreditar que se tem uma idéia do círculo quadrado porque se sabe o que são um círculo e um quadrado: mas seria impossível traduzir aquilo que se crê imaginar numa defi-
nição, num desenho, num exemplo. A vaguidade de significado torna difícil a localização de alguma coisa como Remetido num mundo possível e o não ser reconhecível como um Remetido num mundo possível torna difícil interpretar um significado.

Por isso, pode‑se provisoriamente decidir definir o significado de uma expressão também como tudo o que é passível de interpretação. Por conseguinte (e em relação.ao que foi dito no primeiro capítulo deste livro), a correlação entre uma expressão e seu possível Remetido não se delineia mais sob a forma de simples equivalência, mas sim de inferência. Se p ‑ e se se admite que a expressão é interpretada no contexto x, contextos e circunstâncias que compreendem também um conjunto de mundos possíveis de referência ‑ então q.


Quando um aliquid é, assim, passível de interpretação, mas essas interpretações são vagas, imprecisas, por sua vez não interpretáveis, e sobretudo em contradição entre si, temos um tipo particular de signo com significado vago e aberto, que será definido como símbolo. Na realidade, diante do que é comumente denominado símbolo (imagens chamadas 'arquetípicas', visões místicas etc.), na incerteza do mundo possível a que atribuir o Remetido de tal entidade, costuma‑se falar de alguma coisa que vale por 'outros' mundos, ou de alguma coisa supramundana. Mas desses tipos de Remetido não nos ocuparemos aqui neste momento.
1.3 Intensão e extensão
Já com Platão, Aristóteles e os estóicos se tinha delineado o modelo do que se poderia chamar o triângulo semiótico:
onde y e uma expressão, z e uma coisa ou um estado de coisas e x é aquilo que se está chamando /significado/. Naturalmente a definição dessas entidades mudava segundo o contexto filosófico: para Platão o z era uma experiência do mundo, mas efêmera e enganosa, dotada de 'realidade' apenas enquanto imitação de uma realidade situada no Mundo das Idéias; para Aristóteles era uma substância primeira, em toda a sua concretude; para os estóicos era um corpo. Para Platão o x era um conceito, para Aristóteles uma disposição da mente, para os estóicos uma criação do espírito humano (cf. o primeiro capítulo deste livro). Mas a diferença entre significado e


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