Série Fundamentos



Baixar 1,18 Mb.
Página5/27
Encontro11.09.2017
Tamanho1,18 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   27
45
INFERÊNCIA
wisch 1971; Bierwisch & Kiefer 1970), pelos modelos semânticos de seleções contextuais e circunstanciais (Eco 1979, § 2.11) e em sua reformulação para a desambiguação da metáfora.
Deixemos agora de lado uma análise detalhada destes modelos, que dizem respeito a uma teoria intensional do significado, bastando‑nos recorrer à nossa experiência de falantes. Se alguém começa a falar e me diz /corre/, não é verdade que eu, baseado em minha competência linguística, me limito a localizar uma porção de conteúdo representada pela articulação de algumas figuras como « ação + física + veloz + com as pernas etc. ». Simplificações deste tipo eram suficientes no tempo em que Hjelmslev, no laboratório, tinha de estabelecer a possibilidade mínima de uma decomposição do significado em figuras e demonstrar que existia (incorporalmente?) o conteúdo, livrando esta noção das hipotecas mentalistas e psicologistas, devidas também ao desembaraço com que os discípulos de Saussure haviam representado o significado de /árvore/ com o esboço de uma árvore. Mas, superada esta necessária fase de laboratório, é preciso também afirmar que, ao ouvir /corre/, me predisponho, localizando, um espaço de conteúdo estruturado como bloco de instruções contextuais, a uma série de esperas. Por exemplo: 'Corre por aí que... Corre veloz, o nosso cam­peão!', 'Corre Luís na próxima competição?', 'Corre quem quer emagrecer... Ele corre para a ruína!'. Em cada um dos exemplos
propostos, pode‑se ver como /corre/ tem uma valência semântica

diferente. Predispor‑me a estas diferentes eventualidades significa

inspecionar o espaço do conteúdo para prever qual dos resultados

será o mais provável, baseado nos elementos contextuais que antece­

deram ou que se seguirão à ocorrência do termo. O tipo semântico

é a descrição dos contextos em que é razoável que o termo ocorra.


Mas, se é assim, então a significação conotada é possível, pois já no primeiro nível de significação (aquele em que, eminentemente e em primeira instância, funciona o signo linguístico) não existe mera equivalência, mas implicação.
Quando o termo linguístico parece basear‑se na mera equivalência é simplesmente porque nos encontramos diante de uma implicação por catarse ou 'adormecida'. É por causa da inércia e da preguiça da competência que acreditamos que /fumo/ = /smoke/ = « fumo » =« matéria gasosa produzida por um processo de combustão ». De fato, a regra é: se aparece nos contextos x e y, então matéria gasosa produzida pela combustão, mas, nesse caso, então

46
fogo; se, ao invés, nos contextos z e k, então atividade de ingestão dos gases produzidos pela combustão de ervas especiais + sujeito agente + tempo presente etc. o fato de um dicionário registrar diferentes blocos de instruções em dois ou mais verbetes considerados homónimos é mera questão de economia didática.


Não é diferente o que acontece no processo de reconhecimento dos fatos naturais que depois geram uma proposição‑signo. A percepção é interrogativa e condicional, é sempre regida (mesmo quando não o percebemos) por um princípio de aposta. Se aqueles determinados dados perceptivos, então talvez « fumo », desde que outros elementos contextuais autorizem a considerar apropriada a interpretação perceptiva. Peirce sabia que também a percepção é um processo indiciário, foco de semiótica in nuce. O fato de que isto aconteça sem esforço não invalida o mecanismo de direito (1868).
Resta apenas resolver o problema das chamadas semias substitutivas, semióticas cujo plano de conteúdo é expressão de outra semiótica: no alfabeto Morse /. _ / =/a/ e vice‑versa, com total bicondicionalidade. Bastaria dizer que as semias substitutivas representam semióticas degradadas. Só que, aqui também, a equivalência se apresenta como implicação 'adormecida': também o código Morse é um sistema de instruções para substituir pontos e linhas com letras do alfabeto. Agora, se um leitor competente do código Morse pular diretamente da expressão em pontos e linhas para o fonema correspondente (como acontece com a leitura alfabética), a ocorrência de um determinado fonema o levará a fazer previsões sobre a futura sequência sintagmática, assim como o reconhecimento do fonema é garantido pelas inferências autorizadas pela sequência sintagmática anterior.
Não há, portanto, diferença de estrutura semiótica entre significação de primeiro e de segundo nível (utiliza‑se esta distinção porque a dupla denotação/conotação é equívoca, pois nas teorias semânticas extensionais 'denotação' significa referência e remissão a um valor de verdade). Esse objeto flutuante, que a fala comum chama de 'signo' em casos muito diferentes, existe como objeto disciplinar unificado, construído pela disciplina que o estuda, reunindo fenómenos diferentes no mesmo esquema formal p  q.
O que muda, dependendo dos fenómenos, é a inderrogabilidade desta implicação. Se o primeiro, então o segundo. Mas, qual é o estatuto epistemológico de se e então?
47
10 Códigos fortes e códigos fracos
A implicação estóica era a implicação do filão, a implicação material da lógica moderna. Como tal, ela não se pronuncia sobre a validade epistemológica da ligação entre antecedente e consequente. Os exemplos que os estóicos dão são os mais variados: 'Se é de dia, então há luz' é uma equivalência (bicondicional); 'Se é dia, então Dione anda' é um exemplo de implicação material sem nenhuma validade epistemológica; 'Se tem leite, então deu à luz' é uma inferência de efeito para causa, baseada em induções anteriores; 'Se se vê um archote, então os inimigos estão chegando' parece uma ilação muito vaga, porque o archote poderia ser movido também por amigos, mas Sexto interpreta este signo como convencional, supondo que seja reconhecido segundo um acordo anterior. Neste ponto, o valor epistemológico não dependeria mais das leis naturais mas das leis sociais. Ao introduzir, com este exemplo, todos os signos comemorativos no rol daqueles baseados numa correlação arbitrária, Sexto admite a natureza inferencial dos signos convencionais. Neste caso, o estatuto epistemológico do se‑então tem a mesma natureza legal das normas sancionadas pelos códigos jurídicos (vide o último capítulo deste livro).
Sexto, enfim, não reconhece o estatuto epistemológico dos signos indicativos: não se pode dizer que se um homem cai na miséria é porque dissipou suas riquezas; poderia tê‑las perdido num naufrágio ou tê‑las doado aos amigos. Com maior razão, o signo indicativo que vai da passagem dos humores através da pele à asserção da existência de poros perceptíveis é vago. O consequente é o efeito de uma mera hipótese. A partir disto, Sexto conclui que os signos indicativos não existem, mas agora sabemos que boa parte das descobertas científicas são feitas baseadas em inferências hipotéticas deste tipo, que Peirce chamava de abduções e em que o consequente é suposto, supondo, por sua vez, uma Lei em que o consequente é então o Caso, assim como o antecedente é o Resultado.
Aristóteles, interessado em argumentações que, de alguma forma, explicassem as ligações de necessidade que sustentam os fatos, estabelecia distinções de força epistemológica entre signos necessários e signos fracos (cf. § 6). Os estóicos, interessados em puros mecanismos formais de inferência, evitam o problema. Será Quintiliano (Institutio oratoria, V. 9), interessado nas reações de um público forense, a procurar justificar, segundo uma hierarquia de validade epistemológica, todo tipo de signo que, de alguma forma,
48
resulte 'persuasivo'. Quintiliano não se afasta da classificação da Retórica aristotélica, mas percebe que os signos necessários podem incidir sobre o passado (se deu à luz, esteve necessariamente com um homem), sobre o presente (se no mar sopra um vento forte, há necessariamente vagalhões) e sobre o futuro (se foi atingido no coração, necessariamente morrerá).
Ora, está claro que estas presumíveis relações temporais são, na verdade, diferentes combinações da relação causa/efeito. A relação entre parto e acasalamento (signo diagnóstico) remonta do efeito à causa, enquanto aquela entre ferida e morte (signo prognóstico) vai da causa aos seus possíveis efeitos. Esta distinção, aliás, não é homóloga àquela entre signos necessários e signos fracos. Se toda causa não remete necessariamente aos seus possíveis efeitos (signo prognóstico fraco), nem todos os efeitos remetem necessariamente à mesma causa (signo diagnóstico fraco). Não só há efeitos que poderiam ter causas diferentes (quem move o archote, os inimigos ou os amigos?), como seria preciso distinguir entre as causas necessárias e as causas suficientes. O oxigénio é uma causa necessária da combustão (portanto, se combustão, então oxigénio), mas o riscar de um fósforo é só causa suficiente da combustão (concorrendo com outras causas possíveis). Poderíamos dizer, então, que o signo fraco de Aristóteles é o signo do efeito para a causa suficiente (se respira mal, então está com febre), mas, examinando‑o melhor, vemos que ao signo fraco não falha uma sua 'necessidade'. Só que ele remete não a uma causa, mas a uma classe de causas: se o archote, então, com certeza, alguém que o acendeu e o move; se respiração ofegante, então necessariamente alteração do ritmo cardíaco (classe de fatos a que pertence também a febre). Estes tipos de signos teriam um seu consequente necessário, só que o consequente é ainda demasiado amplo e deve ser circunscrito (passagem da classe para um membro dela), baseado em outras inferências contextuais, e disto, de resto, Hipócrates já tinha conhecimento.
Pensando bem, não é diferente o que acontece com a linguagem verbal, onde posso nomear uma entidade por sinédoque de género para espécie. Em vez de dizer /homens/ digo /mortais/. Os problemas que o signo prognóstico de causa para efeito apresenta não são menores. Santo Tomás (Summa Theologiae, 1ª, q. 70, art. 2 a 2um; 3ª, q. 62) diz que a causa instrumental pode ser signo de seu possível efeito: se o martelo, então as operações que ele poderia verossimilmente realizar. Assim procede a polícia: encontra armas num apartamento e disto deduz a sua possível utilização
49
criminosa. Mas é claro que também este tipo de signo está aberto a inferências contextuais: o indício será diferente se as armas forem encontradas na casa de um presumível terrorista, de um policial ou de um armeiro. E por que Santo Tomás, por exemplo, não fala da causa eficiente? A presença de um conhecido assassino na cidade não pode ser signo de uma sua projetada ação criminosa? E quanto à causa final, não funcionam assim as argumentações baseadas no cui prodest*?
Parece, então, que todos os signos prognósticos são fracos pela natureza epistemológica da implicação (a ligação não é necessária), enquanto os diagnósticos podem sê‑lo pela generalidade do implicatum (uma classe muito ampla de consequentes). Hoje, a epistemologia, a lógica indutiva e a teoria da probabilidade sabem avaliar estes diferentes graus de força epistemológica. Mas, temos que nos perguntar por que Aristóteles e, mais ainda, Quintiliano não ousaram arrolar entre as provas possíveis todos os tipos de signos, embora reconhecessem sua diferente força epistemológica. É que, no nível retórico, as ligações se baseiam antes em convenções e opiniões difundidas. Quintiliano cita como verossímil (epistemologicamente muito fraco) este argumento: se Atalanta passeia pelos bosques com os rapazes, então provavelmente não é mais virgem. O fato é que, numa determinada comunidade, este verossímil pode ser tão convincente quanto um signo necessário. Depende dos códigos e dos roteiros (cf. Eco 1979) que aquela comunidade registra como 'bons'.
Ora, este hiato entre certeza 'científica' e certeza 'social' constitui a diferença entre leis e hipóteses científicas e códigos semióticos. A necessidade de uma prova científica tem pouco a ver com a necessidade de uma prova semiótica. Do ponto de vista científico, a baleia é um mamífero; mas, para a competência de muitos, é um peixe. Do ponto de vista científico, o limão é necessariamente uma fruta cítrica e não é necessariamente amarelo. Para os leitores de uma poesia ‑ Montale: «Os clarins de ouro da solaridade» (« I limoni », in Movimenti) ‑, o limão é uma fruta amarela e é irrelevante o fato de ser cítrico.
No plano semiótico, portanto, as condições de necessidade de um signo são fixadas socialmente, segundo códigos fracos e segundo códigos fortes. Neste sentido, um fato pode ser um signo seguro, embora não o seja do ponto de vista científico. É esta hie-
* “a quem interessa” (N. do T.)
50
rarquia de necessidade semiótica que sustenta as correlações entre antecedentes e consequentes e as torna, à força, iguais às correlações entre expressões e conteúdos.

Se, além disto, em termos semióticos também, a classe dos consequentes for muito imprecisa, teremos o signo ainda não codificado, vagamente codificado (o 'símbolo'), ou em vias de codificação (cf. Eco 1979, § 3 para os processos de invenção de código). Esta invenção de código, geralmente, tem a forma da mais ousada das inferências, a abdução ou hipótese.


11 Abdução e invenção de código
A abdução ou hipótese é amplamente descrita por Peirce em diversos pontos de sua obra (cf. sobretudo 1902b, CP 2.96; 1878, CP 2.6;1876). Comparada com a dedução e a indução, ela dá origem aos três diferentes esquemas inferenciais do quadro a seguir, em que as casas de linha contínua expressam os estágios argumentativos pelos quais temos proposições já verificadas e as casas de linha tracejada, os estágios argumentativos produzidos pelo raciocínio:

Nota: ler de de forma descendente

Dedução

Regra


Caso

Resultado

Nota: ler de forma ascendente

Indução


Regra

Caso


Resultado

Nota: ler descendente de ResultadoRegra

Regra

Caso


Resultado
Se o signo fosse regido por uma pura relação de equivalência, sua decodificação representaria um processo dedutivo, como acontece com as equivalências das semias substitutivas: /. _/ está sempre por /a/; ora, acontece que temos /. _/; portanto temos /a/.
Se não conhecêssemos o significado de um signo e se tivéssemos de reconstruí‑lo através de experiências repetidas, o processo a ser desenvolvido pareceria de tipo indutivo. De fato, parece ser este o procedimento nas definições de tipo ostensivo. Cada vez que o nativo que fala uma língua desconhecida pronuncia a expressão
/x/, mostra o objeto «y» ou então se co‑verifica a experiência «y». Aquela palavra, portanto, com muita probabilidade, significa aquele objeto ou aquela ação. Santo Agostinho, no De magistro (III, 6), nos diz o quanto a indução por interpretação ostensiva é falaz. Quando Santo Agostinho pergunta a Adeodato como explicaria o significado do termo /andar/, este responde que começaria a andar; e quando Santo Agostinho lhe pergunta o que faria se a pergunta lhe fosse feita enquanto estivesse andando, Adeodato responde que andaria apertando o passo, ao que Santo Agostinho objeta que ele poderia entender aquela ação como se o sentido de /andar/ fosse « apressar‑se ». A questão é evidente, o acúmulo dos signos ostensivos não esclarece por pura indução o significado do termo se não houver um quadro de referência, uma regra metalinguística (aliás, meta‑semiótica), de alguma forma expressa, que diga segundo que regra devemos entender a ostensão. Mas, neste ponto, já passamos para o mecanismo da abdução. Somente se suponho que o comportamento de Adeodato, em relação ao qual a pressa age como mecanismo meta‑semiótico para tornar evidente o ato de andar, constitui a interpretação do termo linguístico, sou capaz de imaginar que o que ele me propõe (Resultado) é o Caso da Regra suposta. Este procedimento verifica‑se também na decodificação dos termos linguísticos conhecidos, quando contudo não se tem certeza a qual das duas línguas pertencem. Se alguém me diz /cane!/ em tom exaltado, para entender se se trata de um imperativo latino ('canta!') ou de um insulto italiano ('cachorro!'), tenho que supor como quadro de referência uma língua. O fato de que depois haja indícios circunstanciais e contextuais que me encaminhem para a localização da regra, não muda, em princípio, a estrutura do processo interpretativo.

A abdução intervém também quando tenho que interpretar figuras retóricas e quando tenho que interpretar vestígios, sintomas, indícios (vide a referência hipocrática ao contexto). E não é diferente quando quero interpretar o valor que um determinado enunciado, uma palavra‑chave, todo um acontecimento assumem num texto.

A abdução, portanto, representa o desenho, a tentativa ousada, de um sistema de regras de significação, à luz das quais um signo adquirirá o próprio significado.

Com maior razão, temos uma abdução com aqueles signos naturais que os estóicos chamavam de indicativos, dos quais se suspeita que sejam signos, sem ainda saber do quê. Kepler (o exemplo


52
é de Peirce, 1902b) revela que a órbita de Marte passa pelos pontos x, y. Este é o Resultado, mas não se sabe ainda de que Regra ele é o Caso (e, portanto, de que consequentes é o antecedente). Os pontos x e y poderiam pertencer, entre as outras figuras possíveis, a uma elipse. Kepler formula por hipótese (e é um ato de coragem imaginativa) a regra: eles são os pontos de uma elipse. Portanto, se a órbita de Marte fosse elíptica, então sua passagem por x e y (Resultado) seria um Caso daquela Regra. A abdução, naturalmente, deve ser verificada. À luz da Regra suposta, x e y são signo de que Marte deveria passar também pelos pontos z, k. Era necessário esperar Marte lá onde o primeiro 'signo' induzia a esperá‑lo. Uma vez verificada a hipótese, só restou ampliar a abdução (e depois verificá-Ia): supor que o comportamento de Marte fosse comum a todos os outros planetas. O comportamento de um planeta tornou‑se signo de um comportamento planetário geral.

Assim que a regra é codificada, toda ocorrência sucessiva do mesmo fenómeno torna‑se signo cada vez mais 'necessário'. Obviamente, o que interessa aqui é a necessidade semiótica: o nascer do sol, para os modernos, é signo (indício) do movimento terrestre, assim como o era, para os antigos, do movimento solar. Do ponto de vista semiótico, o que deve interessar, antes de mais nada (em termos intensionais), é que um fato seja signo em relação a uma regra. Do ponto de vista científico, o que deve interessar (em termos extensionais) é que o estado de coisas expresso pela proposiçãoregra seja o caso. Mas este é um outro problema.

Aquela diferença que Harman (cf. § 4) estabelecia entre teoria do significado e teoria da prova diz muito mais respeito, no interior do próprio fenômeno sígnico, à diferença extensão/intensão, entre verificação epistemológica da verdade da prova e verificação semiótica de sua necessidade cultural, ou seja, do grau de codificação a que se fez chegar algo de verossímil.
12 Os modos de produção sígnica
Eco (1975) havia proposto uma tipologia dos modos de produção sígnica. O que interessa agora desta tipologia é a correlação entre expressão e conteúdo.

Para este fim, havia sido introduzida a distinção entre ratio facilis e ratio difficilis. Temos signos produzidos por ratio facilis quando o tipo expressivo é pré‑formado. o conteúdo « cavalo » é expresso por diferentes tipos expressivos preestabelecidos, dependendo das línguas, e arbitrariamente correlatos ao conteúdo, inde-


54
pendentemente das marcas, semas ou propriedades semânticas que circunscrevem o espaço de conteúdo « cavalo ». Temos signos produzidos por ratio difficilis quando, na falta de um tipo expressivo préformado, o moldamos no tipo abstrato do conteúdo. Um diagrama, no qual se queriam estudar as possíveis relações (ferroviárias, rodoviárias, postais, administrativas) entre Turim, Bolonha e Florença, deverá ser organizado de acordo com o tipo de relações espaciais que defato regem a relação espacial dos três centros. Turim está a noroeste de Bolonha, Bolonha está a nordeste de Florença, Florença está a sudoeste de Bolonha e assim por diante. Quando se diz de fato, quer‑se entender 'assim como é na representação cultural que se faz do território'. Uma orientação de fato existiria mesmo se, no âmbito de um mundo possível, se estudassem as relações entre Utopia, Atlântida e Paraíso Terrestre. De fato, no mundo possível da geografia utópica, Atlântida e Utopia se localizam a oeste em relação ao Paraíso Terrestre.

Em todos estes casos, as relações que subsistem no plano do conteúdo são projetadas (na acepção cartográfica do termo) no plano da expressão. Esta relação de ratio difficilis evidentemente retraduz a tradicional relação de 'iconismo', mas não a retraduz julgando existir apenas o iconismo visual. Um diagrama de organização de empresa construído em forma de árvore projeta sob forma de relações espaciais (em cima/embaixo) aquelas que no conteúdo são relações hierárquicas ou fluxos de informações ou prescrições. Desde que a regra de projeção seja constante, os resultados obtidos ao manipular a expressão são diagnósticos ou prognósticos em relação à disposição passada ou futura do conteúdo. Depois, que prognósticos e diajznósticos seiam verificáveis também extensionalmente é o procedimento sucessivo, possível exatamente em virtude do isomorfismo realizado intensionalmente. E, obviamente, temos que decidir se a verificação extensional deve ser feita em relação ao estado de coisas reconhecido como 'mundo real' ou em relação a um mundo possível: no último caso, o mundo possível é ficção lógica que retraduz em termos extensionais relações intensionais (cf. Eco 1979). Um mundo possível é um sistema (embora parcial) de forma do conteúdo. Em todo caso, a expressão num mapa da posição de Atlântida é signo, num determinado mundo possível, de que o Paraíso, Terrestre deve ser procurado a leste de Atlântida.


12.1 Vestígios


Regido pela ratio difficilis, um vestígio ou impressão diz que se há uma determinada configuração sobre uma superfície imprimível, então há uma determinada classe de agentes impressores. Se a impressão é vetorialmente orientada numa determinada direção, então está significada uma direção virtual do impressor. o reconhecimento da impressão torna obviamente possível a passagem extensional: se esta impressão neste lugar, então passou por aqui um membro concreto daquela classe de impressores de impressões.
12.2 Sintomas
Regidos pela ratio facilis (não têm relação isomórfica com o tipo de conteúdo), remetem a uma causa à qual foram conectados segundo uma experiência mais ou menos codificada. Uma vez que a conexão é considerada naturalmente motivada, sua relação de necessidade inferencial é bastante forte. Não é raro, contudo, o sintoma remeter apenas a uma classe muito ampla de agentes. Códigos fortes, como os da sintomatologia médica, freqüentemente chegam a definir relações de necessidade muito próximas à equivalência. Caso de equivalência bicondicional é o citado por Quintiliano: se vive, então respira e se respira, então vive.
12.3 Indícios
Ligam a presença ou a ausência de um objeto a comportamen­tos possíveis de seu provável possuidor: tufos de pêlos esbranquiça­dos num sofá são indícios da passagem de um gato angorá. Geral­mente, porém, remetem a uma classe de possíveis possuidores e, para serem usados extensionalmente, pedem mecanismos abdutivos.

Veja‑se esta abdução de Sherlock Holmes, que Conan Doyle chama ingenuamente de dedução: «A observação me diz que você esteve na agência de correios ' de Wigmore Street esta manhã, mas a dedu­ção me indica que foi passar um telegrama... A observação me diz que há um pouco de lama vermelha no salto de seus sapatos. Exatamente diante da agência de correios de Wigmore Street arrancaram o calçamento e deixaram terra à mostra, e é difícil não pisar nela ao entrar. A terra tem uma cor especial, difícil de encontrar na vizinhança, pelo que eu sei. Isto é observação. O resto é dedução...


56
Sabia que não tinha escrito nenhuma carta, porque estive sentado diante de você a amanhã inteira. Vi ainda que na sua escrivaninha havia uma folha de selos e um maço de cartões‑postais. o que iria fazer na agência de correios, a não ser passar um telegrama? » (O sinal dos quatro, cap. I).


1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   27


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal