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A hipótese parece reforçada pelo modo como Aristóteles, um pouco mais adiante, emprega /signo/, num contexto que talvez esteja entre os mais difíceis de De Interpretatione, no qual tem de estabelecer que o verbo, tomado fora do enunciado, não afirma a existência nem da ação, nem do sujeito que age, e que nem ao menos o verbo ser sozinho afirma que alguma coisa de fato existe. E, neste contexto (16b 19 et seqs.), diz que nem mesmo /ser/ ou /não ser/ são signo (indício) da existência da coisa. Mas o que ele quer dizer ao sugerir que um verbo pode ser signo (indício) da existência da coisa é esclarecido antes (16b 5 et seqs.), quando afirma que um verbo é sempre «signo (aTI4C1ov) das coisas ditas de outro». Santo Tomás, em seu comentário, exercita‑se neste trecho, excluindo imediatamente a interpretação que seria a mais óbvia para nós, mas que não podia ser tão óbvia então: o verbo (e todo o enunciado que contém o verbo) é o significante, a expressão, o veículo de uma predicação (e o enunciado é o veículo de uma proposição). Santo Tomás esclarece que o trecho deve ser entendido num sentido muito mais terra‑a‑terra, isto é, a presença do verbo no enunciado é prova, indício, sintoma de que naquele enunciado está se afirmando alguma outra coisa.

Portanto, quando Aristóteles diz que nem o verbo /ser/ sozinho é signo (indício) da existência da coisa, quer dizer que a enunciação isolada do verbo não é indício de que esteja sendo afirmada a existência de alguma coisa: para que o verbo possa ter este valor de indício é necessário que esteja ligado aos outros termos do enunciado, o sujeito e o predicado (o verbo /ser/, portanto, é indício
de asserção de existência, ou de predicação da inerência atual de um predicado a um sujeito, ao aparecer em contextos como /x é y/, ou então, /x é/, no sentido de « x existe de fato »).

Estas observações nos dizem em que sentido Aristóteles não pensava absolutamente em definir as palavras como signos. Prova disto é que, enquanto na Retórica o signo será sempre entendido como princípio de uma inferência, em todas as páginas que ele escreve sobre a linguagem verbal, o termo linguístico (símbolo) se baseia no modelo da equivalência; pode‑se dizer, aliás, que é Aristóteles quem instaura o modelo da equivalência para os termos linguís- ticos: o termo é equivalente à própria definição e é plenamente conversível com ela (como veremos no segundo capítulo deste livro).

O signo, porém, aparece na Retórica (1357a, 1 ‑ 1357b, 35), onde se diz que os entimemas são extraídos dos verossímeis (eixóra) e dos signos (onuseia). Mas os signos distinguem‑se em duas categorias logicamente bem diferenciadas.

O primeiro tipo de signo tem um nome especial, texupiov, no sentido de 'prova'. Pode ser traduzido por 'signo necessário': se está com febre, então está doente; se tem leite, então deu à luz. O signo necessário pode ser traduzido na afirmativa universal 'Todos os que estão com febre estão doentes'. Note‑se que ele não instaura uma relação de equivalência (bicondicional): de fato, pudese estar doente (por exemplo, com úlcera) sem estar com febre.

O segundo tipo de signo, diz Aristóteles, não tem um nome especial. Poderíamos indicá‑lo como um 'signo fraco': se está com repiração alterada, então está com febre. Percebe‑se que a conclusão é só provável, porque uma pessoa poderia respirar de maneira alterada por ter corrido. Transformando em premissa, isto resultaria só numa particular afirmativa: 'Há pessoas que estão com a respiração alterada e elas estão com febre' (a forma lógica não é a da implicação, mas a da conjunção). Note‑se que um signo fraco o é logo porque o signo necessário não instaura uma equivalência. De fato, temos um signo fraco convertendo a universal afirmativa,

que se resolve o signo necessário, numa particular afirmativa: a subalterna de 'Todos os que estão com febre estão doentes', em termos de quadrado lógico, resulta logo em 'Há pessoas que estão doentes e estão com febre' (que é precisamente um signo fraco).

No entanto, o signo fraco também é bom retoricamente, e veremos mais adiante a importância desta admissão. E na retórica são utilizáveis, como provas técnicas, o recurso ao verossímil (o que acontece na maioria das vezes) e ao exemplo (rapásoieuva),
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que é difícil distinguir do verossímil: Diógenes aspira à tirania porque solicitou um corpo da guarda; de fato, anteriormente, Pisístrato pediu um corpo da guarda e, quando o obteve, tornou‑se um tirano, e assim fizera Teágenes de Mégara. o exemplo é só uma indução. Argumenta a partir de duas' proposições que, isoladamente, não dizem nada e colocadas juntas não permitem um silogismo apodíctico porque nihil sequitur geminis ex particularibus unquam *.
Acontece que Aristóteles tem dificuldade em lidar com estes vários signos. Ele conhece o silogismo apodíctico, mas não conhece, pelo menos com clareza teórica, o silogismo hipotético, isto é, precisamente a forma p  q, que será a glória dos estóicos. Por isto, localiza esquemas argumentativos, mas não se detém muito em sua forma lógica.
7 Os estóicos
Os estóicos também (pelo que se pode reconstruir de sua articuladíssima semiótica) não parecem ligar com toda clareza doutrina da linguagem e doutrina dos signos. Quanto à linguagem verbal, eles distinguem claramente entre onuvaiov, 'expressão', onuvaiovevov, 'conteúdo' e tuyxávov, 'referentes'. Parecem reproduzir a tríade já sugerida por Platão e Aristóteles,. mas a trabalham com uma sutileza teórica que falta até mesmo a muitos de seus repetidores contemporâneos.

Da expressão, eles não só aprofundam a múltipla articulação, como distinguem a simples voz emitida pela laringe e pelos músculos articuladores, que não é ainda som articulado, o elemento linguístico articulado e a palavra em si, que só subsiste enquanto correlata e passível de correlação com um conteúdo. Seria como dizer, saussurianamente, que o signo linguístico é uma entidade de duas faces: Santo Agostinho, na esteira dos estóicos, chamará de dictio aquele verbum vocis que não só foris sonat, mas que é percebido e reconhecido enquanto correlato a um verbum mentis ou cordis**. Para os estóicos, o perigo em que incorrem os bárbaros é o de perceber a voz física mas não reconhecê‑la como palavra, não porque não tenham em sua mente uma idéia correspondente, mas porque não conhecem a regra de correlação. Nisto os estóicos vão muito mais além de seus predecessores e localizam a natureza 'provisória' e


* nunca nada se conclui de duas particulares". (N. do T.)

** dictio = "dizer"; verbum vocis = "Palavra de voz”; foris sonat=”que se faz;

ouvir fora"; verbum mentis ou cordis = "palavra da mente ou coração”

(N. do T
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instável da função sígnica (o próprio conteúdo pode constituir palavra com uma expressão de uma língua diferente), talvez porque, como sugere Pohlenz (1948), os primeiros. intelectuais não‑gregos a trabalharem em território grego são todos de origem fenícia e são levados a pensar e a falar numa língua diferente da nativa. São os primeiros a superar aquele etnocentrismo linguístico que havia levado o próprio, Aristóteles a identificar as categorias lógicas universais através dos termos de uma determinada língua.

Quanto ao conteúdo, ele não é mais, como nos pensadores anteriores, uma afeição da alma, imagem mental, percepto, pensamento, idéia. Não é idéia no sentido platónico, porque a metafísica estóica é materialista; e não o é no sentido psicológico, porque também neste caso seria 'corpo'‑, fato físico, alteração da alma (corpo, ela também), sigilo gravado na mente; os estóicos, ao contrário, sugerem a idéia de que o conteúdo é um 'incorporal' (cf. Bréhier 1928; GoIdschmidt 1953).

São incorporais o vazio, o lugar, o tempo, e, portanto, as relações espaciais e as sequências cronológicas, assim como são incorporais as ações e os eventos. Os incorporais não são coisas, são estados de coisas, modos de ser. São incorporais a superfície geométrica ou a seção cônica sem espessura. Os incorporais são entia rationis na medida em que um ens rationis* é uma relação, uma maneira de olhar as coisas. Entre os incorporais os estóicos arrolam o Uxtóv, que tem sido traduzido variadamente por 'expressável', 'dictum' ou 'dizível'.
O Uxtóv é uma categoria semiótica. Sintetizando as conclusões dos intérpretes mais persuasivos, diríamos que o Uxtóv é uma proposição: o fato de Dione andar no momento em que isto é expresso, constitui um Uxtóv.

O primeiro problema que se coloca é o da relação entre o onumaievov e o Uxtóv. Se «Dione anda» é uma proposição (portanto, incorporal), então também « Dione » e « anda » são incorporais? Sexto Empírico, tão rico de testemunhos sobre os estóicos, mas tão pouco generoso em relação a eles a ponto de nos levar sempre a suspeitar que os entendeu mal, identifica como sinónimos onumaievov e Uxtóv (Contra os matemáticos, VIII, 12). A solução, porém, parece mais articulada. Os estóicos falam de ),exctá (lekta) completos e incompletos. o Uxtóv completo é a proposição,


* entia rationis=“entes de razão"; ens rationis "=”ente de razão”(N. do T.)
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os exctá incompletos são partes, pedaços de proposição que se compõem na proposição através de uma série de ligações sintáticas. E entre os ecxtá incompletos estão o sujeito, e o predicado. Parecem categorias gramaticais e lexicais e, portanto, categorias da expressão: são, ao contrário, categorias do conteúdo. De fato, o sujeito (esta é geralmente a tradução do termo ntuoisv) é o exemplo máximo do caso, pois a atenção dispensada às proposições assertivas levava a considerar o sujeito como o caso por excelência. Ora, o caso não é a flexão (categoria gramatical que expressa o caso): é antes o conteúdo expresso ou expressável; hoje diríamos que é uma pura posição actancial. Neste sentido, o sujeito, o exemplo mais importante de Uxtóv incompleto, é um incorporal. Deste modo, os estóicos já haviam despsicologizado a semântica e, por isto, pode‑se traduzir onuvaiovevov por 'conteúdo', no sentido hjelmsleviano, posição num sistema, resultado de uma segmentação abstrata do campo noético, unidade cultural (não imagem mental, não pensamento pensado, não engrama). Os conteúdos, portanto, são elementos incorporais expressos pelas expressões linguísticas que se ligam para produzir enunciados que expressam proposições. O Uxtóv completo como «representação do pensamento » é « aquilo que pode ser veiculado pelo discurso» (ibidem, p. 70).

Até este ponto, os estóicos ainda não haviam introduzido o signo como onueiov. Ao falarem do signo, parecem referir‑se a algo imediatamente evidente que leva a concluir sobre a existência de algo não imediatamente evidente. o signo pode ser comemorativo e, neste sentido; nasce de uma associação entre dois fatos, confirmada pela experiência anterior: baseado na experiência, sei que se há fumaça, então deve haver fogo; ou então, pode ser indicativo e, neste caso, remete a algo que nunca foi evidente e que provavelmente nunca o será, como os movimentos do corpo que expressam os movimentos da alma, ou como o fato de os humores passarem pela pele, indicando que devem existir poros perceptíveis (embora não percebidos de fato). Em todos estes casos, os signos parecem ser sempre fatos físicos: a fumaça, a presença do leite que revela o parto, a luz que revela o dia e assim por diante.

Contudo, deve fazer suspeitar que os fatos, os estados transitórios dos corpos, sejam incorporais. Na verdade, Sexto reconhece que o signo do qual se tira a inferência não é o fato físico, mas a proposição na qual está expresso. O signo é «a proposição antecedentç numa válida premissa hipotética maior que serve para revelar o consequente » (ibidem, p. 245), ou seja, « uma verdadeira proposição ante-

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cedente num verdadeiro condicional e o é a ponto de servir para revelar a conseqüente » (Teses fundamentais do pirronismo, 11, 104).

Neste sentido, o modelo estóico do signo tem a forma da implicação (p  q), onde as variáveis não são realidades físicas e nem fatos, mas proposições em que os fatos estão expressos. Uma nuvem de fumaça não é signo se o intérprete não localiza o fato como antecedente verdadeiro de um raciocínio hipotético (se há fumaça ... ) que se correlaciona por inferência (mais ou menos necessária) com o consequente ( ... então há fogo). Sexto diverte‑se em demonstrar que esta solução que transforma o signo numa relação lógica é insustentável, pois (afirma ele) o camponês e o navegante que percebem fatos atmosféricos e deles extraem inferências deveriam ser sábios em lógica. Seria como se os estóicos, em vez de prescrever, não descrevessem as regras do bom raciocínio (logica utens e não logica docens) *: também o navegante ignaro, no momento em que reconhece o signo como tal, transforma o dado bruto em algo que, como diria Peirce, tem a natureza de'uma Lei. Por isto os estóicos podem dizer, como dizem, que o signo é um Uxtóv e, portanto, um incorporal. o signo não diz respeito àquela fumaça e àquele fogo, mas à possibilidade de uma relação entre antecedente e conseqüente que regula toda ocorrência de fumaça (e de fogo). O signo é tipo e não ocorrência.

Fica claro, então, como a doutrina da linguagem e a doutrina dos signos se unem de direito na semiótica estóica: para que haja signos é necessário que sejam formuladas proposições e as proposições devem organizar‑se segundo uma sintaxe lógica que é refletida e tornada possível pela sintaxe linguística (cf. Frede 1978). Os signos afloram somente enquanto racionalmente expressáveis através dos elementos da linguagem. A linguagem articula‑se enquanto expressa fatos significativos.


Note‑se bem: os estóicos ainda não dizem que as palavras são. signos (no máximo, dizem que as palavras servem para veicular tipos de signos). A diferença lexical entre a dupla onumaievov/onumaievoeov permanece. Mas a comum e evidente raiz etimológica é índice de sua solidariedade. Poderíamos atribuir aos estóicos, como faz Lotman, a afirmação de que a língua é um sistema modelizante primário, através do qual também os outros sistemas são expressos.
* logica utens=“lógica que é usada"; logica docens=” lógica que é ensinada” (N. do T.)
41 SIGNO E INFERÊNCIA
Continuando a usar referências a teorias contemporâneas (cf. também Todorov 1977), poderíamos dizer então que o termo linguístico e o signo natural se constituem numa dupla relação de significação ou numa dupla superelevação semiótica que se traduz no modelo hjelmsleviano da conotação (na forma diagramática divulgada por Barthes):


E

C




E

C




A palavra /fumaça/ refere‑se a uma porção do conteúdo que convencionalmente é registrada como « fumaça ». Neste ponto, temos três alternativas, tanto na direção intensional quanto na extensional: a) « fumaça » conota « fogo » segundo uma representação enciclopédica que leva em consideração também as relações metonímicas efeito‑causa (como aconteceria numa gramática casual que levasse em conta os 'actantes' como Causa ou Agente); b) o enunciado /há fumaça/ expressa a proposição « há fumaça » que, sempre em virtude de uma competência enciclopédica subjacente, inclui frames e scripts (vide o segundo capítulo deste livro), sugere como razoável inferência « portanto há fogo » (fenómeno que se verifica também fora de operações concretas de referência a estados do mundo); c) num processo de referência a estados do mundo, a proposição « aqui há fumaça », segundo a competência enciclopédica, leva à proposição « portanto aqui há fogo », à qual, em seguida, deverá ser atribuído um valor de verdade.

Pode‑se perguntar o que acontece quando percebo o fato físico constituído por uma nuvem ou por uma nuvem de fumaça. Enquanto fato físico, ele não difere de um som qualquer que posso perceber sem atribuir‑lhe relevância semiótica (como acontece com o bárbaro). Mas se, baseado numa regra anterior, eu sei que a fumaça, em geral, remete ao fogo, então torno pertinente o fato como ocorrência expressiva de um conteúdo mais geral e a fumaça percebida torna‑se o conteúdo perceptivo « fumaça ». Este primeiro movimento, da sensação à percepção investida de significado, é tão imediato que somos levados a não considerá‑lo semioticamente relevante. Mas é esta presumível imediatez entre sensação e percepção que a gnosiologia sempre questionou. Até mesmo na perspectiva medieval, em que, se é verdade que a simplex apprehensio, ou seja, a primeira operação do intelecto, capta no fantasma a coisa em sua essência, é só no ato do juízo, isto é, na segunda operação do intelecto,
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que a coisa é reconhecida como existente e relevante para fins de outras predicações. Não é por acaso que a gnosiologia fala de 'significado' perceptivo e o termo 'significado' parece ser contemporaneamente uma categoria semântica e uma categoria da fenomenologia da percepção. Na verdade, também para captar, numa série de dados da sensação, a forma « fumaça », a persuasão já deverá ter me levado a crer que a fumaça é relevante para fins de outras inferências: de outro modo, a fumaça que me é oferecida pela sensação permanece como um percepto virtual sobre o qual ainda tenho que decidir se torno pertinente como fumaça, nevoeiro, miasma, exalaçào qualquer não dependente de um fenómeno de combustão. Só se já estiver de posse da lei geral, pela qual 'se fumaça, então fogo', serei capaz de tornar 'significante' o dado sensível, vendo‑o como aquela fumaça que pode revelar‑me o fogo.

Por isto, pode‑se dizer que, mesmo diante do fato natural, os dados da sensação se apresentam como expressões de um possível conteúdo perceptivo que, num segundo nível, posso captar, tanto extensionalmente quanto intensionalmente, como signo que me remete, geral e concretamente, ao fogo. Esta posição está subentendida pela própria gnosiologia estóica, na qual, apesar das certezas da 'representação cataléptica', estas devem ser porém confirmadas pela prova da inferência lógico‑conceitual. A representação cataléptica propõe a presença de algo que poderia ser fumaça (exceto por engano dos sentidos): só depois da verificação inferencial, só depois que se verificou extensionalmente a consequência da fumaça ‑ o fogo ‑, temos certeza da percepção. A lógica‑semiótica estóica é o instrumento de verificação da percepção.


8 Unificação das teorias e predomínio da linguística
Alguns séculos depois, no “De magistro”, Santo Agostinho levará a cabo a união definitiva entre a teoria dos signos e a teoria da linguagem. Ele reconhecerá o genus dos signos, de que os signos linguísticos são uma espécie, como as insígnias, os gestos, os sinais ostensivos. Dezesseis séculos antes de Saussure.

Mas, ao fazer isto, Santo Agostinho entrega à tradição posterior um problema que nem mesmo os estóicos haviam resolvido com clareza e cuja solução ele, Santo Agostinho, propõe, mas sem enfatizá‑la de modo indiscutível.

O que permanecia irresolvido na solução estóica era a diferença entre a relação (que Hjemslev chamará de denotação) entre expressão linguística e conteúdo, de um lado, e entre proposição-
-signo e consequente significado, de outro. Surge a suspeita de que o primeiro nível se baseia ainda na equivalência, enquanto o segundo está indiscutivelmente assentado na implicação:
E  C

E = C
Devemos, contudo, perguntar‑nos se esta diferença não é efeito de uma curiosa 'ilusão ótica'. Vamos ver como se gerou. A partir do momento em que Santo Agostinho introduz a língua verbal entre os signos, a língua começa a não estar à vontade neste quadro. Forte demais, articulada com demasiada finura e, portanto, por demais analisável do ponto de vista científico (pensemos no que haviam feito até então os gramáticos helenístícos), era‑lhe difícil submeter‑se a uma teoria dos signos nascida para descrever as relações entre fatos naturais, tão elusivos e genéricos (veremos o quanto a implicação estóica estava epistemologicamente aberta a um continuum de relações de necessidades e de fraquezas). Visto que, cada vez mais (e valeria a pena estudar minuciosamente esta passagem da história da semiótica), se considera que a língua, além do sistema semiótico mais ou menos analisável, é também aquele que pode moldar todos os outros, transformando qualquer outra semiótica no plano do próprio conteúdo, gradativamente o modelo do signo linguístico se propõe como o modelo semiótico por excelência.

Quando se chega a esta conclusão (e podemos considerar que o coroamento seja alcançado com Saussure), porém, o modelo linguístico já se cristalizou na sua forma mais 'rasa', aquela encorajada pelos dicionários e, desgraçadamente, por muita lógica formal, que só deve preencher, a título de exemplo, os próprios símbolos vazios. E a noção de significado linguístico como sinonímia e definição essencial começa a afirmar‑se.

Foi Aristóteles quem nos legou o princípio de equivalência (bicondicional) entre termo e definição por género e espécie, porque trabalhava somente com termos categoremáticos a serem inseridos em proposições assertivas. Os estóicos, porém, julgaram que cada categoria sintática tinha seu correspondente semântico, os sincategoremáticos também (cf. Frede 1978; Graeser 1978). Se os exctá completos nasciam de uma combinação dos exctá incompletos, então também as conjunções, os artigos e os pronomes deviam ter um conteúdo. Santo Agostinho demonstrará que também as preposições têm um significado.


44 SEMIÓTICA E FILOSOFIA DA LINGUAGEM
9 O modelo 'instrucional'
Em De magistro (II, 1), Santo Agostinho analisa com Adeodato o verso virgiliano « si nihil ex tanta superis placet urbe relinqui » e define as palavras como «octo ... signa»; em seguida, passa a interrogar‑se sobre o significado de /si/ e reconhece que este termo veicula um significado de « dúvida ». E, como reconhece que « non esse signum nisi aliquid significet», é obrigado a definir também o significado (certamente não o referente!) de /nihil/ *: como é impossível emitir signos para não dizer nada, e como o significado de /nada/ não parece ser nem um objeto nem um estado do mundo, Santo Agostinho conclui que este termo expressa uma afeição da alma, isto é, o estado da mente que, mesmo não reconhecendo algo, reconhece pelo menos sua ausência. Hoje diríamos: um operador lógico, algo que deve ter um estatuto no espaço abstrato do conteúdo.

Santo Agostinho, em seguida, pergunta‑se o que significa /ex/ e recusa decididamente a definição sinonímica pela qual significaria /de/. O sinónimo é uma interpretação, mas deve ser por sua vez interpretado. A conclusão é que /ex/ significa uma certa separação (secretionem quandam) daquilo em que estava incluído. E acrescenta uma 'instrução' sucessiva para sua decodificação contextual: às vezes expressa separação de algo que não existe mais, como quando a cidade citada pelo verso desapareceu; e às vezes expressa a separação de algo que permanece, como quando se diz que alguns comerciantes vêm de Roma.

O significado de um termo sincategoremático é, portanto, um bloco (uma série, um sistema) de instruções para suas possíveis inserções contextuais e para seus diferentes resultados semânticos em contextos diferentes (todos, porém, igualmente registráveis e em termos de código).

Mas se isto é possível com os sincategoremáticos, não poderá sê‑lo também com os categoremáticos? De fato, é esta a solução que agora está prevalecendo nas semânticas componenciais voltadas para o contexto. Estas formas de semântica instrucional (cf. Schmidt 1973) têm sido de várias maneiras antecipadas pela lógica dos relativos de Peirce (1902a, CP 2.379; 1870, CP 2.64; cf. também Eco 1979, § 2), pelas diversas gramáticas casuais (cf. Fillmore 1968; Bier


* "si nihil [ ... ] relinqui" = "se agrada aos deuses, que nada reste de uma tal cidade"; "octo...signa" = "oito ... signos"; "non esse significet" = "que não é signo, a não ser que signifique alguma coisa; nihil "=nada". (N. do T.)


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