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um superior', levanto-me quando entra João para levar Luciano a crer que João é o chefe. Neste caso, é a suposta coercividade da regra que toma os consequentes significantes dos antecedentes.

A diferença entre a e b é dada pelo fato de que, no primeiro caso, finjo aceitar um sistema de regras não obrigatório (mas coercitivo uma vez aceito) e, para fingir, observo uma de suas regras; no segundo caso, pressuponho que já aceitei junto com outros um sistema obrigatório de regras coercitivas e finjo observar uma regra (mas, na realidade, a violo). Há, portanto, uma mentira sobre as regras e uma mentira com as regras.

c) Pode-se também mentir usando impropriamente as modalidades de um gênero literário: posso iniciar um poema nos moldes da épica, com uma invocação às musas e, em seguida, frustrar as expectativas com um anticlímax que desemboca no herói-cômico ou no grotesco. Numa fábula, posso pôr em ação um ator que tem todas as qualidades do adjuvante e, depois, revela ser o inimigo. Posso atribuir ao vilão características do herói (romance noir) ou ao herói características do vilão (hard-boiled novel). É um caso misto entre a e b porque, de um lado, a não-obrigatoriedade da regra me permite fingir aceitá-la; de outro, a coercividade das regras, uma vez que as aceitei, me permite tornar significante minha violação (embora no caso do anticlímax não se trate de mentira, mas de incorreção proposital).

d) Se excetuarmos as práticas mentirosas, posso tornar significante, como vimos em c, a violação proposital das regras: não observo as regras da etiqueta cavalheiresca para significar que não sou um cavalheiro e para conotar, em todo caso, que não reconheço a validade destas regras. Não aperto a mão de alguém que desprezo para significar que não pertence ao círculo das pessoas de bem.

Em todo caso, já deveria estar claro por que as instituições (que são s-códigos) são entendidas como códigos com tanta frequência: é porque sua função social torna significativa sua observância (/aceitação da regra/ - «conformismo» e porque sua coercividade interna correlaciona por hábito a presença dos consequentes com a pressuposta presença dos antecedentes.

5 O problema do código genético

Mostramos até agora como toda vez que se fala de código correlacional são detectáveis fenômenos inferenciais, e toda vez que se fala de código institucional são detectáveis fenômenos de correlação entre antecedentes e consequentes, estritamente ligados a outros processos inferenciais. Tentemos verificar agora o que acontece com outra acepção de /código/ que também teve grande aceitação nesta segunda metade do século, a de código genético.

É interessante notar como também a temática da comunicação genética surgiu em termos explícitos, na segunda metade do século,


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embora as premissas se tenham desenvolvido antes: a descoberta da hélice dupla é dos anos 50; em 1961, Jacob e Monod descobriram os processos de transcrição de DNA em RNA e é ao Congresso de Moscou de 1961 que, definitivamente, se faz remontar a primeira decifração do código genético.

Isto não quer dizer que a mecânica do código genético como é hoje reconhecida pelos estudiosos seja a real e que o código genético não seja, por enquanto, apenas uma mera construção hipotética dos geneticistas. Gostaríamos de dizer, porém, que, na medida em que estivesse errada, a hipótese seria tanto mais significativa em termos de história das idéias. Esquernatizando ao máximo, diríamos que a informação genética contida no cromossomo e armazenada no DNA (ácido desoxirribonucléico de estrutura helicoidal dupla, cuja unidade fundamental, o nucleótide, contém uma base, um açúcar e um ácido fosfórico) determina a construção de uma molécula protéica. Uma molécula protéica é composta de aminoácidos. Os «aminoácidos são vinte e de sua combinação nascem as moléculas protéicas.

No DNA dispõem-se diferentes seqüências de quatro bases azotadas (adenina, timina, guanina e citosina) e é a seqüência destas bases que determina a sequência dos aminoácidos. Como os aminoácidos são vinte e as bases azotadas, quatro, são necessárias várias bases para definir um aminoácido. Dado que uma seqüência de duas bases permitiria 16 permutações e uma seqüência de quatro bases permitiria 266 permutações, a economia combinatória maior parece ser alcançada por sequências de três bases ou tripletes, que permitem também - com suas 64 combinações por vinte aminoácidos - definir o próprio aminoácido através de 'homófonos' ou sinônimos e servir-se de algumas combinações nulas, com a função de sinais de pontuação entre sequências 'significantes'. Não discutiremos aqui se esta economia depende de um processo evolutivo ou se é somente uma economia metalinguística devida ao biólogo; pode ser que as sequências reais sejam 266 (e que o código seja de quatro bases), que só vinte aminoácidos sobreviveram à seleção evolutiva e que todas as combinações não utilizadas sejam nulas ou homófonas. Em todo caso, está claro que o sistema dos tripletes do DNA é ainda um s-código e, enquanto tal, está sujeito a cálculos de transformação e a avaliações de economia estrutural.

O DNA, porém, está na célula, enquanto a informação que ele armazena deve transportar-se para o ribossomo onde se dá a síntese protéica. Os tripletes do DNA, portanto, são duplicados na célula por um outro ácido nucléico, o RNA (ácido ribonucléico), que, com a função de RNA mensageiro, transporta a mensagem para o ribossomo.

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Lá, o RNA solúvel (provavelmente através de uma nova tradução em tripletes complementares, que não consideraremos por razões de simplicidade) insere um aminoácido para cada triplete de bases azotadas.

A tradução de DNA em RNA se dá por substituição complementar de tripletes, acrescida da complicação de que a timina do DNA é substituída por uma nova base, a uracila. E aqui, pelo menos formalmente, estarnos diante de um verdadeiro código que, por comodidade, chamaremos de 'código de célula':

A - U T - A G - C C - G

Portanto, se o DNA traz a seqüência adenina-guanina-citosina, o RNA traduz: uracila-citosina-guanina.

No momento em que se dá a síntese protéica no ribossomo, entra em jogo o que chamaremos de 'código de ribossomo', segundo o qual, por exemplo, ao triplete GCU (e aos seus homófonos GCC, GCA e GCG) corresponde o aminoácido alanina:


Palavras de código:

GCU GCC GCA GCG

GCU CGC CGA CGG AGA AGG

AUU AAC


GAU GAC

UGU UGC


GAA GAC

CAA CAG


GGU GGC GGA GGG

CAU CAG


AUU AUC

UUA UUG CUU CUC CUA CUG

AAA AAG

AUA AUG


CCU CCC CCA CCG

UCU UCC UCA UCG AGU AGC

ACU ACC ACA ACG

UGG


UAU UAC

GUU GUC GUA GUG

UAA UAG UGA
Amínoácído:

Alanina


Arginina

Asparagina

Ácido aspártico Cisteína

Ácido glutâmico Glutamina

Glicina

Histidina



lsoleucina

Leucina


Lisina

Metionina Fenilaianina

Prolina

Serina


Treonina

Triptofano

Tirosina

Valina


Contra-sensos (nulos)

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Ora o príncipio do código genético é uma construção dos geneticistas, que servm para falar metalinguísticamente de uma hipot´etica «linguagem» do organismo biológico, este código é antes de mais nada uma cifra, ou seja, uma semia substitutiva. Podemos também imaginar dois geneticistas que se correspondem em código e escrevem/GCU/ para entender «alanina». Este código exibe também alguns elementos considerados posicionais, mas, na realidade, cada triplete deve ser considerado em bloco (passegem de DNA para RNA mensageiro) ou é um aminoácido.

Se a hipótese genética for certa, o que acontece no organismo? Acontecem reacções estéreas, processos de encaixe. DNA e o RNA mensageiro (assim como RNA mensageiro e RNA solúvel) funcionam como esteiras de uma linha de montagm autmatizada, em que, por assim dizer, se aparecer algo cheio, é feito um molde em negativo. Por um simples mecanismo de estímulo-resposta, na passagem de DNA para RNA mensageiro, onde há adenina substitui-se por uracila e assim por adiante. Poderemos ainda falar de código, mas só no sentido muito lato de lei natural: neste caso, porém, todo o processo de estímulo-resposta ou de acção-reação seria regido por um código e as leis da semiótica se indentificariam com as leis naturais. A este processo biológico faltam as possibilidades de revesibilidae entre um conteúdo e expressão que são típicas também de uma semia substitutiva, faltaria todo o processo inferencial que esteve presente mesmo na aplicação das cifras aparentemente mais rasas.

Bastaria dizer então que a expressão /código genético7 se aplica correctamente (no sentidi estrito de /cifra/) aos códigos dos geneticistas e se aplica só metafóricamente aos processos genéticos.

No entanto, não por querer estender para além de todo o limite possível o uso de uma categoria, mas sempre para justificar históricamente as suas aplicações extensivs, devemos fazer algumas observções.

Não é o caso de eliminar como mera extrapolação ilegítima a noção de «código» genético, porque a mente humana é capaz de estabelecer correlações e operar intrepretações.

Prodi(1977) sugere que na base desta capacidade de pôr em contacto reversível os elementos de dois sistemas há uma disposição à rtesposta, que tem suas raízes nos fenómemos de interação celular.
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O princípio do código estaria já nos s-códigos biológicos, onde um objeto se torna significativo para a estrutura capaz de 'lê-lo'. A leitura institui o código, isto é, a estrutura forma uma espécie de 'complementaridade para com' o objeto, instituído portanto de forma embrionária como signo. 0 código forma-se assim, obscuramente, nos próprios primórdios da vida como uma história de escolhas, de seleções, de peneiradas sancionadas pelo 'juiz' - que é o conjunto das coisas que elimina ou aceita as complementaridades que se instituem.

Fique claro, porém, que esta suspeita (fecunda de pesquisas futuras sobre os fundamentos materiais da relação de significação) não tem nada a ver com a fácil atribuição de capacidade correlacional às moléculas de DNA. Trata-se antes do processo metodológico inverso: os geneticistas; sugerem que o universo biológico funciona como o universo cultural, enquanto aqui estamos sugerindo que o universo cultural (linguístico) funciona como o universo biológico: isto é, não estamos dizendo que, em sua simplicidade, o molecular seja tão complexo quanto o molar, mas que, em sua complexidade, o molar é tão simples quanto o molecular. Falou-se talvez de código genético porque se intuiu, obscuramente, que estavam sendo descritas as bases materiais de todo processo de interpretação.


6 Código e representação

Restaria agora dizer se se pode falar de código para as representações, isto é, para dizer com MacKay (1969), para «toda estrutura (pattern, imagem, modelo), tanto abstrata quanto concreta, cujos traços pretendem simbolizar ou corresponder em algum sentido aos de alguma outra estrutura». Que é ademais a definição peirciana do ícone como um signo que mantém uma relação de similaridade com o próprio objeto (cf. Eco 1975, §§ 3.4, 33, 3.6). Não é este o lugar para nos determos no problema: não se podem todavia ignorar as questões que o conceito de representação coloca para uma definição de código.

Consideremos o comportamento comunicativo das abelhas como se as abelhas produzissem signos e não estímulos (poderíamos substituir muito bem as abelhas por mimos humanos que comunicam a apicultores). Uma abelha exploradora informa as companheiras da posição do alimento graças a uma dança em que a orientação do próprio corpo em relação à colmeia é proporcional à orien-

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tação do alimento em relação à colmeia e ao sol. Há indubitavelmente uma relação de remissão: as posições da abelha estão pelas posições do sol e do alimento. Há relação de semelhança entre as grandezas geométricas realizadas na dança e as que estabelecem as relações entre sol e alimento. Pareceria não haver convenção, a relação seria 'analógica'. No entanto, há regras, pelo menos as regras de transformação proporcional das grandezas geométricas. Não é que não haja correlação: há regras de projeção (de transformação) que permitem estabelecer a correlação. As regras de projeção permitem à exploradora codificar a informação concernente à fonte (ao alimento) e permitem às abelhas coletoras decodificar a dança em termos de 'claro'. Há relação entre expressão e conteúdo. Podemos dizer que as regras de transformação são regras de código?

Não basta objetar que, enquanto num código linguístico as palavras estão por uma classe de objetos, na dança das abelhas o movimento da exploradora torna-se significativo se correlacionado a uma posição específica do sol e do alimento, em virtude da qual a mensagem da exploradora tem sempre um elemento indicial subentendido ('estou falando deste alimento e deste sol de hoje nesta zona'). Se um mimo imita a dança das abelhas, estamos de novo numa situação generalizada, sem que por isso tenha desaparecido a modalidade representativa.

O problema complicar-se-ia se o mimo inventasse as regras de representação de alguma coisa enquanto leva a cabo a comunicação: os destinatários encontrar-se-iam nesse caso numa relação não de decodificação mas de decriptação. Assistiríamos, do lado gerativo, a um processo de instituição de código e, do lado interpretativo, a um processo de criptoanálise. Dizemos que os momentos de representação são mais facilmente aqueles em que um código nasce do que aqueles em que um código preexistente é observado.

A mesma coisa aconteceria se se quisesse considerar a possibilidade de um código psicanalítico (cf. Gear e Liendo 1975; Fornari 1976).

Há imagens oníricas amplamente codificadas: objetos verticais que estão pelo pênis, objetos côncavos que estão pela vagina etc. Há, porém, imagens que significam apenas no âmbito da experiência idiossincrática do indivíduo, por razões de curto-circuito metonímico: um paciente reage neuroticamente a todo tecido rosa porque a mãe, durante a cena primitiva, vestia uma camisola rosa.


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Nesse caso, o analista deve reconstruir o código particular do paciente mediante uma série de inferências contextuais. Mas de um lado ele quer também chegar sempre a um código (embora par- ticular, individual, obscuramente convencionado pelo Id para falar a si mesmo e que o Ego ainda não conhece), de outro, ele possui algumas regras gerativas (não diferentes das da retórica) que lhe dizem como se estabelecem substituições de pars pro toto, efeito causa, deslocamento e condensação. O fato de que não conhecemos sempre as correlações estabelecidas pelo inconsciente não significa que o inconsciente não seja estruturado de modo a produzir correlações; sugeriu-se que ele correlacione, por cadeias conotativas, o universo das representações aos dos afetos, classes de relações objetuais e classes de angústias. A relação deve ser estabelecida com os criptogramas de solução livre como os rébus e as criptografias mnemônicas. O sistema de regras é complexo e permite também um erro com aparência significante, mas a solução ideal existe e deve ser encontrada. O inconsciente é um criptógrafo e o doente é um criptoanalista teimoso.
7 Código e enciclopédia

7.1 Código e processos inferenciais

Que nos apresentou o histórico problemático que acabamos de traçar? Que no início de toda discussão sobre os códigos há a idéia de cifra como semia substitutiva, pura tabela de equivalências entre unidades expressivas de diversos sistemas. Se permanece válida a definição de sistema seraiótico proposta no primeiro capítulo,

como fenômeno em que se apresenta sempre uma possibilidade de interpretação (como fenômeno, portanto, regido pelo modelo da inferência e não pelo da simples equivalência), então as semias subs- titutivas são fenômenos semióticos “degenerados” artifícios subsidiários inventados para favorecer, ajudar atividades sernióticas, no verdadeiro sentido da palavra.

No entanto também no uso das semias substitutivas; (e das cifras) se instauram processos inferenciais, embora muito automáticos. São no fundo os mesmos que aparecem no reconhecimento de um token como ocorrência de um dado type (cf. Eco 1981). Pense- se na percepção (e no reconhecimento) de uma emissão fonética como ocorrência de um tipo fonêmico. Temos a impressão de que o reconhecimento seja automático: mas basta pensar em nossa situa-

ção num congresso internacional em que não sabemos nunca em que língua se exprimirá quem está para tomar a palavra (nem se este falará a língua que escolheu segundo a pronúncia canônica) ou no que acontece quando nos esforçamos por compreender os sons emitidos por falante de uma língua que não é a nossa. Ouvimos um som, poderia ser um som de nossa língua, poderia ser o som de uma língua diferente. Antes que o falante tenha terminado sua fonação (emissão de uma palavra, de uma frase, de um texto) devemos ter feito algumas 'apostas' (o que quer dizer algumas conjecturas, algumas abduções). É preciso ter conjecturado que o som ou os sons emitidos no início da cadeia fonatória devem ser considerados como ocorrências de um dado tipo fonêmico, no quadro de um sistema lingüístico dado. E apenas se a aposta é vencedora podemos 'dar um sentido' àquilo que seguirá.

A mesma coisa acontece com a mais elementar das cifras (como sabe o decriptador): é preciso apostar na chave correta. Um ponto e uma linha equivalerão a /a/ se estivermos recebendo alguma mensagem em Morse (e se se trata de uma mensagem e não de mero barulho). Certamente, trata-se de uma conjectura sobre o código, não de uma conjectura permitida e autorizada pelo código. Mas eis que já no nível 'raso' da mais comum das cifras reconhecimento de equivalência e aposta inferencial começam a misturar-se. Não se separarão mais.

A presença de processos inferenciais torna-se mais evidente nos casos mais complexos de cloak: temos procurado mostrar que nesses casos não se tem mais relação com um único sistema de equivalências. Basta que dois sistemas se entrelacem (cf. por exemplo os casos discutidos nos §§ 11, 3.2) e eis que o chamado código Gá sistema de vários códigos) não é mais apenas um aparato que fornece equivalências, mas uma máquina que fornece instruções para manobrar diversos sistemas de equivalências em diversos contextos ou circunstâncias. Estamos já na dimensão pragmática: mas, se as instruções para se mover na dimensão pragmática são de algum modo previstas e dadas pelo código, eis que esse código (capaz de integrar a própria semântica elementar a uma pragmática) já assumiu o aspecto de uma enciclopédia, embora em nível mínimo.

Opusemos antes o aspecto correlacional ao aspecto institucional do código. Mas se viu que raramente esses dois aspectos estão disjuntos, um código é sempre uma tabela de correlações mais uma

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de código como «sistema das funções atribuídas em todo mito a essas propriedades», já está falando de correlações sujeitas a seleções contextuais (o motivo das vísceras flutuantes tem duas funções: no código aquático as vísceras são congruentes com os peixes, no código celeste, com as estrelas (cf. Lévi-Strauss 1964). Quando fala de um código de terceiro grau (o código metalingüístico de sua pesquisa) «destinado a assegurar a traduzibilidade recíproca entre os vários mitos» (ibidem), fala de um sistema de regras de cálculo que impõe também correlações. Em Lhomme nu (197 1) ele fala também do código dos mitos considerados individualmente, cuja traduzibili- dade é confiada a um código de grupo de mitos que correlaciona. os elementos dos códigos singulares, e que ele chama << intercódigo >>. De outro lado, no interior dos mitos considerados individualmente, ele vê agirem códigos diversos (astronômico, geográfico, anatõmico, sociológico, ético (cf. Lévi-Strauss 1968) que, porém, de novo parecem antes s-códigos ou porções de campo semântico cujos elementos são, pelo código do mito, associados a funções.

Já se disse do duplo uso que Jakobson faz do termo código: s-código quando se refere ao sistema fonológico e código correlacional quando, ao contrário, o, autor, numa imensa série de artigos, fala de código mímico, cinematográfico, funções semânticas dos shifters, subcódigos, código da adivinhação etc.

Mais vaga parece a acepção de código na pesquisa sociolinguística de Basil Bernstein: os códigos são 'quadros significantes' mas são também probabilidades com que é possível prever os elementos estruturais que serão selecionados para organizar os significados; quando A emite um sinal verbal para B se desenvolve um processo de orientação, associação e organização (e integração dos sinais para produzir uma resposta coerente): «O termo código da maneira como o emprego assume os princípios que regem esses três processos» (1971, parte V, 1). Como se vê o termo parece recobrir ao mesmo tempo vários dos significados já examinados. De outro lado, o código sociolinguístico diz respeito «à estruturação social dos significados e a suas diversas mas conexas realizações linguísticas contextuais». Uma diferença entre código elaborado e código restrito sublinha os dois níveis da diferente liberdade e facilidade simbólica de sujeitos pertencentes a classes diferentes: e nesse sentido a noção recobre a de domínio mais ou menos articulado de uma linguagem natural e de suas regras.

Mais ampla é a noção de Jurij Lotman e Boris Uspenskij no contexto de sua tipologia das culturas. O ponto de partida é dado pelo conceito informacional de código, correlato à noção lotmaniana

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de texto. O código é um sistema de modelização do mundo, sistema de modelização prinuírio é a linguagem, secunddrios os outros sistemas culturais, da mitologia à arte. Enquanto modeliza o mundo, o sistema já tem uma precisa natureza correlacional própria. Lotman (1970) distingue muito claramente os códigos no sentido por nós elaborado (transcodificação externa), em que se estabelece uma equivalência entre duas cadeias de estruturas (geminada) ou entre várias cadeias (múltipla), considerando também a diferença entre códigos semânticos e códigos pragmáticos (entendidos estes últimos como modelos estilísticos particulares que mudam a atitude em relação ao objeto modelizado). Mas sublinha que no interior do texto se formam signi- ficados adicionais devidos à mútua referência dos segmentos textuais (que se tornam sinônimos estruturais) e se verifica uma transcodificação interna, própria dos sistemas semióticos «nos quais o significado se forma não mediante a reaproximação de duas cadeias de estruturas, mas de modo imanente no interior do próprio sistema>>. Reconhece a existência de signos representativos em que não agem códigos complexos e «para o destinatário ingênuo» parece que não há nenhum código. Em todos esses casos se tem relação com códigos correlacionais.

Ao contrário, parece que a tipologia das culturas tem relação com sistemas (Lotman 1969), dado que a tarefa da tipologia é a descrição dos principais tipos de códigos culturais com base nos quais tomam forma as 'línguas' das várias culturas. Esses códigos sociais naturalmente são instituições (e por conseguinte sistemas de normas) ou sistemas de valores (como 'honra', 'glória') mas o exame dos textos é também o exame de como esses elementos sistemáticos podem ser expressos. Portanto a tipologia das culturas oscila em torno da dupla acepção de código como instituição e de código como correlação. Em ambos os casos o código cultural é um modelo do mundo e, portanto, alguma coisa que permite aos próprios elementos expressivos estar por outros conteúdos. Lotman (1970), aliás, distingue culturas que chamaríamos hipocodificadas, baseadas em textos que propõem modelos de comportamento, e cul- turas que chamaríamos hipercodificadas, baseadas em manuais ou gramdticas (cf. também Lotman e Uspenskij 1975).

Ele distingue, além disso, com a pluralidade dos códigos e sub- códigos, também a dialética entre códigos do emissor e códigos do destinatário (cf. também Eco 1968, a propósito dos desvios interpre- tativos de uma mensagem devidos à diferença dos códigos), dialética particularmente operante, e de maneiras diferentes, tanto na



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