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Por isso, ao surgir, como já acontecera na fonologia jakobsoniana, o código apresenta-se não tanto como um mecanismo que permite a comunicação, quanto como um mecanismo que permite a transformação entre dois sistemas. Que depois estes sejam sistemas de comunicação de outra coisa, por enquanto, é acessório: o que conta é que sejam sistemas que comunicam entre si.


Já nestas propostas, a idéia de código aparece envolta numa aura de ambiguidade: ligada a uma hipótese comunicativa, ela não é garantia de comunicação mas de coerência estrutural, de trâmite entre sistemas diferentes. É uma ambiguidade que esclarecemos mais adiante e que depende de uma dupla acepção de /comunicação/: como transferência de informação entre dois pólos e como transformação de um sistema em outro, ou entre elementos do mesmo sistema. Por enquanto basta observar que a fusão dos dois conceitos é fecunda: ela sugere que devem existir regras solidárias para duas operações distintas e que estas regras, além de descritíveis, podem ser, de alguma forma, dominadas por um algoritmo.


1.5 A filosofia do código

Isto é suficiente também para levantar a suspeita de que toda batalha demasiado prematura contra a invasão dos códigos pode ocultar na sombra o desejo de uma volta ao inefável. Certamente, pode-se também suspeitar de que a fortuna do código tem todas as características de um exorcismo, constitui a tentativa de pôr ordem no movimento e organização nas pulsações telúricas, de delinear um enredo lá onde há somente um balé extemporâneo de fatos casuais. Esta suspeita invade também os metafisicos do código, porque o código, mesmo quando constitui regra, nem por isto é uma regra que 'fecha', pode ser também uma regra-matriz que 'abre', que permite gerar ocorrências infinitas; portanto, a origem de um Jogo', de um 'vórtice' incontrolável.

De fato, a cultura da segunda metade do século é cortada pela dupla tentativa de ir do vórtice ao código, para sustar o processo e descansar na definição de estruturas maneáveis, e de voltar do código ao vórtice, para mostrar que é o código em si que não é maneável, uma vez que nós não o estabelecemos, mas ele é um dado que nos estabelece (não somos nós que falamos as linguagens, são as linguagens que nos falam). No entanto, ter sentido a necessidade de travar esta batalha significa que o problema das regras, de sua origem e de seu funcionamento foi proposto e com ele a necessidade de explicar em termos unificados os fenômenos individuais e os sociais. Portanto, a irrupção do código nos diz que a cultura contemporânea quer construir objetos de conhecimento ou demonstrar que na base de nosso funcionamento como seres huma- nos há objetos sociais conhecíveis. A noção de código é, ao mesmo tempo, condição preliminar e conseqüência imediata de um projecto institutivo das ciências humanas.

As ciências humanas são utopia e utopia será a busca dos códigos: a sorte dos dois conceitos está intimamente ligada, o código é

o instrumento categorial dessa tarefa científica que são as ciências humanas. Vencido o código, não se dará mais notícia do humano e será a volta às filosofias do Espírito criador.

Trata-se, então, de construir a categoria de código, de diferenciá-la do que não pode ser definido como tal, de delimitar suas possibilidades de emprego. O que não significa dizer que se deixarão na sombra as outras questões aventadas nestas páginas introdutórias. Elas serão simplesmente reconduzidas ao modelo básico. Mesmo quando forem consideradas metodologicamente ilegítimas, sua legitimidade histórica deverá aparecer, isto é, procurar-se-á entender por que, apesar da ilicitude da metaforização, a metáfora resulta convincente. Uma vez detectadas as similaridades, poderemos afirmar que sobre a similaridade não se constrói um silogismo. Mas, pelo menos, teremos entendido como e por que se deu um curto-circuito. O zoólogo sabe muito bem que Aquiles não é um leão e sua tarefa é a de circunscrever a unidade zoológica leão em suas características peculiares. Se tiver um pingo de sensibilidade poética, no entanto, entenderá por que Aquiles é chamado de leão e não de cão ou hiena. Por menos que saiba sobre Aquiles.


2 O código como sistema
2.1 Códigos e informação

Nos textos dos teóricos da informação há uma nítida distinção entre informação, como medida estatística da equiprobabilidade dos fatos na fonte, e significado. Sharmon (1948) distingue o significado de uma mensagem, irrelevante para uma teoria da informação, da medida da informação que se pode receber quando uma determinada mensagem, mesmo um simples sinal elétrico, é selecionada entre um conjunto de mensagens equiprováveis.

Aparentemente, o problema do teórico da informação parece ser o de 'pôr em código' uma mensagem segundo uma regra deste tipo:

transcreva-se

A como 00

B 10


D 11

Mas o teórico da informação, na realidade, não está imediatamente interessado na correlação entre sinais binários e seu possível conteúdo alfabético. Ele está interessado na maneira mais econômica de transmitir os próprios sinais sem gerar ambiguidades e neutralizando rumo-

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res no canal ou erros de transmissão. Portanto, admitindo que ele queira pôr em código letras do alfabeto, sua transmissão será mais segura se inventar um 'código' capaz de permitir mensagens mais redundantes, por exemplo:

A como 0001

B 1000

C 0110


D 1001

O problema da teoria da informação é a sintaxe interna do sistema binário e não o fato de que as seqüências expressas pelo sistema binário possam expressar, como seu conteúdo, letras do alfabeto ou qualquer outra sequência de entidades. O código de que fala o teórico da informação é um sistema monopianar e, enquanto tal, pode ser definido não um código, mas um sistema, ou seja, um s-código (cf. Eco 1975).

2.2 Códigos fonológicos

Neste sentido, um código fonológico também é um s-código, e o hábito de chamar de /códigos/ os s-códigos é devido exatamente à aplicação dos critérios informativos aos sistemas fonológicos Jakobson-Halle 1956).

Os elementos de um sistema fonológico são desprovidos de significado, não correspondem a nada, não podem ser correlacionados com nenhum conteúdo. Os traços distintivos, que constituem e caracterizam reciprocamente os fonemas, fazem parte de um puro sistema de posições e oposições, de uma estrutura. A ausência ou a presença de um ou mais traços (exprimível e calculável em termos binários) distingue um fonema de outro. Um sistema fonológico é regido por uma regra (sistemática), mas esta regra não é um código. Então, por que se falou de código fonológico e não apenas e mais corretamente de sistema fonológico? Jakobson (1961), ao elaborar pela primeira vez, do modo mais completo, sua teoria das relações entre fonologia e teoria matemática da comunicação, parece ciente da diferença que estamos sublinhando. Em outros textos, porém, se dá conta de que o sistema não-significante dos traços distintivos está estritamente ligado ao verdadeiro código linguístico. Não é que exista antes o sis- tema fonológico e depois, graças a ele, a língua com sua dialética de signantia e de signata, mas é a própria língua que, ao pôr-se em ação para funções de significação, organiza, ao mesmo tempo, as próprias regras correlacionais, e os sistemas a serem correlacionados. E, nesta confusão proposital, age a exigência que procurávamos enuclear: isto

é, que por trás do apelo ao código não está tanto a idéia de que tudo seja comunicação quanto a de que tudo o que é comunicação (natureza ou cultura, não importa) está sujeito a-regra e a cálculo, e, portanto, é analisável e conhecível, assim como pode ser gerado por transformações de matrizes estruturais que são objeto (e fonte) de'cálculo. Pensando bem, esta é a exigência dos teóricos da comunicação; é possível pôr em código (para tornar as mensagens facilmente transmissíveis) porque na base da comunicação há um cálculo e, portanto, o processo de comunicação pode ser objeto de ciência (para conhecê- lo) e de técnica (para dominá-lo).

Neste emaranhado de exigências filosóficas está o duplo uso de código. Diferenciar as duas acepções do termo (s-códigos dos códigos propriamente -ditos) é fundamental para o correto prosseguimento de um discurso semiótico. Reconhecer o porquê de sua confusão é fundamental para estabelecer, através da história da palavra código, uma história das idéias de nossa época.
2.3 Sistemas semânticos e s-códigos

São s-códigos também os estudados pela semântica estrutural,

tanto na linguística quanto na antropologia cultural. São sistemas para tornar pertinente um espaço ou um universo de conteúdo.

Vejamos um sistema de relações de parentesco e consideremos as seguintes propriedades: a) hierarquias de gerações em relação a Ego; b) diferenças sexuais; c) relações de descendência direta e de colateralidade.


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Uma língua (ou seja, o léxico de parentesco de uma língua) é, portanto, um código que correlaciona unidades lexicais a posições do sistema de parentesco, mas o sistema de parentesco, mesmo quando é chamado de código de parentesco, é, de fato, um s-código independente da língua.

Uma vez esclarecido o que é um s-código, podemos passar para aqueles usos do termo /código/ que põem em jogo uma verdadeira correlação.
3 Código como correlação

3.1 Códigos e cifras

Em criptografia, um código é um sistema de regras que permite transcrever uma determinada mensagem (em princípio, um conteúdo conceitual; na prática, uma sequência linguística já preconstituída e expressa em alguma linguagem natural) mediante uma série de substituições, de modo que, através delas, um destinatário que conheça a regra de substituição seja capaz de obter de novo a mensagem original. A mensagem original é chamada 'clara', sua transcrição é chamada 'cifrada'. A criptografia diferencia-se dos métodos estegráficos, que consistem em tornar não perceptível uma mensagem em claro (mensagens em tinta simpática ou escondidas no salto de um sapato, e até mesmo os acrósticos, onde todas as letras da mensagem são explicitadas, é só saber que é necessário considerar apenas as primeiras de cada palavra ou do início de cada linha). Afins aos métodos esteganográficos são os chamados de Segurança da Transmissão (por exemplo, transmite-se pelo rádio uma frase numa tal velocidade que só um aparelho de gravação possa captá-la e devolvê-la 'em câmara lenta').

A criptografia, ao contrário, procede tanto por transposição quanto por substituição. Os métodos de transposição não exigem regras específicas, é só saber que ordem da sequência do claro foi modificada. Um exemplo típico é o anagrama de Roma que se torna Amor (mas este é também um caso de palindromia) ou segreto (segredo, secreto) que se torna etgorse.

A palavra /cade/ (/cai/), portanto, poderia ser posta em código da seguinte maneira: 'Mundo sem fim nos céus, numa infinidade, (em) perpetuidade'.

Um código em blocos, que faz corresponder, por exemplo, um número a um grupo de letras, tem, do mesmo modo, as características formais da cifra (seus elementos não são significantes), mas as condições de uso do cloak. De fato, com uma cifra podem ser geradas infinitas 'palavras', enquanto um cloak predetermina o número das unidades concebíveis; e enquanto uma cifra requer apenas o conhecimento de uma série de correspondências mínimas (por exemplo, os números de 1 a 21 para as 21 letras do alfabeto italiano), um cloak (na medida em que tem muitos elementos) requer um livro, ou code-book, isto é, um dicionário.

Diremos ainda que por cifrar entendemos a atividade de transformar um claro num cifrado, inventando suas regras; por codificar, a transcrição de um claro num cifrado, com base num código preestabelecido; por decodificar (ou decifrar, ou traduzir), a transcrição de um cifrado num claro, com base num código prefixado; enquanto entendemos por decriptar (ou criptoanalisar) a atividade de transcrever um cifrado em claro, não conhecendo o código e tirando suas regras da análise da mensagem (quase sempre com base em tabelas de freqüência e sempre baseados numa boa dose de intuição) (cf. Saffin 1964 e Kahn 1967).

O criptográfico é um excelente modelo de código correlativo. Enquanto tal, ele instaura relações de absoluta equivalência entre expressão e conteúdo. Se todo signo estivesse baseado na mesma relação de equivalência e se um signo fosse a função que correlaciona um definiens ao seu definiendum, de modo que o definiens pudesse ser substituído pelo definiendum em qualquer contexto possível, o código criptográfico seria o modelo de todo código semiótico.

Se o signo, porém, se baseia no modelo da inferência e é o ponto de partida para um indefinido processo de interpretação, então o modelo criptográfico não define a vida dos sistemas semâ- ticos e, no máximo, descreve como funcionam as semias substitutivas, que são sempre correspondências termo a termo de dois planos da expressão. Neste caso seria ilícito usar o termo /código/ para indicar o conjunto de regras que constituem um sistema semiótico. E o nosso discurso pararia por aqui.

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Parece-nos, entretanto, que no próprio interior dos códigos criptográficos surgem mecanismos bem mais complexos. Trazê-los à luz, talvez, explicará por que a noção criptográfica de código permitiu extrapolações e ampliações do campo de ação, para além da simples dialética entre claro e cifrado.

De fato, é raro encontrar um código (cloak ou cifra, não importa) que funcione baseado numa única regra de equivalência. Na realidade, mesmo a cifra mais elementar é o resultado da super- posição e interdependência de vários códigos.

Examinemos, por exemplo, uma cifra muito simples, que a cada letra do alfabeto faz corresponder um número; suponhamos que as mensagens assim codificadas correspondam. em claro a textos da língua italiana; suponhamos ainda que o cifrado deva ser transmitido com base em impulsos elétricos. Deveremos, então, considerar uma hierarquia de cifras e cloak, das quais só duas pertencem ao código em questão, enquanto as outras se referem a outros códigos, parasitários em relação ao primeiro, ou de que o primeiro é parasitário:

1) um código de transmissão que faz corresponder a cada cifra um determinado impulso: por exemplo, /3/ é transmitido como

2) a verdadeira cifra (donde /3/ corresponde a Q 3) uma cifra alfabética subentendida, donde a letra C corresponde

aos fonemas [é] e [k];

4) uma cifra 'posicional', donde a sucessão temporal dos elementos deve ser entendida, no momento da decodificação, como sucessão espacial. Estamos aqui diante de uma segunda articulação igual à da linguagem. A cifra em questão poderia ainda decidir alterar as regras de articulação da língua natural de referência (por exemplo: os sintagmas devem ser lidos ao contrário). Em todo caso, a ordem dos elementos é significante;

5) um cloak, que se identifica com o da língua natural de referência, donde a um determinado sintagma (palavra) corresponde uma cadeia ou uma hierarquia de traços semânticos ou uma definição;

6) um código (não se sabe ao certo se se trata de cifra ou de cloak) que diz respeito às leis de primeira articulação da linguagem e que fixa a função significante das posições sintáticas dos termos do cloak 5.

É claro que só os códigos 2 e 4 pertencem à cifra criptográfica em questão. O primeiro é um código de transmissão (que poderia também não existir); o segundo é específico da decodificação gramatológica da linguagem falada; o quarto pertence também e o quinto e o sexto pertencem somente à língua natural de referência.

3.2 Da correlação à instrução

Se falarmos de computadores, veremos que os mesmos problemas são encontrados nas linguagens de programação e nas linguagens de máquina. Um computador digital ou numérico, sensível a instru- ções formuladas em notação binária, pode funcionar em termos de linguagem de máquina, com base num código que correlacione expressões de notação binária a números decimais e a letras do alfabeto.

Exemplo de código de 6 bits:

Carácter


0 1 2 3 4 5 6 7 8 9

Zona


00 00 00 00 00 00 00 00 00 00

Número


0000 0001 0010 0011 0100 0101 0110 0111 1000 1001

Um exemplo de código (no caso concreto de 6 bits) é o apresentado no quadro, com o qual se podem formular verbetes de 24 bits (cf. London 1968). Graças a este código, as expressões /1966/ e /cats/ (/gatos/) poderão ser comunicadas ao computador da seguinte forma:

1966 - 000001 001001 000110 000110 cats

- 100011 100001 110100 110011

Às vezes, a linguagem de programação é alfanumérica (as instruções combinam letras do alfabeto e números), como READ 01 ou MULTIPLY 03 15 87 (que significa 'multiplique o conteúdo do compartimento 03 pelo conteúdo do compartimento 15 e armazene o resultado no compartimento 87'). Dado um código operativo que considere, por exemplo

READ MULTIPLY

01

03

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o comando MULTIPLY 03 15 87 passará a ter a forma numérica 03 03 15 87. Mas, para que a máquina 'entenda' que deve multiplicar o primeiro conteúdo pelo segundo, e assim por diante, serão necessárias várias outras instruções de código. Antes de mais nada, ela deverá reconhecer, numa instrução numérica, o endereço de uma determinada unidade de memória, deverá saber que o número do compartimento significa o conteúdo daquele compartimento e, em seguida, deverá reconhecer a posição das várias instruções:
Código operativo

cifra 1


cifra

Segundo endereço cifra 5 cifra

Terceiro endereço cifra 7 cifra 8

Levando em conta que, naturalmente, a instrução numérica deci- mal será traduzida em código de notação binária, a máquina receberá no fim a seguinte instrução:

000000 000011 000000 000011 000001 000101 001000 000111 Este processo requer, pelo menos, três tipos de convenções:

1) uma cifra a que correlacione cada expressão decimal a uma

expressão binária; II) um cloak 0 que correlacione expressões numéricas a operações

a serem realizadas; III) um cloak y que correlacione a cada posição na sequência um

endereço diferente de unidade de memória.

Ora, uma 'língua' deste tipo, embora formada de vários códigos correlacionais, não se baseia mais em simples equivalências. Ela funciona fornecendo instruções deste tipo: se, com referência a y, a expressão x se encontra na posição a, então o sistema de equivalências ao qual se referir é 01; mas, se a mesma expressão se encontra na posição b, então o sistema de equivalências ao qual se referir será 02 - Um 'código' deste tipo impõe seleções contextuais (vide Eco 1975, 2.11). E não adianta objetar que a máquina não faz inferências: não estamos interessados na psicologia da máquina, mas na semiótica do código (que, aliás, poderia também ser 'falado' por seres humanos).

Neste ponto, podemos dar um passo adiante e ver em que sentido um código de tipo criptográfico não só considera instruções e seleções contextuais, mas permite a realização de outros fenômenos que parecem típicos de uma língua ou de um sistema semiótico de estrutura enciclopédica.
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Examinemos uma cifra utilizável para fins biblioteconômicos, isto é, para diferenciar e classificar os livros de uma biblioteca pública. Para este fim, podem ser usados dois tipos de código (cf. Nauta 1972, p. 134): um código seletivo ou um código significante, que preferimos chamar de representativo.

Um código seletivo atribui um número progressivo a cada livro: para a decodificação exige-se um code-book, porque, de outra forma, seria difícil localizar o livro número 33721. De fato, um código seletivo é um cloak, porque poderia nomear cada livro com uma palavra convencional.

Para todos os efeitos, um código representativo, porém, é uma cifra: e da cifra possui a possibilidade de ser formado de várias cifras interdependentes e de poder gerar um número infinito de mensagens. De fato, suponhamos que cada livro seja definido por quatro expressões numéricas das quais a primeira indica a sala; a segunda, a parede; a terceira, a prateleira da estante e a quarta, a posição do volume na prateleira a partir da esquerda. O cifrado /1.2.5.33/, portanto, indicará o trigésimo-terceiro livro da quinta prateleira da segunda parede da primeira sala. Neste caso, o código não só permite a formulação de infinitas mensagens, sempre inter- pretáveis desde que se conheça a regra correlacional enunciada (facilmente memorizável sem necessidade de code-book), mas permite também 'representar' o livro, isto é, descrevê-lo pelo menos em suas características de colocação espacial. A interpretação do cifrado é possível com base em regras de correlação das quais faz parte também um código 'posicional' (semelhante aos códigos 4 e 6 descritos no § 3. 1), que teria, ao mesmo tempo, um léxico (com seu dicioná- rio) e uma sintaxe, e seria, portanto, uma gramática.

Não só isto: com este código seria também possível gerar um número infinito de mensagens mentirosas, embora providas de significado. Por exemplo, o cifrado /3000.1500.10000.4000/ significaria o quarto milésimo livro da décima milésima estante da milésima quingentésima parede da terceira milésima sala, deixando entrever uma biblioteca de milhares de salas enormes em forma de polígonos megaedros - embora tal biblioteca de Babel não exista. Um código deste tipo, portanto, seria um dispositivo para gerar descrições intensionais de objetos de extensão nula (pelo menos no mundo de nossa experiência), ou seja, um dispositivo capaz de permitir referências a mundos possíveis, propriedade que é típica de uma língua natural.

Este código põe em ação dois sistemas de correlação. De um lado, nos diz que /4/ é interpretado como «quarto»; de outro, nos


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diz que a primeira posição significa <>. Ele associa a posição do número no sintagma a uma determinada função categórica que completa a atribuição de um conteúdo à expressão. A segunda correlação é de caráter vetorial. A informação veiculada por um código representativo, portanto, «é estrutural e é representada por um vetor num espaço informativo» (Nauta 1972, p. 135).

Uma gramática de língua natural é mais redundante porque reconhece uma fisionomia categorial aos seus elementos fora da posição sintática, enquanto com o código biblioteconômico seria possível inverter a ordem das expressões numéricas sem que percebêssemos o erro (exceto se tivéssemos conhecimentos extralinguísticos das dimensões da biblioteca: mas, mesmo para saber que a biblioteca é pequena, a inversão de /3.3.10.333/ em /333.10.3.3/ seria sempre significante, embora aparecesse como referência a uma sala e a uma parede inexistentes).

O chamado código linguístico, portanto, ao permitir o reconhecimento das categorias lexicais e ao introduzir regras de subcategorização e seleções restritivas, é capaz de discriminar entre frases bem-feitas e frases malfeitas. Além disto, permite na estrutura de superfície variações da estrutura profunda, enquanto no código biblioteconômico estrutura profunda e estrutura de superfície só podem coincidir. Isto tudo, porém, significa apenas que há códigos mais ou menos complexos e mais ou menos capazes de 'autocontrole'.

O nosso problema não era, contudo, o de descobrir que uma língua natural é mais complexa do que um código biblioteconômico, ou que o modelo do código biblioteconômico não explica o funcionamento de uma língua natural. O nosso problema não era o de demonstrar (como talvez tenha sido feito até demais nos últimos tempos) que uma língua é como um código: era antes sugerir que um código, no sentido estrito do termo, já exibe algumas propriedades que são típicas de uma língua. De fato, é bom lembrar, o objetivo deste panorama histórico e problemático é o de explicar por que a noção de código, aparentemente tão rasa, se revelou tão fecunda, a ponto de sugerir tantas extensões de seu uso.

A noção de código criptográfico pareceu-nos a provocatoriamente mais simples: 'provocatoriamente', porque, se conseguirmos detectar um princípio de inferencialidade também na criptografia, então teremos compreendido por que a idéia de código pareceu tão fascinante.



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