Série Fundamentos



Baixar 1,18 Mb.
Página22/27
Encontro11.09.2017
Tamanho1,18 Mb.
1   ...   19   20   21   22   23   24   25   26   27

Uma coisa só o símbolo diz com absoluta clareza, mas essa coisa não tem relação com o seu conteúdo (enquanto enunciado), mas com a sua enunciação, com a razão pela qual foi enunciado: ele diz ser um artifício semiótico que deve funcionar segundo o modo simbólico, para manter em atividade a semiose ilimitada.

Se, porém, não se quer tomar esse caminho, o modo simbólico não comete transgressões, como faz a metáfora. Deixa-nos livres, uma vez interpretada a metáfora, para reconhecer uma dama que, diante do espelho, lânguida e inutilmente, penteia-se.

Que ocorre, enfim, com a alegoria? Diferentemente da metáfora e em analogia com o modo simbólico, o destinatário pode decidir entendê-la literalmente. Dante poderia muito bem querer dizer deveras que estava viajando por uma floresta e que nela encontrou três feras; ou que viu uma procissão com vinte e quatro venerandos velhos. Como o modo simbólico, a alegoria sugere no máximo a idéia de .que haja, nesse texto, um esbanjamento representativo. Exceto que enquanto nos casos de modo simbólico alguma coisa aparece no texto para aí durar um tempo muito pequeno, a alegoria é sistemática e realiza-se sobre uma grande porção textual. Ademais, em sua capacidade pirotécnica de invadir, ela põe em jogo imagens já vistas em alguma outra parte. Diante da alegoria (exceto textos de civilizações pouco conhecidas, em cujo caso certamente o filólogo se interroga sobre a dúbia natureza alegórica da representação) joga uma imediata analogia com códigos iconográficos já conhecidos. A decisão de interpretá-la nasce habitualmente do fato de que esses iconogramas parecem evidentemente ligados um ao outro por uma lógica já tornada familiar para nós pelo tesouro da intertextualidade. A alegoria remete a roteiros, a frames intertextuais que já conhecemos. O modo simbólico - Eco põe, ao invés, em jogo alguma coisa que não fora ainda codificada.

Nada impede, e muitas vezes provavelmente acontece, que o que nascera como alegoria (nas intenções de um remotíssimo autor) funcione para destinatários estranhos a sua cultura como estratégia simbólica. Ou que, sem gerar suspeitas, deslize na pura literalidade. Um texto, em sua relação com os intérpretes, provoca muitos efeitos de sentido que o autor não tinha previsto (e provavelmente talvez esse seja o caso do soneto de Marino) e deixa outros (que o autor tinha previsto) deslizarem no nada. Assim como nas interações cotidianas cremos às vezes que um olhar (a nós dirigido por acaso) seja uma promessa ou um convite; e outras vezes não percebemos a intensidade de um outro olhar (a nós dirigido de um modo que uma outra pessoa cria eloqüente) e uma relação possível bloqueia-se ou banaliza-se. E frequentemente essa interação toma-se um texto diferente conforme tenhamos supervalorizado ou não observado a intensidade desse olhar.


7 Conclusões

Essas conclusões, a que conduz a análise do modo simbólico na poesia, valem para toda atuação do modo simbólico e fornecem

o indício para uma definição semiótica de seus mecanismos. Fazendo abstração de toda metafísica ou teologia subjacente, que confere uma verdade particular aos símbolos, pode-se dizer que o modo simbólico não caracteriza um tipo particular de signo nem uma modalidade particular de produção sígnica, mas só uma modalidade de produção ou de interpretação textual. Segundo a tipologia dos modos de produção sígnica (recordada no primeiro capítulo), o modo simbólico pressupõe sempre e em cada caso um processo de invenção aplicado a um reconhecimento. Encontro um elemento que poderia assumir ou já assumiu função sígnica (uma marca, a réplica de uma unidade combinatória, uma estilização ... ) e decido vê-Ia como a projeção (a realização das mesmas propriedades por ratio difficílis) de uma porção suficientemente imprecisa de conteúdo.

Exemplo: uma roda de carro pode estar ostensivamente como exemplo para a classe das rodas (como insígnia de um fabricante de veículos), como amostragem (segundo um mecanismo de pars pro toto) para o mundo rural arcaico (como insígnia de um restaurante típico), como estilização para uma sede do Rotary Club. Mas elaborando o modo simbólico posso decidir não só apresentá-lo mas também apenas reconhecê-lo (quando também foi apresentado para outras finalidades sígnicas) como caracterizado por algumas propriedades: a circularidade, a capacidade de ir adiante com tendência ao infinito, a equidistância do centro em relação a cada ponto do círculo, a simetria radiada que liga o centro ao círculo. Certamente propriedades selecionadas em prejuízo de outras que o modo simbólico decide não considerar (por exemplo: que a roda é de madeira, que é produto artificial, que suja em contacto com o solo, que é ligada metonimicamente ao boi, ao cavalo, ao mulo e assim por diante). Mas partindo das propriedades selecionadas pode-se decidir que a enciclopédia reconhece - embora de maneira equivocada - as mesmas propriedades a entidades de conteúdo não diferentemente interpretáveis, isto é, não facilmente traduzíveis em outros signos: por exemplo, o tempo (circular e progressivo), a divindade (em que tudo é simetria e proporção), o eterno retorno, a ciclicidade do processo vida/morte, a energia criativa pela qual de um único centro se geram harmonicamente as perfeições circulares de todos os seres... A roda pode remeter-me a todas essas enti- dades conjuntamente e na nebulosa de conteúdo que constituo pode- rão coexistir também entidades contraditórias como vida e morte. Agora estou usando a roda conforme o modo simbólico.

O modo simbólico não elimina a roda como presença física (porque, ao contrário, todas as entidades evocadas parecem viver

246
na roda e com a roda) nem a elimina enquanto veículo de significados 'literais'. A um destinatário menos iniciado ela poderá ainda aparecer como o emblema do fabricante de veículos, assim como o profano vê apenas um sapateiro trabalhando onde o místico cabalista vê na sua operação a ação simbólica de quem a cada ponto de sua sovela não só une a parte superior do calçado à sola, mas reúne tudo o que está no alto com tudo o que está embaixo, atraindo do alto para o baixo a corrente da emanação (Scholem 1960, a propósito do patriarca Enoch na tradição hassídica).

O modo simbólico é, portanto, um procedimento não necessariamente de produção mas, em cada caso e sempre, de uso do texto, que pode ser aplicado a todo texto e a todo tipo de signo, mediante uma decisão pragmática ('quero interpretar simbolicamente') que produz no nível semântico uma nova função sígnica, associando a expressões já dotadas de conteúdo codificado novas porções de conteúdo, o mais possível indeterminadas e decididas pelo destinatário. Característica do modo simbólico é que, caso desistamos de realizá- lo, o texto permanece dotado de um sentido independente no nível literal e figurativo (retórico).

Na experiência mística os conteúdos a atribuir às expressões simbólicas são de algum modo sugeridos pela tradição precedente e por alguma auctoritas e o intérprete é persuadido (deve ser persuadido) de que eles não são dados culturais, mas referentes, aspectos de uma verdade extra-subjetiva e extracultural.

Na experiência poética moderna (mas o discurso poderia ser dirigido para todas as artes) os conteúdos possíveis são sugeridos pelo contexto e pela tradição intertextual; o intérprete sabe que não vai atingir uma verdade externa, mas que vai fazer circular a pleno vapor o próprio universo da enciclopédia. Nesse sentido o simbolismo poético moderno é um simbolismo secularizado onde a linguagem fala de si mesma e das suas possibilidades. Que essa exploração das possibilidades da linguagem, ou da enciclopédia ou do universo da serniose, é ao mesmo tempo exploração das profundidades do sujeito foi dito no primeiro capítulo como conclusão da discussão sobre o signo. O que permanece indiscutível é que atrás de toda estratégia do modo simbólico existe, a legitimá-lo, uma teologia, mesmo que seja apenas a teologia negativa e secularizada da serniose ilimitada. Um modo produtivo de olhar sernioticamente para toda aparição do modo simbólico é: por qual teologia é legitimado? A abordagem semiótica deveria ser capaz de reconhecer também os casos em que sua pergunta crítica estabelece, fixando-os, os próprios deuses.

V
A FAMÍLIA DE CÓDIGOS

1 Um termo fetiche?
1.1 Código ou enciclopédia?

Nos vários capítulos deste livro predominou um conceito fundamental, o de enciclopédia, como único modelo capaz de dar conta, tanto no plano teórico quanto como hipótese reguladora de proces- sos concretos de interpretação, da complexidade da semiose.

Em relação à idéia de enciclopédia, parece que a idéia de código, que circulou tão amplamente nas discussões semióticas das últimas décadas, resulta muito pobre. Quando pensamos no códi- go, evocamos imediatamente a idéia do código Morse, uma lista de equivalências, termo a termo, entre letras do alfabeto e sequências de pontos e linhas. Se isto é o código, sua estrutura então entra na crítica que no primeiro capítulo foi feita à idéia 'rasa' de signo como mera substituição de idênticos ou sinônimos. Terá chegado, talvez, o momento de excluir o conceito de código das discussões sernióticas, reservando-o no máximo para as chamadas 'semias substitutivas', ou seja, exatamente para o alfabeto Morse ou artifícios parecidos? E teremos que aceitar a opinião expressa por muitos (vide, por exemplo, Ducrot 1972 ou Cherry 1961) de que uma língua natu- ral (não só, mas qualquer outro sistema semiótico que apresente

248
alguma complexidade, capacidade de desenvolvimento diacrônico, flexibilidade em permitir inferências contextuais e circunstanciais, cuja semântica se complique com processos pragmáticos e no qual o léxico esteja compreendido no âmbito mais amplo de uma gramática) não pode ser nem um código nem simplesmente um sistema (por mais intricado que seja) de códigos e subcódigos?

Não é preciso muito para tomar esta decisão teórica, e qualquer outra hesitação seria de caráter, por assim dizer, editorial, em virtude do temor de ter de reeditar e atualizar todos os textos em que esta idéia foi empregada.

E, na verdade, as páginas a seguir, embora utilizem em grande parte o material que usei para o verbete 'Código' da Enciclopedia Einaudi, podem ser lidas como uma autocrítica. Aquele verbete, publicado em 1977, havia sido redigido em 1976, como conclusão de uma série de trabalhos meus anteriores em que o termo «código» havia sido amplamente adotado e definido em suas condições de emprego. Gostaria de deixar claro, porém, que, se se trata de autocrítica, ela não diz respeito somente a mim: as páginas a seguir (e como todos sabem) deveriam evidenciar que, se eu introduzia no quadro de minhas reflexões semióticas o conceito de código, era porque todo o desenvolvimento da linguística e da semiótica neste século me encaminhava nessa direção (cf., para um debate sobre estes usos e abusos, V. A. Intorno al codice, 1976; Napoli 1980; Miceli 1982).

Ora, ao proceder como procedia, eu era levado por três idéias, das quais uma era clara e distinta, as outras duas, em boa parte, confusas.

A idéia clara e distinta era a de que se o código é um sistema elementar constituído pela correlação termo a termo de duas listas (ou sistemas) de entidades, assim como o código Morse é a correlação termo a termo dos elementos de dois alfabetos, não vale a pena considerar os códigos como os fundamentos de um sistema semiótico complexo como, por exemplo, uma língua natural. Quem quer que no quadro da semiótica contemporânea tenha empregado a categoria de código não pretendia reduzi-Ia à de léxico simplificado, à de mera lista de homonímias. Tentava-se, certo ou errado, incluir também nesta categoria outras séries de regras e normas: em outras palavras, a categoria de código devia dar conta de uma gramática em seu conjunto (semântica e sintaxe, e até mesmo uma série de normas pragmáticas que dessem conta de uma competência executiva). Se não fosse assim, /código/ ter-se-ia reduzido a uma discutí- vel sinédoque para indicar confusamente o conjunto das competên-

249

cias semióticas, ou seja, para sublinhar a convicção de que os fenômenos de comunicação eram regulados por um conjunto de compe- tências comunicativas. O que teria sido muito pouco (embora se deva admitir que, às vezes, /código/ significou antes de mais nada ou tão-somente isto).



Esta primeira idéia clara e evidente, porém, estava baseada numa das duas idéias confusas de que falava antes. Uma vez que, em muitos lugares,'havia, sido usado o termo /código/ no sentido supracitado, se aceitava que este emprego era correto, mas não se aprofundavam as razões, históricas, terminológicas, filosóficas, pelas quais o uso *se havia imposto. Verificava-se, portanto, uma espécie de situação batismal, pela qual toda uma corrente de pensamento resolvia chamar de /código/ o que poderia ter sido chamado de outra forma, e em detrimento do fato de que, em outros contextos científicos, /código/ queria dizer algo de mais preciso mas de menos compreensivo. Como veremos, a decisão batismal tinha alguma razão de ser, mas tenho a impressão de que esta razão não foi trazida completamente à tona. Neste capítulo, portanto, tratar- se-á de remediar esta leviandade e instituir, se não a legitimidade, pelo menos a razoabilidade desse emprego, com base numa exploração em termos de história das idéias.

Em compensação, meus últimos escritos eram dominados por uma outra idéia, talvez igualmente confusa, mas que, no fim das contas, me parece bastante fecunda. Veja-se o que aconteceu no meu Tratado geral de semiótica (1975). Eu havia baseado metade do livro numa «teoria dos códigos» como teoria dos sistemas de significação; e,no entanto, logo no interior deste quadro teórico, comecei a fazer aflorar o conceito de enciclopédia que iria desenvolver em escritos sucessivos, como, por exemplo, O papel do leitor (1979). Por que a idéia de enciclopédia aflorava logo no calor de um debate sobre os códigos? Seria talvez porque, ao debater o con- ceito de código, à medida que avançava, eu o corrigia para o de enciclopédia? Seria talvez porque a idéia de código só podia resolver-se na de enciclopédia? Nas páginas a seguir, ao examinar as razões de história cultural que encorajaram o emprego do termo /código/, gostaria de demonstrar exatamente em que sentido uma idéia 'ampla' de código já compreendia a de enciclopédia.

Este último capítulo, portanto, deverá ser lido como antístrofe do primeiro, que abre o presente livro. Assim como demonstramos no começo que a idéia de signo, erroneamente reduzida ao modelo 'restrito' da equivalência, tinha de ser redescoberta como idéia regida pelo modelo 'ampliado' de inferência, deveremos demons-

trar o mesmo em relação à idéia de código. Com a diferença nada insignificante de que, no caso do signo, se pode legitimamente demonstrar que o modelo ampliado era o original e que portanto, é legítimo reformulá-lo neste sentido; enquanto, em relação ao código, parece ter acontecido algo diferente e a idéia originária parece ter sido a restrita (motivo pelo qual toda a sua reformulação em sentido ampliado assume o aspecto de um novo e arbitrário batismo). Se assim for, a releitura crítico-histórica a seguir deverá chegar à conclusão de que o emprego intensivo do termo foi legítimo e está na hora de desfazer o equívoco. Na realidade, será logo graças à nossa releitura que permanecerá a suspeita, viva e forte, de que também neste caso, se não as ciências, pelo menos a linguagem natural, ou algumas de suas gírias especiais, misturou conti- nuamente o modelo restrito com o ampliado.

Se isto foi bom ou ruim é outro problema: foi. Poderemos resolver ser terminologicamente mais cautelosos no futuro. Se é imprudente ser terminologicamente imprecisos, é igualmente impru- dente, por um necessário rigor terminológico, perder de vista uma complexa rede de razões culturais que encorajaram o emprego de um termo. O rigor metodológico manda reconhecer que, em quadros teóricos diferentes, o mesmo termo se transforma numa série de termos mais ou menos equívocos, ligados por uma rede de semelhanças de família. Mas é curiosidade filosófica procurar o que há por trás destas semelhanças e por que se deve falar de família.
1.2 Instituição ou correlação?

Até a primeira metade deste século, o termo /código/ (exceto casos raros, como quando Saussure fala de «code de Ia langue») era empregado em três sentidos específicos: paleográfico, institucional e correlacional. Este, aliás, é o modo como ainda falam dele os dicionários correntes.

A acepção paleográfica oferece-nos uma pista para entender as duas outras: o codex era o tronco da árvore do qual se extraíam as tabuinhas de madeira para escrever e, portanto, torna-se o livro. Também na base dos dois outros sentidos de /código/ há sempre um livro: um code-book, ou seja, um dicionário para o código correlacional que faz corresponder determinados símbolos a determinados outros, e um livro como recolha de leis ou de normas para o código institucional. Há o código Morse e o código Gelli.

A acepção institucional presta-se a inúmeros equívocos: um código é um corpo orgânico de leis fundamentais, como os códigos

jurídicos, ou um conjunto de normas cuja organicidade nem sem- pre é explicitada, como o código cavalheiresco? O código de direito penal parece ser um código correlacional: não diz explicitamente que matar é errado, mas correlaciona a diferentes formas de homicídio diferentes formas de pena; o código de direito civil, ao contrário, é ao mesmo tempo um conjunto de disposições sobre como se deve agir ('faça assim') e de sanções correlatas à violação da norma Çse não fizer assim, incorrerá nesta sanção').

A acepção correlacional parece mais precisa e rigorosa, como bem sabem os agentes secretos: nada de melhor definível do que um código criptográfico. No entanto, uma rápida investigação do universo da criptografia fará surgir tal quantidade de problemas que, da acepção criptográfica, analisada em todos os seus aspectos, se poderá 'facilmente remontar a todas as outras.


1.3 Fortuna do código

O que nos interessa, porém, no momento, é a fortuna que o termo /código/ teve a partir dos anos 50 deste século. Digamos logo que a data foi escolhida por uma determinada razão: são os anos em que aparecem The mathematical theory of communication, de Shannon e Weaver (1949), e FundamentaIs of language, de Jakobson e Halle (1956).

Podemos dizer que, a partir da virada deste século, o termo tem uma fortuna cada vez maior: reformula-se a oposição saussuriana língua-fala em termos de código-mensagem; fala-se de código fonológico, código linguístico, código semântico; introduz-se a noção de código de parentesco e de código dos mitos; menciona-se freqüentemente um código estético ou, em todo caso, numerosos códigos artísticos e literários; torna-se a propor a noção de código para os sistemas de normas nos quais está baseada uma cultura e falá-se de códigos das várias culturas; a biologia introduz o conceito de código genético, vai-se em busca de códigos da comunicação animal, perguntando-se, quando muito, se há formas de comunicação baseadas no código e outras sem código; a respeito disto, se discute a existência de um código icônico logo onde, a partir de vários pontos, surge a suspeita de uma linguagem sem código; ao opor o discreto e o digital ao contínuo e ao analógico, de um lado, nos perguntamos se o segundo membro da oposição constitui o lugar do “naturál” e 'espontâneo' não-codificado; de outro, nos perguntamos se é pensável um código analógico; surge a idéia de um código da perpepção e de um código dos processos neurofisiológicos; e, por fim, eis que abrem caminho os códigos sociais, os códigos de com-

252
portamento interativo, os códigos de classe, os códigos etnolinguísticos; enquanto praticamente já não pairam dúvidas sobre a existência de códigos gestuais, códigos fisiognomônicos, códigos culinários, códigos olfativos, musicais, fonémicos e paralinguísticos, proxêmicos, arquitetónicos...

A idéia de código parece penetrar não só na esfera do cultural, mas também na do natural, criando suspeitas de homonímia, metaforização, empréstimos ilegítimos, indulgência às modas terminológicas. Mesmo quando estas suspeitas fossem autorizadas, deveríamos nos perguntar, porém, o porquê destas licenças. A explosão de um termo, que do próprio cadinho disciplinar chega às honras de termo-chave para várias disciplinas e de termo-ligação que garante a circulação interdisciplinar, não é um fato novo: evolução, energia, inconsciente, estrutura, mas, antes disto, filologia, barroco (era só o nome de um silogismo), mecanismo. A história cultural pulula de contaminações terminológicas, deste tipo, que criam, ao mesmo tempo, confusão e coesão, involução fetichista e avanços fecundos. Em cada um destes casos, porém, o termo torna-se a auriflama de um clima cultural, não raro o emblema de uma revolução científica: por trás do emprego difundido do termo há uma espécie de tendência geral (em literatura artística diríamos um Kunstwollen), e se o emprego do termo corre o risco de ser vago, a tendência é precisa, descritível e analisável em seus componentes.

Diremos, para começar, que a noção de código implica, em todo caso, a de convenção, de acordo social, de um lado, e de mecanismo regido por regras, de outro. Note-se que ainda não dissemos 'mecanismo comunicativo', como faríamos espontaneamente, porque se é código também uma instituição, como a cavalheiresca, ou o sistema das regras de troca de parentesco, isto não quer dizer que estas instituições e estas regras sejam concebidas tendo como fim a comunicação.


1.4 Do parentesco à linguagem

O conceito de código vem sancionar uma opinião que já circulava quando o termo ainda não havia aparecido oficialmente. Em Structures élémentaires de Ia parenté, de Lévi-Strauss (1949), o termo código surge só incidentalmente, nunca como termo técnico (por exemplo, ao se referir a («muitos códigos contemporâneos »): as categorias são aquelas de regras, sistema, estrutura. E, por outro lado, também ao propor seu paralelo entre linguística e antropologia (1945), Lévi-Strauss fala de sistema fonológico e não de código. O termo aparece como categoria só com a análise dos mitos em La Geste d´Asdival (1958-59).

No capítulo final de Structures élémentaires, porém, a equação regra-comunicação-sociabilidade já era colocada de forma inequívoca: «Linguistas e sociólogos não só utilizam os mesmos métodos, mas se aplicam no estudo do mesmo objeto. De fato, deste ponto de vista, "exogamia e linguagem têm a mesma função fundamental: a comunicação com os outros e a integração do grupo" >> (Lévi- Strauss, 1949). Poderíamos aventar a hipótese de que, através da influência do discurso de Lévi-Strauss, a equiparação entre funcionamento social e funcionamento linguístico, graças à remissão à linguística jakobsoniana, impõe definitivamente a chamada à noção de código.

A equação parentesco-linguagem, porém, não visa tanto a demonstrar que interagir por parentesco é comunicar, quanto a mostrar que a sociedade comunica em todos os seus níveis exatamente porque há um código (ou seja, uma regra) comum não só à linguagem como às relações de parentesco e à estrutura da aldeia, e a outros fenômenos mais ou menos explicitamente comunicativos.

Como prova de que a idéia de código se afirma não tanto para sustentar que tudo é linguagem e comunicação, quanto para sustentar a existência de uma regra, veja-se o primeiro texto em que, ao que tudo indica, Lévi-Strauss introduz explicitamente o termo: é o ensaio (publicado originalmente em inglês) sobre linguagem e sociedade (1951), em que ele retoma as teses de Structures élémentaires e se detém particularmente nas analogias entre troca de parentesco e troca lingüística. Ciente da ousadia de sua hipótese, percebe que não basta restringir a investigação a uma única sociedade, ou mesmo a muitas, se não se detecta um nível onde se torna possível a passagem de um fenômeno para outro. Trata-se, então, de elaborar um 'código universal' capaz de expressar as propriedades comuns às estruturas específicas de cada fenômeno; código cujo uso se revela legítimo tanto no estudo de um sistema isolado, quanto na comparação entre sistemas diferentes. Trata-se de encontrar << estruturas inconscientes similares... uma expressão verdadeiramente fundamental... uma correspondência formal».



1   ...   19   20   21   22   23   24   25   26   27


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal