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Naturalmente, não se trata de buscar uma «verdade» tradicional que até agora ficou oculta, mas de construir nossas respostas, provavelmente as respostas que só nós podemos fornecer atualmente, a partir de outras respostas esquecidas e de muitas perguntas eludidas.
Janeiro de 1984.
I
Signo e inferência
1 Morte do signo?
Logo na virada do século em que a semiótica se afirmou como disciplina, assistimos a uma série de declarações sobre a morte ou, no melhor dos casos, a crise do signo.

Naturalmente é um procedimento correto para uma disciplina pôr, antes de mais nada, sob suspeição o objeto que lhe foi destinado pela tradição. o termo grego oneyov (seméion), embora inextricavelmente conexo ao de texunpiov (tekmérion, que geralmente é traduzido por 'sintoma'), já aparece como termo técnico na escola hipocrática e na especulação de Parmênides; a idéia de uma doutrina dos signos organiza‑se com os estóicos; Galeno emprega o termo onaneiotpxiov (semeiotike); e a partir de então, cada vez que, na história do pensamento ocidental, aparecer a idéia de uma ciência semiótica, não importa do que ela for chamada, será sempre definida como 'doutrina dos signos' (cf. Jakobson 1974; Rey 1973; Sebeok 1976; Todorov 1977). Porém, como a noção de signo adquire significados frequentemente não hornogéneos, é justo submetê‑la a uma crítica severa (pelo menos na acepção kantiana do termo). Mas, neste sentido, a noção é posta em xeque desde o seu surgimento.

O que chama a atenção, ao contrário, é que, nas últimas décadas, esta razoável atitude crítica gerou a própria maneira. Assim

como se diz que é de bom alvitre iniciar um curso de filosofia anunciando a morte da filosofia, ou um debate sobre psicanálise anunciando a morte de Freud (e estas estelas funerárias abundam no atual jornalismo cultural), eis que pareceu útil a muitos estrear na semiótica anunciando a morte do signo. Como raramente este anúncio é precedido de uma análise filosófica do conceito ou de uma sua reconstrução em termos de semântica histórica, condena‑se à morte algo desprovido de carteira de identidade; de modo que, frequentemente, é fácil ressuscitar o morto, mudando apenas seu nome.

Por outro lado, esta obstinação moderna contra o signo nada mais faz do que repetir um rito antiquíssimo. Ao longo dos últimos dois mil e quinhentos anos, o signo foi submetido a uma espécie de extinção silenciosa. O projeto de uma ciência semiótica atravessou os séculos: frequentemente, sob forma de tratados orgânicos (pense‑se no Organon, de Lambert, em Bacon, em Peirce, em Morris ou em Hjelmslev); na maioria das vezes, como série de alusões espalhadas no seio de discussões mais gerais (Sexto Empírico, Santo Agostinho ou Husserl); de quando em quando, sob forma de prenúncios explícitos, auspiciando um trabalho a ser realizado, e como se todo o trabalho até então realizado tivesse que ser repensado em termos semióticos (Locke e Saussure). De todos estes tratados, alusões, prenúncios encontramos poucos vestígios na história da filosofia, da linguística ou da lógica, como se se tratasse de exorcizar um fantasma. O problema é apresentado e depois eludido. Eludir não quer dizer eliminar enquanto presença, quer dizer calar enquanto nome (e, portanto, enquanto problema em si): usavam‑se os signos e com eles construíam‑se gramáticas para produzir discursos, mas se relutava em reconhecer como discurso filosófico uma ciência dos signos. Em todo caso, os grandes manuais de história do pensamento calam‑se toda vez que um pensador do passado fala.

Disto decorre a marginalidade da semiótica, pelo menos até este século. Depois, houve a explosão de um interesse tão obsessivo quanto o silêncio que o antecedera. Se o século XIX evolucionista havia olhado para todos os problemas do ponto de vista biológico, o século XIX idealista, do ponto de vista histórico, e o século XX, do ponto de vista psicológico ou físico, a segunda metade deste século elaborou um «olhar» semiótico totalizador, assumindo, do ponto de vista semiótico, também os problemas da física, da biologia e da história.

Triunfo do signo, apagamento de um apagamento milenar? Parece que não, porque é logo a partir deste ponto que (enquanto

Hobbes ou Leibritiz, Bacon ou Husserl falavam dos signos sem complexos) muita da atual semiótica parece ter‑se atribuído a tarefa de decretar o fim do próprio objeto.


2 Os signos de uma obstinação
No entanto, indiferente às discussões teóricas, a fala cotidiana (e os dicionários registram seus usos) obstinou‑se em empregar dos mais variados modos a noção de 'signo'. Um fenómeno deste tipo merece um pouco de atenção.
2.1 Inferências naturais
Encontramos, antes de mais nada, um conjunto de usos linguísticos segundo os quais o signo é uma 'alusão evidente da qual se podem tirar deduções em relação a algo de latente'. Neste sentido, falamos de signo (sinal*) para sintomas médicos, indícios criminais ou atmosféricos; usam‑se expressões como 'Dar segno dimpazienza' (dar mostras de impaciência), 'Non dare segni di vita' (não dar sinal de vida), 'Mostrare i segni della gravidanza' (mostrar os sinais da gravidez), 'Dar segno di non voler smettere' (dar mostras de não querer parar). Há ainda os signos (indícios) premonitórios, os signos (sinais) de desgraça, os signos (indícios) da chegada do Anticristo... Antigamente, na Itália, a amostra de urina a ser analisada era chamada de 'signo' e, a respeito disto, comenta Sacchetti: «Esta pessoa traz não o signo (a amostra), mas um dilúvio de urina para o médico». O que faz pensar numa relação sínedóquica, como se o signo fosse uma parte, um aspecto, uma manifestação periférica de algo que não se mostra em sua totalidade; portanto latente, mas não de todo, porque deste iceberg emerge pelo menos a ponta. Ou então, a relação parece metonímica, visto que os dicionários falam de signo (sinal) também no caso de «qualquer vestígio ou marca visível, deixado por um corpo sobre uma superfície ». Indício de um contato, portanto, mas indício que, através da própria forma, revela algo da forma do impressor. Mas estes signos (sinais), além de revelar a natureza do impressor, podem tornar‑se signos (sinais) do objeto impresso, como acontece com
* O termo italiano segno pode corresponder em português tanto a "signo" (do lat. signu, quanto a "sinal” (do lat. vulg. signale, que em italiano deu segnale), quanto a outras palavras. Na impossibilidade de achar expressões literalmente correspondentes em português, preferiu‑se deixar os exemplos em italiano, traduzindo‑os entre parênteses. (N. do T.)
manchas roxas, arranhões e cicatrizes (sinais particulares, traços característicos). Pertencem, enfim, a esta categoria os restos, as ruínas, os signos (sinais) de uma antiga grandeza, de sítios humanos ou de prósperos comércios do passado.

Em todos estes casos não importa que o signo tenha sido emitido de propósito e que seja o resultado de uma emissão humana. Pode ser signo (sinal) qualquer fato natural, tanto que Morris (1938), ao tentar uma « fundação da doutrina dos signos », afirmava que « alguma coisa é signo só porque é interpretado como signo (sinal) de alguma coisa por algum intérprete » e que « a semiótica, portanto, não tem nada a ver com o estudo de um tipo de objetos especiais, mas com os objetos comuns enquanto (e somente enquanto) participam do processo de semiose».



O que, contudo, parece caracterizar esta primeira categoria de signos é o fato de a relação do estar por basear‑se num mecanismo inferencial: se arrebóis à noite, então sol de manhã. É o mecanismo da implicação do filão: p  q. É nesta categoria de signos que pensavam os estóicos quando afirmavam que o signo é « uma proposição constituída por conexão válida e reveladora do consequente » (Sexto Empírico, Contra os matemáticos, VIII, 245); Hobbes quando definia o signo « o evidente antecedente do consequente, e ao contrário, o consequente do antecedente, quando as mesmas consequências foram observadas antes; e quantas mais vezes foram observadas, menos incerto é o signo » (Leviatã, 1, 3); Wolff quando o definia como « um ente do qual se infere a presença ou a existência passada ou futura de outro ente » (Ontologia, § 952).
2.2 Equivalências arbitrárias
A linguagem comum, porém, circunscreve também uma segunda categoria, ao dizer 'Fare un segno di saluto' (fazer um gesto de saudação), 'Offrire un segno di stima' (dar um sinal de estima), 'Esprimersi a segni' (expressar‑se por sinais). O signo é um gesto emitido com a intenção de comunicar, ou seja, para transferir uma representação própria ou um estado interno para um outro ser. Naturalmente, presume‑se que, para que a transferência tenha êxito, uma determinada regra (um código) habilite tanto o emissor quanto o receptor para entender a manifestação do mesmo modo. Neste sentido, são reconhecidos como signos as bandeiras e os sinais de trânsito, as insígnias, os marcos, as etiquetas, os emblemas, as cores heráldicas, as letras do alfabeto. Neste ponto, os dicionários e a linguagem culta
devem permitir reconhecer como signo também as palavras, ou seja, os elementos da linguagem verbal. Só a custo o homem da rua reconhece as palavras como signos; nos países de língua inglesa, o termo signo leva logo a pensar na gesticulação dos surdos‑mudos (chamada de sign language) e não nas manifestações verbais. Contudo, a lógica quer que se uma placa de sinalização é signo, o seja também uma palavra ou um enunciado. Em todos os casos até agora examinados, a relação entre o aliquid e aquilo pelo qual ele está parece ser menos arriscada do que para a primeira categoria. Estes signos parecem ser expressos não pela relação de implicação, mas pela de equivalência (p =q; Mulher = femme ou woman; mulher = animal, humano, fêmea, adulto), e além disto depender de decisões arbitrárias.
2.3 Diagramas
Para perturbar a clara oposição entre as duas categorias anteriores, eis que se fala também em signos para os chamados 'símbolos' que representam objetos e relações abstratas, como as fórmulas lógicas, químicas, algébricas, os diagramas. Eles também parecem arbitrários como os signos de segunda categoria e, no entanto, manifestam uma sensível diferença. De fato, na palavra /mulher/, se alterarmos a ordem das letras não reconheceremos mais a expressão; se, ao invés, a escrevermos ou a pronunciarmos dos mais variados modos (em vermelho, em letras góticas, com sotaque regional), as variações da expressão não modificarão a compreensão do conteúdo (pelo menos num primeiro e mais elementar nível de significação). Ao contrário, com uma fórmula de estrutura ou com um diagrama, as operações realizadas na expressão modificam o conteúdo; e se estas operações são realizadas segundo determinadas regras, o resultado oferece novas informações sobre o conteúdo. Alterando as linhas de uma carta topográfica é possível prever a provável disposição do território correspondente; traçando triângulos dentro de um círculo, descobrem‑se novas propriedades do círculo. Isto acontece porque nestes signos existem correspondências ponto por ponto entre expressão e conteúdo: de maneira que geralmente são arbitrários, mas contêm elementos de motivação. Consequentemente os signos de terceira categoria, mesmo sendo emitidos por seres humanos e com a intenção de comunicar, parecem obedecer ao modelo dos signos de primeira categoria: p  q. Não são naturais como os primeiros, mas são chamados de 'icônicos' ou 'analógicos'.
10 SEMIÓTICA E FILOSOFIA DA LINGUAGEM
2.4 Desenhos*
Estritamente afim a estes, eis que o dicionário reconhece como signo (e a fala comum permite chamá‑lo de 'desenho') « qualquer procedimento visual que reproduz os objetos concretos, como o desenho de um animal, para comunicar o objeto ou o conceito correspondente ». o que torna comum o desenho e o diagrama? o fato de que nos dois podem operar‑se transformações a fim de prognosticar: desenho um bigode no meu retrato e sei como vou ficar se deixar crescê‑lo. O que os divide? o fato (na certa, apenas aparente) de que o diagrama corresponde a regras precisas e ultracodificadas de produção, enquanto o desenho parece mais 'espontâneo'; e o fato de que o diagrama reproduz um objeto abstrato, enquanto um desenho reproduz um objeto concreto. Mas nem sempre isto é verdade: os unicórnios do brasão real inglês estão por uma abstração, por um objeto fictício, no máximo por uma classe (imaginária) de animais. Por outro lado, Goodman (1968) discorre longamente sobre a difícil diferença entre uma imagem humana e uma imagem de um determinado homem. Onde está a diferença? Nas propriedades intensionais do conteúdo que o desenho reproduz, ou no emprego extensional que se decide dar ao desenho? O problema já está presente (e não de todo resolvido) no Crátilo platônico.
2.5 Emblemas
O uso comum, todavia, chama de signos também aqueles desenhos que reproduzem algo, mas de forma estilizada, de modo que não importa tanto reconhecer a coisa representada, quanto um 'outro' conteúdo pelo qual a coisa estilizada está. A cruz, a meia‑lua, a foice e o martelo estão pelo cristianismo, islamismo, comunismo. Icônicos porque, como os diagramas e os desenhos, se prestam a manipulações da expressão que incidem no conteúdo, mas arbitrários quanto ao grau de catarse que alcançaram. A voz comum chama‑os de 'símbolos', mas no sentido oposto àquele em que são símbolos as fórmulas e os diagramas. Os diagramas estão abertos a muitos usos, mas segundo regras precisas; a cruz ou a meia‑lua são emblemas que remetem a um campo definido de significados indefinidos.
* O termo "desenho" deriva do it. disegno, deverbal de disegnare e, este, do lat. designare, "marcar, traçar, representar, dispor, regular", de signum, "sinal, marca distintiva". (N. do T.)
2.6 Alvos
Finalmente, a linguagem comum fala de 'Colpire nel segno' (atingir o alvo), 'Mettere a segno' (pôr nos eixos), 'Passare il segno' (passar os limites), 'Fare un segno dove si deve tagliare' (fazer uma marca onde se deve cortar). Signos (sinais) como 'alvos', termina ad quae, a serem usados como referência, de modo a proceder 'perfilo e per segno' (de fio a pavio). O aliquid, neste caso, mais do que estar por, está para onde encaminhar uma operação; não é substituição, é instrução. Neste sentido, para o navegante a Estrela Polar é um signo (sinal). A estrutura de remissão é do tipo inferencial, mas com algumas complicações: se agora p, e se portanto você fará,z, então obterá q.
3 Intensão e extensão
Muitas coisas são signo e muito diferentes entre si. Mas nesta avalanche de homonímias instaura‑se outro equívoco. o signo é « res, praeter speciem quam ingerit sensibus, aliud aliquid ex se faciens in cogitationem venire » * (Santo Agostinho, De doctrina christiana, II, 1, 1), ou, como em outro trecho o próprio Santo Agostinho sugere, algo com que se indicam objetos ou estados do mundo? o signo é um artifício intensional ou extensional?
Procuremos agora analisar um característico emaranhado semiótico. Uma bandeira vermelha com foice e martelo equivale a comunismo (p=q). Mas se um sujeito carrega uma bandeira vermelha com foice e martelo, então é provavelmente um comunista (p  q). Suponhamos ainda que eu afirme /Em casa tenho dez gatos/. Qual é o signo? A palavra /gatos/ (felinos domésticos), o conteúdo global do enunciado (em minha residência hospedo dez felinos domésticos), a referência ao fato de que acontece que existe no mundo da experiência real uma casa específica onde há dez gatos específicos? Ou ainda o fato de que se em casa tenho dez gatos, então devo ter espaço suficiente, então é difícil que possa ter também um cachorro, e então sou um zoófilo?

Isto não basta, mas em todos estes casos é signo a ocorrência concreta ou o tipo abstrato? A emissão fonética [gato] ou o modelo fonológico e lexical /gato/? o fato de que eu tenha hic et nunc dez gatos em casa (de onde todas as inferências possíveis) ou a classe


* “coisa que por si faz vir ao pensamento alguma outra coisa além da impressão que causa aos sentidos” N. do T.)

de todos os fatos desta natureza, motivo pelo qual quem quer que tenha em casa dez gatos dará signo (mostras) de zoofilia e das dificuldades de ter um cachorro?

Neste labirinto de problemas, pareceria realmente oportuno eliminar a noção de signo. Para lá de uma função de estar por, todas as outras identidades desaparecem. A única coisa que parece ficar fora de discussão é a atividade de significação. Parece comum aos humanos (e a zoossemiótica discute se isto não acontece também a muitas espécies animais) produzir fatos físicos ‑ ou ter a capacidade de produzir classes de fatos físicos ‑ que estão em substituição de outros fatos ou entidades, físicos ou não, que os humanos não são capazes de produzir no ato da significação. Mas, neste ponto, a natureza destes aliquid e o modo do estar por, assim como a natureza daquilo a que se remete, se quebrariam numa multiplicidade não componível de artifícios. Os processos de significação seriam o artifício indefinível que os seres humanos, em sua impossibilidade de ter o mundo inteiro (real e possível) ao alcance das mãos, poriam em ação para suprir a ausência dos signos.

Conclusão atraente mas 'literária'. Ela só deslocaria o problema: como funcionam de fato os processos de significação? E são todos da mesma natureza? A discussão sobre a morte do signo versa sobre a dificuldade de responder a este problema sem que a semiótica possa construir para si um objeto (teorético) de algum modo definível.


4 As soluções elusivas
Alguns afirmam que o termo 'signo' condiz com as entidades linguísticas convencionadas, emitidas ou emissíveis intencionalmente com o fim de comunicar, e organizadas num sistema descritível segundo categorias precisas (dupla articulação, paradigma e sintagma etc.). Todos os outros fenómenos que não podem ser assumidos nas categorias da linguística (e que não são claros sucedâneos das unidades linguísticas) não são signos. Serão sintomas, indícios, premissas por inferências possíveis, mas são de pertinência de uma outra ciência (Segre 1969, p. 43). Outros tornam uma decisão análoga, mas consideram a outra ciência mais geral do que a linguística, que, de algum modo, abarca. Malinberg (1977, p. 21), por exemplo, decide chamar de 'símbolo' todo elemento que representa uma outra coisa e reservar o termo 'signo' «para as unidades que, como os signos da linguagem, são duplamente articuladas e que devem sua existência a um ato de significação » (onde 'significação'
SIGNO E INFERÊNCIA
está por comunicação intencional). Todos os signos são símbolos, mas nem todos os símbolos são signos. A decisão, moderada, contudo deixa indeterminado a) em que medida os signos têm parentesco com os símbolos, e b) que ciência tem de estudar os símbolos e segundo que categorias. Além disso, neste contexto, não é esclarecida a diferença entre extensão e intensão, embora pressupondo que a ciência dos signos seja de natureza intensiva.

A distinção das áreas, às vezes, é proposta com fins epistemológicos mais radicais. Vejamos esta intervenção de Gilbert Harman: «A fumaça significa (means) o fogo e o termo combustão significa fogo, mas não no mesmo sentido de significa. O termo significar é ambíguo. Dizer que a fumaça significa o fogo é dizer que a fumaça é um sintoma, um signo (sinal), uma indicação, uma prova do fogo. Dizer que o termo combustão significa fogo quer dizer que as pessoas usam aquele termo para significar fogo. Além disto, não há uma acepção comum do termo significar em que a imagem de um homem signifique tanto um homem quanto aquele homem. Isto sugere que a teoria dos signos de Peirce abarca pelo menos três assuntos bastante diferentes: uma teoria do significado entendido (intended meaning), uma teoria da prova e uma teoria da representação pictórica. Não há nenhuma razão para pensar que estas teorias tenham princípios comuns» (1977, p. 23). A argumentação de Harman choca‑se, antes de mais nada, com a prática linguística: por que as pessoas, há mais de dois mil anos, chamam de signos fenómenos que deveriam ser subdivididos em três grupos diferentes? Harman poderia responder que se trata de um caso normal de homonímia, assim como o termo /bachelor/ significa bacharel, cavaleiro jovem que servia sob a bandeira de outro, solteiro e jovem foca macho. Mas o filósofo da linguagem interessado nos usos linguísticos deveria interrogar‑se precisamente sobre as razões destas homonímias. Jakobson sugeriu que um único núcleo semântico profundo constitui a base da aparente homonímia de /bachelor/: trata‑se de quatro casos em que o sujeito não conseguiu completar o próprio currículo, social ou biológico. Qual é a razão semântica profunda da homonímia de /signo/? Em segundo lugar, a objeção de Harman choca‑se com o consensus gentium da tradição filosófica. Dos estóicos à Idade Média, de Locke a Peirce, de Husserl a Wittgenstein, não só se procurou o fundamento comum entre a teoria do significado linguístico e a teoria da representação 'pictórica', como também entre a teoria do significado e a teoria da inferência.


2.4 SEMIÓTICA E FILOSOFIA DA LINGUAGEM
Enfim, a objeção choca‑se com o instinto filosófico, que não pode ser mais bem definido do que nos termos com que Aristóteles fala da 'maravilha' que leva os homens a filosofar. /Tenho em casa dez gatos/: já dissemos, o significado é o conteúdo que é comunicado (intended meaning) ou o fato de que tenho dez gatos (do que se inferem outras propriedades que tenho)? Pode‑se responder que o segundo fenómeno não tem nada a ver com o significado linguístico e pertence ao universo das provas que se podem articular usando os fatos que as proposições representam. Mas o antecedente evocado pela linguagem é mesmo tão facilmente separável da linguagem que o representou? Ao enfrentarmos o problema do oneiov (seméion) estóico, veremos quão ambígua e indestrinçável é a relação intercorrente entre um fato, a proposição que o representa e o enunciado que expressa essa proposição. Em todo caso, o que torna os dois problemas tão dificilmente destrinçáveis é exatamente o fato de que em ambos os casos aliquid stat pro aliquo. O fato de que o modo de estar por mude não exclui que nos encontremos diante de uma dialética singular de presenças e ausências em ambos os casos. Não é esta uma razão suficiente para nos perguntarmos se não é um mecanismo comum, por mais profundo que seja, a presidir os dois fenómenos?

Um sujeito usa na lapela um emblema com uma foice e um martelo. Estamos diante de um caso de 'significado entendido' (aquele sujeito quer dizer que é comunista), de representação pictórica (aquele emblema representa 'simbolicamente' a fusão entre operários e camponeses) ou de prova inferencial (se usa aquele emblema, então é comunista) ? o mesmo fato insere‑se sob a égide daquelas que para Harman são três teorias diferentes. Ora, é verdade que um mesmo fenômeno pode ser objeto de teorias bem diferentes: aquele emblema recai na esfera da química inorgânica pelo material com que é feito; da física, enquanto sujeito à lei da gravidade; do marketing, enquanto produto industrial comerciável. Mas, no caso examinado, ele é, ao mesmo tempo, objeto de três (supostas) teorias do significado, da representação e da prova, logo e somente enquanto ele não está por si mesmo: não está por sua composição molecular, por sua tendência a cair para baixo, por sua possibilidade de ser empacotado e carregado, mas está em virtude de quanto está fora dele. Neste sentido causa 'maravilha' e torna‑se o próprio objeto abstrato da própria questão teórica.


5 As desconstruções do signo linguístico
As críticas a seguir têm uma característica em comum: em primeiro lugar, também quando falam de signo em geral e ficam de
olho em outros tipos de signos, fixam‑se na estrutura do signo linguístico; em segundo lugar, tendem a dissolver o signo em entidade de maior ou menor alcance.
5.1 Signo x figura
O signo é uma entidade demasiado ampla. O trabalho realizado pela fonologia sobre os significantes linguísticos, vistos como o efeito da articulação de unidades fonológicas menores, começa com a detecção dos otoixeia (stoikéia) estóicos, alcança a sua maturidade com a detecção hjelmsleviana das figuras e é coroado pela teoria jakobsoniana dos traços distintivos. Este resultado teórico, de per si, não questiona a noção de signo linguístico, porque a unidade expressiva, embora secionável e articulável, é ainda vista como integralmente correlata ao próprio conteúdo. Mas com Hjelmslev abre‑se a possibilidade de detectar figuras também no nível do conteúdo.

Falta decidir (e falaremos disto no segundo capítulo) se estas figuras de conteúdo pertencem a um sistema finito de universais metassemânticos ou se são entidades linguísticas que, em turnos, intervêm para esclarecer a composição de outras entidades linguísticas. Mas a descoberta de uma articulação do conteúdo em figuras leva Hjelmslev a afirmar que « as línguas (...) não podem ser descritas como meros sistemas de signos; segundo o fim que geralmente lhes é atribuído, elas são sobretudo e em primeiro lugar sistemas de signos; mas, segundo a sua estrutura interna, elas são sobretudo e em primeiro lugar algo de diferente, isto é, sistemas de figuras que podemos usar para construir signos. A definição da língua como sistema de signos, portanto, revelou‑se, a uma análise mais atenta, insatisfatória. Ela só diz respeito às funções externas da língua, a suas relações com os fatores não linguísticos que a circundam, e não a suas funções internas características » (1943).



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