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Também a ordem do simbólico que constitui o objeto da Filosofia das formas simbólicas (1923) de Ernst Cassirer é a ordem do semiótico, e ele o diz expressamente. A ciência não espelha a estrutura do ser (kantianamente afastado para uma zona de inacessibilidade própria da Coisa-em-si) mas estabelece os próprios objetos de conhecimento e, em conclusão, o tecido do mundo conhecido, «como símbolos intelectuais livremente criados». Cassirer refere- se à concepção de Hertz (e de Helmholtz) dos objetos científicos como símbolos ou simulacros «tais que as consequências idealmente necessárias das imagens são sempre por sua vez as imagens das consequências naturalmente necessárias dos objetos representadoso. Poderia parecer que aqui se assimila o símbolo ao modelo ou ao diagrama - signos regidos pela ratio difficilis e comumente chamados 'analógicos' - mas na realidade o escopo de Cassirer é mais amplo. Ele assimila a própria teoria kantiana do conhecimento (reinterpretada em sentido não abstratamente transcendental mas historicamente culturológico) a uma teoria semiótica: a atividade simboli- zante (que se exercita antes de mais nada na linguagem verbal, mas também na arte, na ciência e no mito) não serve para nomear um mundo já conhecido, mas para produzir as mesmas condições de cognoscibilidade daquilo que é nomeado. « O símbolo não é um

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revestimento meramente acidental do pensamento, mas o seu órgão necessário e essencial [... ] Assim todo pensamento verdadeiramente rigoroso e exato encontra seu ponto firme apenas na simbólica, na semiótica, sobre a qual se apóia» (ibidem).

Próximo do mundo dos símbolos linguísticos e conceptuais está << não comparável a ele e, entretanto, a ele afim por origem espiritual, aquele mundo de formas que é criado pelo mito ou pela arte>> (ibidem). Cassirer, portanto, reconhece diferenças de articulação entre diferentes formas simbólicas «em parte de natureza conceptual, em parte de natureza puramente intuitiva» (ibidem), mas subsume todas essas diferenças, precisamente, sob a categoria do sim-

bólico-semiótico.


A mesma unificação de semiótico e simbólico encontra-se, malgrado as diferenças terminológicas que serão vistas, em Julia Kristeva. Ela (cf. em particular Kristeva 1974) contrapõe o semiótico ao simbólico. Mas o semiótico, em tal perspectiva, é um conjunto de processos primários, descargas energéticas, pulsões que articulam uma chôra, isto é, (< uma totalidade não expressiva constituída pelas pulsões e por sua estase numa motilidade tão viva quanto regu- lamentada». O semiótico não pertence à ordem do significante, embora seja gerado em vista da posição significante. A chôra « suporta analogias apenas com o ritmo vocal ou cinésico o (ibidem); submetida a regulação, exibe descontinuidades organizáveis, vozes, gestos, cores já coordenados segundo deslocamento e condensação. Sobre essa base instaura-se o simbólico, em sentido afim à noção lacaniana: ele resulta da relação social com o outro. Diante da imago da fase do espelho, a palavra <) (ibidem), ou a posição do falo como representante simbólico da falta experimentada com a descoberta da castração, todas essas posições, que são ao mesmo tempo proposição e juizo, assinalam o limite entre semiótico e simbólico (ibidem). « Parece-nos que o termo simbólico designa adequadamente essa unificação sempre cindida, produzida por uma ruptura e impossível sem ela» (ibidem). O simbólico é o momento da linguagem «com toda a sua estratificação vertical (referente, significado, significante) e todas as consequentes modalidades da articulação lógico-semântica (ibidem).

Aqui se vê que o semiótico kristeviano é uma espécie de limite inferior da semiótica (lugar de uma semiótica celular, de uma semiótica animal) enquanto o simbólico é aquilo que se poderia chamar semiótico, em toda a variedade das suas manifestações. Haveria no


máximo que se perguntar se para Kristeva, como para Lacan, muitas modalidades de produção sígnica (reconhecimento de traços, de indícios, de vetores [cf. Eco 1975]) não se realizam numa zona comprometida entre imaginário (e semiótico) e simbólico. O que é certo é que o simbólico de Kristeva não é o de muitos que atribuem a simbolicidade à arte: o momento artístico é para Kristeva no máximo aquele em que o símbolo, conscientemente, deixa aflorar o semiótico; o momento em que o semiótico dilacera o simbólico e estimula suas práticas de autodestruição. Momentos, aliás, decisivos no nível simbólico porque o semiótico sem simbólico produz a pura e simples deriva neurótica. O semiótico controlado pelo simbólico remodela mediante a prática artística a ordem do simbólico, renovando-o (Kristeva 1974). É, portanto, claro que aquilo que em poesia se chama símbolo e em outras teorias é o aflorar das potências simbólicas da linguagem (de que se falará) é para Kristeva o momento artístico (transgressivo) e não o momento socializado do seu 'simbólico'.


2.2 O símbolo corno convencional-arbitrário

Vimos no primeiro capítulo (§ 6) como já Aristóteles reservava o termo /símbolo/ para os signos linguísticos enquanto convencionais e arbitrários. Esse uso nunca se perdeu totalmente e na tradição matemática e lógica (e também em outras ciências exatas) se usou /símbolo/ para expressões convencionalizadas como os símbolos químicos ou algébricos.

Peirce define como símbolo todo signo ligado ao próprio objeto em virtude de urna convenção. Enquanto o índice se refere ao próprio objeto em virtude de caracteres próprios (similaridade), o símbolo «é um signo que se refere ao objeto que ele denota em virtude de uma lei, habitualmente uma associação de idéias gerais» (1903b, CP 2.249). A escolha terminológica peirciana deve-se provavelmente ao fato de que ele já tinha decidido usar /signo/ referindo- se ao genus generafissimum e, por isso, devia encontrar uma denominação diferente para esse tipo específico, a que pertencem também os signos linguísticos.

É, no entanto, verdade que nos símbolos algébricos ou lógicos ou químicos há, para Peirce, também aspectos icônicos, dado que sua forma representa relações lógicas (e, por isso, poder-se-ia falar, em termos de Eco 1975, de relação de ratio difficilis); mas é também verdadeiro que, com efeito, para Peirce, nenhum signo é em si mesmo apenas um símbolo, um ícone ou um índice, mas contém, em proporções diversas, elementos de todas as três modalidades. Em todo caso, é certo que em Peirce o termo /símbolo/ não


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sugere nunca a presença de um significado vago ou impreciso. Seu uso, pois, porquanto legítimo e legitimado por uma certa tradição, afasta-se radicalmente daquele que aprofundaremos neste capítulo.

É curioso que exatamente o uso peirciano convide a expelir da classe dos símbolos muitas configurações (emblemas, bandeiras, símbolos astrológicos) que outros chamam precisamente símbolos. E é curioso porque, embora essas configurações tivessem originalmente alguma motivação 'icônica', depois têm funcionado como símbolos no sentido peirciano do termo, isto é, como dispositivos totalmente convencionais (cf. o conceito de estilização em Eco 1975).

É provável que nas origens o signo alquímico para o Balneum Mariae ou o signo astrológico para o Leão manifestassem alguma relação mais ou menos 'analógica' com seu conteúdo, mas é igualmente indubitável que hoje valem como signos convencionais (símbolos no sentido peirciano) e prova disso é que são completamente incompreensíveis a quem não possua seu código. Naturalmente, como se verá quando se falar de sentido indireto, cada um pode reagir diante de um signo convencional como diante de um teste psicológico, preenchendo-o de significados idiossincráticos. Mas essa capacidade de transformar todo signo em símbolo bastante vago é decisão pragmática que pode ser descrita nas suas possibilidades teóricas, mas não normalizada. O fato de que alguém possa reagir diante do signo da raiz quadrada (que para Peirce era um símbolo) vendo 'dentro' dele indizíveis significados místicos, é um fato emi- nentemente pessoal, frequentemente de competência do neurologista.


2.3 O simbólico como signo regido pela ratio difficilis

Totalmente alternativas à definição peirciana são as definições de Saussure e Hjelmslev. Saussure (1906-11) chama /símbolo/ aquilo que Peirce chamaria /ícone/; Hjelmslev por seu turno chama simbólicos os sistemas como os diagramas e os jogos e põe entre os sistemas simbólicos todas as estruturas interpretáveis mas não biplanares, entre as quais também oas entidades que são isormorfas a sua interpretação, que são representações figurativas ou emblemas, por exemplo o Cristo de Thorvaldsen como símbolo da compaixão, a foice e o martelo como símbolo do comunismo, a balança como símbolo da justiça, ou a onomatopéia na esfera linguística (1943).

Os signos de que aqui se fala são aqueles em que a expressão reproduz, como base em algumas regras de projeção, algumas das propriedades que são reconhecidas no conteúdo, e é este o procedimento de raflo difficilis (Eco 1975). Essa acepção é próxima daquela

predominante em lógica formal, em álgebra e em várias outras ciências e explica por que em todos esses casos se tenha falado de /símbolos/. Tinha-se de fato presente uma relação de ratio difficilis em virtude da qual toda manipulação operada sobre a expressão implica transformações no nível do conteúdo. Assim, se numa carta geográfica altero a fronteira entre a França e a Alemanha, posso prever, por simples manipulação da expressão, o que aconteceria se no mundo possível (conteúdo) a definição geopolítica dos dois países fosse diferentemente formulada.

Entende-se agora por que se fala de 'método simbólico' em eletrotécnica referindo-se às correntes alternadas sinusoidais. Proposto por Seinmetz e Kennelly (e não por acaso introduzido por Helmholtz, citado por Cassirer) o método funda-se na possibilidade de introduzir uma correspondência biunívoca entre o conjunto das funções sinusoidais da mesma frequência (exprimíveis mediante 'símbolos' bastante convencionados e de modo algum 'analógicos') e o conjunto dos pontos do plano de Arnaud e Gauss, onde se trata de vetores rotacionais. Uma rotação de vetor implica uma função sinusoidal diferente. Mas exatamente exemplos do gênero sugerem que nem todas essas relações fundadas na ratio difficilis podem ser chamados símbolos no sentido estrito que se está procurando definir: aqui a relação é de todo modo codificada com base em regras projetivas, estritamente codificada, e o conteúdo a que a expressão remete não é nunca vago e nebuloso, nem existe a possibilidade de interpretações conflitantes e alternativas. A linha melódica representada no pentagrama reproduz algumas propriedades do som a que remete: de fato, mais a nota escrita está no alto do pentagrama mais se remete a um som de maior altura. Mas não há liberdade interpretativa. Existe uma regra proporcional que faz corresponder aos pontos de uma escala ascendente no pentagrama (altura dimensional) aumentos de frequência (altura fônica).

Eis por que o que Saussure e Hjelmslev chamam /símbolos/ constitui ainda um gênero bastante amplo cujas espécies sotopostas; podem diferir por muitas características contrastantes.


2.4 O simbólico como sentido indireto e 'figurado'

Uma chave semântica para identificar o simbólico poderia ser: temos símbolo toda vez que uma dada sequência de signos sugere, para além do significado imediatamente atribuível a eles com base num sistema de funções sígnicas, um significado indireto. 'Pretendo fazer uma viagem à Polônia': pronunciada por João Paulo II, essa frase teria indubitavelmente um significado denotativo interpretável

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(ou parafraseável) como 'Proponho-me partir do Vaticano e ir por um certo período à República Popular Polonesa'; mas qualquer um admitiria que essa frase tem um sentido segundo ou indireto, diversamente interpretável. Em outras palavras, um papa não se desloca por acaso. A viagem que o papa se propõe durará poucos dias mas seus efeitos irão além das modificações físicas tornadas possíveis por esse deslocamento. É o que se entende quando se sugere que a viagem pontifícia tem um valor 'simbólico'.

Note-se que sentido indireto e relação de ratio difficilis não coincidem. No exemplo da viagem pontificia, ou da afirmação que a anuncia, temos sentido indireto provocado por uma formulação verbal regida por relação de ratio difficilis. Por outro lado, o mapa do metrô de Paris é constituído segundo ratio difficifis, mas pode funcionar de per si sem que lhe sejam atribuídos sentidos indiretos: ele representa o estado (ou o projeto de um estado possível) das linhas subterrâneas numa dada metrópole. Como todo signo, pode produzir interpretações sucessivas segundo inferências: se modificasse o mapa de tal modo, poderia prever o que aconteceria nos subterrâ- neos de Paris e como se modificariam os fluxos de deslocamento das massas parisienses nas horas de maior tráfego... É diferente o caso da imagem da serpente que morde a própria cauda: qualquer destinatário deveria ser capaz de reconhecer que a imagem representa a serpente numa posição insólita e, por causa dessa estranha posição, deveria inferir daí que talvez a imagem queira dizer alguma outra coisa. Por isso, no sentido indireto dever-se-ia distinguir a possibilidade normal de interpretação ulterior do sentimento da supra-significação que colhe um destinatário diante de um signo cuja emissão parece bizarra ou pouco justificável em certas circunstâncias.

Todorov (1978) compreende muito bem essa distinção mas decide reunir todos os casos de sentido indireto sob a rubrica do simbólico. Há para Todorov, em todo discurso, uma produção indirecta de sentido. Ela manifesta-se na natureza da asserção, em actos linguísticos em que aparentemente se sugere mas se quer dar a entender que se ordena; em elementos paralinguísticos que acrescentam uma conotação ulterior a tudo quanto é dito linguisticamente; em frases dirigidas com um sentido a X para que Y entenda uma outra coisa... A tipologia pode ser muito ampla, exceto se surgir a suspeita de que essa produção de sentidos segundos seja fundadora para todo sistema semiótico. Em todo caso o é para a linguagem verbal, a que Todorov reserva sua análise. O signo faz sempre conhecer alguma coisa a mais mediante a atividade da interpretação,

que é consubstancial à atuação do conteúdo de toda expressão. Toda palavra abre-se sempre para um sentido segundo porque comporta numerosas conotações, frequentemente contraditórias. Toda expressão linguística veicula descrições de fatos e esses fatos podem tornar-se signo de alguma outra coisa mediante complexos mecanismos de inferência. Todo termo e todo enunciado introduzem no círculo co-textual vínculos de pressuposições. Existe uma atividade de atualização da manifestação linear que é sempre cooperação para fazer o texto dizer o que na superfície não diz, mas de algum modo pretende fazer saber ao próprio destinatário (cf. Eco 1979). Basta que eu diga 'Faz frio neste cômodo' para que minha afirma- ção possa ser entendida como a ordem ou o pedido de fechar a janela. A linguagem é por natureza produtora de sentidos segundos ou indiretos. Por que chamar 'simbólica' essa sua propriedade? Todorov é o primeiro a reconhecer (1978, p. 16) que signo e símbolo não se distinguem porque um é arbitrário e o outro, motivado. Ele não pode também opor a inexauribilidade do símbolo à univocidade do signo porque «se faz, de uma das consequências do processo, a descrição do próprio processo>>.

Mas então por que chamar simbólico o que é semiótico? Não se trata de pura questão terminológica. De fato na sua tipologia Todorov é obrigado a pôr sob a mesma égide do simbólico fenômenos distintos como a) fenômenos de simples implicatura, pelos quais uma frase dita fora de lugar, ou com uma insistência exagerada no fornecimento de informações, faz pensar que o falante pretenda sugerir alguma outra coisa; e, de outro lado, b) típicos fenômenos de 'simbolismo' poético em que uma imagem emerge no contexto e torna-se carregada de infinitos significados possíveis, produzindo interpretações infinitas. Certo, Todorov subsume sob o simbólico tudo o que estimula (ou que é produzido por) interpretação. Mas este é um traço característico do semiótico em geral.

Todorov está consciente de ter relações com semelhanças de família (embora não use esse termo): «Não tenho uma nova "teoria do símbolo" ou uma "nova teoria da interpretação" a propor [... ] Procuro estabelecer um quadro que permita compreender como tantas teorias diferentes, tantas subdivisões irreconciliáveis, tantas definições contraditórias puderam existir [... ] Não procuro definir o que seja um símbolo, o que seja uma alegoria, nem como encontrar a boa interpretação: mas entender e, se possível, manter o que é complexo e plural>> (ibidem, p. 21). Entre todos os bons projetos para justificar semelhanças de família, é ainda um dos mais ecumê-


nicos: é simbólico tudo aquilo que permite -a interpretação e a realização de um sentido indireto. Mas, como se disse, a categorização é ainda muito genérica. Essa teoria do símbolo, que se nega em sua própria constituição, diz apenas que, uma vez fechado o dicionário e começado a falar, tudo na linguagem (e certamente também nas linguagens não verbais) é simbólico. É então simbólica a prática textual, ou é simbólica a comunicação no seu conjunto.

Se é 'simbólica' toda prática textual em geral, com maior razão o será a prática textual retórica. Com essa expressão se entendem aquelas estratégias textuais regidas por regras com base nas quais se significa indiretamente mediante substituições de termos ou de porções textuais mais amplas: com a metáfora, substituindo um termo por outro com que tem um ou mais semas em comum, com a metonímia, substituindo um lexema por um dos próprios semas ou vice-versa, com a ironia, afirmando x mediante a afirmação (cuja artificiosidade está de algum modo assinalada) de não-x, e assim por diante.

As substituições retóricas são indubitavelmente um caso típico de sentido indireto. Aparentemente a linguagem diz uma coisa: mas aquilo que a linguagem diz num nível denotativo parece contradizer ou as regras lexicais ou a nossa experiência do mundo (e, por isso, em geral, alguma regra enciclopédica: cf. o verbete <>). /O automóvel devorava.a estrada/ é uma expressão que contrasta com as regras, denominadas de subcategorização estrita, que atri- buem a /devorar/ um objeto orgânico* e um sujeito igualmente orgânico, enquanto atribuem a /automóvel/ um sema ou propriedade de não organicidade. Como a frase deveria ser 'gramaticalmente' marcada com asterisco, supõe-se que ela veicule um outro sentido. Daí o processo de interpretação com base nas regras retóricas. /João entrou no quarto: um bosque ardia num canto/: a expressão contrasta com a nossa experiência do mundo como foi registrada pela enciclopédia vigente. Nos quartos não há bosques. Por isso, se a frase não é falsa, /bosque/ deve significar alguma outra coisa: tratar- se-á de uma metáfora, /bosque/ está para grande quantidade de lenha na lareira. A motivação pragmática que estimula a interpretar retori- camente é que, se se aceitasse o sentido 'literal' ou denotativo, encontrar-nos-íamos diante de uma falsidade. O impulso para procurar chaves metafóricas nasce do fato de que a expressão metafórica viola a máxima da qualidade das regras conversacionais de Grise (1967).

Orgânico é aquilo que se refere ao mundo vegetal ou animal. (N. do T.)

O sentido indireto é elaborado e atualizado de modo a jogar fora o sentido direto.'Pode-se jogá-lo fora porque se revelaria falso ou porque se mostra muito genérico (sinédoques generalizantes: uma expressão como /a criatura/ é muito ampla, será preciso vê-Ia como sinédoque para um outro ser vivo, homem ou animal, de que o co-texto fala). /O discurso da coroa/ é expressão falsa, as coroas não falam. Por isso, será uma metonímia. E assim por diante. Mas a regra de desambigílização retórica quer que, uma vez descoberto o mecanismo de substituição, o conteúdo atualizado não seja vago, mas preciso. A metáfora enriquece nosso conhecimento da enciclopédia porque incita a descobrir novas propriedades das entidades em jogo, não porque nos faça ficar numa zona interpretativa vaga em que não se sabe que entidades estão em jogo. Uma vez decidido que /cisne/ está para «mulher», poder-se-á investigar Iongamente por que uma mulher pode ser também um cisne, mas permanece indubitável que aquele cisne estava por uma mulher.

Não é proibido chamar 'simbólica' essa propriedade das substituições retóricas, mas ainda uma vez não se identificou uma nova modalidade de produção sígnica, simplesmente se enriqueceu o dicionário de um novo sinônimo, e com pouco proveito.

Essas observações são importantes para entender as razões pelas quais Freud (1899) fala de 'símbolos oníricos' e para decidir que e em que sentido os símbolos freudianos não são símbolos no sentido estrito que se está procurando caracterizar. Tendo explicado que os sonhos constituem imagens substitutivas de alguma outra coisa, Freud estuda como o conteúdo latente (ou inspirações do sonho) se organiza, mediante o trabalho onírico, em discurso ou conteúdo manifestado do sonho. Ele fala explicitamente de interpretação simbólica e de símbolos: uma inspiração latente se manifesta como que deformada e dissimulada (ibidem, cap. IV) por obra de uma censura; o sonho é a satisfação (mascarada) de um desejo reprimido, afastado.

Freud recusa-se, todavia, a interpretar, segundo a tradição clássica, o sonho como uma alegoria acabada e orgânica. Trata-se de isolar pedaços e fragmentos, um de cada vez, e trabalhar sobre sua misteriosa mecânica de substituição; a alegoria tem uma lógica, o sonho não. Ele opera por condensação e deslocamento. Em outras palavras, embora Freud não o diga explicitamente nessa passagem, ele tem uma retórica, porque opera mediante os mecanismos típicos da transformação trópica. No sonho da monografia botânica (ibidem), o símbolo botânico condensa Gãrtner, Flora, as flores esqueci-

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das, as flores preferidas da esposa, um exame universitário esquecido: «Cada elemento do conteúdo onírico se revela como que "sobredeterminado", como que representado mais vezes nas inspirações do sonho>>, enquanto «as inspirações consideradas separadamente são representadas também no sonho por vários elementos» (ibidem). Num outro sonho, Irma tornar-se-á uma imagem coletiva com traços contraditórios. Freud sabe que a imagem onírica é corre- lacionada ao próprio conteúdo por ratio difficilis: ela, de fato, realiza, manifesta algumas propriedades que de algum modo reproduzem propriedades do conteúdo. Mas como em todos os casos de ratio difficilis a projeção é de propriedades selecionadas do conteúdo para propriedades da expressão, e no sonho o ato de tornar pertinentes propriedades a conservar segue uma hierarquia regulada por exigências de plasticidade, concretude, representabilidade (ibidem).

Freud sabe que os símbolos oníricos não se apresentam como os signos da taquigrafia, com um significado fixado de uma vez por todas, mas sente a necessidade de fixar o símbolo, ancorar a expressão num conteúdo discursivo. Para ancorar os próprios símbolos Freud recorre a duas decisões teóricas: como muitos símbolos nascem por razões pessoais, idiolectais, é preciso interpretá-los fundando-se nas associações do paciente; mas para muitos outros «esse simbolismo não pertence exclusivamente ao sonho, mas à representação inconsciente, sobretudo do povo, e encontramo-lo mais acabado do que no sonho, no folclore, nos mitos, nas lendas, nas locuções, na sabedoria dos provérbios e nos compassos populares correntes >> (ibidem). É verdade também que existe sempre uma plasticidade daquele que sonha, que pode submeter ao uso simbólico as coisas mais variadas, mas, por outro lado, Freud preocupa- se em várias ocasiões nas sucessivas edições da Interpretação dos sonhos (2ª ed. 1909, 3 edª. 1911, 5ª ed. 1919) em efetuar a construção de um código do simbolismo onírico com base no qual guarda-chuvas, bastões, viagem de trem, escadas, e assim por diante, tudo tenha um significado reconhecível.

Nessa pesquisa Freud parece um tanto quanto dividido entre duas alternativas: admitir um código onírico significa aproximar- se da hipótese de um inconsciente coletivo, como fará Jung: mas Freud intui que seria preciso voltar assim atrás, caracterizando alguma coisa verdadeiramente universal e coletiva que, como em Jung, não poderá mais ser fixada por um código. De outro lado, fixar um código significa reconhecer uma lei que regule a semântica



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