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Uma observação inevitável é que, se a enciclopédia fosse muito ampla, não haveria diferença entre este tipo de metonímia e a metáfora. Porque se há (como veremos) metáfora quando, com base numa identidade de metonímias; (duas propriedades iguais em dois sememas diferentes), se substitui um semerna pelo outro - enquanto a metonímia é a substituição de um sema pelo semema e vice-versa - então, numa representação enciclopédica ampla, se deveria registrar também que o semerna x tem a propriedade de ter uma propriedade igual ao semema y. Branco é o pescoço do cisne, branco é o pescoço da mulher: sobre esta identidade substitui-se a mulher por cisne. Mas, numa boa representação enciclopédica, se deveria ter entre as propriedades (pelo menos conotadas) do pescoço feminino também a de ser «como de cisne», portanto a substituição seria de sema para semema. Acontece que a enciclopédia nunca é tão exaustiva, ou seja, torna-se exaustiva ao ser paulatinamente construída. E as metáforas servem exatamente para isto, ou seja, as metáforas são metonímias que se desconhecem e que um dia se tornarão metonímias.


12.4 Metáforas banais e metáforas «abertas»

Tomemos dois exemplos elementares, aliás primitivos, dois kenningar islandeses de que fala Borges (1953): /A árvore de sentar/, ou seja, o << banco >>, e /A casa dos pássaros/, ou seja, o «ar». Examinemos o primeiro. O primeiro termo, sobre o qual não há dúvidas, é /árvore/.

Como é evidente, nesta primeira fase não sabemos ainda quais são os semas que devemos ter contextualmente presentes. A enciclopédia (reserva potencial de informação) permitiria preencher indefinidamente esta representação. Mas o contexto fornece também a indicação /de sentar/. Aleticamente falando, a expressão é ambígua. Não nos sentamos em árvores, ou seja, podemos sentar em cada ramo de cada árvore, mas então não se entende por que foi usado o artigo definido /a/ (que segundo Brooke-Rose é indicador de uso metafórico). Esta árvore, portanto, não é uma árvore. Deve-se encontrar algo que tenha algumas das propriedades da árvore, mas que perca outras, impondo à árvore propriedades que ela não tem. Estamos aqui diante de um trabalho de abdução (Não por acaso o kenning é uma adivinhação baseada numa metáfora 'difícil'). Uma série de hipóteses leva a localizar no tronco da árvore a «verticaIidade», de modo a procu-

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rar algo que seja igualmente de madeira, mas «horizontal». Tenta-se uma representação de /sentar/. Procura-se entre os Objetos nos quais um Agente se senta os que têm o tema «horizontal». Um islandês primitivo, ou alguém que sabe que a expressão deve ser remetida ao código da civilização islandesa primitiva, localiza imediatamente o banco.

A marca em itálico é a única igual a uma de /árvore/. As outras são opostas ou, pelo menos, diferentes. Efetua-se agora uma segunda operação. Aventa-se a hipótese de que ambas as unidades culturais em jogo podem fazer parte de uma mesma árvore de Porfirio.

Eis que árvore e banco se identificam num nó alto da árvore (ambos são vegetais) e se opõem no nó mais baixo (um é trabalhado, a outra não). A solução cria uma condensação através de uma série de deslocamentos. Cognoscitivamente falando não se aprende muito, a não ser que os bancos são feitos de madeira trabalhada. Numa representação enciclopédica muito rica, teríamos tido entre as marcas de /árvore/ também a «serve para construir bancos». A metáfora é pobre.

Passemos ao segundo kenning, /A casa dos pássaros/.

Vamos precisar duas coisas. Obviamente, já foram localizados alguns semas que parecem pertinentes (efeito já de uma série de hipóteses). As matérias foram caracterizadas segundo uma lógica dos elementos (terra, ar, água e fogo) e neste ponto detectou-se uma contradição entre a qualidade terrestre da casa e a finalidade aérea

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do pássaro. Note-se que, por inclusão semântica de alguns tipos, o sema << ar >> é dado também pela forma «alada» o do pássaro. Trata- se de hipóteses ousadas, mas é fato que esta metáfora é mais 'difícil' do que a outra e, como veremos, mais 'poética'. Mas, neste ponto, pode-se tentar representar /ar/, levando em conta obviamente o campo sêmico aberto por /casa/:



É óbvio que entre as finalidades e as funções do ar foi localizada a de «desabrigo» só porque em /casa/ existia um sema «abrigo». Neste ponto, porém, parece que nesta metáfora todos os semas, na comparação casa/ar, estão em oposição. O que há de semelhante? Uma difícil construção em árvore no sema contextual «elementos», pela qual as duas unidades em jogo encontram um nó comum - bem no alto da árvore de Porfírio ad hoc.

O intérprete é levado então a fazer inferências sobre os semas detectados, ou seja, a considerar vários semas geradores de novas representações semânticas (cf. Eco 1975, § 2.12). Amplia-se o âmbito da enciclopédia: qual é o território dos homens e qual é o território dos pássaros? Os homens vivem em territórios fechados (ou cercados) e os pássaros em territórios abertos. O que para o homem é coisa da qual abrigar-se, para os pássaros é abrigo natural. Tentam-se novas árvores de Porfirio, moradia ou território fechado x moradia ou território aberto, os pássaros 'moram', por assim dizer, no ar. É este 'por assim dizer' que cria a condensação. Sobrepõem-se frames ou roteiros: se um homem é ameaçado, o que faz? Abriga-se em casa. Se um pássaro é ameaçado, abriga-se no ar. Logo, abrigo fechado x abrigo aberto. Mas então o ar, que parecia lugar de ameaça (vento, chuva, tempestade), para alguns seres torna-se lugar de abrigo. Este é um caso de metáfora 'boa', ou 'poética', ou 'difícil', ou 'aberto, porque é possível percorrer indefinidamente a semiose e encontrar unificações em alguns nós de uma árvore de Porfirio e dissemelhanças; nos nós inferiores, assim como se encontram aos montes dessemelhanças e oposições nos semas enciclopédicos.

Donde o primeiro esboço de regra: inspecionando o contexto, nos dois primeiros termos que ele oferece, encontrem-se semas mais ou menos semelhantes (homônimos) que levem a supor uma terceira unidade semântica que apresente com a metaforizante (da qual é o metaforizado) poucos semas semelhantes e muitos dessemelhantes e que se constitua com a primeira numa árvore de Porfirio em que

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se dê unidade num nó muito alto mas desigualdade nos nós mais baixos. Não se procurará uma regra matemática que fixe a 'distân- cia' boa e especifique em que nó devem estabelecer-se identidades e dessemelhanças. Ou antes, será 'boa' a metáfora que não permita terminar logo a pesquisa (como havia acontecido com o banco), mas permita inspeções diferentes, complementares e contraditórias. o que não parece diferente do critério de prazer que Freud (1905) detectava no bom mot desprit: poupança, economia, decerto, mas apenas porque se encontra facilitado (instruído) um curto-circuito que demandaria muito tempo se quiséssemos esclarecê-lo em todas as suas passagens.

Neste ponto, onde está a proporção aristotélica? É certo que o ar está para os pássaros assim como a casa está para os homens (de um determinado ponto de vista). Mas este é, no máximo, o resumo do resultado final de uma inspeção interpretativa. É a definição de quanto a argúcia permite, daquele momento em diante, procurar conhecer mais. Porque a proporção em si não diz ainda muito, deve ser preenchida. No máximo, ela lembra o quarto termo /homens/ (e aqui se poderá completar o jogo de condensação, homens = terrestres, pássaros = aéreos, homens de pernas, pássaros de asas, e assim por diante).

Trata-se agora de ver se esta hipótese interpretativa vale para outras expressões metafóricas, tanto para as catacreses mais gritantes quanto para as invenções poéticas mais delicadas. Começaremos a colocar-nos do ponto de vista de quem deve desambiguar pela pri- meira vez /A perna da mesa/: pensando bem, no início era um kenning, ou seja, um enigma (Vico é que sabia). É necessário, porém, saber antes (muitos viquianos ingênuos não o sabem) o que é uma mesa - e uma perna. Encontra-se na perna (humana) uma função P de sustentação de um corpo. Encontra-se na descrição formal F de /mesa/ a instrução de que é sustentada por quatro elementos. Supõe- se um terceiro termo /corpo/ e se encontra que em F se sustenta sobre duas pernas. Encontram-se semas de verticalidade tanto na perna quanto na x que sustenta a mesa. Encontram-se obviamente oposições em semas como «natureza x cultura», «orgânico x inor- gânico». Reúnem-se /mesa/ e /corpo/ numa árvore de Porfirio que considera as «estruturas articuladas»: encontra-se que /corpo/ e /mesa/ se unem no nó superior e se distinguem nos inferiores (por exemplo, estruturas articuladas orgânicas x estruturas articuladas inorgânicas). Passa-se à comparação entre a /perna/ orgânica e a x, cujo pseudonome a catacrese fornece, e se constrói uma árvore das susten-


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tações: sustentações ambas, uma orgânica, a outra inorgânica. Em suma, o mecanismo é claro: no máximo, poderíamos nos perguntar se se tratava de uma 'boa' catacrese. Não sabemos, estamos por demais acostumados, não recuperaremos mais a inocência da primeira invenção. Já é sintagma prefôrmado, elemento de código, logo catacrese em sentido estrito, não metáfora inventiva.

Provemos então com duas metáforas verdadeiras: /Ela era uma rosa/ e, de Malherbe, /Et rose elle a vécu ce que vivent les roses, Vespace dun matin/ (E rosa ela viveu o que vivem as rosas, o espaço de uma manhã).

A primeira metáfora diz logo contextualmente quem é o metaforizante e quem é o metaforizado. /Ela/ só pode ser um ser humano do sexo feminino. Procede-se, portanto, à comparação entre /mulher/ e /rosa/. Mas a operação nunca será tão completamente ingênua. A intertextualidade que se conhece é rica de expres- sões preformadas, de frames já conhecidos...

O jogo é de uma simplicidade desconcertante. A maior parte dos semas; enciclopédicos é semelhante. Só há oposição no eixo vegetal/ animal. Sobre ele constrói-se a árvore de Porfirio e descobre-se que, apesar da oposição nos nós inferiores, há unidade no nó superior (orgânico). Mas, obviamente, para fazer isto já se devia saber que, quando se compara uma mulher a uma flor, se está falando de uma mulher-objeto que vive como as flores grafia sui, mero ornamento do mundo. E, finalmente, torna-se clara a questão da semelhança ou dessemelhança das propriedades. Não é nem percep-

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tiva, nem ontológica, é semiótica. Acontece que a língua (a tradição figurativa) já entendeu « frescor» e «cor» como interpretantes, com o mesmo valor, da condição de saúde de um corpo humano e da condição de saúde de uma flor, embora do ponto de vista físico o rosa de uma face feminina raramente tenha a mesma gama de um rosa de flor. Há uma diferença em milimícron, mas a cultura os homologou, nomeia ambos com o mesmo termo e representa os dois com a mesma cor.

O que terá acontecido da primeira vez? Não se sabe, a metáfora nasceu num tecido de cultura já dita.

Esta é, portanto, uma metáfora pobre, 'fechada', pouco cognoscitiva, diz o que já se sabe. Mas a inspeção avisa que nenhuma metáfora é 'fechada' em absoluto, seu fechamento é pragmático. Imagine-se um usuário ingênuo da língua que depare com ela pela primeira vez. Ficará preso num jogo de tentativa e erro como quem desambiguasse pela primeira vez /A casa dos pássaros/. Não há metáfora impoética em absoluto: ela existe somente para determinadas situações socioculturais. Parece, porém, que existe uma metáfora poética em absoluto. Porque nunca se pode dizer o que um usuário sabe da língua (ou de qualquer outro sistema semiótico), mas se sabe sempre, mais ou menos, o que uma língua (ou um outro sistema) já disse, e se pode reconhecer a metáfora que impõe operações inéditas e a predicação de semas ainda não predicados.

A primeira passagem é dada pela metáfora de Malherbe. Aparentemente, ela impõe o mesmo trabalho de comparação da metáfora anterior. o problema de /espaço/ já está resolvido: a tra- dição já o tornou metáfora de «decurso temporal». A tradição já assumiu o uso metafórico de /vida/ por a <> de entidades não-animais. Deve-se, portanto, trabalhar a relação entre << duração >>, << moça >>, << rosa >> e << manhã >>. À /rosa/ se reconhecerá como sema particularmente pertinente o (aliás, intertextualmente codificado) da o fugacidade >> (abre-se ao alvorecer e fecha- se ao anoitecer, ou, então, dura muito pouco, como não se trata da mesma propriedade). Todas as outras semenhanças entre a moça e a rosa já passaram em julgado e são tomadas como inter- textualmente boas. Quanto à manhã, ela tem a propriedade de ser só uma parte do dia, um dia incompleto. Tem também a de ser a mais bonita, delicada, ativa. Logo, naturalmente, a moça, bonita como uma rosa, viveu uma vida fugaz, e só viveu a parte que, por- quanto breve, é a melhor (Aristóteles, aliás, já dizia: a manhã da vida é a juventude). Identidade e dessemelhança, portanto, em marcas enciclopédicas, unificação num nó alto da árvore de Porfí-

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rio (orgânico ou vivo) e diferença nos nós baixos (animal x vegetal). Seguem-se todas as condensações do caso, moça e flor, palpitação vegetal que se torna palpitação carnal, orvalho que se torna olho húmido, pétala e boca: a enciclopédia permite à imaginação (também visual) avançar a todo vapor, a rede da semiose se aviva com parentescos e inimizades. Algo de ambíguo, no entanto, permanece. A rosa vive uma manhã porque se fecha à noite, mas renasce no dia seguinte. A moça morre e não renasce. É aqui que a metáfora se torna “difícil” ,“distante” 'boa' ou 'poética'. Devemos rever o que sabemos sobre a morte dos humanos? Renascemos? Ou devemos rever o que sabemos sobre a morte das flores? A rosa que renasce amanhã é a mesma de ontem ou a de ontem permanece a que não foi colhida? O efeito de condensação apresenta rebarbas, debaixo do enrijamento cadavérico da moça está o longo pulsar da rosa. Quem ganha? A vida da rosa ou a morte da moça? Obviamente não há resposta: exatamente por isto a metáfora é aberta. Mesmo quando se baseia num jogo de cohhecimentos intertextuais hipercodificados que beiram o maneirismo.


13 Cinco regras

Estamos agora prontos a delinear cinco regras para a interpretação co-textual de uma metáfora (note-se que o processo de inter- pretação projeta ao contrário o processo de produção):

1) Construa-se uma primeira representação componencial do semema metaforizante (parcial e experimental). Chame-se ao semema metaforizante de veículo. Esta representação deve magnificar somente as propriedades que o co-texto sugeriu como relevantes, narcotizando as outras (cf Eco, 1979). Esta operação representa uma primeira tentativa abdutiva.,

2) Localize-se na enciclopédia (localmente postulada ad hoc) um outro semema que possua um ou mais dos mesmos semas (ou marcas semânticas) do semema veículo e que, ao mesmo tempo, apresente outros semas 'interessantes'. Torne-se este semema um candidato ao papel de semema metaforizado (teor). Se houver mais sememas em competição para este papel, tentem-se outras abduções, com base em indícios co-textuais. Fique claro que por 'os mesmos semas' se entendem os semas; exprimíveis através do próprio interpretante. Por outros semas 'interessantes' entendem-se somente os representáveis por interpretantes diferentes, mas de modo que possam ser opostos segundo algumas incompatibilidades hipercodificadas (como aberto/fechado, morto/vivo, e assim por diante).


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3) Selecione-se uma ou mais destas propriedades ou semas diferentes e construa-se sobre eles uma árvore de Porfirio, de modo que estes pares de oposições se conjuguem num nó superior.

4) Teor e veículo apresentam uma relação interessante quando suas propriedades ou semas se encontram num nó comparativamente muito alto da árvore de Porfirio.

Expressões como /semas interessantes/ e /nó comparativamente muito alto/ não são vagas, porque se referem a critérios de plausibilidade co-textual. Semelhanças e diferenças podem ser avaliadas somente de acordo com o possível sucesso co-textuaI da metáfora e não há critério formal que estabeleça o grau 'exato' de diferença e a posição 'exata' na árvore de Porfirio. Segundo estas regras, parte-se das relações metonímicas (de sema para semema) entre dois sememas diferentes e, controlando a possibilidade de uma dupla sinédoque (que interessa tanto o veículo quanto o teor), aceita-se em conclusão a substituição de um semema pelo outro. Uma substituição de sememas, portanto, aparece como o efeito de uma dupla metonímia realizada por uma dupla sinédoque (cf. também Eco, 1971). Podemos, portanto, passar para a quinta regra.

5) Controle-se, com base na metáfora suposta, se se podem localizar novas relações semânticas, de modo a enriquecer ulteriormente o poder cognitivo do tropo.
14 Da metáfora à interpretação simbólica
Uma vez iniciado o processo semiótico, é difícil dizer onde pára uma interpretação metafórica: depende do contexto. Há casos em que o intérprete é guiado, por uma ou mais metáforas, para uma leitura alegórica ou uma interpretação simbólica (vide o capítulo a seguir). Mas, quando se parte de uma a metáfora e se inicia um processo interpretativo, frequentemente os limites entre leitura metafórica, leitura simbólica e leitura são muito imprecisos.

Weinrich (1976) propôs uma distinção interessante. entre micrometafórica, metafórica do contexto e metafórica do texto. Veja-se sua análise de um longo trecho de Walter Benjamin, do qual só podemos resumir as passagens mais importantes. Em Gaivotas (Mowen), Benjamin fala de uma sua viagem por mar, densa de metáforas que aqui não serão analisadas. Duas, porém, parecem singulares a Weinrich: as gaivotas, povos de voláteis, mensageiros alados, ligadas num entrelaçamento de signos, que, de repente, se dividem em dois bandos: a ocidente, as pretas, que desaparecem no nada; a oriente, as esbranquiçadas, ainda presentes e 'a serem

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dispersas' - e o mastro do navio que desenha no ar um movimento pendular. Weinrich desenvolve primeiro uma micrometafórica (por exemplo, propriedades comuns e dessernelhantes entre mastro e pêndulo*) e depois uma metafórica do contexto, onde estabelece uma conexão entre os vários 'campos metafóricos' acionados por Benjamin. Logo, surge lentamente algo que parece cada vez mais uma declaração alegórica e que na fase final da metafórica do texto revela sua chave político-ideológica (em que o texto é visto também em suas circunstâncias históricas de enunciação): 1929, crise da República de Weimar, situação contraditória do intelectual alemão, de um lado obcecado pela polarização dos contrastes (amigo versus inimigo), de outro incerto quanto à posição a tomar, oscilante entre a neutralidade e a rendição dogmática a uma das partes. Daí o mastro que se torna metáfora do 'pêndulo dos acontecimentos históricos' e o contraste antagônico das gaivotas.

Esteja correta ou não a leitura de Weinrich, voltemos à metáfora do mastro-pêndulo, para caracterizar o mecanismo constitutivo, o qual deve também permitir todas as inferências contextuais que o leitor (neste caso, assumido como Leitor Modelo) fizer. Passare-mos logo por cima das pressões contextuais que induzem a selecio-nar determinados semas em detrimento de outros e comporemos o .espectro componencial dos dois termos presentes no contexto: /mastro/ e /pêndulo/. De fato, o texto fala de 'movimento pendular' (Pendelbewegungen), de modo que, mais do que metáfora, se deveria falar de comparação pacífica (o mastro move-se como se fosse um pêndulo). Mas poderia ser também /o mastro que dá as horas/ ou /o mastro pendular/ sem que a natureza contraditória, o efeito específico de condensação desta figura, fosse invalidada.

Antes de mais nada, dado o contexto marinho, o mastro é claramente um mastro de navio, sem ambiguidade, não se trata de metáfora, talvez de catacrese ultracodificada, que beira a homoní- mia.
* No exemplo tirado de W. Benjamin, a palavra italiana pendolo conresponderá em Português tanto “pêndulo” quanto a “relógio pêndulo”, conforme o contexto, (N. do T.)

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Nota-se logo em que semas se estabelece a identidade e em que outros a diversidade. Uma primeira unificação numa árvore qualquer de Porfirio daria resultados decepcionantes: ambos manufaturados, ambos de madeira ou ferro, e, o que é pior, ambos pertencentes à classe das coisas verticais. Isto não basta. As únicas oposições dignas de nota parecem ser aquelas entre fixidez e oscilação e o fato de que um seja funcional para os percursos no espaço, outro para a medição do tempo. Numa segunda inspeção, se veria que, no entanto, mesmo o mastro, para ficar firme, deve oscilar um pouco, assim como o pêndulo, para oscilar, deve ficar firme em seu perno. Mas não se trata ainda de uma aquisição cognoscitiva digna de nota: o pêndulo, fixado num perno em cima, oscila e mede o tempo; o mastro, fixado num perno embaixo, oscila e está de alguma forma ligado ao espaço. Já sabíamos disto.

Se a metáfora aparecesse num contexto que a deixasse imediatamente de lado, não seria uma invenção digna de nota. A análise de Weinrich diz que o tecido intertextual dirige a atenção dos intérpretes para o tema 'oscilação' e, de outro lado, no mesmo contexto, a insistência no jogo alternado das gaivotas e na oposição direita/esquerda, oriente/ocidente estabelece uma isotopia da tensão entre dois pólos. É esta a isotopia vencedora nos níveis mais profundos, não a estabelecida pelo topic « viagem por mar» no nível das estruturas discursivas (cf. Eco, 1979). O leitor, portanto, é levado a fazer jogar a semiose no sema <>, que é função primária para o pêndulo, secundária para o mastro (a enciclopédia deve começar a admitir uma hierarquia dos semas). Além disto, a oscilação do pêndulo é tornada funcional na medida exata, enquanto a do mastro é mais casual. o pêndulo oscila de modo seguro e constante, sem alterações de ritmo; o mastro está sujeito a alterações e, na última das hipóteses, a partir- se. O fato de que o mastro seja tornado funcional para o navio, aberto ao movimento no espaço e à aventura indefinida, e o pêndulo para o relógio, parado no espaço e regulado em sua medida temporal, abre a oposições sucessivas. A certeza, a segurança do pêndulo contra a incerteza do mastro, um fechado e outro aberto... E, naturalmente, a relação do mastro (incerto) com os dois povos contraditó-

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rios de gaivotas... Como se vê, a leitura pode continuar ao infinito. Isolada, a metáfora era pobre; inserida no contexto, sustenta outras metáforas e é por elas sustentada.

Outros tentaram definir a qualidade de uma metáfora pela maior ou menor distância entre as propriedades dos termos em jogo: não nos parece haver uma regra estável. É o modelo de enciclopédia construído para a interpretação de um determinado contexto, o que estabelece ad hoc centro e periferia dos semas. Permanece o critério da maior ou menor abertura, isto é, o de quanto uma metáfora permite viajar pela semiose e conhecer os labirintos da enciclopédia. No decorrer da citada viagem, os termos em jogo enriquecem- se de prioridades que a enciclopédia ainda não lhes reconhecia.

Estas considerações não estabelecem ainda e de forma definitiva um critério estético para distinguir metáforas 'bonitas' de metáforas 'feias': nesse caso, jogam também as estritas relações entre expressão e conteúdo, entre valores materiais e valores de conteúdo (em poesia, se poderia falar de cantabilidade, possibilidade de memorizar o contraste e a semelhança; logo, entram em jogo elementos como a rima, a paranomásia, a assonância, ou seja, todo o conjunto dos metaplasmos de que falávamos no quadro 1). Estas considerações, no entanto, permitem distinguir a metáfora fechada (ou pouco cognoscitiva) da aberta, que faz conhecer melhor as possibilidades da semiose, ou seja, exactamente aquele índice categórico de que falava Tesauro.


Conclusões
Não existe algoritmo para a metáfora: ela não pode ser prescrita através de instruções precisas a um computador, independentemente do volume de informação organizada que se pode introduzir nele. O êxito da metáfora é função do formato sociocultural da enciclopédia dos sujeitos interpretantes. Nesta perspectiva, se produzem metáforas só com base num rico tecido cultural, ou seja, num universo de conteúdo já organizado em redes de interpretantes que decidem (semioticamente) da semelhança e da dessemelhança das propriedades. Ao mesmo tempo, só este universo do conteúdo, cujo formato se postula não rigidamente hierarquizado, mas como Modelo Q (Eco 1975), aproveita a produção metafórica e sua interpretação para reestruturar-se em novos nós de semelhanças e dessemelhanças.

Esta situação de semiose ilimitada não exclui, porém, que possam surgir primeiros tropos, isto é, metáforas «novas» jamais ouvi-



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