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monádicos P1, P2, de um predicado diádico =, de constantes individuais a1 a2, de variáveis individuais v1, v2, de conectivos lógicos normais. São fornecidas regras gramaticais (do tipo: se t1 e t2 são termos, então t1 = t 2 é uma fórmula), une-se à semântica desta linguagem L uma classe de « contextos ideais » C. « Seja agora D uma classe não vazia; é o universo de discurso e se considera que compreende indivíduos possíveis (atuais ou não-atuais). Uma função de interpretação atribui a cada predicado monádico de L um subconjunto de D, e a cada constante um elemento de D. Seja F a classe de todas as funções de interpretação em D. Escolham-se alguns elementos de F como a função de interpretação literal - de modo que ela atribua aos predicados monádicos e às constantes da linguagem sua interpretação literal. Seja esta função charnada fº. Seja Fº a classe de todas as funções de interpretação f em F que concordam com fº no que diz respeito aos valores atribuídos às constantes. Seja g a função de desambiguação metafórica: ela atribui a cada C  C um membro de Fº - (fº). A idéia é que g nos diga, para cada contexto ideal, quais são as interpretações dos predicados neste contexto. Enfim, seja um modelo para L o quíntuplo M = (D, C, Fº, g) » (ibidem, p. 226).

Obviamente, esta definição não diz nada da metáfora. De fato, ela não pretende dizer algo: a autora não está interessada em entender como funcionam as metáforas, mas (uma vez aceito intuitivamente que nas linguagens naturais se produzem e se entendem muito bem metáforas) está interessada em introduzir este fenômeno na representação formal de uma linguagem natural. É verdade que a própria autora avisa que, em todo caso, o modelo proposto permite examinar melhor algumas perguntas e formulá-las de modo formalmente aceitável. Por exemplo, o que se deve entender por parafrasibilidade literal; se as interpretações metafóricas dependem das literais e se toda expressão linguística é interpretável metaforicamente em algum contexto, ou em todos os contextos etc. Mas são perguntas cuja resposta é dada (pelo menos por enquanto) por uma semântica formal: «sem um contexto ideal não há regras estritas para a interpretação das metáforas » (ibidem, p. 228). A metaforologia já sabia disto: em todo caso, é importante que as semânticas formais tenham consciência disto.

Naturalmente, há abordagens formais que, pelo fato de levarem em conta também os resultados da linguística, da lexicologia e da semiótica em geral, deixam transparecer com mais clareza suas preocupações (tendenciais) de concretitude. Deve-se a estudos deste tipo, no entanto, a distinção entre uma metáfora que poderíamos chamar
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intensional e uma extensional. Exemplo do primeiro tipo é /A mocinha é um junco/, que, dados determinados postulados de significado (por exemplo: se mocinha, então humano, se junco, então não-humano), demonstra claramente sua metaforicidade (caso contrário seria uma expressão semanticamente incorreta, ou uma mentira evidente). Exemplo do segundo tipo é /Entrou o imperador/, expressão que por si só é literal e semanticamente não ambígua, a menos que, numa circunstância especial, se refira à entrada do chefe no escritório. Este exemplo seria possível, porém, só num universo absurdo em que as metáforas estivessem presentes só em expressões isoladas do contexto e estivesse em jogo um único sistema semiótico, isto é, o da língua verbal. Situação esta que se verifica só nos velhos livros de linguística e nos livros de semântica lógica. De fato, uma frase deste tipo geralmente é pronunciada: a) num contexto em que já foi dito ou será dito logo em seguida que o chefe está entrando no escritório; b) enquanto se mostra uma imagem do chefe que entra no escritório; c) ao apontar uma pessoa que qualquer um reconhece como o chefe e, em todo caso, como um não-imperador. O que significa que, pondo em contato a expressão isolada com o contexto linguístico e com os elementos de sistemas extralinguísticos, ela seria imediatamente retraduzida em: /Entra o chefe (que é) o imperador/ (desde que não se trate de informação de dicto: entra o chefe que nós chamamos de imperador). Neste ponto, o segundo exemplo passa a pertencer à categoria do primeiro: a moça não é um junco, assim como o chefe não é o imperador (cf., em todo caso, para estes casos de referência ou menção, Eco 1975, § 3.3).

Teun van Dijk admite que «só um fragmento de uma teoria séria da metáfora pode ser coberto por uma abordagem em termos de semântica formal(...) Uma semântica formal especifica as condições pelas quais [...] enunciados metafóricos podem ser definidos como tendo um valor de verdade» (1975, p. 173). E esclarece que uma semântica formal com estas ambições só pode ser acidental: quer dizer, uma semântica que leva em conta o que em linguística é chamado de 'seleções restritivas' (se /automóvel/ tem um sema « mecânico» ou «inorgânico» e /comer/ tem semas como «humano», «o objeto é orgânico», então é semanticamente desviante dizer: /Luís comeu o automóvel/; se /comer/ tem um sema «humano», não se poderá dizer /O automóvel comia a estrada/, ou seja, será necessário admitir que este desvio acidental tem intenções metafóricas). Daí a diferença entre expressões acidentalmente incorretas como /A raiz quadrada de Susy é a felicidade/, cuja própria negação é falsa, e que
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não parecem ter interpretação metafórica possível (naturalmente não é verdade, depende do contexto), expressões acidentalmente incorretas mas com possível interpretação metafórica (/O sol sorri alto no céu/) e expressões acidentalmente corretas que podem ser, em situações especiais de referência, metafóricas (/Entra o imperador/). Uma especificação acidental seria, portanto, uma função que atribui a cada predicado da linguagem uma 'área de espaço lógico'.

Parece que uma área deste tipo, que uma semântica formal caracteriza como entidade abstrata e 'vazia', uma vez preenchida só pode ser uma porção do índice categórico de Tesauro. Dado que esta área seria povoada de 'pontos', 'indivíduos possíveis' ou 'objetos possíveis' , o problema da metáfora comportaria o de semelhanças e diferenças entre estes objetos. Correto, mas muito pouco. Naturalmente a teoria é menos surda do que parece: em seu próprio interior é possível dar uma definição formal, uma vez admitidas diferenças e semelhanças, da maior ou menor distância entre metaforizante e metaforizado: /O cavalo relincha/ seria uma metáfora menos ousada do que /A teoria da relatividade relincha/, porque no jogo de parentescos entre propriedades há indiscutivelmente mais relação entre o relincho e a propriedade « animal » do cavalo do que entre o relincho e a propriedade « objeto abstrato » da teoria einsteiniana. Esta boa definição de distância, porém, não tem condições para resolver qual das duas metáforas é a melhor, sobretudo porque, no fim, o autor (que sobre a metáfora sabe mais do que o método escolhido neste artigo lhe permite demonstrar) acaba por admitir que «a escolha dos critérios típicos para a função de semelhança é pragmaticamente determinada com base em conhecimentos culturais e crenças» (ibidem, p. 191).

Uma outra tentativa de um lógico - Guenthner -, que parte justamente de Aristóteles, não dá maiores satisfações: « Se as metáforas devem ser analisadas no quadro da semântica formal, a primeira coisa a ser feita será naturalmente providenciar um meio de enriquecer a informação sobre a estrutura de significado dos predicados que é relevante para seu comportamento metafórico» (1975, p. 205). Em seguida, afirma-se que, no entanto, não será necessário construir esta informação semântica no formato de uma enciclopédia, e que bastarão poucas especificações acidentais. Este é exatamente o modo de impedir a compreensão de um tropo. Tanto isto é verdade que, ao analisar alguns exemplos emprestados do Grupo μ , Guenthner reencontra a moça-junco de sempre. E, como veremos, o fato de a moça e o junco serem flexíveis é logo um dado de
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informação enciclopédica. Em todo caso, o modelo de Guenthner (inútil para entender como funciona uma metáfora) parece mais útil do que os outros para enriquecer uma semântica formal das linguagens naturais. De fato, o autor parte de uma distinção entre natural kinds (entidades que têm propriedades fixas, como o fato de o leão ser um animal feroz, opostas a non-natural kinds, como /presidente/) e joga com o fato de que as propriedades de um natural kind devam ser contextualmente selecionadas (obviamente com base no contexto) para tornar a metáfora aceitável e compreensível. Um modelo acidental é um quádruplo M = (D, f, k, s), de modo que D é um campo não-vazio de objetos, ou seja, um universo de discurso, f uma função de interpretação, k uma função que atribui a cada objeto em D os conjuntos (kinds) a que cada objeto pertence no modelo, e s é uma função do conjunto daqueles predicados não atribuídos como natural kinds por k. Um modelo acidental determina que enunciados são verdadeiros, falsos ou sem significado (isto é, literalmente não significantes). « Se agora nós acrescentarmos uma função p que atri bua a cada predicado P em L um conjunto de propriedades proeminentes, um modelo específico explicará o significado metafórico de uma expressão mais ou menos da seguinte forma. Se um enunciado φ não é nem verdadeiro nem falso em M, se φ traduz por exemplo o enunciado inglês John is a mule (φ = 3x (x = j & Mx) ou Mj), então φ pode ser interpretado metaforicamente se houver propriedade proeminente atribuída a M de modo que esta propriedade valha para John (note-se que, em nossa cultura, estas propriedades geral mente estão muito bem delimitadas, mas nunca estão ligadas ao significado básico de uma expressão - isto pode ser facilmente verificado quando se traduz um enunciado metafórico de uma linguagem natural para outra)» (ibidem, p. 217).

Uma vez que entidades com propriedades proeminentes, e qualquer outro enchimento possível do aparato acidental, não pode ser dadas por uma semântica formal, a presente inspeção neste universo de discurso pára por aqui. E, como dissemos, será necessário voltar às semânticas componenciais.


12 Representação componencial e pragmática do texto
12.1 Um modelo por 'casos'
Neste ponto, pode-se tentar uma explicação do mecanismo metafórico a qual 1) se baseie numa semântica componencial em
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formato de enciclopédia; 2) leve em conta, ao mesmo tempo, as regras de uma semântica do texto. Uma semântica em forma de enciclopédia é, sem dúvida, mais interessante do que uma em forma de dicionário. Viu-se que o formato dicionário permite entender o mecanismo da sinédoque, mas não o da metáfora. Vejam-se as tentativas feitas em termos de gramática transformacional e de semântica interpretativa (cf., para um resumo, Levin 1977): estabelecer que na expressão /Ela é um junco/ se aplica uma transferência ou transformação de propriedade, pela qual a moça adquire um sema <> ou o junco adquire um sema «humano>», diz muito pouco do que acontece na interpretação e na produção deste tropo. De fato, se procurarmos parafrasear o resultado («Esta moça é humana, mas tem também uma propriedade vegetal»), veremos que não estamos longe de uma paródia tipo Mosca (cf. § 2). Obviamente, o problema é o da flexibilidade (mais ainda: um junco não é flexível do mesmo modo que o é uma moça) e não pode ser considerado por uma semântica em forma de dicionário.

Uma representação componencial em forma de enciclopédia, entretanto, é potencialmente infinita e assume a forma de um Modelo Q (Eco 1975), quer dizer, de uma rede de propriedades das quais umas são interpretantes das outras, sem que nenhuma possa aspirar à categoria de construção metalinguística ou de unidade pertencente a um pacote privilegiado de universais semânticos. Num quadro dominado pelo conceito de semiose ilimitada, todo signo (linguístico ou não) é definido por outros signos (linguísticos ou não), os quais, por sua vez, se tornam definiendi (passíveis de definição) em relação a outros termos assumidos como definienti (defi- nidores). Em compensação, uma representação enciclopédica (mesmo ideal), baseada no princípio da interpretação ilimitada, é capaz de explicar, em termos puramente semióticos, o conceito de 'semelhança' entre propriedades.

Por semelhança entre dois semas ou propriedades semânticas entende-se o fato de, num dado sistema do conteúdo, estas propriedades serem nomeadas através do mesmo interpretante, seja ele verbal ou não, e independentemente do fato de os objetos ou coisas, para cuja designação este interpretante é geralmente usado, apresentarem 'semelhanças' perceptivas. Em outras palavras, os dentes da moça do Cântico são semelhantes às ovelhas se e apenas se, naquela cultura, for usado o interpretante /branco/ para designar a cor dos dentes e a das ovelhas.

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A metáfora, porém, põe em jogo não só a semelhança, mas também as oposições. A taça e o escudo são semelhantes no que diz respeito à forma (redonda e côncava), mas opostos no que diz respeito à função (paz x guerra), assim como Ares e Dionísio são semelhantes enquanto deuses, mas opostos quanto aos objetivos que perseguem e aos instrumentos que utilizam. Para dar conta destes fenômenos, uma representação enciclopédica deve assumir o formato de uma semântica casual que considere precisamente o Sujeito Agente, o Objeto sobre o qual o agente exerce sua própria ação, o Contra-Agente que eventualmente se opõe a ele, o Instrumento utilizado pelo Agente, o Propósito ou objetivo da ação etc. Uma semântica deste tipo foi elaborada por vários autores (poder- se-ia pensar nos 'actantes' de Tesnières e Greimas, nos 'casos' gramaticais de Fillmore, na semântica de Bierwisch). A única objeção seria que, até agora, uma análise casual geralmente se deu sobre verbos e não sobre substantivos. Mas, se é possível analisar predicados através dos argumentos a que são atribuíveis, se poderão tam- bém analisar argumentos com base em predicados que lhes podem ser atribuídos. Uma representação enciclopédica em termos casuais elimina a diferença entre sinédoque e metonímia (pelo menos numa primeira instância). Se se registra todo o saber enciclopédico ao redor de uma determinada unidade cultural, não existem noções fora do conteúdo conceitual. A folha é um sema do semema árvore tanto quanto o é a semente, embora a primeira apareça como componente morfológico e a segunda como causa ou origem.


12.2 Metonímia
Nesta perspectiva, a metonímia torna-se a substituição de um semema por um de seus semas (/Tomar uma garrafa/ por «tomar vinho», porque a garrafa será registrada entre os destinos finais do vinho) ou de um sema pelo semema a que pertence (/Chora ó Jerusalém/ por <>, porque entre as propriedades enciclopédicas de Jerusalém deve existir aquela pela qual é a cidade santa dos hebreus).

Este tipo de substituição metonímica não é outra coisa senão o que Freud chama de «deslocamento». E assim como no deslocamento se dá a condensação, nestas trocas metonímicas se dá (como veremos) a metáfora.

O próprio termo /deslocamento/, no entanto, leva a pensar naquelas metonímias, não contempladas por nenhuma enciclopédia, que se diriam empíricas ou idiossincráticas, legitimadas por conexões que dependem da experiência de cada um - como as que acontecem

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na atividade onírica ou na linguagem dos afásicos (Jakobson 1954). A metonímia idiossincrática, porém, é desambiguável só num contexto, o qual age exatamente como estipulação de código. Não há razão pela qual o sabor da madeleine esteja por Combray ou até mesmo pelo tempo reencontrado, se não intervier o contexto proustiano para instituir esta relação. A relação, tendo funcionado, passa por assim dizer em julgado, o código (ou seja, a enciclopédia) apropria-se dela, e para todos /madeleine/ significará «tempo reencontrado», assim como /18 de abril/ significa o início do poder democrata-cristão no pós-guerra.* Com base numa representação por casos, Eco (1975) procurou mostrar o mecanismo de deslocamento de sema para semema (e vice-versa), ao analisar a expressão virgiliana << Vulnera dirigere et calamos armare veneno>> (AEneidos, X, v. 140).

O verso, que pode ser traduzido tanto como 'distribuir feridas com dardos envenenados', quanto como 'ungir com tóxico os dardos e lançá-los', joga com o fato de que /vulnera dirigere/ está por o dirigere tela>> (ou dirigere ictus, dirigere playas, vulnerare). Suponhamos que «vulnerare» seja a interpretação correta e imaginemos uma representação semântica em formato casual do seguinte

Eis que a expressão /dirigir as feridas/ aparece como metonímia no lugar de <>, dado que assume o Propósito (ou Efeito) pela ação, ou seja, um sema está pelo semema todo. Do mesmo tipo seria o aristotélico /estar/ por << ancorar >>: na representação, o estar parado apareceria como efeito ou propósito de ancorar. o caso oposto (semema por sema) seria descrever um carro estacionado como firmemente ancorado. Uma representação enciclopédica de /parar/ deveria contar entre seus vários instrumentos também com uma âncora.

Este tipo de representação parece funcionar para os verbos mas coloca alguns problemas para os substantivos. De fato, como encontrar um Agente, um Objeto, um Instrumento para expressões como /casa/, /mar/, /árvore/? Uma proposta possível seria a de entender todos os substantivos como verbos ou ações reificadas (cf. Eco 1979, cap. II). Logo, não tanto /casa/ quanto /fazer uma casa/. Mas um tipo de representação que parece substituir esta difícil tra-

* Nas eleições de 18 de abril de 1948, na Itália, a Democracia Cristã chega perto ( maioria absoluta com 48,5% dos votos, derrotando a Frente Popular formada p( comunistas e socialistas. (N. do T.)


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dução de substantivos em verbos é a que permite ver o «objeto expresso pelo substantivo como o resultado de uma ação produtiva que comporta um agente ou Causa, uma Matéria a ser manipulada, uma Forma a ser imposta, um Fim ou Propósito ao qual encaminhar o objeto. Pensando bem, se trata tão-somente das quatro causas aristotélicas (eficiente, formal, material e final), embora assumidas em termos operacionais e sem conotações metafisicas.

Uma representação deste tipo, que reproduziria apenas propriedades enciclopédicas, poderia dar lugar ás mais variads relações dicionarizadas por esquema de árvore de

Porfirio.

Se resolvermos considerar a casa do ponto de vista de suas funções, a propriedade de ser um abrigo torna-se analítica, e a partir disto será possível nomear uma casa como abrigo ou um abrigo como casa. Do mesmo modo, se a casa fosse descrita do ponto de vista de suas características formais, se poderia nomear a casa como teto e vice-versa.

É verdade que a relação casa/abrigo sempre foi considerada de tipo metonímico, enquanto a relação casa/teto sempre foi considerada de tipo sinedóquico. Este fato requer considerações especiais.

Ao considerar uma representação deste tipo, percebemos, no entanto (uma vez que a definição tradicional de sinédoque não contempla somente a relação gênero/espécie mas também a parte/todo), que as marcas registradas sob F (aspectos formais) parecem privilegiadas, porque elas permitem sinédoques particularizadoras em n, enquanto as outras marcas (que dizem respeito à relação objeto/matéria, objeto/causa, objeto/finalidade) parecem pertencer à substituição metonímica. Vamos dizer logo que esta distinção, devida a uma inveterada tradição retórica, não se sustenta do ponto de vista teórico. Há só um tipo de sinédoque possível e é a generalizadora ou particularizadora em E, que é metalinguisticamente derivada em relação ao tecido metonímico fornecido pelo código.

Por que, então, no curso dos séculos, se impôs uma distinção tão irracional entre sinédoque em Π e metonímia, dado que, do ponto de vista de uma representação semântica coerente, elas deveriam representar dois tipos iguais de relação semema/sema, ou seja, uma metonímia? Esta esquisitice, uma vez resolvida, poderia explicar também por que foi sempre tão difícil distinguir entre sinédoque e metonímia e por que um autor como Jakobson (1954) praticamente unificou uma série de fenômenos baseados na contiguidade (embora confundindo contiguidade codificada com contiguidade idiossincrática) sob o nome de /metonímia/.

A resposta só pode ser histórico-fenomenológica. As coisas são percebidas em primeiro lugar visualmente, e mesmo nas entidades não visuais são percebidas principalmente suas características morfológicas (um corpo é redondo ou vermelho, um som é grave ou forte, uma sensação tátil é quente ou áspera e assim por diante). Só numa inspecção sucessiva somos capazes de estabelecer as causas, a matéria de que é objecto é feito, suas finalidades ou eventuais funções. Por isto a sinédoque particularizadora (que se baseia na relação entre um 'objeto' e suas partes) alcançou um status privilegiado: que é o status privilegiado da percepção em relação a outros tipos de conhecimento, que podem também ser chamados de 'juízos', os quais se baseiam em inferências sucessivas e, à primeira vista, parecem transportar para fora da coisa em si, para a sua origem ou para o seu destino. Ao contrário, para uma taça é igualmente importante e caracterizante tanto ser redonda e côncava, quanto um manufaturado ou servir para recolher um líquido. É verdade, porém, que se pode não saber para que serve uma taça, nem de que material é feita, nem se é o efeito de obra humana ou natural, e assim mesmo perceber que é redonda e côncava. Mas a distinção, já o dissemos, depende do modo como nos aproximamos dos objetos. Porque, uma vez conhecidos, eles são tornados pertinentes e definidos também através de sua origem, causal e material, e de sua finalidade; numa representação enciclopédica podem-se deixar de lado


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estas fases "históricas" de seu conhecimento e organizar as propriedades, por assim dizer, de modo sincrônico.
12.3 Topic, frames, isotopias
Uma representação enciclopédica é potencialmente infinita. Numa cultura, as funções da taça podem ser muitas: entre elas, a de recolher líquido é só uma das muitas (pense-se nas funções litúrgicas do cálice ou nas taças esportivas). Quais serão, então, os interpretantes que deverão ser registrados no caso P (propósito ou função) da taça? E quais as que devem ser recolhidas em F, A, M? Se não infinitas, elas são pelo menos indefinidas. Como disse Eco (1975, § 2.13), «a semiótica do código é um instrumento operativo que serve a uma semiótica da produção do signo(...) Deverá ser, portanto, um princípio metodológico da pesquisa semiótica aquele pelo qual a delineação dos campos e eixos semânticos, e à descrição dos códigos como atualmente funcionantes, pode ser realizada quase sempre somente por ocasião do estudo das condições comunicativas de uma determinada mensagem». Em outras palavras, o universo da enciclo- pédia é tão amplo (se for válida a hipótese da interpretação infinita de signo para signo e, portanto, da semiose ilimitada) que por ocasião - e sob a pressão - de um determinado contexto, uma determinada porção de enciclopédia é ativada e proposta como 'barra' (Eco 1971) para sustentar e explicar as trocas metonímicas e seus resultados metafóricos.

Pelo que é exercida esta pressão contextual? Tanto pela a) identificação de um tema ou topic e consequentemente pela escolha de um percurso de interpretação ou isotopia; quanto pela b) referência a frames ou roteiros intertextuais que permitem estabelecer não só do que estamos falando, como sob que aspecto, com que objetivo e em que direção de previsão estamos falando. Todos estes aspectos de uma semântica textual foram delineados (no rastro das atuais pesquisas) por Eco (1979). Aqui basta dizer que, quando se diz /Luís não tem problemas de sobrevivência porque dispõe das riquezas paternas/, o tema ou topic é, sem dúvida, 'recursos de Luís', por isto seremos levados a selecionar uma árvore de Porfirio da aquisição, e o frame ou roteiro é 'vida sem preocupações de penúria' (e uma vez mais seremos levados a destacar todos os semas; de <> e «acréscimo». Bastaria, no entanto, que o contexto soasse como /Luís não se coloca problemas de sobrevivência porque, como a cigarra de La Fontaine, dispõe de riquezas paternas/ para que o topic permanecesse inalterado, enquanto o frame remeteria a uma história de recursos esgotáveis.



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