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>, sendo os homens uma espécie do gênero animais. Mesmo os lógicos que se ocupam das metáforas admitem que a substituição da espécie pelo gênero constitui um excelente artifício. A razão é logicamente evidente

Segundo as Categorias 1a, 1-12, duas coisas são sinônimos quando ambas são nomeadas a partir de seu gênero comum (homem e boi são ambos nomináveis como animais). Uma metáfora do primeiro tipo é, portanto, uma forma de sinonímia cuja geração e interpretação dependem de uma árvore porfiriana.

Em ambos os casos (sinonímia e metáfora de primeiro tipo) estamos diante de uma definição 'pobre'. Um gênero não basta para definir uma espécie; dado o gênero, dele não deriva necessariamente uma das espécies subordinadas. Em outras palavras, quem admite,animal por homem está fazendo uma espécie de inferência ilícita, do tipo ((p  q).q)  p.

Do ponto de vista lógico, a metáfora aristotélica de segundo tipo é mais aceitável, dado que representa um exemplo correto de modus ponens: (p  q).p)  q. De fato, a metáfora de segundo tipo é a que o Grupo g chamou de sinédoque particularizadora em Σ. o exemplo dado por Aristóteles é /mil e mil empresas levou a cabo Odisseu/, no qual /mil e mil/ está por «muitas», um gênero
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de que mil e mil é espécie. Vê-se aqui como uma implicação material, formalmente correta, parece pouco convincente do ponto de vista de uma língua natural. Mil e mil é necessariamente muito, só se houver uma árvore porfiriana que diga respeito a uma determinada escala de quantidade. Pode-se imaginar outra que diga respeito* a grandezas astronômicas, em que mil e mil seja uma quantidade muito pequena. Por outro lado, veja-se o que acontece ao se inter- pretar o esquema de segundo tipo por analogia com o exemplo fornecido pelo primeiro tipo: significaria que, dado homem como espécie e animal como gênero, existe uma metáfora capaz de significar «animal» através de /homem/.

Em outras palavras, se parece bastante necessário que um homem seja animal, e se ancorar subentende necessariamente parar, não parece igualmente necessário que mil seja muito. Admitamos também que o homem seja um animal somente segundo um determinado quadro de referências, isto é, a partir de uma certa descrição e não em absoluto; neste caso também o quadro e a descrição segundo os quais mil e mil seria muito são muito mais reduzidos do que aquele pelo qual um homem é animal. Por que Aristóteles não se dá conta da diferença entre o primeiro e o segundo exemplo? Porque provavelmente segundo o código da língua grega no IV século a.C. a expressão /mil e mil/ já estava hipercodificada (como frase feita) e designava uma grande quantidade; ou seja, Aristóteles explica as modalidades de interpretação desta sinédoque dando já por desambiguada a própria sinédoque. Novo exemplo de confusão entre estrutura da linguagem, ou seja, do léxico, e estrutura do mundo.

Para Aristóteles, os dois primeiros tipos se equivalem, no que diz respeito à validade metafórica. o Grupo g, ao contrário, acredita que a sinédoque particularizadora é difícil de ser percebida e contrapõe à clareza de /negro/ por zulu a dificuldade de /noite zulu/ por noite negra. Entretanto, se, em italiano, para indicar de modo depreciativo um negro dizemos /zulu/, entenderno-nos até bem demais, sobretudo porque, logo em termos da árvore de Porfírio, parece que a sinédoque particularizadora exige menos tensão interpretativa do que a generalizadora. De fato, na sinédoque particularizadora deve-se subir do nó inferior ao superior, e o superior só pode ser um; na sinédoque generalizadora, ao contrário, deve-se descer do nó superior a um dentre os muitos nós inferiores possíveis. Não deveria ser mais fácil entender que /homem/ significa

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«animal» do que entender que /animal/ significa «homem» e não, por exemplo, «crocodilo»? Em todo caso, a conclusão surpreendente é que as metáforas de segundo tipo são logicamente corretas mas retoricamente insossas, enquanto as de primeiro tipo são retoricamente aceitáveis mas logicamente injustificáveis.

5 Aristóteles: a metáfora de três termos
Com isto chega-se ao terceiro tipo. o exemplo aristotélico é duplo: /Uma vez que com a arma de bronze suprimiu-lhe a vida/ e /Uma vez que com a taça de bronze cindiu a água/. Outra tradu- ção diz que no segundo caso se trata ainda da arma de bronze que cinde o fluxo do sangue ou da vida. Em todo caso, são dois exemplos de passagem de espécie para espécie: /suprimir/ e /cindir/ são dois casos de um mais geral <>. Este terceiro tipo parece mais genuinamente uma metáfora: se diria logo que há algo de 'símil' entre suprimir e cindir. Por isto, estrutura lógica e movimento interpretativo seriam assim representados:
Numa passagem de uma espécie para o gênero e depois do gênero para uma segunda espécie pode acontecer da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita dependendo de qual dos dois exemplos aristotélicos se queira discutir.

Este terceiro tipo parece tão genuinamente uma metáfora que muitas das teorias posteriores trabalharão de preferência sobre exem- plos deste gênero. Representamos aqui um diagrama que se encontra em vários autores, no qual x e y são metaforizante e metaforizado respectivamente e Z é o termo intermediário (o gênero de referência) que permite a desambiguação.

X reunião com z e reunião com Y

O diagrama dá conta de expressões como /Dente de montanha/ (cume e dente fazem parte do gênero «forma pontiaguda», ou /Ela era um junco/ (moça e junco fazem parte do gênero «corpo flexível». As teorias contemporâneas dizem que o junco adquire uma propriedade <> ou então a moça adquire uma categoria


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«vegetal», e que, em todo caso, as unidades em jogo perdem algumas de suas propriedades (cf., por exemplo, a teoria das transfer features em Weinreich 1972). No parágrafo 12 falaremos mais especificamente de sememas (ou unidades de conteúdo) que adquirem ou perdem semas, ou traços semânticos, ou propriedades semânticas. Mas a respeito disso surgem dois problemas.

Um deles é que, para definir que propriedades sobrevivem e quais devem cair, se deve justamente construir uma árvore de Porfírio ad hoc, e esta operação deve ser orientada por um universo de discurso ou quadro de referência (sobre uma das primeiras asserções deste princípio, cf. Black 1955). O outro é que nesta operação de interseção semêmica acontece um fenômeno novo em relação às sinédoques ou metáforas dos dois primeiros tipos.

Considere-se o duplo processo movimento que preside tanto à produção quanto à interpretação de /Dente de montanha/.

Numa sinédoque em que o cume fosse nomeado como /coisa pontiaguda/, o cume perderia algumas de suas propriedades caracterizantes (como, por exemplo, o fato de ser mineral), para dividir com o gênero a que foi reduzido algumas propriedades morfológicas (o fato de ser exatamente pontiagudo). Numa metáfora de terceiro tipo, o cume perde algumas propriedades, tornando-se coisa pontiaguda, e adquire de volta outras, tornando-se de novo dente. Mas se cume e dente têm em comum a propriedade de serem pontiagudos, pelo próprio fato de serem comparados evidenciam as propriedades que têm em oposição. Tanto isto é verdade que se fala, como dissemos, da transferência de propriedade (o cume torna-se mais humano e orgânico, o dente adquire uma propriedade de mineral). O que torna sempre muito discutíveis as teorias das transfer features é exatamente o fato de que não se sabe quem adquire o que e quem, ao contrário, perde alguma outra coisa. Mais do que transferência se poderia falar de um vaivém de propriedades. É aquele fenômeno que no parágrafo 7 será chamado de condensação, como Freud o chamou. E é o fenômeno que caracteriza a metáfora de quarto tipo. Ao considerar melhor o que acontece com /dente

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de montanha/, perceberemos, no entanto, que a metáfora de terceiro tipo é de fato uma metáfora de quarto tipo, porque põe em jogo não três mas quatro termos, estejam eles expressos ou não na manifestação linguística: o cume está para a montanha assim como o dente está para a boca; por outro lado, a moça está para a rigidez de um corpo masculino assim como o junco está para a rigidez do carvalho, de outro modo não se entenderia em relação a que o junco e a moça são mais flexíveis. Em todo caso, o que aparenta a metáfora de terceiro tipo com a de quarto é que não estão em jogo meras identificações ou absorções (de espécie para gênero): estão em jogo tanto 'similaridades' quanto 'oposições'.
6 Aristóteles: o esquema proporcional

A metáfora por analogia ou por proporção é uma metáfora de quatro termos. Não é mais A/B = C/B (o cume está para o gênero pontiagudo assim como está o dente), mas A/B = C/D. O termo /taça/ tem com o termo /Dionísio/ a mesma relação que o termo /escudo/ tem com o termo /Ares/. Deste modo, pode-se definir o escudo como /a taça de Ares/ ou a taça como /o escudo de Dionísio/. E ainda: a velhice está para a vida assim como o ocaso está para o dia; portanto, poderemos definir a velhice como /o ocaso da vida/ e a noitinha como /a velhice do dia/.

Esta definição aristotélica sempre pareceu magnífica por sua concisão e clareza. De fato, o é, e a idéia de encontrar uma espécie de função proposicional infinitamente preenchivel para cada caso de metáfora deste quarto tipo representou, sem dúvida, um golpe de mestre. Tanto mais porque esta fórmula proporcional permite representar também os casos de catarse no sentido estrito, em que o metaforizante está por um termo metaforizado, o qual, lexicalmente falando, não existe: A/B = C/x. Aristóteles fornece um exemplo linguisticamente complexo, mas basta reportar-se às duas conhecidas catareses da /gamba del tavolo/ (perna da mesa) e do /collo defia bottiglia/ (pescoço/gargalo da garrafa). A perna está para o corpo assim como um objeto não-nomeado está para a mesa, e o pescoço está para a cabeça (ou para os ombros) assim como um objeto não- nomeado está para a rolha ou para o corpo da garrafa.

Percebe-se logo que o modo pelo qual a perna está para o corpo não é o mesmo pelo qual o pescoço está para o corpo. A perna da mesa assemelha-se a uma perna humana segundo um quadro de referências que põe em evidência a propriedade «sustentação», enquanto


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o pescoço (gargalo) da garrafa não é propriamente uma sustentação da rolha, nem de outra parte de todo o recipiente. Parece que a analogia relativa à perna joga com propriedades funcionais em detrimento das semelhanças morfológicas (reduzidas a equivalências muito abstratas e deixando de lado, como não-pertinente, a quantidade), enquanto a analogia que diz respeito ao pescoço deixa de lado as pertinências funcionais e insiste nas morfológicas. O que equivale dizer que uma vez mais estão em jogo diferentes critérios de construção da árvore de Porfirio. Isto, porém, se ainda fosse possível falar de árvore de Porfirio tout court. Dado um formato indiscutível da árvore de Porfírio (isto é, pondo entre parênteses as condições culturais ou co-textuais de sua construção), a árvore escolhida explica como e por que se pode pensar (produtiva ou interpretativamente) a metáfora dos três primeiros tipos.. Consideremos, porém, a situação típica de uma metáfora de quarto tipo: taça/Dionísio = escudo/Ares. Como calculá-la segundo uma árvore qualquer de Porfirio?

Para início de conversa, a relação taça/Dionísio, segundo os critérios da retórica posterior, é uma relação de tipo metonímico. Costuma-se associar a taça com Dionísio por contiguidade, por uma relação sujeito/instrumento, por um hábito cultural (sem o qual a taça poderia estar para muitos outros sujeitos). Esta relação não pode absolutamente ser reconduzida a uma árvore de Porfirio, a menos que se queiram realizar malabarismos conjuntivos (do tipo: a taça pertence à classe de todas as coisas que caracterizam Dionísio, ou, então, Dionísio pertence à classe de todos os que usam taças). E o mesmo acontece na relação escudo/Ares. Em outras palavras, é muito difícil reconhecer esta relação como um caso de encaixe espécie/gênero.

Parece que no caso homens/animais, estamos diante de uma relação analítica, enquanto no caso taça/Dionísio estamos diante de uma relação sintética. O homem é animal por força da definição do termo /homem/, enquanto a taça não remete necessariamente a Dionísio a não ser num co-texto restritíssimo em que sejam elencados, iconograficamente, os vários deuses pagãos com seus atributos caracterizantes. Panofsky e Caravaggio concordariam em sustentar que se Dionísio, então taça, mas eles mesmos admitiriam que não é possível pensar num homem que não seja animal, enquanto é possível pensar em Dionísio sem a taça. Vamos admitir, porém, que seja possível homologar a relação taça/Dionísio com a homem/animal. Surge, no entanto, um novo problema. Por que Dionísio deve ser relacionado com Ares e não, por exemplo, com Ceres, Atenas ou Vulcano?

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Foi decidido que a intuição do falante deve ser excluída deste tipo de consideração (porque a intuição do falante é determinada por contextos culturais), mas é bastante intuitivo que seria difícil para o próprio Aristóteles nomear a lança de Atenas como /taça de Atenas/ e as searas de Ceres como /escudo de Ceres/ (embora não se excluam contextos 'barrocos' em que isto pode acontecer). A intuição. diz que escudo e taça podem ser relacionados porque ambos são redondos e côncavos (redondos e côncavos de forma diferente, mas é nisto que reside a argúcia da metáfora, no fazer reconhecer uma certa semelhança entre coisas diferentes). Mas o que une Dionísio e Ares? No panteão dos deuses pagãos, os une (admirável oximoro) sua diversidade. Deus da alegria e dos ritos pacíficos, Dionísio; deus da morte e da guerra, Ares. Portanto, um jogo de semelhanças que interage com um jogo de dessernelhanças. Taça e escudo são semelhantes porque ambos são redondos; são dessemelhantes por sua função. Ares e Dionísio são semelhantes porque ambos são deuses; são dessemelhantes por seu respectivo campo de ação.

Diante deste emaranhado de problemas, surgem imediatamente algumas reflexões: aquilo que não apareceu a Aristóteles com tanta evidência foi depois desenvolvido em épocas diferentes pela metaforologia posterior.
7 Proporção e condensação
A metáfora de quatro termos não põe em jogo somente substâncias verbais. Assim que a proporção abre caminho, não é possível deixar de ver, e de forma incongruente, Dionísio que bebe num escudo ou Ares que se defende com uma taça. Nas metáforas dos dois primeiros tipos, o metaforizante absorvia em si (ou se confundia com) o metaforizado, assim como uma figura entra no meio de uma multidão - e dela sai - sem que nossos hábitos cognitivos sejam questionados. No máximo, se uma imagem tinha que corresponder à aprendizagem verbal, havia algo que se empobrecia quanto à riqueza de suas determinações, conceituais e perceptivas. Na metáfora de terceiro tipo, ao contrário, já se cria uma sobreposição quase visual entre vegetal e moça, como no quarto tipo.

Aristóteles, mesmo se de modo confuso, percebe isto: nomeando uma coisa com o nome de outra, negamos uma das qualidades que lhe são próprias. o escudo de Ares poderia ser nomeado também como «taça sem vinho» (Poética, 1457b, 32). Albert Henry (1971) observa que esta não é mais uma metáfora, mas um o fenômeno secundário>>, consequência da metáfora preliminar. Está certo, mas

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isto significa que, assim que a metáfora começa a ser compreendida, o escudo se torna uma taça, mas esta taça, mesmo permanecendo redonda e côncava (embora de modo diferente do escudo), perde a propriedade de estar repleta de vinho. Ou então, ao contrário, forma-se uma imagem em que Ares tem um escudo que se enriquece da propriedade de estar cheio de vinho. Em outras palavras, duas imagens se sobrepõem, duas coisas se tornam diferentes de si mesmas e, no entanto, reconhecíveis: disto nasce um hipocampo visual (além de conceitual).

Não se diria que estarmos diante de uma espécie de imagem onírica? E, de fato, o efeito da proporção que se instaurou é muito parecido com o que Freud (1899) chamava de 'condensação': na qual podem cair os traços que não coincidem enquanto se reforçam os comuns. Este processo não é só típico do sonho, mas também do “mot desprit”, ou seja, daquelas argúcias ou palavras compostas (WuXpà, Retórica, 1406b, I) e, melhor ainda, daquelas expressões espirituosas (àorteia, ibidem, 1410b, 6) que parecem tão similares a algumas das categorias de Witze, Kalauer e Klangwitze, analisadas por Freud (1905). Se a tipologia freudiana pode ser reportada a uma tipologia retórica do tipo daquela proposta no quadro 1, em todo caso é certo que o resultado final da proporção aristotélica é logo um processo semelhante à condensação freudiana, e que esta condensação, como demonstraremos melhor mais adiante, pode ser descrita em seu mecanismo semiótico em termos de aquisição e perda de propriedades ou semas, como se preferir dizer.


8 Dicionário e enciclopédia
Como vimos no segundo capítulo deste livro, as propriedades postas em jogo pela metáfora de terceiro e quarto tipos não têm o mesmo estatuto lógico das propriedades postas em jogo pelas metáforas dos dois primeiros tipos. Para obter a condensação taça/escudo - mas está claro que se condensam. da mesma forma Dionísio e Ares e, escolhendo um outro exemplo, manhã e ocaso, dia e vida - é necessário pôr em jogo propriedades ou semas como «redondo», «côncavo», «ultimatividade» ou <>, e ainda a «guerra» e «paz», «vida» e «morte». Ora, está claro que o que aqui se perfila é uma diferença entre descrição semântica em forma de dicionário e em forma de enciclopédia, ou ainda, com variações não consistentes, entre propriedade Σ e propriedade Π (Grupo μ, 1970) e entre propriedades semânticas e propriedades semiológicas (Greimas, 1966).

O Grupo μ distingue uma série endocêntrica de propriedades 'conceituais' (modo Σ ) e uma série exocêntrica de propriedades empí-

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ricas (modo Π ). Um exemplo de série endocêntrica seria o encaixe bétula-árvore-vegetal (curiosamente os autores consideram uma única direção: se x é uma árvore, então ou é um choupo, ou uma bétula, ou uma faia, sem considerar que, se x é um choupo, então é necessariamente um vegetal; mas os dois movimentos são complementares). Um exemplo de série exocêntrica seria a relação entre uma árvore e suas partes: e fuste e ramos e folhas. Veja-se a distin- ção entre os dois 'modos':

Vegetal


Árvore

Choupo ou faia ou pinheiro que pode ter: Fuste; Ramos; Folhas


O Grupo g sabe muito bem que as séries endocêntricas «existem virtualmente no léxico, mas somos nós a traçá-las para vocês, porque cada palavra ou conceito pode ser por princípio o cruzamento de tantas séries quantos são os semas que contém (1970). Mas, após ter mostrado esta consciência crítica dos mecanismos metalinguísticos de um dicionário, não tira disto o partido que deveria e recai numa espécie de identificação aristotélica das categorias com as coisas. Veja-se o modo como são consideradas as várias construções metafóricas em virtude de uma dupla passagem sinedóquica, de sinédoque generalizadora (Sg) para sinédoque particularizadora (Sp) e vice-versa, seja no modo Σ , seja no modo Π.
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A regra proposta é que o termo I, que fica ausente da interpretação metafórica, deve ser uma sinédoque do termo de partida D, enquanto o termo de chegada A deve ser uma sinédoque de I. A condição é que A e D se encontrem no mesmo nível de generalidade. A dupla troca sinedóquica deve produzir uma interseção entre D e A. Segundo o modo E, a metáfora se baseará nos semas comuns a D e a A, enquanto, segundo o modo Σ , ela se baseará em suas partes comuns. A parte material deve ser menor do que seu total; a parte sêmica deve ser mais geral.

O exemplo a é incorreto. Que uma bétula seja flexível é propriedade Π , a menos que não se queira mudar a árvore dicionarizada e considerar todas as coisas flexíveis. Reveja-se com atenção o esquema anterior: O exemplo deveria ser /choupo da selva/ por «baobá»; melhor ainda /navio do deserto/ por << camelo >>, quando o contexto já tiver caracterizado, segundo o dicionário, o camelo como veículo.

O exemplo b é correto, porque não se pode dizer /apertou minha cabeça/ por <>. Mas o mecanismo que exemplifica não é, de jeito nenhum, impossível. A situação onírica (ou de Witz), pela qual de /nariz/ se chega a <(homem>> e deste a «pênis», não é de jeito nenhum impensável. Por que o nariz pode metaforizar o pênis e a mão não pode metaforizar a cabeça? A resposta é sugerida repetidas vezes por Greimas (1966): dois semas opõem-se ou unem-se dependendo do classema (que outra coisa não é que uma seleção contextual. Cf. Eco 1975; 1979). Nariz e pênis têm em comum sua natureza de «apêndice» e seu (< comprimento >) (além do fato de que ambos são canais, ambos têm ponta e assim por diante). A cabeça, ao contrário, tem semas de <>, de «apicalidade», de unicidade o que a mão não tem. A substituição, então, não se baseia só num jogo de sinédoques, mas questiona uma relação sêmica mais complexa em que a referência comum do nariz e do pênis ao corpo se torna irrelevante. Só desta forma se dá o efeito de sobreposição típico dos processos de condensação.

Quanto ao exemplo c, parece de novo que o Grupo μ escolheu como dicionarizadas (ou Σ ) propriedades que parecem Π e, se quis construi-las como dicionarizadas, não diz por que razões contextuais foi necessário fazê-lo. É verdade, porém, que a metáfora parece impossível porque se passa de um gênero para uma espécie, para depois ir daquela espécie para outro gênero, o qual, no entanto, não tem nada em comum com o primeiro. Segundo o Grupo μ , este seria também o caso de uma passagem do gênero «ferro» para a espécie

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«lâmina» e depois da espécie «lâmina» para o gênero «coisa achatada». A coexistência num mesmo objeto da qualidade férrea e da qualidade achatada não produziria interseção de propriedades.

Chegamos por fim ao caso d, que poderia ser melhor exemplificado com uma passagem para <


> (propriedadendo petróleo), a partir de /petróleo/; da propriedade «precioso» passa-se para outro lexema, ao qual pode ser acrescentado, por exemplo, /ouro/, e disto resultaria a substituição ouro/petróleo em metáforas como /o ouro dos xeiques/ ou /o ouro negro/. Mas, neste caso também, estariam em jogo outras propriedades como «negro» ou «dos xeiques», que o esquema do Grupo μ não leva em consideração. Mais adiante, procuraremos resolver todos estes problemas.

Ao fim desta discussão da proposta aristotélica (que, como vimos, nem a metaforologia mais atualizada soube resolver) evidenciaram-se dois tipos de problemas: 1) a existência de processos de condensação, que torna bastante pobre a explicação proporcional; 2) a necessidade de uma consideração mais flexível das relações entre propriedades dicionarizadas e propriedades enciclopédicas, que são subdivididas segundo necessidades contextuais. Então, por que a proposta aristotélica fascinou ao longo dos séculos miríades de intérpretes? Neste caso entrou em jogo uma dupla razão, ou seja, entraram em jogo um equívoco e uma lucidíssima intuição.


9 A função cognoscitiva
O equívoco está no fato de que, na passagem da consideração dos três primeiros tipos para o quarto, Aristóteles, sem querer, mudou as regras do jogo: ao falar dos três primeiros tipos, ele diz como a metáfora é produzida e compreendida; ao falar do quarto tipo, ele diz o que a metáfora faz conhecer. Nos três primeiros casos, diz como a produção e a interpretação metafóricas funcionam (e pode fazê-lo porque o mecanismo, que é sinedóquico, é bastante simples e se baseia na lógica inflexível da árvore de Porfirio, não importa como seja escolhido). No quarto caso, ele diz o que a metá- fora diz, ou no que ela aumenta o conhecimento das relações entre as coisas. Efetivamente, o diz só em parte. É certo que a metáfora /taça de Ares/ insinua a suspeita de que exista uma relação qualquer entre taça e escudo e entre Ares e Dionísio. Mas a teoria da condensação disse que o que se aprende não é só isto. A proporção aristotélica é o esquema abstrato e indefinidamente preenchível de um conhecimento que de fato é muito mais rico (no que consiste esta relação, o que elimina e o que guarda, de que forma os termos


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