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No entanto, isso parece apenas um artifício para produzir descrições de vocabulário. Mais cônscias da natureza inferencial da representação semântica são as representações por casos como as de Fillmore (1968) que podem ser reportadas às várias estruturas actanciais (cf. Greimas; 1966) em que para uma determinada ação



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se registram o Agente, o Contra-Agente, o Objeto, o Instrumento, o Fim. Não diferentes são as representações tentadas por Bierwisch (1970; 1971). Veja-se esta representação de /matar/: XS CAUSA (Xd CONVERTE-SE EM (-VIVO Xd)) + (ANIMADO Xd), em que se o verbo tivesse sido /to assassinate/ (em inglês) se deveria ter especificado que Xd era personagem político. O limite dessa representação é que as expressões em maiúscula são admitidas como primitivos de nenhum modo analisáveis.

Em conclusão, esses tipos de representações repropõem a proposta da 'lógica dos relativos' de Peirce que já tinha entrevisto como o significado de um termo deveria ser representado mediante referências a outros termos com que estará necessariamente contextualizado. Trata-se de representar por exemplo uma ação como um predicado de vários argumentos. /Vender/ será: V (x, y, z) para exprimir a regra que, se há venda, então haverá um x que vende y a z.

Nessa linha também se coloca a minha proposta (cf. Eco 1975, § 2.11) de um modelo semântico que leve em conta as diversas seleções contextuais (entre elementos de um mesmo sistema semiótico) e circunstanciais (entre elementos de sistemas diversos):

/Expressão/

(cont x) p1 p2

(cont: k conotação P6)

(cont y) p1 p3

em que pI1, .... pn, são diferentes propriedades que são conferidas a uma expressão conforme os contextos e as circunstâncias. Esse modelo presume que 1) as propriedades não sejam primitivos semânticos mas interpretantes, isto é, outras expressões que por sua vez podem tornar-se sujeito de uma representação sucessiva; 2) os contextos e as circunstâncias registrados não sejam infinitos mas sejam os que estatisticamente, segundo uma hipótese de competência média (ou em referência à competência requerida por um certo contexto), sejam considerados parte da competência enciclopédica do emissor ou do destinatário. Por exemplo, para uma expressão como /cão/ pode-se prever que a competência média considere o contexto zoológico, o contexto 'armas de fogo' e o contexto astronômico: em cada um desses três contextos /cão/ significa uma coisa diferente. A representação não pode levar em conta os contextos idiossincráticos (por exemplo, um agente secreto que decidiu atribuir a /cão/ o sentido de «agente inimigo»).


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Esse modelo, ulteriormente refinado, leva em conta as diferenças entre denotações e conotações. Por exemplo, num contexto zoológico, /cão/ denota as propriedades «animal + mamífero + carnívoro + etc. », mas somente com base na atualização dessas propriedades (e de quantas outras uma porção de enciclopédia pode conferir diretamente a essa expressão: que o cão late, baba, pode ser raivoso etc.) se pode decidir atribuir a /cão/ em sucessivos contextos a conotação «animal desprezível». Segundo Hjelmslev (1943), uma semiótica conotativa tem como plano de expressão uma semiótica denotativa. Para que esse modelo funcione é preciso a cada vez estabelecer porções até então desconexas de enciclopédia (eixos, campos, subsistemas) que forneçam à expressão propriedades atribuíveis, na forma que segue:

onde SP ... ,S4 são expressões e as letras gregas representam propriedades organizadas em porções de enciclopédia. Assim, a uma dada expressão podem ser atribuídas posições diversas em diferentes sub- sistemas, de modo tal que uma propriedade signifique, por conotação, uma propriedade ulterior. É também possível compreender uma expressão que, variando as seleções contextuais ou circunstanciais, admita propriedades contraditórias, isto é, opostas ao interior da porção de enciclopédia a que se refere. Esse modelo explica as hipóteses estabelecidas por alguns (cf. por exemplo Putnam 1970) de que uma mesma expressão pode admitir, para um usuário culto, uma série hierarquizada de propriedades, enquanto para um outro

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menos culto admite uma série desconexa de propriedades diversas. Por isso, /cão/ para um zoólogo admite propriedades 'científicas' devidamente hierarquizadas segundo as taxinomias oficiais, enquanto para um outro usuário, que ignora a definição dos naturalistas, o cão remete a uma série de características mais ou menos desconexas: «animal, que late, fidelíssimo, que fede, bom para a caça». Em cada caso esse modelo exibe a natureza inferencial própria do signo, dado que, se uma dada expressão, então (se se verifica a ocorrência de um dado contexto) a propriedade pj.

Putnam (1975) em seguida desenvolveu essas idéias elaborando o conceito de representação estereotipada: « a forma normal da descrição do significado de uma palavra deveria ser uma seqüência finita, ou 'vetor', cujos componentes deveriam certamente incluir tudo o que segue (ainda que fosse desejável ter outros tipos de componentes): 1) as marcas sintáticas da palavra em questão, por exemplo 'substantivo'; 2) as marcas semânticas da palavra, por exemplo 'animal' ou 'período de tempo'; 3) uma descrição de um traço estereotipado aditivo, se houver; 4) uma descrição da extensão. A convenção que segue faz parte da proposta: os componentes do vetor reprèsentam todos juntos uma hipótese acerca da competência do falante, exceto a extensão (1975, p. 269). Portanto, a forma normal da descrição que Putnam experimentalmente sugere é a seguinte:

Marcas sintáficas

Substantivo Concreto

Marcas semánficas

Gênero natural Líquido

Estereótipos

Incolor Transparente Insípido Dessedentante

Extensão H20


Essa proposta exige algumas considerações. A extensão é posta por razões de fidelidade à teoria dos designadores rígidos que (embora com variações pessoais) Putnam, retira de Kripke. A extensão depende de uma relação originária com a 'essência' desse gênero natural e admite-se que quando os falantes falam de água, independentemente de sua competência, referem-se a alguma coisa que é 'naturalmente' H2O. Retomaremos mais adiante o problema da designação rígida. No que conceme ao nosso quadro de referência é óbvio que também H2O é um artifício semiótico que é por sua vez interpretado, assim como são interpretadas as noções, que o interpretam, de hidro-

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gênio e de oxigênio. Como se verá na proposta (que segue) de Petofi e Neubauer, dever-se-á então acrescentar uma série de informações sobre o número atômico, a estrutura atômica e assim por diante.

O estereótipo representa, embora sinteticamente, o que um falante comum atribui ao conteúdo de /água/, salvo se esse falante considerasse também 'líquido' um bom estereótipo. É óbvio porque Putnam põe 'líquido' nas marcas semânticas e 'incolor' no estereótipo. Putnam. considera que a água é necessariamente um líquido por definição, enquanto ocorrem casos de água suja ou colorida. A propósito disso seria necessário retomar a magistral argumentação de Quine (1951) sobre o fato de que é impossível determinar a natureza das marcas analíticas (enquanto distintas das sintéticas), em absoluto, fora do contexto de uma dada cultura capaz de definir o próprio 'centro' de assunções impossíveis de negar e a própria 'periferia' de assunções que se podem continuamente rever. Mas disso se falará melhor no § 5.5.

Admitamos por ora que as que Putnam define como marcas semânticas sejam, lexicalmente falando, simples expressões hiperónimas, mediante as quais ele evita especificar outras propriedades típicas dos líquidos e dos gêneros naturais. Se é assim, como procuraremos mostrar no § 53, também as marcas semânticas deveriam dissolver-se num retículo de outras marcas, provavelmente estereótipos. Nesse caso, aparece mais adequada, embora mais complicada, a representação enciclopédica proposta por Neubauer e Petofi (1981, p. 367), aqui exemplificada mediante a análise que eles apresentam de /cloro/ (cf. p. 75 e 76).

Parece claro que aqui a distinção entre conhecimento comum e conhecimento científico é puramente hipotética e pode mudar conforme os contextos culturais. Em todo caso, essa representação renuncia a toda distinção entre propriedades analíticas e sintéticas, entre dicionário e enciclopédia, entre intensão e extensão. Cada aspecto do conhecimento científico pode servir para estabelecer a extensão do termo sob certas condições, mas a mesma coisa poderia ser dita também do conhecimento 'do senso comum': numa certa situação caseira posso entender por /cloro/ todos aqueles tipos de líquidos esverdeados de cheiro desagradável que o meu interlocutor pode identificar no raio de alguns metros.

O exemplo proposto representa apenas uma das tentativas (múltiplas, e em curso de contínua revisão) que Petofi fez para construir modelos de conhecimento enciclopédico.


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No enquadramento teórico de Petofi (teoria da estrutura do texto e da estrutura do mundo) (cf. por exemplo Petofi 1969), entre os componentes da teoria há um lexicon, que se articula num setor de definições lexicais, um setor de relações de conversibilidades e um thesaurus (este último conceito assimilável ao de competência enciclo- pédica). Assim, enquanto a definição lexical de um termo compreende informações de tipo fonológico, sintático, morfológico e um conjunto de marcas semânticas de tipo dicionário, os constituintes de um sistema de thesaurus são muito mais complexos e compreendem entre outras coisas: SY (sinônimos), EQ (termos equivalentes), TR (traduções), ISF (sintagmas mais amplos de que o item é componente semântico), FIELD (campo ou grupo temático), CAT (catego- ria), BT (termos mais amplos, como gêneros lógicos, relações partes/todo, termos geralmente conexos), NT (termos mais restritos, como hipônimos, partes, termos conexos), COL (termos colaterais), ASC (termos associados), EC (termos empiricamente conexos).

Portanto, um item como /ave/ pode ser analisado em termos de thesaurus como: SY (capoeira), ISF (ave migratória), FIELD (animais), BT (lógico: vertebrados; todo: ser vivo), NT (lógico: ave de rapina, ave canora; parte: bico, asa; termos conexos: aves migratórias), COL (lógicos: mamíferos, répteis), EC (ninho, ar, árvore, água), ASC (voar, canto).

Como se vê, trata-se de um registro de todos os possíveis interpretantes do termo analisado e de todas as seleções contextuais e circunstanciais. Naturalmente, nessa perspectiva, o que a enciclopé- dia adquire em complexidade, perde em maneabilidade e representabilidade global (e com efeito Petofi tentou até agora construções muito parciais com a finalidade de analisar textos específicos). De qualquer modo, é indubitável que a semântica proposta por Petofi é uma semântica de instruções.

Em Eco (1979) foram definidas como teorias de segunda geração (independentemente de sua data de nascimento) todas as que reconhecem a necessidade de representar o conteúdo das expressões como séries de instruções orientadas para a inserção contextual. Nessas semânticas o semema (ou a representação do conteúdo) aparece como um texto virtual, e todo texto é apenas a expansão das virtualidades de um ou vários sememas. Idéia de resto já presente em Greimas (1973, p. 174) a propósito dos 'programas narrativos': « O pescador contém em si, evidentemente, todas as possibilidades do próprio fazer, tudo o que se pode esperar dele em matéria de comportamento».

Desse tipo são também as representações hoje em uso dos programas de inteligência artificial, reforçadas com roteiros, ou frames,

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ou scripts (cf. Schank 1975; Schank e Abelson 1977) que não só procuram representar enciclopedicamente o significado. lexical de uma expressão mas também registrar todas aquelas formas de conhecimento que permitem fazer inferências contextuais. Mediante o uso de alguns primitivos que representam operações.fundarnentais (como ATRANS, EJECT, INGEST, MOVE etc), Schank representa da maneira que segue o verbo /to eat/ 'comer' na expressão /John ate afrog/ 'João comeu uma rã':

Schank enuncia em outro lugar (1979) o problema de como fornecer ao computador instruções para resolver o problema chamado de Muhammad Ali. O computador deve ter, conhecimentos tais que lhe permitam fazer inferências diversas conforme se lhe diga que João esbofeteou Maria ou esbofeteou Muhammad. Ali. No primeiro caso, deverá fazer inferências sobre aquilo que aconteceu a Maria, no segundo sobre aquilo que aconteceu a João. Não se trata de um jogo, mas de uma questão que remete à competência efetiva.

Nessa linha colocam-se as tentativas de representação do significado dos termos chamados sincategoremáticos (como conjunções, advérbios, preposições etc.). É este um ponto fundamental de uma semântica de instruções. Se se pensa numa semântica em forma de dicionário, então se torna difícil estabelecer que propriedades podem ser atribuídas a expressões como /todavia/, /ao invés de/ ou semelhantes.

Mas se se concebe uma semântica de instruções, fundada em mecanismos inferenciais, então o conteúdo de uma expressão sincategoremática coincide com o tipo de operações de cooperação contextual que se espera que o destinatário deva realizar para fazer funcionar a expressão num dado contexto. Em Eco (1979) analisa-se, por exemplo, o conteúdo da expressão /invece/* considerando que


*/Invece/ significa “ ao invés de”, ao “contrário” (N. do T.)

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ela, quando seguida sintaticamente de /di/, tem função preposicional e exprime, no interior de uma frase simples, « substituição»; enquanto quando não é seguida de /di/ e aparece em referência a uma frase precedente (isto é, não é um operador frástico mas textual) é gramaticalmente advérbio e exprime << oposição>> ao topic ou argumento da frase precedente:

/invece/
, (cont + 1d11 + x) - prep-

- (cont,

lopic X1


adv.

'substituição de x'

'oposição a x

Dadas as três expressões /Maria ama as maçãs e João, ao contrário, as odeia/, /Maria ama as maçãs e, ao contrário, odeia as bananas/ e /Maria está tocando violino, João, ao contrário, come uma banana/, uma simples regra lexical que estabeleça que /ao contrário/ significa apenas «oposição» não diria a que coisa o advérbio se opõe, dado que parece opor-se indistintamente ao sujeito, a sua ação, ao objeto, às vezes a todos os elementos da frase precedente. Na reali- dade, as três frases devem ser entendidas como respostas a três perguntas diferentes e, por isso, são contextualizadas em referência a três diferentes topic ou argumentos discursivos: no primeiro caso o argumento é 'pessoas que gostam de maçãs', no segundo 'fruta de que Maria gosta' e no terceiro 'lição de música'. Uma vez estabelecido o topic, sabe-se a que /invece/ se opõe num dado co-texto.

A representação que se propôs permite (instrui para) fazer inferências contextuais uma vez que tenha sido caracterizado o argumento do discurso. Não estabelece os inumeráveis argumentos possíveis, mas registra sua possibilidade abstrata: a competência enciclopédica provê o destinatário de elementos suficientes para atualizar o significado lexical do termo com base em outras inferências co-textuais que a teoria semântica prevê sem poder registrá-las antecipadamente.

Uma semântica instrucional desse tipo pode estender-se à representação enciclopédica dos fenômenos que até hoje foram genericamente atribuídos à pragmática. Veja-se o fenômeno da pressuposição (cf. Petofi e Franck 1973). Há algumas pressuposições que se definiriam como 'lexicais' e que são de algum modo veiculadas pelo emprego de uma dada expressão. Não se pode usar a expressão /limpar/ sem que se pressuponha que o objeto limpo ou a limpar estivesse anteriormente sujo. Uma regra para estabelecer o poder pressuposicional de um termo é: o que o termo pressupõe não é eliminado quando o termo é precedido de negação. Vale dizer que se /Maria limpou o quarto/ pressupõe que o quarto estivesse anteriormente sujo, /Maria não lim-


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pou o quarto/ nega que Maria tenha executado a ação mas continua a pressupor que o quarto estivesse sujo.

Algumas pesquisas mais ou menos recentes (por exemplo, Karttunen. 1971 sobre os verbos 'implicativos') levavam a pensar que havia termos com poder pressuposicional e todavia refratários ao teste da negação. Por exemplo, o verbo inglês /to manage/ (que se poderia traduzir como /conseguir/) parece desse tipo: /João conseguiu tomar o trem/ pressupõe que o tenha tomado, mas /João não conseguiu tomar o trem/ pressupõe que não o tenha tomado.

Questões desse tipo correm o risco de fazer correr inutilmente muita tinta se não se tomam decisões teóricas rigorosas. A decisão que aqui se sugere é: define-se como lexicalmente pressuposto por uma expressão tudo aquilo que resiste ao teste da negação. No caso de /conseguir/ a verdadeira pressuposição é que o sujeito tinha intenção de executar a ação e que a ação era difícil. Prova disso é que se se diz que /João não conseguiu tomar o trem/ se nega que o tenha tomado, mas se continua a pressupor que queria tomá-lo e que a ação apresentava algumas dificuldades.

Esse tipo de pressuposição deve ser registrado como parte do conteúdo da expressão numa semântica enciclopédica de instruções. Os modos de registro podem ser vários e representações do tipo podem ser realizadas mediante uma utilização de casos ou actantes e índices de mundos possíveis (cf. Eco e Violi, trabalho em andamento). Portanto, /conseguir/ seria representável. como:

[SwOt- 1 QUERER (Swot_ 1 CAUSAR (Ow,tj TORNAR-SE Ow0tj)

& DIFíCIL (Owjt, TORNAR-SE Ow0tj & Sw0t0 CAUSAR

(Owjtj TORNAR-SE Ojw0jt0)

onde

I)as expressões entre colchetes representam o pressuposto;



II) S é o sujeito e o o objeto da ação (um estado de coisa linguisticamente representável também mediante uma frase encaixada);

III) as expressões em maiúscula são consideradas como primitivos (admitindo, porém, que a enciclopédia os analise: são, por isso, interpretantes);

IV) w0 representa o mundo de referência (mundo real) e wj qualquer mundo possível que representa a atitude proposicional (crenças, esperanças, projetos) do sujeito;

V) t0 representa o instante de tempo expresso pelo tempo verbal e t - 1, qualquer instante de tempo anterior.

Com base nessas instruções é possível ler a representação proposta. Pressuposto: o sujeito no mundo real e num tempo anterior ao expresso pelo enunciado queria, nesse mesmo mundo e tempo, fazer de modo que um estado de fato possível num tempo indeterminado se transformasse num estado do mundo real num tempo indeterminado e era difícil que essa transformação ocorresse. Asserção: o sujeito no mundo atual e no tempo do enunciado realiza de fato essa transformação. A negação não deve aplicar-se ao que é pressuposto entre colchetes.

Uma representação desse tipo permite registrar enciclopedicamente (isto é, como conteúdo convencional da expressão) uma série de condições diversamente atribuíveis a obscuros mecanismos pragmáticos ou a um não melhor representável conhecimento do mundo.

O modelo atém-se à idéia de uma semântica de instruções, com formato enciclopédico, orientada para a inserção contextual do termo analisado, segundo o modo da inferência: se se pressupõe p, então se emprega a expressão no contexto q. Subtrair essas pressuposições da vaguidade das normas pragmáticas e inseri-Ias numa representação semântica é fundamental para explicar a força persuasiva que resulta do emprego dos termos. Com certeza, se digo a João /Não conseguiste tornar-te presidente da república/, João pode responder-me que estou usando de maneira imprópria (ou de maneira infeliz) o termo /conseguir/, porque ele não tinha a intenção de tomar-se presidente. Ele negaria a pressuposição e, por isso, contestaria de dicto o uso de uma expressão que convencionalmente veiculasse essa pressuposição; dir-me-ia em outras palavras que não tenho o direito de usar uma expressão que exprime por convenção uma pressuposição ilícita na situação de enunciação (João comportar-se-ia no caso do meu enunciado como no caso de uma mentira: fiz referência, por força pressuposicional do termo usado, a um estado de coisas que não é apropriado).

Mas suponha-se que uma mãe tenha por muito tempo advertido o próprio filho para não jogar bola em casa porque corre o risco de quebrar o espelho. A mãe diz-lhe /Conseguiste quebrá-lo!/. O uso da expressão em questão estabelece como indiscutível a pressuposição de que o menino queria quebrar o espelho ainda que a operação implicasse algumas dificuldades. O uso da expressão serve para culpabilizar o menino. Essa estratégia persuasiva pode funcionar apenas se a pressuposição já faz parte do significado lexical do verbo. A licei-


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dade (ou felicidade) é indubitavelmente questão pragmática, mas as condições de liceidade estão fundadas em bases semânticas.

Como último exemplo de semântica de instruções, de forma enciclopédica, pode-se citar o modelo para a interpretação (e produção) das metáforas proposto no capítulo «Metáfora» deste livro.
5.5 Utilidade do dicionário

Toda a argumentação dos parágrafos precedentes visava a demonstrar que é teoricamente impossível conceber um dicionário de primitivos universais estruturados de maneira a formar um conjunto finito.

Isso não quer de maneira nenhuma dizer que: I) por razões práticas, cada vez que se queira realizar uma representação de uma porção local de enciclopédia, não se possa e não se deva recorrer a uma representação estruturada como marcas de dicionário; II) haja razões culturais para que certas marcas ou propriedades enciclopédicas, num dado contexto, não devam ser usadas como 'mais dicionariais' do que outras. Procuremos esclarecer esses dois pontos.

No exemplo dado na figura 12, no fim do § 53, para explicar as hipóteses enciclopédicas necessárias a uma boa interação comunicativa entre marido e mulher, tivemos que recorrer a uma organização em árvore estruturada de acordo com marcas que, segundo aquela determinada descrição, funcionavam como marcas de dicionário. No capítulo terceiro deste livro, para explicar os mecanismos de geração e interpretação das metáforas, recorreremos a um tipo de decisão segundo a qual se elegem algumas marcas como marcas de dicionário e se consideram tanto termo metaforizante quanto termo metaforizado do ponto de vista dos próprios hiperônimos. E no parágrafo 5.2 deste capítulo, citando d'Alembert, viu-se como faz o compilador de enciclopédias, em carne e osso: embora advertindo que todo objeto pode ser incluído em classes diversas conforme as propriedades em relação a que é considerado, depois de tudo, para que se possa falar dele de maneira ordenada, deve ser sempre incluído em uma certa classe (o que significa, deve ser considerado do ponto de vista de algumas de suas propriedades de dicionário).

Parece, assim, que a organização à maneira de dicionário é o modo como podemos representar localmente a enciclopédia. Volte-mos à vexata quaestio * das propriedades analíticas e sintéticas, dis-
*“questão muito debatida”(N. do T.)

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tinção que se reproduz em diversas teorias, como por exemplo na distinção entre propriedades conceptuais (modo Σ) e propriedades factuais (modo Π) na análise das metáforas propostas pelo Grupo 4 (vide o próximo capítulo), ou na distinção entre propriedades atributivas e propriedades descritivas, ou ainda na distinção entre proprie- dades necessdrias e propriedades acidentais.

Voltemos por um instante à distinção das propriedades atribuíveis ao conteúdo do termo /água/ e (seguindo também as sugestões de Putnam citadas no § 5.4).

Eis que se alterariam todas as considerações já feitas sobre a 'necessidade' de que a água seja um líquido e uma substância e a acidentalidade de suas outras propriedades. Mas perguntemo-nos por que nenhum dicionário (também em carne e osso) depois de ter definido a água como '-líquido' acrescenta que ela é fisicamente perceptível, que tem a propriedade de molhar, que não pode recolher-se ou correr senão num leito ou num recipiente artificial, que tende a evaporar-se e assim por diante. É que a noção da perceptibilidade está 'compreendida' de alguma maneira na de 'substância física' e as outras propriedades são comuns a todos os líquidos. Cada uma dessas propriedades compreendidas pelas marcas 'conceptuais' é do ponto de vista próprio uma propriedade factual, porque os líquidos não evaporam sempre do mesmo modo, molham de maneira diferente os diversos corpos, permanecem ou correm num leito ou num recipiente com dinâmicas diversas e assim por diante.

Deduz-se daí que as propriedades ou marcas conceptuais são simples artifícios estenográficos mediante os quais os dicionários evitam dar outras informações 'subentendidas' para não complicar de modo excessivo as definições. Se a comunidade dos falantes aceita (ou supõe-se que aceite sem particulares discussões) que um líquido é uma substância evaporável, que deve estar contida, capaz de molhar, definindo água como líquido economizamos energia. Esta, e não outra, é a função de um hiperónimo num sistema lexical. As marcas 'semânticas' de Putnam não têm nenhum estatuto lógico ou metafísico especial: têm estatuto lexicográfico. São artifícios hiperonímicos. Assim como os gêneros e as espécies numa árvore de Porfirio são simples nomes para conjuntos de diferenças, as marcas conceptuais são abreviaturas lexicais para conjuntos de propriedades factuais que não se julga oportuno pôr em discussão.

Para isto se pode recorrer a marcas de dicionário: há infinitos contextos em que estão postas em questão várias propriedades de /água/ ou de /homem/ ou de /gato/, exceto as propriedades de ser, respectivamente, um líquido, um ser humano, um animal. A organização local de um dicionário estabelece quais, dentre as propriedades anteriormente atribuídas a uma certa unidade de conteúdo, não devem ser alteradas no âmbito de um certo discurso, porque cada discurso (cada contexto) pressupõe algumas noções como 'pacificamente aceites'. Aceitar pacificamente uma noção não quer dizer julgá-la mais ou menos semanticamente necessária: quer dizer, porém, que é pragmaticamente necessário, para o bom andamento da interação comunicativa, aceitar alguma coisa por pressuposto.

A água é um líquido até que não nos encontremos diante de um discurso que (visando a mudar radicalmente o nosso paradigma científico) não porá em discussão a natureza dos líquidos. Há contextos em que se pode usar a expressão /atômico/ partindo do pressuposto de que é 'a-tomo' tudo o que não pode ser 'dividido' em unidades menores; e há contextos em que é preciso, ao contrário, partir da afirmação oposta.

Nesse sentido, portanto, organizamos um dicionário toda vez que queremos circunscrever a área de consenso dentro da qual um discurso se move.

Se a enciclopédia é um conjunto não ordenado (e potencialmente contraditório) de marcas, o ordenamento de dicionário que pouco a pouco se lhe confere tenta reduzi-Ia, transitoriamente, a conjuntos o mais possível hierarquizados.

Dito isso, pode-se passar à segunda questão: há razões pelas quais certas marcas de dicionário apresentam maior inércia histórica e cultural do que outras, de modo que seja impossível encon- trar contextos em que elas sejam postas em discussão? A questão contém já a resposta: se aceitamos a discussão de Quine (1951), devemos dizer que em princípio não há razões para privilegiar certas marcas em relação a outras. Mas o que não é possível em princípio se verifica como dado histórico e, portanto, como dado de vida cultural. Indubitavelmente, marcas que habitam os nós últi-

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mos de tantas árvores de dicionário (como 'vivente' ou como 'corpo' enquanto oposto a 'não corpo') estão radicadas no modo de pensar de uma civilização. A própria distinção entre gêneros naturais (que pode ser reportada à distinção aristotélica de espécie ou substância segunda) e acidentes parece radicada na própria estrutura das línguas indo-européias (sujeitos e predicados, substantivos e verbos, substantivos e adjetivos etc.). Não é que essas distinções não possam ser discutidas: é que para discuti-Ias é preciso pôr em questão todo o nosso modo de pensar e de falar. Por isso, parece muito mais cômodo pressupô-las como indiscutíveis. Mas basta passar dos contextos 'funcionais' aos 'poéticos' para se dar conta de como, precisamente mediante as estratégias metafóricas ou simbólicas, tende-se algumas vezes a pôr em questão também e talvez precisamente essas distinções. E são esses os casos em que parece muito mais difícil recorrer a estruturas correntes de dicionário.

É indubitável que a diferença corrente, no nível lexical, entre denotações e conotações reproduz ainda uma diferença entre dicionário e enciclopédia. Pode-se discutir se um cão é o melhor amigo do homem, se é fiel, se é dócil, se é obediente, não se é um animal. A razão dessa resistência é cultural, depende da duração de uma certa visão do mundo, que fixou de modo bastante forte o próprio centro e a própria periferia. Hoje, estamos dispostos a pôr em dis- cussão a distinção entre matéria e espírito, mas muito menos a distinção entre seres humanos e animais irracionais.

Eis por que parece às vezes difícil aceitar que, embora numa perspectiva enciclopédica toda propriedade tenha o direito de ser privilegiada conforme os contextos, seja sempre e em cada caso o contexto a decidir quais são as propriedades a privilegiar (cf. Violi 1982): «algumas propriedades parecem de fato ser mais independentes do contexto e, por isso, mais constitutivas do que outras, no sentido de que parecem ser genericamente realizadas em todos os contextos». Diante dessa observação é necessário certamente admitir que, de qualquer modo, uma hierarquia 'dicionarial' das propriedades não é noção de que se possa desfazer inteiramente. E diversas teorias semânticas esforçam-se por distinguir entre propriedades diagnósticas ou centrais, ou prototípicas, e outras mais sujeitas a variações. Mas basta admitir, como já foi dito, que essa 'resistência' das propriedades depende não só da força inercial dos sistemas de crenças e opiniões radicadas numa cultura (ou paradigma), mas também da medida em que um determinado discurso pretende pôr-se à prova ou não, na crítica e destruição desse dado paradigma.

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Em conclusão, uma vez que se demonstre que o dicionário não é uma condição estável dos universos semânticos, nada impede de (e muitos fatores encorajam a) admiti-lo como artifício útil, cônscios de sua natureza de artifício.
6 Significado e designação rígida
Há, no entanto, expressões que parecem inanalisáveis em termos de conteúdo, mas que parecem funcionar apenas em operações de referimento. É o caso daquelas que Peirce chamava índices e que parecem apreender e identificar o próprio Remetido apenas em conexão física evidente com um objeto ou estado do mundo. São signos dêiticos como /este/ ou /aquele/, gestos de apontar ou indicar, e nomes próprios em sentido estrito (além de nomes próprios em sentido lato, representados por sintagmas indiciais como /este gato/).

Já se mostrou (cf. Eco 1975 § 2.11.5) como também é possível dar uma representação de índices verbais e não verbais em termos deconteúdo; e como esse conteúdo é compreensível, embora não esteja perceptivelmente associado a um objeto ou estado do mundo. Se digo /este/ e aponto o indicador para o vazio, meu destinatário certamente não entende a que me refiro, mas entende que estava referindo-me a algo ou que simulo referir-me a alguma coisa. O que o destinatário entende é exatamente o significado da expressão, embora seu uso para fins de referimento pareça falho. Essas expressões indiciais podem ser analisadas como os sincategoremáticos do tipo /ao contrário/.

Quanto aos nomes próprios em sentido estrito, de fato representamos seu conteúdo sob a forma de descrições definidas, isto é, como sustentou Searle, os nomes próprios são «ganchos para neles pendurar descrições definidas», (Searle 1958; cf. também Eco 1975, § 2.9.1). O nome /João/ é abundantemente sinonímico, isto é, pode ser referido a diversas entidades; mas, quando num discurso é introduzido esse nome, o destinatário ou refere-o a uma entidade do próprio universo de conhecimento já de algum modo definido ou pede sua definição: aprenderá por exemplo que João é o neto de Maria e é o farmacêutico da esquina. A mesma coisa acontece com os nomes próprios de personagens históricas, de quem se dão abundantes e públicas descrições enciclopédicas. As várias descrições possíveis de João são sentidos sob os quais João me é dado (Frege): e o mesmo ocorreria a quem ouvisse nomear pela primeira vez a estrela da tarde. Defino o objeto mediante sentidos comple-

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mentares ou caracterizo a extensão do termo mediante a determinação de sua intensão.

Todavia, essa posição foi posta recentemente em questão mediante uma série de experimentos de anulação das descrições definidas (cf. as discussões de Kripke 1972; Schwartz 1977; French e outros 1979). Suponha-se conhecer Aristóteles como o autor da Metafísica, o autor da Poética, o mestre de Alexandre ou o discípulo mais célebre de Platão. São possíveis enunciados e inferências contrafactuais do tipo /Se Aristóteles não tivesse sido o autor da Poética, então ... /. À luz das afirmações precedentes (e da teoria semiótica da identificação de indivíduos mediante mundos possíveis alternativos, desenvolvida em Eco [1979]) pode-se dizer que o contrafactual em questão é formulável como /Se o filósofo autor da Metafísica, discípulo mais célebre de Platão e mestre de Alexandre, não tivesse escrito a Poética ... /. Onde, admitido que a descrição sob a qual Aristóteles está intencionado seja a de autor da Metafísica, poder-se-ia facilmente identificar aquele que se convenciona ser 'necessariamente' autor da Metafísica e que num mundo possível wj não escreveu a Poética, como o mesmo indivíduo do nosso mundo de referimento w0. De fato, se as propriedades necessárias não o são ontologicamente mas em virtude de uma convenção, isto é, em relação à descrição que é admitida como relevante, o Aristóteles que se julga necessariamente caracterizável como o autor da Metafísica poderia acidentalmente em algum mundo possível não ter escrito a Poética.

Mas o experimento de Kripke concerne a casos em que são subtraídas de Aristóteles todas as caracterizações possíveis. Se Aristóteles não tivesse escrito nem a Metafísica nem a Poética não tivesse sido mestre de Alexandre, não tivesse sido o maior discípulo de Platão, poder-se-ia ainda falar de Aristóteles? A teoria kripkiana sugere que se falaria sempre de uma certa entidade espaço-temporal, dotada de uma certa essência individual, que o nome /Aristóteles/ designa rigidamente. Um nome é um 'designador rígido' porque se une a um objeto preciso, inicialmente caracterizado de modo intuitivo, que foi assim denominado e cuja denominação durou ao longo dos séculos mediante uma cadeia de designações, comó se uma série continuada de indicações gestuais, de um que indica para outro, se tivesse transmitido até hoje sem interrupção. Essa teoria do significado, oposta à teoria descricional, foi definida como teoria causal e parece inspirada numa epistemologia cética de índole humiana (cf. Dauer 1980).

As objeções que se podem endereçar à teoria causal do significado são de dois tipos. Admita-se que ela seja verdadeiramente uma teoria radicalmente céptica, segundo a qual as essências só são definífeis como objecto de intuições individuais, a relação entre os nomes e tais essências (“géneros naturais”) (cf, Quine 1969) transformou-se de usuário ao longo dos séculos em forma de um não melhor definível vínculo de crença.

Nesse caso, essa teoria representaria a própria destruição de uma semiótica e de uma teoria do significado. Não há significados mas sóreferimentos, e reações às cadeias de referimentos, mais uma não melhor definível regra de comportamento que intuitivamente usar os designadores rígidos. Essa regra de comportamento é, porém, postulada, mas não fundada ou descrita. De outro lado, também os defensores da teoria causal julgam que ela é válida para géneros naturais(substâncias aristotélicas, peixes, gatos,aves e indivíduos como Aristóteles) mas não para géneros não naturais como solteiro ou bispo, para os quais seria ainda mais eficaz uma teoria descricional. Seriam portanto, duplicadas as teorias para dois diferentes comportamentos semióticos, irredutíveis um ao outro. Haveria géneros não naturais, que se devem descrever, e géneros não naturais, para os quais se tem uma «intuição inata» (ibidem).

Mais flexivel é talvez o conceito de designação rígida em Putnam. Suponhamos, sugere (1975, p.200) eu fosse vizinho de Benjamin Franklin quando realizou a sua primeira experiência sobre electricidade e que Franklin me tivesse dito que /electricidade/ é um nome de um fenómeno assim e assado. Ele ter-me-ia dado uma definição definida, aproximadamente correta, do fenómeno. Ora quando o uso do termo /electricidade/ me refiro àquele evento introdutório, ao momento em que aprendi o termo, e todo meu uso do termo estaria casualmente ligado àquele evento, ainda que eu tivesse esquecido onde e quando ouvi o nome pela primeira vez. Ora suponhamos que eu ensine o termo a outro, pela primeira vez, dizendo-lhe que /electricidade/ significa uma certa grandeza física assim e aassado, sem mencionar o vínculo causal que liga meu uso atual do termo àquele evento introdutório. Isso não exclui que a presença desse termo no meu vocabulário estaria sempre, no entanto, causalmente conexa àquele evento.

A objeção é que esa conexão causal seria puramente histórica e, se quisermos, de ordem jurídica (no sentido de que Franklin poderia requere direitos autorais toda a vez que alguém usasse o termo);


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mas ela não esclarece o significado do termo em si. O que nesse caso parece decisivo é o fato de que eu.hoje para explicar seu significado devo recorrer a descrições e assim havia feito Franklin naquele dia. O evento introdutório era algo similar ao objeto dinâmico peirciano (eram objeto dinâmico a eletricidade como grandeza física e a sequência de fatos que se verificou naquele dia), mas o que permite a comunicação entre Putnam e a pessoa a quem ele ensina o termo, ou entre nós e o mesmo Putnam, é que todos somos capazes de configurar, mediante descrições, um objeto imediato, e esse objeto imediato é interpretado em termos de dados de enciclopédia. Pode ocorrer que a enciclopédia registre também, entre os interpretantes de eletricidade, uma fotografia (se fosse possível) de Putnam falando com Franklin (assim como as enciclopédias no verbete /eletricidade/ registram também imagens de Franklin empinando um papagaio). Mas precisamente por isso se percebe que se fala da própria existência e possibilidade do evento introdutório apenas mediante interpretantes (e também a narrativa que Putnam faz de seu encontro com Franklin 'é um fenômeno serniótico: se o evento ocorreu, a única prova disso são as linhas impressas à página 200 de Putnam 1975).

De outro lado, imaginemos que, para evitar futuras guerras, as Nações Unidas decidam estabelecer um Peace Corp e, para evitar que seus membros tomem partido de um ou de outro povo, eles deveriam ser ISP (Inter-Species Clones), isto é, seres serni-humanos produzidos por clonagern e fazendo hibridação de roqueiros punks com chimpanzés amestrados pelo casal Gardner. As Nações Unidas deveriam discutir longamente acerca da possibilidade de produzir esse “gênero natural”, isto é, deveriam falar dos ISP antes que eles existissem, ou melhor, precisamente para que eles pudessem um dia existir. Então é claro que, se a atribuição do nome /isp/ aos ISP (antes que eles existam) representa uma cerimônia batismal, o que é batizado não é uma coisa, mas uma descrição enciclopédica. Não pode haver ostensão originária, como para as palavras-objeto, mas só uma decisão legal que correlaciona uma fonação a uma descrição enciclopédica (verbal, visual ou alfa-numérica).

A questão é se usamos mais nomes para designar coisas que foram encontradas pela primeira vez por algum nosso antepassado ou se usamos mais nomes para designar coisas que deveriam existir, e exatamente por força de nossas decisões enciclopédicas. E esse segundo processo ocorre também para membros de gêneros naturais, como quando um homem e uma mulher decidem unir-se para gerar um menino que se chamará Teobaldo IV.

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Ademais, a teoria da designação rígida não permite estabelecer a diferença entre nomes como /Aristóteles/ e nomes como /Aquiles/. Só a admissão de que o significado do nome é estabele- cido mediante uma série complementar de descrições culturais pode garantir a possibilidade de reconhecer que Aristóteles é uma personagem histórica e Aquiles, uma personagem de ficção. Se no quadro da teoria da designação rígida houvesse uma maneira de percorrer novamente as cadeias das designações e estabelecer as propriedades ontologicamente atribuídas a Aristóteles ou a Aquiles, no momento em que foram nomeados pela primeira vez, a teoria da designação rígida transformar-se-ia na teoria da competência enciclopédica.

Mas um segundo modo de entender a designação rígida é exatamente que a cadeia ininterrupta das designações é de fato traduzivel numa cadeia histórica de descrições em termos de conteúdo. A primeira pessoa que nomeou Aristóteles como /Aristóteles/, falando a uma segunda pessoa, diz entender por Aristóteles uma certa personagem que conheceu no dia anterior no Perípato. E a segunda, falando à terceira, designará Aristóteles como aquele, encontrado no Perípato, de quem lhe falou a primeira pessoa. E assim por diante. Nesse caso a designação rígida seria apenas um termo não técnico para indicar os processos de transmissão de um conhecimento enciclopédico pela descrição de propriedades (são elas, no entanto, propriedades não técnicas).

Quando Hintikka (1969a) diz que, se eu vir um homem sem estar certo de que seja João ou Henrique, esse homem será, todavia, sempre o mesmo em qualquer mundo possível que o conceba, porque teria sempre a propriedade necessária de ser o homem de que tenho percepção física nesse exato momento, não enuncia só um paradoxo reduzindo a noção de propriedade a puro fantasma doxástico. Com efeito, ele diz que, para além de toda discussão ontológica sobre essências ou gêneros naturais, ou coisa-em-si, quando falo do homem que estou percebendo, e falo dele em cada mundo possível de que seja possível falar, devo estipular que falo dele como daquela entidade que tem a propriedade de ser percebida por mim nesse momento. A propriedade será não técnica, será idiossincrática (mas não o será mais se se tiver convencionado coletivamente torná-la co-textualmente “necessária”) mas é uma propriedade, expressa por uma descrição. O único contrafactual que seria ilícito enunciar é: /Se o homem que percebo neste momento não fosse aquele que percebo neste momento/. Se assim fosse não pode-

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ria falar. Mas se Kripke fala de Aristóteles depois de ter-lhe subtraído toda propriedade, é porque, embora em termos de uma singular mística do vínculo oculto que une falante a falante ao longo dos séculos, atribui a Aristóteles a propriedade enciclopédica de ser aquele de quem x lhe falou como aquele de quem y lhe tinha anteriormente falado descrevendo-o como aquele de quem z lhe tinha falado antes ainda, e assim por diante, senão até o infinito, até uma não mais bem identificada 'origem' do nome.

Parece-me mais oportuno substituir esta metafísica da origem por uma física da enciclopédia: Aristóteles é aquele que os livros de filosofia interpretam como autor deste e daquele livro e que a tradição medieval tornava protagonista de um “lai” moralizante em que era cavalgado pela própria escrava. Toda vez que se falar de Aristóteles será preciso estipular a porção de enciclopédia que interessa: se o Aristóteles do lai medieval não tivesse escrito o que escreveu e não tivesse nascido em Estagira, para que se decida falar dele como do « sábio a respeito de quem o lai medieval faz ironias e observações morais», seria sempre a pessoa de quem se fala. Obviamente, não seria a pessoa de quem falavam Ross ou Jaeger escrevendo livros sobre o autor da Metafísica e da Poética. Mas o que permite sempre interpretar o Iai medieval é o fato de que a enciclopédia da época de todo modo descrevia Aristóteles como um célebre filósofo da Antigüidade a respeito de quem tinham escrito muitos comentadores. Uma inspeção na enciclopédia medieval permitiria caracterizar uma rede de interpretantes (não de designações rígidas) que caracterizaria Aristóteles, se não como autor da Poética (descoberta muito tarde), ao menos como o autor das Categorias e aquele que fora comentado por Porfirio. O Aristóteles do Iai tinha, além de um possível referimento, um significado, um significado preciso porque interpretável.


III
Metáfora e Semiose


1 O nó metatórico
O «mais luminoso e, porque mais luminoso, mais necessário e mais denso» de todos os tropos, a metáfora, desafia qualquer verbete de enciclopédia. Em primeiro lugar, porque foi objeto de reflexão filosófica, linguística, estética, psicológica desde a origem dos tempos: não há autor que, ao escrever sobre as humanidades, não tenha dedicado a este assunto pelo menos uma página (além dos muitos que, ao discutir ciência ou método científico, falaram dele). A bibliografia raisonné de Shibles (1971) sobre a metáfora registra cerca de três mil títulos: e, no entanto, mesmo antes de 1971, esquece autores como Fontanier, Heidegger (quase todas as suas obras), Greimas - para citar somente alguns dos que tiveram algo a dizer sobre a metáfora - e naturalmente ignora, depois dos autores da semântica componencial, os estudos sucessivos sobre a lógica das linguagens naturais, Henry, o Grupo μ de Liège, Ricoeur, Samuel Levin, a última linguística textual e a pragmática.

Em segundo lugar, como o termo /metáfora/ indicou, para muitos autores, qualquer figura retórica - foi assim para Aristóteles e Tesauro - considerando-o, como disse o Venerável Beda, «um gênero do qual os outros tropos são espécie», falar da metá-

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fora significa falar da atividade retórica em toda a sua complexidade. E perguntar-se, antes de mais nada, se foi miopia, preguiça ou algum outro motivo que levou a operar esta curiosa sinédoque sobre a metáfora, tomando-a como parte representativa do todo. Daí logo emergiria, e procuraremos demonstrá-lo, que é muito difícil refletir sobre a metáfora sem colocá-la num quadro que inclua necessariamente a sinédoque e a metonímia: tanto que este tropo, que entre todos parece ser o mais original, surgirá, ao contrário, como o mais derivado, resultado de um cálculo semântico que pressupõe outras operações sernióticas, preliminares. Situação curiosa para uma operação que, entre todas, foi reconhecida por muitos como aquela que dá origem a todas as outras.

Enfim, se o que se entende por metáfora for apenas tudo aquilo que dela foi dito ao longo dos séculos, parece claro que tratar da metáfora significa, no mínimo, tratar também (e a lista é incompleta) de: símbolo, ideograma, modelo, arquétipo, sonho, desejo, delírio, rito, mito, magia, criatividade, paradigma, ícone, representação - e ainda, obviamente, linguagem, signo, significado, sentido.

Não última das contradições e dos paradoxos a que esta refle- xão obriga, percebemos logo que, das milhares de páginas escritas sobre a metáfora, poucas acrescentam algo àqueles primeiros dois ou três conceitos fundamentais enunciados por Aristóteles. De fato, foi dito muito pouco a respeito de um fenômeno sobre o qual parece que há tudo por dizer. A história do debate sobre a metáfora é a história de uma série de variações em torno de poucas tautologias, talvez de uma só: «A metáfora é aquele artifício que permite falar metaforicamente». Algumas destas variações, no entanto, constituem a 'ruptura de uma episteme', fazem deslizar o conceito para novos horizontes: só um pouquinho, mas é o quanto basta. E é disto que trataremos.

O discurso sobre a metáfora gira ao redor de duas opções: a) a linguagem é, por sua natureza e originalmente, metafórica, o mecanismo da metáfora dá origem à atividade lingüística e toda regra ou convenção posterior nasce para reduzir e disciplinar (e empobrecer) a riqueza metafórica que define o homem como animal simbólico; b) a língua (e qualquer outro sistema semiótico) é mecanismo convencionado regido por regras, máquina previsora que diz quais as frases que podem ser geradas ou não, e quais, entre as que podem ser geradas, as que são 'boas' ou 'corretas', ou dotadas de sentido, e desta máquina a metáfora é a pane, o sobressalto,

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o resultado inexplicável. e, ao mesmo tempo, o motor de renovação. Como se pode ver, a oposição reproduz ainda aquela clássica entre _υσιζ e voμoζ, analogia e anomalia, motivação e arbitrariedade. Veja-se, porém, o que acontece quando se aceita um ou outro dos dois membros deste dilema. Se a metáfora dá origem à linguagem, só se pode falar da metáfora metaforicamente. Qualquer definição de metáfora, então, só poderá ser circular. Mas, se existe antes uma teoria da língua que prescreve seus resultados 'literais', sendo a metáfora o escândalo desta teoria (ou a violação deste sistema de normas), então a metalinguagem, teórica deve falar de algo para cuja definição não foi construída. Uma teoria 'denotativa' da lín- gua pode indicar os casos em que a língua é usada incorretamente e, no entanto, parece dizer algo: mas atrapalha-se para explicar o que e o porquê. Conseqüentemente, chega a definições tautológicas do tipo: «Temos uma metáfora toda vez que acontece algo de inexplicável que os usuários da língua sentem como metáfora».

Mas não pára por aqui: estudada particularmente no que diz respeito à língua verbal, a metáfora soa como escândalo para qualquer linguística porque, de fato, é mecanismo semiótico que apa- rece em quase todos os sistemas de signos, mas de modo a remeter a explicação linguística a mecanismos semióticos que não são próprios da língua falada. Basta pensar na natureza freqüentemente metafórica das imagens oníricas. Em outros termos, não se trata de dizer que existem também metáforas visuais (dentro do universo visual teremos que distinguir os sistemas figurativos, os gestuais e assim por diante) ou que existem também - talvez - metáforas olfativas ou musicais. o problema é que a metáfora verbal exige freqüentemente, para ser de alguma forma explicada em suas origens, a remissão a experiências visuais, auditivas, táteis e olfativas. No decorrer deste capítulo, nos limitaremos, via de regra, às metáforas verbais, mas, toda vez que for necessário, nos referiremos a um quadro semiótico mais amplo. Aristóteles, Vico e Tesauro assim o fizeram; muitos dos teóricos mais 'científicos' dos dias de hoje deixaram isto de lado e se deram mal.

Em todo caso, o problema central é se a metáfora é uma modalidade expressiva que tem também valor cognoscitivo (ou que o tem eminentemente): por causa disto, e como causa disto, surge a questão se a metáfora é _υσιζ e voμoζ, ou seja, fundadora ou fundada. Não nos interessa a metáfora como ornamento, porque se fosse só isto (dizer em termos agradáveis o que se poderia dizer de outra maneira) ela seria completamente explicável nos termos de

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uma teoria da denotação. Interessa como meio de conhecimento aditivo e não substitutivo.


2 Pragmática da metáfora

Ver a metáfora como cognoscitiva não significa, no entanto, estudá-la em termos de condições de verdade. Por isto não serão levados em consideração os debates sobre uma alética da metáfora, isto é, se a metáfora diz ou não a verdade e se de um enunciado metafórico podem ser extraídas inferências verdadeiras. É óbvio que quem usa metáforas, literalmente falando, mente - e todos sabem disto. Mas este problema liga-se àquele mais amplo do estatuto alético e modal da ficção: como se finge fazer asserções, quando se quer asserir a sério algo de verdadeiro para além da verdade literal.

Se se pode deixar de lado uma semântica extensional da metáfora (cf. no máximo o § 11 sobre os atuais debates de semân- tica lógica), no entanto, não se pode desconsiderar uma sua prag- mática.

Pode-se começar (do ponto de vista historiográfico) pelo fim e perguntar-se como se apresenta a atividade metafórica nos termos das regras conversacionais (Grice 1967). Sem dúvida, ao se usar a metáfora, viola-se a máxima da Qualidade (“Faça com que sua contribuição à conversação seja verdadeira”) a da Quantidade (“Faça com que sua contribuição à conversação seja a mais informativa possível” a da Maneira (“Seja claro”) e a da Relação (“Faça com que sua contribuição seja relevante em relação ao argumento”). Quem usa metáforas aparentemente mente, fala de forma obscura e sobretudo fala de outra coisa, dando uma informação vaga. Se um falante, portanto, fala violando todas estas máximas e o faz de modo a não se tornar suspeito de estupidez ou falta de jeito, entra em ação uma implicatura. Evidentemente, ele queria levar a entender outra coisa.

Isto serve para esclarecer os casos de rejeição da metáfora (e de outras figuras) que são bem mais frequentes do que se acredita. Certamente é uma situação cômica a do imbecil que, diante da afirmação /Esta cerveja é divina!/, responde 'Não, é um produto humano e industrial'. Mas é muito menos cômico (no sentido de que aqui o jogo cômico é índice de uma ideologia da literatura) o trecho que Giovanni Mosca, no Bertoldo de 30 de junho de 1939, dedicava à análise dos poetas herméticos dos anos 40.
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Quando Ungaretti escreve /Que Érebo te gritou?/, Mosca comenta: «Nem sabemos quantos Érebos existem. Perozzi diz doze (...) A isto nós respondemos: “As provas, prezado Perozzi, as provas!”». E ainda, quando Ungaretti escreve /Era uma noite abafada e de repente vi presas roxas/ /numa axila que fingia paz/, Giovanni Mosca comenta, entre outras coisas: «Está provado que, nas noites abafadas, as axilas fingem paz. Então os ingênuos, aqueles que nada sabem das insídias; axilares, aproximam-se delas confiantes, estão para tocá-las e taque!, logo naquela hora eis que despontam de repente as características presas roxas das axilas...» E assim por diante, não poupando nem o Oboe sommerso, de Quasimodo, nem o Crudele addio, de Cardarelli.

Aqui Mosca quer fazer rir (deleitar), mostrando como a metáfora pode ser pragmaticamente rejeitada: não há implicatura possível, ou se fala literalmente ou não se fala. Mas queria mesmo dizer isto? Não nos parece. O humorista estava mais do que disposto a aceitar a metáfora da «selva escura» ou dos olhos «fugidios», ou ainda a hipálage da <


>. No entanto, convida o leitor a recusar (e sem brincar muito) uma tensão metafórica que a cultura da época não consegue suportar. Este trecho marca o limite dê aceitação pragmática de uma cultura em relação às novas ousadias metafóricas. Que não é limite de aceitação semântica, uma vez que o esforço para interpretar os Érebos que gritam ou as presas roxas não é diferente do exigido para interpretar o fato de que os túmulos dos fortes «acendem» a egrégias coisas*. Entre as leis pragmáticas que regulam a aceitação das metáforas (e a decisão de passar a interpretá-las), portanto, há também leis socioculturais que impõem tabus, limites quos ultra citraque nequit consistere recto. Há modelos intertextuais que funcionam como garantias de catarse; isto já foi dito e pode ser dito, isto ainda não foi dito e não pode ser dito. Alguém observou que se pode dizer que a juventude é a manhã da vida, mas não que a manhã é a juventude do dia. Por que 'não se pode dizer'? Uma vez aceito o princípio de implicatura pelo qual uma expressão desviante do ponto de vista conversacional pode ser interptetada metaforicamente, uma expressão vale a outra. Não se pode dizer porque nunca foi dito? Ou porque é

* Refere-se aos versos 151-2 de I sepolcri, de Ugo Foscolo (1778-1827): "A egregie cose il forte animo accendono/l'urne de' forti" (A egrégias coisas o forte espírito incitam/os túmulos dos fortes). (N. do T.)

'desgracioso'? Mas qual é o critério de 'qualidade' para uma metáfora? E, além do mais, não existirá um contexto no qual pareça gracioso e persuasivo que a manhã é a juventude do dia, assim como (hoje já é sabido) existem contextos em que as verdes idéias incolo- res dormem com grande e plausível sossego? Uma semiótica da metáfora tem a ver também com uma semiótica da cultura. Isto tudo ficará claro mais adiante.
3 As definições tradicionais
Os dicionários correntes, em geral, têm dificuldade em definir a metáfora. Além dos desacertos de alguns dicionários populares (Movissimo Melzi de 1906: «Figura pela qual se dá a um vocábulo um significado que não lhe é próprio» - a partir do qual Mussolini, ao chamar de /bagnasciuga/ (linha d'água) a battigia (arrebentação), teria usado uma metáfora), mesmo os melhores dicionários frequentemente chegam perto da tautologia.

«Transferência do nome de um objeto para outro objeto por relação de analogia» (mas a relação de analogia é logo a relação metafórica); («Substituição de um termo próprio por um figurado» (sendo a metáfora espécie do gênero figura, define-se a metáfora com uma sinédoque); « Comparação abreviada...» Estamos sempre diante das definições clássicas (portanto, cf. uma ampla documentação em Lausberg 1960); e, de resto, nos melhores casos temos tipologias dos vários tipos de substituição, de animado por inanimado, de inanimado por animado, de animado por animado e de inanimado por inanimado, tanto em sentido físico quanto em sentido moral; ou então substituições realizadas no substantivo, no adjetivo, no verbo, no advérbio (cf. o estudo mais consistente sobre o assunto, Brooke-Rose 1958).

Quanto à sinédoque, fala-se de «substituição de dois termos entre si, segundo uma relação de maior ou menor extensão» (parte pelo todo, todo pela parte, espécie pelo gênero, singular pelo plural ou vice-versa), enquanto para a metonímia se fala de << substituição de dois termos entre si, segundo uma relação de contiguidade>> (onde contiguidade é um conceito bastante vago porque compreende as relações causa/efeito, continente/conteúdo, meio por operação, lugar de origem por objeto originário, emblema por emblematizado e assim por diante). Em seguida, ao se especificar que a sinédoque opera substituições no interior do conteúdo conceitual de um termo, enquanto a metonímia age fora dele, não se entende por que /as velas de Colombo/ é sinédoque (vela por navio) e /os lenhos
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de Colombo/ é metonímia (lenho como matéria por navio como resultado formado). Como se fosse 'conceitualmente' essencial para o navio ter velas e não ser de madeira.

No parágrafo 12.2, veremos que esta confusão tem alguma razão 'arqueológica' e extra-retórica. Veremos também que se pode- ria limitar a sinédoque às representações semânticas em forma de dicionário, reservando a metonímia para aquelas em forma de enciclopédia. Na realidade, porém, a dificuldade dos dicionários é a mesma dos tratados clássicos, que elaboraram uma tipologia nada desprezível das figuras retóricas (útil ainda hoje, sob vários aspectos), mas repleta de equívocos. Temos:

1) considera os tropos como operações em verba singula e exclui uma sua análise contextual;

2) introduz, como dissemos, a distinção sinédoque/metonímia através da categoria não analisada de conteúdo conceitual;

3) não distingue entre operações sintáticas e operações semânticas (o assíndeto e o zeugma, por exemplo, são dois casos de figura por subtração, mas a primeira denota uma pura distribuição sintática, a segunda implica decisões semânticas);

4) sobretudo define a metáfora como tropo de deslocamento ou de salto, sendo que /deslocamento/ e /salto/ são metáfora de 'metáfora', e /metáfora/ é, por sua vez, uma metáfora, porque quer dizer exatamente 'transporte' ou 'mudança'.

O que leva em conta a distinção entre expressão e conteúdo. Muitos dos problemas acima levantados encontram se não uma solução pelo menos uma colocação melhor. Mas, como a tradição deixou noções desconexas, será necessário ir buscar uma teoria da metáfora no momento em que é proposta pela primeira vez, isto é, em Aristóteles.

Dedicaremos a este exame muitas páginas porque acontece que da definição aristotélica, mesmo se de formas diferentes, dependem todas as teorias sucessivas, até os dias de hoje.

4 Aristóteles: a sinédoque e a árvore de Porfirio


Aristóteles enfrenta pela primeira vez o tema da metáfora na Poética (1457b, 1 - 1458a, 17). Para animar a linguagem, podem- se usar, ao lado das palavras comuns, também as palavras estrangeiras, as palavras ornamentais, as formadas artificialmente, as

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alongadas, abreviadas, as que admitem grau aumentativo ou diminutivo (na Retórica serão analisados muitos destes jogos verbais, verdadeiros calembures) e por fim as metáforas. A metáfora é definida como o recurso a um nome de outro tipo, ou então como a transferência para um objeto do nome próprio de um outro, operação que pode se dar por deslocamentos de gênero para espécie, de espécie para gênero, de espécie para espécie ou por analogia.

Foi dito que Aristóteles, ao fundar uma teoria da metáfora, emprega /metáfora/ como termo genérico: de fato, as metáforas dos dois primeiros tipos são efetivamente sinédoques. Mas é necessário fazer um exame atento de toda a classificação e dos exemplos que a comentam para aí encontrar a origem de tudo o qúe foi dito sobre a metáfora nos séculos seguintes.

Primeiro tipo: de gênero para espécie. Hoje, seguindo a definição do Grupo g, é chamada de sinédoque generalizadora em E. O exemplo aristotélico é /Aqui está parado o meu navio/, porque o estar parado é o gênero que compreende entre as suas espécies o estar ancorado. Um exemplo mais evidente e canônico (hoje) seria o uso de /animais/ por <



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