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O que, porém, interessa estabelecer é que relações tem o objeto imediato com o significado. Ora, se se quer estabelecer o significado de um signo, isto é, representar-se de qualquer modo seu objeto imediato, é necessário traduzi-lo mediante um Interpretante, porque o Interpretante «como é revelado na correta compreensão
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do próprio Signo [ ... ] é ordinariamente chamado o significado do signo» (Peirce 1906) e «parece natural usar o termo significado para denotar o interpretante entendido de um símbolo» (1903a CP 5. 175), enquanto em outro lugar o objeto imediato completo é identificado com o significado (1902, CP 2.293). Se significado e interpretante coincidem, «o significado de um signo é o signo para o qual ele deve ser traduzido» (1894, CP 4.132) e é «na sua acepção primeira a tradução de um signo num outro sistema de signos» (ibidem, CP 4.127).

Essa tradução de um signo (expressão) numa outra expressão é precisamente o processo de interpretação. «Um signo, ou representamen, é alguma coisa que está para alguém no lugar de alguma coisa sob qualquer ponto de vista ou de volume. Volta-se para alguém, isto é, cria na mente dessa pessoa um signo equivalente, ou talvez um signo mais desenvolvido. Esse signo que ele cria o chamo interpretante do primeiro signo» (1897).

Não há maneira, no processo de semiose ilimitada que Peirce descreve e cujos fundamentos lança, de estabelecer o significado de uma expressão, isto é, de interpretar essa expressão, senão traduzindo-a em outros signos (pertençam eles ou não ao mesmo sistema semiótico) e de modo que o interpretante não só dê conta do interpretado sob algum aspecto, mas faça conhecer alguma coisa mais do interpretado.

Numa semântica estruturada como enciclopédia o interpretante visual da palavra /gato/ é a imagem de um gato (que indubitavelmente faz conhecer algumas propriedades do animal que não estavam presentes na mente de quem pronunciava a palavra); é a definição que une a entidade em questão à cadeia de entidades maiores em extensão mas menores em compreensão; é a inferência 'Se gato então animal que mia quando se lhe pisa no rabo', que caracteriza o significado de gato em relação às suas várias e mais ou menos remotas consequências ilativas. A cadeia dos interpretantes é infinita, ou ao menos indefinida.

Como já fora dito (cf. Eco 1975, § 2.7.3), a fecundidade da noção de interpretante não é dada apenas pelo fato de que ela descreve a única maneira como os seres humanos estabelecem, fixam e reconhecem os significados dos signos que usam. A noção é fecunda porque mostra como os processos semióticos, por meio de deslocações contínuas, que reportam um signo a outros signos ou a outras cadeias de signos, circunscrevem os significados (ou os conteúdos,
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numa palavra, as 'unidades' que a cultura caracterizou em seu processo de tornar pertinente o conteúdo) de maneira assintótica, sem nunca chegar a 'tocá-los' diretamente, mas tornando-os de fato acessíveis mediante outras unidades culturais. Essa contínua circularidade é a condição normal dos sistemas de significação e é realizada nos processos de comunicação.

De outro lado, diferentemente das propriedades universais estabelecidas metalinguisticamente, os interpretantes, ou as relações de interpretação, são dados objetivos, e num duplo sentido: não dependem necessariamente das representações mentais (inatingíveis) dos sujeitos e são coletivamente verificáveis. Uma relação de interpretação é na realidade registrada pelo tesouro da intertextualidade (noção que se identifica com a de enciclopédia). Que um gato é não só um felino doméstico, mas também o animal que as classificações zoológicas definem como félis catus, o animal adorado pelos egípcios, o animal que aparece no Olympia de Manet, o animal que era uma guloseima comer na Paris assediada pelos prussianos, o animal cantado por Baudelaire, o animal que Collodi associa pela astúcia e malvadeza à raposa, o animal que numa certa história está a serviço do marquês de Carabás, um preguiçoso amante da casa que não morre de enfado sobre o túmulo do patrão, o animal predileto das feiticeiras e assim por diante, são todas interpretações da expressão /gato/. Todas são registradas, colocadas intersub- jetivamente em algum texto dessa biblioteca imensa e ideal cujo modelo teórico é a enciclopédia. Cada uma dessas interpretações define sob algum aspecto o que é um gato e, todavia, faz conhecer sempre alguma coisa mais acerca de um gato. Cada uma dessas interpretações tem valor e é atualizável num determinado contexto, mas a enciclopédia deveria idealmente fornecer instruções para interpretar da maneira mais frutífera a expressão /gato/ em numerosos contextos possíveis.

Naturalmente, numa semântica de interpretantes, toda inter- pretação é por sua vez sujeita a interpretação. Dizer de um gato que é um felino implica que por sua vez felino seja interpretado. Dizer de um gato que era o animal preferido das feiticeiras impõe uma interpretação tanto de /feiticeira/ quanto de /preferir/. Numa semântica de interpretantes não há entidades metalingüísticas e universais semânticas. Cada expressão pode ser sujeito de uma interpre- tação e instrumento para interpretar uma outra expressão (cf. o modelo Q em Eco 1975, § 2.12).

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5.2 Estrutura da enciclopédia
A enciclopédia é um postulado semiótico. Não no sentido de que não seja uma realidade semiósica: ela é o conjunto registrado de todas as interpretações, concebíveis objetivamente como a biblioteca das bibliotecas, onde uma biblioteca é também um arquivo de toda a informação não verbal de algum modo registrada, das pinturas rupestres às cinematecas. Mas deve permanecer um postulado porque de fato não é descritível na sua totalidade. As razões por que não é descritível são várias: a série das interpretações é indefinida e materialmente inclassificável; a enciclopédia como totalidade das interpretações contempla também interpretações contraditórias; a atividade textual que se elabora com base na enciclopédia, agindo sobre suas contradições e introduzindo nela continuamente novas segmentações do continuum, também com base em experiências progressivas, transforma com o tempo a enciclopédia, de modo que uma sua ideal representação global, se em algum caso fosse possível, seria já infiel no momento em que estivesse terminada; enfim, a enciclopédia como sistema objetivo das suas interpretações é 'possuída' de maneira diferente por seus diferentes usuários.

Quando Peirce dizia que o significado de uma proposição abrange toda a sua óbvia dedução necessária (1903a, CP 5.165) pretendia dizer que cada unidade semântica implica todos os enunciados em que pode ser inserida, e estes, todas as inferências que permitem com base nas regras registradas enciclopedicamente. Mas se, do ponto de vista ideal da enciclopédia objetiva, uma proposição p implica todas as proposições que dela podem ser deduzidas, isso não implica que (se de p pode ser deduzido q e de q pode ser deduzido k) um indivíduo que conheça p conheça automaticamente também k. Quando Basil Bernstein falou dos códigos elaborados e códigos restritos queria referir-se às modalidades de posse cultural dos dados enciclopédicos: para um usuário a que sabe que um gato é um felino, há sempre um usuário b que não o sabe, e sabe, ao invés, o que a não sabe, isto é, que os gatos devidamente cozinhados parecem lebre em guisado.

Por isso, enquanto do ponto de vista de uma semiótica geral se pode postular a enciclopédia como competência global, do ponto de vista sociossemiótico é interessante reconhecer os diversos níveis de posse da enciclopédia, ou as enciclopédias parciais (de grupo, de seita, de classe, étnicas e assim por diante).

Do mesmo modo, qualquer intérprete que deva interpretar um texto não é obrigado a conhecer toda a enciclopédia mas ape-

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nas a porção da enciclopédia necessária para a compreensão desse texto. Uma semiótica textual estuda também as regras com base nas quais o intérprete de um texto, com base em 'sinais' contidos nesse texto (e talvez com base num conhecimento precedente), decide qual é o formato da competência enciclopédica necessária para enfrentar esse texto. O que estabelece também a distinção entre interpretação de um texto e uso indiscriminado dele. Não se pode decidir usar Homero como descrição da estrutura do átomo, porque a noção moderna de átomo era indubitavelmente estranha à enciclopédia homérica: toda leitura homérica nesse sentido seria livremente alegórica (ou simbólica: cf. o capítulo sobre o Símbolo) e dela poder-se-ia duvidar. Ao contrário, se algum 'sinal' textual autorizasse a fazê-lo, poder-se-ia interpretar as teorias atômicas de Niels Bohr como uma alegoria da guerra de Tróia. Obviamente é função de uma semiótica textual estabelecer que sinais autorizam a crer que Bohr se referisse a essa porção de competência enciclopédica. Na ausência de tais sinais, uma interpretação como a sugerida não deveria ser definida como interpretação mas antes como uso (místico, alegórico, simbólico) do texto de Bohr (cf. Eco 1979, § 3.4).

Por consequência, a enciclopédia é uma hipótese reguladora com base na qual, na ocasião das interpretações de um texto (seja ele uma conversa na esquina ou a Bíblia), o destinatário decide construir uma porção de enciclopédia concreta que lhe permita reconhecer como característica do texto ou do emissor uma série de competências semânticas.

Ver-se-á mais adiante quais são os procedimentos para elaborar tais construções parciais (sempre hipotéticas seja quanto a sua estrutura, seja quanto a sua adequação nos confrontos do texto dado). De todo modo fica claro que toda interpretação é uma empresa difícil, porque difícil é a configuração da porção de enciclopédia requerida para interpretar. Naturalmente essas dificuldades variam, quanto à 'força conjectural', conforme os casos: se devo interpretar o enunciado emitido pelo alto-falante da estação central /O trem para Roma parte da plataforma seis/ posso racionalmente caracterizar, numa situação Sj a porção de enciclopédia adequada sem temer que o emissor se refira a uma enciclopédia alternativa. Ao contrário, quando tenho que interpretar a frase de Heráclito /O senhor, cujo oráculo é em Delfos, não diz nem esconde, mas indica/ surgem muitas perplexidades sobre a porção de enciclopédia a
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caracterizar, porque não se sabe com exatidão o que é que Heráclito entendia com os verbos λéγeiv (légein) e σημαíeυ (semánein).

Estabelecidas tais premissas, a enciclopédia como hipótese reguladora decididamente não assume a forma de uma árvore (embora para caracterizar porções parciais dela se possa recorrer a estruturas arbóreas, contanto que entendidas precisamente como modos de descrição provisória). Que toda estrutura arbórea é o modo provisório com que se regulam e se selecionam os pontos diversamente conectáveis de um 'mapa' era claro para d'Alembert no discurso introdutório à EncycIopédie: o sistema geral das ciências é uma espécie de labirinto, de caminho tortuoso capaz de aniquilar qualquer árvore enciclopédica que quisesse representá-lo. o sistema das ciências é composto de diversos ramos « muitos dos quais convergem para um mesmo centro; e porque partindo dele não é possível penetrar todos os caminhos ao mesmo tempo, a escolha é determinada pela natureza dos diferentes espíritos» (1751). O filósofo é aquele que sabe olhar para esse labirinto descobrindo suas conexões secretas, as ramificações provisórias, as dependências mútuas que constituem esse retículo como um mapa-múndi. Os verbetes da Encyclopédie só podem por isso ser mapas particulares que refletem o mapa-múndi global somente em escala reduzida, «os objetos são mais ou menos aproximados e apresentam aspectos diversos, segundo a perspectiva escolhida pelo geógrafo» e «podem-se, portanto, ima- ginar tantos sistemas diferentes de conhecimento humano, quantos são os mapas-múndi que se podem construir segundo diferentes projeções [... ] Frequentemente um objeto, que foi colocado numa certa classe por causa de uma ou mais de suas propriedades, entra numa outra classe por algumas de suas outras propriedades, e poderia ser colocado nesta outra igualmente bem. Existe, pois, sempre necessariamente arbítrio na partição geral» (ibidem).

O modelo da enciclopédia semiótica não é, pois, a árvore, mas o rizoma (Deleuze e Guattari 1976): cada ponto do rizoma pode ser unido e deve sê-lo com qualquer outro ponto e, com efeito, no rizoma não há pontos ou posições, mas apenas linhas de conexão; um rizoma pode ser quebrado num ponto qualquer e recomeçar seguindo a própria linha; é desmontável, invertível; uma rede de árvores que se abrem em toda direção pode produzir rizoma, o que equivale a dizer que em cada rizoma pode ser retalhada uma série indefinida de árvores parciais; o rizoma não tem centro. A idéia de uma enciclopédia como rizoma é consequência direta da inconsistência de uma árvore de Porfirio.

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5.3 Representações enciclopédicas 'locais'

Ás tentativas de representação do conteúdo que circulam na semântica intensional contemporânea são em forma de dicionário ou em forma de enciclopédia. As em forma de dicionário não inte- ressam porque se demonstrou não só sua inconsistência lógica mas também sua perfeita inutilidade do ponto de vista explicativo dos processos comunicativos.

No entanto, por força de tudo quanto se postulou anterior- mente, é preciso reconhecer que não existem modelos de competên- cia enciclopédica global, nem poderiam existir. Existem, pois, ape- nas dois tipos de pesquisas semânticas que se mostram claramente integráveis numa perspectiva enciclopédica:

a) as que, embora sem exigências sistemáticas, expõem a arbitrariedade das oposições semânticas e sua irredutibilidade a modelos de dicionário;

b) as que deixam entrever modalidades de representação enciclopédica parcial, ou não global mas «local» (cf. Petitot 1979).

Quando estudiosos de semântica como Lyons (1977) e Leech (1974) falam da variedade da lógica opositiva, ajudam a entender que nenhuma árvore porfiriana poderá nunca regular de modo unívoco esses campos, eixos, ou subsistemas semânticos parciais que exprimem relações de sentido. Os pares opositivos que seguem apresentam na realidade estruturas lógicas diversas:

I) bem x mal é oposição por antonímia 'seca' (um exclui o outro);

II) marido x mulher é oposição por complementaridade (alguém é marido da pessoa que é sua mulher);

III) vender x comprar é oposicão de reciprocidade (se x vende y a k, então k compra y de x);

IV) sobre x sob ou maior x menor são oposições relativas, que de fato geram escalas proporcionais (oposição não binária);

V) segunda-feira x terça-feira X quarta-feira etc. representam um continuum graduado (oposição não binária);

VI) centímetro x metro x quilômetro são outros contínuos graduados mas hierarquicamente;

VII) Sul x Norte são opostos antipodamente enquanto Norte x Oeste são opostos ortogonalmente, mas o sistema de relações implica diagramações espaciais;

VIII) chegar x partir parecem oposições de reciprocidade, mas implicam direções espaciais e sugerem que na representação do conteúdo do verbo devem inserir-se propriedades não verbalizáveis, exprimíveis mediante vetores (cf. Eco 1975, § 3.6.5).

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A lista está incompleta, e cada caso essas oposições variam com o ponto de vista contextual. Pode-se dizer, fora do contexto, que «homem» seja oposto a «mulher» do que de «menino»? E quais são as verdadeiras implicações dessas oposições ou relações de sentido?. /Segunda feira havia rosas sobre a mesa/implica quase “necessariamente” que essas flores não eram tulipas e não eram amarelas, mas não implica que não estivessem ali no Domingo, nem que houvesse rosas vermelhas sobre o baú (embora numa certa situação de enunçiação a expressão pudesse querer dizer exatamente que Domingo as flores ali não estavam). Dar murros opõe-se de alguma maneira a dar tapas, mas quer dizer que dei um murro em alguém significa verdadeiramente que não lhe dei também uma tapa? /Uma forte fraqueza/ é oxímoro que põe os dois menbros de uma oposição por antonímia, mas estabeleço uma escala de estados de fraqueza e denomino esses estados em termos de maior ou menor força, a expressão torna-se inteiramente literal.

Enfim, foram amplamente estudados os conceitos vagos (fuzzi concepts) mostrando que no uso comum de liguagem não atribuímos nunca uma mesma “força”. Dizemos que uma galinha é uma ave e que é uma ave uma águia, mas interrogados a respeito teríamos propen´mklçsão a dizer que, de algum modo, a águia é mais ave do que a galinha, e que a cobra é mais réptil do que a lagartixa. É exactamente a capacidade que temos de reorganizar contínua e contextualmente as unidades de conteúdo que fundamenta a possibilidade do retículo enciclopédico.

Um dos embaraços habituais das semânticas em forma de dicionário é constituído, como, já se tinha, tinha sugerido, do teste da negação. Que é negado (ou qual informação é anulada)pela asserção /este não é um homem/?

Katz(1977, p.14) propõe um critério para uma competêcia ideal de dicionário :«falante ideal de uma língua recebe uma carta anônima que contém uma frase apenas nessa determinada língua, sem um ind´cio a respeito do motivo, das circunstâncias da transmissão ou qualquer outro fator que sirva para entender a frase com base no próprio contexto enunciativo...» Esse critério traçaria uma linha divisória nítida entre a cmpetência de dicionário e a competência enciclopédica. Um dicionário compreenderia apenas aquelas informações que um falante/ouvinte ideal teria à disposição no caso da carta anônima.

Certamente, se essa carta dissesse/naquela casa há um homem/, o destinatário, embora faça referência a um dicionário de tipo porfiriano, entenderia que uma certa construção em alvenaria há um

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animal racional mortal, ou um ser humano macho adulto. Mas que ocorreria se a carta dissesse /naquela casa não há, como pensavas, um homem/? Que deveria esperar o destinatário? Uma mulher, um fantasma, um crocodilo, uma estátua de bronze?

Mas examinemos um exemplo mais verossímil. Estamos, à meia-noite, numa pequena casa com jardim na periferia, e a mulher, olhando para fora pela janela, diz preocupada ao marido: /há um homem no jardim ... /. o marido examina atentamente e depois afirma: /não, querida, não é um homem ... /. Que faria nesse caso o marido com as suas palavras? Tranquilizaria a mulher ou aterrorizá-la-ia ainda mais? Que é que é esse não homem? Um menino, um cachorro, um invasor espacial, a sombra de um pinheiro, o imenso urso de pelúcia abandonado pelo filho de dez anos?

Observemos que aqui são dois os casos. Se o marido quer gerar temor difuso (se está acometido de crueldade mental), então pode limitar-se a sua negação incompleta e, perlocutoriamente, obtém o efeito desejado. Mas nesse caso estamos fora da língua, está em jogo uma estratégia semiótica mais complexa do que a linguística, uma estratégia que utiliza o silêncio, a figura retórica da reticência e, provavelmente, elementos paralinguísticos que aqui não se podem levar em conta. Nesse caso o marido aproveita-se de uma debilidade da língua para conduzir um outro jogo. Mas aqui estamos considerando o caso em que o marido queira dizer efetivamente alguma coisa linguisticamente interpretável, queira fornecer à mulher uma informação a respeito de um estado do mundo (embora se admita que ele minta para tranquilizá-la ou para inspirar- lhe terror ulteriormente - não estamos interessados no que de fato haja no jardim, mas em como o marido fala disso). Nesse segundo caso não podemos permitir-lhe limitar-se a sua negação incompleta e deveríamos simplesmente acusá-lo de não saber usar a língua naquilo que ela, em sua contraditória flexibilidade, pode dar-lhe.

O marido deverá dizer-lhe (se pretende tranquilizá-la) que não se trata de um homem mas de um menino, de um cão, do ursinho de pelúcia, da sombra de uma árvore, ou (se pretende gerar temor em seguida) que se trata de um invasor espacial com forma de pólipo.

Ao fazer isso, ele não procede sem código. Deve simplesmente construir a porção do código que lhe serve nessa circunstância, como se formulasse (contra o fundo de seu discurso) a mesma árvore porfiriana e ad hoc que ele julga (conjecturalmente) que tenha regulado o discurso da mulher.

Ele imagina qual é a representação semântica de /homem/ mais adequada ao contexto discursivo e à circunstância de enuncia-

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ção. Dada a frase da mulher, o momento (e provavelmente o tom com que foi dita), ele pode racionalmente julgar que o conteúdo de /homem/ pode ser reduzido a um sistema particular de marcas estereotipadas e que exatamente essas marcas são magnificadas enquanto todas as outras devem ser narcotizadas (cf. Eco 1979, 5. 1).



À mulher, do homem, não interessa a mortalidade, nem a racionalidade, senão no sentido em que racional significa capaz de intenções, e de intenções agressivas, ou a habilidade no manejar armas e cometer arrombamentos. Interessa-lhe que um homem seja um macho adulto na medida em que essas marcas conotarn força. Interessa-lhe que um homem seja bípede mas apenas no sentido de que a bipededade implica mobilidade e, portanto, capacidade de aproximar-se da casa. E, enfim, entram em jogo roteiros ou frames, primeiramente o roteiro altamente codificado pelo qual um homem que vagueia sozinho de noite nas proximidades de uma casa alheia pode ter intenções malévolas e constituir um perigo.

Se o marido julga que é com base nessas representações estereotipadas que a mulher fala, deverá (para tranquilizá-la) anular explícitamente as marcas de força, de malevolência programada, de capacidade de arrombamento (e dirá que não é um homem mas um cão) ou de força, malevolência e capacidade de manejar armas, sem anular a masculinidade e a mobilidade (não é um homem mas um menino - nesse ínterim pondo em jogo o roteiro 'menino perdido na noite'), ou de força, intencionalidade, mobilidade (não é um homem, mas a sombra de uma árvore, ou o ursinho de pelúcia) - e será muito decisivo, talvez fundamental, que 'a coisa' não possa mover-se, independentemente do fato de que seja bípede ou quadrúpede.


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Apenas nessas condições ele saberá (e a mulher também) que, não somente negando o homem, mas afirmando o cão, ou a árvore, ou o brinquedo, ou o menino, anulará todas ou algumas das marcas que a mulher tinha incluído em sua preocupadíssima afirmação.

Mas se o marido não age com essa força de suposição, a língua que usa, por si mesma, torna-se débil por sua complexidade - exatamente a complexidade que um dicionário, na ilusão da própria força, não sabe explicar.

A enciclopédia é a hipótese reguladora que permite ao marido fixar (conjecturalmente) a porção de dicionário que lhe serve. E que a hipótese é 'boa' prova-o o fato de que, normalmente, uma interação conversacional, como essa que tomamos como hipótese, é coroada de sucesso (não só: também o insucesso planejado, a implicatura maliciosa funcionam porque a enciclopédia tomada como hipótese espelhava uma das formas que nossa competência lingüística pode assumir).

Sabemos que de algum modo a enciclopédia como sistema local existe, caso contrário não poderíamos articular com sucesso suas representações locais. o que é esse sistema global pode ser palidamente (debilmente) inferido dos sucessos locais que ele permite.
5.4 Alguns exemplos de representações enciclopédicas

Em relação a essa situação alguns lexicólogos decidem usar livremente um pacote de propriedades ad hoc, denominadas linguísticamente e admitidas intuitivamente, para explicar um único subsistema semântico. Por exemplo, Pottier (1965) assim sistematiza um grupo de peças de mobiliário:fofo, de um lugar, com braços, com encosto e quatro pernas(não= -;sim=+)

Cadeira

Não -


Sim +

Não -


Sim +

Sim +


Poltrona

+

+



+

+

+



Sofá

+

-



+

+

+



+

Escabelo


-

+

-



-

-

Pufe





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