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A definição que Porfírio dá do gênero é inteiramente formal: gênero é aquilo a que a espécie é subordinada. Igualmente, a espécie é aquilo que é subordinado ao gênero. Gênero e espécie são termos relativos, um gênero colocado sobre um nó alto da árvore define a espécie sotoposta, a qual se torna gênero da espécie sotoposta e assim por diante. No mais alto da árvore o gênero generalíssimo, ou categoria, que não é espécie de nenhum outro, embaixo as espécies especialíssimas ou substâncias segundas e depois os indivíduos, as substâncias primeiras. A relação entre espécie e gênero não é bicondicional: da espécie predica-se necessariamente o gênero, enquanto a espécie não pode ser predicada do gênero.

Mas quando definiu espécie e gênero, Porfírio não previra ainda os instrumentos para uma definição permutável com o definido. Uma árvore das espécies e dos gêneros teria, na realidade, a seguinte forma:

Substância

Corpórea

Incorpórea

Vivente

Não vivente



Animal

Não animal

Homem

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Numa árvore desse tipo, homem e cavalo (ou homem e gato) não poderiam ser distinguidos um do outro. Um homem é diferente de um cavalo porque, embora ambos sejam animais, o primeiro é racional e o segundo não. A racionalidade é a diferença do homem. A diferença representa o elemento crucial, porque os acidentes não são exigidos para produzir uma definição e o próprio tem um estatuto muito curioso; pertence à espécie, e só a ela, mas não faz parte de sua definição. Há diversos tipos de próprio, um que ocorre numa só espécie mas não em todo membro (como a capacidade de libertar-se de um vício no homem); um que ocorre numa espécie inteira mas não apenas nela (como o ser bípede); um que ocorre em toda a espécie e apenas nela, mas apenas num determinado tempo (como o tornar-ser grisalho em idade avançada); e um que ocorre numa e apenas numa espécie e em qualquer tempo (como a capacidade de rir para o homem). Este último tipo é o mais frequentemente citado na literatura em questão e apresenta a característica bastante interessante de ser permutável com a espécie (só o homem ri e só os que riem são homens). Nesse sentido, teria todas as razões para pertencer essencialmente à definição e, ao contrário, está excluído dela e aparece como um acidente, embora com um estatuto particular. A razão mais evidente para essa exclusão é que para descobrir o próprio é necessário um ato de juízo bastante complexo, enquanto se acreditava que o género e a espécie fossem 'compreendidos' intuitivamente. (Santo Tomás e a tradição aristotélico- tomista falarão de simplex-apprehensio.) Em todo caso, visto que o próprio está excluído do jogo, não é necessário que o levemos em consideração, ao menos nos limites do presente discurso.



Voltemos agora à diferença. As diferenças podem ser separáveis do sujeito (como estar quente, mover-se, estar doente) e nesse sentido não são outra coisa que acidentes. Mas podem também ser inseparáveis: entre estas, algumas são inseparáveis mas sempre acidentais (como o ter o nariz chato), outras pertencem por si ao sujeito, ou pertencem essencialmente, como ser racional ou mortal. Estas são as diferenças específicas e são acrescentadas ao gênero para constituir a definição da espécie.

As diferenças podem ser divisíveis e constitutivas. Por exemplo, o gênero 'ser vivo' é potencialmente divisível nas diferenças 'sensível/insensível', mas a diferença 'sensível' pode ser composta com o gênero 'vivo' para constituir a espécie 'animal'. 'Animal' por sua

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vez torna-se um gênero divisível em 'raciona/irracional, mas a diferença 'racional' é constitutiva, com o gênero que ela divide, da espécie 'animal racional'. Por isso, as diferenças dividem um gênero (e o gênero as contém como opostos potenciais) e são selecionadas para constituir em ato uma espécie sotoposta, destinada a tornar- se por seu turno um gênero dividido em novas diferenças.

A Isagoge sugere apenas verbalmente a idéia de árvore, mas a tradição medieval visualizou o projeto.

Na árvore as linhas tracejadas marcam as diferenças divisivas enquanto as linhas contínuas marcam as diferenças constitutivas. Recordemos que deus aparece como animal e como corpo porque na teologia platónica, a que Porfirio se refere, os deuses são forças naturais intermediadoras e, não devem ser identificadas com o Uno. A tradição medieval retoma essa idéia por puras razões de fidelidade ao exemplo tradicional, assim como toda a lógica moderna admite, sem ulterior verificação, que a estrela da tarde e a estrela da manhã são ambas Vênus, que não existe atualmente nenhum rei de França.

4.2 Uma árvore que não é uma árvore


O defeito dessa árvore é que ela de algum modo define a diferença entre deus e o homem, mas não a que existe entre o cavalo e o asno, ou entre o homem e o cavalo. O defeito poderia ser só aparente, devido ao fato de que em toda discussão canônica o exemplo que interessava mostrar era o do homem. Se se tivesse querido definir o cavalo, a árvore deveria ter sido enriquecida de uma série de disjunções ulteriores no próprio lado direito, de modo a isolar, em companhia dos animais racionais, também os irracionais (e mortais). É verdade que também nesse caso o cavalo não poderia ter sido distinguido do asno, mas teria bastado complicar ainda a árvore no seu lado direito.

Ora, seria suficiente analisar os problernas que Aristóteles deve enfrentar em De parlibus animalium para perceber que essa operação não é tão simples como parece à primeira vista, mas basta, do ponto de vista teórico, ter que decidir onde se colocarão o asno e o cavalo na árvore para ver surgir um seriíssimo problema.

Procuremos distinguir o cavalo do homem. Indubitavelmente ambos são animais. Indubitavelmente ambos são mortais. Portanto, o que os distingue é a racionalidade. A árvore está, pois, errada, porque a diferença 'mortal/imortal' deve ser estabelecida como divisiva do gênero 'animal' e só em segunda instância se deveria estabelecer a diferença divisiva 'racional/irracional'. Mas veja-se quais são as conseqüências formais dessa alteração.

Porfirio não teria desencorajado essa decisão, dado que ele diz (18-20) que a mesma diferença «se observa frequentemente em diversas espécies, como quadrúpede em muitos animais que diferem pela espécie» (deixemos de lado o fato de que quadrúpede deve ser um próprio e não uma diferença, visto que em outro lugar 'bípede' é dado como exemplo de próprio).

Também Aristóteles diz que quando dois ou mais gêneros são subordinados a um gênero superior (como ocorre no homem e no cavalo, pelo fato de serem ambos animais) nada exclui que tenham as mesmas diferenças (Cat. Ib 15 et seqs.; Top. VI 164b 10).

Em Analitici Secondi (11 90b et seqs.) Aristóteles mostra como é possível chegar a uma definição não ambígua. Posto que para os gregos o um não era um número (mas a'fonte e o padrão de todos os outros números), o três pode ser definido como o ímpar que é primo em ambos os sentidos (ou seja, que não é nem soma nem produto de outros números). Essa definição seria totalmente permutável com a expressão /três/.


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Esse tipo de divisão sugere duas interessantes consequências: a) as propriedades registradas em itálico não são exclusivas de uma única disjunção mas ocorrem sob mais de um nó; b) uma dada espécie (por exemplo dois, três ou nove) pode ser definida pela conjunção de mais de uma das propriedades acima. Com efeito, essas propriedades são diferenças. Assim Aristóteles mostra não só que muitas diferenças podem ser atribuídas a uma mesma espécie, mas também que o mesmo par de diferenças divisivas pode ocorrer sob diversos gêneros. Não só, mas ele mostra também que, uma vez que uma certa diferença se revelou útil para definir sem ambigilidade uma certa espé- cie, não é importante levar em consideração todos os outros sujeitos de que é igualmente predicável. Em outras palavras, uma vez que uma ou mais diferenças serviram para definir o número três, é irrelevante que sirvam igualmente bem, embora em outras combinações, para definir o número dois. Para uma clara e inequívoca definição desse ponto veja-se Analitici Secondi (II, XIII 97a 16-25).

Neste ponto pode-se tentar um passo adiante. Tendo dito que, dados alguns gêneros subordinados, nada os impede de ter as mesmas diferenças, e pelo fato de que a árvore das substâncias é completamente constituída de gêneros inteiramente subordinados ao gênero máximo, é difícil dizer quantas vezes o mesmo par de dife- renças pode ocorrer.

4.3 Uma árvore apenas de diferenças
Muitos comentadores medievais do Isagoge parecem encorajar as nossas dúvidas. Boécio (Is. CS.E.L.: 256.10-12 e 266.13-15) escreve que 'mortal' pode ser uma diferença de 'animal irracional' e que a espécie 'cavalo' é constituída pelas diferenças 'irracional' e 'mortal'. Ele sugere também que 'imortal' pode ser uma diferença válida para os corpos celestes que são tanto inanimados quanto imortais: «Nesse caso a diferença imortal é compartilhada pelas espé- cies que diferem entre si não só por gênero próximo mas por todos os gêneros superiores até o gênero subalterno que ocupa o segundo lugar no alto da árvore» (Stump 1978, p. 257).

A dúvida apresentada por Boécio é, segundo Stump, «surpreendente o e «desconcertante»; na verdade, é inteiramente racional. Tanto Aristóteles quanto Boécio sabiam que a diferença é maior do que o próprio sujeito, isto é, tem uma extensão maior, e isso é possível apenas porque não são somente os homens a serem mortais ou somente os deuses, imortais (e assim também para outras diferenças concebíveis). Se a diferença 'mortal/imortal' ocorresse apenas sob um nó, 'mortal' e /homem/ seriam permutáveis e, por isso, não


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teríamos relação com uma diferença mas com um próprio. Há mais seres mortais do que homens, exactamente porque esse par de diferenças ocorre também sob outros géneros. E eis porque, como Aristóteles sabia (Topici VI 114 25), o homem é permutável com a definição (”animal racional”), porque o género tem uma extensão maior do que a espécie, não com a diferença porque (embora de maneira diferente) também a diferença tem uma extensão maior do que a espécie.

Há mais seres mortais do que animais racionais. Mas o problema a enfrentar agora diz respeito exatamente à natureza ambígua de maior extensão da diferença em relação à espécie que constitui.

Também Abelardo na sua Editio super Porphyrium ( 157v 15) sugere que uma dada diferença é predicada de mais de uma espécie:«falsum est quod omnis differentia sequens ponit superiores, quia ubi sunt permixtae differentiae, fallit» *. Por isso: a) a mesma diferença compreende muitas espécies, b) o mesmo par de diferenças pode ocorrer sob diversos gêneros, c) diversos pares de diferenças que ocorrem sob diversos gêneros podem, no entanto ser expressos(analógicamente) pelos mesmos nomes, d) permanece aberto à discussão quão alto na árvore está o gênero comum em relação ao qual muitos são os gêneros subordinados que acolhem o mesmo par de diferenças. Por consequência se está autorizado a repropor a árvore de Porfírio.

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Está aqui demonstrada uma idéia de Gil (1981, p. 1027), ou seja, que os gêneros e as espécies podem ser usados como parâmetros extensionais (classes), mas só as diferenças fixam o regime intensional. Por isso, é óbvio que numa 'boa' árvore de componentes semânticos (regime intensional) devem permanecer apenas diferenças.

Essa árvore apresenta interessantes características:

a) permite a representação de um universo possível em que podem ser previstos e estabelecidos muitos gêneros naturais ainda ignorados (por exemplo, substâncias incorpóreas, animadas mas irracionais);

b) mostra que aquilo que estávamos habituados a considerar gêneros e espécies (aqui representados em itálico entre parênteses) são simples nomes que rotulam grupos de diferenças;

c) não é regida por relações de hipónimos a hiperónimos: nessa árvore não se pode estabelecer que, se alguma coisa é mortal, então é racional, ou que se é irracional então é um corpo, e assim por diante;

d) como consequência de c ela pode ser continuadamente reorganizada segundo diversas perspectivas hierárquicas entre as diferenças que a constituem.

No que se refere à característica a vimos o que Boécio dizia sobre os corpos celestes. No que se refere à característica b é claro que essa árvore é composta de puras diferenças. Gêneros e espécies são apenas nomes que damos a seus nós. Boécio, Abelardo e outros pensadores medievais eram obcecados pelo problema da penuria nominum*, isto é, pelo fato de que não havia à disposição itens lexicais suficientes para rotular cada nó (caso contrário, ter-se-ia encontrado uma expressão em lugar de 'animal racional' que, como se vê, é designado repetindo o nome do gênero próximo e o da diferença específica). Admitamos que a queixa dos medievais se deva a razões empíricas: dado que em sua experiência (como na nossa) não se tivessem nunca encontrado outros animais racionais que não o homem e (sob a forma de força natural) o deus, cuja relação mediante um gênero comum não era intuitiva e não podia, portanto, ser registrada pela linguagem, está explicada a origem acidental desse caso de penúria. Mas examinando bem não há nenhuma razão pela qual devesse existir um nome para esse outro nó superior resultante da conjunção do gênero 'vivente' com a diferença “sensível”,
* “penúria de nome”. (N. do T.)
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e o raciocínio poder-se-ia repetir para todos os nós superiores. Na realidade, os nomes dos gêneros são insuficientes porque são inúteis: um gênero não é senão uma conjunção de diferenças.

Aristóteles não tinha elencado as espécies entre os predicáveis, porque a espécie é resultado da conjunção de um gênero com uma diferença; mas pela mesma razão teria que eliminar da lista também o gênero, que é a conjunção pura de uma diferença com uma outra diferença conjungida com uma outra diferença e assim por diante até o alto da árvore - onde está a única entidade que provavelmente seja um gênero, a substância. No entanto, sua generalidade é tão grande que se poderia ler a árvore ao contrário e dizer que a substância não é senão a matriz esvaziada de um jogo de diferenças. Gêneros e espécies são fantasmas verbais que cobrem a verdadeira natureza da árvore e do universo que ela representa, um universo de puras diferenças.

No que se refere à característica c, porque as diferenças inferiores não exigem necessariamente as do nó superior, a árvore não pode ser finita: redutível transversalmente em direção ao alto, não há critério que estabeleça quanto pode ramificar-se para os lados e para baixo.

Como veremos adiante, as diferenças, que provêm de fora da árvore das substâncias, são acidentes, e os acidentes são potencialmente infinitos. Acrescente-se que, não sendo, em termos contemporâneos, propriedades analíticas, as diferenças seriam propriedades sintéticas, e eis que a árvore se transforma, em virtude do que se discutiu nos primeiros parágrafos deste estudo, de dicionário em enciclopédia, dado que se compõe de elementos de conhecimento do mundo.

Enfim, no que se refere à característica d, essa árvore poderá ser continuamente reordenada segundo novas perspectivas hierárquicas. Do momento em que 'mortal' não implicita 'racional', o que proíbe colocar 'racional' embaixo de 'mortal' e não vice-versa. Boécio o sabia muito bem e, interpretando uma passagem de De divisione VI, 7, fica claro que dadas algumas substâncias como a pérola, o leite, o ébano e alguns acidentes como branco, duro e líquido, pode-se construir a árvore reestrurada.

É verdade que nessa passagem Boécio está a falando apenas de acidentes, mas em De divisione XII, 37, aplica o mesmo princípio

A mesma coisa é dita por Abelardo em Editio super Porphyrium (150v. 12): «Plurate ideo dicit genera, quia animal divitur per rationale animal et animale irrationale; et rationale per mortale et immortale divididur; et mortale per rationale et irrationale dividitur»

Portanto a estrutura da árvore não é sensível aos contextos, por isso não é um dicionário absoluto


4.4 As diferenças como acidentes e como signos
As diferenças são acidentes e os acidentes são infinitos ou ao menos em número indefinido.

As diferenças são qualidades (e não é por acaso que, enquanto gêneros e espécies, ilusões de substâncias, são expressas por adjectivos). As diferenças provêm de uma árvore que não é das substâncias e o seu número não é conhecido a priori (Mat. VIII 2.6.104b 2 – 1043a). É verdade que Aristóteles diz essas coisas das diferenças não essênciais, mas nesse ponto quem pode dizer quais as diferenças e quais não? Aristóteles joga com poucos exemplos (racional, mortal), mas quando fala de espéciesdiferentes do homem, como animais ou objectos artificiais, torna-se muito mais vago, as diferenças multiplicam-se...Teoricamente somos autorizados a adiantar a hipótese de que ele não saberia construir uma árvore de Porfírio finita, mas praticamente (ou com base na evidência filológica), quando lemos De partibus animalium, vemosque ele de fato renuncia a construir uma árvore única e concilia árvores complementares conforme a


*“de um só género faz-se a divisão múltipla”. (N.do T.)

** “por isso, diz géneros no plural, porque animal divide-se em animal racional e irracional; e racional divide-se em mortal e imortal; e divide-se em racional e irracional”. (N. do T.)

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propriedade cuja causa e natureza essencial quer explicar (cf. Eco 1981a e Balme 1975). A noção de diferença específica é, retoricamente falando, um oximoro. Diferença específica significa acidente essencial. Mas esse oximoro oculta (ou desvela) uma contradição ontológica bem mais grave.

Quem entendeu o problema de maneira exata (mas não agiu com muita prudência como de costume) foi Santo Tomás. No De ente et essentia diz-se que a diferença específica corresponde à forma substancial (outro oximoro ontológico, se assim se pode dizer, dado que a coisa mais substancial que podemos conceber é identificada com um ou mais acidentes). Mas o pensamento de Santo Tomás não permite equívocos: a diferença corresponde à forma e o gênero à matéria, e como forma e matéria constituem a substância, assim gênero e diferença constituem a espécie. o raciocínio é patentemente analógico, mas o recurso à analogia não exclui o fato de que o que define a forma substancial é a diferença como acidente.

Para justificar uma conclusão tão escandalosa, Santo Tomás inventa - com um de seus habituais golpes de gênio - uma solução muito brilhante: « in rebus sensibilibus etsi ipsae differentiae essentiales nobis ignotae sunt: unde significatur per differentiae accidentales quae ex essentialibus oriuntur, sicut causa significatur per suum effectum, sicut bipes ponit differentia hominis » [De ente VI] *. Em consequência: existem diferenças essenciais; o que são não o sabemos; as que conhecemos como diferenças específicas não são as próprias diferenças essenciais, mas são por assim dizer seus signos, seus sintomas, seus indícios; são manifestações superficiais de alguma outra coisa, para nós incognoscível. Inferimos a presença de diferenças essenciais mediante um processo serniótico, a partir dos acidentes cognoscíveis.

Que o efeito é signo da causa é idéia habitual no Aquinense (muito de sua teoria da analogia depende dessa assunção, em última análise de origem estóica: os efeitos são signos indicativos). A idéia é reforçada por exemplo em Santo Tomás 1.29 2 a 3 ou 1.77 1 a 7: uma diferença como 'racional' não é a verdadeira diferença específica que constitui a forma substancial. A ratio como potentia animae aparece exteriormente ao verbo e facto, mediante ações exteriores, comportamentos psicológicos e físicos (e as ações são acidentes, não

* "e entretanto nas coisas sensíveis as próprias diferenças essenciais são ignoradas por nós: daí se significa por diferenças acidentais que se originam das essenciais, como a causa se significa por seu efeito, como bípede estabelece a diferença do homem". (N. do T.)
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substâncias!). Dizemos que os homens são racionais porque manifestam sua potência racional mediante atos de conhecimento, seja quando praticam essas ações mediante um discurso interno (e imagina-se que essa atividade de pensamento seja compreendida por introspecção), seja quando a manifestam mediante o discurso externo, ou seja, mediante a linguagem (Santo Tomás 1.79 8). Num texto decisivo da Contra Gentiles (111.46) Santo Tomás diz que o ser humano não sabe o que é que ele é (quid est) mas sabe que é assim (quod est) enquanto se percebe ator de atividade racional. Conhecemos que são na realidade as nossas potências espirituais ((ex ipsorum actuum qualitate)». *

Assim também 'racional' é um acidente e assim são todas as diferenças em que a árvore porfiriana se dissolve.

Santo Tomás entende que as diferenças são acidentes, mas não tira dessa descoberta todas as conclusões que deveria a respeito de uma possível natureza da árvore das substâncias: não pode permitir-se (não pode “politicamente” mas provavelmente nem mesmo 'psicologicamente') pôr em crise a árvore como instrumento lógico para obter definições (o que teria podido fazer sem risco) porque toda a Idade Média é dominada pela convicção (embora não consciente) de que a árvore expressa a estrutura do real, e essa suposição neoplatônica afeta também os mais rigorosos aristotélicos.

Mas podemos dizer sem simulação que a árvore dos gêneros e das espécies, de qualquer modo que seja construída, explode numa poeira de diferenças, num turbilhão infinito de acidentes, numa rede não hierarquizável de qualia. ** O dicionário (porque é como tal que a árvore nos interessa hoje, e podemos olhar com distanciamento para a fissão de um universo neoplatônico) dissolve-se necessariamente, por força interna, numa galáxia potencialmente desordenada e ilimitada de elementos de conhecimento do mundo. Em consequência, torna-se uma enciclopédia e o faz porque de fato era uma enciclopédia que se ignorava ou um artifício idealizado para mascarar a inevitabilidade da enciclopédia.

Se é assim, devemos tirar daí a consequência de que a árvore definicional não dá mais garantias de ser finita. Seus primitivos, gêneros e espécies, são apenas nomes que devem ser por sua vez interpretados em termos de 'pacotes' de diferenças.

* “pela qualidade dos próprios atos". (N. do T.)

** “1ermo da lógica que significa as qualidades dos seres (N.do T.)

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A primeira e mais ilustre formulação do ideal do dicionário sanciona (parece-nos que para sempre) sua impossibilidade e nos diz que o dicionário é uma enciclopédia mascarada.

E neste ponto emerge uma última conclusão, que não podia ser aceita pelos medievais e que será tirada somente em tempos mais próximos de nós: o que constitui a 'verdadeira' diferença, não é nem um acidente nem o outro, é a maneira como os reagrupamos reorganizando a árvore. Em outras palavras, a 'verdadeira' diferença não é o acidente em si (seja ele 'racional' ou 'mortal' ou qualquer outro): é a oposição em relação ao próprio contrário em que um desses acidentes entra, conforme a maneira como a árvore é articulada. Mas com essa observação entra-se numa segunda etapa do pensamento da diferença, que nesse momento é oportuno ignorar (para não forçar muito nossas cabeças). Embora não se possa evitar discutir, em outro momento, quanto o conceito contemporâneo de diferença é devedor à crise do antigo (cf. Bateson 1972, Deleuze 1968, 1969).

5 As semânticas como enciclopédia


5.10 princípio de interpretação
Se as semânticas como dicionário são inconsistentes, resta apenas tentar as semânticas como enciclopédia. Mas será preciso primeiro tentar resolver o outro problema não solucionado por Hjemslev a respeito da natureza das figuras do conteúdo.

A indicação mais frutífera em mérito vem de Peirce. Todo signo (ou representamen) exprime imediatamente um objeto imediato (que se poderia definir como seu conteúdo) mas para dar conta de um objeto dinâmico. o objeto imediato é a maneira como o objeto dinâmico é dado pelo signo (pense-se na definição fregiana do sentido). O objeto dinâmico, que estimula a produção do signo, é a Coisa-em-si: naturalmente se encontra em Peirce o mesmo problema de Hjelmslev a propósito do continuum. O objeto dinâmico determina os modos de organização do objeto imediato? Como Peirce cria na constância das leis gerais na natureza, evidentemente o objeto imediato dá conta de um sentido já implícito no objeto dinâmico. o significado semiótico está ligado ao significado cognitivo.



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