Sonhos em campo



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SONHOS EM CAMPO:

Mercado de transferências internacionais de futebolistas brasileiros

Orientadora: Profa. Dra. Maria Paula Menezes


Dissertação de Mestrado em Sociologia “Pós Colonialismos e Cidadania Global” apresentada à Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

Lennita Oliveira Ruggi

lennitaruggi@hotmail.com

Coimbra, 2008

Ao Carlão, o Bão.

E João Vermelho, do PT.

(meu pai corintiano e meu avô flamenguista)

Agradecimentos

Gostaria de agradecer, em primeiro lugar, à Cristina Mello. Sem sua intervenção na minha vida, não teria sequer considerado me engajar neste projeto. Obrigada.

A Hilton Costa, que me esperou uma vez e, com sorte, me espera mais um pouco. Além de me deixar cotidianamente bem humorada, esteve ao meu lado desde a primeira menção à Coimbra, sugeriu este tema e teve paciência de responder todas as minhas perguntas sem cabimento sobre futebol.

À minha mãe, Elza. Se tivesse de marcar as referências específicas de sua ajuda em meu trabalho, teria de colocar uma nota de rodapé em cada frase.

Ao meu pai, Carlão. Corintiano, às vezes roxo. Eu tenho muita sorte de ter um pai como você. Obrigada pelas piadas de todos os dias, por saber de todos os assuntos e por arrumar as pedras do quintal.

À minha irmã Maira, que faço questão de agradecer no papel, apesar de ter agradecido ao vivo. Tabulou dados, fez gráficos e tabelas e pacientemente me ouviu tagarelando em momentos de ansiedade.

À minha irmã Julia, que (valha-me!) nem chegou a duvidar, nem eu duvidei. Transcreveu entrevistas, me explicou o funcionamento da pensão alimentícia e concluiu que ciências sociais é mesmo bem mais divertido que direito.

À Nicinha, sempre presente pra tornar nossas vidas possíveis. Obrigada por sua paciência e tranqüilidade, por sempre achar o que está perdido e por ter entrado nessa família esquisita.

Aos meus avós Elza e João, que me fazem entender melhor o que quer dizer cultivar (plantas e pessoas).

A Fagner Carniel que, dentre muitas outras coisas, me ensinou o significado da palavra interlocutor. Estou segura de que não teria concluído este trabalho sem sua orientação e amizade.

À Flávia Valente, por me levar na Fanáticos, se disponibilizar para realizar as entrevistas e se tornar uma amiga essencial. Muito me admira sua generosidade.

À turma de Pós-Colonialismos 2006 e agregados. Não imagino como poderia ter dado mais sorte do que conhecer vocês. Pelos cafés, festas, finos, conversas, etc. Especialmente a Abigail, Adauto, Alice, Ana B., Anelise, Bruno, Cássio, Élida, Gilsa, Lourenço, Margarida, Mario, Meire, Nilma, Nilzélia, paulo, Philips, Raul e Rose.

Às professoras Maria Paula Menezes e Margarida Calafate Ribeiro. Se é verdade que sempre se escreve imaginando leitores, não poderia ter encontrado pessoas melhores.

Acácio e Maria José que tiveram paciência de me explicar três vezes o funcionamento da biblioteca. São vocês que tornam o CES um lugar agradável.

À Rose e ao Fabiano, pela hospitalidade e parceria. O Gabriel se deu bem.

Ao Pedro, pelos filmes e risadas.

À Dulce, que se tornou uma amiga.

Ana Trovão, Amélia e Miriam, que fizeram parte de mais essa jornada, como de todas as outras. Sem vocês por aqui, nada teria graça. Obrigada por existirem.

Ao SESI Paraná, que me possibilitou conhecer e conviver com pessoas incríveis: Elaine, Silvia e Letícia.

Teresa Urban, que me afastou bem quanto eu precisava – por sorte só do trabalho.

Aos meus amigas e amigos: Ana P, André, Andrea, Ariton, Bárbara, Bianka, Bruna, Cláudia, Daiane, Dayana, Douglas, Filipe, Flávia, Jonas, Júlia, Karla, Maicon, Malaka, Manduul, Marcão, Marcos, Marcus, Maria Isabel, Paulo, Priscila, Rafael, Renata, Romina, Sabrina, Waleska e Zé – obrigada por ajudarem a manter minha sanidade mental.

À Raquel, minha parceira nessa vida de caracol.



Resumo

Partindo de entrevistas com aspirantes, jogadores profissionais e ex-boleiros, este trabalho pretende problematizar algumas representações que permeiam a imagem e os anseios dos atletas de futebol, especialmente em relação às transferências internacionais. Em 2007, 1085 futebolistas imigraram do Brasil para atuar no exterior. Tal número denota um processo que tem se intensificado desde a década de 90, quando passaram a vigorar as novas leis sobre passes e transações internacionais. No âmbito da legislação brasileira, o marco relevante é estabelecido com a instauração da Lei 9.615/1998, conhecida como Lei Pelé, que transformou o estatuto dos atletas profissionais e sua relação com os empregadores ao substituir a vigência do passe e privilegiar os contratos como instrumentos de regulação. Na União Européia, a decisão proferida em favor do jogador de futebol belga Jean-Marc Bosman decretou a não-diferenciação de atletas pelo critério de nacionalidade dentro da comunidade. As modificações legais investigadas parecem tender para a construção de uma representação jurídica do futebol como uma prática primordialmente econômica, no qual as transações internacionais de jogadores assumem plenamente seu caráter capitalista. Neste cenário, uma “certa Europa” tem sido construída como a Meca do futebol mundial, concentrando os clubes mais ricos e célebres. Trata-se da construção de um projeto de vida no qual “jogar fora” do Brasil revela motivações predominantemente econômicas, embora esta não seja a única dimensão envolvida. O processo recíproco de constituição da brasilidade e do futebol contemporâneo, as políticas nacionalistas e de visibilidade são decisivas para a compreensão da dinâmica internacional das transferências de jogadores brasileiros de futebol.

Palavras-chave: futebol, transferências internacionais de jogadores, brasilidade.
Abstract

In 2007, 1085 football (soccer) players left Brazil to work abroad. Based in interviews with beginners, professional and former players, this research aims to criticize some representation about the image and the desires of soccer athletes. The quantity of transfers indicates a process that has intensified since the 90s, when new legal regulations were promoted. In Brazilian legislation, the turning point was the Law 9.615/1998, known as Pelé Law, which transformed the legal statute of football players, providing the hegemony of formal contracts with a determined period of time. In European Union, a sentence that decided in favor of Belgian player Jean-Marc Bosman, set out the non-differentiation of athletes because of their nationality inside the European community. The legal changes investigated tend to enfacize a juridical representation of sport as a mainly economical practice, in which the international transactions of players have a capitalist character. In this context, a “certain” Europe has been built as the Meca of global soccer, concentrating the best richest and most famous clubs. Playing abroad shows the mainly economical character of Brazilian athletes’ motivation, even though it is not the only dimension involved. The reciprocal process of construction of national way of life and contemporary football, the “visibility politics”, and nationalism are decisive to understand the dynamics of international transfer of Brazilian players.

Keywords: football (soccer), international transfers, Brazil national character.

Índice

Resumo / Abstract..........................................................................................4

Introdução.......................................................................................................6

1. Contextualização......................................................................................13

2. Aspirantes.................................................................................................49

3. Visibilidade e nacionalismo.....................................................................97

4. Ex-jogadores...........................................................................................142

Considerações Finais.................................................................................213

Referências..................................................................................................220

Anexo I.........................................................................................................230

Anexo II........................................................................................................231

Anexo III.......................................................................................................232

Introdução

Eu não gosto de futebol, mas parto do princípio de que ele é divertido – caso contrário não teria a importância social que alcançou na contemporaneidade. Muito foi escrito sobre os motivos intrínsecos e/ou sócio-culturais que levaram o futebol a se disseminar de maneira tão intensa por um número tão grande de países, em especial, no Brasil. Os fatores causais variam desde sua suposta simplicidade e acessibilidade às muitas formas de improvisar uma bola. De minha parte, prefiro a colocação de Hugo Lovisolo, segundo a qual “seria muito mais honesto reconhecermos que não sabemos porque o futebol pegou” (2001: 78).

A história do futebol é demonstrativa da preponderância que assumiu enquanto esfera tanto de hegemonia quanto de contestação. Espaço de negociação de pertenças e formulação de conhecimento, o futebol está dinamicamente implicado nos processos desiguais intra- e inter-nacionais. Por um lado, ele é fruto direto das relações colonialistas estabelecidas por países europeus e dos processos migratórios sentido Norte-Sul. Nas palavras de Mascarenhas: “A supremacia mundial britânica no final do século XIX foi fundamental na propagação do futebol” (2004: 90). Espaço privilegiado para a encenação/produção de nacionalidade, o jogo foi também arena de contestação à hegemonia européia. Para Arno Vogel, “de um modo geral, os latino-americanos são passionais quando se trata de futebol. Através dele, os uruguaios, argentinos e brasileiros conseguiram os seus primeiros momentos de afirmação diante dos europeus que lhes tinham ensinado o jogo” (Vogel, 1982: 82). Neste sentido, países “periféricos” puderam (e podem) ser alçados pelo jogo a espaços de visibilidade mais amplos, inseridos na agenda midiática global por motivos outros que não desastres, desgraças ou guerras. A dimensão simbólica do futebol é tão marcante que a principal competição entre clubes sul-americanos é a Taça Libertadores da América, em homenagem aos principais líderes dos movimentos de independência dos países da região: Simón Bolívar, Dom Pedro I, José de San Martín, Antonio José de Sucre e Bernardo O'Higgins. (Igualmente significativa é a denominação Liga dos Campeões para o campeonato entre agremiações européias).

A foto da abertura deste trabalho condensa a faceta heterogênea do futebol como representativa de relações de poder. Extraída do livro Um jogo inteiramente diferente! Futebol: a maestria brasileira de um legado britânico, do inglês Aidan Hamilton (2001: 280), a imagem apresenta o universo de sociabilidade masculina construída através do jogo. O cumprimento com as mãos direitas é realizado entre George Swidin, goleiro e capitão do Arsenal Football Club, e “Índio”, que provavelmente era o capitão do Fluminense na época – a obra de Hamilton não traz informações especificas sobre o jogador. Trata-se de um exemplo significativo das dinâmicas de poder e legitimidade implicadas no jogo. Produzida em 1949, ocasião em que o Arsenal foi contratado para uma turnê no Brasil, o terceiro homem da fotografia é Jack Barrick, um dos primeiros e mais famosos árbitros ingleses contratados pelas federações de futebol brasileiras visando “reeducar” o esporte no Brasil1. A postura desafiadora de Índio não garantiu a vitória do Fluminense, que perdeu o jogo por cinco gols contra um.

**

Este trabalho pretende discutir algumas das condicionantes implicadas nas transferências internacionais de jogadores brasileiros na contemporaneidade, num esforço para explorar e expandir o argumento financeiro que em geral se estabelece como justificativa para o fenômeno. O futebol é parte constitutiva da brasilidade. Sua importância simbólica, econômica, social, cultural, cotidiana, política e mídiatica é reiterada por discursos dos mais variados matizes, oriundos de fontes diversas. A discussão sobre nacionalismo não fazia parte do meu plano de trabalho original, mas fui compelida a inseri-la, em larga medida, pela preponderância de sua presença nas bibliografias acadêmicas e nas formulações dos meios de comunicação, assim como pelo incômodo que causa a constante utilização de pronomes pessoais em referências aos “nossos” jogadores. O futebol é uma moldura, por assim dizer, que se presta a um projeto de nação, supostamente possibilitando a convergência de interesses em meio à heterogeneidade brasileira. É pertinente questionar quem tal enquadramento inclui e quais são as ausências criadas em seu bojo. As relações de poder e visibilidade no futebol interagem com as desigualdades de classe, raça, gênero e nacionalidade, tanto na dimensão intra-nacional, entre clubes e regiões do país, quanto internacionalmente. Sem serem coincidentes, a hierarquia futebolística e as desigualdades sociais estão imersas em processos complexos de reprodução e/ou contestação de legitimidades e relações de poder.



O desenvolvimento desta pesquisa foi bastante facilitado pela ampla bibliografia disponível sobre futebol no Brasil. Partindo de uma posição de ignorância, durante um determinando período qualquer escrito ou comentário sobre o jogo fez parte de minha esfera de interesse. A extensão quantitativa e a diversidade qualitativa dos discursos produzidos a este respeito no Brasil tornou um tanto complicado o trabalho de me posicionar de modo argumentativo no universo do futebol. Tomei as produções acadêmicas, as publicações midiáticas, as biografias de jogadores, os comentários expressos em blogs, discussões na internet e gritos de torcidas como fonte de dados e objeto de problematização, num esforço por apontar as características comuns que sobressaem na dinâmica representacional futebolística, salientando as ausências que gera. A problemática racial, de gênero e de classe relacionada à construção do “país do futebol” e a polissemia de valências que tal concepção comporta são o alicerce do debate que proponho em relação ao projeto de nação engajado no futebol. A perspectiva dos pós-colonialismos é crucial para a interpretação das transferências internacionais de boleiros como estando imersas nas relações de desigualdade entre Sul e Norte, indicando hierarquias de países que são determinantes nos projetos de vida dos jogadores, nas relações entre clubes e entre nacionalidades.

Distanciando-me de interpretações que defendem o futebol como “linguagem universal”, tomo como ponto de partida a cidade de Curitiba, onde resido e onde a pesquisa foi desenvolvida. Capital do estado do Paraná, no Sul do Brasil, Curitiba e região metropolitana congregam 3.172.357 habitantes, sendo a oitava mais populosa do país. A maioria das referências, tanto minhas quanto das pessoas que participaram desta pesquisa, são as três principais agremiações profissionais sediadas na cidade: Coritiba Foot Ball Clube, Clube Atlético Paranaense e Paraná Clube, cujas colocações no ranking de clubes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) são, respectivamente, 15ª, 19ª e 23ª. Espaço desportivo semi-periférico dentro do Brasil, Curitiba comporta múltiplos futebóis e se insere de maneiras diversificadas nas dinâmicas (inter)nacionais de campeonatos e transferências.

As listas anuais de transferências internacionais disponibilizadas pela CBF foram a base para a pesquisa quantitativa. A apresentação do número total de transferências por ano de 1992 a 2007 é complementada por uma análise pormenorizada das negociações realizadas em 2007. O estado e a região em que estão sediados os clubes brasileiros que transferiram atletas neste ano pretendem demonstrar a disparidade geográfica das possibilidades imigratórias. Neste mesmo sentido, são expostos os países e regiões das agremiações de destino, revelando a diversidade de demandas por futebolistas brasileiros em 2007.

A configuração local do jogo no Brasil implica que diversos clubes não participem das séries A, B ou C nacionais, sendo as competições estaduais bastante desiguais entre si. Tal conjuntura torna pouco frutífera a utilização da variável que considere segunda, primeira e terceira divisões. Neste sentido, um esforço foi feito para correlacionar as agremiações presentes na listagem de transferências em 2007 com aquelas apresentadas no ranking de clubes da CBF do mesmo ano (CBF, 2007). O ranking se baseia num sistema de classificação por pontos, acumulados pelas agremiações nos campeonatos nacionais, e incluía 389 clubes em 2007, distribuídos em 325 posições (os clubes com igual pontuação compartilham a mesma colocação).

Apesar das duas listagens serem oriundas da CBF, os dados apresentados em cada uma delas não estão padronizados. Um total de 186 agremiações que realizaram transferências no ano em questão não estão presentes no ranking da CBF. Isto pode ser motivado pela diferença entre o nome geralmente usado para designar ao clube e sua personalidade jurídica, ou pela existência dos chamados “clubes de fachada”, cujo objetivo principal não é participar em campeonatos, mas negociar jogadores. É igualmente possível que os clubes não identificados no ranking nunca tenham pontuado na classificação da CBF, não estando, portanto, inseridos na listagem, ou que tenham havido equívocos no cruzamento das informações.

Realizei entrevistas com oito jogadores/ex-jogadores, em diferentes momentos da trajetória de atleta. Apesar de não poder reivindicar qualquer legitimidade estatística, acredito que suas falas esclareçam aspectos relevantes concernentes à carreira e, mais especificamente, às transações internacionais de futebolistas. As entrevistas foram realizadas em Curitiba, entre janeiro de 2006 e abril de 2008. Sem um roteiro pré-determinado, me esforcei por concretizar uma abordagem de história de vida, proporcionando espaço para que os boleiros se expressassem em seus próprios termos. Todos foram reconfortantemente solícitos e talvez não seja sem sentido afirmar que desenvolvi uma profunda simpatia por cada um deles.

Os diálogos foram gravados com a concordância dos entrevistados, a quem garanti o anonimato, tendo alterado seus nomes para a exposição do trabalho final. Suas histórias de vida constituem a parte principal da presente pesquisa e buscaram investigar a percepção dos boleiros a respeito de sua posição no futebol, as condicionantes da carreira e o significado de atuar no exterior. Transcritas de modo a manter as características orais, as falas constituíram a base para o estabelecimento de temáticas comuns, desde o início da prática futebolística, os processos de seleção, as expectativas profissionais e a competitividade com colegas até suas percepções sobre o futebol brasileiro e as transferências de jogadores do país. A despeito de características compartilhadas, o que se desprende destas entrevistas é a heterogeneidade de experiências possibilitadas pelo futebol.

Além disso, conversei com um jornalista esportivo curitibano a respeito das transações internacionais e a produção de jornalismo impresso sobre futebol na cidade. Participei de cursos e palestras sobre futebol organizados pela Universidade Federal do Paraná, pela Universidade Positivo e pelo Estação Business School – todos em Curitiba. Contei com a colaboração de dez integrantes da torcida organizada Os Fanáticos, adeptos do Clube Atlético Paranaense, que responderam a um inquérito expondo suas opiniões sobre sua percepção a respeito do jogo, dos atletas e clubes brasileiros e das negociações de/com boleiros. Baseadas em um questionário semi-estruturado (acessível no Anexo III deste trabalho), as perguntas tinham a intenção de investigar a percepção dos/a torcedores/a a respeito das transferências internacionais de jogadores brasileiros. Realizadas entre janeiro e fevereiro de 20072, em Curitiba, as interlocuções duraram em média 12 minutos e proporcionaram respostas relevantes sobre o posicionamento heterogêneo esposado por cada uma das pessoas entrevistadas.

Meu maior esforço ao escrever este trabalho foi fazer jus à heterogeneidade de representações construídas no futebol. Nem todas as histórias e fatos narrados são indicativos da mesma dinâmica, pois nenhuma dinâmica esgota os significados implicados no/por meio de/através do jogo. O foco principal reside nas experiências dos jogadores/futebolistas/atletas/boleiros que tiveram a disponibilidade de narrar suas vivências.

**

O texto apresentado a seguir segue a tradição das pesquisas sobre futebol na América Latina, que, de acordo com Sergio Villena Fiengo (2003), compartilham a metodologia qualitativa, o caráter local e o tom ensaístico. Apesar de serem poucas as referências explícitas às correntes teóricas das ciências sociais, tenho esperança de que elas sejam facilmente identificáveis no decorrer da leitura. A despeito de estar geograficamente distante do círculo de convivência do Mestrado em Pós-Colonialismos e Cidadania Global de Coimbra, me esforcei por manter o vínculo com o programa tanto na abordagem quanto na perspectiva desenvolvida.



O primeiro capítulo está dividido em três momentos distintos, mas correlacionados, na medida em que visam contextualizar o debate. Inicialmente são exibidos gráficos e tabelas referentes aos dados quantitativos sobre as transferências internacionais. A apresentação do aumento do número de transferências ao longo do tempo é complementada pelo exame da distribuição geográfica dos clubes de origem e destino do ano de 2007; pelo cruzamento dos dados sobre as agremiações brasileiras com sua posição no ranking da CBF no mesmo período, e pelos valores anuais estimados das transferências. Em seguida, discute-se o enquadramento legal relacionado à negociação internacional de jogadores. Apesar de não serem as únicas regulamentações desportivas instauradas na última década, são enfatizadas as condicionantes impostas pela Lei Pelé, no Brasil, e pela Sentença Bosman, na União Européia, devido ao impacto que tiveram na dinâmica das transações entre clubes sediados em nações diferentes. O papel dos agentes e empresários, bem como a atuação da Federação Internacional de Futebol Associação, são também referidos neste momento do trabalho. A última parte do primeiro capítulo apresenta as opiniões compartilhadas pelos torcedores d’Os Fanáticos, cujas falas expressam algumas perspectivas de adeptos sobre as transferências e permitem acessar algumas problemáticas posteriormente aprofundadas.

O segundo capítulo é introduzido com a interpretação de Eduardo Galeano sobre os atletas e o futebol em geral. A partir desta abordagem, são discutidas algumas das condicionantes da carreira de boleiro, especialmente em seu momento de formação, e como elas estão relacionadas à dimensão de classe e aos padrões de consumo. Neste capítulo estão congregadas as entrevistas realizadas com quatro aspirantes, sendo suas perspectivas e histórias de vida relevantes para criticar a homogeneização das experiências operadas pelas representações hegemônicas sobre jogadores de futebol. Não poupei citações diretas ao discurso dos jogadores por acreditar que ele é, em si, relevante e revelador. Dados coletados pela pesquisa Perfil da Juventude Brasileira são utilizados para contextualizar as perspectivas de vida dos aspirantes no país.

No terceiro capítulo, argumento que a visibilidade é desigualmente distribuída entre diferentes espaços futebolísticos, fato que tem impacto direito nas transferências de jogadores brasileiros. Trata-se de uma visibilidade buscada por atletas como condição para seu sucesso na carreira, mas que lhes proporciona um espaço midiático limitado em expressividade e, em alguns casos, desrespeitoso. Discursos concorrentes ou complementares defendendo a qualidade de determinados clubes ou nações são apresentados para debater as relações de hegemonia no futebol contemporâneo e seu componente nacional. A partir de exemplos representativos da discursividade midiática e acadêmica, busco problematizar a noção do Brasil como país do futebol, fazendo emergir contradições e ausências

O quarto e último capítulo parte de uma manifestação de torcedores relacionada às transferências internacionais proposta em um fórum na Internet e as respostas que suscitou. Densas em significados, elas proporcionam a base para enfatizar a dimensão do futebol como performance de masculinidade, tomando alguns exemplos das representações de gênero no universo do futebol – especialmente a feminilização da bola e o estereótipo da Maria Chuteira. O linguajar de baixo calão e a experiência diferenciada das mulheres envolvidas no futebol são alvo de consideração. Na seqüência, são interpretadas as entrevistas de quatro ex-jogadores, que ampliam a problemática das transferências internacionais e da formação de boleiros ao exporem suas experiências diversificadas.



A partir desta estruturação, pretendo apontar as fissuras e partes obscurecidas na dinâmica do futebol como moldura para um projeto de nação.

1. Contextualização

Se chamava Fausto (ou Faustinho, ou Tinho), tinha 15 anos e queria ser craque de futebol. Jogava nos juvenis de um clube médio. Jogava bem, mas não o bastante para se destacar dos outros garotos com a mesma idade e o mesmo sonho. Não o bastante para ser notado. Até que um dia Tinho se atrasou trocando de roupa depois de um treino e quando viu estavam só ele e um homem estranho, de terno escuro, no vestiário. Um homem que ele nunca tinha visto ali antes e que lhe deu seu cartão. Um cartão todo preto com uma única palavra, em vermelho: “Diabo”.

O homem fez uma proposta: em troca de sua alma, Tinho poderia pedir o que quisesse. Chutar com as duas pernas? Cabecear com perfeição? Driblar com maestria? Passar com precisão? O que ele quisesse. Pelo contrato apresentado pelo Diabo, e que ele assinou com seu sangue na hora, Tinho só se comprometia a, no fim da vida – que seria de grande sucesso e incrível riqueza – lhe entregar sua alma.

E já no seu primeiro jogo, depois do pacto com o Diabo, Tinho assombrou. Fez cinco gols, dois com cada perna e o quinto com uma cabeceada perfeita. Driblou com maestria e passou com precisão. Fenômeno, disseram todos. E naquele mesmo dia, depois do jogo, Tinho foi procurado por um empresário com sotaque castelhano que lhe propôs um contrato vitalício e um futuro fantástico. O empresário cuidaria da vida de Tinho por uma porcentagem. Em troca, faria de Tinho, em pouco tempo, o jogador mais famoso do mundo. O primeiro passo seria tirá-lo do Brasil e levá-lo para a Europa, onde estava o dinheiro. E Tinho assinou o contrato com o empresário na hora, raciocinando que o Diabo comprara a sua alma, não seus direitos corporativos. (...)

Para complicar as coisas, a direção do clube do Tinho fez uma proposta para o Tinho ficar, prometendo uma casa para a sua mãe, e movimentou o departamento jurídico para anular as ações do Diabo e do empresário. E, para complicar ainda mais as coisas, um emissário de Deus, um anjo disfarçado de Pipoqueiro, confidenciou ao Tinho que o Senhor se comprometeria a mover céu e terra para ajudar sua carreira (inclusive pressionando algum grande clube da Espanha ou Itália, onde Ele tem muita influência, para contratá-lo), se Tinho desfizesse seu contrato com o Diabo e Lhe entregasse sua alma. O próprio Tinho teve que contratar um advogado para assessorá-lo nas negociações.

Resultado: Tinho está treinando no Chelsea, onde ainda não realizou todo o seu potencial porque o Diabo não se conforma em ter apenas 35%, já que Deus ficou com 35, o empresário com 30 e o clube com o direito a uma participação em qualquer venda futura do jogador. Quanto à questão da alma de Tinho, ficou para mais tarde, quando, espera-se, já existirá uma norma da Fifa a respeito.

(Veríssimo, 2007: 11).


Através do personagem Tinho, Luis Fernando Veríssimo representa a ambição de um grande número de jovens brasileiros, para quem se tornar “craque” de futebol pode significar alcançar os mais altos escalões sociais de sucesso e riqueza. Sua crônica permite acessar, por um lado, a rapidez da projeção de um craque potencial e, por outro, a diversidade de agentes envolvidos no recrutamento e agenciamento de um atleta. Os muitos contratos assinados por Tinho – com o Diabo, o empresário, o clube de formação, o pipoqueiro emissário de Deus e o Chelsea – dão vazão ficcional à heterogeneidade de interesses implicados no desenvolvimento da carreira de um futebolista no Brasil. É especialmente relevante que uma transferência para “a” Europa seja o primeiro passo para Tinho alcançar um futuro fantástico como melhor jogador do mundo.

Segundo Sérgio Leite Lopes (1999), o fluxo internacional de jogadores de futebol advindos da América Latina com destino à Europa inicia-se na década de 1930 – Franzini menciona pelo menos onze brasileiros que deixaram o país entre 1930 e 1932 (2003: 61) –, sendo interrompido pela Segunda Guerra Mundial e retomado durante a década de 50. Mesmo não constituindo um processo novo, as transferências de atletas em sentido Sul–Norte atingiram uma envergadura sem precedentes em fins do século XX, dimensão que revela (e sustenta) características estruturais no futebol mundial. Os números totais de transferências internacionais de jogadores por ano demonstram a elevação da imigração de boleiros brasileiros, como representa o Gráfico 13.







Os dados disponibilizados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) indicam que o total de transferências internacionais aumentou de maneira significativa ao longo dos últimos anos, passando de 556 atletas em 1997 para 1085 em 2007, negociados com países de todas as regiões do mundo. Trata-se, provavelmente, da categoria profissional com maior impacto nos processos imigratórios do Brasil. A CBF também divulga a lista “de retornos ao Brasil”4 e a correlação dos índices aponta que a tendência é de permanência no exterior. Em 2005, 491 atletas foram reintegrados ao futebol nacional; em 2006, 311 jogadores retornaram e, em 2007, 498. O saldo entre as transferências internacionais sugere que, em 2007, restaram vagas no mínimo 498 posições profissionais de jogadores para jovens aspirantes no país, demonstrando a alta rotatividade do mercado de trabalho para futebolistas.

A principal região de destino para os jogadores brasileiros é a Europa Ocidental, totalizando 46% das transferências internacionais em 2007, ou 500 profissionais. Dentre estes, 227 aportaram em Portugal, 47 na Itália, 44 na Alemanha e 38 na Espanha. A demanda por atletas nos clubes asiáticos representou 20% das negociações das agremiações brasileiras no mesmo ano, destacando-se os deslocamentos para o Japão (57 jogadores), Hong Hong (31 jogadores), China (27 jogadores) e para a Indonésia (21 jogadores). Entre os países da Europa Oriental, a Croácia contratou 20 atletas e a Romênia 17, ao passo que Lituânia, Polônia e Republica Tcheca receberam 13 futebolistas cada. Juntamente com os outros profissionais transferidos para o Leste europeu, contabiliza-se um percentual de 12% do total de transações realizadas ao longo do ano de 2007. No mesmo período, os países do Oriente Médio constituíram destino para 89 brasileiros (entre os quais 18 foram para os Emirados Árabes, 15 para Israel, 13 para o Qatar e 13 para a Turquia), representando 8% do total anual.



Negociações acertadas com agremiações sediadas nos demais países da América Latina perfazem 7% dos jogadores brasileiros transferidos em 2007, ou 72 pessoas – 21 rumaram para o Paraguai, 12 para a Bolívia, 10 para o Uruguai e 9 para a Venezuela. O conjunto das nações da América Central e América do Norte foram responsáveis por 4% das negociações de atletas, destacando-se Estados Unidos, México, Honduras e Costa Rica, que contrataram 14, 9, 8 e 8 boleiros, respectivamente. Na África, 6 jogadores imigraram para Angola e 3 para a Tunísia, que, somados aos outros profissionais contratados por clubes da região perfazem 1% das transferências em 2007. A Austrália recebeu 10 futebolistas brasileiros em 2007, sendo o único país da Oceania a negociar com os clubes nacionais – representando 1% do total destas negociações. O número de transferências por região do mundo é apresentado no Gráfico 2 e os dados referentes a cada país podem ser acessados no Anexo I.





Acompanhando a disparidade econômica e populacional entre as regiões do Brasil, a maioria dos atletas transferidos em 2007 (537) foram negociados por agremiações do sudeste, perfazendo 49% das transações do país. O estado de São Paulo foi responsável por 286 transferências, o Rio de Janeiro por 133, Minas Gerais por 93 e o Espírito Santo por 25. A região sul foi a segunda com maior impacto na dinâmica de imigração no futebol: 25% das transferências, sendo 104 provenientes do Paraná, 88 do Rio Grande do Sul e 84 de Santa Catarina. Entre os estados do nordeste, Pernambuco negociou 30 atletas com clubes estrangeiros, mesmo número averiguado em Alagoas, enquanto o Ceará transferiu 19, a Bahia 18, o Maranhão e o Sergipe 13 jogadores cada um, o Rio Grande do Norte 10, a Paraíba 7 e o Piauí 3 – contabilizando 143 boleiros, ou 13% do total nacional.

Desde o centro-oeste do Brasil partiram 98 jogadores com destino a outros países em 2007, 55 oriundos de entidades de Goiás, 16 do Mato Grosso do Sul, 14 do Distrito Federal e 13 do Mato Grosso. O centro-oeste foi responsável por 9% das negociações deste ano. A região com menor representatividade nos índices de transferências é o norte: 3% do total brasileiro em 2007. As agremiações do Pará disponibilizaram 12 atletas de seu efetivo para clubes estrangeiros, as de Rondônia 8, as do Amazonas 4, as de Roraima 3, as do Tocantins 2, as do Acre 1 e as do Amapá 1 (total de 31 futebolistas). Todos os estados brasileiros estiveram envolvidos nas transferências internacionais de jogadores de futebol no ano de 2007, ainda que com índices de participação diversos (Anexo II).








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