São Luiz Petrolli



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A CENSURA POLÍTICA NA IMPRENSA DO GRANDE ABC
Valdenizio Petrolli

A historiografia referente ao Grande ABC registra que a primeira pessoa a ser censurada na região pelos jesuítas foi o português João Ramalho fundador da vila de Santo André da Borda do Campo, em 1553. Ele foi punido, porque era casado em Portugal, com Catarina Fernanda das Vacas, e aqui vivia amancebado com a índia Bartira, filha do Cacique Tibiriçá. Além disso, ainda mantinha relações com outras nativas que lhe deram vários filhos e que, mais tarde, constituíram-se nas primeiras famílias paulistas. Contudo, essa punição nada afetou o seu modo de vida, pois ele continuou molestando as nativas e prestando grande serviço aos primeiros europeus que chegaram ao Brasil. Apesar das restrições dos jesuítas, ele ajudou Padre Manoel da Nóbrega a fundar a Aldeia de Piratininga, hoje cidade de São Paulo, em 29 de agosto de 1553. Meses depois, em 25 de janeiro de 1554, ele acompanhou seu primo, padre Manuel de Paiva, que era o Provedor da Ordem dos Jesuítas, a celebrar a primeira missa no colégio daquela aldeia. Em 1560, a vila de Santo André foi extinta.


E por 300 anos a região ficou esquecida e só voltou a ser lembrada na primeira década do século XX, quando aconteceu a greve dos trabalhadores da fábrica de tecidos Silva Seabra & Cia., no bairro Ipiranguinha, Estação de São Bernardo (hoje, Santo André). Os trabalhadores foram reprimidos por uma força policial especialmente deslocada da Capital para acabar com a greve. Os operários incluindo homens, mulheres e crianças reivindicavam aumento salarial e jornada de 8 horas de trabalho.
No primeiro número do semanário O Monitor, datado de 4 de agosto de 1904, é publicado na primeira página o poema A Fábrica, do poeta gaúcho Damasceno Vieira, cujo tema é o trabalho e o trabalhador. Citemos um trecho do poema: Logo após o romper da madrugada abre-se a fábrica. O vapor apita. E vejo vir, em longa desfilada, obreiros que o trabalho nobilita. Homens, mulheres e gentis pequenos em grupos vêm passando de mãos dadas, mostrando em rostos juvenis, serenos, as almas pelo amor entrelaçadas. Infelizmente, o poeta e o jornalista se esqueceram de mencionar que os operários na época, incluindo as crianças, tinham sua jornada de trabalho das 5h30 às 18h30, com uma hora de descanso para o almoço.
Por ironia da história, o semanário sucumbiu por motivo de uma censura econômica, pois não teve apoio que esperava das indústrias e do comércio e até mesmo do pagamento pela publicação dos editais oficiais da Intendência e Câmara Municipal de São Bernardo. No dia 28 de janeiro de 1906, circulou o último número desse jornal com editorial criticando os velhos coronéis que controlavam a política de São Bernardo.
Dez dias depois do fechamento do O Monitor aconteceu outra greve na tecelagem Silva Seabra & Cia., porque os operários tiveram seus salários diminuídos. O pesquisador Ademir Médici escreveu que: após 35 dias de resistência os grevistas retornaram ao trabalho, vencidos pela repressão policial. Os dirigentes da greve, que estavam todos presos, além de espancados pela polícia, foram despedidos. Os operários e suas famílias estavam passando necessidade, pois o comércio local já não fornecia mais alimentos fiados para os grevistas. Os operários do ABC não se intimidaram e organizaram a Liga Operária de São Bernardo, filiada em 26 de junho de 1907, que logo se filia à Federação Operária de São Paulo.
Para conter o avanço do anarquismo no país, em 17 de janeiro de 1921, o presidente Epitácio Pessoa sanciona o Decreto n.º 4.269, que visou a reprimir o anarquismo, restrições e penalidades à imprensa. Foi um rigoroso instrumento para cercear a liberdade de expressão no país. O governo ficou autorizado a fechar associações, sindicatos e sociedades civis, e os condenados por delitos de imprensa passam a ter penas privativas de liberdade, o que representou uma inovação na época. A primeira vítima desse decreto no ABC foi o italiano Alexandre Zanella. Ele foi deportado para a Itália dias depois da sanção do decreto, porque Zanella liderava os movimentos operários e sindicais em Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.
Os raros jornais que circularam na região no início do século XX nada publicaram sobre o movimento operário, mesmo porque dependiam da ajuda financeira dos políticos que eram também os proprietários das indústrias e das casas comerciais. De 1914 a 1925, não se registra a circulação de nenhum jornal na sede do Município, a não ser três tentativas fracassadas no Distrito de Ribeirão Pires: O Boato (1918), O Ribeirão (1919) e O Boatinho (1920).
Para atazanar ainda mais a intenção daqueles que desejam estabelecer-se com uma gráfica ou um jornal, no dia 31 de outubro de 1923, o presidente Arthur Bernardes sanciona o Decreto nº 4.743, que regula a liberdade de imprensa. Fica conhecida como Lei Adolfo Gordo, em referência ao seu relator no Senado. É um verdadeiro bombardeio sobre os jornalistas, devido à instabilidade política e a vigência do Estado de Sítio. Mecanismo de cerceamento da atuação da imprensa, a lei tem como alvo principal os anarquistas e comunistas. O projeto traz uma inovação: a teoria da responsabilidade solidária, substituindo a tradição legislativa da responsabilidade sucessiva para os crimes de imprensa e a censura prévia. A aprovação desta lei, novamente, ocorre em clima de conturbação e sem as mínimas garantias de uma discussão legislativa ampla, aberta e ponderada, repetindo-se equívocos históricos. Em seus 37 artigos, a lei traz a prisão especial para os jornalistas infratores e, sobretudo, preocupa-se com as responsabilidades, a pena e com o processo.
Empastelamento do jornal
Em 1925 surgiram dois semanários: O Commercio de São Bernardo e a Folha do Povo. O primeiro surgiu para defender a candidatura do Coronel Alfredo Luiz Flaquer que foi prefeito de 1896 a 1899 e 1908 a 1914. O segundo jornal para apoiar o Coronel Saladino Cardoso Franco, prefeito de 1917 a 1930. Ele foi deposto pela Revolução de 30. Em seu lugar foi nomeada uma Junta Governativa Revolucionária presidida, pelo comerciante Armando Setti. No ABC só voltou a realizar eleição direita para prefeitos e vereadores em 1947.
Na década de 20 a Folha do Povo como jornal situacionista, colocou-se contra o movimento Revolucionário de 30. O seu diretor Nicolau Antonio Arnoni que era também o Secretário da Prefeitura, defendia os políticos da velha República e não poupava duras críticas aos seus adversários pelas páginas do seu jornal. Com a vitória getulista, o seu jornal foi empastelado. Um grupo de pessoas entrou na redação, situada num velho sobrado localizado na esquina da rua Bernardino de Campos com avenida Queiroz dos Santos Filho, no Centro de Santo André, e defenestraram tudo que estava à vista: cadeiras, armários, mesas, máquinas de escrever e outros objetos, incluindo a própria coleção da Folha do Povo. Esse foi o único jornal empastelado em toda a na história da imprensa do ABC.
A Folha do Povo voltou a circular em 10 de setembro de 1933 como órgão da Chapa Única por São Paulo Unido e do Partido Constitucionalista. Continuou publicando os atos oficiais da municipalidade. Na edição de 26 de agosto de 1934, em nota da primeira página, informa que por iniciativa da São Paulo Railway Company, o nome da estação ferroviária foi mudado de São Bernardo para Santo André, atendendo uma antiga reivindicação da população. O semanário circulou até o final de 1934.
Com a implantação do Estado Novo, em 1937, e a criação do DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda, os jornais perderam aquela agressividade costumeira, asfixiados por oito anos de repressão política e policial. Com a ditadura, surgiu, inevitavelmente, implacável censura à imprensa e, mais do que isso, a proibição de novos jornais e o fechamento de outros. O semanário O Município, lançado em 1937, foi o primeiro a ser alertado pelo delegado de polícia da necessidade de censura em suas matérias pela política local e na segunda edição justificava: Do Sr. Luiz de Freitas Garcia, digno sub-delegado local, recebemos um ofício comunicando-nos que os originais desta folha devem ser apresentados à censura daquela zelosa autoridade. Medica perfeitamente legal, com ela concordamos sem o menor constrangimento.
Os jornais O São Bernardo e O Imparcial também não escaparam da violência do DIP. O jornalista Freitas Nobre, em seu livro História da Imprensa em São Paulo escreveu: A censura, em São Paulo, foi das mais severas do país sobre o controle da imprensa falada e escrita, especialmente no período da ditadura estadonovista, quando se cercearam todos os veículos de divulgação existentes entre nós. No período de 1937 – 1945, foi grandes o número de jornais, revistas e panfletos fechados por determinação do executivo e grande também o número de jornalistas presos por delitos de imprensa.
Para poderem sobreviver, os jornais adotaram as regras do Estado Novo, pois, no caso contrário, não eram autorizados a circularem. O São Bernardo, depois de quase um ano de interrupção da sua publicação, voltou a circular em 1.º de outubro de 1939, mas de acordo com as normas do DIP. Em seu editorial expõe a sua nova conduta política: “Órgão independente, defensor dos interesses do Município e arauto da nova ordem política, consubstanciada na Constituição de novembro de 1937, outorgada ao País pelo corajoso patriotismo do eminente chefe da Nação, Dr. Getúlio Vargas, aplicada e defendida em nosso Estado pelo ilustre paulista Adhemar Pereira de Barros”. Na primeira página, publica os clichês do presidente Vargas, Adhemar e do prefeito interventor Armando Ferreira Rosa e afirma que: “Obedece à lei com prazer e patriotismo, propugnando pra que todos façam o mesmo, com idênticos sentimentos”.
Pela sua costumeira oposição e pelas suas duras críticas ao prefeito interventor, Carvalho Sobrinho, que substituiu Armando Ferreira da Rosa, por indicação do governador, o jornal O Imparcial – também sofre repressão do DIP. Durante os anos de 1941 a 1945, permanece fechado, apesar de seus proprietários manterem constantes contatos com as autoridades estaduais e federais para conseguirem o seu registro. Em seu lugar é lançado com apoio do prefeito e dirigido por Eulico Mascarenhas de Queiroz, o semanário Santo André – Imparcial, impresso nas oficinas de O São Bernardo. Esse jornal inicia suas atividades publicando os editais da Prefeitura, mas teve vida curta, pois voltando a circular O Imparcial, esse requereu o título, ao mesmo tempo em que redobrou as críticas ao prefeito interventor até a sua saída em fins de 1947. Contudo, encerrou suas atividades logo em seguida, no período em que o Brasil entrava na fase de redemocratização.
Em outubro de 1945, Getúlio Vargas é deposto pelas Forças Armadas depois de 15 anos no poder. No ano seguinte, o general Eurico Gaspar Dutra é empossado como presidente da República e é assinada a nova Constituição do Brasil. No dia 9 de novembro de 1947, pela primeira vez, foi realizada uma eleição municipal pelo voto livre e direto.Em Santo André, o vencedor foi o operário Armando Mazzo e mais 13 vereadores pelo partido PST (Partido Social Trabalhista) que abrigava membros do extinto PCB - Partido Comunista Brasileiro.
O novo prefeito e vereadores foram diplomados pelo Tribunal Regional de Justiça Eleitoral do Estado de São Paulo a 19 de novembro de 1947 e sua posse solene foi marcada para o dia 1.º de janeiro de 1948, na Câmara Municipal de Santo André. Contudo, os partidos PSP – Partido Social Progressista e PDC – Partido Democrata Cristão inconformados com o resultado do pleito impetraram um recurso junto ao Superior Tribunal Eleitoral que considerou nulo o registro do PST e os eleitos não puderam tomar posse.
Os eleitos pelo PST mobilizaram um grupo correligionário e foram até a Câmara Municipal para impedir a posse do prefeito Antonio Fláquer, que foi o segundo mais votado nas eleições, mas foram fortemente reprimidos pelo policiamento. O jornalista Zvi Strauch, do jornal comunista Hoje, foi agredido e preso por desacato. O Jornal de São Caetano, representado pelo jornalista Mário Rodrigues, foi o único da região a fazer a cobertura desse acontecimento. O interesse do jornal justificava-se pelo fato do Prefeito Antonio Fláquer ser o proprietário do Cartório de Registro Civil em São Caetano e era o maior opositor da emancipação daquele distrito. O plebiscito vitorioso foi em outubro de 1948 e o Município de São Caetano do Sul foi instalado no dia 1.º de janeiro de 1949.
Era do Rádio no ABC
Na década de 50 começa a grande transformação do ABC, agora integrado por sete municípios com as mesmas raízes históricas. É nesse período também que se instalam as emissoras de rádio: Clube de Santo André, ABC, Independência e Cacique. A concessão da Rádio Clube pertencia ao deputado estadual Gabriel Migliori (PTB), que vendeu a emissora em 1956 para o jovem locutor da rádio Panamericana (hoje, Jovem Pan), Oswaldo Gimenez. Ele inovou a programação com shows, jornalismo e serviços prestados à população que possibilitaram à emissora altos índices de audiência. O seu programa noturno A Voz do Povo e Boa Noite Prefeito, ambos ocupando horário nobre da noite não poupava críticas aos adversários políticos locais, principalmente ao prefeito Pedro Dell`Antônia, descendente de uma das famílias mais tradicionais da região. Em 1957, promoveu o Natal das crianças pobre com uma farta a distribuição de presentes às famílias previamente cadastradas. No ano seguinte realizou festas nos Dia das Mães e Dia dos Pais.
A Folha do Povo dirigida por Paulo Zingg, ex-presidente da Associação Paulista de Imprensa, elogiou em 28 de junho de 1958, o programa: Para muitos, o programa mais discutido do Rádio Paulista foi introduzido na Rádio Clube de Santo André em 18 de outubro de 1957. Veio de encontro com os anseios da população da Capital das Chaminés. O programa de Gimenez começava às 20 horas, logos após o término da famigerada a Voz do Brasil, tendo como música de abertura a marcha paulista Paris Belfort. A oposição andreense de várias correntes partidárias tentou barrá-lo, patrocinando vários semanários: O Andreense, Santo André em Gazeta, O Independente, Tribuna do Povo, Santo André Imparcial, Gazeta Popular e O Arauto. Além disso contava com o apoio da Rádio Emissora ABC, concorrente direta da Rádio Clube de Santo André..
O radialista Oswaldo Gimenez foi eleito deputado estadual pelo PTB e tomou posse no dia 1 de janeiro de 1959. e logo no início de seu mandato comprou uma briga com um Juiz da Comarca de Santo André devido a algumas quirelas processuais com seus adversários. Então, não perdeu tempo. Por meio de um requerimento apresentado à Assembléia Legislativa de São Paulo, pediu a remoção do juiz da Comarca de Santo André. Em contrapartida, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo fez uma representação junto ao Presidente da Comissão Técnica de Rádio contra o deputado radialista e, por decisão do Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, a emissora foi lacrada: Por tempo indeterminado, por ofensas à moral pública e às autoridades constituídas prevista pelo decreto federal n.º 21.111.
A notícia do fechamento da rádio caiu como uma bomba em Santo André e todos seus adversários comemoraram, inclusive o prefeito Pedro Dell`Antonia, que era alvo constante de críticas do radialista. O Jornal de Santo André que sempre se posicionou contrario a Oswaldo Gimenez, lançou uma edição especial no dia 20 de maio de 1959 para comemorar o fato. Em letras garrafais, publicou na primeira página: Assim, para gáudio da população desta cidade, desaparece do ar essa malfada Rádio Clube que, sob a orientação de Oswaldo Gimenez, tinha um único objetivo: atassalhar a honra alheia. Ao invés de divulgar a cultura, a instrução e a educação, finalidades precípuas de um rádio-emissora, a Rádio clube fez exatamente o contrário: descambou para a calúnia, a difamação, ofendendo a moral pública. Daí o merecido corretivo que, embora tardio, não faltou.
O semanário News Seller, hoje Diário do Grande ABC, embora nunca tenha apoiado Oswaldo Gimenez, foi o único que protestou contra o fechamento da Rádio Clube de Santo André. Em editorial, afirma que foi um acinte contra um patrimônio popular e um descrédito à imprensa livre, e conclui: a imprensa livre - escrita ou falada -, está ressentida pela perda temporária de sua irmã.
O deputado Oswaldo Gimenez não se deixou intimidar e sem perder tempo correu em seu socorro para o Rio de Janeiro, antiga capital do país. Lá, articulou com vários políticos influentes junto ao presidente da Republica para reabertura da emissora e conseguiu o seu intento. Um dos acordos foi trocar de partido. Deixou o PTB e se filiou ao partido integralista PRP. A Rádio Clube de Santo André ficou fora do ar de 20 de maio a 25 de julho de 1959, num total de 66 dias. Voltando às suas atividades radiofônicas, o seu linguajar foi ainda mais agressivo com os seus inimigos políticos, ao mesmo tempo em que se se lançou como candidato a prefeito de Santo André. Eleito, tomou posse no dia 1 de janeiro de 1960.

Primeiro caso de impeachment no Brasil
Desde o início da sua administração, o prefeito Oswaldo Gimenez, se indispôs com os diretores, funcionários municipais e a maioria dos vereadores. Os desentendimentos extrapolaram a Administração Pública e envolveu vários setores da sociedade civil como as sociedades amigos de bairros, os clubes sociais, os sindicatos e a imprensa O historiador Armando Gaiarsa escreveu que: ele tinha um espírito dominador e senhor absoluto do poder e ameaçava de demissões em massa de acordo com o que rezam os estatutos dos funcionários. Os ataques contra a edilidade eram constantes, numa verdadeira alucinação, como se estivesse sendo acuado como fera, por caçadores impiedosos.
. Assim, no dia 12 de outubro de 1961, a Câmara Municipal de Santo André decreta o afastamento do Prefeito Oswaldo Gimenez, pelo prazo de 120 dias, em virtude de indignidade e improbidade no exercício do cargo e incapacidade administrativa. No mesmo dia, circulou uma edição extra do jornal News Seller com a seguinte manchete: MM alcança objetivo. Afastado Gimenez. O MM era a sigla do Movimento de Moralização Administrativa de Santo André, presidido por Edson Danillo Dotto, diretor presidente do jornal. Esse movimento reuniu várias personalidades do município, que repudiavam totalmente a atitude de adeptos do prefeito que: tentando enganar à digna classe operária, principalmente de Utinga, vêm provocar a desordem, aproveitando-se do tenso ambiente reinante.
A oposição contra a cassação era liderada pelo Conselho Sindical do ABC, presidida por Marcos Andreotti, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André. Um documento firmado por todos os dirigentes sindicais do município foi distribuído pelas ruas da cidade. Destacamos um trecho: Nesta hora em que o povo vive horas dramáticas com o afastamento do Prefeito Oswaldo Gimenez, o Conselho Sindical do ABC vem a público lançar o seu protesto pela forma anti-democrática e coercitiva que se processaram os trabalhos mormente pelo desrespeito ao pronunciamento dos trabalhadores que deixou de ser dado ao público da própria Câmara Municipal.
Os advogados de Oswaldo Gimenez impetraram pedido de mandado de segurança junto ao juiz de Direito da Comarca de Santo André, que denegou e recorreu para o Tribunal de Justiça de São Paulo, sem sucesso. Passaram os 120 dias e no dia 5 de janeiro de 1962, a Câmara Municipal reuniu-se extraordinariamente para o julgamento público do ex-prefeito que não compareceu. Foram ouvidas várias testemunhas de defesa e acusação. Depois de 30 horas ininterruptas, a sessão terminou no dia 6, às 13 horas, com 21 votos pela cassação e três abstenções. A sessão da Câmara Municipal foi presidida pelo vereador Cid Flaquer Scartezzini, descendente de uma das mais tradicionais famílias paulistas.
A sessão da Câmara Municipal foi acompanhada por toda a imprensa da região e capital. Em entrevista publicada pela Folha de São Paulo em 8 de janeiro de 1962, o prefeito cassado defende-se por meio do seguinte argumento: A sessão da Câmara durante a qual foi decretado o meu afastamento, não passou de uma farsa, pois o processo de impeachment era um tijolo quente nas mãos dos vereadores, e os mesmos tudo fizeram para se desfazer daquele incomodo. Devo participar ao povo de Santo André e de São Paulo que me encontro perfeitamente sereno, pois que recorreremos da decisão ilegal da Câmara ao Poder Judiciário, no qual confiamos plenamente. Vereadores dizem que a Justiça votará contra, como se a Justiça fosse uma Câmara de Santo André, ignorando os edis que os tribunais julgarão o mérito, não lhes interessando o ódio e a paixão política, peculiar entre os vereadores de Santo André.
O prefeito foi acusado dos seguintes crimes: 1 – Nomeação de parentes consangüíneos e afins até o terceiro grau na Prefeitura; 2 – aquisição de material sem concorrência para obras de pintura, limpeza e outras de próprio municipal; 3 – Publicação de atos oficiais pela imprensa sem concorrência pública ou administrativa; 4 – Nomeação do filho do proprietário do imóvel a ele alugado para residência particular na avenida João Ramalho; 5 – Não publicação de balancetes mensais pela Imprensa; 6 – Não execução da lei que autoriza o pagamento de impostos por meio de notas promissórias; e 7 – Negligência na arrecadação das rendas, impostos e taxas, bem como a conservação do patrimônio municipal.

Por último, Oswaldo Gimenez para salvar seu mandato, impetrou um mandado de segurança contra o ato da Câmara Municipal junto a 1.ª Vara Civil de Santo André, mas foi denegada a medida liminar. Então, recorreu para o Tribunal de Justiça de São Paulo que por votação unânime, também negou provimento ao agravo de petição. Dois meses depois, a Câmara Municipal de Santo André cassou também seu irmão, o vereador Armando Gimenez, por conduta incompatível com o decoro parlamentar. Oswaldo Gimenez em 1969 vendeu a sua emissora e passou a dedicar-se à indústria da família. Em 1976, ele foi novamente candidato a prefeito pelo PMDB, mas foi derrotado por Lincoln Grillo. Faleceu em 1989.



Revolução de 1964: os militares no poder
Nem bem tinha assentado o episódio da cassação de Oswaldo Gimenez, o Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André sofre intervenção federal em conseqüência da Revolução Militar. O novo regime começa com cassações em série, prisões e casos de torturas. O presidente do Sindicato, Marcos Andreotti, e o secretário geral, Philadelpho Braz foram presos e levados para o quartel do II Exercito, em Quitauna, sem que as suas famílias soubessem dos seus paradeiros. Nos dias que se seguiram outros diretores foram presos.
O Jornal de Santo André, em 4 de abril de 1964 registrou que logo após a eclosão do movimento, que o delegado titular da Delegacia de Policia local, comandando um destacamento especial, invadiu a sede do Sindicato dos Metalúrgicos, não encontrando qualquer resistência. A matéria conclui que a autoridade policial arrancou os telefones do sindicato e ocupou o prédio. A polícia percorreu outras entidades sindicais, encontrando as suas sedes abandonadas pelos seus responsáveis.
Com a intervenção no Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André, a circulação do jornal O Metalúrgico foi suspensa e só voltou a circular em 1967, depois que o presidente Humberto de Alencar Castello Branco sancionou a Lei de Imprensa que regulava liberdade de manifestação do pensamento e de informação. Nos seus 7 capítulos e 77 artigos, essa lei é, ao mesmo tempo, severa contra o jornalismo e ineficiente para proteger a honra e a intimidade das pessoas.
Nos anos que se seguiram a repreensão nos meios de comunicação foi ainda maior: prisões de jornalistas e fechamentos de jornais. Os jornais - O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde - pertencentes ao mesmo grupo editorial foram censurados. Os responsáveis pelo jornal O Pasquim, os jornalistas Paulo Francis, Ziraldo e Luiz Maciel foram presos, inclusive os seus contínuos. Quem levou a pior foi o jornalista Vladimir Herzog, que foi enforcado nos porões do DOI-Codi, localizado nas dependências do quartel do II Exercito em São Paulo, em 1975.
Em 12 de maio de 1978, apesar de continuar ainda a repressão, os operários da fabrica automobilística Saab-Scania, em São Bernardo do Campo, perderam o medo e entraram em greve por melhores salários. Nos dias que se seguiram os operários das demais montadoras e de outras categorias também paralisaram suas atividades e a greve se estendeu por todo o Grande ABC. Em 1979, novamente os metalúrgicos entram em greve e a repressão é ainda maior e os sindicatos sofrem intervenções. Os jornais dos sindicatos: O Metalúrgico (Santo André, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra), A Tribuna Metalúrgica (São Bernardo do Campo – Diadema) e A Voz Metalúrgica (São Caetano do Sul) são proibidos de circulares.

Nesse período, o ABC Jornal transforma-se no porta-voz dos grevistas e é distribuída em toda a região.


Para apoiar os grevistas, a Diocese de Santo André criou dois canais de comunicação: a Folha da Diocese, redigida por uma equipe de jornalistas voluntários e o ABC Litúrgico, elaborado pela Equipe Litúrgico Diocesana, distribuído aos fieis durante as missas na região. Historicamente, a Diocese de Santo André – que abrange toda a região do ABC - desde o primeiro bispo, D. Jorge Marcos de Oliveira até o seu substituto, D. Cláudio Hummes, sempre se colocaram ao lado dos trabalhadores, seja diretamente juntos aos dirigentes sindicais ou por meio da Ação Católica Brasileira, Juventude Operária Católica e outras. Em 1979, durante as negociações entre patrões e sindicalistas com o Ministro do Trabalho Murilo Macedo, D. Cláudio participou de todas as reuniões como mediador.
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VALDENIZIO PETROLLI - Jornalista e Advogado. Bacharel em Comunicação Social e Direito. Mestre em Metodologia da Comunicação com a dissertação: A História da Imprensa no ABC Paulista. Doutor em Teoria e Ensino da Comunicação com a tese: Diário do Grande ABC: a construção de um jornal regional.

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