Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero



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Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero

Silvio Romero


SÍLVIO ROMERO (nascido Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos, na então vila de Lagarto, em Sergipe, no dia 21 de abril de 1851) era filho do português André Romero, natural de Guimarães, e de Maria Vasconcelos da Silveira Ramos, também filha de portugueses residentes naquele território da Freguesia de Nossa Senhora da Piedade.

Lagarto era um dos mais prósperos centros sergipanos, para onde acorriam os jovens em busca de conhecimentos, como Tobias Barreto, que estudou Latim com o padre José Alves Pitangueira. A vila do tempo de Sílvio Romero tinha no professor Badu um dos melhores mestres. E guardava duas tradições mercantes: a primeira, o brado de liberdade do padre Eusébio Dias Laços Lima, que criou um “império” em Sergipe e Alagoas, distribuindo títulos de nobreza com os lagartenses, da vigararia; a segunda, a de ser, em todo o território sergipano, a área mais bem dividida, com predomínio da pequena propriedade.

Os anos 50 do século XIX foram péssimos para Sergipe e muito especialmente para Lagarto. Os surtos de febre palustre, varíola e cólera obrigaram a separação do menino Sílvio da casa dos pais, passando a conviver com os avós - Antônio Luís Vasconcelos e D. Rosinha - na fazenda Cachoeira, onde o engenho e o rio Piauí, que cortava a propriedade, deixaram lembrança permanente em Sílvio Romero, como permanente foi a imagem da negra Antônia, a Totonha, escrava comprada em Simão Dias pelo seu avô e que foi tida como sua segunda, e querida, mãe.

Os primeiros anos da vida de Sílvio Romero foram divididos entre a Cachoeira (que alguns biógrafos indicam Engenho Moreira) até os cinco anos, Lagarto, dos cinco aos 12 anos, e o Rio de Janeiro, para onde foi em 1863, para estudar no Ateneu Fluminense, dirigido pelo Monsenhor Antônio Pedro dos Reis. Aos 17 anos, em 1868, desembarcou no Recife, para estudar na Faculdade de Direito, onde já estavam alguns sergipanos, como Martinho Garcez e Tobias Barreto, que viriam, com certeza, a ser dois dos seus melhores amigos.

Ao chegar à capital pernambucana, a cidade mais cosmopolita do Norte do Brasil (ainda não se tinha a noção geográfica e econômica da Região Nordeste, como vem aparecer, com clareza, nas obras de Gilberto Freyre), Sílvio Romero estava impregnado de contos, romances, lendas, cantigas, trechos de cheganças e de reisados, aprendidos na sua infância sergipana, com Totonha e com Zefa Nó, filha de Joana Nó, também escrava da família Romero em Lagarto. E guardava as festas de Nossa Senhora do Rosário, quando as taieiras desfilavam pela procissão, com seus cantos cujo estribilho ecoava nas ruas: “Inderé, ré, ré/Ai Jesus de Nazaré”.

O ano de 1868 foi um ano diferente na vida do Recife e de outras cidades brasileiras. É o marco da ruptura com o saber tradicional, de salvação. Surgem no Recife diversos jornais e revistas, divulgando as novas teorias científicas, sistemas filosóficos, combatendo o clericalismo dominante. O próprio Sílvio Romero, ao referir-se ao movimento intelectual daquele tempo, sob os auspícios da Escola do Recife, disse: “Um bando de idéias novas esvoaçou sobre nós de todos os pontos do horizonte. Positivismo, evolucionismo, darwinismo, crítica religiosa, naturalismo, cientificismo na poesia e no romance, folclore, novos processos de crítica e de história literária, transformação da intuição do direito e da política, tudo então se agitou e o brado de alarma partiu da Escola do Recife”.

O Recife estava agitado e demonstrava o seu entusiasmo, louvando os feitos dos soldados e de seus comandantes, nos combates da guerra com o Paraguai. Aquele Recife intimidado pela força da repressão aos seus movimentos mais importantes - 1817, 1824, 1848 - desaparecia diante da mobilização dos jovens e dos intelectuais, nas ruas, clamando por um Brasil novo, republicano e sem escravos. Os cenários politizados para a exaltação da nacionalidade alimentavam o ânimo da luta. Tobias Barreto, com seus poemas patrióticos, renovava a poesia, marcando-a com o sentido social que representou o último movimento do romantismo poético brasileiro, tendo ao seu lado Castro Alves, cuja poesia foi identificada como “condoreira”, pelas imagens metafóricas, de rara beleza: “A praça é do povo/como o céu é do condor”.

Os jornais recifenses não passavam, muitos deles, de pequenas folhas, verdadeiros meteoros, com suas verdades surpreendentes. O conhecimento parecia renovar-se diariamente, fazendo avolumar teorias e intelectuais, aprofundando e diversificando os debates. A partir de 1869 Sílvio Romero começou a produzir os primeiros trabalhos, publicados a partir de abril de 1870 no jornal A Crença (A Poesia dos Harpejos Poéticos, crítica ao livro de Santa Helena Magno, O que Entendemos por Poesia, duas cartas endereçadas a Manoel Quintiliano da Silva, A Poesia das Falenas, crítica ao livro de Machado de Assis), em O Americano, dirigido por Tobias Barreto, ainda em 1870 (A Poesia das Espumas Flutuantes, crítica ao livro de Castro Alves), no jornal Correio Pernambucano, em 1871 (Sistema de Contradições Poéticas, crítica, A Poesia e os Nossos Poetas, crítica a Gonçalves de Magalhães e a Gonçalves Dias), no Diário de Pernambuco (A Propósito de um Livro, crítica a Peregrinas, de Vitoriano Palhares). Em 1872 escreve no Movimento (Uma Página sobre Literatura Nacional, Realismo e Idealismo, As Legendas e as Epopéias), colabora no jornal O Maravilhoso (A Poesia e a Religião, A Poesia e a Ciência), e fecha as suas colaborações de 1872 no Diário de Pernambuco (Camões e os Lusíadas, As Cartas de Senfrônio e Cincinato contra Senio), no Jornal do Recife (A Rotina Literária) e na República, do Rio de Janeiro (Uns Versos de Moça, crítica ao livro Nebulosas, de Narcisa Amália, tratando da alegria e da tristeza na obra poética). Em 1873, ainda no Recife, escreve no Liberal (A Crítica Literária) e no Trabalho (O Romantismo no Brasil e em Portugal), encerrando uma colaboração que ele próprio intitula de A Poesia Contemporânea.

Foram cinco anos de intensa atividade intelectual no Recife, onde se bacharelou em 1873. Voltando para Sergipe, é logo nomeado, a 24 de janeiro de 1874, Promotor de Estância, onde permaneceu até 8 de fevereiro de 1875, quando foi exonerado pelo Presidente da Província, Antônio dos Passos Miranda, que também o nomeou. O período da Promotoria foi intercalado com o mandato de Deputado Provincial, juntamente com Martinho Garcez e com outros amigos. Um Discurso, discutindo projeto de lei para a elaboração da História de Sergipe, passa a ser, em abril de 1874, o seu primeiro livro publicado. Não era, na verdade, um livro, mas um folheto, que, tomando a deixa da história sergipana, criticava “o método retrógrado e anticientífico dos nossos historiadores”.

Em 1875 volta ao Recife, publica o livro Etnologia Selvagem e enfrenta uma banca de examinadores, junto à Faculdade de Direito do Recife. Durante os exames, Sílvio Romero afirma um traço do seu perfil, que levaria por toda a vida, o do polemista radical. Segundo os registros, no meio de um questionamento, Sílvio Romero teria dito: “Nisto não há Metafísica, Sr. doutor, há lógica”, ouvindo como resposta, do professor Coelho Rodrigues, que “A Lógica não exclui a Metafísica”. Sílvio Romero, provocador, diz: “A Metafisica não existe mais, Sr. doutor. Se não sabia, saiba”. “Não sabia”, disse o examinador. “Pois vá estudar e aprender para saber que a Metafisica está morta”. Coelho Rodrigues pergunta: “Foi o senhor quem a matou?” “Foi o progresso, foi a civilização”, respondeu Sílvio Romero gritando e provocando a banca.

O episódio retira Sílvio Romero do Recife. Volta a Sergipe e depois segue para a Corte, até 1876, quando é nomeado Juiz de Direito da Comarca de Parati, na Província do Rio de Janeiro, onde passa a viver até 1879, quando vai para a cidade do Rio de Janeiro e, um ano depois, ingressa no magistério, como professor do Colégio Pedro II. Em Parati, Sílvio Romero deixa larga contribuição cultural ao Brasil, publicando A Filosofia no Brasil, em Porto Alegre, e o livro de poemas Cantos do Fim do Século, no Rio de Janeiro, ambos em 1878. Começa, também, a publicar seus ensaios sobre a poesia popular, depois enfeixados no livro Estudos sobre a Poesia Popular do Brasil. Colaborou em vários periódicos nacionais e deixou na Comarca a consciência jurídica de seus despachos e sentenças em processos, como informa José Alberto da Silva, no pequeno livro Sílvio Romero, Juiz, editado no Rio de Janeiro, em 1955.

Em 1876 Sílvio Romero casa-se com Clarinda Diamantina Correia de Araújo, de 15 anos de idade, natural do Recife, irmã de Francisco Altino Correia de Araújo, que tomou o nome de Clarinda Diamantina de Araújo Romero, conhecida entre os amigos como Dondon. O primeiro filho do casal, André, nasceu em Parati, em 1877; os demais filhos, João, Edgar e Clarinda, já nasceram no Rio de Janeiro.

Defendendo a tese Interpretação Filosófica na Evolução dos Fatos Históricos, Sílvio Romero é aprovado para a cadeira de Filosofia do Colégio Pedro II em 1880, iniciando uma atividade no magistério de 30 anos, conciliando as pesquisas, as colaborações jornalísticas, com a organização da vasta obra de crítico, historiador, cientista político e pensador da cultura brasileira. Nos anos 80 Sílvio Romero consolida a sua obra de crítico e de historiador da literatura brasileira e reúne o farto material recolhido diretamente do povo, publicando Cantos Populares do Brasil e Contos Populares do Brasil, inaugurando uma nova bibliografia da cultura brasileira.

Desde criança, no contato com os escravos da família, em Lagarto, Sílvio Romero foi atraído pelo universo cultural popular. Quando esteve em Estância, em Sergipe, como Promotor, recolheu a versão de La Condessa, transcrita, finalmente, nos seus ensaios intitulados Novas Contribuições para o Estudo do Folclore Brasileiro, publicados em 1912, na Revista da Academia Brasileira de Letras. Durante o período de permanência em Parati, recolheu diversos exemplares de cantigas do povo. José Alberto da Silva diz, em seu livro sobre Sílvio Romero, que, “com seu inseparável caderninho de notas, Sílvio Romero ia escrevendo as cantigas que ouvia, fazendo sempre questão de registrá-las fielmente, para o que, muitas vezes, quando a festança terminava, fazia vir à sua presença o principal cantador, a fim de lhe solicitar uma espécie de conferência do que havia sido anotado”. Quando viveu em Pernambuco, Sílvio Romero efetuou recolhas e, ainda no final dos anos 70, quando começava a publicar os seus artigos sobre a cultura popular, pedia ao seu amigo Carl von Kozeritz, alemão que vivia em Porto Alegre e que divulgava a obra de Tobias Barreto, que recolhesse material literário popular.

A década de 80 foi triste. Perdeu a mulher, em 1886, assumindo, sozinho, a criação dos filhos que teve com D. Dondon. No ano seguinte conhece Maria Liberato, nascida em Curitiba, no Paraná, com quem casa. Conhecida como D. Vidinha, a segunda esposa dá a ele mais três filhos: Sílvio Romero Filho, que foi diplomata, Nelson Romero, que foi professor, e Sílvia. Morre, no Recife, pobre e dependente da caridade pública, seu conterrâneo e amigo Tobias Barreto. Sílvio Romero mobilizou amigos, percorreu vários lugares, levantando recursos para tratar Tobias. Com a morte do chefe da Escola do Recife, Sílvio Romero tomou para si a responsabilidade de fazer novas edições do autor de Estudos Alemães, todas elas prefaciadas e anotadas.

A morte de Tobias Barreto parecia mandá-lo de volta a Sergipe e à política. Vitorioso como republicano, dando à causa o testemunho de sua coragem e da sua participação, fundando O Laranjeirense, mais tarde transformado em O Republicano, em Laranjeiras (SE), de onde fazia irradiar a propaganda, Sílvio Romero cobrava de Felisbelo Freire os compromissos políticos. Felisbelo Freire, preterindo Fausto Cardoso, nomeou o Monsenhor Olímpio Campos Intendente de Aracaju, causando a reação imediata de Sílvio Romero, que anunciou seu intento de voltar à cena, como deputado. Em 1892 fica novamente viúvo.

Em 1894, Sílvio Romero retorna, mais uma vez, a Sergipe para enterrar o velho pai, de 80 anos, falecido em Lagarto. A família se reúne e Benilde Romero, que dividia as atividades de Juiz de Direito e de chefe liberal de Lagarto, estimula uma candidatura, apoiada pelo velho amigo Martinho Garcez. Não vingou. Foi preciso, mais adiante, que um acordo inusitado entre Martinho Garcez e Olímpio Campos incluísse o nome de Sílvio Romero na lista dos candidatos. A eleição, no entanto, ocorreu apenas para o biênio 1900-1902.

Doente, Sílvio Romero empreende, em 1900, uma viagem à Europa, saindo pela primeira vez do Brasil. Embarca no transatlântico argentino La Plata, no Rio de Janeiro, às 8 horas da noite do dia 20 de junho, com destino a Lisboa, com escala em Dakar, na África. Leva três livros: A Sociologia, de Herbert Spencer, que considerava o grande filósofo do século XIX, El Quijote, de Cervantes, e Un Corazón ele Mujer, de Bourget. Visitou Lisboa e seus arredores, o Porto e pequenas povoações do Norte de Portugal, Madri e Paris, antes de retomar, em novembro do mesmo ano, trazendo boa impressão e a saudade dos amigos José Antônio de Freitas, brasileiro, Ramalho Ortigão, Abel Botelho, Leite de Vasconcelos, Lírio de Assunção e Fernando Costa.

Num dos seus contatos com Sergipe, Sílvio Romero conheceu D. Maria Petronila Pereira Barreto, irmã do poeta João Pereira Barreto, autor de Selvas e Céus, com quem casou e com quem teve 12 filhos, a saber: Aquiles, Maria, Maria Sílvia, Josefina Solita (Mimosinha), Irene, Ruth, Osvaldo, Odorico, Arnaldo, Regina, Maria Alice e Lauro. Os três casamentos de Sílvio Romero deram a ele 19 filhos, sendo quatro com Dondon, três com Vidinha e 12 com Maria Petronila, a D. Mocinha. Alguns autores chegam a registrar 20 filhos (d´Almeida Victor) e 23 filhos (Pinto Ferreira). De todos os filhos, porém, foram poucos os seguidores da carreira do pai. Sílvio Romero Filho, que seguiu a carreira diplomática, Nelson Romero, que foi professor e organizou nova edição da História da Literatura Brasileira, e ainda Edgar Romero foram os mais destacados. Entre os irmãos, Sílvio Romero era próximo de Benilde, que estudou Direito no Recife, Nilo Romero, que foi magistrado no Rio de Janeiro, Joviniano Romero, médico e um dos mais apaixonados germanistas do seu tempo. Outro irmão, Celso Romero, era alta patente da Marinha e esteve na escolta de Pedro II quando da proclamação da República.

O mandato de Sílvio Romero na Câmara Federal, de poucos ou mesmo raros pronunciamentos, foi marcado por dois fatos relevantes: o primeiro, a apresentação de um Projeto de Lei, o 6-A, que mandava dividir Cadeiras do Ginásio Nacional em duas, Lógica e Literatura. Seu projeto repercutiu, trocando Filosofia por Lógica, coerentemente, no dizer de Sílvio Rabelo, no seu Itinerário de Sílvio Romero, como havia há 10 anos antes, no Recife, feito a distinção entre a parte e o todo; o segundo, como integrante da Comissão dos 21 , redigiu o Parecer sobre o projeto de Código Civil Brasileiro.

Foram quatro discursos em 1900, dois em 1901 e um em 1902, tratando de assuntos gerais da vida brasileira. Um dos seus colegas na Câmara Federal, o também sergipano Fausto Cardoso, lamentou que Sílvio Romero não continuasse no Parlamento brasileiro, uma vez que saiu candidato pelo Distrito Federal, com apoio explícito do Barão do Rio Branco. Disse Fausto Cardoso, em emocionado discurso: “Pode Sílvio morrer, como morreu Tobias; e quando ele morrer, podem-lhe fazer os mais grandiosos funerais, prestar-lhe as maiores honras, escrever sobre ele os mais belos artigos e biografias; tudo desaparecerá; só ficarão de pé, quanto se quiser, no correr dos séculos, sondar a evolução do pensamento brasileiro, ainda quando todo o Brasil seja reduzido a um território estrangeiro, só ficarão de pé essas obras grandiosas dos filhos de Sergipe, a transmitirem de geração em geração a glória dos seus nomes, a glória do Brasil, a glória de terra pequenina e abandonada, a qual, como uma grande flor machucada pela Nação, a embriagar desse esquisito perfume cujas emanações são luminosas - o talento”.

Fausto Cardoso, que tinha sido discípulo dileto de Tobias, também tomara partido, em Sergipe, contra o grupo político do Monsenhor Olímpio Campos. E assim como Sílvio Romero, em 1894, no dia 11 de setembro, inflamou a massa na praça principal de Aracaju, a do Palácio, depondo o então Presidente do Estado, o general José Calasans, Fausto Cardoso depôs o Presidente Guilherme Campos, irmão de Olímpio, que à época era Senador, em agosto de 1906, morrendo na mesma praça que hoje leva o seu nome. A morte trágica de Fausto Cardoso cobriu de luto Sergipe, tendo os seus filhos assassinado, no Rio de Janeiro, Olímpio Campos, encerrando um ciclo oligárquico, com profundos antagonismos, oriundos das lutas intelectuais da Escola do Recife.

Fora da política, Sílvio Romero incorpora à sua rotina seu novo ambiente cultural, a Academia Brasileira de Letras, para a qual foi escolhido em 1897, ocupando a Cadeira cujo Patrono é o jornalista Hipólito José da Costa. Ele queria a Cadeira de Tobias Barreto, escolhida por outro descendente da Escola do Recife, o escritor Graça Aranha. Ativo integrante do Sodalício, colaborador freqüente da Revistada ABL, Sílvio Romero teve ocasião de fazer antológicos discursos, como o que recebeu Euclides da Cunha, no dia 18 de novembro de 1906. A saudação a Euclides da Cunha, a quem Sílvio Romero sempre admirou e de quem foi colega no magistério, é uma das mais belas e corretas falas do escritor e crítico sergipano, que faz uma síntese do processo de evolução cultural e social brasileiro, tomando a si a defesa da Escola do Recife, dos seus postulados e seus integrantes, especialmente Tobias Barreto de Meneses. A cadeira de Sílvio Romero na Academia Brasileira de Letras vem sendo ocupada por ilustres intelectuais e críticos, como Osório Duque Estrada, Roquete Pinto, Álvaro Lins, Antônio Houaiss e Afonso Arinos de Melo Franco.

Doente desde o final do século XIX, quando procurou alívio na Europa, Sílvio Romero passou a morar na praia de Icaraí, em Niterói, principalmente na Rua Veracruz. Alternando bons e maus momentos, procurou, em Juiz de Fora, em 1912, a recuperação. Na cidade mineira, mantém ritmo moderado de trabalho, pois desde 1910 estava aposentado do Colégio Pedro II e suas aulas estavam restritas à Faculdade Livre de Direito, mas continua produzindo intelectualmente e colabora nos jornais Correio de Minas, Diário Popular e Jornal do Commercio, todos mineiros, e no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro. Sua obra está praticamente em conclusão.

No mesmo ano de 1912 uma tragédia se abate sobre a família de Sílvio Romero. Seu cunhado, João Pereira Barreto, que vivia também em Niterói, mata a mulher e foge, passando a ser procurado pela polícia. Mais tarde, retorna, se entrega, vai a julgamento e é condenado. O fato e os desdobramentos minam a resistência de Sílvio Romero, que piora, restringe as suas participações e, como anotaram os seus amigos mais íntimos, como Artur Guimarães e o filho Argeu, não acredita mais em recuperação. Em 1913, ao recusar, por carta, o convite para escrever o prefácio do livro Homens do Brasil vol. I - Sergipe, de Liberato Bitencourt, diz que por conta dos “incômodos escleróticos e cardíacos” não pode fazer nada e que o que vinha saindo na Revista da Academia Brasileira de Letras e na Revista Americana “são coisas antigas, feitas há muito tempo”.

Num último esforço comparece à formatura dos bacharéis da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro e pronuncia, no dia 20 de dezembro de 1913, o discurso de paraninfia, ao qual deu o título de Remédio Brasileiro. Não faz toda a leitura do texto e anuncia que o Jornal do Commercio publicaria, nos dias seguintes, aquela última oração acadêmica. O velho combatente dava sinais de fraqueza. Uma última obra chegava ao prelo: Minhas Contradições, com prefácio do baiano Almáquio Diniz. Sílvio Romero deixou a casa nº 19 da Rua Veracruz, em Niterói, e ficou na casa do filho João, no Rio de Janeiro, onde morre, quase cego, no dia 18 de julho de 1914.

O Rio de Janeiro e o Brasil renderam ao mestre as homenagens, nas palavras dos grandes intelectuais da época. A obra romeriana, reeditada em muitos dos seus volumes, ganhava o respeito dos críticos e era cada vez mais consumada, como fonte preciosa das várias vertentes da cultura brasileira. Filosofia, Folclore, Crítica e História Literária, Crítica Política e Social eram eixos temáticos que alargavam, em mais de cinqüenta títulos, o conhecimento do e sobre o Brasil.

Ele próprio, em várias ocasiões, explicou a sua obra monumental, defendendo uma poesia alimentada do espírito filosófico, uma teoria do mestiçamento, o evolucionismo filosófico como base fundamental da interpretação social, com a força de um guerreiro imbatível, a enfrentar ilustres contendores, em polêmicas repletas de lições. Foi, enfim, Sílvio Romero um retratista do Brasil, coletando, com graça, a oratura que por séculos embalou a vida nacional, sendo um tipo de alma que identifica, na diversidade da cultura, o povo brasileiro.



1Biografia de autoria do escritor Luiz Antonio Barreto, em "Compêndio de História da Literatura Brasileira", ed. Imago; Tomo I. pp. 407-415

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