Sex and the city



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SEX AND THE CITY
Candace Bushnell
Apresentação

Antes de Sex and the City virar livro e série de televisão, foi uma coluna no New York Observer. Isso foi no outono de 1994, e jamais vou me esquecer da tarde em que o redator-chefe me perguntou se eu queria ter minha própria coluna. Eu disse que sim na hora, e depois saí praticamente saltitando pela Park Avenue de tanta felicidade. Não fazia idéia de como eu ia me virar para fazer a coluna, mas tinha certeza de que, de alguma forma, falaria de mim e das minhas amigas — um grupo de mulheres solteiras que pareciam todas ter passado por uma série infindável de experiências horripilantes e escrotas com homens (e, às vezes, com os mesmos homens). Passamos horas debatendo nossos relacionamentos malucos, e chegamos à conclusão de que, se não ríssemos deles, provavelmente íamos acabar pirando.

Acho que foi por isso que Sex and the City saiu assim, essa análise tão sentimentalmente isenta dos relacionamentos e hábitos de acasalamento do ser humano. Embora algumas pessoas achem perturbadores sua falta de sentimentalismo e humor cruel, é provável que seja apenas porque o livro contém algum tipo de verdade universal.

Apesar de, a princípio, a coluna ter a intenção de tratar exclusivamente da cidade de Nova York (daí histórias como “Os modelengos”, sobre dois destrambelhados que conseguem marcar encontros com modelos de 18 anos e acabam se ferrando), descobri que há variantes desses personagens de Sex and the City na maioria das cidades grandes do mundo. Ainda não sei se isso é assustador ou não.

Mas, acima de qualquer outra coisa, Sex and the City busca responder a uma pergunta crucial: por que ainda estamos solteiras? Ora, depois da experiência que adquiri nesse campo, posso afirmar que estamos solteiras porque queremos.

Essa edição de Sex and the City contém dois novos capítulos, escritos após sua primeira publicação. Portanto, finalmente o livro ganhou um desfecho digno do nome, em que Carrie e Mr. Big se separam. É um final ao mesmo tempo amargo e gostoso: não é apenas o fim do relacionamento de Carrie com o Mr. Big, mas também do seu sonho de encontrar o Mr. Big ideal — um homem que não existe na vida real. Se os leitores ficarem atentos, irão descobrir que até o próprio Mr. Big afirma que ele é uma fantasia na imaginação de Carrie, e que não se pode amar uma fantasia. E aí vemos Carrie entrar em uma nova fase da vida em que ela compreende que vai precisar se encontrar (sem um homem), e, quando isso acontecer, talvez consiga começar uma relação.

Talvez eu seja mais sentimental do que pensava que era.
Candace Bushnell 23 de maio de 2001

Minha Educação Não-Sentimental:

Amor em Manhattan?

Desconfio que não!..


Eis uma história típica do Dia dos Namorados. Prepare-se. Uma jornalista inglesa veio para Nova York. Era atraente e espirituosa, e logo se viu envolvida com um dos mais cobiçados solteirões nova-iorquinos.

Tim, 42 anos, era um banqueiro de investimentos que ganhava mais ou menos uns cinco milhões por ano. Durante duas semanas eles se beijaram, andaram de mãos dadas — e aí, em um dia morno de outono, ele a levou até a casa que estava construindo nos Hamptons. Eles olharam a planta com o arquiteto.

Eu queria dizer ao arquiteto para fechar os espaços entre as grades do segundo andar, para as crianças não caírem entre elas — disse a jornalista. — Esperava que Tim fosse me pedir em casamento.

Na noite de domingo, Tim deixou-a no apartamento dela e lembrou-a do que tinham planejado jantar juntos na terça. Na terça, ele ligou e disse que tinha acontecido um imprevisto e ia precisar marcar para outro dia. Depois de duas semanas sem ter notícias dele, ela ligou e lhe disse: “Você está demorando muito para marcar outro dia.” Ele disse que ia telefonar para ela na semana seguinte.

Mas é claro que ele nunca mais ligou. O que me interessou, porém, foi que ela não conseguia entender o que tinha acontecido. Na Inglaterra, segundo explicou, encontrar-se com o arquiteto teria significado um compromisso. Então entendi, é claro! Ela é de Londres.

Ninguém a alertou sobre o Fim do Amor em Manhattan. Aí eu pensei: ela vai aprender.

Bem-vinda à Era da Falta de Inocência. As luzes cintilantes de Manhattan que serviram de cenário para os encontros emocionantes de Edith Wharton ainda brilham mas o palco está vazio. Ninguém toma café no Tiffany’s, e ninguém tem casos memoráveis, em vez disso, precisamos tomar café às 7 da manhã e temos casos que tentamos esquecer o mas rápido possível. Como foi que conseguimos nos enrolar assim? Truman Capote compreendia nosso dilema dos anos 90 “o dilema amor x dinheiro” até bem demais. Em Bonequinha de Luxo, Holly Golightly e Paul Varjak defrontavam-se com restrições: ele dependia de alguém financeiramente e ela também, mas no final eles superam os obstáculos e ficam com o amor, e não com o dinheiro. Isso não acontece muito em Manhattan hoje em dia. Todos somos dependentes do nosso emprego, dos nossos apartamentos, e também, alguns de nós, da hierarquia no Mortimers e no Royalton, do acesso à praia nos Hamptons, das entradas de primeira fila no Garden — e gostamos de viver assim. A autoproteção e a barganha vêm acima de qualquer outra coisa. Cupido tomou chá de sumiço.

Quando foi a última vez que você ouviu alguém dizer:

“Eu te amo!” sem depois completar com o inevitável (embora não dito) “como amiga”?

Quando foi a última vez que viu duas pessoas entreolhando-se com ardor sem pensar ”me engana que eu gosto...”? Quando foi a última vez que ouviu alguém anunciar: “Estou loucamente apaixonado”, sem pensar: “Espera só até a manhã de segunda-feira...”?

E o que se revelou o grande filme “sem-Tim Allen” das férias natalinas: Assédio sexual — que dez ou quinze milhões de espectadores viram só para testemunhar o sexo contra a vontade e sem amor entre tarados numa empresa que está longe de ser o tipo de coisa em que gostamos de pensar quando lembramos do amor, mas um tipo de coisa bem parecido com os relacionamentos em Manhattan hoje em dia.

Ainda se transa muito em Manhattan, mas só se transa para ter amigos e fechar contratos, não para se ter um romance. Hoje em dia, todos têm amigos e colegas; ninguém tem namorados, mesmo, para valer — mesmo se tiverem dormido juntos.

Voltando à história da jornalista inglesa: depois de seis meses, mais alguns “relacionamentos” e um breve caso com um homem que costumava ligar para ela de fora da cidade para lhe dizer que ia telefonar quando voltasse (e nunca ligava), finalmente caiu a ficha. “Ninguém quer se comprometer nos relacionamentos em Nova York”, disse ela. “Mas como é que a gente consegue se comprometer, se quiser?”

Querida, a gente simplesmente sai da cidade.


 AMOR NO BOWERY BAR — PRIMEIRA PARTE

 Sexta à noite no Bowery Bar. Neve caindo do lado de fora, e a festa rolando do lado de dentro. Uma atriz de Los Angeles, deliciosamente deslocada de jaqueta cinza de vinil e minissaia, e o seu acompanhante, bronzeado demais e com medalhão de ouro. Está presente o ator, cantor e arroz-de-festa Donovan Leitch, de paletó verde penugento e chapéu bege felpudo com protetores de orelha. Também o Francis Ford Coppola com a mulher, em uma das mesas. Tem uma cadeira vazia na mesa do Francis Ford Coppola. Não está apenas vazia: está tentadoramente, provocadoramente, sedutoramente, insultuosamente vazia. Está tão vazia que está mais ocupada do que qualquer outra do lugar. E aí, exatamente quando aquela cadeira vazia ameaça causar uma cena, Donovan Leitch vai e se senta nela para bater um papo. Todos na sala imediatamente ficam com uma inveja do cacete. Todo mundo puto da vida. A energia do ambiente sofre uma violenta guinada. Tal é a natureza do romance em Nova York.

 

O HOMEM BEM-CASADO



 ”Amar significa afinar-se com outra pessoa, mas e se essa pessoa se revelar uma roubada?”, disse um amigo, uma das poucas pessoas que conheço que é bem-casado há 12 anos. “E quanto mais você for capaz de olhar para trás, mais vai comprovar que está certo. Então vai se afastando cada vez mais do relacionamento, até que acontece alguma coisa realmente grave e acaba com o que restou dele — como a morte dos seus pais, por exemplo.

“Os nova-iorquinos compõem uma fachada impenetrável”, prosseguiu. “Acho que tive sorte porque as coisas deram certo para mim desde o começo, porque é muito fácil não ter um relacionamento aqui — fica quase impossível voltar atrás.”

 

A MULHER BEM-CASADA (OU QUASE)



 Uma amiga casada me ligou. “Não sei como alguém consegue fazer os relacionamentos darem certo nessa cidade. É uma barra, viu? Todas as tentações que a gente tem que enfrentar, programas, bebida, drogas, outras pessoas. A gente quer se divertir. E se formos um casal, o que vamos fazer? Ficar sentados num apartamento minúsculo, olhando um para a cara do outro? Quando a gente não tem ninguém é mais fácil”, afirmou ela, meio tristonha.  ”A gente pode fazer o que quiser. Não precisa voltar para casa.”
SOLTEIRÃO DO COCO PAZZO

 Há anos, quando meu amigo Capote Duncan era um dos solteirões mais cobiçados de Nova York, namorava todas as mulheres do pedaço. Naquela época, ainda éramos românticas a ponto de crer que alguma mulher ia conquista-lo um dia. Alguma hora ele vai ter que se apaixonar, e quando isso acontecer, vai ser com uma mulher bonita, inteligente e profissionalmente realizada. Mas as mulheres bonitas, inteligentes e profissionalmente realizadas vinham e iam embora. E ele, nada de se apaixonar.

Estávamos erradas. Hoje em dia, Capote se senta para jantar no Coco Pazzo, e diz que ninguém jamais vai conseguir amarrá-lo. Ele não quer um relacionamento estável. Nem quer tentar. Não está interessado em nenhum comprometimento romântico. Não quer nem ouvir falar na neurose dos outros. E diz às mulheres que pode ser amigo delas, que elas podem transar com ele, mas é só isso mesmo, e é só isso que vai ser.

E para ele está tudo bem. Nem mesmo vai ficar triste, como costumava ficar antes.

 

AMOR NO BOWERY BAR — SEGUNDA PARTE



 À minha mesa no Bowery Bar estão Parker, 32 anos, um romancista que escreve sobre relacionamentos que inevitavelmente fracassam; o namorado dele, Roger, e Skipper Johnson, um advogado do ramo do show business.

Skipper tem 25 anos e personifica a obstinada descrença no Amor típica da Geração X.

— Eu simplesmente não acredito que vou encontrar a pessoa certa e me casar — disse ele. — Os relacionamentos são intensos demais. Se a gente crer no amor, está se condenando a se decepcionar. Simplesmente não dá para a gente ir confiando assim em qualquer um, as pessoas andam muito corruptas ultimamente.

— Mas é o único lampejo de esperança — protestou Parker. — A gente espera que isso nos salve do ceticismo.

Skipper não quis saber daquele papo:

— O mundo hoje está mais ferrado do que há 25 anos. Fico muito puto quando penso que nasci nessa geração em que todas essas coisas estão acontecendo comigo. Grana, AIDS, casos amorosos, tudo ligado desse jeito. A maioria das pessoas da minha idade não acredita que vai ter um emprego estável. Quando a gente tem medo do futuro financeiro, não sente vontade de se comprometer afetivamente.

Entendi o ceticismo dele. Recentemente, eu tinha me surpreendido dizendo que não queria um relacionamento porque, no fim, a menos que a gente se casasse, ficava sem nada.

Skipper tomou um gole da bebida:

— Não tenho alternativa — berrou. — Não quero relacionamentos inconseqüentes, então não faço nada. Não transo nem namoro. Quem é louco de entrar nessa? Quem é louco de se sujeitar aos problemas que podem aparecer, como doenças e gravidez? Não tenho problemas.  Não tenho medo de doenças, psicopatas, nem maníacos à espreita para nos pegar. Por que não se reunir apenas com os amigos, bater um bom papo e simplesmente curtir a vida?

— Você está é doido — disse Parker. — Isso não tem nada a ver com dinheiro. Talvez não possamos nos ajudar financeiramente, mas talvez possamos nos apoiar mutuamente no caso de alguma saia-justa de outro gênero. As emoções não custam nada. A gente tem alguém em casa esperando pela gente. A gente tem alguém na nossa vida.

Eu tinha uma teoria de que o único lugar onde se podia encontrar amor e romance em Nova York era na comunidade gay — que a amizade entre as bibas ainda incluía o arrebatamento e a paixão, ao passo que o amor entre sexos opostos havia se enrustido. Eu tinha essa teoria em parte por causa de tudo que havia lido e ouvido recentemente sobre o multimilionário que tinha abandonado a esposa para ficar com um homem mais jovem — e teve a ousadia de acompanhar o rapaz nos restaurantes mais badalados de Manhattan, bem na frente dos colunistas sociais. E aí eu pensei, aí está um Verdadeiro Amante.

Parker também estava provando que minha teoria estava certa. Por exemplo, quando Parker e Roger começaram a namorar, Parker adoeceu. Roger ia à casa dele para preparar o jantar e cuidar do rapaz. Isso jamais aconteceria com um cara hétero. Se um hétero ficasse doente e tivesse começado a namorar uma garota há pouco tempo, e ela viesse tomar conta dele, ele simplesmente ia ficar apavorado — ia pensar que ela estava tentando se insinuar na vida dele. E a porta ia se fechar bem no nariz dela.

— O amor é perigoso — comentou Skipper.

— Se você sabe que é perigoso, então vai dar valor a ele, e se empenhar mais ainda para preservá-lo — Parker defendeu.

— Mas não dá para controlar os relacionamentos —Skipper devolveu.

— Você é doido — disse Parker, afinal.

Roger resolveu intervir.

— E os românticos à moda antiga?

Minha amiga Carne entrou na conversa. Ela conhecia aqueles tipos.

— Toda vez que um cara me diz que é romântico, eu sinto vontade de gritar — disse. — Isso só quer dizer que um homem tem uma visão romanceada da gente, e assim que a gente fica real e pára de fazer o jogo dele, ele se desliga. É isso que torna os românticos perigosos. E melhor ficar longe deles.

Nesse momento um desses românticos se aproximou perigosamente da mesa.
 A LUVA DAS DAMAS

 — A camisinha acabou com o romance, mas também tornou muito mais fácil comer as mulheres — disse um amigo. — Tem alguma coisa na camisinha que, para as mulheres, torna o sexo sem importância. Não há contato de pele. Então elas vão para a cama com a gente com mais facilidade.

 

AMOR NO BOWERY BAR — TERCEIRA PARTE



 Barkley, 25 anos, era artista. Barkley e minha amiga Carne andavam ficando há uns oito dias, o que significava que tinham saído juntos e se beijado e se entreolhado e foi tudo muito bom.  Com todos os caras de 35 anos que conhecíamos mergulhados até o pescoço num ceticismo educado, Carne resolveu experimentar um relacionamento com um rapaz mais jovem que não estava em Nova York tempo suficiente para ficar endurecido.

Barkley disse a Carne que era romântico, “porque sinto isso”, e também disse a Carne que queria adaptar o romance de Parker e transformá-lo em roteiro. Carne ofereceu-se para apresentar um ao outro, e por isso Barkley estava ali no Bowery Bar naquela noite.

Porém, quando Barkley apareceu, ele e Carne entreolharam-se e sentiram... que não sentiram nada. Talvez por prever o inevitável, Barkley trouxera uma “acompanhante”, uma jovem estranha com glitter no rosto.

No entanto, quando Barkley se sentou, disse:

— Eu acredito mesmo no amor. Ficaria profundamente deprimido se não acreditasse. As pessoas são metades. O amor dá mais sentido a tudo.

— E aí vem alguém, tira ele de você, e pronto, você está ferrado — disse Skipper.

— Mas você faz seu próprio espaço — disse Barkley.

Skipper enumerou seus objetivos:

Morar em Montana, com uma antena parabólica, um fax e um Range Rover, aí estará a salvo — definiu.

— Talvez o que você queira esteja errado — disse Parker. — Talvez o que você queira o faça se sentir desconfortável.

— Quero beleza. Preciso estar com uma mulher bonita ao meu lado. Não tem jeito — disse Barkley. — É por isso que muitas meninas com quem eu acabo saindo são burras.

Skipper e Barkley sacaram seus respectivos celulares.

— Seu celular é grande demais — disse Barkley.

Mais tarde, Carne e Barkley foram ao Tunnel e ficaram olhando todas as pessoas bonitas e jovens, e fumaram e tomaram todas. Barkley decolou com a moça cheia de glitter no rosto e Carne saiu com o melhor amigo de Barkley, Jack. Eles dançaram, depois escorregaram na neve feito loucos, tentando encontrar um táxi. Carrie nem conseguiu olhar para o relógio.

Barkley ligou para ela na tarde seguinte:

— E aí, moça?

— Sei lá. Você é que me ligou.

— Eu lhe disse que não queria namorada. Você é que quis se enganar. Sabia como eu era.

“Ah, mas claro”, quis dizer Carne. “Sabia que você era um ftitil, mulherengo de meia-tigela, e por isso quis sair com você.”

Mas não disse.

— Não dormi com ela. Eu nem mesmo a beijei — disse Barkley. — Não estou nem aí. Nunca mais vou vê-la outra vez, se você não quiser.

— Pra te dizer a verdade, estou cagando para isso. —E o pior é que estava mesmo.

Aí passaram as quatro horas seguintes debatendo as pinturas de Barkley.

— Eu seria capaz de fazer isso o dia inteiro, todos os dias — disse Barkley. — É muito melhor do que sexo.

 

O GRANDE NÃO-FINGIDOR



 — A única coisa que resta é o trabalho — disse Robert, 42 anos, editor. — Com tanta coisa para fazer, quem é que tem tempo de ser romântico?

Robert contou a história do envolvimento recente dele com uma mulher de quem realmente gostava, mas depois de um mês e meio ficou claro que não ia dar certo.

— Ela me aplicou um monte de testes. Eu tinha que ligar para ela na quarta se quisesse sair na sexta. Mas na quarta, talvez eu estivesse a fim de me matar, e só Deus sabe como ia estar me sentindo na sexta. Ela queria alguém que fosse alucinado por ela. Entendo isso. Mas não consigo fingir que sinto uma coisa que não sinto.

— E claro que ainda somos muito bons amigos —acrescentou ele. — Nós nos encontramos o tempo todo. Só não transamos.

 

NARCISO NO FOUR SEASONS



 Certa noite de domingo, fui a uma festa beneficente no Four Seasons. O tema era Ode ao Amor. Cada mesa tinha o nome de um casal famoso diferente — vi Tammy Faye e Jim Bakker, Narciso e Ele Mesmo, Catarina, a Grande e o Seu Cavalo, Michael Jackson e Amigos.

Aí D’Amato sentou-se à mesa de Bill e Hillary. Cada mesa ostentava uma decoração de centro com um enfeite relacionado ao seu tema — por exemplo, na mesa de Tammy Faye Bakker havia cílios postiços, sombra de olhos azul e velas em formato de batom. A mesa de Michael Jackson exibia um gorila de pelúcia e creme facial Porcelana.

Bob Pittman estava presente.

— O amor não acabou, o que acabou foi o tabagismo — disse Bob, dando um largo sorriso, com a esposa, Sandy, ao lado dele, enquanto eu, atrás das folhagens decorativas, tentava fumar escondido. Sandy disse que estava para escalar uma montanha na Nova Guiné e ficaria ausente várias semanas.

Voltei para casa sozinha, mas logo antes de eu sair, alguém me entregou a mandíbula de um cavalo da mesa de Catarina, a Grande.
 AMOR NO BOWERY BAR: EPÍLOGO

Donovan Leitch se levantou da mesa de Francis Ford Coppola e chegou junto da nossa.

— Ah, não — disse. — Acredito com toda a convicção que o amor vence tudo. As vezes a gente só precisa dar um pouco de espaço para ele. E é justamente isso que falta aqui em Manhattan.

Ah, e por falar nisso... Bob e Sandy vão se divorciar.

 Troca de Casais? Acho que Não...
Tudo começou do jeito que sempre começa: na maior inocência. Eu estava sentada no meu apartamento, comendo meu almoço balanceado de cream cracker com pasta de sardinha, quando recebi um telefonema de um conhecido. Um amigo dele tinha acabado de ir ao Le Trapeze, um clube de sexo exclusivo para casais, e ficou assombrado. Abestalhado. Tinha gente pelada — trepando mesmo —bem na cara dele! Ao contrário dos clubes de sadomasoquismo onde ninguém transa de verdade, nesse outro o negócio era mesmo pra valer. A amiga do cara ficou meio apavorada — embora, quando outra mulher nua roçou nela, ela “deu a impressão de que tinha gostado”. Foi o que ele disse.

Aliás, o cara gostou tanto do tal lugar que não quis que eu escrevesse sobre ele, porque tinha medo de que, como no caso da maioria dos lugares bons de Nova York, esse também fosse arruinado pela publicidade.

Comecei a imaginar todos os tipos de coisas: belos corpos sarados e jovens. Carícias acanhadas. Meninas com longas cabeleiras louras e onduladas com coroas feitas de folhas de parreira. Rapazes com dentes perfeitos e brancos e tanguinhas de folhas de parreira. Eu, usando um vestidinho ultracurto, de uma alça só, feito de folhas de parreira. Entrávamos de roupa e saíamos esclarecidos.

A secretária eletrônica do clube me trouxe de volta à realidade.

— No Le Trapeze, não há estranhos, apenas amigos que você ainda não conhece — disse uma voz de gênero indeterminado, que acrescentou que “há um balcão de sucos e um bufê de pratos quentes e frios à sua disposição” — coisas que eu raramente associo a sexo ou a nudez.

Em comemoração ao Dia de Ação de Graças, a “Noite Oriental” seria no dia 19 de novembro.  Isso me pareceu interessante, só que Noite Oriental significava comida oriental, não gente oriental.

Eu devia ter deixado aquela idéia de lado ali mesmo. Não devia ter escutado aquela assustadoramente despudorada Sallie Tisdale, que, naquele seu livro pornô yuppie, Sussurre coisas eróticas comigo, faz a apologia do sexo grupal e público: “Esse é um tabu no mais verdadeiro sentido da palavra.., se os clubes de sexo chegarem aonde pretendem, então vai acontecer uma decadência geral.

Sim, como se teme, as barreiras vão desmoronar... O centro não vai agüentar.” Eu devia ter me perguntado: “E o que há de divertido nisso?”

Mas eu precisava ver com meus próprios olhos. E aí, numa noite de quarta, eu tinha na minha agenda dois eventos: 21 horas, jantar com o figurinista Karl Lagerfeld, Bowery Bar; 23:30, clube de sexo Le Trapeze, rua 27 Leste.
 MULHERES BAGUNÇADAS; MEIAS TRÊS-QUARTOS

Ao que parece, todos gostam de conversar sobre sexo, e o jantar de Karl Lagerfeld, lotado de modelos glamourosas e editores de moda com despesas por conta da empresa, não foi exceção. Aliás, o assunto fez nossa ponta da mesa quase ir ao delírio. Uma moça deslumbrante, com cabelos escuros e encaracolados e aquela banca de quem já viu de tudo que só o pessoal de vinte anos consegue ostentar, declarou que gostava de passar o tempo em bares topless, mas só os “bem caidinhos tipo Billy’s Topless” porque lá as moças eram “autênticas”.

Aí todos concordaram que seios pequenos eram melhores do que os falsos, e então fizeram um levantamento:

quem, entre os homens da mesa, já estivera com uma mulher com implantes de silicone? Embora ninguém tivesse coragem de admitir, um homem, um artista aí de seus 30 e poucos anos, não negou com convicção suficiente.

— Você já! — acusou outro homem, com rosto de querubim, um gerente de hotel bem- sucedido. — E pior que... você.., gostou!

— Não gostei, não — protestou o artista. — Mas não liguei.

Felizmente, chegou o primeiro prato, e todos encheram os copos de vinho.

Próxima rodada: as mulheres bagunçadas são melhores na cama? O gerente de hotel tinha uma teoria. “Se a gente entrar no apartamento de uma mulher e nada estiver fora do lugar, sabe que ela não vai querer ficar na cama o dia inteiro e pedir comida chinesa para viagem, nem comer na cama.

Vai obrigar você a se levantar e comer torradas na mesa da cozinha.

Eu não sabia bem como responder a essa pergunta, porque sou literalmente a mulher mais bagunçada do mundo. E provavelmente tenho algumas embalagens do frango especial do General Tso bem embaixo da minha cama neste exato momento. Infelizmente, comi tudo sozinha. Teoria mais furada, aquela.

Serviram os bifes.

— O que mais me deixa louco — disse o artista — é quando vejo uma mulher com uma daquelas sainhas de lã xadrez e meias três-quartos. Passo o dia inteiro sem conseguir trabalhar.

— Não — rebateu o gerente de hotel. — O pior mesmo é quando você vai seguindo uma mulher pela rua, e ela se vira, e é tão bonita quanto você pensava que era. Representa tudo que você jamais vai ter na vida.

O artista se inclinou para diante.

— Uma vez eu fiquei sem trabalhar cinco anos por causa de uma mulher — disse.

Silêncio. Ninguém ia conseguir superar essa.

Chegou a mousse de chocolate, e também o acompanhante que eu havia convidado para ir comigo ao Le Trapeze. Como o Le Trapeze só admite casais — ou seja, um homem e uma mulher —, eu tinha pedido ao meu mais recente ex-namorado, o Sam, consultor de investimentos, para me acompanhar.

Sam era uma boa opção porque, primeiro, ele era o único homem que eu podia convencer a ir comigo; segundo, ele já tivera uma experiência com esse tipo de coisa: há um milhão de anos ele tinha ido ao Refúgio de Platão. Uma mulher estranha chegou e foi abrindo a calça dele e puxando-lhe o pau para fora. Sua namorada, que tivera a idéia de ir lá, saiu correndo do clube, aos gritos.

A conversa passou a tratar do inevitável: que tipo de pessoa vai a um clube de sexo? Eu parecia ser a única que não fazia a menor idéia. Embora ninguém ali já tivesse ido a um clube de sexo, todos no jantar afirmaram categoricamente que os freqüentadores dessa espécie de clubes deviam ser “otários de New Jersey”. Alguém declarou que ir a um clube de sexo não é o tipo de coisa que se pode simplesmente fazer, sem uma boa desculpa, ou seja, a trabalho.  Não estava gostando nem um pouco daquela conversa. Pedi ao garçom para me trazer uma dose de tequila.

Sam e eu nos levantamos para nos despedir. Um escritor que cobre cultura popular nos deu um último conselho.

— Vai ser pavoroso — advertiu, embora jamais tivesse ido a esse tipo de lugar. — A menos que assumam o controle. Precisam assumir o controle do lugar. Precisam fazer o lance rolar.
 A NOITADA DOS MORTOS-VIVOS

O Le Trapeze ficava em um edifício de pedras brancas coberto de pichações. A entrada era discreta, com uma grade de metal arredondada, uma versão piorada da entrada do Royalton Hotel. Um casal estava saindo quando entramos, e quando a mulher nos viu, cobriu o rosto com a gola do casaco.

— E aí, gostou? — perguntei.

Ela me olhou horrorizada, e entrou correndo em um táxi.

Lá dentro um jovem moreno, com uma camisa listrada de futebol americano, estava sentado em uma cabinezinha. Parecia ter uns 18 anos. Não olhou para nós.

— Pagamos a entrada aqui?

— São 85 dólares por casal.

— Aceita cartão de crédito?

— Só dinheiro.

— Pode me dar uma nota fiscal?

— Não.

Tivemos que assinar cartões dizendo que íamos nos portar segundo as normas do sexo seguro. Recebemos cartões de sócios provisórios, com lembretes de que prostituição, câmeras e gravadores eram proibidos.



Embora eu esperasse ver sexo a todo vapor, a primeira coisa que vimos foram mesas fumegantes — ou seja, o tal bufê de pratos quentes e frios. Ninguém estava comendo, e havia um cartaz acima da mesa do bufê que dizia:
PARA COMER, FAVOR COBRIR A PARTE INFERIOR DO TRONCO.

Aí vimos o gerente, Bob, um rapaz corpulento e barbado, de camisa xadrez e jeans que estava mais para gerente de loja de artigos para animais de estimação em Vermont. Bob nos disse que o clube existia havia mais de 15 anos por causa de sua “discrição”.

— Além disso — continuou —, aqui, não quer dizer não mesmo. — Ele nos disse para não nos preocuparmos em sermos voyeurs, porque a maioria das pessoas começa assim mesmo.

O que vimos? Ora, um salão com um imenso colchão de ar, sobre o qual alguns casais sem graça transavam na maior. Havia uma “cadeira erótica” (desocupada) que parecia uma aranha; uma mulher rechonchuda de roupão sentada ao lado de uma banheira de hidromassagem, fumando; casais de olhos vidrados (A noitada dos mortos-vivos, acho eu); e havia muitos homens que pareciam estar com problemas para desempenhar seu papel.  Mas principalmente vimos as malditas mesas de bufê com pratos fumegantes (contendo o quê? minicachorros-quentes?), e infelizmente é tudo que vocês precisam saber.

O Le Trapeze era na verdade, como os franceses dizem, Le Exploration.

Por volta da uma da manhã, as pessoas já estavam indo para casa. Uma mulher de roupão nos informou que era de Nassau County e disse que devíamos voltar na noite de sábado.

— Na noite de sábado — disse ela — temos miscelânea. — Eu nem perguntei se ela estava falando da clientela — tive medo que ela estivesse se referindo ao bufê.

 
FALANDO SACANAGEM NO MORTIMERS

Uns dias depois, eu estava num almoço de mulheres no Mortimers. Uma vez mais a conversa girou em torno de sexo e minhas experiências no clube de swing.

— Não curtiu? — indagou Charlotte, a jornalista inglesa. — Eu adoraria ir a um clube desses.

Não ficou com tesão de ficar olhando aquelas pessoas todas se comendo na sua frente?

— Não — disse eu, entupindo a boca de bolinho de milho com cobertura de ovas de salmão.

— Por que não?

— Não dava para ver nada, no fim das contas — disse eu.

— E os homens?

— Isso é que foi o pior — disse eu. — Metade deles parecia psicanalista. Eu jamais seria capaz de voltar à terapia sem imaginar um homem gordo e barbudo deitado sem roupas em um tapete, olhos vidrados, enquanto leva uma chupada de uma hora. E ainda por cima sem conseguir gozar.

Sim, eu contei a Charlotte, tiramos as nossas roupas — mas nos enrolamos em toalhas. Não, não trepamos. Não, eu não fiquei com tesão, nem mesmo quando uma mulher alta, atraente e morena, de seus trinta e tantos anos, entrou na sala da zorra e causou rebuliço. Ela expôs a bunda como um macaco e, dentro de alguns minutos, já estava afogada em um mar de braços e pernas. Aquilo devia ser erótico, mas eu só consegui me lembrar daqueles filmes do National Geographic sobre acasalamento de babuínos.

A verdade é que o exibicionismo e voyeurismo não são o que mais pesa. E nem o sadomasoquismo, por sinal, apesar do que possa ter lido em outras fontes ultimamente. O grande problema, nos clubes, pelo menos, sempre acabam sendo as pessoas. São atrizes que não conseguem encontrar trabalho, cantores de ópera, pintores e escritores fracassados; os homens da baixa gerência que jamais conseguem chegar aos cargos intermediários. Pessoas que, se pegarem você num canto de bar, vão te alugar para desfiar histórias das ex-esposas e seus problemas digestivos.

São as pessoas que não têm jogo de cintura. Vivem às margens da sociedade, tanto no sexo quanto na vida. Não são necessariamente pessoas com quem você gostaria de dividir suas fantasias íntimas.

Ora, as pessoas do Le Trapeze não eram todas mortas-vivas anêmicas e gorduchas: antes de sairmos do clube, eu e Sam demos de cara com a tal mulher altona que gostava de se exibir, e o acompanhante dela, no vestiário. O homem tinha um rosto bem definido, bem americano, e era tagarela. Era de Manhattan, segundo disse, e recentemente havia iniciado seu próprio negócio. Ele e a mulher tinham sido colegas, também disse. Enquanto a mulher vestia um conjunto amarelo próprio para o trabalho, o homem sorriu e falou: “Ela realizou a fantasia dela esta noite.” A mulher fuzilou-o com o olhar e saiu do vestiário pisando duro.

Alguns dias depois, Sam ligou, e eu berrei com ele. Então ele perguntou, aquela coisa toda não havia sido idéia minha?

E depois perguntou também, será que eu não tinha aprendido nada?

E eu respondi, sim, tinha. Eu lhe disse ter aprendido que, em matéria de sexo, não tem nada como a casa da gente.

Mas você já sabia disso, não? Não sabia? Sam?

 

NÓS AMAMOS UM NAMORADPR SERIAL



 Em uma tarde dessas, sete mulheres se reuniram em Manhattan, em torno de uma mesa com vinho, queijo e cigarros, para debater animadamente a única coisa que tinham em comum: um homem. Especificamente, um Homem Cobiçado de Manhattan, um homem que chamaremos de “Tom Peri”.

Tom Peri tem 43 anos, um metro e setenta e sete, com cabelos lisos e castanhos. Não há nada de fenomenal na aparência dele, exceto uma tendência, alguns anos atrás, de usar ternos Armani pretos combinando com suspensórios malucos. Ele vem de uma família rica de industriais e cresceu na Quinta Avenida e em Bedford, Nova York. Mora em um arranha-céu moderno na Quinta Avenida.

Durante os últimos 15 anos, Peri, a quem quase sempre as pessoas se referem pelo sobrenome, tornou-se uma espécie de lenda em Nova York. Ele não é exatamente mulherengo, porque vive querendo se casar. Peri é, ao contrário, um dos mais bem-sucedidos namoradores seriais da cidade, às vezes tendo até 12 “relacionamentos” por ano. Mas depois de dois dias ou dois meses, acontece o inevitável. Algo de errado acontece e, segundo ele diz, “Eu levo o fora”.

Para um certo tipo de mulher — na casa dos 30, ambiciosa, bem situada socialmente — namorar o Peri, ou evitar suas atenções, passou a ser nada menos que um rito de passagem, mais ou menos como sua primeira corrida de limusine e seu primeiro roubo, combinados.

Mesmo entre os outros homens namoradores notórios da cidade, Peri se destaca. Por um lado, ele parece estar em desvantagem. Não tem uma aparência de bem-nascido, como o conde Erik Wachtmeister, nem a grana preta de um Mort Zuckerman.

Eu queria saber “O que é que o Peri tem?”

Cada uma das mulheres com quem entrei em contato já andou envolvida com Peri — seja intimamente ou como objeto de suas ardentes afeições — e todas disseram que tinham dado o fora nele. Ninguém recusou meu convite para nos reunirmos e levarmos um “Papo sobre o Peri”. Cada mulher, talvez, teve alguma coisa.., mal resolvida com Peri. Talvez o quisessem de volta. Talvez quisessem que ele morresse.

 

“COMO DARYL VAN HORNE”



 Nós nos encontramos na casa de Sarah, uma cineasta que era modelo “até me enjoar daquela baboseira toda e ganhar dez quilos”. Ela usava um conjunto escuro riscadinho.

“Quando se examina a lista de caras que já namoramos, o Peri é o único que não faz sentido”, disse ela. “A gente pensa: ‘Mas qual o sentido disso?”‘ Só que antes de chegarmos à parte boa, fizemos uma descoberta perturbadora. Embora nenhuma das mulheres tivesse tido notícias do Peri durante meses, naquela manhã ele havia telefonado para quatro delas.

— Acho que ele não está sabendo de nada, acho que foi só coincidência — disse Magda. Ela já é amiga do Peri há anos — aliás, a maioria das amigas dela são ex-namoradas do Peri, que conheceu através dele.

— Ele sabe tudo sobre nós — disse uma mulher. — Parece o Daryl Van Horne em As bruxas de Eastwick.

— Van “Corno” seria mais adequado — disse outra. Abrimos o vinho.

— O negócio do Peri — disse Sarah — é o seguinte. O motivo pelo qual ele é tão sedutor é que, assim que a gente o conhece, ele dá um banho, fala muito bem, conta piadas, e está disponível o tempo todo, porque não trabalha. O que é mais divertido do que um cara que diz “Vamos almoçar juntos”, depois você volta para o trabalho, e aí ele diz “Vamos tomar um coquetel às seis?” Quando foi a última vez que você saiu com um cara que queria ver você três vezes por dia?

— “Coquetel” é uma palavra tão empolada — disse Magda. — Parece coisa da Katharine Hepburn com o Gary Grant.

Jackie, editora de revista, afirmou:

— Quando eu conheci o Peri, nós começamos a nos encontrar instantaneamente... cinco noites por semana. Ele não sai do teu pé.

— Ele é esperto, porque adora telefone — disse Sarah.

— E aí a mulher pensa, nossa, ele deve estar mesmo a fim de mim, porque me liga dez vezes por dia. E aí a gente começa a deixar de lado o fato de que ele é uma coisinha mesmo muito esquisitinha.

— Aí a gente começa a olhar aqueles suspensórios dele, e pensa, ai, mamãe — disse Maeve, uma poetisa que é meio irlandesa.

— Depois a gente começa a se tocar que ele não é engraçado coisa nenhuma — disse Sarah. — Tem um bom repertório de piadas, mas depois que a gente já ouviu todas um milhão de vezes, elas começam a encher o saco. Parece um círculo vicioso. Ele se repete.

— Ele me disse que eu era a única moça com quem ele saiu que entendia as piadas dele — disse Maeve — e olha que eu nem as considerava engraçadas.

— E aí a gente vai ao apartamento dele. Aqueles vinte e cinco porteiros... Fala sério!

— Não, juro, ficamos imaginando por que ele simplesmente não joga fora aquela mobília toda e vai à Door Store.

— Uma vez ele me mostrou uns porta-guardanapos que tinha comprado. Tinham o formato de algemas. Como se com isso fosse seduzir uma moça, com porta-guardanapos.
 PRIMEIRO ENCONTRO: 44

 Então, como tudo começa?

A história de Jackie era típica.

— Eu estava esperando uma mesa no Blue Ribbon — disse ela. — Ele chegou perto de mim e começou a puxar papo. Achei-o engraçado na mesma hora. Pensei, caramba, estamos mesmo nos entendendo. Mas eu provavelmente jamais vou ter notícias dele depois que terminar a conversa. — Todas concordaram. Afinal de contas, também não tinham passado por isso?

— Ele ligou mais ou menos às oito na manhã seguinte — disse Jackie.

“Quer almoçar comigo? — perguntou. Ele te convida para almoçar no 44 no dia seguinte.

Sapphire, uma mãe loura e divorciada, riu.

— Ele só me levou ao 44 no segundo dia.

— Enquanto a gente ainda pensa que ele é engraçado e inteligente, ele te convida para passar o fim de semana com ele — disse Jackie.

— Ele me propôs casamento mais ou menos no décimo dia — disse Sarah. — Foi bem rápido, até mesmo no caso dele.

— Ele me levou para jantar na casa dos pais mais ou menos no terceiro encontro — disse Britta, uma morena alta e magra, de pernas longas, que trabalha como representante de estúdio fotográfico e agora é bem-casada. — Éramos só eu, os pais dele e o mordomo. No dia seguinte, lembro-me de que eu estava sentada na cama dele, e ele me mostrando filmes caseiros de quando ele era pequeno. Implorou-me para me casar com ele. Dizia: “Está vendo, eu posso ser um cara sério, quando quero.” E depois pediu uma comida chinesa de segunda.  Eu pensei: Casar com você? Qual é, você anda fumando alguma coisa?

Ramona suspirou.

— Por outro lado, eu tinha acabado de romper com alguém, e estava muito transtornada.

Ele ficou sempre ao meu lado.

Então identifiquei um padrão. As mulheres que haviam namorado o Peri todas tinham acabado de se divorciar ou de terminar com os namorados quando Peri as abordou. Ou teriam sido elas que o abordaram?

— Ele é o homem tipo tábua de salvação — disse Sarah, definitivamente. — Tipo, “com licença, você está arrasada? Então vamos namorar.

— Ele é o Mayflower emocional — disse Maeve. —Pega as mulheres do ponto A e larga-as no ponto B. A gente chega a Plymouth Rock se sentindo muitíssimo melhor.

Sua capacidade de criar um clima de empatia era um ponto forte. A frase “ele parece até mulher” surgiu várias vezes. “Ele lê mais revistas de moda que a maioria das mulheres”, disse Sapphire, “e está muito mais disposto a enfrentar as suas dificuldades do que as dele.”

— Ele é extremamente confiante — continuou Maeve.

— Acho que é errado os homens se apresentarem como idiotas perdidos que nem conseguem encontrar as meias. Peri diz, “Sou totalmente seguro de mim. Pode se encostar no ombro do papai aqui.” E a gente pensa, Mas que alívio! Na realidade, é tudo que as mulheres querem. A maioria dos homens não entende isso. Pelo menos o Peri é inteligente o bastante para dar essa impressão.

E depois falamos do sexo.

— Ele é fantástico na cama — disse Sarah.

— Dá uns amassos que só ele — disse Sapphire.

— Achou-o fantástico? — disse Jackie. — Eu o achei horrível. Será que ninguém aqui se lembra dos pés dele?

No entanto, até ali, Peri parecia a personificação das duas coisas que as mulheres sempre dizem que querem mais — um cara que sabe conversar e é compreensivo como uma mulher, mas que também sabe ser homem na cama. Então, o que aconteceu de errado?
 PERI: O TAMANHO (42) IMPORTA..

 — É assim que funciona — disse Maeve. — Enquanto a gente está neurótica e pirada, ele é ótimo.  Mas depois que ele resolve todos os nossos problemas, ele é que vira o problema.

— Ele fica terrivelmente mau — disse uma mulher. As outras concordaram.

— Uma vez — disse Jackie —’ quando eu disse que vestia 42, o Peri disse: “De jeito nenhum.

Você é 44, no mínimo. Sei como é o manequim 42, e, creia-me, você não é manequim 42 nem aqui, nem na China.

— Ele sempre me dizia para perder sete quilos — disse Sarah — e quando saía com ele, estava mais magra do que já fui em anos.

— Acho que quando os homens dizem às mulheres para perderem peso, é para desviarem a atenção delas das pequenas proporções de certas partes deles — disse uma das mulheres, em tom seco.

Maeve se lembrou de uma viagem para uma temporada de esqui em Sun Valley.

— O Peri fez tudo conforme o figurino. Comprou as entradas, reservou o apartamento. Ia ser demais.

Mas aí começaram a brigar na limusine a caminho do aeroporto, porque queriam se sentar do mesmo lado.

Quando chegaram ao avião, a aeromoça precisou apartá-los. (“àquela altura, já estávamos discutindo qual dos dois ia respirar mais ar”, disse Maeve.) Brigaram na pista de esqui. No segundo dia, Maeve começou a arrumar as malas. Aí ele disse, “Há, há, há, está nevando lá fora, você não pode ir embora”, e Maeve replicou: “Há, há, há, vou pegar um ônibus.”

Um mês depois, Maeve voltou para o marido. Sua situação não era incomum — muitas das mulheres que acabavam dando o fora em Peri simplesmente voltavam para o homem com o qual tinham rompido o relacionamento.

Isso, porém, não significava que Peri as deixasse em paz.

— Mandou fax, cartas, e deu centenas de telefonemas — disse Sapphire. — Foi um horror. Mas apesar disso, ele tem um grande coração, e vai ser um grande homem algum dia.

— Guardei todas as cartas dele — disse Sarah. — Eram comoventes. A gente conseguia até enxergar as marcas das lágrimas nas páginas. — Ela saiu da sala e voltou segundos depois com uma carta. Leu-a em voz alta. — “Você não me deve o seu amor, mas eu espero que tenha coragem de ir em frente e aceitar o meu. Não te envio flores, porque não quero dividir nem aviltar seu amor com objetos que não sejam criados por mim.” — Sarah sorriu.
 “VAMOS NOS CASAR”

 No período de convalescença pós-Peri, as mulheres declaravam que tinham se dado bem, em geral. Jackie disse que estava namorando seu personal trainer; Magda publicou seu primeiro romance; Ramona estava casada e grávida; Maeve abriu um café;

Sapphire redescobriu um velho amor; Sarah disse que estava bem satisfeita com seus encontros com um homem-objeto de 27 anos.

Quanto a Peri, ele tinha recentemente se mudado para o exterior, em busca de novas possibilidades conjugais. Uma das mulheres ouviu falar que ele tinha levado um fora de uma inglesa que na verdade queria se casar com um duque. “Ele sempre namora as mulheres erradas”, disse Sapphire.

Seis meses antes, Peri tinha voltado para fazer uma visita e levou Sarah para jantar.

— Ele pegou minha mão — disse ela — e ficou dizendo ao amigo: “Ela é a única mulher que amei.” Em respeito ao passado, voltei ao apartamento dele para tomar um drinque, e ele me propôs casamento com tamanha seriedade que não pude acreditar. Achei que estava mentindo. Então decidi torturá-lo.

“Ele me disse: ‘Não quero que saia com nenhum outro homem, e eu não sairei com nenhuma outra mulher.’ Eu disse: ‘Certo’, pensando, ‘Como é que isso vai dar certo? Ele mora na Europa e eu em Nova York’. Mas na manhã seguinte, ele me ligou e disse: ‘Sabe, você é minha namorada agora.’ E aí eu respondi: ‘Está bem, Peri, legal.’ Aí ele voltou para a Europa e Sarah disse que se esqueceu de tudo. Certa manhã, ela estava na cama com o novo namorado quando o telefone tocou. Era o Peri. Enquanto Sarah  conversava com ele, o namorado disse:

“Quer café?”, e o Peri endoidou.

“Quem está aí?”, ele perguntou. “Um amigo”, respondi. “Às dez da manhã? Você está dormindo com outro cara? Nós vamos nos casar, e você dormindo com outro?”

— Ele desligou, mas uma semana depois tornou a ligar.

“Está pronta?”, perguntou. “Para quê?”, indagou Sarah. “Vamos nos casar, não vamos?

Não está mais namorando outra pessoa, está?”, “Olha, Peri, não tem aliança nenhuma na minha mão”, disse Sarah. “Por que não manda um mensageiro ao Harry Winston’s para comprar uma, e aí nós conversamos?

Peri nunca ligou para o Harry Winston’s, e não voltou a ligar para Sarah durante meses.

Ela disse que até que sentiu saudades dele.

— Eu o adoro — disse. — Sinto pena dele, porque é completamente fodido.

Estava ficando escuro lá fora, mas ninguém queria ir embora. Todas queriam ficar, estarrecidas diante da idéia de que talvez existisse um homem como o Tom Peri, mas que não fosse o Tom Peri.


 O VÍNCULO MATRIMONIAL EM MANHATTAN: MULHERES QUE NUNCA SE CASAM, SOLTERÕES VENENOSOS

Almoço num dia desses. Uma sessão de fofoca maligna com um cara que eu tinha acabado de conhecer. Estávamos falando sobre amigos comuns, um casal. Ele conhecia o marido, eu conhecia a mulher. Eu não conhecia o marido, e já não via a mulher havia alguns anos (a não ser pelos encontros ocasionais na rua), mas, como sempre, estava por dentro da situação.

— Vai acabar mal — disse eu. — Ele era ingênuo. Um caipira. Veio de Boston e não sabia nada sobre ela, e ela mais do que depressa se aproveitou da oportunidade. Ela já tinha dormido com tantos caras em Nova York que já tinha criado fama, e nenhum nova-iorquino ia querer se casar com ela.

Ataquei meu frango frito, aprofundando o tema.

— As mulheres de Nova York sabem das coisas. Elas sabem quando se casar, e é aí que se casam. Talvez tenham transado com caras demais, ou saibam que a carreira delas não vai dar em nada, ou talvez queiram mesmo ter filhos. Até esse ponto, adiam o casamento o quanto podem... Então chega aquele momento, e se não aproveitarem... — dei de ombros — acabou. O mais provável é que nunca se casem.

O outro cara que estava à mesa, um tipo empresário, pai coruja, que mora em Westchester, estava nos olhando horrorizado.

— E o amor, não conta? — perguntou.

Olhei para ele, compassiva.

— Acho que não...

Quando se trata de encontrar um parceiro para o casamento, Nova York tem seus próprios rituais de acasalamento particularmente cruéis, tão complexos e sofisticados quanto os do  romance de Edith Wharton. Todos conhecem as regras — mas ninguém quer falar sobre elas. O resultado é que Nova York gerou um tipo específico de mulher solteira — inteligente, atraente,  realizada profissionalmente e... que nunca se casa. Tem trinta e tantos, ou quarenta anos, e, se o conhecimento empírico serve para alguma coisa, provavelmente jamais se casará.

As estatísticas não têm nada a ver com isso, nem as exceções. Todos sabemos do dramaturgo de sucesso que se casou com a bela figurinista alguns anos mais velha do que ele.  Mas quanto a gente é bonita e famosa, e rica, e “conhece todo mundo”, as regras normais não  se aplicam.

E se, por outro lado, a gente for quarentona, bonita e produtora de televisão, ou tiver nossa própria empresa de relações públicas, mas ainda morar num quarto-e-sala, e dormir num sofá-cama... O equivalente de Mary Tyler Moore nos anos 90? A não ser que, ao contrário da Mary Tyler Moore, a gente tenha ido para a cama com todos aqueles caras em vez de chutá-los puritanamente para fora à meia-noite e dois... O que acontece com essas mulheres?

Há milhares, talvez dezenas de milhares de mulheres assim nesta cidade. Todos conhecemos montes delas, e todos concordamos que são ótimas. Viajam, pagam impostos, pagam 400 dólares por um par de sandálias de tirinhas Manolo Blahnik.

— Não tem nada de errado com elas — disse Jerry, 39 anos, advogado de empresa que por acaso se casou com uma dessas mulheres inteligentes, três anos mais velha do que ele. — Não são loucas, nem neuróticas. Não são tipo Atração fatal. — Jerry fez uma pausa. — Por que conheço tantas mulheres legais que não são casadas, e não conheço nenhum cara solteiro legal?  Vamos encarar, os caras solteiros de Nova York são horríveis.

 

OS M&MS


— O negócio é o seguinte — disse Jerry: — Há uma chance para mulheres se casarem em Nova York. Mais ou menos entre as idades de 26 e 35 anos. Ou quem sabe 36. — Concordamos que, se uma mulher já foi casada uma vez, pode sempre se casar de novo; tem uma história aí de ter experiência em fechar o negócio.

— Mas de repente, quando as mulheres completam 37 anos, ou 38, aparece um monte de... coisas — disse. — Bagagem. Já são rodadas. O passado depõe contra elas. Se eu fosse solteiro e descobrisse que uma mulher saiu com o Mort Zuckerman ou “Marvin”

(um editor) — os M&Ms —ia desistir na hora. Quem quer ser o vigésimo numa fila dessas? E aí, se a garota vem também com aquela de ser mãe solteira, ou ter passado por reabilitação numa clínica para drogados ou alcoólatras... continua não dando pé.

Jerry contou uma história: no verão anterior, estava em um jantarzinho nos Hamptons. Os convidados eram da televisão e do cinema. Ele e a mulher estavam tentando arrumar uma ex- modelo de 40 anos com um cara que tinha acabado de se divorciar. Os dois estavam batendo papo, e de repente surgiu o nome de Mort Zuckerman, e depois do Marvin, e de repente Jerry e a esposa viram o cara perder a linha.

— Tem uma lista de solteirões venenosos em Nova York — disse Jerry. — E eles são letais.

Mais tarde, naquele dia, passei a história para a Anna, que tem 36 anos, e o hábito de discordar de tudo que os homens dizem. Todos os caras querem dormir com ela, e ela vive dando foras neles por serem fúteis. Ela já havia namorado os M&Ms e conhece o Jerry.  Quando lhe contei essa história, ela reagiu com um grito.

— O Jerry está só com inveja. Ele adoraria ser um desses caras, mas não tem dinheiro nem poder para se garantir. Se for ver, bem lá no fundo, todo cara de Nova York quer ser  Mort Zuckerman.

George, de 37 anos, banqueiro de investimentos, é outro cara que considera os solteirões venenosos um problema.

— Esses caras, o cirurgião plástico, aquele editor do Times, o maluco que é dono de clínicas de fertilização artificial, eles todos namoram com o mesmo tipo de mulher e nunca chegam a lugar nenhum — disse. — Claro, se eu conhecesse uma mulher que já tivesse saído com todos esses caras, eu não ia gostar.
 FILHOS — OU LINGERIE?

— Se você for Diane Sawyer, vai sempre conseguir se casar — disse George. — Mas mesmo mulheres que são nota dez ou nove e meio podem ficar para titia. O problema é que em Nova York as pessoas se auto-selecionam de maneira a formar grupos cada vez menores. A gente lida com uma série de pessoas incrivelmente privilegiadas, e os padrões delas são inacreditavelmente altos.

— E depois, vêm todos os seus amigos. Você, por exemplo — disse George. — Não tem nada de errado com os caras com quem namorou, mas sempre os criticamos na sua frente.

Era verdade. Todos os meus namorados tinham sido maravilhosos, cada um a seu modo, mas meus amigos sempre encontravam defeito em todos, sem exceção, me massacrando  impiedosamente por aturar tudo o que eles consideravam visível, mas eu considerava  perdoável. Agora eu estava finalmente sozinha, e todos os meus amigos estavam felizes.

Dois dias depois, esbarrei com George numa festa.

— O negócio são os filhos — disse ele. — Se a gente quiser se casar, acaba tendo filhos, e não  quer se envolver com ninguém com mais de 35 anos, porque aí vai precisar ter filhos logo, e isso corta todo o barato.

Eu resolvi conferir isso com o Peter, 42 anos, escritor, com quem saí duas vezes. Ele concordou com o George.

— O problema todo é a idade e a biologia — disse ele.

— Simplesmente não dá para entender como é imensa a atração que a gente sente no início por uma mulher em idade de ter filhos. Por uma mulher mais velha, 40 talvez, vai ser mais difícil, porque não vai sentir toda aquela atração inicial intensa. Vai precisar se encontrar com ela várias vezes antes de querer ir para a cama com ela, e aí, o lance já é outro.

Lingerie sensual, talvez?

— Acho que a questão das mulheres mais velhas e solteiras é talvez o maior problema de Nova York — rebateu Peter, acrescentando depois, prudentemente: — Isso é motivo de tormento  para muitas, das quais uma grande parte nega que se sinta assim.

Peter contou uma historinha. Ele tem uma amiga de 41 anos. Ela sempre tinha saído com homens extremamente sensuais, só para se divertir. Aí saiu com um cara de seus 20 anos, e ele caçoou dela direto, o tempo todo. Depois, saiu com outro gato da idade dela, e ele a deixou na mão, e de repente ela não conseguiu mais namorado. Ficou totalmente estressada, não deu para segurar mais o emprego, teve que voltar para Iowa, para morar com a mãe. Isso está além do mais terrível pesadelo de qualquer mulher, e não é uma história que faça os homens se sentirem mal.

 

A VERSÃO DO ROGER



 O Roger estava sentado em um restaurante do Upper East Side, na maior, bebendo seu vinho tinto. Ele tem 39 anos, administra seu próprio fundo de investimentos e mora na Park Avenue, em um apartamento de três quartos e três banheiros. Estava pensando no que eu vou chamar de a mudança de poder no meado dos 30.

— Quando a gente é jovem, por volta dos 20, e no inicio dos 30, as mulheres controlam as relações — explicou Roger. — Quando a gente começa a ser um provável candidato ao casamento, com trinta e tantos anos, se sente como se fosse ser devorado pelas mulheres. — Em outras palavras, de repente o cara tem todo o poder. Pode acontecer da noite para o dia.

Roger disse que tinha ido a um coquetel à noitinha, e quando entrou, havia sete solteiras entre trinta e quarenta anos, todas do Upper East Side, todas louras, com vestidos pretos de noite, e cada uma mais espirituosa do que a outra.

— Sabe, não tem como a gente pisar na bola — disse Roger. — As mulheres ficam naquele desespero louco, misturado com uma puta excitação sexual. É uma combinação muito explosiva. A gente vê aquele olhar delas, possessão a todo custo misturada com um respeito saudável pelo fluxo de caixa, e se sente como se elas fossem analisar você de cabo a rabo assim que você sair da sala. O pior é que a maioria delas é realmente interessante, porque não se casa assim sem mais nem menos. Mas quando um homem vê aquele olhar delas... como é que dá para sentir tesão?

Voltando ao Peter, que estava ficando frenético por causa de Alec Baldwin.

— O problema são as expectativas. As mulheres mais velhas não querem só se conformar com o que podem conseguir. Não conseguem encontrar caras legais e vigorosos, então dizem, que se dane... eu prefiro ficar sozinha. Não, eu não sinto pena de ninguém que tenha expectativas que não possa alcançar. O que essa pessoa quer mesmo é o Alec Baldwin. Não tem uma mulher em Nova York que não tenha dado o fora em dez caras maravilhosos e carinhosos porque eram gordos demais ou não tinham poder suficiente, nem dinheiro que bastasse, nem eram indiferentes como elas queriam. Mas aqueles caras bonitões que as mulheres esperam estão  interessados em meninas de vinte aninhos.

A essa altura, Peter já estava praticamente gritando.

— Por que essas mulheres não se casam com um gordo? Por que não se casam com uma baleia daquelas bem grandes?


 BONS AMIGOS, PÉSSIMOS MARIDOS

 Fiz essa mesma pergunta a Charlotte, a jornalista inglesa.

— Vou lhe dizer por quê — respondeu ela. — Eu saí com alguns desses caras, aqueles que são tampinhas, gordos e feios, e não vi diferença nenhuma. Eles são tão ingratos e egoístas quanto os bonitões.

— Quando a gente chega aos trinta e ainda não está casada, pensa: “Por que eu me amarraria?” — prosseguiu Charlotte. Ela disse que simplesmente dispensou um encontro com um banqueiro de 41 anos recém-divorciado e altamente aceitável porque as partes íntimas dele eram pequenas demais. — Assim do tamanho de um indicador — suspirou ela.

Aí Sarah resolveu dar palpite. Tinha acabado de conseguir grana para seu primeiro filme independente, e estava nas nuvens.

— Essa idéia de as mulheres não serem capazes de se casarem é tão ridícula que nem mesmo consigo admitir uma coisa dessas. Se quer agarrar um cara desses, precisa calar o bico. Ficar ali sentada, caladinha, concordando com tudo que eles dizem.

Por sorte, minha amiga Amalita ligou e explicou tudo para mim. Explicou por que mulheres fantásticas costumam ficar sozinhas, e ficam infelizes com isso, mas não exatamente desesperadas, também. “Ah, querida”, ela arrulhou ao telefone. Estava de bom humor porque tinha transado na noite anterior, com um estudante de Direito de 24 anos.

“Todo mundo sabe que os homens em Nova York dão ótimos amigos e péssimos maridos. Na América do Sul, de onde eu venho, temos um ditado: antes só do que mal acompanhada...”


 EIS OS CARAS QUE LEVAM MODELOS PARA A CAMA!

 Houve apenas um leve rebuliço quando “Gregory Roque”, o cineasta badalado, entrou sorrateiramente no Bowery Bar numa dessas noites de sexta-feira. Autor de filmes tão controvertidos quanto G.R.F (Gerald Rudolf Ford) e The Monkees, o Sr. Roque estava cabisbaixo, vestido com um paletó de tweed vulgar. Cercava-o um  enxame de seis jovens modelos novas que trabalhavam para uma agência de renome. Todas as moças tinham menos de 21 [duas tinham só 16) e a maioria delas nunca tinha visto os filmes do Sr. Roque, e, pelo jeito não  davam a mínima para eles.

Funcionando como dois pequenos reboques para manter o enxame em movimento e intacto vinham os “modelengos”, Jack e Ben — dois investidores autônomos, na faixa dos trinta —, homens que não tinham nada de peculiar, salvo pelo fato de um ser dentuço e o outro estar com um corte de cabelos  arrepiado e modernoso.

À primeira vista, o grupo parecia animado. As moças sorriam. O Sr. Roque sentou-se em um banco comprido, ladeado por suas belas, enquanto os dois jovens sentavam-se nas  cadeiras junto à passagem, como se para afastar quaisquer intrusos que pudessem tentar puxar conversa com o Sr. Roque ou pior, roubar uma das garotas.

O Sr. Roque inclinava-se para uma e outra moça, trocando algumas palavras com cada uma. Os rapazes eram animados. Mas o clima ali não era tão cordial quanto parecia. Por um lado, se a gente olhasse as moças bem de perto, ia ver o tédio correndo as suas feições como a velhice. Elas não tinham nada para conversar com o Sr. Roque, e menos ainda a dizer umas  às outras. Só que todos na mesa tinham um papel a desempenhar, e estavam trabalhando  muito bem. O grupo ficou ali só sentado, dando espetáculo, e depois de algum tempo, entraram na limusine do Sr. Roque, e foram para o Tunnel, onde o Sr. Roque dançou meio  sem jeito com uma das moças e aí sacou que estava entediado até a raiz dos cabelos e foi para  casa sozinho. As moças ficaram mais um pouco e tomaram drogas, e depois Jack, que tinha o corte de cabelos arrepiado, agarrou uma das moças e disse: “Sua cachorra desmiolada”, e ela foi para casa com ele. Ele lhe deu mais umas doses e ela chupou o pau dele.

Esse tipo de coisa acontece quase toda noite em Nova York, em restaurantes e clubes. Ali, alguém invariavelmente encontra as belas e jovens modelos que convergem para Nova York feito pássaros em migração, e seus assistentes, homens como Jack e Ben, que praticamente criaram a profissão de beber e jantar com elas, e, com variados graus de sucesso, seduzi-las.  Apresento-lhes os “modelengos”.

Os “modelengos” são tipos especiais. Estão um passo além dos mulherengos comuns, que dormem com qualquer coisa que use saia. Os modelengos são obcecados não por mulheres, mas por modelos. Eles as adoram por sua beleza e as odeiam pelo resto. “A burrice delas, a  excentricidade, a ausência de valores, a bagagem”, diz Jack. Os modelengos habitam uma espécie de universo paralelo, com seus próprios planetas (Nobu, Bowery Bar, Tabac, Flowers, Tunnel, Expo, Metropolis) e satélites (os vários apartamentos, muitos perto da Union Square, que as grandes agências de modelos alugam para elas) e deusas (Linda, Naomi, Christy, Elle, Bridget).

Bem-vindos ao mundo deles. Não é nada bonito.


OS MODELENGOS

Não é todo homem que pode se tornar um modelengo.

— Para pegar modelos, o cara tem que ser rico, muito pintoso e/ou ser artista de algum tipo — disse Barkley. Ele é um artista promissor, e tem um rosto semelhante ao de um anjo de Boticelli, emoldurado por cabelos louros cortados ao estilo pajem. Ele está sentado no seu pequeno loft no SoHo, cujo aluguel é pago pelos seus pais, como o resto de suas despesas, pois seu pai é um magnata dos cabides em Mineapolis. O que cai como uma luva para Barkley, porque ser modelengo não sai barato — é preciso bancar bebidas em boates, jantares, táxi de uma boate para outra, e drogas, na maior parte do tempo maconha, mas ocasionalmente heroína e cocaína. Também toma tempo — muito tempo. Os pais de Barkley pensam que ele é pintor, mas ele passa os dias ocupado demais, organizando suas noites com as modelos.

— Francamente, eu estou meio confuso com esse negócio todo de modelos — diz Barkley.  Ele está andando de um lado para o outro no loft vestindo calças de couro, sem camisa. Os cabelos estão recém-lavados, e o peito tem mais ou menos uns três pêlos.

— A gente precisa tratá-las como moças normais — diz. Depois acende um cigarro e continua: — Precisa ser capaz de entrar num lugar e chegar junto da gata mais fantástica do pedaço, senão, já era. É como estar com cachorros, não pode demonstrar que está com medo deles.

O telefone toca. Hannah. Ela está tirando fotos em Amsterdã. Barkley põe no viva-voz. Ela está sozinha, e na maior viagem.

— Estou com saudades, meu gato — geme ela. A voz dela parece a de uma serpente tentando se arrastar para fora da pele. — Se você estivesse aqui comigo essa noite, eu abocanhava seu pau até ele chegar na minha goela. Aoaaaaahhhhh. Eu adoro tanto isso, meu tesão...

— Está vendo? — diz Barkley. Ele fala com ela, passando os dedos pelos cabelos. E acende um baseado. —Estou fumando com você agora, gata.

— Tem dois tipos de modelengos: os que fecham negócio e os que não fecham — diz Coerte Felske, autor de Shallow Man, um romance sobre um homem que persegue modelos.

Liderando o grupo estão os supermodelengos — homens que são vistos com donas como Elle Macpherson, Bridget Hall, Naomi Campbell.

— Existem caras assim em qualquer lugar em que as modelos se reúnam — Paris, Milão e Roma — diz o Sr. Felske. — Esses sujeitos têm status no mundo das modelos. São capazes de derrubar  modelos como se elas fossem discos de argila. Fazem delas gato e sapato.

Mas nem todos os modelengos são assim mirabolantes. Em Manhattan, um ponto obrigatório para jovens modelos inexperientes, basta ser rico. Por exemplo, George e seu parceiro, Charlie. Em qualquer noite da semana, George e Charlie levam um grupo de modelos, às vezes até 12, para jantar fora.

George e Charlie podiam ser da Europa Central, ou do Oriente Médio, mas na verdade são de New Jersey.  Trabalham com importação e exportação, e embora nenhum dos dois tenha 30 anos ainda, valem alguns milhões cada um.

— Charlie nunca vai para a cama — diz George, rindo e girando a cadeira de couro atrás de uma enorme escrivaninha de mogno no seu escritório. No chão, tapetes orientais, e nas paredes, quadros autênticos. George diz que não se importa em ir para a cama.

— É um esporte — afirma.

— Para esses caras, as moças são uma mera extensão, assim como um troféu — confirma o Sr. Felske. — Talvez eles se sintam feios ou sejam apenas ambiciosos demais.

No ano passado, George engravidou uma modelo de 19 anos. Ele a conhecia havia 5 semanas. Agora eles têm um filho de 9 meses. Ele não se encontra mais com ela. O que ela quer é o seguinte: 4.500 dólares por mês para sustentar o bebê, um seguro de vida de 500.000 dólares e uma verba para a universidade de 50.000 dólares.

— Acho que é um pouco demais, não? — indaga George. Quando ele sorri, dá para ver que a parte superior dos dentes é cinza.


 AS GAROTAS DA WILHELMINA

 E aí, como é que um cara vai parar na situação do George?

— Elas só andam em grupo — explica Barkley. — É um grupo bem fechado. As modelos se agrupam e vivem juntas em apartamentos para modelos. Não se sentem seguras, a menos que saiam juntas. Isso intimida os oportunistas.

“Por outro lado, funciona a favor do cara, porque se houver 20 modelos num lugar, aquela que o cara quer nunca é a mais bonita. É por isso que sempre há mais de uma opção. Se houver apenas uma modelo no recinto, a mais bonita é ela, e ela vai conseguir te driblar. Quando você chega num grupo de quatro ou cinco, aquela garota que você aborda acha que é melhor do que as outras.

O truque é se apresentar a uma moça só. A melhor maneira de chegar é através de um amigo comum.

— Uma vez que um cara consiga acesso, uma vez que uma das moças te aceite — diz o Sr.  Felske —, aí o cara deixa de ser um joão-ninguém qualquer.

Há três anos, George estava numa boate onde esbarrou com uma garota que conhecia do colegial e que estava trabalhando com um empresário dono de uma agência. Conheceu algumas modelos. Tinha drogas. No fim, todos foram para o apartamento das modelos. Ele tinha o suficiente para abastecer a todos até as sete da manhã. Depois trepou com uma delas.  No dia seguinte, ela concordou em se encontrar com ele outra vez, mas só se todas as outras pudessem ir também. Ele as levou todas para jantar. E continuou fazendo isso.

— Foi aí que começou a obsessão — diz.

George conhece todos os apartamentos de todas as modelos agora — os lugares em que, por 500 dólares por mês, uma modelo nova dorme num beliche em um apartamento apertadinho de dois ou três quartos com cinco outras garotas. Mas ele precisa se atualizar sempre, porque as moças vêm e vão o tempo todo, e é preciso manter a ligação com pelo menos uma das moças do apartamento.

Mesmo assim, o suprimento é garantido.

— É mole — diz George. Ele pega o telefone e disca um número.

— Alô, a Susan está? — pergunta.

— Susan está em Paris.

— Ooooooh — responde ele, parecendo decepcionado. — Sou um velho amigo dela [na verdade só a conhece há dois meses], e acabei de voltar para a cidade. Que droga. Quem fala?

— Sabrina.

— Oi, Sabrina, sou o George. — Eles papeiam mais ou menos dez minutos. — Estive pensando em ir ao Bowery Bar hoje à noite. Organizar um grupinho. Quer vir com a gente?

— Hummmm. Talvez, por que não? — diz Sabrina. Pode-se praticamente ouvir o polegar dela estalando ao sair da boca.

— E quem mais está aí com você? — indaga George.

— Acha que vão querer ir também? George desliga.

— Na verdade, é melhor haver mais caras que moças quando a gente sai — diz. — Se houver mais moças, elas começam a competir entre si. Ficam caladas. Se uma moça estiver se encontrando com um cara e ela contar às outras, pode ser uma roubada. Ela acha que as meninas com quem mora são suas amigas, mas não são. São moças que acabou de conhecer e por acaso estão na mesma situação. As garotas vivem tentando roubar os namorados umas  das outras o tempo todo.

— Tem um monte de veados por aí — disse o Sr. Felske.

George diz que tem uma técnica.

— Existe uma hierarquia de disponibilidade sexual nos apartamentos das modelos — diz ele.  — As garotas da Wilhelmina são as mais fáceis. Willi tende a pegar garotas que crescem em zonas mais pobres, ou no East End de Londres. A Elite tem dois apartamentos, um nos bairros residenciais, na rua 86, e outro no centro, na 16. Colocam as modelos melhores no subúrbio. As moças do centro são as “mais amistosas”. Moças que moram com Eileen Ford são intocáveis. Um motivo é que a empregada da Eileen bate o telefone na cara da gente quando ligamos.

— Um bando dessas garotas mora entre a 28 e a Union Square. Tem as Torres Zeckendorf na 15. E um lugar na 22 com a Park Avenue South. As mais velhas, que trabalham muito, tendem a morar no East Side.


 O GLOSSÁRIO DOS MODELENGOS

 Coisa = modelo Civil = mulher que não é modelo.

Falamos disso o tempo todo, como é difícil voltar às civis — diz George. — A gente nunca conhece mulheres assim, nem tenta conhecê-las.

— É mais fácil levar uma modelo para a cama do que uma civil com uma carreira pela frente — diz Sandy. Sandy é um ator com olhos verdes brilhantes.

— As civis alimentam expectativas com relação aos homens.

 

AS COISAS DISSECADAS



 Noite de quinta no Barolo. Mark Baker, o gerente e animador do lugar, está dando uma das suas festas especiais. A coisa rola da seguinte forma: os animadores mantêm um relacionamento com as agências. As agências sabem que os animadores são “seguros”, ou  seja, eles vão cuidar direitinho das modelos, diverti-las. Por sua vez, os animadores precisam dos modelengos para levar as garotas para passear. Os animadores não têm dinheiro para  levar as garotas para jantar. Os modelengos, sim. Alguém tem que alimentá-las. O modelengo  conhece alguém como o Sr. Roque. O Sr. Roque quer moças. Os modelengos querem moças, e elas também querem sair com o Sr. Roque, e assim fica todo mundo feliz.

Lá fora, nessa noite de quinta, criou-se um pandemônio na calçada. É gente empurrando, tentando chamar a atenção de um sujeito alto com cara de malvado, que pode ser parte oriental, parte italiano. O lugar está lotado. Todos estão dançando, todos são altos e lindos.

A gente fala com uma moça com sotaque europeu forçado. Aí chega uma moça do Tennessee que acabou de voltar de uma viagem à terrinha natal. “Eu estava de boca-de-sino e sapatos de plataforma, e o meu ex-namorado disse: ‘Carol Anne, mas que roupa mais fuleira é essa?’ E eu respondi na bucha: ‘Ah qual é, baby. Aqui é Nova York.”‘ Jack passa, sorrateiro, e começa a falar.

— Mesmo tapadas, as modelos são bem manipuladoras. A gente pode dividi-las em três tipos. O primeiro são as moças novas na cidade. Em geral são bem novinhas, têm 16, 17 anos.  Saem pra burro. Talvez nem trabalhem tanto, querem algo para fazer, precisam conhecer gente, como fotógrafos, por exemplo. Segundo tipo: aquelas que trabalham pra cacete. São um pouco mais velhas, 21 para cima, já estão no mercado há uns cinco anos. Nunca saem, viajam muito, a gente quase não as vê. E o terceiro tipo é a supermodelo. Elas procuram um cara espetacular que faça algo por elas. Vivem obcecadas por dinheiro, talvez porque as carreiras delas já estejam em decadência. Nem mesmo olham para quem tem menos de 20 ou 30 milhões. Além disso, têm o complexo das “famosas”: não saem com nenhuma moça que não seja top model, e ignoram outras modelos ou falam mal delas.

Você vai ao banheiro com Jack e fica por ali.

— Quando elas completam 21 anos, já estão bem rodadas — diz Jack. — Têm um passado: filhos. Os caras com os quais dormiram. Caras de quem não gostam. A maioria vem de lares desfeitos ou tem passado ruim. São lindas, mas no final não fazem nada por você. São jovens.  Não têm instrução. Não têm valores, saca? Eu prefiro as mais velhas. A gente precisa encontrar uma sem muita bagagem, e é isso que procuro.


 SE PEGAR UMA, PEGA TODAS

 — O truque é pegar uma das grandes, como uma Hunter Reno ou Jauna Rhodes — diz George.  — São garotas que fizeram capas na Europa. Se conseguir uma, consegue todas. Numa boate, preste atenção às mais velhas. Elas sempre querem ir para casa cedo porque precisam levantar de manhãzinha para trabalhar. A gente as leva até o táxi, bancando o cavalheiro, volta e ataca as mais jovens.

— Essas moças só querem conforto — diz o Sr. Felske.

— São muito jovens. Só estão procurando seu caminho em um mundo adulto. Não estão totalmente desenvolvidas ainda, e aí conhecem esses caras que sabem todos os truques. A coisa é mesmo complicada.

Voltando ao loft, Barkley abre uma garrafa de Coca e senta-se num banco no meio da sala.

— A gente pensa: “Quem é mais bonita que uma modelo?” Mas elas não são tão espertas, são instáveis e ferradas, são muito mais piradas do que você pensa. É muito mais fácil foder com uma modelo do que com uma moça comum. É isso que elas fazem o tempo todo. É como as pessoas comuns são quando estão de férias. Estão fora de casa, então fazem coisas que não fariam normalmente. Mas essas mulheres vivem fora o tempo todo porque viajam de lugar para lugar. Então é isso que fazem o tempo inteiro.

Barkley toma um gole da Coca e coça a barriga. São três da tarde, e ele acabou de acordar, há uma hora.

— São nômades — diz ele. — Elas têm um cara em cada cidade. Ligam para mim quando estão em Nova York, e eu sempre imagino que elas ligam para outra pessoa quando estão em Paris ou Roma ou Milão. Fingimos que saímos quando elas estão na cidade. Ficamos de mãos dadas e nos visitamos todos os dias. Um monte de garotas quer isso. Mas depois, somem. —  Barkley boceja. — Sei lá. Tem tantas mulheres lindas em volta da gente que depois de algum tempo começamos a procurar alguém que seja capaz de nos fazer rir.

— Às vezes fico bobo de ver o que fazemos para estar com essas meninas — diz George. — Eu fui à igreja com uma moça e a filha dela. Comecei a andar quase exclusivamente com mulheres mais velhas. Preciso me aposentar logo. Elas impedem que eu trabalhe. Estão estragando minha vida. — George dá de ombros e espia pela janela do apartamento no 34° andar com vista para o centro de Manhattan. — Olhe só pra mim — diz. — Sou um velho aos 25 anos.
A ÚLTIMA SEDUÇÃO DE NOVA YORK: AMOR PELO MR. BIG

 Uma produtora de filmes quarentona que chamarei de Samantha Jones entrou no Bowery Bar e, como sempre, todos reparamos nos acompanhantes dela. Samantha sempre andava com pelo menos quatro homens, e o jogo era descobrir quem era o amante. Naturalmente, não era bem um jogo, porque era moleza distinguir quem era o namorado. Invariavelmente era o mais jovem e bonito, estilo ator de filmes classe B de Hollywood — e sentava- se com uma expressão de bobo alegre na cara (caso tivesse acabado de conhecer a Sam) ou uma cara de bobo entediado, se já tivesse saído com ela algumas vezes. Se tivesse, estaria começando a cair a ficha de que ninguém na mesa ia falar com ele. Por que falariam, sabendo que ele levaria o fora em duas semanas?

Todas admirávamos a Sam. Antes de mais nada, não é fácil assim pegar caras de 25 anos quando se está com quarenta e poucos. Em segundo lugar, Sam é uma inspiração para Nova York. Porque se a gente for uma mulher solteira de sucesso nessa cidade, tem duas escolhas: pode-se bater com a cabeça na parede tentando encontrar um relacionamento, ou pode-se dizer “que se dane” e simplesmente sair por aí transando feito homem. E é isso o que a Sam faz.

Essa é uma verdadeira dúvida das mulheres de Nova York ultimamente. Pela primeira vez na história de Manhattan, muitas mulheres de seus trinta a quarenta e poucos anos têm tanto dinheiro e poder quanto os homens — ou pelo menos o suficiente para sentir que não precisam de homem, a não ser para o sexo. Embora esse paradoxo seja tópico de muitas consultas psicanalíticas, recentemente minha amiga Carrie, jornalista de seus trinta e poucos anos, resolveu, enquanto nosso grupo tomava chá no Mayfair Hotel, fazer uma incursão no mundo real. Desistir do amor, em si, e conectar-se com o poder, para descobrir a satisfação. E, como veremos, funcionou. Mais ou menos.

 

MULHERES MOVIDAS A TESTOSTERONA HOMENS ABOBALHADOS



— Acho que estou virando homem — disse Carrie. Ela acendeu o vigésimo cigarro do dia, e quando o maitre veio correndo lhe pedir para apagá-lo, ela respondeu: — Ora, eu nem sonharia em incomodar alguém. — Depois apagou o cigarro no tapete.

— Lembra-se de quando dormi com aquele tal de Drew? — indagou ela. Todas confirmamos. Na época, ficamos todas aliviadas, porque fazia meses que não trepava. — Ora, depois eu não senti nada.

Eu só virei para ele e disse, olha, meu amor, preciso ir trabalhar, tá, vê se telefona. E ponto final. Depois disso me esqueci completamente dele.

— Mas, também, por que é que você deveria sentir alguma coisa? — indagou Magda. — Os homens não sentem. Eu não sinto nada depois do sexo. Ah, sim, eu bem que gostaria, mas para quê?

Todas ficamos ali, recostadas, presunçosas, tomando nosso chá, como se fôssemos sócias de algum clube especial. Éramos duronas e nos orgulhávamos disso, e não tinha sido fácil chegar a esse ponto — essa situação de independência completa onde podíamos nos dar ao luxo de tratar os homens como objetos sexuais. Fora preciso dar duro, agüentar a solidão, e entender que, como talvez nunca encontrássemos ninguém para ficar ao nosso lado, era preciso aprender a cuidar de nós mesmas, em toda a acepção da palavra.

— E bem verdade que as cicatrizes são muitas — disse eu. — Todos os caras acabam te decepcionando, né? Depois de algum tempo, a gente não quer nem mesmo ter mais sentimentos. A gente só quer seguir adiante, viver a vida.

— Acho que são os hormônios — disse Carrie. — Um dia desses, eu estava no cabeleireiro, fazendo uma hidratação, porque vivem me dizendo que meu cabelo está todo quebrado. E aí eu li um artigo na Cosmo sobre a testosterona nas mulheres — um estudo aí que descobriu que as mulheres que têm altos níveis de testosterona são mais agressivas, bem-sucedidas, têm mais parceiros sexuais e menor probabilidade de se casarem. Havia nessa reportagem uma coisa altamente consoladora: me fez sentir normal.

— O negócio é fazer os homens colaborarem — disse Charlotte.

— Os homens dessa cidade não dão uma dentro — disse Magda. — Eles não querem se envolver, mas assim que descobrem que a gente só quer transar com eles, não gostam. Não conseguem agir da forma que esperamos que ajam.

— Já ligou para a casa de algum cara à meia-noite e disse “Quero dar um pulinho aí”, e ele disse sim? — indagou Carrie.

— O problema é que o sexo não fica por isso mesmo — disse Charlotte. Ela chamava os amantes fantásticos de Deuses do Sexo. Mas mesmo ela estava enrolada. Sua conquista mais recente era um poeta magnífico na cama, mas que, segundo ela, “vive querendo que saia para jantar com ele, e bata papo, essas coisas”.  Recentemente, ele havia parado de telefonar. — Queria ler as poesias dele para mim, e eu não deixava.

— Tem um limite bem tênue entre a atração e a repulsão — continuou ela. — E em geral a repulsão começa quando eles começam a querer que você os trate como gente, em vez de como seu brinquedo.

Perguntei se havia realmente alguma forma de se comportar como uma “mulher que  transa feito homem”.

— A gente tem que ser aquela megera — disse Charlotte. — Ou isso, ou então tem que ser incrivelmente simpática e meiga. A gente passa despercebida. Isso confunde os homens.

— É tarde demais para ser meiga — disse Carrie.

— Então acho que é melhor apelar para o lado megera — disse Magda. — Mas tem uma coisa de que você se esqueceu.

— O quê?

— Se apaixonar.

— Desconfio que não — disse Carrie. Recostou-se na cadeira. Estava vestida com jeans e uma velha jaqueta Yves Saint-Laurent. Sentou-se como um homem, as pernas abertas. — Vou fazer isso: vou me transformar numa verdadeira megera.

Olhamos para ela e rimos.

— Qual é o problema? — indagou Carrie.

— Você já é!

 

COMO CARRIE CONHECEU MR. BIG



Como parte de sua pesquisa, Carrie foi ver O poder da sedução às três da tarde. Tinha ouvido dizer que o filme mostrava uma mulher que, para conseguir dinheiro, trepar adoidado e ter o controle absoluto, usa e abusa de todos os homens que conhece — e nunca se arrepende nem entra naquela de pôr a mão na consciência e dizer:

“Ai, meu Deus do céu, o que foi que eu fiz?”

Carrie jamais vai ao cinema — a mãe dela é tipo branca, anglo-saxã, protestante, e lhe disse que só os pobres com filhos doentes mandam as crianças para o cinema — então para ela foi um acontecimento e tanto. Ela chegou tarde, e quando o bilheteiro lhe disse que o filme já havia começado, ela respondeu: “E eu com isso? Estou aqui para pesquisar. Não acha que iria mesmo assistir a esse filme, se não fosse por isso, acha?”

Quando ela saiu, ficou pensando na cena em que Linda Fiorentino arranja um homem num bar e transa com ele no estacionamento, agarrada em uma cerca de alambrado. Mas que apelação era aquela?

Carrie comprou dois pares de sandálias de salto alto de tirinhas e deu um corte nos cabelos.

Em uma noite de sábado, foi a um coquetel dado pelo figurinista Joop — uma dessas festas que deviam aparecer num filme, com todos se acotovelando, veados desmunhecando para caramba, e mesmo que Carrie tivesse que trabalhar no dia seguinte, sabia que ia acabar bebendo demais e indo para casa tarde demais. Carrie não gosta de voltar para casa à noite, e não gosta de ir dormir.

O Sr. Joop, muito inteligente que era, ficou sem champanhe em plena festa, e as pessoas batiam à porta da cozinha e suplicavam um copo de vinho aos garçons. Passou um homem de charuto na boca, e um dos homens com os quais Carrie estava falando disse: “Oooooh. Quem é mesmo esse aí? Parece um Ron Perelman mais jovem, e mais interessante.”

— Eu sei quem é — disse Carrie.

— Quem?

— Mr. Big.



— Eu sabia. Eu sempre confundo o Mr. Big com o Perelman.

— Quanto me daria — disse Carrie — se eu fosse lá falar com ele? — Depois fez uma coisa nova que está fazendo agora com o cabelo curto. Ela o afofou enquanto os rapazes olhavam para ela e riam. — Você pirou — disseram.

Carrie tinha visto o Mr. Big uma vez antes, mas não achava que ele ia se lembrar dela. Ela estava num escritório onde trabalha às vezes, dando uma entrevista à Inside Edition sobre alguma coisa que havia escrito sobre chihuahuas. Mr. Big entrou e começou a comentar com o cinegrafista que havia chihuahuas em toda parte em Paris, e Carrie se inclinou e apertou o cadarço do sapato.

Na festa, Mr. Big estava sentado no aquecedor na sala de visitas.

— Oi — cumprimentou Carrie. — Lembra-se de mim?

— Ela era capaz de jurar pelos olhos arregalados dele que não fazia a mínima idéia de quem ela era, e ela ficou se perguntando se ele iria entrar em pânico.

Ele girou o charuto por dentro dos lábios e tirou-o da boca. Olhou para o outro lado, enquanto se livrava da cinza, depois voltou a olhá-la.

— Sem a menor sombra de dúvida.

 

OUTRO MR. BIG (NO ELAINE’S)



 Carrie passou vários dias sem tornar a ver o Mr. Big. Nesse meio tempo, porém, alguma coisa estava definitivamente acontecendo. Ela esbarrou em um amigo escritor que já não via havia dois meses, e ele disse: “O que está havendo com você? Você parece completamente  diferente.”

— Pareço, é?

— Parece Heather Locklear. Fez alguma coisa nos dentes?

Então ela foi ao Elaine’s, e um grande escritor, grande mesmo, alguém que ela jamais tinha conhecido, fez um gesto obsceno para ela, depois se sentou ao seu lado e disse:

— Você não é tão durona quanto pensa que é.

— Como disse?

— Você está se comportando como se fosse o máximo na cama.

Ela sentiu vontade de dizer: “Ah é?”, mas em vez disso riu e disse:

— Sabe, talvez eu seja mesmo.

Ele acendeu-lhe o cigarro.

— Se eu quisesse ter um caso com você, teria que durar um bom tempo. Não iria para a cama por uma noite apenas.

— Bom, meu querido — disse ela. — Então chegou na garota errada.

Aí foi para uma festa depois de uma daquelas estréias de filmes organizadas pela hostess  Peggy Siegal e esbarrou num produtor de filmes desses de destaque, um outro dos grandes, e ele lhe deu uma  carona para o Bowery Bar. Mas o Mr. Big estava lá.

Mr. Big sentou-se sorrateiramente no banco ao lado dela. Chegavam a encostar um no outro.

Aí ele disse:

— Oi. O que andou fazendo ultimamente?

— Além de sair todas as noites?

— É... No que você trabalha?

— Trabalho nisso — disse ela. — Estou pesquisando uma matéria para uma amiga minha, sobre mulheres que transam como homens. Sabe, elas transam, mas depois não sentem nada.

Mr. Big ficou só olhando para ela.

— Mas você não é assim — disse ele.

— Você não é? — perguntou ela.

— Nem um pouco. Nem mesmo metade de um pouco — disse ele.

Carrie olhou bem para o Mr. Big.

— Qual é o seu problema?

— Ah, já saquei — disse o Mr. Big. — Você nunca se apaixonou.

— Ah, acha isso, é?

— É.


— E você, já?

— Sem a menor sombra de dúvida.

Eles foram para o apartamento dele. Mr. Big abriu uma garrafa de champanhe Crystal.

Carrie riu, zoou muito, depois disse:

— Preciso ir.

— São quatro da manhã — disse ele. Levantou-se. —Não vou deixar você voltar para casa a uma hora dessas.

Ele lhe deu uma camiseta e um par de cuecas samba-canção. Foi para ao banheiro enquanto ela trocava de roupa. Ela se deitou e se acomodou contra os travesseiros de penas.

Fechou os olhos. Era a cama mais confortável em que ela já havia se deitado na vida.

Quando ele voltou ao quarto, ela já estava ferrada no sono.

 

AS DOIDAS INTERNACIONAIS



Se você tiver sorte (ou azar, dependendo da forma pela qual encara a coisa), pode um dia esbarrar num certo tipo de mulher em Nova York. Como uma ave migratória de cores vivas, ela está sempre de partida. E não por motivos mundanos, para comparecer a compromissos de uma agenda abarrotada. Essa mulher viaja de um ponto turístico internacional para o outro. E quando se cansa da temporada festiva de Londres, quando já está farta de esquiar em Aspen ou Gstaad, quando já está cheia das festas que varam a noite na América do Sul, ela talvez volte a pairar — temporariamente, vejam bem — em Nova York.

Em uma tarde chuvosa de janeiro, uma mulher que chamarei de Amalita Amalfi chegou ao Aeroporto Internacional Kennedy, procedente de Londres. Usava um casaco branco de pele sintética da Gucci, calças pretas de couro feitas sob medida na New York Leather (“São o último par que fizeram com esse couro — eu precisei disputá-las com Elle Macpherson.”), e óculos escuros. Trazia dez malas T. Anthony, e parecia uma estrela de cinema. A única coisa que faltava era a limusine, mas ela tratou disso, pedindo a um executivo com cara de bacana para ajudá-la com a bagagem. Ele não conseguiu resistir — como praticamente nenhum homem é capaz de resistir a Amalita — e quando viu, ele, Amalita  e as dez malas T. Anthony já estavam seguindo lentamente rumo à cidade numa limusine por  conta da empresa dele, e o cara já estava se oferecendo para levá-la para jantar aquela noite.

— Eu adoraria, querido — disse ela, naquela voz ofegante e com ligeiro sotaque que trai a educação em escolas suíças e a freqüência a bailes palacianos —, mas estou terrivelmente cansada. Eu só vim a Nova York para dar um tempo, sabe? Mas poderíamos, quem sabe, tomar chá juntos amanhã, que tal? No Four Seasons? E aí talvez fazer umas comprinhas depois. Preciso de umas coisas da Gucci.

O executivo concordou. Ele a deixou na frente de um edifício no Beekman Place, anotou o número de telefone dela, e prometeu ligar mais tarde.

No apartamento, Amalita mandou ligar para a Gucci. Afetando um sotaque inglês da alta, disse: “Aqui é lady Caroline Beavers. Vocês têm um casaco reservado para mim aí. Acabei de chegar à cidade, e vou pegá-lo amanhã.

— Perfeitamente, lady Beavers — disse o vendedor. Amalita desligou e riu.

No dia seguinte, Carrie estava ao telefone com um velho amigo, Robert.

— Amalita voltou — disse ela. — Vamos almoçar juntas.

— Amalita! — disse Robert. — Ainda está viva? Ainda é bonita? Ela é um perigo! Mas se você for um cara e levá-la para a cama, é como se tornar sócio de um clube especial. Sabe, ela já transou com o Jake, com o Capote Duncan... todos esses astros do rock, bilionários.

É uma coisa que te vincula, sabe. O cara pensa... eu e o Jake.

— Ah, os homens! — exclamou Carrie. — São mesmo ridículos.

Robert nem ouviu.

— Não há muitas como a Amalita — disse ele. —Gabriella era uma delas. Marit também. E a Sandra. Amalita é tão bonita, sabe, e engraçada, mesmo, muito ousada, quero dizer, ela é incrível. A gente esbarra numa mulher dessas em Paris, e vão estar usando um vestido  transparente, ou coisa assim, e aí a gente fica louco e vê as fotos delas na W, essas coisas, e o  encantamento delas vai crescendo dentro da gente... O poder sexual delas é uma força deslumbrante e fabulosa que pode mudar sua vida, aí você pensa, se eu pudesse, mas não pode, e aí...

Carrie bateu o telefone na cara dele.

Às duas daquela tarde, Carrie estava sentada no bar com Harry Cipriani, esperando Amalita chegar. Como sempre, estava meia hora atrasada. No bar, um executivo, sua colega e o cliente deles estavam falando sobre sexo.

— Acho que os homens perdem o tesão por mulheres que vão para a cama com eles na primeira noite — disse a mulher. Estava com um conjunto azul-marinho discretíssimo. — A gente precisa esperar pelo menos três encontros se quiser que os homens nos levem a sério.

— Depende da mulher — disse o cliente. Tinha uns trinta e poucos anos, parecia alemão, mas falava com sotaque espanhol. Um argentino.

— Não entendi — disse ela.

O argentino olhou para ela.



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