Sessão solene de abertura das comemoraçÕes do 50º aniversário do vulcão dos capelinhos



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SESSÃO SOLENE DE ABERTURA DAS COMEMORAÇÕES DO 50º ANIVERSÁRIO DO VULCÃO DOS CAPELINHOS
Horta, 27 de Setembro de 2007
Versão integral da intervenção do presidente do Governo, Carlos César, na, realizada quinta-feira à noite na Horta:
"Conceber, do ponto de vista da geografia física, as ilhas açorianas como seres humanos - uma vez que se apercebeu da vida especial que as animava - foi uma ideia que surgiu ao Cronista das Ilhas, Gaspar Frutuoso. Daí que, simbolicamente, ele tenha representado, por exemplo, as ilhas de S. Miguel e de Santa Maria como gigantes, imaginando-as marido e mulher, a dormir o sono da morte, com seus braços enlaçados, no "grande mar oceano".
Frutuoso destacaria, aliás, a diferença de comportamentos das duas ilhas do Grupo Oriental, particularmente no âmbito da litosfera: a primeira intensamente nervosa - com manifestações sísmicas e eruptivas impressionantes -, a segunda - com recatos de mulher! - muito mais calma.
Porém, de um modo geral, todo o arquipélago se afirmará como um organismo físico-ecológico muito instável.
Na verdade, as primeiras descrições das nossas ilhas não calam as informações acerca das actividades sísmicas e eruptivas, mostrando-as imbuídas, compreensivelmente, de algum fantástico.
Como Diogo Gomes de Sintra, sem conseguir evitar o discurso hiperbólico, falava-se d' "…a Terra (que) aqui queima como e estevesse foguo debaixo. E assi está nella huum monte cheio de fogo que no verão parece carvam vivo e no Inverno cheio de fumo. E assi em huum campo está terra cinzenta que sempre ferve. E o que nella lançam logo he consumido". Falava das Furnas, evidentemente.
Gaspar Frutuoso registou diversos testemunhos orais sobre a dificuldade sentida pelos primeiros povoadores em dominar mentalmente o espaço, porquanto os fenómenos telúricos apagavam as "demarcações", a ponto de, entre as viagens exploratórias e a fixação definitiva, "desconhecerem a terra".
É, por demais, normal que tais transformações - aquelas contínuas modelações do espaço físico, com montes ou "picos" ora a atenuarem-se, ora a levantarem-se, com ilhas a dilatarem-se e ilhéus a emergirem, como grandes golfinhos ou baleias, do fundo do mar - teriam, obrigatoriamente, de despertar a atenção e de impressionar os homens. Apenas os cientificamente melhor equipados, arranjavam explicação fora das causas sobrenaturais: "[…] ainda que isto d' estas furnas é natural , parece cousa sobrenatural" - assim o comentou o Cronista das Ilhas, considerado, justamente, o primeiro vulcanólogo português.
Assim, e até aos nossos dias, erupções vulcânicas e fenómenos sísmicos têm alterado, de forma mais ou menos dramática, a terra e o viver das nossas gentes. E, tal como a configuração geomorfológica destes espaços insulares, que demandam as suas raízes nas entranhas de uma terra desassossegada e na profundidade de um mar grosso e desencontrado, foi moldada pelo vulcanismo, e também pela sismicidade, o mesmo podemos dizer da nossa identidade de ilhéus do Atlântico, da nossa forma de ser, de viver e de ver o mundo - ou seja, da nossa distinta portugalidade.
Há cinquenta anos atrás, a terra voltou a tremer. A 27 de Setembro de 1957, ao acordarem, os faialenses depararam-se com o início do vulcão dos Capelinhos, na extremidade ocidental da sua ilha. Nas palavras conhecidas de uma senhora residente no Capelo: "Andávamos sempre por ali a ver tudo aquilo. Um dia ouvi uma explosão e encostei-me ao morro. Daí a pouco passou-me uma pedra por cima. Morávamos ali e não queríamos perder pitada. Lá que a gente se assustou é verdade, mas não foi muito. E aquilo era tão bonito quando vinha aquela lava e o vapor a quilómetros de altura".
Naquela época, a realidade do Capelo era prometedora, dizia-se - a 18 canoas baleeiras juntavam-se 11 lanchas a motor. Na convicção de um dos baleeiros: "acaso não fosse o vulcão, o Capelo seria hoje uma cidade".
Durante cerca de 13 meses, até 24 de Outubro de 1958, o Vulcão dos Capelinhos uniu o mar à terra, com lavas e cinzas, chamando a atenção da comunidade científica e da curiosidade geral, em todo o mundo.
Com efeito, até à vulgarização das mais variadas observações do globo terrestre por satélites, mais ou menos sofisticados, particularmente depois da década de 80, a actividade vulcânica submarina era estudada com grandes constrangimentos.
Nestas circunstâncias, o Vulcão dos Capelinhos é, ainda, volvidos todos estes anos, considerado um vulcão único no mundo das ciências vulcanológicas, especialmente por ter sido fotografado, observado, estudado e interpretado desde o seu início até ao seu adormecimento.
E para tal, concorreram não só a proximidade à ilha do Faial, mas também, e fundamentalmente, o interesse e o labor de uma extraordinária personalidade, o Doutor Engenheiro Frederico Machado, ao tempo Director dos Serviços Distritais de Obras Públicas e residente na ilha do Faial, e da equipa por ele constituída, cujos trabalhos se desenvolveram quer ao longo do período de actividade, quer nos anos subsequentes dos processos erosivos.

O Vulcão dos Capelinhos não só alterou a fisionomia da ilha, como deixou atrás de si um rasto de destruição e, pelo menos, nos terrenos mais próximos, destruiu vinhas, culturas arvenses e pastagens, afectando não só a agricultura como o sector piscatório, destruindo mais de um milhar de habitações até à crise sísmica de Maio de 1958, provocando perturbações na vida das populações e reflexos negativos na economia faialense.


Dizia um agricultor da época, "Eu tinha a minha lavoura, mas estas areias deram cabo das terras. Os animais não tinham nada para comer, de modo que tive de vender tudo e fiquei sem nada".
O Governo de Lisboa depressa aprovou um plano de emergência a favor da ilha flagelada, que incluía desde as obras públicas necessárias a um plano de recuperação económica, o qual passava por um projecto de arborização do baldio, melhoria das vias de acesso ao interior da ilha, criando-se, para o efeito, 39 quilometros de novas estradas e caminhos florestais.
"Conversa fiada": tudo não passou do papel... e da habitual visita ministerial, que coroa sempre as manifestações de comiseração do Terreiro do Paço. As habitações permaneceram soterradas, com os seus campos inundados de cinzas, sucessivamente povoados de extensos canaviais e de outra vegetação infestante.
O sonho teria que ser mais forte que os laços à terra pobre que mal nos podia sustentar. E muitos foram os que rumaram à América, mercê da medida de excepção aprovada pelo Senado dos Estados Unidos: o Azorean Refugee Act, proposto pelos Senadores John Pastore, de Rhode Island, e John Kennedy - sim, John Kennedy - de Massachusetts.
Não é ingratidão na pátria, nem excesso de gratidão fora dela, dizer que, face às consequências da crise dos Capelinhos, a atenção e a generosidade de um país amigo substituíram a incapacidade do nosso próprio país. Allow me, thus, to thank, on behalf of the Government of the Azores, the then offered solidarity to the people of Faial, profiting of Mr. Ballard presence here today. I would also like to thank him for the good and strong relationship and the communion of interests that still exists between our region, our country and the United States of America.
The bill of September the second ninety fifty eight, which copy you've gently offered, was already part of the emotional heritage of the Faial people: from this day on it will also be part of the archive estate of the Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelhinhos. Thank you very much.
Em 1957, o Faial tinha 24 mil habitantes. Até 1962 mais de 4.000 pessoas emigraram. Foi, de facto, uma sangria demográfica, permitindo, é certo, outros horizontes de vida a essas famílias, mas provocando danos irremediáveis na estrutura social e económica.
Que diferença entre 1957 e 1998!
No caso desta última crise sísmica, que atingiu sobretudo o Faial e o Pico, não obstante a perda de vidas, poderemos assinalar, no próximo ano, o 10º aniversário da sua ocorrência lembrando a concretização de tantas e tantas obras impulsionadas pelo Governo da nossa Autonomia - igrejas, estradas, pontes, mais de 3100 casas (87% das quais financiadas integralmente pelo Governo Regional).

Embora, hoje em dia, a terra nova dos Capelinhos, atacada pelos Invernos tempestuosos, se encontre substancialmente reduzida, em mais de 50%, será, ainda por muitos anos, um ex-libris faialense, uma referenciação para os Açores e um local privilegiado para visitantes e para cientistas, que o Governo Regional decidiu preservar e revalorizar.


Curiosamente, no ponto sete do relatório da Missão Técnica do Ministério das Obras Públicas, sobre as acções necessárias e a desenvolver na época, na sequência da avaliação feita dos estragos, mencionava-se "recuperar o farol dos Capelinhos". Foi necessário meio século para que o sonho se tornasse realidade. É uma parte do que estamos agora a fazer.
Os Capelinhos, em boa hora classificados por proposta do Governo dos Açores, fazem parte da Rede Natura 2000, e são, também, Monumento Natural Regional. A presença do Farol, que serviu de guia a inúmeras embarcações ao longo dos tempos, assinala agora, com outra ideia, um novo caminho: a criação de um Centro de Interpretação do fenómeno vulcanológico, numa proposta de percurso ecoturístico, cujo investimento estará concluído já no próximo ano. A memória dos Capelinhos ficará salvaguardada e reinterpretada através desse investimento na contemporaneidade.
Permitam-me que torne públicos alguns agradecimentos a propósito das comemorações cujo início assinalamos - desde logo, manifestando o meu apreço pelo Professor Victor Hugo Forjaz, que dirigiu a obra há pouco apresentada, num trabalho de grande mérito, que passa a constituir um documento imprescindível de prestigio sobre a memória dos Capelinhos.
Deixo, igualmente, os meus reconhecimentos aos Correios de Portugal, aqui representados pelo seu Vice-Presidente, bem como ao Senhor Presidente da Câmara Municipal da Horta, pela sua disponibilidade e colaboração nestas iniciativas.
Dirijo, por fim, uma palavra de estímulo à Comissão Executiva, que superintende na organização dos 87 eventos que constituem estas celebrações. Serão livros, exposições, conferências, seminários científicos, realização de peças musicais e filmes, bem como actividades ao ar livre, cerimónias religiosas e produção de material didáctico-pedagógico. Tudo isso, ao longo de cinquenta e seis acções evocativas, em quatro países e dois continentes, com o apoio de mais de duas dezenas de associações inclusive das nossas comunidades.
Foi com muita honra que presidi a esta Sessão Solene.
Sempre que revejo a paisagem do Vulcão, relembro as palavras de Emanuel Félix que tão bem lhe assentam:
Uma pedra é uma pedra

(não pode o amor modificá-la nem o ódio)

Mas se um homem lhe der para amar uma pedra

Não seja uma pedra e mais nada



Mas uma pedra amada por um homem.
É claro que, como salientou Nemésio, "Os nossos ossos mergulham no mar". Há, sempre, desse modo, dúvidas para toda a vida. Mas, quem as não tem?
Certo, certo, é que entre o tempo de há meio século e o tempo actual há uma diferença crucial: a diferença entre a incerteza de depender de outros e a certeza de agora podermos fazer muito mais por nós. Estamos, assim, felizes, por celebrar estes acontecimentos cinquentenários na Autonomia Político-Administrativa reclamada há mais de um século.”






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