Seis gaivotas



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Encontro19.08.2017
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SEIS GAIVOTAS

“ Seis gaivotas” é uma peça de teatro com argumento original que surge na tentativa de fundir duas peças: “ A gaivota” (1895), de Anton Tcheckov (1860 – 1904), com “ Seis personagens à procura de um autor”, de Luigi Pirandello (1867 – 1936); ora essa tentativa foi frustrada e é com base nesse falhanço que nasce esta peça.

Tcheckov e Pirandello tinham em comum o facto de ambos questionarem a arte (teatro) até aí conseguida:

- Para o primeiro era tudo muito romantizado e artificial, onde não se dava importância aos verdadeiros conflitos humanos, ao realismo psicológico, à complexidade de cada um como indivíduo; como o próprio dizia “o teatro deve mostrar homens aos outros homens” – isso está patente nas suas obras pela ausência de pontos de vista e na profundidade que atribui a cada personagem; “A gaivota” é uma reflexão acerca do teatro em particular (da arte em geral) e do papel do artista, na qual se põe em contrapartida arte/vida, ficção/realidade, formas/conteúdo, formas convencionais/formas novas;

- Para o segundo (Pirandello), o fazer teatro, por si só, devia ser posto em palco com todos os conflitos normais entre autor, encenador e outros actores, cada qual com as suas limitações, a sua noção de arte, vivências e personalidades; fazia uma abordagem ao homem dizendo que cada um é muitos, o que faz de todos nós actores ou, ao contrário, cada personagem é, ao mesmo tempo, o homem por trás dela; em “Seis personagens à procura de um autor”, estas ganham vida porque o autor se recusa a escrever a peça, interrompendo o ensaio de outro drama Pirandelliano para representarem a sua vida, como é o seu direito.

Em “Seis gaivotas”, a peripécia gira em torno do acto de fazer teatro que, aliás, é característica comum de Pirandello, pois parte do facto de a Companhia (visões úteis) não ter conseguido preparar a peça para a apresentar nos prazos estabelecidos; logo, é-nos proposto assistir a um ensaio aberto (que é, no fundo, a peça de teatro em si). O drama desenrola-se na exploração das personalidades de cada elemento da Companhia – há um encenador que é extremamente confiante nas suas capacidades, mas que não sabe lidar com o fracasso e exaspera-se facilmente; o Carlos é um “diplomata” e um pouco pseudo-intelectual; a Catarina, uma perfeccionista que faz chamadas de atenção ao comportamento dos outros; a Ana, também orgulhosa da sua técnica semi-zen; enfim, todos muito diferentes e põem-no a nú no “ensaio”. Outro parâmetro abordado é o das diferentes perspectivas da arte, como é o exemplo de Pedro (Trigorin) que via em “A gaivota” uma cena de sedução, ao contrário de Fernando, que a interpretava como uma definição do artista.

Apesar de ser um “ensaio aberto”, nota-se trabalho minucioso a nível de texto, de luzes, de concepção espacial (o público próximo, os bastidores bem visíveis) e música (uma melodia retalhada no aquecimento dos actores, o tema das gaivotas ao longo da peça e o ruído incomodativo em certas partes).

Pirandello e Tcheckov estão bastante presentes na obra: um pelo facto de “Seis gaivotas” levar o próprio teatro a palco e de explorar os conflitos relacionais devido às personalidades e valências artísticas (Edgard era um estagiário), o outro, não só porque grande parte da peça são excertos de “A gaivota”, mas também devido à ausência de perspectiva, assim como a reflexão artística incluída na peça.

Finalmente, pode-se afirmar que este drama, ao explanar as relações humanas na criação do objecto artístico, remete para a reflexão sobre a nossa aprendizagem, os nossos conflitos e as nossas relações nas várias situações e no interior das personagens/homens que somos no dia-a-dia.

FRANCISCO JOEL DOS SANTOS FERREIRA



ESTUDOS ARTÍSTICOS 1ºANO



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