Seda vermelha



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SEDA VERMELHA

(Red Mandarin Dress)



Qiu Xiaolong


Ao meu irmão mais velho, Xiaowei

Se não tivesse intervido durante a Revolução Cultural

Eu não sei o poderia ter me acontecido.
PRÓLOGO
Enquanto corria pela Rua Huaihai Oeste, com o hálito embaçado sob a fraca luz das estrelas, o professor Huang pensou que muito poucos madrugavam tanto como ele em Xangai. Huang, um idoso de mais de 70 anos, ainda conseguia correr com passos vigorosos. “Nada é tão valioso quanto a saúde”, pensou orgulhosamente enxugando o suor da testa. Para esses doentes “de bolsos cheios”, os novos rico de Xangai, de que iriam lhes servir as montanhas de ouro e de prata que eles mantinham em seus quintais? Mas um trabalhador aposentado como Huang de pouco pode se orgulhar agora, em meados da década de 1990, quando a transformação materialista se estendeu por toda a cidade. Huang tinha visto melhores tempos. Trabalhador modelo nos anos sessenta, um membro do esquadrão de Propaganda de Pensamento de Mao Zedong, durante a Revolução, guarda de segurança no bairro de Cultural nos anos oitenta... Resumindo, um ex-mestre capataz pertencente à classe trabalhadora politicamente gloriosa da China.
Agora, Huang era um zé ninguém. Um aposentado do estado, de uma fábrica de aço à beira da falência, que foi premiado com a redução da pensão. Ironicamente, a posição de mestre capataz agora soava anacrônica mesmo nos jornais do Partido. “A China Socialista caiu nas garras do capitalismo”. Ele se lembrou do refrão de alguns cortes recentes, como se fosse um ritmo contrário aos seus passos. Tudo estava mudando rápido e incompreensivelmente. Também foi mudando a sua maneira de correr. Anos atrás, corria somente sob a luz das estrelas com poucos veículos à vista, Huang gostava de pensar que a cidade pulsava no seu ritmo. Agora, a esta hora tão cedo, não podia deixar de notar todos os carros que circulam buzinando ocasionalmente, ou o guindaste que trabalhava em um novo edifício uma quadra mais a frente. Diziam que era um complexo residencial de luxo para os novos ricos.
Não muito longe, sua antiga casa construída no estilo shikumen, onde ele morava com uma dúzia de famílias trabalhadoras, seria demolida para construírem em seu lugar um arranha-céu de escritórios. Os vizinhos não demorariam a se mudarem para Pudong, uma área que tinha sido terra de cultivo, à leste do Rio Huangpu. Depois de se mudar não seria mais possível correr por esta rua que ele conhecia tão bem, localizada no centro da cidade. Nem poderia apreciar uma tigela de sopa de feijão servida pelo restaurante TRABALHADOR E AGRICULTOR ao virar da esquina. Sopa fumegante feita com cebolinha, camarão seco, massa frita picadinha e algas roxas. Uma sopa realmente deliciosa, e só por cinco cêntimos. O restaurante barato recomendado em outra época “por sua dedicação à classe trabalhadora”, desapareceria, e agora ficaria em seu lugar a STARBUCKS. Talvez já estivesse muito velho para ser capaz de assimilar as mudanças.
Huang suspirou enquanto corria com passos cada vez mais pesados. ​ As suas pálpebras começaram a tremer como ante a um mau presságio. Perto do cruzamento das Ruas Huaihai e Donghu o antigo mestre capataz diminuiu ainda mais as passadas ao chegar à ilha de pedestres. Na primavera parecia um jardim, mas agora não crescia ali nem uma folha de grama, apenas se viam alguns galhos nus que tremiam ao vento. A ilha árida e marrom estava tão desolada quanto a sua mente.
Huang viu um vulto estranho, vermelho e branco, sob o círculo tênue de luz projetado pelos postes de iluminação da ilha. Talvez fosse algum objeto que tivesse caído de um caminhão de alguma fazenda no caminho para o mercado mais próximo. A parte branca parecia uma longa raiz de lótus, e saía de um saco feito do que pareciam ser velhas bandeiras vermelhas. Huang tinha ouvido falar que os agricultores aproveitavam tudo, até mesmo aquelas velhas bandeiras de cinco estrelas. Ele também tinha ouvido falar que as fatias de raiz de lótus recheadas com arroz glutinoso eram agora um prato muito procurado nos restaurantes mais caros.
Huang deu dois passos em direção à ilha de pedestres e congelou de horror. O que tinha tomado por uma raiz de lótus branco se tornara uma perna humana, bem torneada, coberta com gotas de orvalho que brilhavam a luz dos postes. E não era um saco o que ele vira, mas um qipao vermelho. O qipao ou vestido mandarim, cobria o corpo de uma jovem de pouco mais de vinte anos. Seu rosto, de uma palidez amarelenta, parecia de cera. Huang estendeu a mão para tentar inspecionar o corpo. O vestido, levantado acima da cintura e com as fendas laterais rasgadas, deixava à vista as coxas e o púbis, obscenamente brilhantes sob o espectro de luz. Sob os botões em forma de duplos peixes, desabotoados, apareciam os seios da vítima. Estava descalça, com as pernas nuas e nada usava por baixo do apertado vestido.
Huang tocou tornozelo da mulher. Estava frio e não tinha pulso. As pequenas unhas pintadas de rosa pareciam pétalas. Há quanto tempo ela estaria morta? Huang puxou o vestido para cobrir as coxas. O vestido, muito elegante, era inexplicável. Originalmente quem o usava eram os Manchus, um grupo étnico minoritário que deteve o poder durante a dinastia Qing. Na década de 1930 se tornara tão popular que os chineses o adotaram como traje nacional, não importando a sua etnia. Após o seu desaparecimento durante a Revolução Cultural como um símbolo do estilo de vida burguês, o vestido tinha voltado à moda, surpreendentemente, entre as classes mais ricas. Mas Huang nunca tinha visto uma mulher usá-lo assim, sem calcinha ou sapatos.
Huang cuspiu no chão três vezes, ritual supersticioso contra a má sorte. Quem teria pensado em deixar um corpo lá na parte da manhã? “Foi um homicídio sexual”, concluiu. Pensou em avisar a polícia, mas ainda era muito cedo e não havia telefone público disponível. Olhou em volta e viu uma luz piscando na distância, do outro lado da rua. Vinha do Instituto de Música de Xangai. Huang gritou pediu ajuda.
— Assassinato! Murder! O assassino do vestido mandarim vermelho!

CAPÍTULO 1
O Inspetor-Chefe Chen Cao do Departamento de Polícia de Xangai acordou sobressaltado quando o telefone tocou no início da manhã. Esfregando os olhos enquanto apanhava o rapidamente o telefone, Chen viu que o relógio na mesa de cabeceira, marcava sete e meia. Na noite passada, ele tinha ficado acordado até tarde escrevendo uma carta a um amigo em Pequim, e citou um poeta da dinastia Tang para expressar o tanto que lhe custava dizer em suas próprias palavras. Depois caíra no sono e sonhara com salgueiros Tang que se alinhavam na borda de uma praia deserta sob uma névoa esverdeada.
— Alô. Eu sou Zhong Baoguo, da Comissão de Reforma do Sistema Judicial de Xangai. Você é o camarada Inspetor-Chefe Chen?
Chen se sentou na cama. Essa comissão especial, uma nova instituição pertencente ao Congresso do Povo de Xangai, não exercia autoridade direta sobre ele, mas Zhong, que ocupava uma posição superior nas fileiras do Partido, nunca tinha ligado antes, muito menos para a sua casa. Poderia ser um desses casos “politicamente sensíveis” não se podiam comentar no Departamento. Os fragmentos de seu sonho à sombra dos salgueiros começaram a desaparecer. Chen notou que a boca ficara amarga.
— Você já ouviu falar sobre o caso do complexo residencial da quadra nove oeste?

— A quadra nove oeste? Já sim. O complexo residencial Peng Liangxin era uma das melhores áreas do centro da cidade. — Eu li um artigo sobre o assunto.


Nas reformas que estavam sendo realizadas na China, algumas das oportunidades de negócio mais incríveis surgiram no setor da construção. Tempos atrás quando o Estado controlava toda a terra, a atribuição de autorizar construções dependia dos comitês municipais. Ao próprio Chen tinha sido atribuída uma casa através das ações da Secretaria, mas no início de 1990 o governo começou a vender terras a empresários emergentes. Peng, apelidado de “O bolso cheio número de um de Xangai” foi um dos primeiros construtores que enriqueceram. Uma vez que os funcionários do Partido decidiam os preços da terra e da sua concessão, os corruptos pululavam ali como moscas em busca de sangue. Através de seus contatos, Peng obteve a permissão necessária do governo para começar a urbanizar a quadra nove oeste. Tiveram que demolir os prédios antigos da região para a construção de novos blocos, e Peng expulsou os que moravam lá. No entanto, as pessoas começaram a reclamar dos “buracos negros” nas concessões municipais, e em seguida estourou o escândalo.
Mas o que Chen poderia fazer? Obviamente, em um projeto tão grande como o da quadra nove oeste haveriam muitos funcionários envolvidos. Poderia se tornar num caso importante de consequências políticas desastrosas. A minimização de danos, Chen imaginou, seria provavelmente a tarefa que pensavam em lhe dar.
— Sim, nós achamos que você deveria investigar especialmente Jia Ming, o advogado que representa os antigos moradores.

— Jia Ming? Chen estava ainda mais surpreso. Não conhecia nenhum detalhe sobre o caso de corrupção. Ele tinha ouvido falar que Jia era um advogado bem sucedido, mas por que iria investigar um advogado? — É o advogado que defendeu Hu Ping, o escritor dissidente?

— Ele mesmo.

— Diretor Zhong, eu sinto muito. Eu estou receoso que não possa ajudá-lo nesse caso. Chen imediatamente forneceu uma desculpa, em vez de se recusar abertamente. — Acabo de me inscrever em um curso de mestrado na Universidade de Xangai. Literatura clássica chinesa. Devo passar as primeiras semanas em estudo intensivo, por isso não vou ter tempo para mais nada.


Mais do que apenas uma desculpa improvisada era uma atividade que Chen há muito vislumbrava. Na verdade, ainda não se inscrevera, mas fora até a Universidade para fazer algumas consultas preliminares sobre o curso.
— Está brincando camarada Inspetor-Chefe Chen? E o seu trabalho de policial? Literatura clássica chinesa! Não tem nada a ver com a sua profissão. Você vai mudar de emprego?

— Estudei literatura na faculdade, literatura inglesa. Para ser um investigador competente na sociedade de hoje, é necessário adquirir o máximo de conhecimento possível. Este curso inclui aulas de psicologia e sociologia.

— Bem, é aconselhável que amplie o seu horizonte intelectual, mas acho que não terá tempo suficiente, dada a sua posição.

— É como se fosse uma combinação, disse Chen, — Algumas semanas de estudo intensivo em sala de aula, com os outros alunos, e depois é só entregar as tarefas. Em seguida o plano de estudos se adaptará ao meu horário de trabalho.


Não era inteiramente verdade. De acordo com a folha de informação que tinha apanhado na faculdade, as semanas de estudo intensivo não começariam imediatamente.
— Eu gostaria de convencê-lo. Um alto camarada do governo municipal sugeriu que eu falasse com você ainda hoje.

— Prestarei muita atenção ao caso, tanto quanto me seja possível, disse Chen para guardar as aparências ante Zhong. Não queria que ele falasse do “Alto camarada”, quem quer que fosse.



— Ótimo. Vou pedir para que lhe enviem o caso, encerrou Zhong, tomando o comentário como uma concessão do Inspetor-Chefe. Chen pensou com frustração que deveria ter dito claramente que não.
Depois de desligar o telefone, Chen notou que precisaria descobrir tudo o quanto pudesse sobre o caso e começou imediatamente a dar telefonemas. Seu palpite acabou sendo correto: esta era uma investigação que ele deveria ter evitado.
Peng Liangxin, o construtor, começara no mundo dos negócios como um ambulante de tortas, mas em seguida crescera rapidamente mostrando extraordinária habilidade. Sabia quando e onde entregar envelopes vermelhos com dinheiro dentro aos altos cargos do Partido e, em troca, o Partido o ajudara a se tornar um bilionário em apenas quatro ou cinco anos. Peng adquirira as terras da quadra nove oeste usando subornos e apresentação de um plano de negócios para melhorar as condições dos moradores. Depois, graças à permissão governamental que lhe concedera a terra, o construtor conseguira os empréstimos bancários necessários para começar a construir sem colocar um centavo do bolso. Em seguida, intimidou os moradores para que saíssem de suas casas sem compensá-los. Algumas famílias que resistiram, as chamadas “famílias prego”, foram arrancadas à força, como se de pregos se tratassem, após a contratação de um bando de assassinos da Tríade. Vários moradores foram brutalmente agredidos em uma espécie de “Campanha de demolição”.
Depois disso, em lugar de permitir que os moradores originais voltassem a se estabelecer em suas casas, como prometido na sua proposta de urbanização, Peng começou a vender novas propriedades a um preço muito mais elevado para os compradores vindos de Taiwan e Hong Kong. Quando as pessoas protestaram, o milionário voltou a procurar a ajuda da Tríade local, bem como funcionários do governo. Vários dos antigos moradores foram para a prisão depois de serem condenados como criadores de problemas que interferiam no plano de desenvolvimento urbano da cidade. No entanto, já que era cada vez maior o número de cidadãos descontentes que se juntavam ao protesto, o governo foi obrigado a intervir.
Segundo se comentava, muitos dos problemas de Peng tinham relação ao seu apelido. Existiam muitas pessoas ricas da cidade, algumas possivelmente mais ricas do que ele, mas quase todas estavam tentando não chamar a atenção. Peng se tornara arrogante por causa do seu brilhante sucesso, e gostava de ser chamado de “Bolsos Cheios”. À medida que aumentava a diferença entre ricos e pobres, os cidadãos expressavam mais fortemente a sua frustração contra a corrupção generalizada e contra Peng em particular, por ser um de seus principais representantes.
Como diz um provérbio chinês, o pássaro que mostrar a cabeça levará um tiro.
A situação ficou ainda mais complicada quando o ilustre advogado Jia Ming decidiu representar os moradores. Graças à sua experiência jurídica, Jia logo descobriu novos abusos na operação do negócio, em que estavam totalmente envolvidos não só Peng, mas também os seus contatos no governo. O caso começou a ter grande repercussão, e funcionários do governo municipal começaram a se preocupar. Após a prisão de Peng, as autoridades anunciaram que em breve iriam fazer um julgamento aberto ao público.
Chen fez uma careta ao ver que recebia outra folha de fax. O fax dizia que alguns agentes do Departamento de Segurança Interna investigaram Jia em segredo. O caso de corrupção entraria em colapso se eles conseguissem criar problemas, mas os seus esforços também não foram bem sucedidos. Chen amassou a página e se considerou afortunado por ter dado antes uma desculpa. Pelo menos podia alegar que não queria se comprometer, devido ao curso de mestrado que pensava fazer. E realmente a oportunidade aparecera graças a um curso especial concebido para os quadros emergentes do Partido, supostamente ocupados demais com assuntos mais importantes, por isso lhes permitiam conseguir um diploma universitário em muito menos tempo.
O curso também o interessava por outras razões. A julgar pelas aparências, Chen tinha progredido com facilidade em sua carreira profissional. Era um dos mais jovens inspetores-chefes da polícia, e o mais provável candidato para suceder o Secretário do Partido Li Guohua como encarregado do Partido dentro do Departamento de Polícia de Xangai. No entanto, Chen não tinha escolhido esta profissão, quando ainda estava na faculdade. Apesar de seu sucesso como policial, do qual ele era o primeiro a se surpreender e além de também ter resolvido vários casos “de grande importância política”, Chen estava se sentindo cada vez mais frustrado com o trabalho. A resolução de muitos desses casos não satisfez as suas expectativas como policial.
Confúcio dizia: “Há coisas que um homem vai fazer, e coisas que um homem não vai fazer.”.
Infelizmente, Chen não dispunha de diretrizes claras num momento de transição tão conturbado como estava passando o seu país. “No curso”, refletiu, poderia aprender a pensar a partir de uma nova perspectiva. Assim, naquela manhã, decidiu visitar o Professor Chen Longhua Bian, da Universidade de Xangai. O curso fora uma desculpa improvisada quando falara com Zhong, mas não tinha por que continuar assim.
Pelo caminho comprou um presunto Jinhua envolto em papel especial tung, de acordo com uma tradição que remontava ao tempo de Confúcio. O sábio nunca aceitou dinheiro de seus alunos, mas sim os presentes que estes traziam, como presuntos ou galinhas. No entanto, o presunto ocupava demasiado espaço para levá-lo de ônibus, assim Chen foi forçado a chamar um carro do Departamento. Enquanto espera na loja de presuntos o inspetor fez mais algumas ligações sobre o caso do complexo residencial, que acabaram por convencê-lo de que realmente não deveria se envolver.
Pequeno Zhou chegou mais cedo com o carro do que Chen esperava. Zhou, um motorista do Departamento que se apresentava como “o homem do Inspetor-Chefe Chen” espalharia a notícia de que ele havia visitado Chen Bian. “Pode ser que seja melhor assim”, pensou Chen, e então começou a ensaiar mentalmente a sua conversa com o professor.
Bian morava em um apartamento de três quartos, localizado em um novo complexo numa área de luxo que poucos intelectuais podiam pagar. Foi próprio Bian que abriu a porta. O professor, um homem de estatura mediana, com seus setenta anos e cabelos de prata brilhante que contrastavam com a sua pele avermelhada, parecia cheio de energia, apesar de sua idade e experiência de vida. Jovem “direitista” na década de 1950, “contrarrevolucionário” de meia-idade durante a Revolução Cultural e velho “modelo intelectual” na década de noventa, Bian havia se agarrado aos seus estudos sobre a literatura como se fossem um colete salva-vidas durante todos esses anos.
— Isso não é suficiente para mostrar o meu respeito, Professor Bian, disse Chen, enquanto mostrava o presunto. Em seguida, tentou encontrar um lugar para colocá-lo, mas os móveis, novos e caros, pareciam bons demais para colocar em cima deles um presunto enrolado em gorduroso papel tung.

— Obrigado, Inspetor-Chefe Chen, respondeu Bian. — Nosso reitor me falou de você. Em consideração às suas muitas ocupações, decidimos que não precisaria ir à escola como os outros alunos, mas deverá entregar os trabalhos dentro dos prazos.

— Obrigado. É claro que entregarei os trabalhos quando os outros alunos entregarem.
Uma jovem mulher entrou com passos rápidos na sala. Tinha cerca de trinta anos, e usava um vestido mandarim preto e sandálias de salto alto. Pegou o presunto e o colocou na mesinha de centro.
— Fengfeng, minha muito eficiente filha, explicou Bian. — Presidente de uma joint-venture sino-americana.

— Uma filha muito pouco considerada, interveio Fengfeng. — Estudei administração de empresas, em vez de literatura chinesa. Obrigado por escolher o meu pai como professor, Inspetor-Chefe Chen. Ter um aluno famoso alimenta o ego.

— Não, a honra é toda minha.

— Está indo muito bem na polícia, Inspetor-Chefe Chen. Por que quer fazer este curso? Perguntou a jovem.

— A literatura não traz resultados práticos, interrompeu o velho, zombando si mesmo. — Foi a minha filha quem comprou este apartamento que eu nunca conseguiria pagar. Então, nós vivemos aqui num país com dois sistemas.
“Um país, dois sistemas”, foi o slogan político inventado pelo camarada Deng Xiaoping para descrever a coexistência da China continental socialista com a Hong Kong capitalista após 1997.

Neste caso, o termo se refere a uma família cujos membros fizeram o dinheiro a partir de dois sistemas diferentes. Chen percebia que as pessoas questionavam a sua decisão, mas tentou não se preocupar muito com isso.


— É como um caminho sem ser transitado. É tentador pensar nele durante as noites quando neva, explicou, — Mas também alimenta o ego, se você o ver como uma outra opção de carreira.

— Eu gostaria de lhe pedir um favor, disse Fengfeng. — Meu pai não vai para a universidade diariamente, porque você tem diabetes e pressão alta. Importar-se-ia de assistir as aulas aqui?

— Claro que não, se ele achar mais confortável.

— Não se lembra da citação de Gao Shi? Perguntou Bian. — “Infelizmente, os estudiosos são os mais inúteis”. Aqui estou eu, um homem velho que só é capaz de dissecar insetos em casa.

— A importância da literatura perdura por mil outonos, disse Chen, citando outra frase como resposta.

— Bem, sua paixão pela literatura é evidente. Como diz um provérbio chinês, “Aqueles que sofrem da mesma doença simpatizam um com o outro”. Claro que você deve se preocupar particularmente com a sua doença sedenta. Você é um poeta romântico, como eu entendi.


Xiaoke zhi ji, ou “doença sedenta”. Chen já tinha ouvido a expressão em relação ao diabetes, uma doença que provoca sede e cansaço no doente. Bian se expressava de uma forma curiosa, ao se referir sutilmente tanto a sua diabetes quanto a sua sede de literatura, mas o que teria isso a ver com o fato de Chen ser um poeta romântico?
Quando voltou a entrar no carro que esperava por ele do lado de fora, Chen pegou o pequeno Zhou examinando uma modelo nua em um exemplar da Playboy de Hong Kong. O termo “doença sedenta” na antiga China, Chen de repente se lembrou, também poderia ser usado como uma metáfora para uma paixão romântica não correspondida de um jovem. Por outro lado, não estava muito certo disso. Poderia ter lido esta expressão em algum lugar e tê-la confundido com outras associações irrelevantes.
Durante o trajeto de carro, Chen notou que voltara a pensar como um policial, ao querer encontrar uma explicação, para o uso da expressão que professor Bian havia dito. O Inspetor-Chefe fez um gesto de incredulidade com a cabeça ao ver de repente a sua expressão perplexa no espelho retrovisor. No entanto, Chen estava satisfeito. A perspectiva de iniciar o curso de literatura mudara muito as coisas.

CAPÍTULO 2
Yu Guangming vice-inspetor do Departamento de Polícia de Xangai, estava sentado pensativo em uma sala que não era exatamente a sua, ainda não. Como chefe interino da brigada de casos especiais, Yu poderia dispor da sala durante as semanas de ausência de Chen. Quase ninguém parecia levar Yu a sério, embora o sargento assumisse o controle efetivo da brigada durante as semanas em que Chen estaria ocupado com seus encontros políticos e suas traduções bem pagas. No entanto, Yu se preocupava com a decisão inexplicável de Chen em se inscrever no curso de literatura, uma decisão que deu origem a inúmeras interpretações do Departamento.
De acordo com Liao Guochang, chefe da Delegacia de Homicídios, Chen estava tentando passar despercebido depois de ter aborrecido alguns superiores, adotando agora uma pose de intelectual para deixar de ser o centro das atenções por um tempo. Pequeno Zhou acreditava que o objetivo de Chen, conseguir um mestrado ou doutorado, seria uma vantagem crucial na sua futura carreira, porque um diploma superior era uma enorme vantagem na nova política de promoção dos quadros do Partido. O Comissário Zhang, um policial semi-aposentado da geração anterior, tinha uma opinião diferente sobre os estudos de Chen. Achava que o Inspetor-Chefe Chen planejava estudar no exterior com uma hongyan zhiji, uma chefe de polícia nos Estados Unidos, beleza compreensiva e cheia de admiração por ele. Como a maioria dos rumores sobre Chen, ninguém era capaz de provar ou refutar alguma coisa.
Nenhuma dessas conjecturas convencia totalmente Yu. E também havia uma possibilidade que não se poderia descartar: quem sabe tivesse acontecido algo que nenhum de seus colegas sabia. Chen tinha perguntado sobre o caso de um complexo residencial, sem dar qualquer explicação a ele, algo incomum entre Yu e seu chefe. Enfim, naquela manhã Yu não tinha muito tempo para pensar no assunto. O Secretário do Partido Li tinha convocado uma reunião no gabinete do inspetor Liao.
Liao, um homem de complexão robusta, com cerca de quarenta anos, tinha certo aspecto de coruja devido ao seu nariz aquilino e olhos redondos. Liao franziu a testa enquanto Yu entrou em seu escritório. No Departamento, apenas casos de extraordinária importância política poderiam ser designados para a brigada sob o comando de Chen e Yu. A expressão azeda de Liao dava a entender que o esquadrão de homicídios era incapaz de lidar com mais outro caso.
— Camarada vice-Inspetor Yu, já ouviu falar do caso do vestido mandarim vermelho? Perguntou Li, afirmando mais do que perguntando.

— Sim, respondeu Yu. — É um caso que tem despertado muitas atenções.

Na semana anterior, eles haviam encontrado o corpo de uma jovem vestida em um qipao vermelho num ilha de pedestres da Rua Huaihai. O caso, amplamente divulgado por causa da proximidade do corpo com várias lojas de luxo, foi nomeado, apropriadamente, como o caso do vestido mandarim vermelho. A notícia do assassinato causara um enorme engarrafamento na área. Os curiosos partiram em tropel para a Rua Huaihai para ver vitrines e trocar fofocas, se juntando a todos os fotógrafos e jornalistas que pululavam na área em busca de informações. Os jornais publicaram muitas teorias, cada uma mais descabelada que a outra.

Nenhum assassino teria deixado um cadáver vestido de tal modo em um lugar como aquele, se não tivesse alguma boa razão para isso. Um jornalista acreditava que o corpo apontava para algum funcionário do Instituto de Música de Xangai, que ficava do outro lado da rua. Outro repórter o considerava um evento político, uma espécie de protesto contra a entrada de valores na China socialista porque o vestido mandarim, outrora condenado como símbolo da decadência capitalista, voltara a ficar em voga. Uma revista sensacionalista foi mais longe e especulou que o assassinato tinha sido orquestrado por um magnata da moda. Paradoxalmente, como resultado da cobertura da mídia, várias lojas apresentaram às pressas novas coleções de vestidos mandarins em suas vitrines.


Yu tinha observado que o caso era intrigante em alguns aspectos. De acordo com o relatório inicial da autópsia, os hematomas que a vítima apresentava indicavam que ela poderia ter sofrido algum tipo de abuso sexual antes de morrer asfixiada, mas não foram encontrados vestígios de sêmen na vagina ou na pele, e o assassino tinha lavado o corpo depois da morte. A garota não estava usando nada por baixo do vestido, o que contrariava as regras básicas do bom vestir. E o lugar onde encontraram o corpo costumava ficar tão cheio que muito poucos pensariam em deixar um corpo lá. Segundo uma das teorias iniciais do Departamento, após cometer o crime o assassino vestiu a vítima com a intenção de levá-la para outro lugar, mas na pressa se esqueceu de colocar a calcinha e o sutiã, ou não os considerou necessários. O vestido poderia ter sido o mesmo que a vítima usava antes de encontro fatal. Talvez a escolha do local não fosse relevante: o criminoso poderia ter agido de forma imprudente e simplesmente deixou o corpo na primeira oportunidade que se apresentou.
Yu não acreditava que fora um ato cometido ao azar, mas o caso foi atribuído à Brigada de Casos Especiais. Sabia muito bem que não deveria colocar a colher no prato alheio.
— É incrível repetiu Yu, se sentindo obrigado a falar novamente, porque nem Li nem Liao tinham respondido. — Refiro-me ao lugar onde o corpo foi encontrado.
Continuavam sem responder. Li começou a respirar pesadamente. Suas olheiras pareciam ainda mais profundas naquele silêncio sinistro. Li, um homem de quase sessenta anos, tinha enormes olheiras e sobrancelhas espessas cinzas.
— Algum progresso? Perguntou Yu, se voltando para Liao.

— Progresso? Li rosnou. — Esta manhã, outro corpo apareceu vestido com um qipao vermelho.

— Outra vítima! Onde?

— Em frente das janelas dos jornais, junto da entrada número do um do Parque do Povo, na Rua Nanjing.

— Incrível! Isso é no centro da cidade, afirmou Yu.
As janelas dos jornais, como o próprio nome indicava, eram uma série de janelas com jornais pendurados em uma linha ao longo do muro do parque, e quase sempre se concentravam ali um grande número de leitores. Era um desafio deliberado.
— Nós comparamos as duas vítimas, explicou Liao. Têm muitas semelhanças. Particularmente o vestido mandarim. O tecido e estilo são idênticos.

— Agora a imprensa irá colocar as unhas de fora, observou Li enquanto traziam um monte de jornais para a sala.


Yu apanhou o Diário Liberation, que trazia na capa uma fotografia à cores de uma jovem vestida com um vestido mandarim vermelho jogada no chão sob as janelas dos jornais.
— O primeiro assassino sexual em série de Xangai, Liao disse, lendo em voz alta. — “Vestido mandarim vermelho” se tornou uma expressão popular. As especulações parecem incêndios. A cidade está abalada e em expectativa.

— Os repórteres estão malucos, interrompeu abruptamente Li. — Somos bombardeados com uma avalanche de artigos e fotografias, como se fosse tudo o que importasse nesta cidade.


A frustração de Li era compreensível. Xangai era conhecida pela eficiência de seu governo e, entre outras coisas, pelo seu baixo índice de criminalidade. Tinham sido cometidos outros assassinatos em série em Xangai, mas devido ao controle efetivo da mídia, nunca tiveram publicidade. Um caso assim poderia levar as pessoas a pensar que a polícia da cidade era incompetente, algo que os jornais subsidiados pelo governo evitavam insinuar. No entanto, em meados da década de 1990 os jornais já eram responsáveis ​​por seu desempenho e rentabilidade: os jornalistas tinham de procurar notícias sensacionalistas, e o controle da mídia já não era tão férreo.
— Hoje em dia, com todos os romances e filmes de suspense nas livrarias e na TV, alguns traduzidos pelo nosso Inspetor-Chefe Chen, disse Liao, — Os jornalistas estão começando a se colocarem como Sherlock Holmes em suas colunas. Olhem para o Wenhui. Já previu a data do próximo crime: Outro corpo vestido com um qipao vermelho antes da próxima sexta-feira.

— Isso todo mundo sabe, repôs Yu. — Os assassinos em série agem em intervalos regulares. Se ninguém pará-los, eles vão continuar a matar durante toda a sua vida. Chen traduziu algo sobre um assassino serial. Acho que devemos falar com ele.

— Foda-se o assassino em série! Li parecia se exasperar com o prazo. — Você já falou com seu chefe? Aposto que não. Está muito ocupado escrevendo a sua obra literária. Yu sabia que o relacionamento entre Chen e Li ultimamente não era muito boa, por isso não respondeu.

— Não se preocupe, comentou Liao sarcasticamente. — Mesmo se acabarem os açougueiros, Zhang ainda continuará a ter porco sobre a mesa.

— Esses assassinatos são uma bofetada no Departamento de Polícia. “Ei, policiais, vejam o que eu fiz!”. Li continuou acaloradamente. — O inimigo do povo tenta sabotar o grande progresso da nossa reforma, e está prejudicando a estabilidade social, causando pânico entre as pessoas. Vamos começar pelos que mostram um ódio encarniçado com o nosso governo.
A lógica de Li ainda se baseava no pequeno livro vermelho de Mao, e de acordo com esta lógica, refletia Yu, qualquer um pode ser um inimigo do povo. O secretário do Partido era conhecido pelas teorizações políticas sobre as investigações de homicídios. O chefe número um do Partido também se considerava uma espécie de investigador número um.
— Primeiro, o criminoso deve ter algum lugar para cometer o assassinato e o mais provável é a sua casa, observou Liao. — Seus vizinhos podem ter notado algo estranho.

— Então entremos em contato com todos os comitês de bairro, especialmente aqueles mais próximos dos dois locais onde os corpos foram encontrados. Como disse o Presidente Mao, devemos confiar nas pessoas. Agora, a fim de resolver o caso o mais rápido possível, concluiu Li solenemente: — Você, Inspetor Liao, e você, sargento Yu, irão liderar uma equipe especial.


Os dois policiais não conseguiram discutir o caso em detalhe até que o secretário do Partido tivesse deixado o escritório.
— Eu sei muito pouco sobre este caso, Yu começou, — E praticamente nada sobre a primeira vítima.

— Este é o arquivo do primeiro. Liao lhe entregou uma pasta volumosa. — No momento, ainda estamos recolhendo informações sobre o segundo.


Yu apanhou uma fotografia ampliada da primeira vítima. Uma mecha preta cobria parcialmente o seu rosto, e vestido justo destacava as suas curvas.
— A julgar pelos hematomas em seus braços e pernas, Liao sugeriu, — Pode ter sofrido algum tipo de agressão sexual. Mas não há vestígios de sêmen ou secreções vaginais, e no laboratório descartaram que o assassino tenha usado preservativo. Tampouco descobriram vestígios de lubrificante. Ele fez o que queria antes de matá-la e quando o corpo da jovem já estava rígido, o assassino voltou a vesti-la, de forma abrupta e apressada. Isso explicaria as aberturas rasgadas e os botões arrancados.

— Estamos certos de que o vestido mandarim vermelho não era dela, apontou Yu, — Porque a segunda vítima, quando foi encontrada, estava usando um vestido idêntico ao primeiro.

— Não, o vestido não era dela.
Yu examinou as aberturas e botões arrancados na fotografia. Se o assassino realmente se preocupara em obter um caro vestido de moda, por que será que vestira os corpos de forma tão descuidada em ambas as ocasiões?
— O vestido da segunda vítima também teve as aberturas rasgadas?

— Já vi aonde quer chegar, resmungou Liao, balançando a cabeça.

— Quando a primeira vítima foi identificada?

— Cerca de três ou quatro dias depois de terem encontrado o corpo. Tian Mo ou Jasmine, 23 anos. Trabalhava no hotel Gaivota, que fica perto da interseção das Ruas Guangxi e Jingling. Morava com o pai paralítico. De acordo com vizinhos e colegas, era uma boa moça, muito trabalhadora. Não tinha namorado, e nenhuma das pessoas que a conhecia acredita que tivesse inimigos.

— Parece como se o assassino tivesse jogado o corpo de um carro.

— Sim, é o que parece.

— Poderia ter sido um motorista de táxi ou o proprietário de um veículo particular?

— Motoristas de táxi fazem turnos de doze horas. Após a descoberta da segunda vítima, investigamos imediatamente quem trabalhou em ambas as noites. Menos de vinte estavam de plantão naquele horário, e todos eles mantêm os recibos de pelo menos uma das noites. Como um motorista de táxi teria tempo para matar entre as corridas, lavá-la, provavelmente em um banheiro particular, e colocar o vestido mandarim? Liao negou com a cabeça antes de continuar falando. — Talvez fosse um carro particular. Têm aumentado dramaticamente nos últimos anos, com muitos “bolsos cheios” nas empresas e tantos sugadores no Partido. Mas não temos os recursos para bater em suas portas, um após outra por toda a cidade, a não ser que o secretário do Partido nos dê luz verde para fazer isso.

— E o que você pensa dos lugares onde foram encontrados os corpos?

— No primeiro, afirmou Liao, puxando uma fotografia em que no fundo se via um semáforo no cruzamento das ruas, — O assassino teve que sair do carro para depositar o corpo. Ele se arriscou muito, o tráfego é praticamente contínuo nessa área. O bonde 26 circula até às duas e meia, e depois volta a sair às quatro. Além disso, de vez em quando passam alguns carros, e os estudantes que trabalham até tarde entram e saem do Instituto no outro lado da rua.

— Você acha que o lugar em que o corpo apareceu tem algum significado relacionado com o Instituto de Música, como afirmam alguns jornalistas? Perguntou Yu.

— Investigamos isso. Jasmine não estudava no colégio. Gostava de música, como a maioria dos jovens, e cantarolava uma música de vez em quando, mas isso era tudo. E a sua família tampouco têm alguma relação com a escola. A segunda vítima foi abandonada em um lugar diferente, de modo que não parece ter qualquer sentido em levar a sério toda essa merda dos jornais sobre o Instituto de Música.

— Pode ser que desta vez tenha razão. Os dois corpos foram encontrados em áreas de alto tráfego, e é possível que o criminoso quisesse deixar a sua marca, apontou Yu. — Imagino que você fez contato com todos os comitês de bairro da região.

— Claro, mas as perguntas se centraram em um tipo muito específico de criminoso: agressores sexuais com antecedentes criminais. Ainda não encontramos nada. O segundo corpo apareceu nesta manhã.

— Diga-me tudo o que sabe sobre o segundo corpo.

— Foi descoberto por um rapaz do Wenhui que tinha ido trocar os jornais nas janelas. Depois de baixar o seu vestido para cobrir as coxas nuas e tapar o rosto com jornais, ligou para o Wenhui em vez de nos chamar. À chegada, encontramos uma grande quantidade de pessoas concentradas lá há um bom tempo, e é muito possível que tenham virado o corpo várias vezes. Então, não fazia sentido inspecionar o local onde o corpo foi encontrado.

— Já veio o relatório do legista?

— Não, ainda não. Apenas um relatório preliminar preparado no local. Mais uma vez, morte por asfixia. Não parece que a vítima tinha sido abusada sexualmente, mas, como a primeira, não usava nada por baixo do vestido mandarim. Liao colocou mais fotos sobre a mesa. — Nenhum vestígio de sêmen depois que eles retiraram amostras vaginais, orais e anais. Os analistas de impressões latentes também fizeram o seu trabalho, e não encontraram nenhum cabelo solto que tivesse caído sobre o corpo.

— É possível que o segundo assassinato tenha sido uma cópia do primeiro?

— Examinamos os dois vestidos. O mesmo tecido e também o mesmo modelo. Ninguém que quisesse copiar o primeiro assassinato poderia conhecer ou reproduzir todos os detalhes.

— Foram tomadas outras medidas em relação à segunda vítima?

— Fizemos cartazes com a foto dela. Temos recebido muitas ligações, em que nos fornecem possíveis pistas. O Departamento está trabalhando na velocidade máxima.

— Goste ou não do termo assassino em série Li, disse Yu, — Não descarte essa possibilidade. Dentro de uma semana, poderemos encontrar um terceiro cadáver vestido com um qipao.

— Politicamente, Xangai não pode admitir a existência de um assassino serial.


Por isso Li chamara a brigada de casos especiais.
— Na suposição de que se trate de um assassino em série, disse Yu, ciente da longa rivalidade entre as brigadas de homicídio e casos especiais, — Precisamos estabelecer o perfil do criminoso.

— Bem, os vestidos são muito caros, então é possível que seja rico. Tem carro. O mais provável é que more sozinho; não poderia ter feito tudo isso sem ter casa própria: um apartamento ou uma casa isolada. Claro, eu não quero dizer um quarto em uma casa hikumen em que tivesse de se apertar com vinte outras famílias. Seria impossível movimentar os corpos sem chamar a atenção dos vizinhos.

— Isso é verdade, disse Yu, assentindo com a cabeça. — Além disso, deve ser um tipo solitário e pervertido. Despiu as vítimas, mas não podemos afirmar que as submeteu a abuso sexual. É um psicopata que encontra alívio mental ao cometer assassinatos rituais, e usa o vestido mandarim vermelho como uma assinatura.

— Um psicopata que encontra alívio mental? Exclamou Liao. — Isso, vice-inspetor Yu, me lembra de todos aqueles thrillers que o seu patrão traduz. Cheios de tagarelice psicológica, mas que não nos oferecem nada para agarrar.

— Mas a partir desse tipo de abordagem psicológica pode se chegar a conhecer mais sobre ele, repôs Yu. — Acho que li isso em um livro que Chen traduziu, mas foi há muito tempo atrás.

— Bem, a minha abordagem é muito mais prática, mais material do que psicológica, e é eficaz para reduzir a nossa lista de suspeitos. Pelo menos, não temos de nos ​​preocupar com aqueles que não atendem a essas condições materiais.

— E o vestido mandarim vermelho? Perguntou Yu, evitando evitar o confronto por agora.

— Pensei em oferecer uma recompensa por informações, mas Li recusou porque teme uma avalanche de ligações sem fundamento.


A conversa foi interrompida pela entrada de Hong, uma jovem graduada da Academia de Polícia de Xangai, que trabalhava como assistente de Liao. Hong era uma jovem bonita, com um doce sorriso de dentes muito brancos. Comentava-se que o namorado dela era um dentista que tinha estudado no exterior.
— Bem, eu vou começar a verificar essas pastas, Yu disse, se levantando.
Quando saía do escritório, pensou que Hong tinha uma ligeira semelhança com a primeira vítima.


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