Secretaria de administraçÃo e recursos humanos



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7. DIRETRIZES PRIORITÁRIAS PARA A CULTURA DO MUNICÍPIO DE JUIZ DE FORA - Embora todas as diretrizes e metas indicadas no corpo deste documento sejam de suma importância para o desenvolvimento e a valorização da cultura local, dez temas prioritários foram destacados. Esses temas são intersetoriais e considerados suporte imprescindível ao cumprimento dos demais, por essa razão merecem lugar especial no PMC. Durante o período de vigência do PMC indica-se o seu total atendimento. 7.1. Destinar 2% do orçamento municipal para a pasta da Cultura - 7.1.1. Objetivo: a. gradativamente ao longo dos dez anos de vigência do PMC alcançar 2% do valor total do orçamento municipal, para tanto se propõe que a cada ano seja destinado mais 0,1% do orçamento até que seja alcançado o percentual indicado nesta proposição. Tendo como referência o orçamento executado no ano anterior. 7.2. Dividir de forma equânime os recursos públicos destinados à Cultura entre todas as áreas artísticas - 7.2.1. Objetivo: a. durante os dez anos de vigência do PMC haverá conjugação de esforços dos poderes Executivo e Legislativo e da sociedade civil visando o equilíbrio de distribuição de recursos, através de instrumentos legais, entre as diversas áreas e setores da cultura no município. 7.2.2. Áreas com demanda – fortalecer; 7.2.3. Áreas com demanda deficiente – fortalecer; 7.2.3. Áreas sem demanda – incentivar; 7.3. Realizar mapeamento e censo cultural - 7.3.1. Objetivo: a. realizar a cada quatro anos mapeamento e censo cultural no município de Juiz de Fora, visando à criação e a manutenção do Sistema Municipal de Informações Culturais devidamente integrado aos sistemas Estadual e Nacional de Informações Culturais. 7.3.2. Identificação de artistas e grupos. 7.3.3. Identificação de interesse e demandas da população com relação à cultura. 7.3.4. Identificação e análise de equipamentos e programas culturais. 7.4. Valorizar o artista local - 7.4.1. Objetivo: a. durante o período de vigência do PMC serão desenvolvidas diversas ações no sentido prático e de aprimoramento das legislações existentes visando a valorização do artista local, através da valorização da cadeia produtiva da cultura, da priorização do artista e de grupos locais em eventos promovidos, incentivados ou apoiados pelo poder público. 7.5. Capacitar e formar agentes culturais - 7.5.1. Objetivo: a. através de esforços conjugados serão realizados programas destinados à formação e ao aprimoramento de artistas, gestores, técnicos e agentes culturais de todas as áreas e setores da cultura no município. 7.6. Fomentar uma política de circulação de produtos culturais - 7.6.1. Objetivos: a. desenvolver programas e ações que estimulem e auxiliem na circulação de bens culturais produzidos na cidade e/ou por artistas locais, nos limites territoriais do município como também em outras localidades do Brasil e do exterior. b. estimular e apoiar a circulação de produtos e bens culturais de outras localidades do País e do exterior no município de Juiz de Fora. c. estabelecer ao longo do período de vigência do PMC uma política municipal com indicadores claros e precisos para a circulação de produtos e bens culturais da e/ou na cidade. 7.7. Ampliar o acesso do cidadão a todo tipo de bem cultural - 7.7.1. Objetivos: a. desenvolver durante o período de vigência do PMC programas de ampliação do acesso econômico, físico e intelectual a bens e produtos culturais, bem como programas e ações que visem o estímulo à expressão através da representação simbólica, presente nas artes e na cultura, para todos os cidadãos. b. ampliar os mecanismos e instrumentos de fruição das artes e da cultura. 7.8. Aparelhar e conservar os espaços públicos (abertos e fechados) - 7.8.1. Objetivos: a. desenvolver durante o período de vigência do PMC, considerando o diagnóstico oriundo do censo cultural realizado no município por indicação deste plano, programas e ações com foco na valorização, conservação de espaços culturais existentes, sejam eles públicos ou privados. b. estimular a criação de uma rede de espaços culturais no município de Juiz de Fora. c. criar, de acordo com as demandas apresentadas pela população, novos espaços culturais na cidade, privilegiando a descentralização. 7.9. Restaurar e revitalizar o Museu Mariano Procópio - 7.9.1. Objetivo: a. concluir integralmente a restauração do Museu Mariano Procópio e sua necessária adequação aos novos parâmetros de organização de museus hoje estabelecidos, durante o período de vigência do PMC. 7.10. Incentivar a leitura e educação - 7.10.1. Objetivos: a. estabelecer no município de Juiz de Fora a leitura como atividade cidadã. b. desenvolver projetos, programas e ações, que estabeleçam o acesso ao livro e à leitura como atividades prioritárias. c. estabelecer programas e ações com foco na real integração entre cultura e educação em todos os níveis de ensino, bem como com as atividades de educação informal. d. desenvolver programas, projetos e ações que tenham como base o território da cidade como um grande espaço educativo.

8. DIRETRIZES DO PLANO MUNICIPAL DE CULTURA - 8.1. Gerais: I - Garantir que as deliberações das conferências municipais de Cultura tenham caráter de política pública e que suas diretrizes e decisões sejam incorporadas nos respectivos Planos Plurianuais e nas Leis de Diretrizes Orçamentárias, assegurando sua efetiva execução nas Leis Orçamentárias Anuais; II - Indicar o crescimento gradativo do orçamento municipal para a Cultura, com efetivação da ampliação do orçamento destinado à Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (FUNALFA), órgão gestor da Cultura no município de Juiz de Fora. Indicação: atingir, no mínimo, 2% até o término da vigência deste Plano; III - Realizar diagnóstico e censo cultural a cada quatro anos, em âmbito municipal, para mapear os agentes e espaços culturais já atuantes nas diversas regiões de Juiz de Fora, assim como as manifestações culturais. O processo abrangeria as vocações culturais de cada local e suas necessidades: materiais, humanas, de adaptação à diversidade e à acessibilidade universal. O censo cultural e o diagnóstico deverão ser coordenados pela FUNALFA e pelo Conselho Municipal de Cultura (CONCULT); IV - Transversalidade das políticas culturais para a articulação e a implementação de políticas públicas, promovendo a interação entre instituições culturais do município e as demais áreas sociais, destacando o papel estratégico da Cultura no processo de desenvolvimento humano e social; V - Realizar, promover e apoiar ações com foco nas atividades artístico-culturais; VI - Ampliar e manter equipamentos físicos destinados à cultura e às artes; VII - Estímular e valorizar a produção cultural local e o intercâmbio com a produção cultural de outros centros urbanos; VIII - Apoiar diversos espaços culturais do município que tenham como proposta a produção e a divulgação das diferentes manifestações culturais, favorecendo e apoiando o funcionamento do local e a manutenção das atividades desenvolvidas; IX - Reorganizar o organograma da FUNALFA, de acordo com a Lei Municipal 10.000/2001; X - Formar e aprimorar o quadro de funcionários da FUNALFA, o da Fundação Museu Mariano Procópio e o do Arquivo Histórico de Juiz de Fora (AHJF), assim como nas demais instituições culturais públicas do município, através do investimento em recursos para a ampliação e a qualificação do quadro de servidores; XI - Aparelhamento da FUNALFA e da Fundação Museu Mariano Procópio com foco nas necessidades do município para a realização de atividades culturais; XII - Ampliar o número de atividades culturais permanentes realizadas pela FUNALFA e manter aquelas já realizadas, como Festival Nacional de Dança, Festival Nacional de Teatro, Corredor Cultural, Arraiá da Cidade, Festa das Etnias, Festival de Cenas Curtas, Bazarte, Programa Cinema Paratodos, carnaval, entre outras; XIII - Ampliar o número de atividades culturais permanentes realizadas pela Fundação Museu Mariano Procópio e manter aquelas já realizadas, como Música no Parque, Oficina Temática, Clube Ecológico, visitas guiadas, entre outras; XIV - Integrar a FUNALFA com outras secretarias e órgãos da administração pública para incentivo e valorização da cultura e das artes; XV - Proteger e promover a diversidade das expressões culturais, sempre considerando em primeiro plano o interesse público e o respeito à diversidade cultural (Artigos 215 e 216 da Constituição Federal); XVI - Valorizar as atividades culturais direcionadas à terceira idade; XVII - Divulgar as leis de incentivo à cultura e outros mecanismos de promoção cultural no meio empresarial; XVIII - Criar assessoria pública para artistas, produtores culturais (pessoas física e jurídica) com a finalidade de oferecer suporte à elaboração de projetos, visando a participação em mecanismos de incentivo e fomento a projetos culturais; XIX - Estabelecer parcerias com a iniciativa privada e outros setores para a ampliação da oferta e do acesso à cultura, aos bens culturais, às artes e eventos ligados às diferentes áreas artístcas. XX - Criar mecanismos de formação dos artistas e/ou produtores como empreendedores através de cooperativas ou incubadoras em parceria com setores públicos e iniciativa privada; XXI - Instituir programas socioculturais, com foco na cultura, em comunidades vulneráveis social e economicamente, tanto em zonas urbanas quanto rurais, com a inclusão de públicos diversos (crianças, jovens, idosos, grupos étnicos, portadores de deficiência etc), visando a ampliação do direito à cultura; XXII - Criar mecanismos que visem a garantia da continuidade de projetos desenvolvidos pela administração municipal e bem avaliados pela população; XXIII - Adequar propostas e projetos culturais às indicações da Agenda 21; XXIV - Criar políticas de fomento à preservação de monumentos naturais e sítios de valor paisagístico integrados às políticas públicas do município para promoção do patrimônio cultural e natural, de forma integrada ao meio ambiente; XXV - Ampliar políticas de fomento à preservação do patrimônio documental; XXVI - Garantir a participação do município em políticas culturais em nível regional, estadual e federal no sentido de integrar o pacto entre os entes federados, proposto pelo Governo federal; XXVII - Ampliar os recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura (Lei Murilo Mendes) para garantir o apoio a um maior número de projetos ou elevar o teto de recursos destinados a cada proposta. Aperfeiçoar mecanismos para gestão e processo da Lei Municipal de Incentivo à Cultura. (Lei Murilo Mendes); XXVIII - Incentivar ações que busquem fazer com que o carnaval das escolas de samba seja, em parte, auto-sustentável; XXIX - Criar projetos para a transformação e/ou adaptação de espaços públicos em equipamentos culturais, requalificando áreas urbanas para sua plena utilização; XXX - Estimular a formação de público através de implementação de programas de incentivo à permanente integração entre instituições de ensino públicas e privadas com produtores culturais e artistas; XXXI - Buscar parcerias com os meios de comunicação para a veiculação de produções locais; XXXII - Como lugar de guarda, conservar e disseminar a memória coletiva e privada, notadamente em suportes múltiplos, os arquivos constituem lugar privilegiado da pesquisa, tanto no âmbito científico quanto pessoal. Lugar onde estão registradas as experiências e o modus operandis na construção da sociedade, registrando seus diversos aspectos, mesmo que de forma subjetiva. Portanto, os arquivos constituem fonte privilegiada para a solidificação das diversas manifestações culturais, sua manutenção e a compreensão de seu surgimento e desenvolvimento no longo curso, tomando este juízo crítico e provido de entendimento profundo das raízes constitutivas do sujeito coletivo. 8.2. Educação: I - Articular as políticas culturais com as políticas públicas de educação para elaboração e implementação de conteúdos programáticos dedicados à cultura, à preservação do patrimônio e à história afro-brasileira e indígena, ao ensino de línguas estrangeiras, sob a perspectiva da diversidade cultural nas escolas públicas e privadas; II - Garantir parceria com a Secretaria de Educação e o Arquivo Histórico de Juiz de Fora (AHJF), através de projetos educativos que envolvam instituições de ensino e arquivos municipais; III - Elaborar projetos nas e para as escolas, com foco na cultura e nas artes, capacitando os diversos profissionais da área de ensino com o intuito de formação de público; IV - Apoiar instituições educacionais para qualificação dos espaços escolares, permitindo que esses sejam usados, também, como espaços culturais pelas comunidades locais; V - Estabelecer parceria entre os órgãos de cultura e de educação para criação de política educacional de formação continuada para professores, artistas, arte-educadores e produtores culturais com ênfase na diversidade cultural local; VI - Estimular, através de ações coordenadas e projetos, que as escolas desenvolvam planejamentos como unidades produtoras e difusoras de cultura. 8.3. Sistemas de Informação: I - Fortalecer os meios de comunicação comunitários, apoiando a organização e a divulgação das manifestações culturais tradicionais e artísticas, dos diferentes grupos étnicos, bem como o estímulo dessas culturas para a fomentar a diversidade cultural; II - Criar um consórcio intermunicipal de cultura, visando o desenvolvimento e a integração, a divulgação e a difusão entre os órgãos públicos de várias esferas, iniciativa privada e setores da sociedade civil organizada, colaborando para a formação de um sistema de informação cultural da Zona da Mata; III - Estabelecer um cronograma e de uma agenda anual de ações culturais, visando o incentivo, a promoção, a divulgação, a difusão e a organização de eventos locais; IV - Criar um sistema de digitalização, arquivo e divulgação na web de documentos fotográficos, textuais e audiovisuais para favorecer a pesquisa, a valorização e a proteção da memória cultural, com garantia total de acessibilidade das informações; V - Realizar diagnóstico e planejamento, a fim de possibilitar a participação dos portadores de deficiência ou mobilidade reduzida, em nível de apreciação, produção e transmissão de cultura. 8.4. Formação e capacitação: I - Investir em instrumentos para capacitação dos agentes culturais já existentes em Juiz de Fora e região, assim como a formação de novos agentes; II - Investir na profissionalização dos trabalhadores da cultura através de parcerias com os setores responsáveis, com a ampliação dos cursos de nível superior, técnicos e profissionalizantes, a fim de favorecer a capacitação dos agentes culturais já existentes em Juiz de Fora e região, assim como a formação de novos agentes; III - Implantar políticas permanentes de formação, capacitação de agentes de cultura, com foco na valorização da diversidade cultural e na profissionalização da cultura; IV - Disponibilizar, incentivar e ampliar recursos para a realização de cursos de capacitação e qualificação de agentes e gestores culturais nas temáticas relacionadas à cultura inclusive nos níveis técnico, superior e de pós-graduação; V - Estimular e investir em cursos de capacitação nas áreas de produção cultural e gestão de projetos. 8.5. Espaços: I - Identificar e democratizar o uso dos espaços públicos de difusão cultural para produção e disseminação das manifestações culturais do município; II - Recuperar, revitalizar e manter espaços físicos relacionados à cultura no Município, garantindo o uso descentralizado; III - Adequar os espaços físicos aos parâmetros de acessibilidade, respeitadas as características de cada espaço, viabilizando o acesso aos portadores de deficiência e mobilidade reduzida; IV - Criar conselhos gestores para espaços culturais públicos. 8.6. Ampliação do acesso à Cultura: I - Ampliar ações de democratização do acesso aos bens culturais, por meio de parcerias do poder público com a iniciativa privada e organizações da sociedade civil, promovendo a descentralização de ações, projetos itinerantes, atendimento a diversas regiões do município e zonas rurais, oferta de transporte e divulgação adequada, entre outras iniciativas; II - Ampliar o acesso à cultura e a bens culturais para toda a população, com atendimento prioritário a crianças e adolescentes residentes em áreas de baixa renda e risco social; III - Apoiar as ações comunitárias ligadas à cultura, à leitura e ao acesso às artes; IV - Estimular a produção, à divulgação e ao acesso da população a atividades das diversas manifestações artísticas (cinema, música, teatro, literatura, dança, artes visuais, cultura popular, artesanato, etc); V - Viabilizar ações que atendam aos seguintes objetivos: difusão e ampliação do acesso; estímulo à produção; formação de público; ensino e transmissão; valorização dos agentes culturais locais; registro e documentação; VI - Estimular a criação de ambientes lúdicos onde haja o exercício e a fruição da cultura nas suas mais diversas manifestações, em espaços como escolas públicas hospitais, casas de saúde, asilos, orfanatos, centros de recuperação de dependentes químicos e de ressocialização de presos e presídios; VII - Criar uma rede de pontos de cultura municipais, em ampliação e integração à política homônima do Governo Federal; VIII - Descentralizar programas e políticas públicas de cultura, fortalecendo a realização de ações em bairros do município, incluindo a instalação de equipamentos culturais, dotados de infraestrutura adequada e acessibilidade; IX - Direcionar contrapartidas da Lei Municipal de Incentivo à Cultura (Lei Murilo Mendes) para ações também nos bairros e nas comunidades que possuem maior dificuldade de acesso a bens culturais. 8.7. Incentivo à produção cultural: I - Incentivar os diversos grupos e entidades culturais de Juiz de Fora na participação em editais, leis e outros processos que possibilitem a captação de recursos para a cultura, a produção, a circulação, o consumo e a preservação de bens culturais, através da divulgação nos meios de comunicação, inclusive os comunitários, e nos órgãos públicos, dos editais e programas que integram as políticas públicas de cultura; II - Aperfeiçoar os mecanismos para gestão e processo da Lei Municipal de Incentivo à Cultura. (Lei Murilo Mendes); III - Direcionar público das contrapartidas da Lei Municipal de Incentivo à Cultura (Lei Murilo Mendes); IV - Melhorar divulgação dos mecanismos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura (Lei Murilo Mendes), fortalecendo e ampliando os recursos disponíveis. 8.8. Cultura e economia criativa / Valorização do artista local: I - Estimular a organização de comunidades criativas, cooperativas, coletivos culturais e artísticos pautados no princípio de autogestão e economia solidária, em âmbito local; II - Estimular a realização de encontros, seminários, feiras, festivais e debates que reúnam artistas, gestores e investidores em cultura e possibilitem a troca de conhecimentos, informações e projetos, de modo a propiciar a interação dos diversos grupos de interesses na área da cultura; III - Ampliar os mecanismos de incentivo à circulação da produção artística local e de intercâmbio estadual, nacional e internacional; IV - Criar um Portal Virtual para divulgação e comercialização de produtos e ações culturais e que disponibilize informações afins; V - Criar midiateca para disponibilização de informações sobre as artes e a cultura no município; VI - Promover o intercâmbio de produções culturais e simbólicas da arte local com os de outros municípios, estados e países, valorizando a todas as linguagens artísticas e seus representantes. 8.9. Leitura: I - Ampliar os acervos existentes nas bibliotecas públicas; II - Criar bibliotecas comunitárias nos bairros com espaço e ações para dinamização da leitura; III - Criar bibliotecas itinerantes nos bairros e na zona rural; IV - Garantir parceria entre os órgãos de cultura e educação para ampliação e diversificação do acervo bibliográfico das escolas da cidade; V - Divulgar as bibliotecas e acervo; VI - Criar um sistema municipal de bibliotecas; VII - Criar bibliotecas virtuais e disponibilização do acervo das bibliotecas na internet; VIII - Implantar um programa de leitura nas bibliotecas públicas e escolares; IX - Fortalecer as bibliotecas escolares, e criação onde não existirem, com ampliação do uso de seu equipamento e acervo às comunidades locais. 8.10. Arquivos públicos e privados: I - Incentivar a gestão documental e a proteção especial a documento de arquivos, como instrumento de apoio à administração pública, à cultura, ao desenvolvimento científico e como elemento de prova e informação; II - Identificar e declarar como de interesse público e social os arquivos privados de pessoas físicas ou jurídicas, relevantes para o entendimento da história e da cultura do município.

9. ARTES CÊNICAS - 9.1. Histórico - O Teatro em Juiz de Fora - As artes cênicas estão muito bem representadas no cenário cultural de Juiz de Fora. O teatro e a dança são atividades com grande envolvimento de artistas, produtores e profissionais ligados ao ensino e às artes do espetáculo. Grupos artísticos, companhias, escolas e academias de dança são responsáveis por uma gama de espetáculos e produções que, todos os anos, ocupam os palcos dos teatros e os espaços alternativos descobertos e desbravados como alternativa à falta de equipamentos físicos adequados para essas manifestações artísticas. O circo, como produção cultural em Juiz de Fora, é menos expressivo que o teatro e a dança. Pontualmente, podem-se perceber artistas que se interessam pela arte circense, buscando formação em suas diversas linguagens e profissões. Esses artistas também têm trabalhado com atividades de ensino em torno das habilidades do mundo do circo que, muitas vezes, vêm sendo utilizadas na composição de espetáculos de teatro e de dança. A arte do palhaço, que mescla a linguagem do circo e da representação teatral, vem ganhando espaço nos últimos anos no município e envolve vários artistas locais. A arte milenar do teatro que se apresenta ao município através de mambembes e espetáculos de companhias de outras cidades a partir da última metade do século XIX encontra por aqui terreno fértil para se estabelecer. O teatro foi introduzido no município em 1858, através de um grupo amador, vindo de fora, que fez uma apresentação da comédia de Martins Penna, Judas em Sábado de Aleluia, na casa do Dr. Eduardo de Menezes, e ganhou impulso com as construções de casas de espetáculos, como o Misericórdia, 1863, no Alto dos Passos - atual Capela da Santa Casa -, e do Teatro Provisório, 1866 - como o próprio nome diz, uma casa improvisada para apresentações de teatro e música. Mesmo com uma estrutura acanhada e de pouco conforto, o primeiro teatro propriamente dito é o Perseverança, inaugurado em 1870. Após uma grande reforma, em 1889, ganha uma excelente estrutura de palco e plateia e é rebatizado de Teatro Juiz de Fora. Em 1890, passa a se chamar Teatro Novelli, em homenagem ao ator Ermete Novelli, que comanda uma companhia no local. Esse espaço, situado na rua Espírito Santo, mantém-se ativo até o início dos anos 1920. No ano de 1924, a Resolução nº 933 do Executivo municipal abriu negociações com os proprietários para a construção no local de um Teatro Municipal, conforme Decreto nº 987, de 27 de abril de 1926. Porém, nesse ano, o prédio fora demolido, e no local é construída uma garagem para a Câmara Municipal. Em 5 de novembro de 1910, outro espaço abre suas cortinas: o Cine-Teatro Polytheama, com capacidade para 1.500 espectadores, situado à rua São João. Já a década de 1920 é marcada por grandes construções para a área teatral. A rua Halfeld ganha, no ano de 1920, o Cine-Theatro Paes, e o Glória, em 1929. A avenida Getúlio Vargas, esquina com rua São João, recebe o Teatro Variedades, no ano de 1926. O ano de 1927 marca a construção do Cine-Theatro Popular, onde o cineasta juiz-forano João Carriço exibia seus filmes, marcando o início da Companhia Central de Diversões, que iria construir o Cine-Theatro Central (onde existia o Polytheama), inaugurado em 1929, com arquitetura de Pantaleone Arcuri e pinturas do artista Ângelo Biggi, único espaço a resistir à especulação imobiliária e a trazer até os dias de hoje um registro dessa fase áurea. Nesse período, as representações teatrais no município são realizadas por grupos mambembes e pelos Clubes Dramáticos. Estes apresentam peças consagradas e dramaturgia local, sendo responsáveis pelas encenações que divertem os juiz-foranos nos inúmeros espaços que surgem. Essa característica local irá, posteriormente, influenciar a formação de grupos e teatros nas escolas tradicionais, como na Academia de Comércio (Grupo de Teatro Academia - GTA), no Stella Matutina, no Colégio Santa Catarina e no Instituto Metodista Granbery (Associação Teatral Granberiense - ATG). Nos anos 1930, são construídos o Teatro de São Mateus e a Casa D’Itália. Juiz de Fora torna parada obrigatória de grandes espetáculos vindos de outros centros. No final da década de 1950, o Teatro do SESI recebe um espetáculo de um grupo do Paraná que, vindo de um festival nacional promovido por Paschoal Carlos Magno, faz apresentações nas cidades por onde passava. Na plateia, estavam os futuros fundadores do Teatro do Estudante, que viria a se contrapor ao teatro tradicional. Os primeiros anos da década de 1960 foram momentos nacionais de efervescência cultural e política. O Teatro do Estudante do Brasil é o embrião do Teatro Universitário (TU), apoiado pela recém-criada Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e, alternando direções de Geraldo Brigatto e Natálio Luz, que veio do Rio de Janeiro já como um experiente ator profissional. As apresentações se davam, em sua maioria, na Casa d’Itália, palco de muitas encenações até os anos 1970. Ali, Natálio Luz, com um grupo dissidente do Teatro Universitário, cria, posteriormente, o Teatro da Casa d’Itália - Teci, que tem em seu elenco vários radialistas e autores próprios, criando a linha de um teatro genuinamente juiz-forano. Anos depois, Teci deixa a Casa d’Itália, tornando-se o Teatro de Comédia Independente. Em março de 1963, o espetáculo Cristo Total foi apresentado no campo do Sport Club, produzido e criado pelo jornalista e radialista José Carlos de Lery Guimarães em parceria com Wilson João Beraldo. A obra ficou na história como um espetáculo marcante do período, com a participação de estudantes, atores, pessoas da comunidade, totalizando 600 participantes. Sucesso retumbante, esse projeto foi encenado em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Na Faculdade de Filosofia e Letras, em 1966, é formado o Centro de Estudos Teatrais - Grupo Divulgação, fundado, entre outros, por José Luiz Ribeiro, que está à sua frente até hoje. Ainda nessa década, José Carlos criou e produziu o espetáculo Aquarela do Brasil, apresentado no Sport Club, envolvendo atores, estudantes, músicos, compositores, militares e pessoas da comunidade, executado durante a abertura do Campeonato Brasileiro Juvenil de Vôlei. Nesse evento, surgiu o Batuque Afro-Brasileiro de Nelson Silva. Em 1971, é fundado o Centro Cultural Pró-Música, importante espaço de formação artística e apresentações culturais. Com a criação do Forum da Cultura pela UFJF, em 1972, o Divulgação se desloca para essa casa. Recebe vários prêmios nacionais e se firma como um centro de estudos e pesquisas teatrais. Uma nova safra de grupos surge nos anos 1970, como, por exemplo, o Grupo Sensorial, criado por Henrique Simões, que, a partir de 1983, torna-se Sensorial Teatro & Boneco Vivo, trabalhando também com o teatro de animação (bonecos e objetos animados). A Academia de Comércio entrega ao diretor e ator Gueminho Bernardes, em 1977, o Grupo de Teatro Academia, que posteriormente seria dirigido pelo também ator e diretor Guy Schmidt, de 1987 a 2007, ano em que é extinto. Após a passagem pelo GTA, Gueminho funda o Teatro de Quintal, ou TQ. O Colégio Stella Matutina também registra atividades dramáticas orientadas por Terezinha Martins, pelo falecido professor Sérgio Lessa e pelo professor Henrique Simões, que também realiza atividades teatrais e espetáculos com alunos do Colégio Santa Catarina. Em 1980, também na Academia de Comércio, há a criação do Teatro Infantil Academia (TIA), dirigido por Nilza Bandeira James, que amadurece e se torna a Companhia de Atores Academia. Ainda nos anos 1980, o Teatro&Cia., fundado por Marcelo Gaio, Sandra Emília e Sérgio Arcuri e dirigido por José Eduardo Arcuri, produziu dois espetáculos marcantes: O despertar da primavera (1987) e Bella Ciao (1989). Outro nome que surge na cena teatral é o de Marcos Marinho, ligado aos grupos: Corpo Em Cena, de 1982; Navegar, de 1987; Embaixo do Céu, de 1991; e, posteriormente, à criação do Espaço Mezcla, em 2002, onde se destacam os projetos: Teatro Lido e Caravana de Palhaços. Nos anos 1970/80, a mídia dá especial atenção à produção local, e a efervescência se mostra por uma produção cênica que envolve o Teatro do SESI, o Teatro Clara Nunes (no SESC) e, posteriormente, o São Mateus, que, com suas programações, enriquecem o cenário local. Em 26 de fevereiro de 1981, dá-se início à construção do Teatro Paschoal Carlos Magno, com a expectativa de que seja o Teatro Municipal de Juiz de Fora, mas que, ainda hoje, permanece com as obras paradas na fase estrutural. Nesse período, ocorrem as inaugurações do Centro Cultural Pró-Música e do Teatro Solar, que passam a receber produções externas, aumentando a oferta de espetáculos profissionais. A Sala de Encenação Flávio Márcio, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, inaugurada em 1987, em contraponto, oferece maior espaço às produções locais. Nos anos 1990, é criado o Laboratório de Arte e Cultura (LAC), fundado e dirigido por Rose Probst, atuando nas áreas de formação de atores e produção de espetáculos infantis, especializando-se, posteriormente, em teatro de bonecos. Nesse mesmo período, são formados também o Grupo Teatral Mendes Guttierrez - GTMG/Cia. Tralha e o Empório da Arte, criados por Alexandre Guttierrez. A produção é, ainda, marcada por herdeiros do teatro de cabaré em sua versão nacional. Robson Terra, Edgar Ribeiro, Loló Neves e Pedro Bismarck trilham o caminho do humor - este último alcançando renome nacional. Nos anos 2000, o TQ, vindo de uma trajetória de teatro de bar, faz incursões na TV e no stand up comedy. É criada ainda a Cia. Teatral Putz!, que, num primeiro momento, se dedica ao besteirol, porém, conquistando o amadurecimento, se lança em novas empreitadas ligadas a uma dramaturgia autoral para o grupo. A Lei Municipal de Incentivo à Cultura - Murilo Mendes, criada em 1994 por iniciativa do então vereador Vanderlei Tomaz, e aprimorada ao longo dos anos com a colaboração da classe artística, favorece os artistas e grupos locais com a possibilidade de fomento dos projetos aprovados e estabelece novos parâmetros para a produção cultural no município. Diversas companhias surgem, inclusive com textos próprios, e se dissipam com relativa rapidez, buscando sua identidade e sua colocação no cenário local. Na produção de festivais, destacam-se os dois estaduais realizados pelo Grupo Divulgação, na década de 1980, em parceria com a Federação Mineira de Teatro (FETEMIG), e as três iniciativas municipais, promovidas pela Prefeitura de Juiz de Fora/FUNALFA: a mostra Juiz de Fora Em Cena, com duas edições (2002 e 2003); a criação do Festival Nacional de Teatro de Juiz de Fora, em 2005, que a cada ano cresce, diversifica-se e ganha importância no cenário brasileiro; e o Festival de Cenas Curtas, iniciado em 2009, proveniente do Festival Nacional. O estabelecimento da Campanha de Popularização do Teatro e da Dança no ano 2000 por iniciativa do Sindicato de Produtores de Artes Cênicas de Minas Gerais (SINPARC/MG) e a fundação da Associação de Produtores de Artes Cênicas de Juiz de Fora (APAC/JF), em 2003, deram nova vida ao cenário teatral local. -A Dança em Juiz de Fora - Hoje, o trabalho da dança em Juiz de Fora está centrado nas academias e escolas do ramo, sem a predominância de grupos profissionais. No entanto, o percurso histórico envolve vários personagens e espaços, e é possível perceber iniciativas e inovações na busca de uma identidade para a linguagem da dança no município. Não foi possível encontrar registros ou colher depoimentos referentes a período anterior a 1950. Em 1952, com a chegada da carioca Maria do Carmo Carriço, a dança clássica em Juiz de Fora ganha vulto. Convidada para dirigir o primeiro curso local, ela, que já havia estudado história da arte, balé clássico, moderno e espanhol, além de ter visitado várias capitais sul-americanas, funda a academia Anna Pavlova, que funcionava, a princípio, em uma sala do Conservatório Brasileiro de Música e, posteriormente, no Centro Cultural Pró-Música. Durante quase 20 anos, Maria do Carmo Carriço mantém-se como referência no município. Muitas de suas alunas, já formadas, montam suas próprias academias, o que faz a dança se expandir por Juiz de Fora. Lucita Sarmento se destaca na cena nos anos 1970 com um trabalho que influenciou o ingresso de diversos profissionais na área, bem como o estabelecimento de novos espaços de ensino e experimentação: Tellab Academia de Dança, Corpus Núcleo de Dança, Flash Dance, Estúdio Segmento, entre outros. No início da década de 1980, é fundado o Real Ballet, cujos espetáculos de encerramento de ano eram desenvolvidos com temas de balé de repertório para grande público. A década de 1980 é profusa para a Corpus Núcleo de Dança, que, buscando o estabelecimento do grupo como companhia profissional, trouxe para assinar coreografias importantes nomes do cenário nacional, como Marika Gidali, João Viotti Saldanha, Rodrigo Pederneiras, Sonia Destri, Ana Maria Mondini e Vitor Navarro, o que faz Juiz de Fora descobrir a dança contemporânea. Nessa mesma década, é formado o Grupo Mudanças, único coletivo local premiado no Festival de Joinville (1996). Outro grande espaço que é criado nesse período é a Escola Corpo Livre, com a companhia de mesmo nome. O Grupo de Dança da UFJF forma-se no ano de 1982, e, com o passar dos anos, promove importantes debates sobre o tema. Em 1991, acontece a 1ª Mostra de Dança Contemporânea de Juiz de Fora, e, em 1995, nasce o Studio de Dança Vivian Mockdece. Em 1998, destaca-se a criação da Ekilíbrio Companhia de Dança, que seria o embrião da Inércia Zero Dança Contemporânea, consolidada em 2000. Na mesma década, funciona o Cos’é? Estúdio de Danças Daniela Guimarães - escola e companhia focadas na dança contemporânea. Esse período será marcado por uma grande conquista: a inclusão da dança como projeto de extensão de carga horária nas escolas municipais. No final da década de 1990, o street dance ganha as ruas juiz-foranas, sendo o precursor do movimento o grupo Jotaefecrew, dirigido por Jângal; são ainda fundadas a Over Jazz, de Elenize Seguro, atuando na Zona Norte do município, e a escola Expressão e Arte, que funcionava no prédio do Diretório Central dos Estudantes (DCE) e atuava de forma itinerante pelos bairros municipais. Posteriormente, o estilo invadiu as academias de dança e paulatinamente vem ganhando espaço e se fortalecendo em todas as classes sociais. Os dançarinos mais antigos passam, então, a criar suas próprias equipes, como a Remiwl Street Crew e a HF Boys, ainda atuantes. Nos anos 2000, é fundado o Espaço da Dança, com foco na técnica clássica. É criada, no Diversão & Arte Espaço Cultural, a Companhia Adversa, com o interesse de investigar interfaces entre o teatro e a dança. Em 2007, o Real Ballet funde-se ao Advance Centro Integrado de Dança. Em termos de encontros e festivais, destacam-se as iniciativas da Amadança, mostra aberta a todas as modalidades e categorias, realizada desde 2006 por Paulo Roberto Oliveira/MPO Produções Culturais; e da FUNALFA, que, com a colaboração de artistas e professores ligados à arte da dança, cria em 2009 o Festival Nacional de Dança de Juiz de Fora, priorizando mostras, aperfeiçoamento técnico e profissional. Em 2010, a Ekilíbrio inicia parceria com a Faculdade Angel Vianna (Rio de Janeiro/RJ), para a promoção de cursos de extensão e pós-graduação. Atualmente, existem ainda a escola e companhia Estúdio da Dança, o Estúdio de Danças Silvana Marques, especializado em dança de salão, o Ballet Misailidis, entre outros grupos. 9.2. Diagnóstico: As artes cênicas sempre tiveram uma rica produção, que projetou Juiz de Fora no cenário mineiro e nacional. Embora essa produção seja sustentada por um conjunto de grupos, em sua maioria amadores, não raro ao longo do tempo, muitos deles têm buscado voos profissionais que se concretizam com maior ou menor durabilidade. Esse cenário está marcado pela criatividade, pela qualidade e pela diversidade, que identificam as artes cênicas de Juiz de Fora. Com relação aos grupos de teatro e espaços de encenação, não há um censo atualizado. Em pesquisa informal, realizada junto à comunidade artística local, foram levantados 24 grupos em atividade, mas pode haver mais companhias trabalhando no município e fora dele. É comum aparecerem e desaparecerem companhias e grupos em tempo razoavelmente curto. Há ainda diversos atores que, não ligados a uma companhia específica, participam de uma e outra, ou se reúnem esporadicamente para realizar determinado trabalho, sem haver, contudo, a formalização de um grupo ou companhia. Das grandes salas construídas no município, restou como marco o Cine-Theatro Central, do ano de 1929, que hoje representa um ícone cultural e arquitetônico e faz lembrar grandes casas, como o Misericórdia, o Perseverança, o Novelli, o Polytheama, o Glória, o Popular e a Casa d’Itália. A falta de espaços apropriados às manifestações das artes cênicas é um problema municipal crônico e não sofre muitas alterações com o passar do tempo: questões recorrentes que pedem solução. Há carência de espaços para encenação, principalmente palcos públicos modernos e com boa infraestrutura. A característica amadora das produções locais vem de recursos limitados, muitas vezes restritos às leis de incentivo, já que é pouco articulada com a iniciativa privada. O panorama encontrado aqui não é diferente do de outros tantos municípios brasileiros: escassez e precariedade dos espaços cênicos, fusão de funções dentro dos grupos, acúmulo de profissões além da teatral, falta de incentivo por parte do Governo. A Prefeitura restringe os mecanismos de apoio quase que exclusivamente à Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura, enquanto que o Estado tem a maioria esmagadora de sua verba de incentivo cultural retida na capital, e os poucos locais que conseguem aprovação nos editais, nos níveis estadual e nacional, não obtêm êxito na captação de recursos. Há pouco envolvimento da classe empresarial local em financiamento, patrocínio e apoio à produção artística e cultural no município. A desvalorização financeira das atividades ligadas à cultura impõe à maioria dos artistas e produtores uma dupla jornada de trabalho. Outro problema que merece destaque é o baixo nível de formação acadêmica da classe. Assim, a maior parte dos artistas, técnicos e produtores gerenciam sua própria formação através do empirismo, autoformação e cursos livres na área. A escassez de cursos, em nível técnico ou superior, ou de acesso financeiro a eles comprometem a profissionalização de artistas e técnicos e a criação de uma classe capaz de sobreviver do seu trabalho. Juiz de Fora já conta com três pós-graduações lato sensu: Teatro e Dança na Educação (Associação Amigos da Ekilíbrio, em parceria com a Faculdade Angel Vianna); Arte, Cultura e Educação (UFJF, em parceria com a ArcelorMittal e viabilizada pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura/MG, sem previsão de reoferta); e Comunicação e Arte do Ator (UFJF, através da Faculdade de Comunicação/Centro de Estudos Teatrais - Grupo Divulgação). Ainda há o curso de aperfeiçoamento oferecido pela FUNALFA no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, que segue para seu quarto ano de atividade, e, em 2012, amplia o foco oferecendo ingresso através de duas modalidades: básica e avançada. Economicamente, há que ser citada a fragilidade do mercado para a produção cultural no município. Em Juiz de Fora, não faltam criatividade, qualidade e experimentação por parte da classe artística, e sim, uma política pública, de Estado, que contemple plena e permanentemente a formação profissional, a melhoria, a adaptação e a modernização dos espaços existentes e a criação de novos espaços. 9.3. Diretrizes e Estratégias - I - Infraestrutura, manutenção e acessibilidade de espaços físicos: a. Criar espaços para ensaios, pesquisa artística e construção cênica. b. Realizar mapeamento dos espaços, promovendo programas de integração e ampliação entre produtores e instituições que tenham espaços ociosos, destinando-os à ocupação para ensaios e eventos de artes cênicas. c. Criar um Conselho Administrativo para o Teatro Municipal Paschoal Carlos Magno, viabilizando a parceria entre a iniciativa privada e o Poder Público. d. Reativar o Conselho Administrativo do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, auxiliando na gestão e ocupação. II - Estimular a ampliação de programas de incentivo financeiro para aumentar a produção e a circulação com recursos diretos e indiretos: a. Criar e fortalecer instrumentos legais com a finalidade de transferência de recursos orçamentários públicos ou privados para produtores locais, para a execução de projetos artísticos. b. Criar mecanismos de transparência nos critérios de transferência de recursos, financiamento e patrocínio e apoio do Poder Público às produções culturais, quer sejam realizados através de repasse direto, quer utilizando como procedimento os instrumentos legais de renúncia fiscal. III - Implantar ações de formação e capacitação de profissionais: a. Ampliar o curso de teatro atualmente realizado pela FUNALFA, com a possibilidade da criação de uma escola municipal de teatro direcionada para os níveis básico, intermediário e avançado. b. Estimular a implantação de cursos técnicos e superiores e de programas de pós-graduação para formação e capacitação de atores, bailarinos e técnicos, criando mecanismos através de parcerias com a iniciativa privada. c. Criar programas de capacitação para produtores de artes cênicas. d. Criar um corpo estável de teatro e dança no Teatro Municipal Paschoal Carlos Magno. IV - Estratégias para formação de público através da circulação e difusão: a. Fortalecer e ampliar os festivais de teatro e dança, criando mecanismos para a manutenção dos mesmos. b. Implementar políticas públicas permanentes de intercâmbio e circulação da produção das artes cênicas com outros municípios através de mecanismos de incentivo. V - Memória artística e cultural e pesquisa: a. Incentivar a produção de documentários e registros textuais, sonoros e iconográficos, pesquisas empíricas e acadêmicas, experiências pessoais e de grupos e companhias, fomentando a doação de acervos das produções para preservação da memória e pesquisa no campo das artes cênicas no município. b. Criar o Museu de Artes Cênicas. c. Incentivar e valorizar artistas e grupos, buscando assim o fortalecimento da memória das artes e da cultura de Juiz de Fora. d. Estimular e apoiar o desenvolvimento de atividades circenses tradicionais e/ou inovadoras e outras linguagens. - Referências bibliográficas: - D’ALVA, Lúcio [Albino Esteves]. O theatro em Juiz de Fora. O Pharol, Juiz de Fora, jul. 1910 – jun. 1911. Acervo digital da BMMM. - RIBEIRO, José Luiz. Apontamentos breves: o teatro em Juiz de Fora. Juiz de Fora, [2000-]. 10. ARTES PLÁSTICAS - 10.1 Histórico - Algumas das primeiras imagens produzidas e tornadas públicas na cidade datam da época do trabalho fotográfico do inglês Henry Klumb, em seu registro realizado entre Petrópolis e Juiz de Fora, no livro intitulado Doze Horas de Diligências, de 1872. Ao final do século XIX, o pintor Hipólito Caron surge como um dos primeiros a assumir a pintura artística como atividade profissional, sob a influência do grupo Grimm (grupo de Niterói que frequentou por algum tempo), e inaugura sua primeira exposição na cidade em 1883 no Salão da Câmara Municipal de Juiz de Fora. César Turatti dá continuidade a esse trabalho, passando a organizar exposições e inaugurando o Núcleo Hipólito Caron, que foi fonte de inspiração para o Núcleo Bernardelli e outros. Em 1929, é inaugurado o Cine-Teatro Central, todo revestido em seu interior com pinturas de Angelo Biggi, pintor de origem italiana. Uma obra monumental, marcante para a história das artes plásticas em Juiz de Fora. O movimento das artes plásticas na cidade cresce e, em 1934, artistas se organizam em torno do Núcleo Antônio Parreiras, nome escolhido para homenagear o artista fluminense que realizou a obra Jornada dos Mártires, encomendada pela Prefeitura de Juiz de Fora e pertencente hoje ao acervo do Museu Mariano Procópio. Posteriormente, o local foi rebatizado de Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras, que, durante muito tempo, serviu de referência para os pintores da cidade, promovendo cursos e intercâmbio com artistas de outros centros, com salões e exposições anuais regulares. Em 1966, é aberta a Galeria de Arte Celina, no segundo andar da Galeria Pio X, no Centro de Juiz de Fora. Idealizada e coordenada pela Família Bracher, a galeria se torna o núcleo de maior efervescência cultural da cidade, abrindo espaço para conferências, cursos, mostras e festivais, mesclando artes plásticas, cinema, teatro, música e literatura. Em torno da Galeria Celina, assistimos ao amadurecimento e à afirmação de uma geração de artistas que formaram uma corrente artística que marcou época em Juiz de Fora, com uma produção forte e original que muito contribuiu para o amadurecimento definitivo das artes plásticas na cidade. Nos anos de 1970, os Salões de Arte promovidos pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) contribuíram para o aparecimento de novos artistas e incentivaram o florescimento de linguagens contemporâneas no meio artístico. Com a extinção do Curso de Desenho e Plástica da UFJF, em 1981, surgiu o curso de Educação Artística, que mais tarde passou a ser designado Curso de Artes. A universidade contribuiu definitivamente com a cena artística de Juiz de Fora, influenciando a formação de novos artistas, afinados com correntes diversas da arte nacional e internacional. Na década de 1980, o Museu da Cidade, uma galeria de arte situada no Paço Municipal, na esquina da Rua Halfeld com a Avenida Barão do Rio Branco (atual sede da FUNALFA), exerceu com grande êxito o papel de divulgar as artes plásticas na cidade. Era uma galeria de fácil acesso e boa frequência popular, com centenas de visitantes. Também nos anos de 1980, o movimento cultural “Mascarenhas, meu amor” atinge seus objetivos. A velha fábrica abandonada passa a se chamar Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, que, a partir dessa época, funciona como centro de referência das artes plásticas na cidade. A inauguração aconteceu em 31 de maio de 1987, exatamente cem anos depois do início da construção da velha fábrica de tear que teve como fundador o grande empreendedor Bernardo Mascarenhas. Este foi um dos períodos de maior produção das artes plásticas em Juiz de Fora. Os artistas foram atuantes; os empresários, participantes; e várias exposições aconteceram simultaneamente, principalmente em espaços alternativos, como bares e bancos, acompanhadas de muita divulgação e prestígio, tais como: Realce Arte Bar, Bar Sacristia, Galeria da Caixa, Galeria do SESI e o Espaço Cultural Banespa, entre outros espaços existentes. No Centro Cultural Pró-Música, a Galeria Renato de Almeida manteve a efervescência com importantes exposições. Diversas galerias de arte particulares também exerceram um importante papel divulgador das artes plásticas: a Galeria Arte Nossa, a Capela Galeria de Arte, a Galeria Portinari e a Casa do Papel. No início dos anos 1990, tal como aconteceria no Rio de Janeiro e em outros grandes centros urbanos, a cidade manteve a produtividade, por meio da proliferação de inúmeros ateliês e do surgimento de cursos livres, realização de exposições simultâneas em novas galerias particulares e novos espaços alternativos, assim como o surgimento e a afirmação de novos artistas. Além das mostras oficiais realizadas nos espaços públicos, diversos ateliês passam a funcionar também como galeria, entre elas, Atelier Janice Lopes, Galeria de Lais D’Ângelo e Galeria Masterpiece, além de Ione Ribeiro Escritório de Arte e a Galeria A Terceira Margem. A criação, pela UFJF, do Centro de Estudos Murilo Mendes em 1994 reuniu as obras de arte do juiz-forano Murilo Mendes à biblioteca já doada pela viúva do poeta radicado na Europa, Maria da Saudade Cortesão Mendes logo após a morte do escritor, em 1975. Em 2005, a UFJF transferiu o conjunto do acervo para as instalações da antiga reitoria, à rua Benjamin Constant, 790, criando o Museu de Arte Murilo Mendes (MAMM). Ao final do século XX, diversas galerias particulares deixaram de funcionar e encerraram suas atividades. Alguns artistas reduziram sua produção, a freqüência às exposições nas galerias particulares e nos espaços públicos tornou-se menos expressiva, assim como pôde ser percebida a diminuição do interesse de patrocinadores e da mídia no apoio às atividades de artes plásticas. Na primeira década do século XXI, percebe-se um esforço em agregar um conjunto de ações que possam promover e dinamizar todo o setor, interligando artistas, espaços culturais e público em geral. Referências: - Catálogo da Exposição Artistas de Juiz de Fora Museu Nacional de Belas Artes - 1978. 10.2 Diagnóstico - Constata-se a necessidade de uma pesquisa que possa ser usada como referência de eventos e espaços do município para a realização de exposições e manifestações artísticas que possam estimular os artistas locais a dinamizarem sua produção, assim como despertar ou ampliar no público o gosto pela arte, valorizando e divulgando a produção local. Mostras são realizadas em espaços públicos e privados; contudo, são insuficientes para contemplar a produção dos artistas, que não conseguem uma regularidade da exposição de seus trabalhos. Registra-se a vontade dos profissionais da área de que mais locais sejam regidos por editais de ocupação como uma forma de democratizar a participação e de criar uma proximidade entre os artistas locais e os espaços da cidade destinados às artes plásticas. Esse desejo faz jus à vocação de Juiz de Fora para as artes plásticas, que abriga um importante espaço municipal de artes: a Fundação Museu Mariano Procópio (MAPRO), o primeiro museu de Minas com um dos mais importantes acervos do país, que envolve todo o setor histórico da evolução das artes plásticas: pintura, escultura, desenho, artesanato, mobiliário, vestuário, interior, arquitetura, ourivesaria, entre outros. Uma importante conquista para a área das artes plásticas em Juiz de Fora foi a transformação do Centro de Estudos Murilo Mendes em museu de arte, conjunto formado por um riquíssimo acervo do poeta juiz-forano e hoje administrado pela Universidade Federal de Juiz de Fora. No entanto, constata-se a participação pouco expressiva do público nos museus da cidade, tendo em vista que a maioria deles apresenta-se carente de ações integradas à comunidade para dinamizá-los. Quanto a eventos que movimentam o setor, a tradicional Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras mantém uma agenda anual de Salões de Artes, com um pequeno público oriundo de seus professores, associados e alunos. A regularidade de exposições na cidade ocorre principalmente em espaços como Espaço Cultural Correios, Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, Hiato Galeria de Arte e Espaço Experimental Nina Mello, assim como nos espaços vinculados à Universidade Federal de Juiz de Fora: Forum da Cultura, Casa de Cultura, Museu de Arte Murilo Mendes e Galeria Renato de Almeida do Centro Cultural Pró-Música. Esses espaços buscam suprir a programação artística da cidade com exposições variadas selecionadas através de editais e mostras realizadas com curadorias específicas. Nos últimos anos, surgiram alguns ateliês e escolas de arte que mantêm mostras eventuais e que contribuem para a divulgação e valorização dos artistas da cidade. Contudo, poucos espaços autônomos ligados às artes plásticas conseguem subsistir por um longo período. A necessidade de uma parceria mais eficaz entre artistas, Poder Público e instituições culturais pode ser a alternativa ideal para a ampliação de projetos relacionados às artes visuais, através da concretização de mais investimento na capacitação, gerenciamento e difusão da produção artística. 10.3 Diretrizes - I - Criar uma agenda sistemática de atividades, eventos e ações ligados às artes plásticas; II - Estimular e promover a criação de cursos com capacitação para a elaboração e gestão de políticas e projetos culturais, bem como para a organização e a coordenação de eventos, plano de divulgação, organização de currículo, portfólio, além daqueles cursos referentes às diversas áreas de formação do artista plástico (fotografia, cerâmica, escultura, gravura, desenho livre, desenho aplicado, pintura, ilustração, quadrinhos, história da arte e novas tecnologias etc.); III - Estimular a criação e à viabilização de espaços alternativos e descentralizados para a realização de cursos e eventos da área, destacando-se a implantação e/ou revitalização de espaços culturais comunitários; IV - Estimular a produção local através de eventos visando a resgatar a vitalidade cultural da cidade, com destaque para a valorização da diversidade e pluralidade da produção visual; V - Valorizar a Semana do Artista Plástico (semana que envolve o Dia do Artista Plástico, comemorado em 14 de agosto), com a realização de eventos e atividades; VI - Incentivar a união e à ampliação de grupos existentes na área artística visando à formação de núcleos de Artes Visuais nos diversos bairros do município; VII - Criar um circuito de exposições e eventos por todo o município - Atelier Aberto -, visando a aproximar artista e público; VIII - Estimular uma parceria mais eficaz entre artistas, Poder Público e instituições culturais pode ser a alternativa ideal para a ampliação de projetos relacionados às artes visuais, podendo ser concretizada através de mais investimento na capacitação, no gerenciamento e na difusão da produção artística; IX - Criar um espaço de memória das artes visuais de Juiz de Fora, com o objetivo de centralizar, abrigar e preservar documentos e registros textuais, sonoros e de imagens, fomentando a doação de acervos pessoais para a preservação da memória e pesquisa no campo das artes visuais do município. 11. AUDIOVISUAL - 11.1 Histórico - A história de Juiz de Fora com o audiovisual vem desde o final do século XIX. O que se tem notícia é que no dia 23 de julho de 1897 aconteceu a primeira exibição de filmes realizada no Theatro Juiz de Fora, no qual houve, também, a estreia do “Cinematógrapho Lumiére”. Em outubro de 1900, a magia dos cinemas, que, na época, estava ganhando força pelo mundo, foi estabelecida na rua Halfeld, com o Salão Paris - primeiro estabelecimento comercial, depois do Theatro Juiz de Fora, a trazer para o município o cinema como entretenimento. A sala de exibição era equipada com um gramofone, que reproduzia sons e cantos junto às cenas dos filmes. A atividade se consagrou no município com a abertura das primeiras salas fixas ao final da primeira década do século XX. Desde a vinda da sétima arte para Juiz de Fora, o município foi vastamente retratado pela atividade cinematográfica - como protagonista, ou como cenário natural das histórias produzidas pelos realizadores locais ou estrangeiros. Os cinemas sempre tiveram lugar cativo em Juiz de Fora: Polytheama, Paz, Pharol, Ideal, Cine-Theatro Central, Glória, Palace, Paraíso, Festival, Excelsior, São Luiz. Cada um à sua maneira criou registros da modernização do município, que permanecem até hoje na história, ainda que apenas na lembrança da população, a chamada memória afetiva. Os principais registros do período que vai de 1930 a 1960 são provenientes dos cinejornais, que documentavam e divulgavam os fatos oficiais do município. Desse período, João Gonçalves Carriço, à frente da Carriço Film, foi a figura mais importante da cinematografia juiz-forana, produzindo cinejornais que ultrapassavam as fronteiras municipais, capturando sequências no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, no interior de Minas Gerais, incluindo os arredores de Juiz de Fora e chegando a flagrar alguns pequenos momentos da vida rural interiorana. Em meados da década de 1960, na Galeria de Arte Celina, ocorria a exibição de filmes de arte e a realização de mostras temáticas na área do audiovisual. O segundo andar da galeria Pio X, onde se situava a Arte Celina, configurou-se como um centro efervescente e disseminador de cultura, com grande circulação de pessoas, cujos interesses em música, teatro, cinema, artes plásticas mesclavam-se ao entusiasmo, aos sonhos de liberdade partilhados por uma geração de questionadores, curiosos e apaixonados pelas diversas manifestações de arte, além de servir de sede para o grupo de cinéfilos do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC). Nessa época, poucas pessoas tinham acesso a câmeras que filmavam em formato 8, 16 ou 35 milímetros. Somente famílias mais abastadas possuíam equipamentos capacitados para esses registros. Durante os anos 1970, o município viveu um momento de intensa atividade artístico-cultural, que permitiu grande experimentação técnica por meio de registros caseiros dos momentos em espaços públicos e privados. Algumas pessoas captavam imagens de suas famílias com câmeras Super-8mm, que, depois de reveladas, eram projetadas em pequenos e ruidosos aparelhos. Com o surgimento do videotape, várias inovações afloraram em Juiz de Fora durante as décadas de 1980 e 1990. Algumas produtoras de vídeo, como a Bentevídeo - coordenada por José Santos -, foram criadas, e os registros de imagens se tornaram mais acessíveis, principalmente pelo advento do VHS, que contribuiu para o aumento da prática audiovisual. Em contrapartida, houve uma diminuição do público nos cinemas, já que, com o VHS, era possível assistir aos filmes em casa. Como tentativa de resgatar a frequência às salas de cinema, iniciou-se a tradição dos cineclubes, como o Luzes da Cidade. Em 1982, foi inaugurado o Espaço Cultural Livros & Artes, incluindo a abertura, no local, do Cineclube Humberto Mauro. Naquele ano, a programação reuniu, numa mostra de cinejornais das décadas de 1930 e 1940, documentários realizados no município por João Gonçalves Carriço, um dos pioneiros do cinema nacional, além de palestra da pesquisadora Martha Sirimarco com o tema “Cinejornalismo e populismo em Juiz de Fora”. Nos anos de 1990, os cineastas voltam a experimentar registros em película cinematográfica. Vários fatores foram fundamentais para isso; um deles foi a vinda do cineasta José Sette de Barros para o município, trazendo equipamentos de 35mm e Super-16mm para a realização do filme O rei do samba, sobre o sambista juiz-forano Geraldo Pereira. Graças à tentativa de o Poder Público municipal implantar um Polo Audiovisual local, junto à Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), à UNESCO e ao Centro Técnico do Audiovisual (CTAV), houve a realização de vários cursos técnicos em diversas atividades do audiovisual, viabilizados pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Posteriormente, foram organizadas duas edições do Concurso de Curtas-Metragens de Juiz de Fora. Tais iniciativas capacitaram e reciclaram mão de obra, facilitando a produção de alguns curtas autorais em bitola de 16mm. Fortalece a profissionalização de técnicos e artistas na área do audiovisual, cenário em que se destaca o fotógrafo Mauro Pianta, profissional de longa carreira e que tem seu nome nos créditos de importantes obras da cena audiovisual juiz-forana. Ainda na década de 1990, a produção audiovisual valeu-se de recursos provenientes da Lei Municipal de Incentivo à Cultura (Lei Murilo Mendes), que, com o passar dos anos, consolidou-se como o principal mecanismo local para a viabilização de produções independentes na área, ainda que em pequena quantidade. Foi nesse contexto que muitos realizadores locais deram seus primeiros passos na área do audiovisual. Alguns dos trabalhos produzidos romperam as fronteiras juiz-foranas e levaram o nome do município para várias partes do Brasil e do mundo. Destaque para o cineasta Marcos Pimentel, reconhecido mundialmente por seu trabalho autoral. Além disso, o barateamento dos meios de produção, pelo advento da tecnologia digital, aumentou consideravelmente o número das produções realizadas em todo o país. Em 2002, alguns produtores da área retomaram a realização de um festival cinematográfico, o Primeiro Plano - Festival de Cinema de Juiz de Fora. A mostra não só promove exibições, seminários e oficinas anuais gratuitas, como também reflete questões sobre os novos talentos do cinema nacional, a prática audiovisual e o incentivo financeiro à produção local independente. Apesar do aumento do número de cursos de comunicação e áreas afins, o mercado ainda carece de mão de obra especializada e de maior incentivo do poder público e da iniciativa privada à produção audiovisual em Juiz de Fora. 11.2 Diagnóstico - Nos dias atuais, o fácil acesso às mídias digitais tem permitido que diversas pessoas - entre profissionais e amadores - produzam vídeos, comumente postados na rede de compartilhamento YouTube e nas redes sociais. As novas possibilidades tecnológicas ampliaram as formas de realização do audiovisual. Algumas produções têm conquistado prêmios em festivais nacionais e internacionais. Contudo, apesar do esforço dos realizadores em divulgar as produções, os vídeos produzidos são pouco exibidos no âmbito local. A maioria desses conteúdos audiovisuais fica restrita a uma divulgação setorizada. A despeito de a Lei Murilo Mendes continuar sendo um dos meios de viabilizar que filmes de curta duração e baixo orçamento sejam feitos em Juiz de Fora, o teto do benefício não atende a produções de maior valor. Dessa forma, vê-se como necessário o empenho no incremento de políticas públicas concretas para o desenvolvimento da economia audiovisual e o estabelecimento de um efetivo polo cinematográfico no município, tendo em vista que a atividade audiovisual não pode ser entendida apenas pelo ponto de vista da bipolaridade produção-exibição. Apesar da riqueza nas manifestações audiovisuais, Juiz de Fora carece de instituições com uma infraestrutura melhor para a produção e difusão efetivas desse material, bem como para a criação de espaços públicos em condições de abrigar essa memória. As emissoras de TV locais não têm espaço para a exibição de conteúdo fora do formato jornalístico. O curta-metragem é o formato de produção audiovisual realizado em maior quantidade em Juiz de Fora e que, apesar de não atingir o grande público, é exibido em circuitos e festivais nacionais e internacionais específicos, que alcançam espectadores interessados no assunto. Além disso, muitos diretores iniciantes conquistam visibilidade no mercado começando sua produção com curtas. Quanto a locais de exibição de filmes no município, espaços de antigos cinemas de rua vêm sendo paulatinamente descaracterizados, como o CineArte Palace, e destinados a atividades que não contribuem para o desenvolvimento sociocultural do município; como exemplo, citamos os cinemas São Luiz, Paraíso, e, recentemente, o Cine Excelsior. 11.3 Diretrizes - I - Buscar permanentemente de parcerias nos diversos setores da sociedade, envolvendo primeiro, segundo e terceiro setores da economia, não se limitando geograficamente a Juiz de Fora, mas interagindo com o estado e o país; II - Estabelecer políticas públicas para o desenvolvimento permanente da economia audiovisual local, através de editais de fomento, criação de centro técnico, formação de mão de obra e incentivo à produção, exibição e distribuição de conteúdo; III - Implantar um polo audiovisual no município: criar um local físico, geograficamente determinado, com políticas de incentivo fiscal em âmbitos municipal, estadual e federal para empresas dos diversos setores produtivos da cadeia do audiovisual; IV - Elaborar e divulgar um banco de dados da atividade audiovisual no município abrangendo: projetos e ações governamentais e não governamentais; leis vigentes; projetos de leis em tramitação; artigos; trabalhos científicos (teses, dissertações); instituições de ensino; eventos e afins; V - Incentivar a criação de programas de cineclubes nas mais diversas entidades públicas e privadas, como faculdades, escolas, associações de moradores, ONGs, pontos de cultura e associações culturais; VI - Apoiar mostras e festivais que tenham como foco a profissionalização e o contato dos agentes com o setor, a formação de público e o estabelecimento de mecanismos para a realização audiovisual, gerando o desenvolvimento econômico da cadeia produtiva; VII - Criar um Centro Técnico de Audiovisual com ênfase na formação prática e teórica, estimulando as produções locais, visando, sobretudo, a qualificação da mão de obra; VIII - Implantar programa de preservação da memória audiovisual local, nos moldes de uma cinemateca, de forma a preservar filmes, vídeos, fotos e demais suportes para uso de pesquisadores, produtores, estudantes e demais interessados. A ideia é a criação de um centro de referência audiovisual de Juiz de Fora; IX - Criar a Juiz de Fora Film Comission, agência que congrega iniciativas do poder público, iniciativa privada e sociedade civil para atrair e facilitar produções audiovisuais para o município; X - Preservar a história do audiovisual do município, zelando por espaços existentes e transformando-os em locais de fruição cultural, com o ambiente propício para o desenvolvimento tanto do audiovisual, quanto de outras linguagens; XI - Criar espaço adequado para a preservação do acervo fílmico da cidade, seus artistas e acervos familiares em condições ideais de climatização e armazenamento; XII - Realizar de telecinagem de todo o acervo fílmico de João Carriço e a posterior disponibilização em espaço adequado para exibição e pesquisa; XIII - Garantir a aquisição de livros e outras mídias sobre o audiovisual para biblioteca e cinemateca municipais; XIV - Realizar inventário de todo o acervo audiovisual em posse do poder público e incentivar a aquisição do acervo de particulares; XV - Dinamizar o Museu da Imagem e do Som, definidas suas atribuições, visando a dar suporte material, técnico e profissional aos projetos de registros audiovisuais e iconográficos de pessoas e/ou grupos relacionados à história do município, bem como reunir acervos documentais e audiovisuais relacionados à memória de Juiz de Fora. 12. CARNAVAL - 12.1 Histórico - Durante as décadas de 1930, 1940 e 1950, os antigos carnavais de rua de Juiz de Fora aconteciam na rua Halfeld, onde desfilavam os corsos, os ranchos (blocos) e também as batalhas de confete, além das matinês no Cine-Theatro Central e Clube Juiz de Fora. O carnaval no município representa uma das grandes manifestações populares da Zona da Mata Mineira. Em 1934, surgia no município a primeira escola de samba de Minas Gerais: a Turunas do Riachuelo, que teve origem na invenção de um grupo de rapazes da rua Silva Jardim e do rancho “Não venhas assim”. Essa foi a quarta escola a ser criada no Brasil. Até a década de 1960, as atividades carnavalescas tinham sua concentração na área central do município, com as batalhas de confetes, corsos e clubes - principalmente o Elite e o salão do Palace Hotel. A rua Halfeld era o grande palco do carnaval. Mesmo após a fundação das primeiras escolas de samba, a disputa entre as agremiações se resumia a concursos de sambas-enredo realizados, também, na rua Halfeld. Nos bairros, as atrações eram os “blocos de sujo”. Somente em 1966, os desfiles das agremiações carnavalescas foram considerados oficiais, sendo a escola Feliz Lembrança a segunda a ser fundada em Juiz de Fora e a primeira a conquistar o título de campeã, com o enredo “Mascarada veneziana”, da autoria de Nelson Silva e José Carlos de Lery Guimarães. Um marco inesquecível dessa escola foi o clássico “Ai, se eu fosse feliz”, samba de Juquita, B. O. e Djalma de Carvalho, de 1949, que virou um hino informal de Juiz de Fora. Houve também os gloriosos carnavais de clube, embalados pelas marchinhas, modalidade que hoje se encontra praticamente extinta, responsáveis por manter o folião no município nos dias do feriado, além de aumentar a receita anual de clubes como Tupynambás (Baeta), Tupi, Sport Club, Bom Pastor, Clube Juiz de Fora, Círculo Militar e Montesinas, entre outros. O morro e a cidade foram unidos com o tetra-campeonato da Juventude Imperial, que teve como seguidora no sucesso a Escola Unidos dos Passos. Apesar de efêmera, a agremiação dos Passos deixou marcado o “Velho Chico” com o enredo: “Exaltação ao Rio São Francisco”, um dos mais belos sambas da história local. Partido Alto e Real Grandeza viraram escolas de 1º Grupo - e logo campeãs na década de 70. O crescimento municipal começou a indicar a saída dos desfiles da avenida Rio Branco, ensaiada e lamentada pelos sambistas no início dos anos de 1980, mas só confirmada na década de 1990. Após experimentações em outros locais - inclusive retorno à Rio Branco - o carnaval local encontrou o seu lugar na Avenida Brasil. Encruzilhadas e descaminhos provocaram altos e baixos - entre os pontos altos, pode-se registrar o aprimoramento das escolas de samba, como a chegada de outras nos bairros, como a Unidos do Ladeira, o Acadêmicos do Manoel Honório e Mocidade do Progresso. Entre os baixos, três anos sem desfile e o fim de manifestações tradicionais. O caminho da crescente expansão do carnaval de rua é protagonizado por centenas de blocos e bandas em todos os cantos do município. O circuito de grandes eventos também é a marca da Festa de Momo em Juiz de Fora, com destaque para a Banda Daki, que em 2012 comemorou 40 anos, o bloco caricato Domésticas de Luxo, criado como agremiação carnavalesca em 1958 e responsável por abrir os desfiles por muitos anos, e o Bloco do Beco, tradicional por satirizar temas relevantes à vida político-social da cidade desde XXXX. O carnaval de Juiz de Fora entrou vivo no século XXI. Entre axés, MySpace, funks e YouTube, ele busca seu caminho. E começa a descobrir, quando ouve o sábio recado do povo, que este “seu caminho” são vários. O caminho de reverenciar e reinventar esta rica tradição das escolas de samba mais importantes de Minas. E Por que não? O caminho de se misturar com outros ritmos para fazer a nossa combinação ideal; o caminho de tocar e exibir-se na internet; o caminho de não ter um só caminho. 12.2 Diagnóstico - Atualmente, a Liga Independente das Escolas de Samba de Juiz de Fora (LIESJUF) e a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), através da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (FUNALFA), são as responsáveis diretas pela organização dos desfiles oficiais das agremiações. A LIESJUF se responsabiliza pela apresentação, pelo julgamento e pela apuração dos resultados, enquanto a Prefeitura de Juiz de Fora/FUNALFA se encarrega de toda logística dos desfiles e do repasse dos recursos às agremiações. É também função assumida pela PJF/FUNALFA o apoio à maioria dos blocos, bandas e carnavais de rua juiz-foranos, com destaque para a Banda Daki, responsável por reunir uma das maiores multidões de foliões de rua no Estado de Minas Gerais. Em 2010 a Prefeitura de Juiz de Fora/FUNALFA criou o Corredor da Folia, conjunto de atividades pré-carnavalesca concentradas em quatro dias uma semana antes do carnaval. Muito bem recebido pela população, o Corredor da Folia garantiu novo fôlego à folia do município. Atualmente, cerca de 200 blocos, apoiados pela Prefeitura de Juiz de Fora/FUNALFA, saem às ruas do município nas semanas que antecedem o carnaval e também durante a Folia de Momo. No entanto, despertar novamente o interesse de um número maior de cidadãos para os ensaios e desfiles das agremiações tem sido um dos maiores desafios daqueles ligados às escolas de samba. O cenário é muito diferente de 30 anos atrás, quando as escolas eram a grande força de entretenimento de classes sociais com menor poder aquisitivo. Naquela época, o carnaval não tinha concorrentes. Nos últimos anos, os desfiles das escolas de samba vêm perdendo espaço e adeptos em função de uma nova dinâmica da sociedade para a qual as agremiações não se prepararam. Entretanto, algumas ações já foram implementadas no setor para buscar soluções. Temos por parte do Poder Público, através da PJF/FUNALFA, o apoio aos desfiles oficiais das escolas de samba, por meio da montagem de toda a estrutura da Passarela do Samba, com apoio logístico e operacional, custeio da sonorização e da iluminação da área dos desfiles e entorno, apoio ao baile para escolha do Rei Momo e da Rainha do Carnaval e apoio às agremiações carnavalescas, alem de suporte financeiro e operacional aos blocos, bandas, clubes e associações de moradores de diversos bairros municipais, divulgação dos eventos, incentivo para a manutenção e criação de escolas de samba mirins, apoio financeiro e logístico aos desfiles dos grupos de afoxé. Dentro dos esforços da sociedade civil, temos, por parte da LIESJUF e das agremiações filiadas, a organização do regulamento dos desfiles, a elaboração do CD do Carnaval, a apresentação das escolas na Passarela do Samba, assim como o julgamento dos desfiles e a apuração dos resultados. No que diz respeito a investimentos distintos daqueles oriundos do Poder Público, um número reduzido de agremiações realiza eventos durante o ano em busca de recursos para seu carnaval. O apoio das empresas locais às manifestações carnavalescas do município ainda é restrito. No entanto, crescem, a cada ano, o desfile de blocos na região central e nos diversos bairros e a criação de escolas de samba mirins e grupos de afoxé, em uma demonstração de que as manifestações carnavalescas ainda mantêm seu potencial de agregar realizadores e público durante os dias da Folia de Momo. 12.3 Diretrizes - I - Realizar eventos em outros formatos, diferentes dos desfiles das tradicionais escolas de samba, tornando o Carnaval de Juiz de Fora atraente para toda a população, em especial para o público jovem; II - Incentivar a volta e criar bailes de carnaval nos clubes, de corsos, de concursos de fantasias, de bailes de máscaras, de batalhas de confetes e outras manifestações de rua; III - Realizar seminários periódicos direcionados aos produtores culturais ligados ao carnaval (representantes do Poder Público, produtores de eventos, presidentes, diretores, carnavalescos, figurinistas, alegoristas, músicos, compositores, entre outros). O foco dos debates e das palestras estaria voltado para a profissionalização do carnaval, propondo que as escolas de samba sejam geridas como empresas, tornando-as rentáveis e gradativamente autossustentáveis; IV - Implantar projetos de cunho social, através de oficinas profissionalizantes e projetos culturais na área do carnaval, beneficiando diretamente as comunidades nas quais as agremiações estão inseridas, promovendo também a formação da cidadania; V - Criar um espaço adequado para a realização de grandes eventos das agremiações, inclusive dos desfiles oficiais, sendo utilizado também para outros eventos do município; VI - Construir barracões-escola destinados às agremiações carnavalescas para desenvolvimento de cursos profissionalizantes; VII - Criar um circuito de eventos nas escolas de samba, visando à arrecadação de recursos para seus desfiles; VIII - Incentivar a organização de blocos carnavalescos nos diversos bairros do município e manutenção do apoio dado aos blocos já existentes; IX - Incentivar o estímulo à criação de escolas de samba mirins; X - Organizar e executar um plano de divulgação do carnaval, realizado com antecedência e direcionado aos diversos públicos; XI - Valorizar a tradição do carnaval fora do eixo das escolas de samba; XII - Estimular as agremiações a se entenderem enquanto unidades produtoras de cultura, podendo estas interagirem com a comunidade como pontos de cultura e, sobretudo, entre elas. 13. CULTURA POPULAR - 13.1 Histórico - Cultura popular pode ser definida como qualquer manifestação cultural que o povo produz e participa de forma ativa. Significa, também, cultivar os costumes, as tradições e os valores de um povo. A cultura popular surge a partir dos usos e costumes de um povo e é transmitida entre as gerações, sobretudo de forma oral. A tradição contribui decisivamente para a formação da cidadania e para a estruturação da vida das comunidades em suas próprias localidades, através do trabalho daqueles que são reconhecidos como mestres da cultura popular, detentores de notório saber. Em Juiz de Fora, encontramos diversas manifestações dessa cultura, sendo mais destacadas a folia de reis, o samba, a capoeira, o hip-hop, as festas populares, as religiosidades populares, os afoxés e o artesanato. Nosso município foi retratado culturalmente através da frase do poeta Murilo Mendes: "Juiz de Fora é um trecho de terra cercado de pianos por todos os lados". Gostaríamos de acrescentar: e estes, por tambores. Assim, se uma cultura erudita e hegemônica se formava nas partes centrais do município, ao seu redor, formas de festejar, criar e socializar surgiam em um contexto social periférico e popular a partir do sincretismo de matrizes culturais diversas como as indígenas, as negras e as europeias. No início do século XX, a vida do juiz-forano das classes populares não se resumia apenas ao trabalho. Além das duras jornadas, a busca por entretenimento era constante, e o cotidiano tornava-se mais agradável com a participação em eventos culturais produzidos pela população local ou de outras cidades. Paralelamente às iniciativas artísticas, como aquelas ligadas ao carnaval e às festas populares realizadas em clubes recreativos e nos adros das igrejas, a participação nas demais atividades de lazer cultural era estimulada através da leitura de jornais como O Pharol e Jornal do Commercio. As primeiras chamadas que abordaram entretenimento nessas publicações retratavam atrações como concertos musicais e jogos participativos, e também, tratado de forma preconceituosa, batuque, canjerê etc. A multiplicidade de eventos nesse período - teatro, saraus, festas com apresentações de bandas de música - reflete o dinamismo da vida cultural de Juiz de Fora na época. A própria sociedade determinava a frequência em cada um dos espaços culturais, alguns mais elitizados, outros mais populares, e assim cada local atraía um público específico onde aconteciam as vivências de determinada manifestação artística e as trocas de experiências. Enquanto a elite se divertia nos saraus, bailes e teatros, a preocupação pela circulação dos pobres e vadios pelo Centro do município era constante. Nas casas de tavolagem e nas espeluncas, os batuques incomodavam. A rua do Capim, Botanágua (margem esquerda do Rio Paraibuna), Lamaçal (atual bairro Bom Pastor), Morro de Santo Antônio (ruas localizadas atrás da Catedral Metropolitana), Creosotagem e Tapera (bairros Santa Terezinha e Bandeirantes) formavam um cinturão cultural no entorno do município onde se concentrava, “em arruaças”, o maior número de negros e mestiços envolvidos em jogos, brigas e boemia. A presença policial nesses locais era comum. No entanto, em determinados pontos do município, a cultura popular insistia em resistir aos ataques dos policiais e da elite socioeconômica juiz-forana do período. A exemplo disso, destaca-se que os primeiros encontros de sambistas locais ocorreram, justamente, no Morro de Santo Antônio. No Lamaçal, em uma boate denominada “Roda da Tumba”, além da roda de samba, ocorria também uma roda de tambor, caracterizada por um bailar que nos remete à presença do jongo e da capoeira. Bem no Centro de Juiz de Fora, encontrávamos a boate “Elite” e o “Quem Pode Pode”, que alegravam as noites dos negros e pobres que residiam no município. Pensa-se a cultura popular como parte das manifestações sociais e artísticas que acontecem no município. Em um mundo globalizado, reafirma-se a necessidade de valorização das formas de sociabilidade periféricas que se processam através das diversas práticas culturais. Acredita-se, também, ser essa dimensão da cultura uma possibilidade de oferecer pontes de intercâmbio entre a periferia e o centro urbano; entre os tambores e os pianos. Essa ponte romperia o hiato existente entre as culturas ditas eruditas e as consideradas populares, contribuindo para a disseminação de ambas entre a população juiz-forana. 13.2 Diagnóstico - Atualmente, as manifestações da cultura popular são inúmeras em nosso município. Algumas já possuem certa organização e representatividade junto às comunidades e aos órgãos gestores, mas é fundamental que outras manifestações possam se organizar, manter suas atividades e exercer seu trabalho de conservação e transmissão de conhecimento. Nas comunidades, as ações no sentido de incrementar a cultura popular são muitas, mas se apresentam de maneira isolada. Daí a precariedade na transmissão dos saberes e na preservação de costumes. A partir do momento em que se define o que é a cultura popular e sua importância para a valorização do povo, suas tradições e o resgate de sua cidadania, verifica-se que muito há que se fazer para escrever, registrar e dar sentido à história e à continuidade das ações dessa cultura. Cada manifestação presente na comunidade tem sua história e possui uma territorialidade que lhe é peculiar, características que chegaram até nós através de relatos de seus fundadores e participantes. Tendo em vista a carência de registros escritos na área, reivindica-se um maior estímulo à pesquisa, por meio da qual poder-se-á buscar mais informações sobre as vivências da cultura popular através da consulta a documentos, fotografias e outras fontes de informação. A Cultura Popular não se vê contemplada de forma satisfatória com os recursos públicos. 13.3 Diretrizes - I - Criar e organizar espaços destinados às práticas de cultura popular e democratização dos espaços existentes com a finalidade de sediar e abrigar diferentes manifestações com seus pertences, seus instrumentos e suas documentações; II - Fortalecer os núcleos de cultura popular nas comunidades como forma de organização e de compartilhamento de saberes e experiências; III - Implementar políticas de geração de trabalho e renda de forma sustentável para os mestres da cultura popular; IV - Instituir o protagonismo desses mestres na realização de cursos, oficinas e seminários que tenham como tema a cultura popular; V - Estabelecer um regime de paridade na distribuição dos recursos financeiros destinados a todas as dimensões da cultura; VI - Criar instrumentos legais com a finalidade de transferência de recursos orçamentários para as entidades culturais através das associações e dos centros culturais, devidamente regulamentados e representados no Conselho Municipal de Cultura, visando a garantir a implementação das diretrizes e das estratégias previstas no Plano Municipal de Cultura; VII - Incentivar a instituição da Lei Griô no município de Juiz de Fora, estabelecendo uma política municipal de transmissão dos saberes e fazeres de tradição oral, em diálogo com a educação formal, para promover o fortalecimento da identidade e da ancestralidade do povo brasileiro; VIII - Incentivar o desenvolvimento cultural sustentável, reconhecendo e valorizando as identidades e memórias culturais locais - incluindo regulamentação de profissões de mestres detentores e transmissores dos saberes e fazeres tradicionais. 14. ETNIAS - 14.1 Histórico - A região onde hoje se encontra o município de Juiz de Fora, até a chegada dos ocupantes oriundos dos continentes europeu e africano, era habitada pelos americanos autóctones (indígenas) principalmente das nações dos botocudos e dos puris, que deixaram importantes marcas de costumes, língua, religião e modos de fazer e de viver. Por razões diferenciadas, ao longo de sua história, Juiz de Fora e região recebeu povos de todo mundo. No entanto, foi pela participação mais acentuada na nossa história, que as etnias portuguesa, afrodescendente, germânica, italiana, síria e libanesa são consideradas as maiores responsáveis pela nossa formação sociocultural. O município recebeu ainda a contribuição de outros grupos étnicos, tais como franceses, espanhóis, judeus, japoneses e americanos do norte, em maior ou menor grau em diferentes períodos. A presença de africanos e afrodescendentes é majoritária em Juiz de Fora desde a primeira metade do século XIX, e sofre uma ampliação extremamente significativa a partir da segunda metade do mesmo século, com o advento e fortalecimento da economia cafeeira e a industrialização, tornando o município uma das regiões de maior concentração de mão de obra escravizada do país. Devido à sua condição de pessoas reduzidas à escravidão, os africanos e seus descendentes sofreram com a discriminação e o preconceito que perduraram mesmo após a abolição da escravidão. Sendo a população negra iletrada em sua quase totalidade, raros são os documentos de “próprio punho” produzidos nos séculos passados deixados por essa representação étnica, raros também são os registros de imagem desse grupo populacional, chegando sua história e memória, principalmente, pela tradição oral e herança cultural, e, por via indireta, pelos registros da classe dominante. Não raro, deparam-se com documentos do passado em que a presença das suas manifestações culturais se fazem presentes, ainda que permeadas pelo (pré)conceito do branco dominante, como pode ser percebido na imprensa e outros registros da época. Os negros, trabalhando, vivendo e lutando, porém, sempre manifestaram seus costumes e culturas trazidos da África e, frequentemente, adaptados nas terras brasileiras. Muitos registros e documentos do século XVIII ao XX fornecem informações sobre a prática do canjerê, do jogo de búzios, dos hábitos alimentares dos afrodescendentes, etc. Muitas dessas práticas e hábitos estão presentes nos dias de hoje. Abolida a escravidão, através da Lei de 13 de maio de 1888, a situação de exploração e as difíceis condições de sobrevivência dos negros pouco mudaram. A abolição veio dissociada de políticas públicas que visassem à integração dos negros a um estado de direito com acesso a educação, saúde e bem-estar social e sem uma reforma agrária que se preocupasse em redistribuir as terras. A partir de meados do século XIX, com a promulgação de várias leis que foram limitando e dificultando, cada vez mais, a utilização de mão de obra escravizada, o Governo imperial passa a incentivar a imigração europeia, para substituí-la. Em Juiz de Fora, na própria década de 1850, Mariano Procópio esteve à frente dessa iniciativa, por meio da Companhia União Indústria, - responsável pela construção da estrada de mesmo nome -, trazendo imigrantes germânicos, não obstante a larga utilização de pessoas escravizadas nessa Companhia. Instalados em uma região que se dividia entre a colônia agrícola Dom Pedro e a vila operária, denominada de Villagem - onde hoje estão os bairros São Pedro, Borboleta, Mariano Procópio e Fábrica - os alemães contribuíram, desde então, de forma decisiva, para o desenvolvimento urbano e econômico de nosso município. Essa contribuição foi significativa na construção civil, com a constituição das primeiras olarias da cidade, e, também, permeando o cenário urbano com várias edificações realizadas em tijolo maciço aparente. Nas atividades industriais e comerciais, os alemães se destacaram nos ramos têxtil, da cervejaria, dos curtumes e das fundições. O seu pioneirismo nestas atividades está presente, por exemplo, na instalação da primeira iluminação pública (Henrique Meurer/Carlos Otto Halfeld); da primeira estação telefônica de Minas Gerais (George F. Grande); da terceira fábrica de pregos do Brasil (Edmundo Schmidt); dos Bondes (Félix Schmidt), primeiro transporte público de Minas Gerais, e do primeiro curtume industrial do Brasil - Curtume Krambeck, além do Curtume Surerus. No que concerne a contribuição gastronômica dos imigrantes alemães podemos destacar, em primeiro lugar a produção e difusão da cerveja. Eles, pouco tempo depois de chegar a Juiz de Fora, em 1860, instalaram na Colônia de Cima (São Pedro) a primeira cervejaria de Minas Gerais, a Cervejaria Barbante, fundada por Sebastian Kunz. Mais tarde fundaram nove outras cervejarias, entre elas a José Weiss, que foi referência na cidade durante várias décadas. Além da cerveja, outra grande contribuição para a culinária local destes imigrantes foi o Pão Alemão, que, pelo seu valor histórico e cultural, se tornou Patrimônio Imaterial de Juiz de Fora, no ano de 2010, através do Decreto nº 1506/10. A cerveja e o Pão Alemão são presenças constantes nas tradicionais festas da comunidade de seus descendentes, como a Festa de São Pedro e a Festa Alemã, esta última realizada no Bairro Borboleta. A Festa de São Pedro, comemorada no dia dedicado a este Santo, 29 de junho, já está na sua 119ª edição, com variações na sua programação ao longo dos anos, mas com a presença constante das barraquinhas de comidas típicas e venda do Pão Alemão, além da missa, leilão de prendas feitas pela comunidade e, coroando tudo, um baile. A Festa Alemã teve seu início em 1969, organizada pelo Centro Folclórico Teuto-Brasileiro, com o objetivo de resgatar a cultura e o folclore Germânico. A abertura da Festa ficou marcada por um ato inédito para a época: em homenagem aos imigrantes e seus descendentes, na Capela Católica do bairro, foi celebrado um culto ecumênico pelo Padre Jaime Zimmermann Machado e pelo Pastor Adilson Stephanini, da Igreja Luterana. Nela, também encontramos, até hoje, as barracas de comidas típicas e o chope nos canecos, que se tornaram, desde esta época, uma tradição. Durante sua realização são apresentadas danças folclóricas, por grupos culturais locais ou convidados, em seus trajes típicos. Os alemães também foram relevantes no ensino, fundando e/ou dirigindo instituições como a Academia de Comércio, o Colégio Santa Catarina, o Colégio Stella Matutina, entre outros. Nos Esportes, fundaram os primeiros clubes de tiro, caça e pesca, assim como o clube de jogo de boliche (Kegel Club), de ginástica (Turnerchaft) e de tênis (Clube D. Pedro II). No aspecto religioso se destacam a construção da Capela de Santana, em 1858, no atual Bairro de São Pedro e a Igreja da Glória, no Morro da Glória e também a introdução, na cidade do culto luterano, erguendo, em 1862, no Bairro Fábrica, o primeiro Templo Luterano de Minas Gerais e mais tarde, em 1935 a Capela Luterana do Bairro São Pedro. Nas duas últimas décadas do século XIX, aportaram, na cidade, imigrantes provindos de outra região da Europa, os italianos. Sua chegada, ampliada consideravelmente a partir de 1888, com a instalação na cidade da Hospedaria de Imigrantes Horta Barbosa, vêm suprir a necessidade de mão de obra não só para a produção cafeeira da região, como também para a nascente indústria têxtil e para a construção civil. Nesta atividade, amplamente estimulada pelo grande desenvolvimento econômico, eles se destacaram ajudando significativamente na constituição da paisagem urbana de Juiz de Fora. Além de sua atuação na indústria da construção civil, em que destacam-se nomes como os de Pantaleone Arcuri, proprietário da principal companhia construtora da região até meados do século XX, os italianos demonstraram sua especial habilidade em outros serviços artesanais, como os de marcenaria, funilaria, alfaiataria e sapataria, bem como na produção e comercialização de gêneros alimentícios. No que concerne aos aspectos religiosos, destaca-se a devoção a São Roque que se configurou, a partir de 1878, como um culto específico dos italianos no município abrigado na igreja dedicada ao citado Santo, situada na Avenida dos Andradas, na área central do município. O associativismo era outra das características marcantes dos imigrantes italianos resultando na criação de sociedades como a Associação Cultural e Beneficente Ítalo Brasileira "Anita Garibaldi", fundada em 1946 para fins culturais, que teve suas atividades encerradas na década de 1960, mas cuja sede, denominada até hoje como Casa de Anita foi reformada na década de 1990, com apoio da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Outro espaço simbólico para estes imigrantes é a Casa D’Itália, cuja construção contou com contribuições financeiras de grande parte da colônia local. O prédio foi concebido como um centro de convivência para ítalo-brasileiros e de abrigo para várias das suas associações, sendo inaugurado em 5 de novembro de 1939. A Casa serviria à comunidade como espaço para instrução, escola, biblioteca, hospital, beneficência, lazer, esporte e fruição de atividades culturais. Hoje, no local, são desenvolvidas atividades de canto coral com repertório, em sua grande parte, de música italiana, aulas de línguas, cursos de desenho, pintura, bordado e artesanato e um restaurante onde pode ser apreciada a cozinha italiana. A Casa D’Itália é também sede do Tarantolato, grupo de dança folclórica italiana, criado no ano 2000, com o objetivo de divulgar e preservar a dança e as tradições culturais de diversas regiões da Itália. O grupo é formado, em sua maioria, por descendentes de italianos de 2ª e 3ª gerações. Um dos destaques de suas apresentações é a Tarantella, dança típica do Sul da Itália. Ainda como reflexos da cultura italiana em Juiz de Fora, percebe-se no município uma significativa presença de casas de massas e restaurantes de comida típica. Os sírios e libaneses aportaram na cidade a partir da última década do século XIX. Motivados a deixar sua terra natal pelas dificuldades econômicas e políticas, tiveram como primeira atividade geralmente a mascateação, investindo, a seguir, na implementação de pequenas indústrias têxteis ou em atividades comerciais. Habitando preferencialmente a região central da cidade, próxima à linha férrea, costumavam morar nos fundos da mesma edificação onde instalavam suas lojas. As suas fábricas também possuíam dimensão doméstica, muitas vezes instaladas próximas das suas próprias residências e participando da sua produção, como informa Ludmilla Savry Almeida, a própria família do proprietário e alguns empregados provenientes da sua mesma região de origem. Eles chegavam a criar até bicho da seda para obter a matéria prima necessária a sua produção. Sua significativa presença em Juiz de Fora pode ser percebida não só nos sobrenomes de vários dos seus cidadãos, como também, em traços da arquitetura local. Enquanto os libaneses vieram de várias regiões do seu país, a maioria dos sírios procedeu da mesma cidade, Yabroud. Estes imigrantes árabes trouxeram à cidade marcas de suas culturas, nas quais se destacam as suas manifestações religiosas. São na sua grande maioria cristãos, distribuídos basicamente em dois cultos, de acordo com a sua procedência, sendo os libaneses maronitas e os sírios melquitas. Em fins da década de 1950 é construída a Igreja Melquita Católica de São Jorge, inaugurada no ano de 1965, pertencente à Paróquia de mesmo nome e que, para a sua construção, contou com campanhas de arrecadação promovidas pela própria comunidade. Nessa mesma década de 1960, foi criado o Clube Sírio-Libanês, com o objetivo de congregar os imigrantes destas duas procedências. Nas comemorações que acontecem no clube presenciamos, até hoje, a apresentação de danças típicas árabes, reforçadas, desde 2001, com a criação, na própria instituição, do Grupo Nabak, de folclore árabe e dança do ventre, dirigido pelo bailarino libanês Tufic Nabak, que coordena, também, desde 2003, o Centro Cultural Árabe Nabak, sediado no mesmo clube. Nas festividades da comunidade encontramos, também, as suas comidas típicas, que, difundidas por toda a cidade, ajudaram a ampliar o paladar do juiz-forano, que acolheu em seu cotidiano as esfirras, os quibes, etc. Não se pode deixar de destacar, também, os descendentes dos imigrantes portugueses que, principalmente, nas últimas duas décadas do século XIX e nas primeiras três décadas do século XX, chegaram em maior número no município, atraídos pelo seu desenvolvimento econômico. Era, na época, o maior contingente de imigrantes existentes em Juiz de Fora, chegando a constituir cerca de 70% de toda a imigração que aportava na cidade naquele período. Nela se fixaram, a princípio, como vendedores, ambulantes, pedreiros, caixeiros, comerciários e lavradores tendo, posteriormente, papel significativo no setor comercial. Para defender seus interesses criaram, em 1º de dezembro de 1891, a Sociedade Auxiliadora Portuguesa, com o objetivo de “auxiliar financeiramente, os conterrâneos menos favorecidos, como também, o desejo de mantê-los sempre unidos numa terra praticamente estranha para a maioria.” Como informa a historiadora Cláudia Viscardi, seus “sócios eram somente portugueses” que mantinham uma programação anual de comemorações da história e da cultura portuguesas, como a celebração do aniversário de Camões, em junho. Existente até hoje, transforma-se em um clube social, cujo nome foi alterado, em 1969, para Sociedade Portuguesa. E por fim, em meados da década de 2000, tem-se nova modificação, passando a entidade a ser registrada com o nome de Associação Portuguesa de Juiz de Fora. Em 1955, foi criado, dentro da Sociedade, um departamento específico da cultura luso-brasileira, com a finalidade de contribuir com a difusão das tradições portuguesas em Juiz de Fora. No ano de 1961, esse departamento se desmembra da Sociedade Auxiliadora Portuguesa conseguindo sua autonomia e assumindo a denominação de Associação de Cultura Luso-Brasileira, mantendo até os dias de hoje suas atividades. Em 1991, ano do centenário da Sociedade Portuguesa, é criado, também, o Grupo de Dança Folclórica Luiz de Camões, que encerrou suas atividades no fim da década de 2000. Desde 2005, a FUNALFA realiza, em parceria com os principais grupos étnicos da cidade, a Festa das Etnias. Deste processo, foram elaboradas duas publicações que registram memória, práticas cotidianas, hábitos e modos de vida trazidos dos países de origem e incorporadas pelo município. "De todos os cheiros e sabores que fizeram Juiz de Fora" e "Amores" são importantes registros das memórias dos imigrantes e seus descendentes. 14.2 Diagnóstico - Entre as etnias listadas acima, aquela que vive, ainda, em condições mais precárias devido ao passado escravocrata, é a constituída pelos afrodescendentes. Estes necessitam de uma política de ações afirmativas, também na área cultural, no sentido de auxiliar o desenvolvimento da sua produção cultural, bem como na salvaguarda do seu patrimônio e na própria afirmação da sua cidadania. Notamos ainda uma carência de infraestrutura, na maior parte dos grupos culturais étnicos, no que concerne tanto a espaços condizentes com o desenvolvimento de suas ações e produções, quanto à organização e divulgação da documentação que preserva a sua história. A partir dos relatos dos grupos étnicos é possível perceber em todos eles uma grande dificuldade de atrair e garantir a participação dos mais jovens na manutenção das atividades tradicionais. A cidade conta, hoje, com um evento, a Festa das Etnias, de fundamental importância para a identificação e preservação da contribuição destas etnias no seu desenvolvimento cultural e social, mas carece de um planejamento de uma política cultural que atenda, de forma continuada, a esta função. 14.3 Diretrizes - I - Valorizar as manifestações culturais ligadas às etnias por meio da sua identificação e salvaguarda, realizada através dos instrumentos apropriados, como inventários, tombamentos, registros, bem como da produção de eventos relacionados às mesmas; II - Capacitar as lideranças, com o objetivo de ampliar sua participação na construção de políticas culturais direcionadas para os grupos culturais étnicos; III - Realizar cursos para capacitação de artistas e agentes culturais ligados aos grupos das manifestações tradicionais de cada uma das etnias; IV - Garantir os espaços públicos para a realização das manifestações artísticas de cada uma das Etnias e busca de uma melhor divulgação destas ações; V - Elaborar e realizar ações que proporcionem a comunicação, o trabalho em rede e facilite o intercâmbio entre os grupos étnicos; VI - Garantir a implementação de políticas públicas de combate à discriminação, ao preconceito e à intolerância religiosa; VII - Valorizar, estimular e registrar tanto as manifestações culturais das diferentes matrizes étnicas, quanto das matrizes de arte urbana - hip-hop, street dance, grafite -, através de promoção, apoio e proteção às manifestações dessas comunidades para a difusão de seus símbolos; VIII - Criar processo de envolvimento da juventude dentro das atividades dos grupos culturais étnicos; IX - Identificar e nomear os mestres envolvidos com o "saber" fazer de suas práticas e processos, no intuito de sistematizar o registro, a continuação e a perpetuação desses conhecimentos através da transmissão dentro dos grupos e das matrizes étnicas. 15. LITERATURA - 15.1 Histórico - Desde suas origens, Juiz de Fora apresenta-se como um município vocacionado para a cultura, destacando-se no cenário nacional e internacional pelas variadas manifestações artísticas que aqui encontraram terreno fértil. Sua literatura, entre outros recortes, pode ser definida pela recorrente figuração da cidade no microcosmo literário. Os escritores resgatam Juiz de Fora não apenas como um cenário, mas também como uma personagem que atua em diversas narrativas, sendo presença marcante em diversos poemas. A maioria de seus autores escreve sobre suas origens, seus contatos com a terra-mãe. Não é, pois, de se estranhar, que Pedro Nava, o maior memorialista em língua portuguesa, tenha nascido aqui. Por esse motivo, podemos acompanhar o crescimento do município, de sua gente, de sua educação e de sua cultura pelas letras juiz-foranas. O resgate de uma cidade originária permite que se escavem as raízes em busca de um eixo que possa orientar seu futuro, ao mesmo tempo em que rastreia um paradigma de cidade enquanto um locus generalis. E o estar na cidade de Juiz de Fora é reconhecer seus emblemas: as praças, o Rio Paraibuna, os casarões da Avenida Rio Branco, a Rua Halfeld, os antigos bondes e o Morro do Imperador, da Liberdade, hoje, do Cristo, às fazendas presentes no cotidiano de seus habitantes. Juiz de Fora, de forma pioneira, fundou a Academia Mineira de Letras em 1909, desempenhando um papel importante no desenvolvimento literário da cidade e projetando escritores de expressão. Depois, em 1915, a sede da Academia foi transferida para Belo Horizonte. A Rua Halfeld, por exemplo, é centro do mosaico mandalar que compõe a cidade de Juiz de Fora. Carregada do traço forte da cultura, passa a ser não só cenário, mas a grande personagem de muitas narrativas ou presença encorpada em muitos poemas. A rua Halfeld mereceu a atenção de mais de 30 das notáveis letras juiz-foranas: desde Antônio Bernardes Fraga, Edmundo Lys, Murilo Mendes, Bié até Edimilson de Almeida Pereira. Outro que não pôde esquecer a rua de sua mocidade foi Jacob Goldberg, que fez em seu livro Rua Halfeld, Ostroviec a ligação de suas ancestralidades: juiz-forana e polonesa. A literatura é, sem dúvida, uma das expressões culturais mais significativas da cidade e, ao longo do tempo, projetou nomes de relevância no cenário juiz-forano, mineiro e brasileiro. Forte e tradicional centro educacional, o município ganhou impulso no setor literário. Nomes como Murilo Mendes, Pedro Nava, Rubem Fonseca, Affonso Romano de Sant’Anna, Belmiro Braga, Antônio da Silva Mello, Fernando Gabeira, Rachel Jardim, Luiz Ruffato, Sérgio Klein, Iacyr Anderson Freitas, Fernando Fiorese, Ivan Yazbeck, Mary e Eliardo França, entre muitos outros, consolidaram a força literária de Juiz de Fora. E expoentes da nova geração, forjada a partir de meados da década de 1970, em torno do jornal Bar Brazil, dos folhetos Poesia e Abre Alas e da revista D’Lira, deram continuidade à trajetória literária vitoriosa do município. Após 1994, com a criação da Lei Municipal de Incentivo à Cultura - Murilo Mendes, projeto do então vereador Vanderlei Tomaz, gerenciada desde aquela época pela FUNALFA, foram dados mais dinamismo e suporte para que a literatura criada no município fosse editada. A lei, até hoje, vem constituindo uma possibilidade de edição de uma obra tanto para nomes já consolidados, como para novos escritores. Outro canal para a publicação de obras literárias é a Editora UFJF, sob coordenação da própria Universidade. A instituição, desde a sua criação em 1965, também tem sido um núcleo significativo de produção e reflexão sobre a literatura no município. 15.2 Diagnóstico - Pode-se dizer que uma das principais ações no setor é a produção independente de obras literárias a partir da aplicação de recursos provenientes da Lei Murilo Mendes por autores e produtores culturais que tiveram projeto aprovado na lei municipal de incentivo. Dessa forma, a Lei Murilo Mendes tem se mostrado essencial como suporte para a edição e coedição de livros, atualizando a produção literária do município. Editoras de pequeno porte também dão sua contribuição à produção literária. É essencial o estabelecimento de uma política de circulação do livro. Mesmo precariamente, a FUNALFA vem realizando a captação de livros em seus eventos, através da troca de exemplares por convites que dão acesso às atividades da fundação, e destinando as obras arrecadadas para bibliotecas comunitárias e outras instituições, proporcionando a renovação e a ampliação dos acervos. Recentemente, foi realizada a 1ª Feira de Troca de Livros de Juiz de Fora, uma iniciativa do legislativo municipal e executada pela Prefeitura/FUNALFA. A primeira edição foi bem avaliada pelos participantes, e a legislação prevê a sua realização anualmente. Essa perspectiva de continuidade do evento fomenta a possibilidade de se realizar, a baixo custo, uma atividade que proporciona o incentivo à leitura, à renovação de acervos, à circulação de livros, revistas e outros, assim como à interação entre leitores. Há duas décadas, não existe uma política de aquisição de livros no município. Quanto às instituições bibliotecárias municipais, destacam-se como principais a Biblioteca Municipal Murilo Mendes (BMMM), instalada no complexo do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas e administrada pela FUNALFA, e a Biblioteca Central da UFJF. A BMMM abriga um dos mais diversificados acervos municipais, disponibilizando ao público um amplo acervo para consulta a periódicos, obras acadêmicas e de literatura voltadas para todas as faixas etárias, documentos históricos no Setor de Memória e acesso gratuito à internet. A biblioteca também coloca à disposição livros na linguagem Braile e fitas cassete para deficientes visuais. Desde 1985, mantém uma sucursal no bairro Benfica, a Delfina Fonseca Lima, também com significativo acervo à disposição do público da região. É importante ressaltar que ainda existe demanda para a criação de bibliotecas em outros bairros do município. Recentemente, a UFJF divulgou, através da imprensa local, o investimento de R$11 milhões na expansão de bibliotecas. Além da expansão do prédio da Biblioteca Central, os recursos serão aplicados na construção de dez novas unidades, incluindo duas bibliotecas setoriais, expansão e atualização do acervo, aquisição de novos títulos, entre periódicos, CDs e DVDs, além da compra de acervo on-line, modernização do Infocentro e fortalecimento da segurança do acervo. Por iniciativas diversas, atualmente, encontra-se em Juiz de Fora cerca de 20 bibliotecas comunitárias, além de instituições que funcionam em locais com as mais diversificadas estruturas, funcionando como núcleos de informação, convivência, leitura, socialização e cidadania cultural. A ampliação do acervo da Biblioteca Municipal Murilo Mendes e das bibliotecas comunitárias é um imperativo, assim como a articulação de uma política pública de incentivo à leitura e à difusão do livro junto às escolas e à comunidade. A valorização dos autores juiz-foranos, natos ou adotados pela cidade, é um importante passo para fortalecer a vertente literária da cidade. Acredita-se também que a realização de um grande evento literário proporcionaria maior visibilidade à literatura da cidade, abrindo novos canais de reflexão e de participação para o setor literário. 15.3 Diretrizes - I - Estabelecer um valor anual no orçamento municipal para a aquisição de livros para a Biblioteca Municipal Murilo Mendes; II - Viabilizar um evento de porte voltado para a difusão literária e a reflexão sobre o livro; III - Articular uma política municipal de incentivo ao livro, à leitura e à elaboração de um Plano Municipal de Incentivo ao Livro e à Leitura; IV - Estimular a articulação da Funalfa com a Secretaria de Educação do município para a viabilização de ações voltadas para o incentivo à leitura, à publicação e à circulação de livros; V - Promover ações voltadas ao estímulo da leitura, visando à ampliação do acesso ao livro e aos diversos portadores de textos, assim como a valorização da leitura como atividade cidadã; VI - Garantir a aquisição e atualização de acervos bibliográficos, assim como o estabelecimento de políticas para sua valorização e sua conservação nas instituições já existentes, através da inclusão, na agenda política e econômica do município, do fortalecimento e da ampliação dos acervos, com infraestrutura, acesso a novas tecnologias para inclusão digital e capacitação de recursos humanos das bibliotecas públicas municipais;

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