Árvore é uma planta permanentementelenhosa de grande porte



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Encontro25.08.2018
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Sobre árvores e homens
“O homem é o único animal que bebe sem ter sede, come sem ter fome e fala sem ter nada a dizer.” – John Steinbeck
Utilizar as árvores como metáforas pode ser um grande risco, pois a sua complexidade, muitas vezes disfarçada de simplicidade, nos traz armadilhas. Mesmo assim elas (trazem) comportam elementos que auxiliam a discutir a reflexão interdisciplinar e mesmo o próprio processo de pesquisa.

Podemos começar com a Floresta brasileira (óleo sobre tela, 60 x 40 cm, c. 1824). A imagem de Rugendas pode ser lida como a expressão de um pesquisador imerso no amplo universo da floresta, com seus múltiplos liames. Tal qual o índio visto pelo europeu, cada estudante tem a pureza e a inocência do começar (d) uma jornada, ainda sem saber exatamente para onde ir.

Na Floresta brasileira (sépia sobre papel, 54,5 x 82 cm, 1853) de Manoel de Araújo Porto-Alegre, ambiente semelhante apresenta (ouro) outro elemento humano: o do colonizador. Embora pequeno (perante) diante de o entorno, parece caminhar com pretensa segurança perante o que está ao redor, armado, talvez de um pseudo-conhecimento. (se) Se o índio está integrado ao local que vivencia, o invasor busca a dominação.

Entre a (postura) atitude natural e a arrogância, duas posturas distintas, surgem tensões. Van Gogh, em seu Campo de milho e ciprestes (óleo sobre tela, 72 x 90, 8 cm, 1889), revela uma pincelada gestual plena de energia, mas não livre da dor biográfica. Será que o pesquisar se conecta com a dor e evoca o cipreste, árvore simbolicamente associada a mortes e cemitérios pela sua verticalidade?

A imagem de Monet oferece uma resposta: a racionalidade. As quatro árvores (óleo sobre tela, 81,8 x 83 cm, 1891) alerta que é possível – não sei se desejável – trabalhar com as áreas em paralelo, com seriedade, numa postura hierática. Dessa maneira, o conhecimento segue( vereda) veredas estanques, em que o diálogo entre formas do saber é evitado, talvez por parecer perigoso.

O grande pinheiro (óleo sobre tela, 89 x 70 cm, 1890-96), de Cézanne, surge como uma maneira de resolver as questões propostas. Mantém-se a idéia da árvore, mas ela (surge) aparece cercada por outras e as massas de cor começam +a apontar para o que o artista faria mais tarde: o lidar com as massas de cor, não com os detalhes.

Pesquisar não seria justamente desenvolver a capacidade de ver a (árvores) árvore não como um ser da natureza, mas como um objeto a ser melhor conhecido (pelo desenvolvimento) pela criação de um método, também aplicável (a outros seres) a outras espécies (animados ou inanimados) animadas ou inanimadas?

Klimt, no (Friso Stoclet) Friso Stoclet (pintura mural, 200 x 740 cm, 1905-09), mas célebre pela faixa central, conhecida como Árvore da vida, já (aponta) mostra que pesquisar, embora seja uma imersão na complexidade, pode ser alegre e prazeroso. Nas sinuosas curvas e espirais do saber, existe (o lúdico prazer) uma lúdica satisfação de escolher um começo sem saber qual será o final.

A árvore vermelha ( óleo sobre tela, 70 x 99 cm, c. 1908), de Mondrian, (comporta) traz uma nova ambigüidade de interpretação. Se alguns a associam a uma dor, outros podem vê-la como a expressão vívida e vivida de que há uma seiva vital no ato de estudar e buscar sentido para um assunto ou (reflexão) concepção.

Antonio Gomide, com Árvores (aquarela, 51 x 32 cm, 1925), alerta já para uma alternativa de raciocínio. O começo da geometrização da pintura (aponta) indica para a construção de um determinado tipo de raciocínio. Está ali uma forma de entendimento do mundo, pode-se discordar ou concordar, (ma) mas a sua coerência interna demanda respeito e (reflexão) atenção.

Pesquisar começa a ser visto então como um ato criativo e mágico em si próprio. Tarsila do Amaral, em Manacá (óleo sobre tela, 76 x 63,5 cm, 1927), inova ao (mostrar) situar, em sua pintura, na mesma árvore, flores de duas cores ao mesmo tempo. Isso é impossível na natureza, mas aceitável em (seu raciocínio) sua conclusão visual. Construir um pensamento teórico não demanda a mesma capacidade de tornar o aparentemente possível em algo possível pelo poder da argumentação e do raciocínio.

Max Ernst, em A floresta embalsamada (óleo sobre tela, 162 x 253 cm, 1933), faz exatamente isso. Estabelece relações internas em sua composição de enorme coerência. Desse modo, seu universo visual, rígido como pedra a partir da dinâmica de uma floresta, torna-se absolutamente real pela sua força técnica de criar elos entre os elementos componentes de sua imagem.

Os melhores raciocínios são aqueles que conseguem se manter de pé pela poder de articulação. Como árvores, permitem numerosas entradas, mas têm no tronco um elemento central que as sustenta. Isso não significa, pode parecer num primeiro momento, simplicidade. Pelo contrário, encontrar essas forças convergentes demanda tempo e amadurecimento.

A árvore (óleo sobre tela, 200 x 100 cm, 1984), de Waldemar de Andrade, introduz outra discussão. Voltamos ao índio integrado ao ambiente, mas agora ele não está mais abrigado pela árvore. Agora sobe nela e se apropria do saber, como pesquisador que além de abrigar sob o saber acumulado tem a coragem de dominar seu objeto de estudo sem deixar, porém, + de respeitá-lo ou se perder no (rico) risco de se sobrepor a ele.

As duas posições apontadas levam à morte do objeto de estudo e do próprio ato de pesquisar. É o que mostra Krajcberg, com suas árvores destruídas pelo fogo em diferentes regiões brasileiras (fibras e minerais, aprox. 3 m de altura cada, 1989-90, Nova Viçosa, BA). O desmedido desejo humano de dominar o que se busca conhecer pode levar à morte do objeto de estudo.

Uma alternativa é a compreensão de que o que se pesquisa não está só no mundo. Francisco Severino, ao pintar a sua Árvore vermelha (óleo sobre tela, 60 x 50 cm, 1993), alerta justamente como o (elemento) fator da natureza que intitula a sua obra só tem razão de ser quando integrado num todo.

Selecionar o que se deseja ver naquilo que se foca é uma outra questão essencial. Edson Lima, ao (ergue) erguer seu Cajueiro do Rio Branco (óleo sobre tela, 60 x 90 cm, 1994), evidencia isso, pois a falta de proporção entre os frutos, a árvore e as pessoas constitui uma escolha do pensar. Para ele, é o caju que ganha o espaço. O fato de ser pintado maior que os seres humanos não é um problema, mas a sua solução visual.

M. Zawadska nos leva de volta à Floresta amazônica (óleo sobre tela, 115 x 170 cm, 1994). Sua imagem cristaliza a experiência do pesquisador que estabelece com seu objeto de estudo uma visão quase fantasiosa. Vê o que deseja pintar com +os olhos da emoção e não da ciência. Mesmo assim, o resultado agrada por ser internamente coerente.

Raciocínio oposto é o de Borges Jr. Seus Pinheiros (acrílico sobre tela, 15 x 20 cm, 1999) não se caracterizam pela criatividade. Tecnicamente bem feitos e estudados, atém-se ao real. (Posta está) Instala então mais um desafio. Decidido o que se deseja estudar, por onde caminhar: a vereda menos concorrida de uma fantasia controlada pelo poder da criatividade ou o caminho mais comum de uma razão regida pelos ditames da ciência sem espaço para o sonho e a liberdade até certo ponto descompromissada?

Sergio Lucena, com sua Árvore III (óleo sobre linho, 130 x 10 cm, 2006), indica que uma certa espiritualidade não abandona o pesquisador, seja (ele) ela visual ou textual. Assim como ele faz com a árvore, quem se debruça sobre um tema ou objeto pode passar a vê-lo em outra dimensão. A dificuldade está em tornar essa “terceira margem do rio” aceitável no mundo da ciência.

É indispensável, para isso ter profundo conhecimento daquilo que se está estudando. O resultado visual Árvore (acrílica sobre linho, 120 x 100 cm, 2007), de Rubens Matuck, é uma constatação disso. Fascinado por esse ser desde a infância, quando passava as férias em Campos do Jordão, viaja o Brasil todo para conhecê-las e transmite esse conhecimento em dezenas de livros.

Se Matuck se apropria da árvore e lhe dá forma plástica e de texto em suas publicações, Theresa Neves, em sua (Série Árvores do cerrado)Série Árvores do cerrado (acrílica sobre tela, 110 x 90 cm, 2008) toma o assunto e realiza um estudo cromático. O elo entre o objeto mostrado e o entorno é menos importante que o todo, na relação entre o tronco, os galhos da árvore e a tonalidade selecionada.

Matuck dedica ao objeto pesquisado parte de sua vida, inclusive plantando até hoje árvores pela cidade. Theresa Neves revela maior frieza técnica. Isso, porem, não torna um trabalho melhor ou pior que o outro. Ambos se equivalem já que (realizado) integrados com seriedade e dentro de uma clara linha do pensar.



Árvores de outono (caneta esferográfica, 50 x 65 cm, 2009), de VPadin, introduz dois elementos novos para pensar ao final desta jornada. Sua técnica para conhecer a árvore demanda refinado e obsessivo detalhe. O objeto desenhado surge junto a um muro, índice de um desafio.

O eixo da questão esteja talvez em saber como “limpar” o muro da imagem para se chegar à árvore, objeto do desejo acadêmico, enquanto metáfora de estudo. Pode-se pular o muro, apagá-lo, contorná-lo ou simplesmente conviver com ele. São todas possibilidades válidas e sedutoras de acordo com a trajetória realizada por cada um.

Não existe um melhor caminho, mas numerosas veredas a serem percorridas. Cabe a cada pesquisador encontrar a sua. As 20 imagens que nos acompanharam nesta trajetória são apenas indicativos arbóreos de possibilidades rizomáticas. Aprender a pesquisar, nessa ótica, pode ser sinônimo de aprender a viver melhor.

Como enuncia o escritor norte-mericano John Steinbeck (1902-1968), “O homem é o único tipo de animal que arma sua própria armadilha, põe a isca e então pisa sobre ela”. Pesquisar, portanto, não pode ser sofrer ou morrer de dor. Precisa ser um prazer – e (olhas) olhar as árvores, aprendendo com elas, é uma maneira de propiciar que isso aconteça.


Oscar D’Ambrosio



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