Rudolf Laban (1879-1958), nascido na Austria-Hungria



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FAV – Metodologia da Dança Ana Bevilaqua


INTRODUÇÃO A ANÁLISE DE MOVIMENTO LABAN

– Rudolf Laban (1879-1958), nascido na Austria-Hungria. Trabalhou inicialmente como arquiteto, pintor, ilustrador, mas foi no campo da dança e do movimento que Laban deixou seu legado. Foi bailarino, coreógrafo, teórico, professor ou simplesmente, um “artista-pesquisador”, como ele se auto-intitulava.


– Laban concebe o movimento como um “processo constante de contínuas mudanças”.
– “Ele aponta que essas mudanças, embora contínuas e sempre em mutação, tendem a se organizar no ser humano em determinadas ordenações rítmicas, que formam padrões singulares. Os gestos mudam, as posturas mudam, mas cada indivíduo tende a organizar suas frases de movimento de acordo com ritmos que são mais ou menos recorrentes, mesmo em circunstâncias diferentes” (MIRANDA, 2008: 71-72).
– Laban percebe e estuda esses padrões de organização e começa a desenvolver uma espécie de partitura de movimento, semelhante a uma partitura musical – algo que indica um lugar de experiência, que te permite ter um acesso criativo ao movimento e possibilita múltiplas interpretações teórico/corporais. Laban então, decupou o movimento até seus elementos mais simples, como fonemas de uma gramática ou notas musicais, que podem se articular de maneiras diversas, chegando a sintaxes bastante complexas, como a própria linguagem e que, portanto, é portadora de sentido, de expressão. Para Laban o movimento é linguagem e como tal, portador de sentido.
- Em seu artigo “Space, Effort and The Brain”, Irmgard Bartenieff começa falando:

“Toda a vida de Rudolf Laban – seja como bailarino/ coreógrafo, professor/ teórico, ou filósofo/ humanista – foi um envolvimento intenso e constante com todas as facetas do movimento. Foi um processo interminável de definição das manifestações internas/ externas dos fenômenos de movimento em tons cada vez mais sutis e em inter-relações mais complexas. Assim, nós o vemos trabalhando com constelações de qualidades mais do que com fatos isolados ou aspectos únicos: a tentativa era sempre de chegar ao cerne do processo, comportamento e expressão do movimento”.


– Então, é uma ferramenta para se descrever o movimento? Sim e não. Laban é um homem do seu tempo e, portanto, influenciado pelo cientificismo de sua época – em que a ciência e o pensamento racional tinham a ilusão de poder oferecer uma descrição de seus objetos de estudo que revelasse a sua verdade, a sua essência. Essa visão modernista ainda sobrevive e, por este viés, sim, podemos ver o Sistema Laban como uma ferramenta para se descrever e analisar o movimento. Porém, com olhos contemporâneos, sabemos que uma descrição, por mais que se aproxime do objeto real, não consegue dar conta de sua totalidade, por isso o Sistema Laban nos auxilia a observar, analisar e até descrever o movimento, sem contudo, pretender ser um valor absoluto. É um sistema aberto a diferentes interpretações, reconstruções e experiências.
– Laban desenvolveu suas teorias na primeira metade do séc. XX, influenciado pelo racionalismo da época, que buscava uma linguagem objetiva, científica e portadora da verdade e pela psicanálise nascente que via na subjetividade a fonte da verdade. Para suas teorias espaciais, Laban buscou apoio na geometria euclidiana.

– O Corpo faz parte de uma relação estrutural que inclui ainda Esforço, Forma e Espaço, categorias que se inter-relacionam e informam-se mútua e continuamente.


– Essa inter-relação de categorias e conceitos é intrínseca e fundamental ao Sistema Laban e podemos representá-la e apreendê-la através da Banda de Moebius:

“Esta figura, descrita por Rudolf Laban como ‘Lemniscate’, é criada a partir da junção das duas extremidades invertidas de uma banda, cujas faces passam a ser simultaneamente externas e internas.(...) Os conceitos de Laban, muitas vezes interpretados como dualidades opostas, de fato dialogam nessa figura tridimensional que elimina a oposição e instala uma continuidade gradativa em constante transição, como é o movimento humano”. (FERNANDES, 2002: 28)

Assim temos: teoria e prática, função e expressão, interno e externo, mobilidade e estabilidade, Peso leve e forte, etc, como exemplos de dualidades que dialogam em gradação contínua.

“Laban escreveu: não apenas a arte do movimento, mas qualquer movimento sem uma filosofia é árido. Enquanto uma filosofia oferece um propósito amplo à prática do movimento, o conteúdo detalhado de cada frase de movimento pode apenas ser alcançado por uma consciência de sua sintaxe. (...) Laban então tratou da gramática do comportamento, as regras do gestual através dos quais as pessoas entendem-se socialmente. ‘Gesto e postura não mentem’, ele escreveu, enquanto que as palavras podem mentir e o fazem. Ele elaborou a gramática para a arte do movimento, baseada na harmonização de princípios, no equilíbrio de opostos. Recolher é naturalmente equilibrado por espalhar, forte pelo fraco, largo por estreito. Curvo por reto, ação por reação, luta por co-operação, desequilíbrio por equilíbrio, assimetria por simetria – todos equilibram uns aos outros. Essa propensão para o equilíbrio é inata ao corpo, mente e espírito, e é o que dá sentido ao movimento do corpo. Movimentos disparatados, sem-sentido não se ajustam a essa gramática. Sem a consciência desta gramática, exercícios não fazem sentido a quem se move e não integram mente, corpo e alma, ou uma pessoa com outra”. (Preston-Dunlop, 1998: p.103)

– O Sistema Laban é, desse modo, um sistema aberto, em constante renovação, como a própria escrita do Laban indica. Essa linguagem dinâmica exige um olhar que se sabe parcial, ela nos permite versões sobre o movimento, indica lugares de experimentação sem pretender querer alcançar a verdade do objeto que observa. Em sua metodologia procura-se observar e estar atento, curioso, às diversas manifestações de movimento, diversos tipos e estilos de dança, corpos diferentes, peculiaridades e diferenças, atividades diversas, enriquecendo dessa forma o nosso olhar sobre o outro e ampliando a percepção das relações corpo-espaço.


Categorias de Análise de Movimento Laban – Corpo-Esforço-Forma-Espaço (em inglês Body, Effort, Shape and Space – BESS)



Corpo: como este se organiza, suas conexões e isolamentos ou fragmentações, seus esquemas motores, seus gestos e posturas. .
Esforço: enfatiza as qualidades do movimento, o ritmo dinâmico, a motivação interna/externa que aparece na escolha do movimento. Nesta categoria experimenta-se e reflete-se sobre “como” o indivíduo se move em relação a 4 fatores básicos: fluxo, peso, tempo e espaço, isoladamente e em suas múltiplas combinações.
Forma: refere-se ao corpo em suas dimensões plásticas: suas mudanças de volume, o contínuo processo de aparecimento e desaparecimento de novas formas e como este se adapta às suas necessidades internas e externas.
Espaço: situa a pessoa no mundo relacional. Esta categoria inclui explorações da esfera pessoal de movimento (kinesfera”), explorações das tensões dimensionais, planares, diagonais ou transversas e das formas cristalinas representativas dessas articulações espaciais (cubo, octaedro, icosaedro, dodecaedro, por ex.).
– A separação em categorias é de natureza metodológica, possibilitando a observação, experimentação e análise. Elas estão sempre presentes no movimento, com diferentes graus de intensidades e em contínua relação.
- Temas labanianos: Interno/ Externo; Mobilidade/ Estabilidade; Função/ Expressão; Ação/ Recuperação; Complexidade/ Simplicidade – dualidades, polaridades de um continuum. A compreensão da dualidade dentro de uma unidade está enraizada em nossa experiência de nossa forma física em nosso ambiente – assim temos, por exemplo, a vertical (em cima e embaixo) alinhada à tensão gravitacional; a experiência de nossa bilateralidade simétrica (lado direito e lado esquerdo; frente e atrás); nossa respiração (para dentro, para fora); estar acordado ou dormindo. Dualidade – contextual, relativa (eu sou baixa ou magra em relação à quê? Ou quem?)

Apostila realizada a partir de anotações de aulas com Regina Miranda, no Modular Certificate Program do LIMS e da bibliografia abaixo.


BIBLIOGRAFIA – Leituras Auxiliares

. ANDREWS, Meade, com SCOTT, Carol Boggs. “Os Bartenieff Fundamentals –

Mobilizando os Recursos do Bailarino” (tradução de Ana Bevilaqua) in Contact Quartely – Spring/Summer 1986.

. BARTENIEFF, Irmgard with LEWIS, Dori. Body movement – coping with the



environment. New York: Gordon and Breach Science Publishers, 1993. 7th

printing.

. Id . “Space, Effort and The Brain” in Main Currents. s/l/d. vol. 31, No. 1.

. CASCIERO, Thomas. Laban Movement for the Actor. Baltimore, Maryland: Towson

University, 1998.

. COHEN, Bonnie Bainbridge. Sensing, Feeling and Action: The experiential anatomy of



Body-Mind Centering. Northhampton, Contact Edition, 1993.

.ENCONTRO Laban 2002 – A Linguagem do Corpo. Anais do congresso. Rio de Janeiro:

s.ed., 2002.

. FERNANDES, Ciane. O Corpo em Movimento: o Sistema Laban/Bartenieff na



formação e pesquisa em artes cênicas. São Paulo: Annablume, 2002.

. GOLDMAN, Ellen. As Other See Us: Body movement and the art of successful



communication. New York: Gordon and Breach, 1994.

. HACKNEY, Peggy. “Conexão e Expressividade nos Bartenieff Fundamentals” (tradução

Adriana Bonfatti e Ana Bevilaqua) in Nouvelles de Danse, número 28, 1986.

. Id. . Making Connections. Total Body Integration through Bartenieff



Fundamentals. Amsterdam: Gordon and Breach Publishers, 1998.

. LABAN, Rudolf. Effort: economy in body movement. Great Britain: Macdonald and

Evans Limited, 1974.

. Id. . The Language of Movement: a Guidebook to Choreutics. Boston:

Plays Inc., 1974.

. Id. . The mastery of movement. Revised by Lisa Ullmann. United

Kingdom: Northcote House Publishers Ltd., 1988. 4th edition.

. MIRANDA, Regina. O movimento expressivo. Rio de Janeiro: Funarte, 1979.

. Id. . Corpo-Espaço: aspectos de uma geofilosofia do corpo em

movimento. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008.

. MOMMENSOHN, Maria & PETRELLA, Paulo (org.). Reflexões sobre Laban, o Mestre



do Movimento. São Paulo: Summus, 2006.

. PRESTON-DUNLOP, Valerie. Rudolf Laban: an extraordinary life. London:

Dance Books, 1998.

. Id. . Rudolf Laban – An Extraordinay Life. London: Dance Books, 1998.



. RANGEL, Lenira. Dicionário Laban. São Paulo: Annablume, 2003.








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