Rtigo 2 Tema Cegueira



Baixar 25,6 Kb.
Encontro11.09.2017
Tamanho25,6 Kb.

Artigo 2

Tema

Cegueira

Como Vemos a Cegueira? Algumas Respostas: Umas, Boas; Outras, Não



How Do We See Blindness? Some Answers: Some Good, Others Not
João Vicente Ganzarolli de Oliveira
Resumo
Concentrando-se em alguns filmes e em certa iniciativa de um museu brasileiro, este artigo traz comentários sobre o modo como a imagem do cego vem sendo assimilada no mundo da arte, bem como na sociedade em geral. Seu objetivo é contribuir para o esclarecimento de certos fatos, dentre eles este: a acessibilidade é assunto necessário e que diz respeito a todos.

Palavras-chave: Cegueira. Sociedade. Arte.



ABSTRACT
By concentrating on some films and on a certain initiative of a Brazilian museum, this article brings some observations about the way the blind persons image has been assimilated both in the world of art and in society as a whole. Its goal is to contribute to clarify some facts, this among them: accessibility is a necessary subject and it concerns everybody.

Keywords: Blindness. Society. Art.

Perder a visão é uma fatalidade; mas perder a esperança é o maior crime que se pode cometer contra a vida.

Sor Gabriel, personagem de A noite é o meu reino
Introdução

“Um filme precisa ser terminado, ainda que às cegas”, diz o protagonista cego de Los abrazos rotos (Abraços partidos, 2009). Será verdade? Pouco importa; não é esse o tema destas linhas e a cegueira não é o foco central naquele filme recente de Pedro Almodóvar. O ator Lluis Homar vê normalmente na vida real, mas desempenha com eficácia o papel do personagem cego Harry Cane. Isso, em si, já é motivo de destaque, pois nem sempre a deficiência é representada com a devida fidelidade nas telas do cinema. City lights (Luzes da cidade, 1931), estrelado e dirigido por Charles Chaplin e com Virginia Cherrill no papel da florista cega, é uma das maiores obras-primas da história do cinema. Muito menos conhecido, mas também uma obra-prima, é La nuit est mon royaume (A noite é meu reino, 1951), dirigido por Georges Lacombe. Um acidente traz a cegueira ao ferroviário Raymond Pinsard, interpretado por Jean Gabin, premiado na Bienal de Veneza daquele mesmo ano devido à sua atuação magistral. O apoio da família, de outros cegos e, principalmente, o de sua professora de braille, por quem se apaixona e é retribuído, dá novo sentido à vida de Raymond. Gabin levou a sério a tarefa de interpretar um cego: treinou durante meses, sob a orientação de especialistas. Estamos longe dos clichês, da demagogia, das caricaturas e da inverossimilhança que marcam alguns personagens cegos no cinema, tais como a protagonista de Dancer in the dark (Dançando no escuro), de Lars von Trier. Isso para não falar no oportunismo e no desrespeito, beirando o sadismo, que servem de diapasão ao documentário A pessoa é para o que nasce (2004), do brasileiro Roberto Berliner.



Profumo di donna (Perfume de mulher, 1975), do cineasta Dino Risi e com Vittorio Gassman no papel principal, inspirado no livro Il buio e il miele (A escuridão e o mel), de Giovanni Arpino (vencedor do prêmio Moretti d’Oro em 1969), é um filme excelente. Em essência, Profumo di donna difere muito do posterior Scent of a woman (Perfume de mulher, 1992), de Martin Brest, que teve sua fonte inspiradora no mesmo livro de Giovanni Arpino. O filme de Brest é comprometido pela inverossimilhança. O que pretendia Brest com a proposta de dar ao cego poderes que ele não é capaz de ter? Se a intenção era meramente fabulatória – e a arte tem esse poder (que até certo ponto é dever) de transfigurar a realidade –, o resultado foi negativo, pois foge da clave realista na qual a história é pautada; o cego “vidente” de Brest soa quase a um deus ex machina, já condenado por Aristóteles no teatro, o que indica a validade da mesma condenação para o cinema, arte representativa ele também.

Se Brest queria exaltar o cego perante a sociedade em geral, é provável que tenha obtido o resultado contrário. Em grande parte, o cego “paciniano” mostra-se admirável por ter poderes que não condizem com a cegueira e nem com a fisiologia humana: cegos na vida real não dirigem carros (menos ainda em disparada) e tampouco percebem cores mediante o olfato – o que, aliás, também é vetado ao olfato de quem vê. Das duas uma: ou a personagem exaltada não é cega de fato ou então se trata de uma noção errada de cegueira.1 Embora deixe muito a desejar, o desempenho de Al Pacino como cego rendeu-lhe um Oscar. Em contrapartida, o ótimo Profumo di donna, de Dino Risi, foi esquecido pela mídia. Tornou-se raro; atualmente, seu acesso restringe-se a meia dúzia de colecionadores ou iniciados. Isso apenas confirma um fenômeno tão grave quanto evidente: cada vez mais, os critérios de aferição da qualidade artística se veem sujeitos a fatores externos que nada têm a ver com a qualidade do que se apresenta como arte.

Mais: nas duas alternativas há pouco referidas no filme de Brest (o protagonista na verdade não é cego ou então se trata de um conceito falso de cegueira), o homem cego na vida real nada tem a ganhar, mas muito a perder. O filme traz a informação implícita de que o cego não merece louvores, a não ser que deixe de ser o que realmente é. Não obstante, a história universal está repleta de personagens cegos interessantes devido ao seu caráter e às suas conquistas pessoais.2 É plenamente possível fazer um filme bom sobre a vida dos cegos, mostrando as coisas tais como são. The miracle worker (O milagre de Anna Sullivan), de Arthur Penn (1962), é um filme primoroso, sob todos os ângulos. Conta a história real de Anna Sullivan e do seu empenho bem-sucedido para tirar Helen Keller da reclusão causada pela cegueira e pela surdez quase congênitas. Mais do que merecida foi a premiação dupla com o Oscar de 1963 para as atrizes Anne Bancroft e a então estreante Patty Duke. Tampouco há o que discordar do que disse a revista Time, na ocasião: “possivelmente será a mais comovente performance em dupla já gravada em filme”.

A deficiência define-se a partir de uma ausência. O deficiente carece de uma ou mais faculdades importantes; trata-se de uma carência que compromete as atividades do ser humano normal. Seria difícil encontrarmos uma sociedade que, ao menos em algum período da sua história, não discriminou os deficientes de alguma forma. Na Grécia Antiga existiram leis recomendando a sua eliminação. A deficiência revelava-se como uma das faces do não ser, categoria metafísica negativa combatida por Parmênides, Platão e Aristóteles, para citar apenas três gigantes do pensamento ocidental.

poucos anos, o Museu Nacional de Belas Artes da cidade do Rio de Janeiro começou a pôr em prática uma iniciativa louvável, inspirada no que já vem ocorrendo em diversos lugares do mundo: viabilizar o acesso dos deficientes à parte do seu acervo que se revela mais acessível a eles. O seminário Ver e sentir por meio do toque foi o marco zero de um projeto cujos benefícios são fundamentais para os deficientes e a própria sociedade em geral. Sendo um museu dedicado às artes visuais, é natural que a atenção se volte inicialmente para os cegos. É uma característica dos museus o acervo de caráter visual. E nisso nada há de arbitrário. Pelo menos 80% das nossas informações acerca do mundo chegam a nós por intermédio dos olhos; é inevitável que as artes sejam prioritariamente visuais.

A deficiência é um tema difícil. Seu estudo requer objetividade e determinação. A bibliografia relativa ao assunto é escassa e, muitas vezes, errada. O terreno é fértil para a demagogia e o oportunismo. Proliferam hoje em dia as ONGs e instituições diversas supostamente destinadas a defender os interesses dos deficientes. Contudo, muitas vezes os maiores beneficiados não são eles, mas, sim, os dirigentes e demais membros dessas instituições. Feito com verba pública, o filme referido de Berliner retrata bem esse contexto. Também é preciso ter cautela com a tirania dadaísta: apoiando-se no slogan falacioso segundo o qual “tudo é arte”, oportunistas diversos vêm impondo a aceitação de obras muitas vezes medíocres nas galerias, nos museus e na mídia em geral. Contraditório é que essas pessoas defendam a “liberdade de opinião”; em regra, recusam e atacam veementemente qualquer um que apresente opinião diferente da sua. Cabe impedir que a deficiência seja mais um trampolim para aumentar o prestígio e o poder desses mesmos oportunistas.

Veio a calhar, naquele seminário recente, a exposição da professora Valeria Conde Aljan, do Instituto Benjamin Constant. Discorreu com precisão acerca da necessidade de que a população seja instruída sobre o modo correto de lidar com os cegos no dia a dia: desde a forma apropriada de auxiliá-los a cruzar uma rua até o vocabulário relativo à cegueira, sua palestra foi muito instrutiva. Falou também da inutilidade (e, em muitos casos, da nocividade) do linguajar politicamente correto (“portador de deficiência”, “não andante” e assim por diante) que se criou para tratar da deficiência. É mais do que hora de deixarmos de discutir palavras; os cegos e os outros deficientes precisam da aceitação devida no corpo social, do apoio dos órgãos competentes, bem como de medidas de alcance jurídico que garantam os seus direitos em todos os níveis da sociedade.

A pesquisadora Beatriz Pavão demonstrou conhecimento de causa ao tratar do acesso dos cegos aos museus e das condições específicas que a situação exige. Em sintonia com Beatriz, o coordenador da Seção Educativa do Museu Nacional de Belas Artes, Rossano Antenuzzi, expôs, juntamente com sua equipe, as linhas gerais do projeto em tela. De fato, é preciso que haja uma seleção das obras a serem apreciadas pelos cegos. O tema concentra-se na escultura, uma vez que as cores da pintura não se revelam a outro sentido que não sejam os olhos. Certas pinturas poderão ser “traduzidas” por meio de relevos a serem tocados pelos visitantes cegos. Estátuas relativamente pequenas e de formas simples são as mais adequadas ao tato.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra, ensina a sabedoria popular. É um radicalismo negar sistematicamente ao cego a possibilidade de tocar as esculturas, conforme apontou a artista plástica Virginia Vendramini na sua palestra. Mas o extremo oposto também é nocivo, como ela mesma destacou: se todos os visitantes passarem a tocar as esculturas, muitas delas se desgastarão em um espaço curto de tempo. Encontrar o meio-termo adequado é um dos desafios que se apresentam aos museólogos e demais responsáveis por projetos dessa envergadura.

Esperemos que a iniciativa do Museu encontre o devido reconhecimento e respaldo por parte da sociedade, e que os benefícios aos cegos sejam estendidos aos outros deficientes. Naturalmente, isso precisará contar com a colaboração das artes não especificamente visuais. É preciso que os cinemas, as salas de concerto, os teatros e demais casas de espetáculos abram as suas portas ao deficiente. Claro está que isso inclui adaptação adequada dos projetos de arquitetura e engenharia civil, particularmente no caso dos paraplégicos; os deficientes mentais precisarão contar com acompanhantes especializados; na medida do possível, os surdos deverão ser assessorados por conhecedores da língua de sinais. Sabemos que Roma não foi feita em um dia só. O caminho é longo e árduo. Mas é preciso começar a percorrê-lo. Em vez de nos perguntarmos por que devemos tornar os filmes, as músicas, as esculturas e demais obras de arte acessíveis aos deficientes, é hora de insistir na pergunta oposta: por que não? O que estamos esperando? Mãos à obra!


NOTAS DE RODAPÉ
1 Falei desse mesmo problema anteriormente (cf. GANZAROLLI DE OLIVEIRA, 2000, p. 10; 2002, p. 156-161; 2007, p. 162-163).

2 Ver, por exemplo, o excelente livro do espanhol Jesús Montoso Martínez: Los ciegos en la historia. Madri: Once, 1992; e também o do francês Louis Ciccone: Les musiciens aveugles dans l’histoire. Paris: L’Harmattan, 2001.



REFERÊNCIAS

CICCONE, Louis. Les musiciens aveugles dans l’histoire. Paris: L’Harmattan, 2001.


MARTÍNEZ, J. M. Los ciegos en la historia. Madri: Once, 1992.
GANZAROLLI DE OLIVEIRA, João Vicente. Cécité: ni le préjugé ni le mythe. Le Valentin Haüy, Paris, 4. trim., n. 60, 2000.

_____. Do essencial invisível: arte e beleza entre os cegos. Rio de Janeiro: Revan/Faperj, 2002.



_____. Por que não eles? Arte entre os deficientes. São Paulo: Cidade Nova, 2007.


João Vicente Ganzarolli de Oliveira é professor da Escola de Belas-Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro.



©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal