Rosita, até morrer



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TEORIA DA LITERATURA



Rosita, até morrer




Chiguidela, 17 de Abril de 1961

Manuel do meu coração

Então como estás? Eu estou boa, obrigada. A minha mãe manda cumprimentos, ela tem uma doença nas costas, sofre mais de noite, é da idade. A tua filha também manda cumprimentos. Ela brinca, cresce, pergunta todos os dias onde está papá, onde é que ele está? Depois chora, não brinca. Quando chegar a altura de ir para a escola, ela não vai, porque o pai dela não liga, não escreveu o nome dela na administração, mas Deus é que sabe. A Sorita e a Matilida e outras mandam cumprimentos também, elas estão boas, obrigada. Elas fazem pouco de mim, eu sei, é assim quando uma mulher sofre uma desgraça, nasce uma filha e o homem não faz o “lobolo”. Eu não digo nada, Deus é que sabe. Eu encontrei Mamana Rita no bazar, ela veio por causa do curandeiro, ele está a tratar dela. Ela disse-me que a mulher com quem tu fugiste abandonou-te, um enfermeiro enganou-a. Agora estás a sofrer, não trabalhas, não comes, nem nada, não tens ninguém.

Eu não me esqueço: tu enganaste-me, dormiste comigo, eu era menina, encontraste o que querias, deixaste-me grávida, fugiste com outra mulher. Eu não me vou esquecer, mas já não estou zangada, nem nada. A minha mãe diz que é assim, os homens são malucos.

Eu não fui a escola, não tenho estudos, nem nada e foste tu que me ensinaste a escrever o meu nome.

Só sei fazer “machamba”, fazer comida para ti, lavar a tua roupa e gostar de ti. Também sei tratar da tua filha.

Uma mulher assimilada estica os cabelos, calça sapatos com um vestido bonito, e como ela fala português tu não a consegues enganar. Ela é que te engana. Deixa-te a chorar: a minha mãe diz: eu matava-a, eu matava-a! Eu digo: não a matava. Tu enganaste-me e ela enganou-te: foste tu que começaste.

Aqui em casa o cabrito não pariu cinco, nem pariu um com duas cabeças. Não há nenhum feiticeiro. Nem a inveja que as pessoas têm de mim faz nada.

Começou a chover. Eu fiz “machamba” grande de milho com feijão, com “mandoinha” e “mapila”. Houve um dia em que acordei contente, vendi uma saca de “mandoinha”, comprei um vestido bonito com “taralatana”, uns sapatos encarnados e um chapéu para a tua filha. O nome dela é Ermelinda, mas eu costumo chamar-lhe Linda, ou às vezes “Nyelite”, gostas?

Quando quiseres descansar, só descansar, conhecer a tua filha, comer ovos com galinha, com cabrito, quando aguentares, bebes “ucanhi” em casa das famílias cá da terra, tomas banho no rio, danças “xingombela” na casa de N’Dlamini, mais nada. Queres? Vais perguntar o que é que as pessoas daqui falam: Oh! O Manuel tem a nossa pele, mas agora é branco, comprou o ser branco no papel, esqueceu os avós dele que morreram, esqueceu a filha dele que nasceu, esqueceu a terra, esqueceu tudo. Eu digo que é mentira, Manuel não pode ter esquecido. As pessoas riem, dizem que eu não sei, as pessoas dizem que eu sou uma polícia também. Tu és? Vem dizer a verdade. Depois vais-te embora quando não gostares de ficar aqui a fazer “machamba”, ensinas as pessoas na escola da noite, as que tinhas na casa de Mussá. Quando partires, eu não vou agarrar-te, só vou chorar outra vez. Quando fores eu dou-te uma saca de “mandoinha” para levares no “machibomba”, podem ser quatro, ainda ficam muitos, eu sou pobre mas tenho boas mãos para trabalhar e também para dar. Tu vais vender os sacos, comer, receber o dinheiro sozinho. Quando quiseres vir, escreve, dás ao condutor da “machibomba” Oliveira para ele entregar na cantina do “Mohano”. Dizes que vais chegar no dia assim, assim. Eu mando a carroça com os “meudo” esperar-te. A minha boca não gosta de falar as coisas que o meu coração está a dizer, mas a minha cabeça fica maluca quando a minha boca não o diz: eu gosto muito de ti. Às vezes penso que tu foste ao curandeiro arranjar um remédio para eu gostar. Tu fazes-me sofrer, eu choro, zango-me, esqueço-me, volto a gostar muito de ti! Tu, é que não prestas: tu gostas de uma mulher assimilada, que te engana.

Sou eu, Rosa do teu coração que manda esta carta para o teu coração.

Chico Mandlate é quem está a escrever esta carta, também manda cumprimentos. O Chico não vai dizer a ninguém o que escreveu para ti.



Rosita


Até morrer

Lídia Cristina Alves Gomes



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