Romances reescritos sob uma perspectiva diferente e narrativas



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FOE, DE J.M.COETZEE: UMA PROPOSTA INTERTEXTUAL DE ROBINSON CRUSOÉ, DE DANIEL DEFOE

  1. Profa. Ms. Célia Guimarães Helene


(celia.helene@uol.com.br)

Profa. Ms. Lilian Cristina Corrêa

(liliancorrea@uol.com.br)

Centro de Comunicação e Letras

Universidade Presbiteriana Mackenzie
Romances reescritos sob uma perspectiva diferente e narrativas que pretendem 'preencher lacunas' de textos advindos de períodos anteriores são as formas mais comuns de intertextualidade na ficção contemporânea, especialmente em trabalhos de autores provenientes de países colonizados. É este diálogo entre visões diferentes em diferentes momentos históricos que pretendemos estudar, discutindo, entre outros assuntos, as dicotomias colonizador / colonizado, civilização / selvageria, dominação / submissão, centro / periferia e realidade / ficção, assim como podem ser observadas por meio de Foe, do escritor sul-africano J. M. Coetzee, que re-formula Robinson Crusoé, de Daniel Defoe.

Quais seriam os 'silêncios' que Foe pretende preencher? Para começar, há a ausência de uma voz feminina na obra de Defoe. Em seu romance, Coetzee imagina uma mulher-narradora, Susan Barton, cujas aventuras não parecem, de forma alguma, similares às de uma mulher daquela época, como pode ser visto em:


'(I should tell you that Captain Smith had proposed that I call Cruso my husband and declare we had been shipwrecked together, to make my path easier on board and when we should come ashore in England. If the story of Bahia and the mutineers got about, he said, it would not be easily understood what kind of woman I was. I laughed when he said this – what kind of woman was I, in truth? - but took his advice, and so was known as Mrs Cruso to all on board...)'(COETZEE, 1987, p. 42)
A própria narradora desconfia de sua habilidade em construir uma narrativa convincente – assim, ela escreve cartas para um escritor, Mr Foe, que poderia reformular os fatos. Além disso, ela questiona sua própria relevância naquela história, como se observa em:
I write my letters, I seal them, I drop them in the box (p. 42). One day when we are departed you will tip them out and glance through them. “Better had there been only Cruso and Friday,” you will murmur to yourself: “Better without the woman.” (COETZEE, 1987, pp. 71-2)

Esta voz, mesmo impossibilitada de mudar a ordem hierárquica na qual as personagens são apresentadas – Cruso, o senhor, Sexta-feira, o servo – questiona as atitudes do dominador europeu sobre seus domínios. Por exemplo, na obra de Daniel Defoe, Robinson Crusoé acredita que ao 'civilizar' Sexta-feira (dando-lhe roupas, ensinando-lhe inglês e convertendo-o ao Cristianismo – a 'verdadeira' religião), está lhe fazendo o bem. Em Coetzee, Susan Barton faz o que Aschcroft, Griffiths e Tiffin em The empire writes back (1991), chamam de “interrogating the historical assumptions on which that [hierarchical] order was based” (p. 33). Eis o que Susan diz:


(...) I tell myself I talk to Friday to educate him out of darkness and silence. But is that the truth? There are times when benevolence deserts me and I use words only as the shortest way to subject him to my will. At such times I understand why Cruso preferred not to disturb his muteness. I understand, that is to say, why a man will choose to be a slaveonwner. Do you think less of me for this confession? (COETZEE, 1987, pp. 60-1)


De fato, nesta leitura pós-colonial do romance de Defoe, Cruso ainda é o senhor e Sexta-feira, o servo – oprimido ao ponto de ter tido sua língua cortada – mas há uma mudança de foco. Em Foe, Cruso morre e, enquanto ainda está vivo, não fornece nenhum relato detalhado de sua vida na ilha – bem diferente do narrador de Robinson Crusoé, de Defoe, que é pródigo em dar detalhes minuciosos das formas que encontrou para sobreviver. Depois da morte de Cruso, em Foe, a narrativa se concentra nas vidas de Susan e Sexta-feira – que ficou sob responsabilidade dela na Inglaterra – e como eles conseguiram sobreviver lá, embora, como Samuel Durrant menciona (1999, pp. 430-63), o trabalho de Coetzee parece não tentar recuperar a voz do outro silenciado, pelo contrário, enfatiza este silêncio ao apresentar Sexta-feira sem língua, como se para mostrar que a barreira entre opressor e oprimido é do tipo impossível de transpor. Até mesmo Susan, que parece se importar com Sexta-feira não como servo, mas como filho, expressa seu preconceito quando diz: “What dismal fate it would be to go through life unkissed! Yet, if you remain in England, Friday, will that not become your fate? Where are you to meet a woman of your own people? We are not a nation rich in slaves.” (COETZEE, 1987, p. 80). Sexta-feira, como subalterno e em sua alteridade, é certamente definido pelo discurso dos outros:

Friday has no command of words and therefore no defence against being re-shaped day by day in conformity with the desires of others. I say he is a cannibal and he becomes a cannibal; I say he is a laundryman and he becomes a laundryman. What is the truth of Friday? You will respond: he is neither cannibal nor laundryman, these are mere names, they do not touch his essence, he is a substantial body, he is himself, Friday is Friday. But that is not so. No matter what he is to himself (is he anything to himself? - how can he tell us?), what he is to the world is what I make of him. (COETZEE, 1987, p. 121-2)




Segundo Silvia Albertazzi (2003), ninguém pode falar da perspectiva de Sexta-feira ou, diríamos, de seu lugar, porque nos dois romances, sempre seria sob a perspectiva de um branco. Em Foe, esta impossibilidade torna-se evidente uma vez que da mesma forma que Susan não se considera apta a contar a história porque não é escritora, Mr Foe (e Foe, aqui, iguala-se ao termo inimigo, em língua inglesa) não pode substituir as palavras de Sexta-feira por suas próprias palavras, dado o fato de que nenhuma palavra é dita por ele. Apesar da mudança na perspectiva, o romance de Coetzee mostra que alguns 'silêncios' devem permanecer assim, uma vez que Sexta-feira, embora mais desenvolvido agora, só consegue se comunicar por meio da linguagem corporal. Nas palavras de Susan, “the only tongue that can tell Friday's secret is the tongue he has lost.” (p. 67)

Quando tratamos do aspecto narrativo em Foe, J. M. Coetzee tenta recuperar um relato do passado, Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, de forma a ‘reformulá-lo’ ou ‘desafiá-lo’ e é nesse contexto que podemos tentar analisar o diálogo estabelecido entre sua narrativa e os aspectos presentes em narrativas pós-coloniais como as dicotomias ‘estória’ e ‘história’, ‘verdade’ e ‘exclusão’, ‘realidade’ e ficção’ – sendo claro o uso de um tipo pós-moderno de metaficção ou, como Linda Hutcheon (1998) define, uma ‘metaficção historiográfica’. Ao expor as formas pelas quais tal ficção é produzida, ela chama a atenção do leitor para o status do romance como um artefato e não como uma reprodução aparentemente fiel da realidade. Essa consciência pessoal da narrativa, novamente considerando o ponto de vista de Linda Hutcheon, expõe o fato de que a literatura não reflete a realidade de maneira inocente, mas cria ou denota uma realidade, tornando-a significativa (passim).

Neste ponto, talvez fosse pertinente apresentar a idéia das fronteiras obscuras entre a ficção e a verdade que surgem no decorrer do romance, como no momento em que Susan responde ao Capitão Smith, quando ele diz a ela que”‘(...) the booksellers will hire a man to set your story to rights, and put in a dash of colour too, here and there (...)’” (COETZEE, 1987, p. 40). E prossegue:
‘(...)I would not have any lies told, (…) I would rather be the author of my own story than have lies told about me, [...] If I cannot come forward, as author, and swear to the truth of my tale, what will be the worth of it? I might as well have dreamed it in a snug bed in Chichester.’(COETZEE, 1987, p. 40)
Mesmo sabendo que a verdade não é assim tão interessante e nem pode ser realmente considerada real e que precisa de um escritor imaginativo para aprimorá-la, Susan teme que Mr Foe esteja morto, o que talvez a levasse a escrever a história sozinha. Ela, então, pergunta a Sexta-feira:
‘But what shall I write? You know how dull our life was, in truth. We faced no perils, no ravenous beasts, not even serpents. Food was plentiful, the sun was mild. No pirates landed on our shores, no freebooters, no cannibals save yourself, if you can be called a cannibal.'(COETZEE, 1987, p. 81)

Quando Susan questiona Sexta-feira a esse respeito, na verdade, questiona a si mesma. Primeiro, por ter forjado certa parte de sua ‘estória’, visto que não participou inteiramente da saga de Cruso e Sexta-feira. Segundo porque seu interlocutor nunca poderá dar uma resposta ao seu questionamento pela simples razão de não poder se comunicar oralmente. Há um impasse estabelecido entre o ‘dever’ e o ‘poder’, entre o que deve ser mantido ‘real’ e o que pode ser transformado em ‘fictício’.

Em seu artigo sobre Daniel Defoe, parte de uma coleção chamada Stranger Shores (2001), Coetzee chama Robinson Crusoé de uma ‘história fingida' (p. 17), apontando o fato de que, em outro trabalho, Serious reflections during the life and surprising adventures of Robinson Crusoe: with his vision of the angelic world' (COETZEE, 2001, p. 17), o autor inglês faz com que seu narrador se defenda contra acusações de que sua história de vida havia sido inventada, que aquele era um simples romance e que ele nem ao menos era uma pessoa real. Como se estabelecesse uma conexão entre a ficção e a realidade, esse narrador insere no prefácio a idéia de que embora a narrativa seja alegórica, ela também é histórica, uma vez que, em suas palavras, “há um homem vivo e bem conhecido também [...] a quem toda ou a maior parte desta história mais diretamente se refere... e à [qual] empresto meu nome [Robinson Crusoé].” (COETZEE, 2001, p. 18)

Levando isso em consideração, podemos dizer que Foe certamente distancia-se de seu intertexto, uma vez que expõe seu status fictício enquanto, ainda de acordo com Coetzee no artigo anteriormente mencionado, Daniel Defoe é geralmente considerado um dos precursores do realismo e ‘o realismo literário, pelo menos de certo tipo, gosta de esconder sua natureza literária.' (COETZEE, 2001, p. 18)

É possível observar tal característica em Foe quando Susan não obtém resposta às suas súplicas, uma vez que a história não é escrita: de início, ela escreve para Mr Foe, com o intuito de informá-lo acerca dos fatos e também de sua história, mas quando eles finalmente se encontram, ela chega à conclusão de que ele não havia lido nenhuma de suas cartas e, além disso, a história que ele quer escrever não é sobre a ilha, mas sobre a vida dela. Susan questiona Mr Foe, dizendo que não era isso que lhe importava, que ela não queria sua história em um livro e que a ilha não era apenas um episódio. Mr Foe, por outro lado, responde ao questionamento de Susan do ponto de vista de um escritor:
‘We therefore have five parts in all: the loss of the daughter in Brazil; abandonment of the quest, and the adventure of the island; assumption of the quest by the daughter; and reunion of the daughter with her mother. It is thus that we make up a book: loss, then quest, then recovery; beginning, then middle, then end. As to novelty, this is lent by the island episode – which is properly the second part of the middle – and by the reversal in which the daughter takes up the quest abandoned by the mother.’(COETZEE, 1987, p. 117)

Nessa conexão, também podemos indicar passagens em que Susan e Sexta-feira são descritos como personagens fictícias na galeria de Mr Foe, ao lado de suas outras criações. Segundo Susan: “‘He [Foe] has turned his mind from us [...] as easily as if we were two of his grenadiers in Flanders, forgetting that while his grenadiers fall into na enchanted sleep whenever he absents himself, Friday and I continue to eat and drink and fret.’”(COETZEE, 1987, p. 66)

Mas, até que ponto isso não é verdade? Até que ponto eles não são somente personagens criadas por Mr Foe, funcionando como marionetes, uma vez que ele leva sua história em consideração, mas não lhe concede o significado que Susan e, conseqüentemente, Sexta-feira, esperavam – de fato, ele não dá à história um significado real, não apenas pelo fato de simplesmente não escrevê-la, mas também porque ele ‘insere’ outras personagens, tais como a suposta filha de Susan e sua babá, que acabam por transformar a narrativa de Susan em algo ainda mais complicado, ou ainda mais distante da realidade.

Quanto aos ‘silêncios’ da narrativa de Defoe que o romance de Coetzee pretendia preencher, pode-se dizer que alguns foram preenchidos, como, por exemplo, a presença de um narrador feminino, que reconta todas as aventuras de Cruso, o que parece inverter a ‘ordem das coisas’, uma vez que é uma mulher em um mundo de homens: Cruso, Sexta-feira e, posteriormente, Mr Foe, contando a história de um homem como se fosse a sua própria história.

Também é válido mencionar o enfoque em Sexta-Feira, indivíduo ‘sem língua’, totalmente contrário ao Sexta-Feira questionador de Robinson Crusoé, pois se não tem língua, não pode ‘dizer’ nada e, uma vez se tratando de uma criatura não-civilizada, ninguém pode levá-lo à sério. Além disso, vesti-lo como um homem civilizado foi a única forma de tê-lo, ao menos parcialmente, aceito pela sociedade, o que não significa, contudo, que seus hábitos ‘selvagens’ tenham sido alterados.

A questão primordial ainda recai sobre o fato de Sexta-feira ser realmente um selvagem, pois a verdade, segundo Elleke Boehmer (1995), é que representa o problema do colonizado em se fazer entender. Tal imagem é perfeitamente nítida quando Sexta-Feira utiliza-se das ferramentas do escritor, Mr Foe, e tenta escrever, produzindo apenas um símbolo: ‘Ө’, que pode ser interpretado como um conjunto vazio, uma boca vazia. Uma vez que não tinha nenhuma forma de acesso à comunicação civilizada, as formas de comunicação disponíveis a Sexta-feira são sempre silenciosas e repetitivas, reafirmando sua exclusão social, mas ao mesmo tempo, confirmando sua presença significativa no contexto narrativo, pois ao tentar se fazer entender, a personagem toma a iniciativa da representação de seu status, de seu aprisionamento e de sua condição como a ‘única pessoa’ capaz de fazer um relato real dos acontecimentos naquele contexto.

A impossibilidade de Sexta-feira de se definir deriva, certamente, do processo de silenciamento a que os povos colonizados foram submetidos por seus colonizadores, que fizeram tudo para assegurar-se de que sua própria visão prevalecesse e de que a imagem que criaram do “outro” fosse imposta a ele/ela. De acordo com R. Radhakrishnam em Disaporic mediations: between home and location (1996), essa situação resultou num senso de hibridismo – os sujeitos dominados não conseguem ver-se a si próprios com são mas como uma fusão (ou confusão) de como se percebem e de como são forçados a perceber-se por aqueles que os dominaram/subjugaram. Ainda conforme Radhakrishnam (1996, p. 159), para o subalterno, o hibridismo pós-colonial é “an expression of extreme pain and agonizing dislocations.”

Aqui pode-se certamente ver a ausência de língua em Sexta-feira e suas patéticas tentativas de exprimir-se como evidência da extrema dor que ele sofre para mostrar-se para si próprio e para os outros como um ser humano diferente da imagem a ele atribuída pelos outros. Em seu silêncio, ele não é capaz de esclarecer as dúvidas de Susan a respeito de quem ele realmente é. Diz ela quando imagina que ele teria sido capaz de comer uma criança morta:


“I told myself I did him wrong to think of him as a cannibal or worse, a devourer of the dead. But Cruso had planted the seed in my mind, and now I could not look on Friday’s lips without calling to mind what must once have passed them.” (COETZEE, 1987, p. 106).

Ainda na visão de Radhakrishnam (1996, p. 162), o hibridismo pós-colonial não possui identidade ou autenticidade. Não é, pois, de se estranhar que, no início de sua narrativa, Susan Barton compare Sexta-feira a um animal e fique intrigada diante de seu ato bastante humano de jogar pétalas de flor ao mar:


Hitherto I had given to Friday's life as little thought as I would have a dog's or any other dumb beast's – less, indeed, for I had a horror of his mutilated state which made me shut him from my mind, and flinch away when he came near me. This casting of petals was the first sign I had that a spirit or soul – call it what you will – stirred beneath that dull and unpleasing exterior. (COETZEE, 1987, p. 32)


No trecho acima Susan Barton revela o quanto a mutilação de Sexta-feira – a falta da língua – causa-lhe repulsa, repulsa essa que parece advir do fato de que essa mutilação física simboliza a mutilação psicológica e cultural a que os chamados selvagens foram submetidos:

But now I began to look on him with the horror we reserve for the mutilated. It was no comfort that his mutilation was secret, closed behind his lips, that outwardly he was like any Negro. Indeed, it was the very secret of his loss that caused me to shrink from him. (COETZEE, 1987, p. 24)



Essa mutilação imposta aos colonizados conduz à idéia da falta de bases científicas para a superioridade de algumas raças em relação a outras – que aparece no romance de Coetzee com “the mystery of Friday’s submission.” Como diz Susan para ele:
'And then there is the mystery of your submission. Why, during all those years alone with Cruso, did you submit to his rule, when you might easily have slain him, or blinded him and made him into your slave in turn? Is there something in the condition of slavehood that invades the heart and makes a slave a slave for life, as the whiff of ink clings forever to a schoolmaster?'” (COETZEE, 1987, p. 85)
Como defende Radhakrishnan, “to be a postcolonial is to live in a state of alienation […] from one’s true being, history and heritage.” (1996, p.166) Isso fica claro quando Susan se interroga por que alguém (os escravizadores? o próprio Cruso?) cometera a violência de cortar a língua de Sexta-feira: “Perhaps they wanted to prevent him from ever telling his story: who he was, where his home lay, how it came about that he was taken. Perhaps they cut out the tongue of every cannibal they took, as a punishment. How will we ever know the truth?” (COETZEE, 1987, p. 23). Com certeza, é violentamente injusto que ele devesse ficar para sempre incapaz de definir a si próprio e impor sua identidade: “’Where is the justice in it? First a slave and now a castaway too. Robbed of his childhood and consigned to a life of silence. Was Providence sleeping?’” (COETZEE, 1987, p. 23)

Citando Spivak, Radhakrishnan pergunta-se se o subalterno “will ever arrive at its true identity, or [if] its narrative [is] fated to eternal deferral” (1996, p. 167). Esse aspecto é enfatizado por Coetzee em Foe uma vez que a história de Sexta-Feira é sempre adiada. Fica implícito no romance que não foi contada de maneira satisfatória por Defoe em Robinson Crusoé – senão por que seria necessário contá-la outra vez, de outro ângulo? Por outro lado, Susan Barton também não é capaz de contá-la e Mr Foe, o escritor contratado por ela para transformar sua história numa narrativa ficcional, além de querer mudá-la, acaba por não realizar o trabalho. Na verdade, em Foe, há uma mistura de processos narrativos (diálogo, memórias, cartas, diário, narração), mas o “livro” nunca é escrito, uma vez que, embora Susan conte sua história para Foe e, portanto para o leitor, a versão “final” não se materializa. É aqui que a crítica de Coetzee à visão do colonizador a respeito do colonizado torna-se aparente – não pode existir um relato definitivo. Robinson Crusoé não é a versão final uma vez que Foe o está desconstruindo e em certa medida subvertendo. Da mesma forma, Foe também não é uma versão definitiva já que a história de Susan não chega a ser escrita. Como diz Susan a respeito de Mr Foe:

might the truth not be (...) that he had laboured all these months to move a rock so heavy no man alive could budge it; that the pages I saw issuing from his pen were not idle tales of courtesans and grenadiers as I supposed, but the same story over and over, in version after version, stillborn every time: the story of the island, as lifeless from his hand as from mine? (COETZEE, 1987, p. 151)

Ainda, quando o narrador da última, e um tanto poética, parte do romance encontra os papéis de Foe, ele lê: “‘Dear Mr Foe, At last I could row no further’” (COETZEE, 1987, p. 154), que traz o leitor de volta ao início da narrativa de Susan e também de volta à questão inicial: quais lacunas deixadas por Defoe foram realmente preenchidas por Coetzee em sua narrativa.

Há, ainda, outros ‘silêncios’ criados nessa tentativa de remodelagem, como a morte de Cruso e a conseqüente inserção de uma nova realidade no contexto de sua história, uma vez que Coetzee inicia seu romance com a narrativa de Susan Barton e de como ela chegou à ilha de Cruso e Sexta-feira. Ali, ela toma contato com as duas personagens-símbolo do romance de Defoe e passa a construir a sua própria visão daquela realidade, desconstruindo a idéia de seu intertexto. Susan descreve um Cruso confuso e contrário a mudanças, uma criatura de quem chega a sentir pena, ao passo em que descreve um Sexta-feira forte e presente, mas ao mesmo tempo incapaz de auto-proteção, cabendo a ela, Susan, tomar a iniciativa de voltar à realidade, à civilização. Nesse contexto é que podemos observar todas as relações de desconstrução estabelecidas por Coetzee em sua narrativa e buscar a compreensão de seus significados.

Por fim, talvez o mais significativo dos silêncios implícitos em Foe seja o fato de que a narrativa a que se refere nunca foi escrita, o que pode representar o aparente interesse de Coetzee por situações em que a distinção entre o que é ‘certo’ e ‘errado’, quando cristalina, perde seu sentido. Apesar de todos esses ‘silêncios’, Foe certamente apresenta assuntos que são relevantes à postura pós-colonial: a re-interpretação do passado, representações ideológicas do colonizado e a re-criação da realidade por intermédio da linguagem.




REFERÊNCIAS

ALBERTAZZI, Silvia. Postmoderno? Postcoloniale? La grande narrativa.



www.fucine.com/archivo/fm04/albertazzi-4.htm, acesso em 13/05/2003.
ASHSCROFT, B. GRIFFITHS, G. And TIFFIN, H. The empire writes back. London and New York: Routledge, 1991.
BOEHMER, Elleke. Colonial and postcolonial literature. New York: Oxford University Press, 1995.
COETZEE, J. M. Foe. Harmondsworth: Penguin, 1987.
_____________ . Stranger shores: literary essays 1986-1999. Harmondsworth: Penguin, 2001.
DEFOE, Daniel. Robinson Crusoe. Toronto: Dover Publications, 1987.
DURRANT, Samuel. Bearing witness to apartheid: J. M. Coetzee's inconsolable works of mourning. In: Contemporary Literature Journal 40:3. Madison: University of Wisconsin Press, 1999.
FRASER, Robert. Theocolonialism: persons, tenses and moods. In: Lifting the sentence: a poetics of postcolonial fiction. Manchester and New York: Manchester University Press, 2000.
RADHAHRISHNAN, R. Postcoloniality and the boundaries of identity. In: Diasporic Mediations: between home and location. Minneapolis and London: University of Minnesota Press, 1996.



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