Rixas entre os imigrantes italianos e alemães na colônia blumenau escrito por: Andrey José Taffner Fraga1



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RIXAS ENTRE OS IMIGRANTES ITALIANOS E ALEMÃES NA COLÔNIA BLUMENAU

Escrito por: Andrey José Taffner Fraga1

Com a chegada do Dr. Blumenau e as primeiras famílias de imigrantes alemães teve início o desenvolvimento do médio vale do Itajaí. Vinte e cinco anos mais tarde chegavam também os italianos1 com sonhos de enriquecer no Brasil, ocasionando um grande choque cultural com os alemães.


PEQUENAS RIVALIDADES HERDADAS DA EUROPA
Conflitos entre alemães e italianos têm registros de longa data na região Trentina. Essa região é desde a época do império Romano um corredor de passagem entre as terras germânicas e a península itálica, nela as populações alemãs e italianas convivem através dos séculos, porém, nem sempre de maneira pacífica.

Na época em que grande parte da população trentina emigrou para o Brasil (1875) a região de Tirol do Sul (onde hoje se localiza a região italiana Trentino – Alto Ádige) pertencia ao império Austro-Húngaro. Durante a dominação desse império, várias medidas foram tomadas na tentativa de germanizar a parte italiana da população, mas sem lograr êxito2. Tal fato provocou ressentimentos por parte desses italianos, e tais ressentimentos podem ter sido transportados para a incipiente colônia.


NA COLÔNIA BLUMENAU
A entrada dos imigrantes italianos foi um grande negócio para a Colônia Blumenau, pois proporcionou novos braços para a agricultura. Conforme interessante revelação do filólogo José Curi, o dialeto italiano (o talian) falado em Santa Catarina, não possui a palavra ócio nem a palavra férias (ozio e vacanze em italiano clássico). Através disso, podemos ver quão laboriosa era essa gente3. Outro motivo de satisfação para os alemães, foi o fato de as terras destinadas aos italianos serem periféricas, assim, essa população serviria de escudo às comunidades alemãs centrais contra ataques de índios e animais selvagens4.

Alguns italianos, porém, trouxeram também dores de cabeça ao Dr. Blumenau. Vejamos o que escreve José Ferreira da Silva, em seu livro “A História de Blumenau”:


Colonos de índole completamente diferente da dos alemães, com que o Dr. Blumenau vinha lidando desde a fundação da Colônia, tiroleses e italianos, principalmente estes, deram-lhe incômodos e aborrecimentos inúmeros. Era gente mais fogosa, menos paciente, mais exigente, apesar de suas condições de existência, na Europa, serem, talvez bem piores que a dos alemães 5
O próprio Dr. Blumenau em cartas ao presidente da então província, costumava generalizar chamando a imigração italiana de malfadada imigração, dizendo que os italianos e trentinos não passavam de turistas e pensionistas do Estado6.

Tudo isso revela um pouco do grande choque que ocorreu entre as duas culturas. Trataremos agora de dois campos distintos, de vital importância para a Colônia, onde também foram constatados desentendimentos entre os italianos e alemães, a questão religiosa e a questão econômica.


QUESTÃO RELIGIOSA
Os pioneiros alemães que se estabeleceram na Colônia de Blumenau eram de credo luterano. Apesar da relativa paz e tranqüilidade reinante, as autoridades imperiais viam com maus olhos a predominância do elemento germânico no sul da nação7 principalmente pelo fato de o Brasil ter o catolicismo como religião oficial. A partir de 1875, a entrada em massa de italianos (quase todos católicos) no país, e também na Colônia Blumenau, acalmou os ânimos das autoridades. Porém, como não poderia deixar de ser, o choque entre as duas religiões aconteceu, causando sérios problemas que poderiam ter sido um entrave ao bom desenvolvimento da região. Antes mesmo da chegada dos italianos, o Pe. Alberto Francisco Gattone, a quem estava confiada a assistência religiosa dos católicos da Colônia Blumenau, entrou em conflito com o fundador Dr. Blumenau, por tentar se prevalecer devido ao fato de estar defendendo a religião oficial do império, como podemos ver nesse fragmento de carta do Dr. Blumenau ao Presidente da Província:
O Padre Gattone, em cada novo Exmo. Sr. Presidente, procura suscitar desfavoravelmente apreensões contra mim e contra o Pastor Hesse (Pastor da comunidade luterana da Colônia de Blumenau) e desconceituar-nos a todos quando não dispostos a reconhecer no clero o primeiro poder do Estado e curvar-se diante dele e suas ultramontanas e Jesuítas pretensões. Com a chegada do Padre Gattone, Exmo. Sr., acabaram nesse rio a paz e verdadeiramente cristã harmonia, que até então havia reinado entre católicos e evangélicos, ficando substituídas pela intriga, a desconfiança e discórdia até no seio das famílias.8
Toda essa atividade por parte do Pe. Gattone (que era abominada pelo Dr. Blumenau) deve-se não inteiramente por arrogância, mas também pelo fato de o reverendo estar preocupado com o “quisto religioso” que então se formava no sul do Brasil, que de acordo com seu ponto de vista, poderia “perverter” os católicos moradores da colônia.

No ano de 1876, se estabeleceu na colônia o Revdmo. Pe. José Maria Jacobs, natural da Alemanha. De acordo com registros, era um homem de caráter altivo, excessivamente áspero, às vezes rude, mas que era também paternal e generoso9. Sua atividade foi intensa, afinal, não era nada fácil dar assistência religiosa aos católicos espalhados por toda a colônia, tendo que atravessar picadas quase inacessíveis, correndo todos os riscos que a selva oferece. Parece, entretanto, que alguns italianos e trentinos não tinham muita simpatia pelo padre alemão, preferiam ter um padre italiano. É o que revela este trecho de carta de um imigrante, publicada no livro de Aléssio Berri, “A Igreja na Colonização Italiana do Médio Vale do Itajaí”, originalmente contida no livro de Renzo Grosselli “Vincere o Morire nelle Foreste Brasiliane”:


A nossa maior desgraça é não termos um sacerdote de nossa nação, italiano. O nosso reverendo pároco de Blumenau, visita regularmente a cada três meses as nossas valadas do Cedro e Rodeio, e se calcula que isto lhe renda além de mil florins ao ano; mas o que adianta para nós se não podemos tê-lo nos últimos dias da vida e no momento da morte? (...) O nosso atual pároco José Maria Jacobs é bom, a muitos tem feito grandes favores, é um homem de boa impressão, mas todos os seus paroquianos estariam contentes se a Santa Sé o nomeasse Arcebispo de Paris, na França. Que honra para nós, se o nosso atual pároco se tornasse Arcebispo de Paris!10
No ano de 1887 o Pe. Jacobs sentiu que sua saúde não era mais a mesma. Em 1892, fez a entrega da enorme paróquia de Blumenau aos padres Franciscanos. Pretendia retornar aquele mesmo ano para a Alemanha, para tratar da saúde e rever sua terra natal, entretanto, faleceu no Rio de Janeiro antes de completar a viagem.
Os padres Franciscanos que adotaram a cura das almas da paróquia blumenauense não escaparam das intrigas, porque esses também eram de origem alemã. Para ilustrar os problemas enfrentados pelos Franciscanos, transcreveremos trechos de um relatório do Cônsul Italiano em Florianópolis e, em seguida, a resposta ao mesmo dada pelo Frei Luciano Korte:
Trecho do relatório enviado a Roma pelo Régio Cônsul Italiano em Florianópolis:
Como os Jesuítas de Nova Trento, assim também os franciscanos alemães em Rodeio e em toda a região, desde Guaricanas até Rio dos Cedros, gozam de uma autoridade extraordinária, inconteste, medieval. Apesar do prestígio da religião, da popularidade do hábito da santidade de vida posso afirmar que eles são mais respeitados temidos do que amados de nossos co-nacionais. Eles próprios (os Franciscanos) são dominados por preconceitos de raça, mais virulentos com pessoas de origem plebéia do que geralmente são, não estimam nem amam os italianos, falam sua língua como o comerciante se esforça por conhecer a língua do cliente, mas ignoram os caminhos do coração, e nada tendo de comum com eles a não ser o vínculo religioso, são facilmente induzidos a tratá-los sem atenção alguma nos demais assuntos11
Trecho da carta do Frei Luciano Korte ao Cônsul:
“Por outro lado, se V. Excia. confirma que os Franciscanos alemães gozam de uma autoridade extraordinária, quase medieval, aceitamos isso mais como louvor, embora haja ali algum exagero. Antes, tenho a impressão que todo aquele que busca o verdadeiro bem de uma população, não deveria sentir-se feliz ante o pouco respeito, ou até o desprezo, de que hoje são objeto tantas autoridades; e isso em desproveito dos próprios súditos. (...) Se V. Excia. Estivesse aqui presente, há poucos dias, quando da partida de um sacerdote de Rodeio, por certo, vendo os protestos e as lágrimas dos colonos, poderia melhor aquilatar até onde vai seu afeto pelos padres.

O que V. Excia. Escreve: ‘além disso, os preconceitos de que estão imbutidos os Franciscanos alemães’, quero aplicar a V. Excia. Mesmo, pois os relatórios do Bolletino, a mim parecem, e a quem quer que os ouça, mesmo italiano, também, exalam forte antipatia pelos alemães. Posso assegurar a V. Excia que, como Sacerdotes e Franciscanos, estamos acima dos preconceitos de raça, abandonamos para sempre, pátria, pais, parentes e amigos, como também as comodidades de um país civilizado, com a única intenção de ajudar as populações do Brasil, sem perguntar se são alemães, italianos ou de qualquer outra nação, já que temos, também, o cuidado de colonos de outras nações. Terei eu culpa por me encontrar no meio de italianos (aliás, a maioria é do Tirol austríaco)? Vendo que estas colônias foram abandonadas há quase vinte anos, e depois de repetidos pedidos dos colonos à pátria, encontrou um sacerdote italiano para essa gente pobre, resolvemos estabelecer-nos aqui, apesar de a condição em outros lugares serem talvez melhores. Não quero expor os sacrifícios extraordinários que nos custou a construção da Igreja, etc... Os milhares de Marcos alemães, em dinheiro e objetos gastos em benefícios de ‘seus co-nacionais’. Estes sacrifícios lhe parecem talvez, preconceitos de raça?12


O conteúdo dos trechos aqui reproduzidos mostra da forma mais clara as rixas existentes entre os alemães e os italianos, estendendo-se até mesmo no campo espiritual. Antes de encerrar esse pequeno capítulo das brigas religiosas no vale do Itajaí, cabe ressaltar que grande parte dos colonos italianos sentia-se feliz e gratificada com o árduo trabalho que os padres alemães realizavam, prova disso é que o Pe. Jacobs, quando esteve foragido13, encontrou abrigo na casa de um colono italiano de Ascurra, o senhor João Buzzi14. Apenas uma parcela, a maioria imbutida do espírito de “italianidade”15, desenvolvido, no médio vale do Itajaí, principalmente pelo Sr. Emembergo Pellizzetti (o estudo dessa questão daria um novo artigo) é que protestavam veementemente contra os Sacerdotes alemães, exigindo que seus padres fossem compatriotas.
QUESTÃO ECONÔMICA
Os italianos, conforme exposto, chegaram vinte e cinco anos depois dos alemães e foram instalados em terras periféricas e montanhosas, dificultando a agricultura. Os imigrantes germânicos já tinham uma pequena rede de serviços montada na sede da colônia e um pequeno, mas crescente comércio. Deve ser considerado também o fato de os imigrantes italianos serem na maioria católicos e, os padres católicos, ao contrário dos pastores protestantes, não incentivarem a indústria e o desenvolvimento comercial, pregando votos de simplicidade e obediência a Deus. 16

Apesar de todo esse contraste, os italianos cultivaram a terra e produziram seus produtos agrícolas, dentre os quais o tabaco. Esses produtos eram negociados em casas de comércio, a maior parte com a firma Gustav Salinger & Cia., de Blumenau. Tanto a venda, como em muitos casos o frete dos produtos, eram feitos pelos alemães, que ditavam preços e normas. Com o passar do tempo, o imigrante italiano começou a perceber que essas firmas “atravessadoras” diminuíam muito o seu lucro.

Uma das alternativas que os italianos encontraram para se libertarem do julgo comercial de Blumenau foi a formação de cooperativas. O objetivo das mesmas era unir os colonos e vender os produtos diretamente ao comprador, seja no Brasil ou no exterior, dando um maior lucro ao agricultor. Essas cooperativas foram desenvolvidas em quase todas as comunidades italianas de Blumenau. Ampliaremos um pouco nossos estudos sobre as cooperativas que existiram em Rio dos Cedros (tema fartamente abordado pelo escritor Aléssio Berri).

A primeira cooperativa criada em terras riocedrenses foi a “Società del Tabaco”, teve, porém, vida curta, realizando uma única venda, que por não alcançar os objetivos almejados deixou de funcionar.

Uma nova tentativa surgiu, e foi criada a “Società di Mutuo Soccorso”. Os colonos se encheram de animo novamente, mas o trabalho desinteressado da diretoria aliado ao medo que o plantador tinha de novos prejuízos fez com que essa tivesse vida mais efêmera que a outra.

Apesar da idéia de se organizar em cooperativas já parecer liquidada, em 1899, outro grupo de colonos abriu uma loja de diversos artigos de consumo. O empreendimento conseguiu pequenos, mas satisfatórios resultados. Logo perceberam que deveriam tentar mais uma vez exportar tabaco, para conseguirem a sua, por assim dizer, “liberdade financeira”. Andrea Largura, homem de visão, viajou sozinho, à custa da recém formada sociedade, para a Alemanha, na tentativa de conseguir compradores. Por sua condição de simples colono, sofreu graves humilhações por parte dos ricos comerciantes. Sem conseguir encontrar o cônsul italiano, arrumou um honesto intérprete, para se comunicar com os negociantes alemães. Desta vez, tomado de nova postura, exigiu que fosse pago um preço melhor pelo seu produto e chegou a chamar os negociantes de “ladrões e embrulhadores”. Um pouco surpresos com essa súbita mudança, os comerciantes pediram que ele deixasse amostras do produto e desse tempo para cogitações.

Depois de dezoito dias, Andrea Largura voltou para o Brasil, chegando a Desterro (atual Florianópolis), manteve contatos com o cônsul italiano. Esse, admirado com a coragem do colono, prometeu ajudar a iniciante cooperativa. Chegando a Rio dos Cedros, Sr. Largura encontrou uma carta da Alemanha a sua espera. As amostras que ele tinha deixado haviam sido vendidas satisfatoriamente, sendo que junto da carta chegava também o pagamento pela venda. Com o dinheiro, deu para custear toda a viagem e ainda sobrou para os sócios o equivalente ao que eles teriam recebido se tivessem vendido seus produtos na colônia.

Desse modo, surgia a “Società del Cedro”, que oito meses depois, contando com a ajuda do cônsul italiano e do agrônomo Giovanni Rossi, já estava vendendo para Roma, e mais tarde, para Santos e Rio de Janeiro, sendo que seu produto era considerado de alta qualidade.

Em 1902 a sociedade inaugurou novo prédio, onde além dos balcões de negócio, havia espaço para lazer, sendo que logo se transformou no centro de encontro da comunidade de Rio dos Cedros. Além do novo prédio, a sociedade fazia também a aquisição de terras e imóveis, tudo para aumentar o capital e se fortalecer ainda mais.

Os comerciantes da sede de Blumenau logo perceberam o rombo financeiro causado em suas finanças pela nova cooperativa. Organizados como eram, trataram de minar esse crescimento17.

Cabe aqui ressaltar que os alemães que imigraram para Blumenau eram mais instruídos e entre eles haviam profissionais liberais, já com uma mentalidade comercial mais aguçada18. Em contrapartida, a maioria dos imigrantes italianos chegou com um baixo nível escolar, sendo que grande parte não passavam de simples camponeses. Nem todos, portanto, demonstravam propensão para participar dessas sociedades comerciais19. Cientes disso, os comerciantes alemães começaram lentamente a desmontar os pilares de sustentação da sociedade. Ofereciam regalias especiais aos agricultores para que vendessem seus produtos para eles ao invés de negociarem na cooperativa.

O imigrante italiano e trentino que aportou em Blumenau, como já foi dito, trouxe consigo quase nenhum espírito capitalista, não entendia que, apesar de não ter sempre os melhores lucros, era importante manter-se fiel à sociedade, para alcançar um maior desenvolvimento econômico. Muitos recolhiam sua parte no lucro da cooperativa e compravam terras para os filhos, sem se importarem em quitar as dívidas com a sociedade. Outros aceitavam as propostas do engajado comerciante alemão e deixavam a cooperativa a ver navios.

Esses graves problemas, e ainda com o grave declínio de vendas ao exterior, provocado pela primeira grande guerra, fizeram com que a sociedade fosse ruindo, até sua completa liquidação em 1951.

Para encerrar essa parte da questão econômica, é importante ressaltar um pequeno trecho do livro “Imigrantes Italianos, Criadores de Riquezas”, de Aléssio Berri, que resume a situação dos italianos, em detrimento aos alemães, no comercio e indústria:


Mais ou menos em 1950, a situação sócio-econômica das comunidades italianas pouco se diferenciavam da dos municípios vizinhos, onde prevalecia o elemento alemão, como Timbó, Indaial e Ibirama, mas a partir da década de 60, estas passaram por um desenvolvimento industrial cada vez mais acentuado com a implantação de novos estabelecimentos fabris ou com a ampliação dos já existentes. (...) Pode-se dizer que, apesar da fraca expansão industrial, verificou-se certa modernidade em certos setores da economia, cabendo ao italiano, superioridade no cultivo do arroz e do tabaco. Contudo o elemento de origem alemã sempre demonstrou supremacia no setor industrial, não pela inteligência, mas pela persistência no trabalho e qualidade do produto. O italiano se prende à agricultura, onde se sente bem e, dificilmente, se une em sociedade com outra pessoa, o que não acontece com os alemães que preferem abrir o capital de suas empresas, de modo incrementá-las ao máximo de seu potencial produtivo, dentro de padrões de alta qualidade, o que lhes facilita a conquista de mercados internos e externos.20

CONSIDERAÇÕES FINAIS


A tensão entre a etnia alemã e a italiana esteve presente nos primeiros anos da colônia de Blumenau, como evidência o conteúdo aqui exposto. Há de se considerar, porém, que essas intrigas não foram sempre constantes, o próprio Dr. Blumenau, que em cartas havia chamado a imigração italiana de “malfadada imigração”, admite por fim que “os colonos e imigrantes tiroleses constituem, depois de ter retirado uma porção de vadios e maus sujeitos e serem domados por acertadas medidas de rigor, outros tais que restaram, na maioria, um valioso contingente da nossa população, sendo contentes, ordeiros, laboriosos e econômicos, e desejando a imigração de mais parentes, amigos e patrícios seus” 21

José Ferreira da Silva também escreve, sobre os imigrantes italianos, que “Era, contudo, gente ativa e trabalhadora. Passadas aquelas naturais contingências, os novos imigrantes adaptaram-se às condições de vida que encontraram, integrando-se, perfeitamente, na comunidade cooperando, de modo muito expressivo, para o seu desenvolvimento”. 22


Com o passar do tempo as duas comunidades começaram a se integrar, criando um espírito nacionalista brasileiro, como mostra o trecho a seguir:
O relacionamento entre alemães e italianos foi sempre de animosidades e rixas, especialmente nos salões de bailes, festas, casamentos, etc. Os namoros entre as duas partes eram cortados de vez com antecipação. Exceções são raras até pouco depois da Segunda Grande Guerra, que uniu bastante os dois povos. Os alemães sempre desprezaram os italianos ‘magna-polenta’ (comedores de polenta) e os italianos por sua vez apelidavam os alemães de ‘magna-prot’ (comedores de pão).

O integralismo de Plínio Salgado fomentou a união dos dois povos, através de desfiles e passeatas de uniforme. Se não, por que escolas, igrejas e cemitérios separados? Os comerciantes eram apenas amigos quando se tratava de vender e negociar suas mercadorias.23


Por outro lado, fatos mais agressivos viriam acelerar a integração desses dois povos. Com a segunda guerra em curso, foi decretada por Getúlio Vargas a política de nacionalização, que pretendia “tornar brasileiros” os descendentes de estrangeiros residentes no Brasil. O Vale do Itajaí, por ter sua população quase inteiramente formada por descendentes de alemães e italianos (países que lutaram contra o Brasil e os aliados na guerra), foi vítima de constante agressividade por parte do exército nacional, que perseguia veementemente qualquer um que não falasse o português. Dessa forma, os idiomas herdados da terra natal, os costumes e posteriormente até o sotaque foram sendo deixados de lado24. Os filhos daquela geração adquiriram rapidamente os hábitos brasileiros, e muitas atividades culturais foram abandonadas, sendo resgatadas apenas nos últimos anos25. Com a extinção progressiva das duas culturas, as rixas também foram sendo esquecidas.
Esse artigo buscou abordar alguns pontos do amplo assunto que é o choque cultural ocorrido nos tempos da colonização. Muitas áreas ainda esperam ser exploradas, sendo que muitos trabalhos interessantes ainda podem ser realizados.
Notas
1 É bom lembrar que existiam dois tipos de imigrantes de cultura italiana (por assim dizer): os chamados reinóis, que vinham da recém unificada Itália, e os trentinos, que eram culturalmente italianos, mas seu território pertencia ao sul do império Austro-Húngaro.
2 BERRI, Aléssio. A Igreja na Colonização Italiana No Médio Vale do Itajaí. Blumenau. Fundação “Casa Dr. Blumenau”, 1988, p. 11.
3 CURI, José. Os Italianos na Ilha de Santa Catarina. Blumenau em Cadernos. Tomo XLIV, nos 1/2, Jan/Fev, 2003, p. 32-33.
4 BERRI, Aléssio. A Igreja na Colonização Italiana No Médio Vale do Itajaí. Blumenau. Fundação “Casa Dr. Blumenau”, 1988, p. 37-38.
5 SILVA, José Ferreira da. História de Blumenau. Blumenau. Fundação “Casa Dr. Blumenau”, 1988, p. 98.
6 BERRI, Aléssio. Imigrantes Italianos, Criadores de Riquezas. Blumenau. Fundação “Casa Dr. Blumenau”, 1993, p. 34.
7 OTTO, Claricia. Catolicidades e Italianidades. Florianópolis. Ed. Insular, 2006, p. 45.
8 BUZZI, Amauri Alberto e FINARDI, José E.. A Colonização Italiana de Ascurra. Blumenau. Ed. Letra Viva, 1995, p. 19.
9 BUZZI, Amauri Alberto e FINARDI, José E.. A Colonização Italiana de Ascurra. Blumenau. Ed. Letra Viva, 1995, p. 210.
10 BERRI, Aléssio. A Igreja na Colonização Italiana No Médio Vale do Itajaí. Blumenau. Fundação “Casa Dr. Blumenau”, 1988, p. 65.
11 BUZZI, Amauri Alberto e FINARDI, José E.. A Colonização Italiana de Ascurra. Blumenau. Ed. Letra Viva, 1995, p. 232.
12 BUZZI, Amauri Alberto e FINARDI, José E.. A Colonização Italiana de Ascurra. Blumenau. Ed. Letra Viva, 1995, p. 235-236.
13 Devido a uma confusão (ao que tudo indica propositalmente armada), Pe. Jacobs foi acusado, em 1892, de ter celebrado uma cerimônia religiosa de casamento, antes que esse tivesse sido devidamente registrado no cartório civil. Tal fato era proibido de acordo com as novas leis da recém instaurada República, o que levou o Juiz de Blumenau, Manoel Cavalcanti de Arruda Câmara, a decretar a prisão do padre, que poderia ser convertida em pagamento de multa. Como o Pe. Jacobs não aceitou o veredicto, fugiu, procurando abrigo na casa da família Buzzi, em Ascurra.
14 SCHÄTTE, Pe. Estanislau e KOCH, Pe. Eloy Dorvalino (tradutor). Pe. José Maria Jokobs (final). Blumenau em Cadernos. Tomo XLVIII, Nos 1/2, Jan/Fev, 2007, p. 27.
15 Pode-se definir italianidade como um movimento encabeçado por líderes que queriam desenvolver sentimentos de amor a pátria italiana (recém unificada) nos imigrantes. Esse movimento surgiu, principalmente, porque os italianos no exterior passaram a representar uma possibilidade de lucro e prestígio para o recém criado governo italiano, o que levou esse governo, através de seus agentes, a criar sentimentos nacionalistas nos colonos italianos. Tal fato, porém, acabou gerando conflitos sérios com os representantes religiosos que davam assistência às comunidades de imigrantes, e que, portanto, eram uma espécie de autoridade local. Esse assunto foi tratado por Claricia Otto em Os Porta Vozes da Italianidade. Catolicidades e Italianidades. Florianópolis. Ed. Insular, 2006.
16 BERRI, Aléssio. A Igreja na Colonização Italiana No Médio Vale do Itajaí. Blumenau. Fundação “Casa Dr. Blumenau”, 1988, p. 214-215.
17 BERRI, Aléssio. Imigrantes Italianos, Criadores de Riquezas. Blumenau. Fundação “Casa Dr. Blumenau”, 1993, p. 148.
18 BERRI, Aléssio. Imigrantes Italianos, Criadores de Riquezas. Blumenau. Fundação “Casa Dr. Blumenau”, 1993, p. 125.
19 BERRI, Aléssio. Imigrantes Italianos, Criadores de Riquezas. Blumenau. Fundação “Casa Dr. Blumenau”, 1993, p. 113.
20 BERRI, Aléssio. Imigrantes Italianos, Criadores de Riquezas. Blumenau. Fundação “Casa Dr. Blumenau”, 1993, p. 169-170.
21 Relatório de 1877 da Colônia Blumenau – Item imigração.

Obs.: O trecho utilizado no artigo foi retirado de BERRI, Aléssio. Imigrantes Italianos, Criadores de Riquezas. Blumenau. Fundação “Casa Dr. Blumenau”, 1993, p. 34.


22 SILVA, José Ferreira da. História de Blumenau. Blumenau. Fundação “Casa Dr. Blumenau”, 1988, p. 98.
23 VICENZI, Pe. Victor. História e Imigração Italiana de Rio dos Cedros. Blumenau. Editora e Gráfica Odorizzi LTDA, 2000, p. 76.
24 FÁVERI, Marlene de. Memórias de Uma (Outra) Guerra. Itajaí: Ed. Univali; Florianópolis: Ed. da UFSC, 2005, p. 442.
25 Tema tratado com maestria in FLORES, Maria Bernardete Ramos. Oktoberfest: Turismo, Festa e Cultura na Estação do Chopp. Coleção Teses. Florianópolis. Ed. Letras Contemporâneas, 1997.

Referências Bibliográficas

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VICENZI, Pe. Victor. História e Imigração Italiana de Rio dos Cedros. Blumenau. Editora e Gráfica Odorizzi LTDA, 2000.


1 Advogado, tendo publicado artigos jurídicos e proferido palestra sobre o tema “Reconhecimento da nacionalidade italiana aos descendentes de imigrantes trentinos no Brasil”, em Brasília/DF, agosto de 2011. Membro da diretoria do Circolo Trentino di Rio dos Cedros e do Circolo Trentino di Blumenau. Presidente-Fundador do Gruppo Giovane Tosarami. Pesquisador de genealogia, história e cultura trentina, já com artigos publicados em revistas brasileiras e italianas.





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