Érica correia coelho



Baixar 407,77 Kb.
Página2/5
Encontro07.05.2017
Tamanho407,77 Kb.
1   2   3   4   5

OBJETIVOS

O objetivo deste trabalho é comparar a capacidade de limpeza das superfícies das paredes dos canais radiculares de duas técnicas de instrumentação: manual e ultra-sônica e de duas substâncias irrigadoras: HCT20 e hipoclorito de sódio a 1%.


MATERIAL E MÉTODO


Quarenta dentes, sendo 20 molares inferiores e 20 molares superiores estocados em formalina a 1 % foram utilizados neste estudo. As coroas foram seccionadas a 2mm da junção cemento-esmalte com disco de carborundum e peça de mão. Em seguida, as raízes palatinas dos molares superiores foram separadas das vestibulares por um corte feito na furca, o mesmo foi feito com as raízes distais dos molares inferiores. As raízes palatinas foram numeradas de 1 a 20 e as distais de 21 a 40 com caneta para retroprojetor na própria superfície dentinária. A patência do canal foi estabelecida introduzindo-se uma lima de número 10 até que sua ponta pudesse ser vista no forame. O comprimento de trabalho foi determinado recuando-se 1mm desta medida.

Já com a medida do comprimento de trabalho, raízes foram fixadas em blocos de silicona (Optosil e Xantopren). Para esta fixação, foram utilizadas fôrmas com cavidades cúbicas. Manipulou-se uma colher medida de Optosil com o catalisador conforme instruções do fabricante e inseriu-se dentro das formas, obtendo-se cubos de Optosil. Antes que este material completasse sua presa foi feita uma cavidade no meio do cubo para abrigar as raízes. Em seguida, manipulou-se o Xantopren conforme instrução do fabricante e, com auxílio de seringa plástica para inserção de material de moldagem, preencheu-se a cavidade antes feita no Optosil com Xantopren. Imediatamente após inseriu-se a raiz, segurando até que o material tomasse presa. Os blocos de silicona foram numerados de acordo com a numeração dos dentes.

Os dentes foram divididas em quatro grupos de dez raízes cada, sendo cinco inferiores e cinco superiores em cada grupo.

Grupo 1 – instrumentados com ultra-som e irrigados com NaOCl a 1%

Grupo 2 – instrumentados com ultra-som e irrigados com HCT20

Grupo 3 – instrumentados manualmente e irrigados com NaOCl a 1%

Grupo 4 – instrumentados manualmente e irrigados com HCT20

Os canais dos grupos 1 e 2 foram instrumentados com aparelho ultra-sônico da DabiAtlante: Profi AS utilizando a técnica descrita por MARTIN & CUNNINGHAM18: As raízes foram primeiramente instrumentadas com a lima 15 manualmente. Uma lima de mesmo calibre foi colocada no aparelho e acionada dentro do canal, na medida do comprimento de trabalho por 10 segundos sem nenhuma movimentação. Passado este tempo, realizou-se movimentos de cima para baixo, com baixa amplitude, e circunferenciais, simultaneamente. A irrigação nestes dois grupos foi a própria do aparelho que possui recipiente para solução irrigadora.

As raízes do segundo e terceiro grupos, tiveram seus canais instrumentados manualmente pela técnica step-back. Foram alargados apicalmente usando limas tipo K (Sendoline) em sequência númerica , da lima # 15 a # 35. Em seguida, foi feito escalonamento até lima #45, recuando 1mm a cada lima. A irrigação neste caso foi realizada com seringa descartável de 10 ml e agulha gauge tamanho 27. A cada troca de lima 1ml foi utilizado e 5 ml na irrigação final.

Após instrumentação, as raízes foram seccionadas longitudinalmente. Para evitar que raspas de dentina entrassem no interior dos canais o corte não pode ser feito diretamente com o disco, como anteriormente. A entrada do canal foi fechada com bolinha de algodão. Em seguida, foi feito um sulco longitudinalmente, nas faces distal e mesial da raiz. Neste sulco, encaixou-se um cinzel cirúrgico e com auxílio de um martelo “partiu-se” raiz ao meio.

Para análise microscópica, atribuíram-se escores para classificar a limpeza ou não dos terços cervical , médio e apical de cada raiz, de acordo com a escala que se segue:


  • Escore 0 - superfície totalmente limpa;

  • Escore 1 - superfície com 75% de extensão limpa;

  • Escore 2 - superfície com 50% de extensão limpa;

  • Escore 3 - superfície com 25% de extensão limpa;

  • Escore 4 - superfícies totalmente sujas.

NA - não avaliado
A análise estatística dos resultados foi feita submetendo os mesmos ao teste de Kruskal-Wallis.

RESULTADOS


Os resultados da avaliação dos terços cervical, médio e apical de cada dente foram mensurados em número absoluto, ou seja, quantas superfícies em cada grupo receberam escore 0, 1, 2, 3, ou 4. Em seguida, foi realizada uma avaliação percentual dos valores encontrados. Estes resultados estão expressos nas Tabelas 1, 2, 3 e 4 e nos Gráficos I, II, III e IV

Nas raízes instrumetadas com ultra som, o terço médio foi o mais limpo, 75% (15 raízes) receberam escore 1(75% de limpeza nas superfícies). Não houve diferença significativa entre os terços cervical e apical deste grupo. No terço cevical, 40% obtiveram escore 1 e 45% o escore 2 (50% de limpeza nas superfíces); enquanto que no terço apical estes valores foram 35% e 40% respectivamente. Apenas o terço apical teve duas superfícies que receberam escore 4, ou seja, estavam completamente sujas. (Ver Tabela 1 e Gráfico I).

Nos dentes instrumentados manualmente, observou-se que o terço médio também foi o mais limpo (Gráfico II e Tabela 2), com 55% dos dentes recebendo escore 1. No terço apical, apenas duas raízes receberam o escore 1, 50% recebeu escore 2 e os outros 40% escores 3 e 4. Somando esses resultados, 90% dos dentes instrumentados pela técnica manual, no terço apical, apresentavam as superfícies, no mínimo, com metade da extensão suja.

Não houve diferença significativa entre os resultados das duas técnicasna observação do terço cervical das raízes, 40% dos dentes de cada grupo recebeu escore 1. (Ver Tabelas 1,2 e Gráficos I,II).
Em ambos os grupos o terço médio foi mais limpo, sendo que uma porcentagem maior dos dentes instrumentados com ultra-som recebeu escore 1; por outro lado nos dentes instrumentados pela técnica manual, neste terço médio, nenhum tinha superfície completamente suja (escore 4).

Observa-se diferença no terço apical destes dois grupos. Encontrou-se superfícies mais limpas nos dentes instrumentados com ultra-som. Entretanto, estatisticamente, segundo o teste de Kruskal-Wallis, esta diferença não é significativa.

As tabelas 3 e 4 e seus respectivos Gráficos III e IV mostram os resultados da avaliação das raízes levando em consideração as substâncias irrigadoras utilizadas durante instrumentação.

No Gráfico III e tabela 3 estão os resultados dos dentes irrigados com HCT20. Os terços cervical e apical apresentam valores bastante semelhantes, enquanto no terço médio há um percentual maior de dentes com escore 1, ou seja, mais limpos (75% da extensão da superfície limpa).

Nos dentes cuja solução irrigadora do preparo químico-mecânico foi o hipoclorito de sódio a 1%, houve uma maior diferença na limpeza entre os três terços. No terço cervical, 45% receberam escore 1(mais limpa); o terço médio teve 75% das superfícies com escore 1; enquanto o terço apical apenas 20%. (Tabela IV)

Numa comparação dos gráficos III e IV observa-se que no terço cevical não houve muita diferença entre as duas substâncias irrigadoras. Nos dentes irrigados com HCT20, 35% receberam escore 1, 35% escore 2, 25% escore 3 e 5% escore 4; nos dentes irrigados com hipoclorito de sódio a 1%, 45% receberam escore 1, 40% o escore 2 e 15% o escore 3, não havendo registro de escore 4.

No terço médio, das 20 raízes analizadas, 15 das irrigadas com hipoclorito de sódio obtiveram escores 1, contra 11 das irrigadas com HCT20. Mas , se somarmos os dentes que ficaram com escores 3 e 4, ou seja, com pelo menos 75% da superfície suja, praticamente não houve diferença. No grupo do hipoclorito, uma raíz obteve escore 3 e duas o escore 4 , totalizando 15% e no grupo do HCT20 quatro obtiveram escore 3 e nenhuma escore 4, o que representa que 20% estava nesta faixa considerada mais suja.

No terço apical, houve uma diferença maior, somando-se as raízes com escores 3 e 4, ou seja, as superfícies mais sujas, verificar-se-á que no grupo do hipoclorito, cinco dentes estão nesta faixa, perfazendo um total de 25%. No grupo do HCT20 este total foi de 40%. Estatisticamente estes resultados não são significativos.

Deve-se observar que não houve registro de escore zero para nenhuma superfície analisada e duas superfícies não puderam ser avaliadas devido a falha no corte longidunal que impediu a visualização da superfície ao microscópio.

DISCUSSÃO

Na escala de escores adotada neste trabalho para avaliação da limpeza das paredes dos canais, o escore zero seria atribuído a superfícies completamente limpas; entretanto, não houve registro deste escore na avaliação dos resultados. Portanto, nenhuma das duas técnicas utilizadas neste trabalho para o preparo biomecânico dos canais atingiu uma limpeza total nas superfícies das paredes dos canais. Este resultado está de acordo com outros estudos sobre limpeza do sistema de canais13,34,40.

A literatura contém inúmeros trabalhos sobre instrumentação ultra-sônica, entre eles, muitos avaliando a capacidade de limpeza destes aparelhos; porém, com metodologias variadas. CAMERON2 (1995), num estudo sobre os fatores que afetam a eficiência clínica do ultra-som, realizou uma pequena revisão de literatura sobre as diferentes técnicas clínicas e experimentais utilizadas pelos autores.

Nesta revisão, as seguintes variações foram notadas. Quando dentes humanos foram utilizados no estudo, estes foram imediatamente antes extraídos (Alaçam 1987 apud CAMERON2) ou estocados em solução salina (Griffiths & Stock 1986 apud CAMERON2, 1995), formalina (Tauber et al 1983 apud CAMERON2, 1995) ou timol (Murgel et al 1991 apud CAMERON2, 1995) por até 12 meses. Alguns dentes tiveram suas coroas secionadas antes (Baungartner & Mader 1987, Tang & Stock 1989 apud CAMERON2, 1995), outros foram instrumentados através de cavidades de acesso (Cameron2 1983). Ultra-som foi gerado por efeito pizoelétrico (Murgel et al 1991, apud CAMERON2, 1995) e magnoestritivo (Cameron 1983, Ciucchi et al 1989 apud CAMERON2, 1995) das unidades clínicas e transmitidas ao canal por uma ponta endossônica modificada (Tauber et al 1983 apud CAMERON2, 1995) ou por limas ultra-sônicas. A potência utilizada variou de baixa (Abbott et al 1991, Griffths & Stock 1986, apud CAMERON2, 1995) a alta (Ciucchi et al 1989 apud CAMERON2, 1995).

Outras diferenças estão na maneira de avaliar os resultados. A maioria dos autores utiliza a escala de escores para avaliação microscópica13,34. WALKER40 (1999) utiliza fotomicrografias das secções dos dentes colocadas sobre um esquadro transparente, no qual os esquadros com debris são contados e divididos pelo número total de squares. Esta avaliação permite uma análise mais sensível dos resultados, segundo o autor. WALLER41 (1980) preencheu os canais antes da instrumentação com uma gelatina contendo material radioisótopo e mensurou a perda de radioatividade após o tratamento.

Tantas variações podem ser a explicação para tantas controvérsias nos resultados de pesquisas como estas. Os resultados do presente trabalho, quando comparadas as técnicas manual e ultra-sôncia de instrumentação dos canais radiculares, não evidenciam diferenças significativas na avaliação dos terços cervical e médio, concordando com trabalhos de SIQUEIRA e cols36,1997 e HEAD & WALTON13, 1997. Neste último, inclusive, o autor cita o terço médio como tendo sido o mais limpo, de acordo com o encontrado no presente estudo.

Apenas no terço apical dos dentes avaliados neste trabalho, o ultra-som proporcionou melhores resultados que a técnica manual. O que poderia ser explicado pelo fenômeno de “ acoustic streaming” , que consiste na movimentação de partículas de um fluido a partir de uma superfície vibrante. O movimento se assemelha ao de um redemoinho e segundo PITT FORD29 1987, estaria mais concentrado na porção apical da lima. Isto explica também o maior desgaste no terço apical dos canais instrumentados com ultra-som. Apesar de não ser o objetivo deste estudo, observou-se que os canais instrumentados por esse método tiveram sua forma final alterada para um cone invertido.

Observou-se também, nas raízes distais de molares inferiores, que as margens vestibulares e linguais ou palatinas do canal estavam mais sujas que a porção central, como se as limas do ultra-som não tivessem encostado nestes locais. Como estes canais são “em forma de fita”, o ultra-som parece não conseguir atingir toda a superfície do canal, Nas raízes inferiores instrumentadas manualmente notou-se uma maior uniformidade na limpeza dos canais.

Vários também são os trabalhos que avaliam como a substância irrigadora auxilia na limpeza dos canais. E assim como nas técnicas de instrumentação, há muita controvérsia na escolha da melhor solução para auxíliar no preparo dos canais.

É indiscutível a produção de uma camada de material orgâncio e inorgânico aderiada às paredes dos canais instrumentados por meio de qualquer técnica. O que se discute é a necessidade ou não da remoção completa desta camada. Alguns autores atribuem a ela a função de impedir a penetração de bactérias para dentro dos túbulos dentinários (VOJONOVIC et al 1973, MICHELICH et al 1980, DIAMOND & CARRAL 1984 apud SEN e cols35, 1995); já WILLIAMS & GOLDMAN42, acreditam que a mesma adia, mas não impede esta penetração. Há ainda os que acreditam que a não remoção desta camada interfere na adesão dos cimentos obturadores e aumenta a infiltração apical16.

Muitas substância tem sido testadas para este fim. Entre elas o hipoclorito de sódio. Apesar de sua capacidade de dissolução de tecidos orgânicos23, a capacidade de remoção de “smear layer” das paredes dos canais radiculares instrumentados têm sido considerada insuficiente35.

O HCT20 também foi avaliado quanto capacidade de retirar a camada de lama dentinária das paredes dos canais por BARBOSA8, apresentando resultados semelhantes ao EDTA. A presença de detergente em sua composição parece ser responsável por esta característica. O lauril sulfato de sódio, detergente utilizado na composição do HCT20 , foi comparado por LEHMAN et al17 ao hipoclorito de sódio quanto a capacidade de limpeza de canais; não havendo diferença entre as duas substâncias.

No presente estudo, não houve diferença entre as duas substâncias utilizadas (HCT20 e hipoclorito de sódio a 1%) na avaliação dos terços cervical e médio das raízes. No terço apical houve um pequena diferença a favor do hipoclorito de sódio. 40% das superfícies dos dentes irrigados com HCT20 estavam com 75% de sua extensão suja contra 25% das superfícies dos dentes irrigados com hipoclorito de sódio. Uma explicação pare este resultado seria o fato do HCT20 conter hidróxido de cálcio em sua composição. Este componenete, por ser um pó, qualquer excesso mínimo se precipita, formando até um corpo de fundo no reipiente em que é acondicionado. O ato de levar o mesmo à senringa suspenderia estas partículas que seriam levadas para dentro do canal e se precipitariam nas paredes dos canais.

Estudos avaliando a capacidade de limpeza de técnicas de instrumentação ou soluções irrigadoras são realizados, normalmente, in vitro. A extrapolação de seus resultados para a clínica merece cuidados, já que as condições de trabalho não são as mesmas. Estes experimentos, porém, têm sua validade pois nos permitem investigar e obter subsídios para uma escolha consciênte dos meios para melhor realisar um tratamento endodôntico.




1   2   3   4   5


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal