Rias da meia noite sidney sheldon



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MEMÓRIAS DA MEIA NOITE

SIDNEY SHELDON
Nâo me cantem canções da luz do dia Pois o sol é o inimigo dos amantes Ao invés, cantem das sombras e da escuridâo E das «memórias da meia-noite»
PRÓLOGO
Kowloon Maio de 1949
- Tem de parecer um acidente. Consegue arranjar isso?

Era um insulto. Sentia a raiva crescer dentro de si. Isso era pergunta para se fazer a um amador que se contratava na rua. Sentiu-se tentado a responder com sarcasmo: «Oh, sim. Acho que consigo fazer isso. Prefere um acidente dentro de casa? Posso fazer que ela parta o pescoço ao cair de um lance de escadas. 0 bailarino de Marselha. Ou ela podia embebedar-se e morrer afogada na banheira. Aherdeirade Gstaad. Podiatomaruma dose excessiva deheroína. Eliminara três assim. Ou podia adormecer na cama com um cigarro aceso. 0 detective sueco no Hotel da Margem Esquerda de Paris. Ou será que prefere qualquer coisa no exterior? Posso provocar um acidente de trânsito, uma queda de avião ou um desaparecimento no mar.» Mas não disse nada disto, pois na verdade tinha medo do homem que se sentara na sua frente. Ouvira muitas histórias arrepiantes a seu respeito, e tinha razão para acreditar nelas. De forma que tudo o que disse foi - Sim, senhor, posso provocar um acidente. Ninguém irá descobrir. Mas no momento em que dizia estas palavras a ideia passou-lhe pela cabeça: «Ele sabe que eu saberei.» Ficou à espera. Estavam no segundo andar de um edifício da cidade murada de Kowloon, que fora construída em 1840 por um grupo de chineses para se protegerem dos bárbaros britânicos. As muralhas tinham sido derrubadas na Segunda Guerra Mundial, mas havia outras muralhas que afastavam os estranhos: grupos de criminosos, toxicodependentes e violadores que deambulam pelas muitas ruas estreitas Chegaram à Estrada de Mody. 0 padre taoísta que o aguardava parecia urna figura de um antigo pergaminho, com um clássico roupão oriental desbotado e uma barba branca, às farripas e comprida. Jou sahn. Jou sahn. Gei do chin. Yat-Chihn. Jou.

0 padre fechou os olhos numa oração silenciosa e começou a sacudir o chim, a taça de madeira cheia de paus de oração numerados. Caiu um pau, e a sacudidela cessou. No silêncio, o padre taoísta consultou a sua carta e virou-se para o visitante. Ele falava num inglês defeituoso.

-Os deuses dizem que em breve te livrarás de um inimigo perigoso.

0 homem sentiu um choque agradável de surpresa. Era demasiado inteligente para não compreender que a antiga arte de chim era uma mera superstição. E era demasiado inteligente para ignorá-la. Além disso, havia outro presságio de boa sorte. Hoje, era o Dia de Agios Constantinous, dia do seu aniversário.

-Os deuses abençoaram-te com boa fung shui. Do jeh.

Hou wah.

Cinco minutos depois, estava na limusina, a caminho de Kai Tak, o aeroporto de Hong Kong, onde o seu avião particular o aguardava para levá-lo de volta a Atenas. e escadas escuras que condua m às trevas. Os turistas eram avisados amanterem-se afastados, e nem mesmo a polícia se aventuraria a entrar na Rua TungTau Tsuen, nos arredores. Ele ouvia os barulhos da rua do outro lado da janela, e a poliglota estridente e roufenha de línguas que pertenciam aos residentes da cidade murada. 0 homem analisava-o com olhos frios e negros. Falou por fim. -Pois bem. Deixarei o método ao seu dispor.

-Sim, senhor. 0 alvo está aqui em Kowloon? Londres. Chama-se Catherine. Catherine Alexander.

Uma limusina, seguida por um segundo cano com dois guarda-costas armados, levou o homem para a Casa Azulem Lascar Row, na área de Tsim Sha Tsui. A Casa Azul estava aberta apenas a clientes especiais. Era visitada por chefes de estado, estrelas de cinema e presidentes de empresas. A gerência orgulhava-se da discrição. Há seis anos, uma das raparigas que trabalhava lá falara dos seus clientes a um jornalista e foi encontrada na manhã seguinte no porto de Aberdeen com a língua cortada. Na Casa Azul havia de tudo para vender; virgens, rapazes, lésbicas que se satisfaziam sem os «talos preciosos dos homens, e animais. Era o único lugar que ele conhecia onde ainda se praticava a arte do séculoXde Ishinpo. ACasaAzul era uma cornucópia de prazeres proibidos. 0 homem pedira os gémeos desta vez. Eram um par requintadamente combinado com belos atributos, corpos incríveis e sem inibições. Lembrou-se da última vez em que lá estivera... o banco de metal sem fundo e as suas línguas e dedos macios e acariciadores, e a banheira cheia de água quente aromática que transbordava para o chão de tijoleira e as suas bocas ardentes expoliando o corpo dele. Sentiu o início de uma erecção.

-Nós estamos aqui, senhor.

Três horas mais tarde, depois de ter estado com elas, saciado e satisfeito, o homem ordenou que a limusina seguisse para a Estrada de Mody. Olhou para as luzes cintilantes da cidade que nuncadormiam. Os chineses deram-lhe o nome degau-lung-nove dragões-e ele imaginava-os a espreitarem nas montanhas sobre a cidade, prontos a descerem e destruírem os fracos e os incautos. Ele não era nada disso.

Janina, Grécia Julho de 1948

Ela acordava aos gritos todas as noites e era sempre o mesmo sonho. Ela estava no meio de um lago numa tempestade feroz e um homem e uma mulher metiam-lhe a cabeça debaixo das águas geladas, afogando-a. Acordava sempre em pânico, com falta de ar, encharcada em suor. Não fazia ideia de quem ela era e não tinha lembrança do passado. Falava inglês-mas não sabia de que país vinha ou como viera parár à Grécia, no pequeno convento das Carmelitas que a abrigou. Amedida que otempo passava, havialampejos atormentadores de memória, vestígios de imagens vagas e efémeras que chegavam e partiam depressa de mais para poder retê-los, segurar e examinar. Chegavam em momentos inesperados, apanhando-a desprevenida e enchendo-a de confusão. No começo, fizera perguntas. As freiras carmelitas eram gentis e compreensivas, mas havia uma ordem de silêncio, e a única que podia falar era a Irmã Teresa, a idosa e frágil Madre Superiora.

- Sabe quem eu sou?

-Não, minha filha - disse a Irmã Teresa. - Como é que eu vim parar a este lugar?

-No sopé destas montanhas, há uma aldeia chamada Janina. Estavas num pequeno barco no lago durante uma tempestade no ano passado. 0 barco afundou-se, mas graças a Deus duas das nossas irmãs viram-te e salvaram-te. Trouxeram-te para aqui.

-Mas... de onde vim eu antes disso? -Desculpa, minha filha. Não sei. Ela não podia ficar satisfeita com isso. -Ninguém perguntou por mim? Ninguém tentou encontrar-me?

A Irmã Teresa sacudiu a cabeça. -Ninguém.

Quis gritar de frustração. Tentou de novo.

- Os jornais... Eles devem ter recebido alguma história sobre o meu desaparecimento.

-Como sabes, não nos é permitida qualquer comunicação com o mundo exterior. Temos de aceitaravontade deDeus, minhafilha. Devemos agradecer-Lhe todas as Suas graças. Estas viva.

E foi o máximo que conseguiu obter. No começo, estivera demasiado doente para se preocupar consigo própria, mas aos poucos, à medida que os meses passavam, ela recuperava as forças e a saúde. Quando se sentiu com forças para caminhar, passavams dias a trabalhar nos jardins coloridos dos terrenos do convento, sob aluz incandescente que banhava a Grécia num fulgor celestial, com os ventos suaves que traziam o aroma pungente dos limões e das vinhas. 0 ambiente era sereno e calmo, e no entanto ela não conseguia encontrar paz. «Estou perdida», pensou, «e ninguém se importa. Porquê? Fiz alguma coisa de mau? Quem sou eu? Quem sou eu? Quem sou eu?» As imagens continuavam a surgir, espontâneas. Certa manhã, acordou de repente e viu a sua própria imagem num quarto com um homem nu que a despia. Era um sonho? Ou era algo que acontecera no passado? Quem era o homem? Era algum com quem se casara? Tinha marido? Não trazia aliança de casamento. De facto, não tinha outros haveres a não ser o hábito negro da Ordem das Carmelitas que a Irmã Teresa lhe dera e um alfinete, um pequeno pássara dourado com olhos vermelho-vivos e asas abertas. Ela era anónima, uma estranha vivendo entre estranhos. Não havia ninguém para ajudá-la, nem um psiquiatra para lhe dizer que a sua mente ficara tão traumatizada que só podia ficar só quando afastasse o passado terrível.

E as imagens continuavam a surgir, cada vez mais rápidas. Era como se a sua mente se tivesse repentinamente tornado num enigma gigantesco, com peças estranhas que se iam encaixando. Mas as peças não faziam sentido. Teve uma visão de um estádio enorme cheio de homens fardados com o uniforme do exército. Pareciam estar a fazer um filme. •Era actriz?» Não, parecia estar a dar ordens. «Mas que ordens?» Um soldado entregou lhe um ramo deflores. «Terá de pagá-las•>, riu-se. Duas noites depois, teve um sonho com o mesmo homem. Estava a despedir-se dele no aeroporto, e acordou a soluçar porque o perdia. No teve mais paz depois disso. Não eram simples sonhos. Erampedaços da sua vida, do seu passado. «Tenho de saber quem sou. Quem sou.» E, inesperadamente, a meio da noite, sem mais nem menos, surgiu-lhe um nome do subconsciente. «Catherine. 0 meu nome é Catherine Alexander.»

Atenas, Grécia

0 império de Constantin Demiris não podia ser localizado em nenhum mapa; no entanto, ele era senhor de um feudo mais poderoso do que muitos países. Ele era um dos dois ou três homens mais ricos do mundo e a sua influência era incalculável. Não tinha título ou posto oficial, mas regularmente comprava e vendia primeiros-ministros, cardeais, embaixadores e reis. Os tentáculos de Demiris estavam por toda a parte, tecidos através da trama e urdidura de dezenas de países. Era um homem carismático, com uma mente brilhantemente incisiva, fisicamente notável, de altura bem acima da média, entroncado e de ombros largos. Tinha a tez morena e um nariz grego pronunciado e olhos pretos-azeitona. Tinha o rosto de um falcão, de um predador. Quando decidia dar-se ao trabalha, Demiris sabia ser extremamente encantador. Falava oito línguas e era um afamado contador de anedotas. Possuía uma das mais importantes colecções de arte do mundo, umafrota de aviões particulares e uma dúzia de apartamentos, castelos e casas de campo espalhados pelo globo. Era um entendido da beleza, e achava as mulheres belas irresistíveis. A sua reputação era a de ser um amante possante, e as suas leviandades românticas eram tão pitorescas quanto as suas aventuras financeiras. Constantin Demiris orgulhava-se de ser um patriota - a bandeira azul e branca da Grécia estava sempre hasteada na sua uilla de Kolonaki e em Psara, a sua ilha privada -, mas não pagava impôs tos. Não se sentia obrigado a obedecer às regras que se aplicavam aos homens comuns. Nas suas veias corria icor-o sangue dos deuses.


2
Quase todas as pessoas que Demiris conhecia queriam alguma coisa de si: financiamento de um projecto comercial; donativo para uma obra de caridade; ou simplesmente o poder que a sua amizade podia conferir. Demiris gostava do desafio de imaginar aquilo que as pessoas realmente pretendiam, pois raramente era o que aparentava ser. A sua mente analítica era céptica quanto a verdade superficial, e como consequência disso não acreditava em nada do que lhe diziam e não confiava em ninguém. 0 seu lema era: «Fica perto dos teus amigos, mas ainda mais perto dos teus inimigos.» Aos repórteres, que escreviam sobre a sua vida, era permitido ver apenas a sua genialidade e encanto, o homem sofisticado e urbano do mundo. Não tinham motivos para suspeitar que sob aquela fachada amável se encontrava um assassino, um lutador de sarjeta, cujo instinto era saltar para a veia jugular. Era um homem implacável que nunca esquecia uma desfeita. Para os antigos gregos a palavra dikaiosini, justiça, era muitas vezes sinónimo de ekdikisis, vingança, e Demiris era obcecado por ambas. Lembrava-se de todas as afrontas que sofrera, e aqueles que tinham o azar de incorrer na sua inimizade recebiam em paga cem vezes mais. Nunca se apercebiam do facto, pois a mente matemática de Demiris fazia da retribuição exacta um jogo, pacientemente concebendo armadilhas meticulosas e tecendo teias complexas que finalmente prendiam e destruíam os seus inimigos. Sentia prazer nas horas que passava a arquitectar ciladas para os seus adversários. Estudava as suas vítimas cuidadosamente, analisando as suas personalidades, avaliando os seus pontos fortes e fracos. Durante um jantar, Demiris ouvira por acaso um produtor de cinema referir-se a ele como «aquele grego untuoso». Demiris esperou o momento propício. Dois anos mais tarde, o produtor contratou uma actriz fascinante de renome internacional para estrelar na sua nova superprodução na qual investiu o seu próprio dinheiro. Demiris esperou até o filme estar meio concluído, e depois seduziu a actriz principal a abandonar tudo e a juntar-se a ele no seu iate.

-Vai ser uma lua~le-mel -disse-lhe Demiris.

Ela teve a lua-de-mel, mas não o casamento. 0 filme acabou por ser cancelado e o produtor entrou em bancarrota.

Havia alguns jogadores no jogo de Demiris de quem ainda não se tinhavingado, mas não tinha pressa. Gostava da antecipação, do planeamento e da execução. Nos tempos de hoje, não fazia inimigos, pois ninguém podia dar-se ao luxo de ser seu inimigo, de forma que as suas presas se limitavam àqueles que tinham atravessado o seu caminho no passado. Mas a ideia que Constantin Demiris tinha de dikaiosini éra de dois gumes. Tal como nunca esquecia umainjúria, também não se esquecia de um favor. Um pobre pescador, que abrigara o jovem rapaz, tornou-se dono de uma frota pesqueira. Uma prostituta, que vestira e alimentara o jovem quando ele era pobre de mais para lhe pagar, herdou misteriosamente um prédio de apartamentos, sem a mínima ideia de quem fosse o seu benfeitor. Demiris começara a vida como filho de um estivador em Piraeus. Tinha catorze irmãos e irmãs, e à mesa nunca havia comida que chegasse para todos. Desde muito cedo, Constantin Demiris revelava um dom excepcional para o negócio. Ganhava um dinheiro extra fazendo biscates depois da escola, e aos dezasseis anos poupara dinheiro bastante pa ra montar uma barraca de comida na doca com um sócio mais velho. 0 negócio prosperou, e o sócio enganou Demiris com a sua parte. Demiris demoroudez anos a destruiro homem. 0 jovemrapaz ardia com ambição feroz. «Euvou serrico. Vou serfamoso. Um dia todos saberão o meu nome.» Era a única canção de embalar que conseguia adormecê-lo. Não fazia ideia de como iria acontecer. Só sabia que ia acontecer. No dia do seu décimo-sétimo aniversário, Demiris leu por acaso um artigo sobre os campos petrolíferos da Arábia Saudita, e foi como se uma porta mágica para o futuro se tivesse repentinamente aberto para ele. Foi ter com o pai.

- Vou para a Arábia Saudita. Vou trabalhar nos campos de petróleo.

- Eh, pá! 0 que é que tu sabes de campos de petróleo? -Nada, pai. Vou aprender.

Um mês depois, Constantin Demiris partia.

Era política da companhia para os empregados no exterior da Corporação de Petróleo Trans-Continental assinar um contrato de trabalho de dois anos, mas Demiris não sentia apreensão em relação a isso. Tencionava ficar na Arábia Saudita o tempo necessário para fazer fortuna. Tinha visionado uma maravilhosa aventura de noites árabes, uma terra fascinante e misteriosa com mulheres de aspecto exótico e ouro negro jorrando do chão. A realidade foi um choque. Numa manhãzinha de verão, Demiris chegava a Fadili, um campo medonho no meio do deserto que constava de um velho edifício de pedra rodeado por barastis, pequenas cabanas cobertas de mato. Havia mil trabalhadores de classe inferior, a maioria sauditas. As mulheres que se arrastavam através das ruas empoeiradas e de terra batida estavam carregadas de véus. Demiris entrou no edifício onde J. J. McIntyre, o administrador do pessoal, tinha o seu gabinete. McIntyre ergueu o olhar quando o homem jovem entrou. -Então. A sede contratou-te, foi?

-Foi, sim.

-Já trabalhaste nos campos de petróleo, rapaz? Por um instante, Demiris esteve tentado a mentir. -No, senhor.

McIntyre deu um sorriso largo.

-Vais adoraristo aqui, Estás a um milhão de quilómetros de parte nenhuma, a comida não presta, não há mulheres em que possas tocar sem que te cortem os tomates, e não há patavina para se fazer à noite. Mas o dinheirocompensa, não ?

-Estou aqui para aprender-disse Demiris com sinceridade. - Sim? Então vou dizer-te o que tens de aprender para já. Tu agora estás num país muçulmano. Isso significa que não há bebidas alcoólicas. Quem for apanhado a roubarfica sem a mão direita. Da segundavez, a mão esquerda. Da terceiravez, perdes um um pé. Se matares alguém, cortam-te a cabeça.

-Não estou a pensar em matar ninguém. -Espera-grunhiu McIntyre. -Tu acabaste de chegar.

0 complexo era uma torre de Babel, gente oriunda de uma dúzia de países diferentes, todos falando as suas línguas nativas. Demiris ouvia bem e aprendia línguas depressa. Os homens estavam ali para abrir estradas no meio de um deserto inóspito, edificar habitações, instalar equipamento eléctrico, montar comunicações telefónicas, construir oficinas, arranjar abastecimentos de água e comida, conceber um sistema de drenagem, administrar cuidados médicos e, pareceu ao jovem Demiris, fazer umá centena de outras tarefas. Trabalhavam com temperaturas acima dos quarenta graus, sofrendo com as moscas, mosquitos, poeira, febre e disenteria. Mesmo no deserto haviauma hierarquia social. No topo estavam os homens encarregados de localizar o petróleo, e abaixo os operários das obras, chamados de «tesos», e os empregados, conhecidos como «calças lustrosas». Quase todos os homens envolvidos na perfuração actual - os geólogos, topógrafos, engenheiros e analistas de petróleo - eram americanos, pois a nova broca rotativa fora inventada nos Estados Unidos e os americanos estavam mais habituados ao seu funcionamento. 0 jovem decidiu tornar-se amigo deles. Constantin Demiris passava o máximo de tempo possível junto dos perfuradores e não parava de lhes fazer perguntas. Retinha a informação, absorvendo-a como as areias quentes absorvem a água. Reparou que se utilizavam dois métodos diferentes de perfuração. Aproximou-se de um dos perfuradores que trabalhava junto a uma torre de perfuração com 400 metros.

-Eu estava aqui a pensar porque é que vocês utilizam dois tipos diferentes de perfuração.

0 perfurador explicou.

-Bem, rapaz, um por cabo e o outro com a rotativa. Agora, andamos a usar mais a rotativa. Os dois métodos começam exactamente da mesma maneira.

- Ah sim?

-Sim . Para qualquer um deles tem de se erguer uma torre igual a esta para içar as peças de equipamento que têm de ser metidas dentro do poço. -Olhou para o rosto ansioso do jovem. -Aposto que não fazes a mínima ideia por que lhe chamam assim.

-Não faço, não.

-Era o nome de um famoso carrasco do século XVII. -Estou a perceber.

- A perfuração por cabo é ainda mais antiga. Há centenas de anos, os chineses abriam poços de água assim. Eles faziam um buraco na terra, levantando e deixando cair um instrumento cortante que estava pendurado num cabo. Mas hoje cerca de oitenta e cinco por cento de todos os poços são perfurados pelo método darotativa.-Virou-se para regressar à perfuração.

- Desculpe. Mas como é que funciona o método da rotativa? 0 homem parou.

- Bem, em vez de abrir um buraco na terra à pancada, basta perfurar. Estás a ver isto? No meio do piso da rotativa está uma mesa giratória de aço que a maquinaria faz girar. Esta mesa rotativa prende com firmeza e roda um tubo que desce através dela. Há uma broca presa à parte inferior do tubo.

-Parece simples, não parece?

-É mais complicado do que parece. Tem de haver um método de escavar o material libertado à medida que se perfura. Há que evitar a aluimento das paredes e vedar a água e o gás do poço.

- Com toda essa perfuração, a broca não se gasta?

- Claro. Depois temos que tirar para fora toda aquela danada série de tubos, enroscar outra broca na ponta do tubo da perfuradora e meter tudo outra vez dentro do furo. Estás com ideias de ser um perfurador?

- Não, senhor. Tenciono ter poços de petróleo. - Parabéns. Posso voltar ao trabalho agora?

Uma manhã, Demiris observava a inserção de um tubo no poço, mas em vez de perfurar o interior ele reparou que cortou pequenas áreas circulares dos lados do furo e trouxe rochas para cima.

- Desculpe-me. Para que está a fazer isso? - perguntou Demiris.

0 perfurador parou para limpar a testa.

-Isto é a medula das paredes laterais. Usamos estas rochas para análise, para ver se são portadoras de petróleo.

- Estou a perceber.

Quando as coisas corriam sem problemas, Demiris ouvia os perfuradores gritar, «Vou virar para a direita», o que significava que estavam a fazer um furo. Demiris reparou que havia dezenas de pequeníssimos furos perfurados por todo o campo, com diâmetros que não tinham mais do que cinco ou seis centímetros. -Desculpe-me. Para que são esses poços?-perguntou o jovem.

-São poços de prospecção. Indicam-nos o que existe no subsolo. Poupa um monte de dinheiro e tempo à companhia.

-Estou a ver.

Tudo era completamente fascinante para o jovem, e as suas perguntas eram infindáveis.

-Desculpe-me. Como é que sabe onde vai furar?

-Temos muitos geólogos, a malta dos calhaus, que tiram medidas dos estratos e estudam os cortes dos poços. Depois os estranguladores de cordas...

-Desculpe-me, o que é um estrangulador de cordas? -Um perfurador. Quando eles...

Constantin Demiris trabalhava desde manhãzinha até ao pôr do Sol, arrastando maquinaria através do deserto escaldante, limpando equipamento e conduzindo camiões àfrente dos raios de chama luminosos que se erguiam dos picos rochosos. As chamas ardiam noite e dia, levando para longe os gases venenosos. J. J. McIntyre dissera a verdade a Demiris. A comida não prestava, as condições de vida eram horríveis, e à noite não havia nada que fazer. Pior, Demiris sentia que todos os poros do seu corpo estavam cheios de grãos de areia. 0 deserto tinha vida, e não havia maneira de fugir a isso. A areia entrava na barraca, metia-se-lhe na roupa e no corpo, e ele pensou que ia enlouquecer. E depois piorou. 0 vento do golfo surgiu. As tempestades de areia sopravam todos os dias durante meses, conduzidas por um vento uivante com uma intensidade suficientemente forte para levar os homens à loucura. Demiris olhava fixamente pela porta da barraca para a areia rodopiante.

-Vamos trabalhar com este tempo?

- Tens toda a razão, Charlie. Isto não é uma estância termal. Faziam-se descobertas de petróleo àvolta deles. Haviauma nova descoberta em Abu Hadriya e outra em Qatif e em Harad, e os trabalhadores nunca estiveram mais ocupados.

Chegaram duas novas pessoas, um geólogo inglês e a mulher. HenryPotterandavapelos setentaanos, e amulher, Sybil, tinhapouco mais de trinta. Em qualquer outro lugar, Sybil Potter teria sido descrita como uma mulher de aspecto simplório e obesa com uma voz aguda e desagradável. Em Fadhili, ela era uma beleza delirante. Como Henry Potter estava constantemente ausente na prospecção de novos campos petrolíferos, a mulher ficava muito tempo sozinha. 0 jovem Demiris ficou incumbido de ajudá-la a mudar-se para os seus novos aposentos.

- Este é o pior lugar que eu já vi na minha vida - queixou-se Sybil Potter na sua voz plangente. - 0 Henry está sempre a arrastar-me para lugares terríveis como este, Não sei como é que aguento.

-0 seu marido está a fazer um trabalho importante-Demiris assegurou-lhe.

Ela olhou para o jovem atraente especulativamente.

-0 meu marido não faz tudo o que devia fazer. Está a entender-me?

Demiris sabia exactamente o que ela queria dizer. -Não, senhora.

- Como é que se chama?

-Demiris, senhora. Constantin Demiris. - Como é que os seus amigos o tratam? -Costa,

-Bem, Costa, acho que vamos ser bons amigos. Certamente que não temas nada em comum com esta ciganaria, pois não?

- Ciganaria?

-Sim. Estes estrangeiros.

-Tenho que voltar ao trabalho - disse Demiris.

Nas semanas seguintes, Sybil Potter arranjava constantemente desculpas para mandar chamar o jovem homem.



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