Rex Stout a caixa vermelha



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Rex Stout

A caixa vermelha

Wolfe olhou para o visitante com olhos esbugalhados — um sinal que, nele, significava indiferença ou irritação - Neste caso, era evidente que ele estava irritado.


— Repito, Sr. Frost, que é inútil — disse. — Jamais saio de casa a negócios. A pertinácia de homem algum poderá coagir-me. Disse-lhe isto há cinco dias. Bom dia, senhor.
Llewellyn Frost pestanejou, mas nenhum sinal deu de reconhecer o gesto de despedida. Ao contrário, reclinou-se na cadeira.
E inclinou a cabeça pacientemente.
— Eu sei. Cedi na quarta-feira última, Sr. Wolfe, porque havia outra possibilidade, que me pareceu valer uma tentativa. Mas não deu resultado. Agora, não me resta outra alternativa. O senhor tem de ir até lá. Pode esquecer sua personalidade de gênio excêntrico, pelo menos por uma vez... E de qualquer maneira, será bom uma exceção. A jaca que destaca a perfeição. O gaguejar que acentua a eloqüência. Deus meu, são apenas vinte quarteirões. Cinqüenta e dois, entre a Quinta Avenida e Madison. Um táxi nos levará lá em oito minutos.
— Realmente! — Wolfe mexeu-se na cadeira, furioso. — Que idade tem, Sr. Frost?
— Eu? Vinte e nove.
— Dificilmente jovem bastante para que isso justifique seu infantil descaramento. O senhor fala de minha personalidade artificial! E quer fazer-me disparar numa corrida frenética através do vórtice do tráfego da cidade ... e num táxi! Senhor, eu não entraria num táxi nem que tivesse oportunidade de desvendar o mais insondável enigma da Esfinge, tendo toda a carga do Nilo como prêmio! — e a voz dele desceu para um murmúrio ultrajado. — Meu Deus, um táxi!
Aplaudi com um sorriso, girando o lápis entre os dedos, na minha escrivaninha, que fica a uns dois metros e meio da dele. Tendo trabalhado para Nero Wolfe durante nove anos, havia alguns pontos sobre os quais não me restavam mais dúvidas. Por exemplo, que ele era o melhor detetive particular ao norte do Pólo Sul. Que estava convencido de que o ar externo provavelmente lhe congestionaria os pulmões. Que havia um curto-circuito nos seus nervos quando era sacudido e empurrado de um lado para outro. Que teria morrido de inanição se algo acontecesse a Fritz Brenner em virtude de sua firme convicção de que a comida de pessoa alguma, salvo a de Fritz, poderia ser ingerida. Havia outros pontos ainda de tipos diferentes, mas vou omiti-los porque Nero Wolfe provavelmente lera este relato.
O jovem Sr. Frost encarou-o tranqüilamente.
— O senhor está-se divertindo um bocado, não, Sr. Wolfe? — Frost inclinou a cabeça. — Claro que está. Uma moça foi assassinada. Outra — talvez mais de uma — está em perigo. O senhor se apresenta como um especialista nesses assuntos, não? Essa parte está perfeita. Não há dúvida de que o senhor é um especialista. Mas uma moça foi assassinada, outras correm grande e iminente perigo, e o senhor delira como Booth e Barrett a respeito de um táxi num vórtice. Eu entendo uma boa representação. Devo entender, porque estou também no teatro. Mas, no seu caso, eu pensaria que há ocasiões em que um respeito decente pelos sofrimentos e infelicidades humanos deveria levá-lo a retirar a maquilagem. E, se o senhor está realmente representando com convicção, isto apenas piora as coisas. Se, em vez de suportar um pequeno incômodo pessoal.
— Não adianta, Sr. Frost — Wolfe sacudiu lentamente a cabeça. — O senhor espera por acaso forçar-me a fazer uma defesa de minha conduta? Tolice. Se uma moça foi assassinada, existe para isso a Polícia. Outras correm perigo? Elas têm a minha simpatia, mas não têm direito de opção aos meus serviços profissionais. Não posso, de qualquer maneira, afastar perigos com um gesto, e não tomarei um táxi. Não ando em coisa alguma, mesmo no meu carro particular, dirigido pelo Sr. Goodwin, exceto para resolver meus casos pessoais. Observe o meu volume. Não sou estacionário, mas a minha carne tem uma relutância constitucional a deslocamento súbito, violento ou demorado. O senhor falou de "respeito decente". Que tal um respeito decente pelo caráter privado de minha residência? Uso esta sala como escritório, mas esta casa é também o meu lar. Bom dia, senhor.
O jovem corou, mas não se moveu.
— Então o senhor não irá? — indagou ele. — Não.
— Vinte quarteirões, oito minutos, no seu próprio carro.
— Diabos o levem, não.
Frost olhou-o, carrancudo. Murmurou para si mesmo: "Mais teimoso" que esse nunca vi". Meteu a mão no bolso interno do paletó, tirou alguns papéis, selecionou um deles, desdobrou-o, olhou-o rapidamente e guardou os outros. Levan­tou a vista para Wolfe.
— Passei quase dois dias inteiros fazendo com que isto fosse assinado. Não, espere um minuto, contenha-se um pouco. Quando Molly Lauck foi envenenada, faz uma semana hoje, a coisa toda pareceu suspeita desde o início. Na quarta-feira, dois dias depois, ficou claro que os policiais estavam andando como baratas tontas. Por isso vim procurá-lo. Sei quem é o senhor. Sei que o senhor é o único. Como o senhor sabe, tentei fazer com que McNair e os outros viessem aqui a seu gabi­nete, e eles se recusaram. Tentei levá-lo até lá, e o senhor não quis ir. E eu o mandei para o inferno. Isso aconteceu há cinco dias. Paguei ao outro detetive trezentos dólares por um bocado de coisas inúteis. Quanto aos policiais, do Inspetor para baixo, eles são bons como seria Fanny Brice no papel de Julieta. De qualquer maneira, é um caso difícil, e duvido que qualquer pessoa pudesse resolvê-lo, salvo o senhor. Resolvi isso no sábado e no fim-de-semana trabalhei um bocado — ele empurrou o papel na direção de Wolfe. — Que é que o senhor diria disto?

Wolfe apanhou o papel e leu-o. Observei-lhe os olhos per­correr lentamente, semicerrados, o conteúdo do papel e tive cer­teza de que, o que quer que fosse, exerceu efeito considerável sobre sua irritação. Olhou-o de relance novamente, fitou Llewellyn através de olhos apertados em frestas e, em seguida, empurrou o documento na minha direção. Levantei-me para apanhá-lo. Estava escrito a máquina em uma folha de papel comum, de boa qualidade, com data de 28 de março de 1936, Cidade Nova York:


AO SR. NERO WOLFE:
Atendendo a uma solicitação de Llewellyn Frost, nós, abaixo assinados, imploramos-lhe que investigue a morte de Molly Lauck, envenenada no dia 23 de março nos escritórios da Boyden McNair Incorporated, situados na Rua 52, na cidade de Nova York. Suplicamos-lhe que visite os escritórios da McNair com esse objetivo.
Respeitosamente, lembramos a V. Sa. que, uma vez por ano, V. Sa. deixa seu lar a fim de comparecer à Exposição Metropolitana de Orquídeas e permitimo-nos sugerir que a atual emergência, conquanto não tão importante para o senhor pessoal­mente, parece-nos justificar um igual sacrifício de seu con­forto e conveniência.
Com os respeitos de,

WINOLD GRUECKNERR

CUYLER DITSON

T.M. D'GORMAN

RAYMOND PLEHN

CHÁS E. SHANKS



CHRISTOPHER BAMFORD
Devolvi o documento a ele, sentei-me e enderecei-lhe um sorriso. Wolfe dobrou-o e enfiou-o sob o bloco de madeira petrificada que lhe serve de peso de papéis. Frost tomou a palavra:
— Isto foi a melhor coisa em que pude pensar para con­seguir seus serviços. Eu teria de contratá-lo. Essa coisa tem de ser esclarecida. Pus Del Pritichard no trabalho e ele ficou desorientado. Eu precisava contratar o senhor de alguma ma­neira. Virá, agora?
O dedo indicador de Wolfe fazia agora um pequeno círculo sobre o braço da cadeira.
— Por que, demônios — indagou — eles assinaram esse papel?
— Porque lhes pedi. Expliquei-lhes. Disse-lhes que nin­guém, salvo o senhor, poderia solucionar o caso e que o senhor precisava ser convencido. Disse-lhes que além do dinheiro e comida, a única coisa que o interessa são orquídeas e que não havia ninguém que pudesse exercer a mínima influência sobre o senhor, salvo eles, os melhores plantadores de orquídeas da América. Consegui cartas de apresentação a eles. Fiz as coisas corretamente. O senhor notará que restringi a minha lista aos melhores. Virá, agora? Wolfe suspirou.
— Alec Martin possui quarenta mil pés em Rutherford. Ele não quis assinar, não?
— Teria assinado se eu o tivesse procurado, Glueckner disse-me que o senhor considera Martins um criador inferior e que recorre a truques. Virá?
— Um artifício — e Wolfe suspirou novamente. — Uma imposição infernal — sacudiu um dedo na direção do jovem. — Ouça aqui. Aparentemente, o senhor está disposto a não permitir que coisa alguma o detenha. O senhor interrompe esses dignos e valiosos especialistas em seus trabalhos e obri­ga-os a assinar esse papel idiota. O senhor me irrita com seus pedidos. Por quê?
— Porque quero que o senhor solucione esse caso.
— Por que eu?
— Porque ninguém mais pode fazê-lo. Espere até ver...
— Sim. Muito obrigado. Mas qual o motivo do seu ex­traordinário interesse pelo caso? A moça assassinada... Que é que ela significava para o senhor?
— Nada — Frost hesitou e continuou: — Ela nada era para mim. Era... uma conhecida. Mas o perigo... diabos o leve... deixe que eu lhe conte. O modo como aconteceu...
— Por favor, Sr. Frost — disse Wolfe secamente — Permita-me. Se a moça nada lhe significava, que posição terá um investigador contratado pelo senhor? Se o senhor não con­seguiu persuadir o Sr. McNair e os demais a virem até aqui, seria inútil a minha ida até lá.
— Não, não seria. Eu expliquei que...
— Muito bem. Outro ponto. Eu cobrarei altos honorários.
O jovem corou.
— Sei que cobra — ele se inclinou para a frente. — Ouça, Sr. Wolfe, eu joguei pela janela um bocado do dinheiro de meu pai desde que comecei a usar calças compridas. E grande fatia do dinheiro, nos dois últimos anos, produzindo espetáculos tea­trais, todos uns fracassos. Mas agora consegui um sucesso de bilheteria. A peça abriu há duas semanas e terá platéia pelo me­nos durante mais dez. Bullets for Breakfast. Terei dinheiro suficiente para pagar-lhe os honorários. Se o senhor apenas pu­desse descobrir de onde veio aquele maldito veneno... e me ajudasse a encontrar uma maneira... Deteve-se. Wolfe acicatou-o:
— Sim? uma maneira...
Frost contraiu as sobrancelhas e respondeu:
— Uma maneira de conseguir livrar minha prima daquele buraco letal. Minha ortoprima, filha do irmão de meu pai.
— Realmente — Wolfe inspecionou-o com os olhos. — O senhor é antropologista?

— Não — e Frost corou novamente. — Como lhe disse, estou no teatro. Posso pagar-lhe os honorários dentro de limi­tes... ou mesmo sem limites. Mas precisamos entender-nos a esse respeito. Naturalmente, quanto ao volume dos honorários, cabe-lhe decidir, mas a minha idéia era dividi-lo, metade para descobrir de onde veio aquele bombom, e a outra metade para afastar minha prima Helen daquele lugar. Ela é tão obstinada como o senhor e o senhor provavelmente terá de ganhar a pri­meira metade dos honorários antes de ganhar a segunda. Mas não me importo se não o fizer. Se conseguir tirá-la sem escla­recer a morte de Molly Lauck, o senhor ganhará de qualquer maneira os honorários. Mas Helen não se deixa amedrontar, isto não dará resultado, e ela tem alguma espécie de idéia im­becil sobre a lealdade que deve àquele McNair, Boyden McNair, Tio Boyd, como ela o chama. Ela o conheceu durante toda vida. Ele é um velho amigo de Tia Callie, a mãe de Helen. Há também aquele viciado em drogas, Gebert... mas é melhor que eu comece de princípio e lhe dê uma ligeira idéia... Hei! O senhor vai agora?


Wolfe empurrara a cadeira para trás e erguera-se. Deu a volta até a extremidade da escrivaninha com sua costumeira deliberação, segura e não desgraciosa.
— Continue sentado, Sr. Frost. São quatro horas e nesse período eu passo duas horas com as minhas plantas lá em cima. O Sr. Goodwin tomará notas dos detalhes do envenenamento da Srta. Molly Lauck... e das suas complicações familiares, se elas parecerem pertinentes. Pela quarta vez, acho que é bom dia, cavalheiro — e dirigiu-se para a porta.
Frost levantou-se com um salto da cadeira e disse numa saraivada:
— Então o senhor vai...

Wolfe parou e voltou-se pesadamente:


— Diabos o levem. O senhor sabe perfeitamente que eu vou! Vou! Mas, digo-lhe uma coisa. Se a assinatura de Alec Martin estivesse naquele grotesco papel, eu o teria lançado na cesta. Ele corta bulbos pela metade. Pela metade! Archie! En­contraremos o Sr. Frost no escritório de McNair amanhã pela manhã, às onze e dez.
Voltou-se e saiu, ignorando os protestos do cliente diante da demora. Através da porta aberto do gabinete, ouvi no sa­guão o gemido do elevador quando ele entrou e a porta bateu.
Llewellyn Frost voltou-se para mim. A cor do seu rosto poderia ter origem na satisfação diante do êxito obtido ou na indignação com o adiamento. Observei-o como cliente — o ca­belo castanho-claro ondulado, penteado para trás, os olhos tam­bém castanhos bem abertos que deixavam em dúvida a ques­tão de inteligência, o grande nariz e a maciça mandíbula, que lhe tornaram o rosto pesado mesmo para o seu metro e oiten­ta e três.
— De qualquer modo, eu lhe estou muito grato, Sr. Go­odwin — voltou a sentar-se. — O senhor foi também inteligente a respeito do papel, evitando que eu incluísse Martin. Fez-me um grande favor e asseguro-lhe de que não esquecerei...
— Número errado — respondi, interrompendo-o com um aceno. — Eu lhe disse, na ocasião, que eu mesmo farei todos os favores a mim mesmo. Sugeri aquilo apenas como um artifício para provocar o aparecimento de alguns negócios e como expe­rimento científico para descobrir quantos ergs seriam necessá­rios para sacudi-lo deste lugar. Não tivemos caso que valesse coisa alguma nos últimos três meses — apanhei a caderneta de notas, um lápis, virei-me na cadeira e puxei a tábua-lingüeta da escrivaninha. — E por falar nisso, Sr. Frost, não se esqueça de que o senhor pensou também naquele artifício. Ninguém espera que eu pense coisa alguma.
— Claro — disse ele, com uma inclinação da cabeça. — Es­tritamente confidencial. Jamais direi coisa alguma a esse respeito.
— Muito bem — abri a caderneta e folheei-a até a página branca seguinte. — Bem, agora a respeito desse homicídio, no qual o senhor quer comprar uma parte. Abra a matraca.
Na manhã seguinte, forcei Nero Wolfe a enfrentar os ele­mentos — o principal dos quais naquele dia era um quente e brilhante sol de março. Disse que o obriguei porque concebera o artifício que o levava a ignorar todos os precedentes. O que o arrancara da porta, furioso e sombrio, de sobretudo, cachecol, luvas, bengala, algo que ele chamava de piugas e um chapéu de pirata tamanho 8 enterrado até as orelhas, era o nome de Winnold Glueckner encabeçando as assinaturas da carta — Glueckner, que recebera recentemente de um agente em Sarawak quatro bulbos de uma Coelogyne pandurata rosada, ja­mais vista antes, e que recusara com desdém a oferta de Wolfe de três mil dólares por dois deles. Sabendo que velho alemão teimoso Glueckner era, eu tinha minhas dúvidas se ele abriria mão daqueles bulbos, não importa quantos assassinatos Wolfe solucionasse a seu pedido. Mas, de qualquer maneira, eu acen­dera o rastilho.
Guiando o carro a partir da Rua 5, nas proximidades do Rio Hudson — onde Wolfe vivia há mais de vinte anos e onde eu morara com ele durante quase a metade desse período — até o endereço na Rua 52, dirigi o seda de modo a mantê-lo tão macio como os dedos de um batedor de carteiras. Exceto por um buraco, ao qual não pude resistir. Na Quinta Avenida, nas proximidades da 43, havia um pequeno buraco ideal, de mais ou menos sessenta centímetros de largura, onde, acho, alguém andara cavando em busca dos vinte e seis dólares que foram pagos aos índios pela ilha de Manhattan. Manobrei para atingi-lo diretamente a uma boa velocidade. Relanceei o olho pelo retrovisor para um vislumbre de Wolfe no assento traseiro e notei que ele parecia amargurado e enfurecido.
— Sinto muito, senhor — disse estão abrindo as ruas. Ele não se dignou a responder.
Pelo que Llewellyn Frost dissera-me no dia anterior a res­peito das instalações da Bojden McNair Incorporated — cujo re­lato completo eu transcrevera na caderneta e lera para Nero Wolfe na noite de segunda-feira — eu não compreendera a extensão das aspirações do proprietário no que tocava à classe social. Encontramos Llewellyn Frost no térreo, imediatamente do lado de dentro da entrada. Uma das primeiras coisas que notei e ouvi, enquanto Frost conduzia-nos ao elevador que nos levaria ao segundo andar, onde se situavam os escritórios e as salas particulares de exposição, foi uma vendedora que parecia um cruzamento entre uma condessa e uma herdeira de petróleo do Texas dizendo a uma freguesa que, a despeito do fato de a es­cassa roupa esporte azul usada pelo modelo ter sido tecida a mão num tear Hign Meadow e criada pelo próprio Sr. McNair, poderia ser vendida por uns irrisórios trezentos dólares. Pensei no marido, senti um calafrio, fiz figa com os dedos e entrei no elevador, observando para mim mesmo: "Lugarzinho sinistro".
O andar acima era igualmente elegante, embora mais tran­qüilo. Não havia à vista mercadorias, vendedores ou fregueses. Percorremos um largo corredor ladeado de portas, a intervalos, todas elas com desenhos e cenas de caçadas aqui e ali no apainelamento. No salão onde entramos ao sair do elevador notei ca­deiras forradas a seda, cinzeiros dourados altos e tapetes grossos de cores profundas. Observei tudo aquilo de relance e, em se­guida, focalizei a atenção na parte da sala oposta ao corredor, onde duas deusas sentavam-se sobre um diva. Uma delas, uma loura de olhos azuis-escuro, era tão bela que tive de abrir bem os olhos para não pestanejar; a outra, mais esguia e amorenada, conquanto não tão notável, ganharia disparada um concurso para Miss Rua Cinqüenta e Dois.
A loura inclinou a cabeça em nossa direção. A mais ma­gra disse:
— Alô, Lew.

Llewellyn Frost inclinou também a cabeça num gesto de assentimento e respondeu.


— Alô, Helen. Vê-la-ei mais tarde. Descendo o corredor, eu disse a Wolfe:
— Viu aquilo? Quero dizer, elas? Você deve circular mais. Que é que são as orquídeas em comparação com um par de bo­tões daqueles?
Ele simplesmente resmungou.
Frost bateu na última porta à direita, abriu-a, e afastou-se para que entrássemos A sala era grande, bastante estreita mas comprida, e havia apenas suficiente folga na elegância para com­portar as necessidades de um escritório. Os tapetes eram tão grossos como na frente e a mobília teria feito as delícias de um decorador. Pesadas cortinas de seda amarela cobriam as jane­las, descendo em pregas até o chão. A luz provinha de candela­bros de vidro do tamanho de barris.
— Sr. Nero Wolfe, Sr. Goodwin, Sr. McNair — disse Frost.
O homem de pernas esqueléticas sentado à escrivaninha levantou-se e estendeu uma pata sem muito entusiasmo.
— Prazer em conhecê-los, cavalheiros. Sentem-se, por fa­vor. Outra cadeira, Lew?
Wolfe pareceu mal-humorado. Olhei em volta para as ca­deiras e resolvi que teria de agir rapidamente, pois sabia que Wolfe era absolutamente capaz de fugir de nós por menos do que aquilo. E tendo-o trazido a essa distância toda, ia agarrá-lo, se possível. Dei a volta em torno da escrivaninha e coloquei a mão na cadeira de Boyden McNair. Ele continuava de pé.
— Se o senhor não se importar. O Sr. Wolfe prefere um assento espaçoso. É apenas um dos caprichos dele. As outras cadeiras são estreitas demais. O senhor se importaria?
Por essa altura, eu empurrara a cadeira até um ponto onde Wolfe podia ocupá-la. McNair esbugalhou os olhos. Puxei uma das delícias dos decoradores para ele, atirei-lhe um sorriso, dei a volta e sentei-me ao lado de Llewellyn Frost.
— Bem, Lew — disse McNair a Frost — você sabe que estou ocupado. Disse a esses cavalheiros que eu concordei em conceder-lhes quinze minutos?
Frost relanceou os olhos para Wolfe e voltou a fitar Mc­Nair. Observei-lhe as mãos, com os dedos entrelaçados, pou­sados sobre a coxa. Os dedos estavam muito apertados.
— Eu disse a eles — respondeu Frost — que o havia con­vencido a recebê-los. Não acho que quinze minutos sejam...
— Serão suficientes. Estou ocupado. Estamos na estação de grande movimento — McNair falava em voz aguda e tensa, e mexia-se continuamente na cadeira — isto é, na sua cadeira temporária. — De qualquer modo — continuou ele — qual é a utilidade de tudo isto? Que é que eu posso fazer? — esten­deu as mãos, consultou o relógio de pulso e olhou para Wolfe.
.— Prometi a Lew quinze minutos. Estou a sua disposição até 11:20.

Wolfe sacudiu negativamente a cabeça.


— A julgar pela história do Sr. Frost, eu precisarei de mais. Duas horas ou mais, diria.
— Impossível — respondeu secamente McNair. — Estou ocupado. Quinze minutos, apenas.
— Isto é absurdo — Wolfe segurou-se nos braços da ca­deira emprestada e levantou-se. Interrompeu a exclamação de Frost com a palma da mão, olhou McNair de cima para baixo e disse tranqüilamente. — Eu não precisava vir aqui para vê-lo, cavalheiro. Fi-lo" em atenção a um gesto idiota, mas cativante, concedido e executado pelo Sr. Frost. Sei que o Sr. Cramer, da Polícia, teve diversas conversações com o senhor e que ele está profundamente insatisfeito com a falta de progresso da in­vestigação que fez do assassinato de uma de suas empregadas. O Sr. Cramer tem alta opinião de minha capacidade. Telefona­rei a ele dentro de uma hora e sugerirei que o traga — e outras pessoas — ao meu escritório — Wolfe sacudiu um dedo. — Por tempo muito maior do que quinze minutos.
Começou a andar. Levantei-me. Frost correu atrás dele.
— Espere — gritou McNair. — Espere um minuto, o se­nhor não compreende! — Wolfe voltou-se e encarou-o. — Em primeiro lugar, por que quer-me intimidar? Isso é ridículo. Cramer não me levaria a seu gabinete, ou a qualquer lugar se eu não quisesse ir, o senhor sabe disso. Naturalmente, Molly... naturalmente o assassinato foi uma coisa horrível. Deus meu, então não sei? E, naturalmente, farei tudo que puder para aju­dar a esclarecê-lo. Mas o que é que adianta? Eu disse a Cramer tudo o que sei. Repassamos os fatos uma dezena de vezes. Sente-se — puxou um lenço do bolso, enxugou a testa e o nariz, começou a colocá-lo no bolso, mudou de idéia e lançou-o sobre a mesa. — Vou ter um colapso. Sente-se. Trabalhei quinze horas por dia preparando a Coleção de Primavera, tempo sufi­ciente para matar um homem, e acontece-me ainda isto. O se­nhor foi atraído para isto por Lew Frost? Que diabo é que ele sabe a respeito de tudo isto? — Olhou furioso para Frost. — Contei e repeti o caso tantas vezes à Polícia que estou enojado de tudo. Dez minutos são, de qualquer maneira, tudo de que o senhor precisará para saber o que sei. E isto é o que piora as coisas, como disse a Cramer, porque ninguém sabe de coisa alguma. E Lew Frost sabe ainda menos — olhou novamente, irritado, para o jovem. — Você sabe muito bem que está usan­do o crime apenas como uma alavanca para tirar Helen daqui — e transferindo o olhar zangado para Wolfe. — O senhor es­pera de mim algo mais do que o mínimo de cortesia? E por que deveria eu mostrar mais?
Wolfe voltara à cadeira, sentara-se sem tirar os olhos do rosto de McNair. Frost começou a falar, mas calei-o com um meneio de cabeça. McNair apanhou o lenço, passou-o pelo rosto novamente e atirou-o mais uma vez sobre a mesa. Abriu a gaveta superior, olhou para dentro, murmurando; "Onde diabo se meteu aquela aspirina?" tentou a gaveta da esquerda, enfiou a mão, tirou um pequeno vidro, do qual sacudiu duas pílulas na palma da mão, verteu um copo de água tirada de uma garra­fa térmica, lançou as pílulas na boca e tomou-as com um gole.
Voltou os olhos para Wolfe e queixou-se, ressentido:
— Estou com uma maldita dor de cabeça há duas semanas. Tomei uma tonelada de aspirinas e não deu resultado algum. Vou ter um colapso nervoso. Essa é a verdade...
Com uma batida, a porta abriu-se. A intrusa era uma mu­lher alta e bonita, em um vestido preto decorado com fileiras de botões brancos. Ela continuou a aproximar-se, olhou em volta, e disse numa voz tresandando à cultura:
— Desculpem-me, por favor — olhou para McNair: — Aquele modelo esporte 1241 o de cashmere de padrão de gato listrado com a faixa oxford de tamanho médio... poderá ser feito em dois tons de lã shetland natural, com motivos de cesto em vez de gato?


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