Revolução de Getulio Vargas (1930)



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Música na Revolução de 1930/Introdução

Entre 1929 e 1932, há uma explosão na produção de música sobre política no Brasil. Em apenas quatro anos foram compostas, gravadas e cantadas mais de meia centena de marchas, sambas, modas de viola, emboladas, canções e hinos sobre os principais acontecimentos daquele período crítico da vida nacional. A convergência de três fatores explica o milagre da multiplicação das músicas: a) a crise da República Velha e a Revolução de 30; b) a chegada ao Brasil do sistema elétrico de gravação; e 3) a entrada do país na era do rádio.

Embora Washington Luís tenha subido ao poder em 1926 em meio a um clima de distensão e de otimismo, o ambiente político deteriorou-se rapidamente em virtude das dificuldades econômicas, que se agravaram de forma notável com a crise de 1929 e a queda dos preços internacionais do café, e do crescimento do inconformismo das classes médias e dos setores mais modernos das oligarquias com a esclerose do sistema político brasileiro.

Esse quadro agravou-se ainda mais quando Washington Luís, ao aproximar-se o fim de seu governo, decidiu romper com a política do “café com leite”, através da qual os estados de São Paulo e de Minas Gerais alternavam-se na Presidência da República e, juntos, comandavam o país. Indicou como seu sucessor Júlio Prestes, paulista como ele. Preterido, o presidente de Minas, Antônio Carlos de Andrada, lançou a candidatura dissidente do gaúcho Getulio Vargas, produzindo uma cisão irreparável no precário equilíbrio existente entre as diferentes oligarquias rurais. O país assistiu, então, a uma campanha eleitoral apaixonada, à qual não faltaram traições nos bastidores, enfrentamentos nas ruas e comícios dissolvidos à bala. Julio Prestes ganhou nas urnas, mas Getulio Vargas venceu nas armas. Não aceitando o resultado do voto, que todos sabiam viciado, Getulio levantou o Rio Grande do Sul e boa parte do país e, em menos de três semanas, a República Velha estava no chão. Em seguida, com forte apoio popular, centralizou rapidamente o poder, nomeou interventores em todos os estados e prometeu mudar os costumes políticos do país. É evidente que um período político tão intenso e atribulado teria de fornecer muita matéria prima para nossa música popular.

O segundo fator que contribuiu fortemente para a explosão da produção musical em geral e da música política, em particular, naqueles anos foi a introdução no país, em 1926, das gravações elétricas, em substituição ao sistema mecânico. As inovações técnicas provocaram uma mudança espetacular na indústria fonográfica brasileira. Antes de mais nada, propiciaram significativa melhoria na qualidade das gravações e, por tabela, nas características das músicas lançadas a partir daí. Como passou a ser possível o registro de sons suaves e com nuances, os intérpretes não precisavam mais berrar, o que abriu espaço para uma nova geração de cantores, com voz mais aveludada e interpretação mais íntima. As orquestrações também se transformaram sensivelmente, tornando-se mais melodiosas e menos sacudidas, com os metais recuando para dar lugar aos violões e pianos. Uma comparação entre duas músicas gravadas pelo mesmo cantor, Francisco Alves – “Papagaio Louro”, em 1920 pelo sistema mecânico, e “Passarinho do Má”, em 1927 pelo método elétrico –, não deixa dúvidas: a mudança foi da água para o vinho.


Mas as gravações mecânicas não afetaram apenas a qualidade dos registros e o estilo das interpretações. Mudaram também a própria feição da nossa indústria fonográfica. A Casa Edison, que até 1926 praticamente detinha o monopólio das gravações no país, passou a enfrentar nos anos seguintes a concorrência de novas empresas que se implantaram no Brasil, como a própria Odeon, de quem a Casa Edison antes era representante, a Victor, a Columbia e a Brunswick. Várias delas abriram escritórios em São Paulo, diversificando a base territorial da indústria fonográfica e tornando-a mais sensível a outros gêneros e ao gosto de outros públicos. Resultado: aumentou enormemente o número de discos gravados no país. Em 1928, a Casa Edison lançou cerca de 350 músicas. Em 1929, reunidas, todas as gravadoras fizeram mais de 750 lançamentos.

O terceiro fator que concorreu para a explosão musical do final da década de 30 foi a expansão e a popularização das transmissões radiofônicas no país. Embora a primeira emissora no Brasil, a Radio Sociedade do Rio de Janeiro, tenha sido fundada em 1922, as rádios só começaram a se transformar efetivamente em veículos de comunicação e de entretenimento de massas na segunda metade da década de 20. Antes disso, prevaleciam as rádios-sociedade, que funcionavam como clubes, dependendo, para sua manutenção, das mensalidades pagas pelos associados. A elite, e não o povão, era seu público. Somente a partir de 1926, com a fundação da Mayrink Veiga, no Rio, o rádio no Brasil começou a adquirir uma feição nitidamente popular, com a contratação de artistas e cantores e a transmissão de programas noticiosos, humorísticos e musicais dirigidos para as multidões. O exemplo logo foi seguido por outras emissoras, tanto na capital da República como nos estados, e em poucos anos o Brasil entrou na chamada “era do rádio”. Embora o apogeu desse período tenha ocorrido somente após a criação da Rádio Nacional, em 1936, os dez anos precedentes já se caracterizaram pela intensa e crescente penetração do rádio na vida nacional. Por toda parte, compravam-se aparelhos de recepção e eram comuns, nos tetos das casas, as antenas improvisadas para captar as transmissões.

Nesse ambiente, o rádio passou a ser visto como um instrumento decisivo para a modernização do país, sentimento claramente sintetizado na marchinha Ge-Gê, do grande Lamartine Babo, lançada logo depois do fim da República Velha: “Só mesmo com revolução/ Graças ao rádio e ao parabellum/ Nós vamos ter transformação/ Neste Brasil verde-amarelo”. A famosa pistola automática alemã serviria para destruir a resistência dos que se opunham à criação de um país moderno e justo, enquanto o rádio seria o veículo para formar as consciências que dariam sustentação às transformações necessárias. Essa visão revelou-se ingênua, é verdade, mas mostra a importância que se atribuía ao papel do rádio nos embates políticos que dividiram o país no final dos anos 20 e nas décadas seguintes.

Revolução na indústria fonográfica, revolução nas comunicações, Revolução de 30. Era inevitável que essa coincidência tivesse fortíssimo impacto na produção de música política no país. Algumas das fontes primárias das composições continuaram a ser as mesmas da República Velha: o carnaval, as festas populares e o teatro de revista. Outras foram substituídas – os cafés-dançantes e os chopes-berrantes, por exemplo, entraram em declínio diante do crescimento do rádio. E novas vertentes deram o ar de sua graça. É o caso da música caipira, que, pelo menos até a década de 50, terá forte e constante presença no registro dos fatos políticos. É verdade que, na forma de espetáculos e shows, as modas de viola já tinham público fiel e cativo desde 1915, quando Cornélio Pires começou a exibir com grande sucesso suas “Conferências caipiras” em teatros, cinemas e circos do interior de São Paulo. Mas a música do interior só conseguiu romper o isolamento e fazer-se notada pelo público urbano a partir de 1929, quando o mesmo Cornélio Pires, vencendo a resistência da indústria fonográfica, lançou seu próprio selo independente, em gravação da Columbia. Vendeu música caipira que nem pão quente e ensinou o caminho das pedras às gravadoras. Dois anos depois, todas elas tinham duplas contratadas: Mariano e Caçula, Mandi e Sorocabinha, Zico Dias e Ferrinho, Jararaca e Ratinho. Na mesma época, outro filão da música política seria descoberto no Nordeste, com as emboladas, os frevos e desafios de Minona Carneiro, Manezinho Araújo e Nélson Ferreira.

Assim, nestes CDs sobre a Revolução de 30, os gêneros musicais já não são os mesmos do CD sobre a República Velha. Praticamente somem as polcas, tangos e cançonetas, tão comuns nas primeiras décadas do século XX. Permanecem em alta os sambas e, principalmente, as marchinhas. E entram em cena as modas de viola, as emboladas e os hinos – estes últimos, numa efêmera aparição, na esteira do fervor cívico que se seguiu à vitória da Revolução de 30. Já as modas de viola e as emboladas estavam chegando para ficar. Basta dizer que o número de modas de viola neste CDs é apenas inferior ao de marchinhas – nove contra dezesseis. Já as emboladas, com cinco aparições, chegam a suplantar os sambas, com quatro.

Dois CDs acompanham esse livro. O primeiro reúne músicas sobre o período que vai das eleições de 1929/30 à vitória da Revolução de 30. O segundo agrupa composições que mostram a euforia popular com a virada, gozam os figurões da antiga política, prestam homenagens aos heróis da luta contra a República Velha, cantam as mudanças em curso e, ao final, surpreendem-se com a lentidão e a timidez das transformações.

O primeiro CD abre-se com “Minas e São Paulo” (1929), que dá conta das primeiras articulações para as eleições de 30, quando os dois estados, embora se estranhando, ainda não haviam chegado ao rompimento. As seis músicas seguintes – “ Mas que trapaiada”, “Seu Julinho vem”, “É sim. senhor”, “Eu ouço falar”, “Si eu fosse presidente” e a paródia de “Casa de Caboclo”, todas de 1929 – referem-se ao período em que fica clara a preferência de Washington Luís por Júlio Prestes, mas as negociações entre Minas Gerais, o Rio Grande do Sul e a Paraíba ainda não haviam produzido a formação da Aliança Liberal e o lançamento da candidatura de Getulio. Registre-se, aliás, o surgimento de uma intensa polêmica musica em torno do mote de que “Seu Julinho vem”, lançado por Freire Jr. “Vem para ganhar vintém”, responde Eduardo Souto. A tréplica é de Sinhô: “Ele não precisa disso / E de aproveitar também”. O debate seguiria aceso até aceso até o triunfo da Revolução de 30, voltando à tona em músicas como “O barbado foi-se”, “Taí, seu Getúlio se foi” e “Bico de lacre não vem mais”. O verbo ir, como se vê, não saiu do topo da parada dos sucessos naqueles anos tumultuados.

Mas, voltando à vaca fria, depois de muitas idas e vindas, Getulio lança-se na disputa pelo Palácio do Catete. “É sopa”, “Harmonia, harmonia”, “É no toco da goiaba” e “Paulista e Gaúcho”, todas elas gravadas em 1929, não escondem suas simpatias por Julio Prestes – afinal, na República Velha, a candidatura abençoada pelo presidente era, invariavelmente, a candidatura vitoriosa. Mas, sinal dos tempos, algumas composições procuram subir em cima do muro, como “Eu sou é Úlio” (1930), que, matreiramente, fica com o finalzinho do primeiro nome dos dois candidatos, para não se “meter no barulho”, e “Tempo Ruim” (1930), que revela dúvidas sobre o resultado das eleições: “Tá feia a situação/ O Vargas disse que ganha / Mas eu não sei se ganha ou não”. Já “Olha o pingo” não só toma o partido do candidato oficial como passa a idéia de que Getúlio estaria desesperado com a derrota iminente.

As duas músicas seguintes abordam o período que vai de 1º de março de 1930, dia das eleições vencidas por Júlio Prestes, a 3 de outubro, início da Revolução de 30. Em “Depois das eleições”, pede-se que os derrotados nas urnas aceitem o resultado: “Julio Prestes ganhou à força da votação / Querem impor o tal Getulio com a tal Revolução / Mas o que o povo quer é um governo bão / Que acabe com a crise e melhore a situação”. Já em “Heróis brasileiros”, chora-se o assassinato de João Pessoa, vice na chapa de Vargas, morto em julho num crime passional, mas ao qual, num primeiro momento, atribuiu-se intenções políticas. O tempo estava esquentando.

E, então, “Rubentô a revolução”, como canta a moda de viola de Mandi e Sorocabinha. As tropas do Rio Grande do Sul deslocaram-se em direção ao Rio de Janeiro e, na fronteira do Paraná com São Paulo, toparam com as forças legalistas. A batalha decisiva, porém, nunca houve – a embolada “Itararé” explica por quê. Cabe ainda a música caipira acompanhar, quase em tempo real, as peripécias finais do levante vitorioso. “Isidoro já vortô“ delira com o retorno a São Paulo do chefe da Revolução de 24. “A Revolução de Getulio Vargas” acompanha a entrada na capital federal das tropas vindas do Sul. A República Velha chegara ao fim.

Simbolicamente fecham o primeiro CD três marchinhas que brincam com a mudança do poder. “Taí, seu Getúlio foi” comemora a queda da Bastilha do Cambuci, como era chamada a delegacia do bairro da capital paulista para onde eram remetidos os presos políticos durante a República Velha. “O Barbado foi-se” faz o resumo da ópera: “Doutor barbado / Foi-se embora / Deu o fora / Não volta mais”. Nem poderia, como explica “Bico de lacre não volta mais”: “Num forte foi veranear / Copacabana é boa praia / Mas pra tomar banho de mar”, referindo-se ao forte onde ficou preso Washington Luís, depois de ser deposto.

O segundo CD começa com muita comemoração. São homenageados os que voltam do exílio, como Isidoro Dias Lopes e Miguel Costa, em “Se os revortoso perdesse” e “O meu viva quero dá”; os que tombaram na luta, como os 18 do Forte (“Os 18 de Copacabana”) e o vice de Vargas (“A morte de João Pessoa” e “Hino a João Pessoa”); e os que estão subindo ao poder (“Três de Outubro”, “24 de outubro”, “Hino a Juarez”, “Leão do Norte” e “Ode a Revolução”). É uma época de muitos hinos, corais, marchas triunfais.

Felizmente, logo o país logo volta a mostrar seu lado bem-humorado e descontraído. Em “Verbo ser”, “Nega baiana”, “Nega Maria”, “O Cavanhaque”, “U Cavagnac”, “A canoa virou”, “Gegê” e “Lalá”, canta-se com irreverência e malícia a virada política. Por exemplo: “Lalá, você diz que é liberá / Então vamos nós dois / Nos disgraçá nesse carnavá”.

As três músicas seguintes referem-se à mudança do poder no estados, com a nomeação dos todo-poderosos interventores. Em “O teu cabelo não nega”, Lamartine Babo, na maior empolgação, vai logo avisando à mulata: “Fui nomeado seu tenente interventor”. Em “Se eu fosse interventor”, Manezinho Araújo sintetiza o que faria se chegasse ao poder: “Dava liberdade ao povo de fazer dois carnavá / Meus parentes, coitadinhos, eu podia colocá / Garanto dessa maneira, ninguém vinha me xingá”. Em “Governadô, governadô”, a Turma do Bonfim também registra com bom humor a troca de guarda nos estados: “Não há mais um só tenente / Que não seja interventor”.

Mas logo abre-se a temporada das decepções. Em Recife, Nélson Ferreira precisa compor uma marchinha, “A canoa afundou” (1931), para lembrar ao interventor Lima Cavalcanti que houve uma revolução no país e, portanto, não há motivo para dar boa vida ao pessoal do antigo regime: “Não solte essa cambada à toa”. Decepção maior ainda é a de Juó Bananère, em “Non fui ista a inrevoluçó que io sugné” (1931). No dialeto macarrônico dos emigrantes italianos de São Paulo, ele se dá conta de que o movimento de 30 não havia mudado grande coisa no dia-a-dia das pessoas comuns. E arremata, consternado: “Que rivoluzione maise vagabonda”.
A Revolução de 30 estava começando a tropeçar nas próprias pernas.

1- É sim, senhor (1929)


Autor: Eduardo Souto
Intérprete: Francisco Alves
Gênero: Samba
Gravadora: Odeon

O samba de Eduardo Souto, gravado no início de 1929, lembra as credenciais de Washington Luís, presidente da República, mas quer mesmo é dar palpite na sua conturbada sucessão. Paulista, embora nascido em Macaé (RJ), ele havia cunhado o lema “governar é abrir estradas” e subido ao poder prometendo substituir o mil-réis pelo cruzeiro – promessa, aliás, que não chegou a cumprir.

Seu candidato na sucessão presidencial que despontava no horizonte era Júlio Prestes, ou simplesmente Julinho, também paulista – mas, nesse caso, quatrocentão. A música não esconde uma ponta de ironia em relação os dois. Tanto que polemiza com a música “Seu Julinho vem”, de Freire Jr., respondendo: “Vem, vem, vem / Pra ganhar vintém / Vem, Seu Julinho,vem / Pra aproveitar também”. E, por isso ,logo levaria o trôco de Sinhô (ver “Eu ouço falar”, a seguir).

“Ele é paulista?
É sim, senhor.
Falsificado?
É sim, senhor.
Cabra farrista?
É sim, senhor.
Matriculado?
É sim, senhor.

Ele é estradeiro?


É sim, senhor.
Habilitado?
É sim, senhor.
Faz o cruzeiro?
É sim, senhor.
Povo dourado,
É sim, senhor.

Vem, vem, vem,


Pra ganhar vintém
Vem, seu Julinho, vem
Aproveitar também.
(Bis)”

2- É Sopa (1929)


Autor: Eduardo Souto
Gênero: Francisco Alves
Gravadora: Odeon

A marchinha de Eduardo Souto recorre ao futebol para descrever as forças que iriam se defrontar na campanha de 1929/1930. De um lado, o combinado A, o time do continuísmo, tendo como capitão “Seu” Julinho Júlio Prestes, presidente da província de São Paulo; do outro, o combinado B, da oposição, capitaneado por “Seu Tonico” (Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, presidente da província de Minas Gerais).

O doutor Macaé, árbitro do jogo, era o próprio presidente da República, Washington Luís (embora paulista, nascera em Macaé, no Estado do Rio).
Antônio Carlos briga com o juiz e é posto para fora do jogo. Vai se aliar com os gaúchos, liderados por Getúlio Vargas, e os paraibanos, comandados por João Pessoa, numa chapa dissidente, contra a maioria dos estados, chefiados pelo Catete.

Como os dois lados apregoavam que venceriam com facilidade, a marchinha fez do “É sopa, é sopa, é sopa” seu estribilho. Não se descobriu quem é o “seu Tomé” que aparece ao final da música _ aquele que foi para o gol e levou uma bruta lavagem.



“Vai começar o grande jogo para a conquista da taça oferecida pelo Catete Futebol Clube
(gritos)
Combinado B: “captain” Seu Tonico
(gritos)
Combinado A: “captain” Seu Julinho
(gritos)
Juiz: doutor Macaé, muito digno presidente do Catete Futebol Clube
Seu Tonico sem razão.
Ao juiz desatendeu,
E foi tal sua afobação,
Que a cabeça até perdeu.
O juiz, que é da barbada,
Seu Tonico pôs pra fora.
E gritou pra rapaziada:
Toca o bonde, tá na hora!

Pra vencer o combinado brasileiro.


Diz Getulinho: “É sopa, é sopa, é sopa”.
Paraibano com gaúcho e com mineiro.
Diz o Julinho: “É sopa, é sopa, é sopa”.

Foi pro gol o seu Tomé,


Bonde errado e sem coragem.
A torcida não fez fé.
Houve então bruta lavagem.
Pra jogar bem futebol
Só paulista e carioca.
Chova muito ou faça sol,
É no pau da tapioca.

Pra vencer o combinado brasileiro


Diz Getulinho: “É sopa, é sopa, é sopa”.
Paraibano com gaúcho e com mineiro,
Diz o Julinho: “É sopa, é sopa, é sopa.

3 - Seu Julinho vem (1929)


Autor: Freire Jr
Intérprete: Francisco Alves
Gênero: Marcha
Gravadora: Odeon

A marchinha é quase uma peça de campanha de Júlio Prestes, candidato oficial a presidente da República, mas nem por isso deixa de ser saborosíssima. Fez grande sucesso no carnaval de 1929, e foi cantada numa revista teatral de abril do mesmo ano.

"Seu Toninho" é Antônio Carlos de Andrada, presidente de Minas Gerais (“terra do leite grosso”), que se recusava a aceitar a indicação de “Seu Julinho”, de São Paulo, rompendo com a política do café-com-leite - um mandato no Palácio do Catete para a elite paulista, outro para elite mineira -, que vigorou durante quase toda a República Velha. A referência ao Rio de Janeiro explica-se: o Rio era a capital do país, a sede do poder.

“Ô seu Toninho,
Da terra do leite grosso,
Bota cerca no caminho
Que o paulista é um colosso.

Puxa a garrucha,


Finca o pé firme na estrada
Se começa o puxa-puxa
Faz o seu leite coalhada.

Seu Julinho vem, seu Julinho vem,


Se o mineiro lá de cima descuidar.
Seu Julinho vem, seu Julinho vem,
Vem mas, puxa, muita gente há de chorar.

Ô seu Julinho,


Sua terra é do café.
Fique lá sossegadinho,
Creia em Deus e tenha fé.
Pois o mineiro
Não conhece a malandragem
Lá no Rio de Janeiro.
Ele não leva vantagem.

Seu Julinho vem, seu Julinho vem,


Se o mineiro lá de cima descuidar.
Seu Julinho vem, seu Julinho vem,
Vem mas, puxa, muita gente há de chorar.”


4 - Os 18 de Copacabana (1930)


Autor: Henrique Vogeler e Horácio Campos
Intérprete: Gastão Formenti
Gênero: Hino
Gravadora: Brunswick

A música, posterior à Revolução de 30, presta homenagem aos “18 do Forte”, como ficaram conhecidos os jovens oficiais que se revoltaram em julho de 1922, no Forte Copacabana, defendendo reformas no sistema político e nas instituições militares. A sublevação marcou o nascimento do movimento tenentista, que, nos anos seguintes, em vários episódios, como a Revolução de 24 em São Paulo e a Coluna Prestes, enfrentaria de armas na mão a República Velha.

Em outubro de 1921, o Correio da Manhã havia publicado uma série de cartas ofensivas ao Exército, atribuídas ao candidato oficialista à Presidência da República, Artur Bernardes. Vitorioso Bernardes, os jovens oficiais rebelaram-se, no dia 2 de julho, para impedir sua posse. Receberan o apoio do comandante do Forte de Copacabana, Capitão Euclides Hermes da Fonseca, filho do marechal Hermes da Fonseca, e de outras guarnições do Distrito Federal, do Estado do Rio de Janeiro e de Mato Grosso.

Na manhã do dia 5, o 3º Regimento de Infantaria tomou posição perto do forte, que logo passou a receber fogo cerrado. Eram 301 revolucionários - oficiais e civis voluntários - enfrentando as forças legalistas. A certa altura dos acontecimentos, Euclides Hermes e Siqueira Campos sugeriram que aqueles que não quisessem combater abandonassem o forte: restaram 29 combatentes. Por estarem acuados, o Capitão Euclides Hermes saiu da fortaleza para negociar. Os 28 que permaneceram, decidiram então "resistir até a morte", partindo em marcha pela Avenida Atlântica rumo ao Leme. Durante os tiroteios, dez deles dispersaram-se e apenas 18 integravam, ao final, o pelotão suicida.

Após a morte de um cabo, ainda no asfalto, com uma bala nas costas, os demais saltaram para a praia, onde ocorreram os últimos choques. Os únicos sobreviventes foram Siqueira Campos e Eduardo Gomes, feridos.

“O Brasil, Sul a Norte, se ufana
Desse sangue de efeito exemplar
Os 18 de Copacabana
Derramaram viris a lutar.

Este lance de nobre heroísmo


De pujança eloqüente e viril
Bem atesto o robusto civismo
Desses nossos irmãos do Brasil

Epopéia cintilante


Mas a dor se apodera de nós
Chora a Pátria a saudade incessante
Desse belo punhado de heróis

A Nação enlutada pranteia


Esses bravos com trágica dor
Patriotas de sangue na veia
Brasileiros de excelso valor

Liberdade, na boca esse grito


A oprimida Nação lhes ouviu
Seja sempre por todos bendito
O ideal que na morte os uniu

Epopéia cintilante


Mas a dor se apodera de nós
Chora a Pátria de saudade incessante
Desse belo punhado de heróis.”



05 - Revolução de Getulio Vargas (1930)


Autor: Zico Dias e Ferrinho
Intérprete: Zico Dias e Ferrinho
Gênero: Moda de Viola
Gravadora: Victor

É impressionante a rapidez da música caipira na resposta aos acontecimentos de 1930. Essa moda de viola foi lançada em dezembro, menos de dois meses depois da queda de Washington Luís, portanto.

Saúda a vitória da Aliança Liberal e a volta de Miguel Costa a São Paulo. O general, que havia participado da Revolução de 24 e, em seguida, liderado a Coluna Miguel Costa - Carlos Prestes, era uma figura lendária em São Paulo. Retornando do exílio na Argentina, recuperou a cidadania brasileira, cassada por Washington Luís, sendo nomeado comandante da Força Pública de São Paulo.

Nos anos seguintes, Costa seria um dos principais líderes dos revolucionários na luta contra as forças políticas tradicionais de São Paulo, conflito que desembocaria na Revolução de 32 (ver “Legião Revolucionária”).



“Todo o povo do Brasil deve agora estar contente
O doutor Getulio Vargas é o nosso presidente
Tudo isso foi muito triste, deu vontade de chorar
Mas logo eu vi anunciado nas coluna do jorná
Que o senhor vinha no Rio, ai, pro Brasil embelezar
Aiê, ele cumpriu seu destino e(......) pro hospitá

O Brasil tava na reme e a boiada (?) embelezar


Depois que o Getulio veio no Rio para governar
Teve baile, teve missa para o mundo se alegrar
Aiê, ele deu sua palavra, nomeou o nosso generá.

O doutor Getulio Vargas é um homem de perfeição


Pois ele ganhou no voto, mas ficou na escuridão
Para ter o prometido, foi preciso a Revolução
Aiê, ele cumpriu o seu dever, ai com armas lá na mão

Quem fez essa modinha recorda a Revolução


Pra contar pros brasileiro que sofreram judiação
A noticia que corria, eu ouvi o povo falar,
Miguel Costa na Argentina não podia mais voltar
Agora tá em São Paulo, no Brasil, vem adorar
Aiê, ele cumpriu seu dever, aiá, soa bem naturá



06- Heróis brasileiros (1930)
Autor: Roberto Splendore e Orfeo

Intérprete: Ubirajara
Gênero: Hino
Gravadora: Victor

A gravação deste hino é de novembro de 1930, mas a impressão que fica é que ele foi composto entre julho e outubro de 1930. Se fosse posterior a outubro, certamente cantaria de alguma maneira a vitória da Revolução de 30. E com certeza não é anterior a julho, porque os versos sobre o “massacre da vida nos jardins da morte, lá no Norte” referem-se ao assassinato de Epitácio Pessoa, ocorrido naquele mês.

O hino mostra que, apesar da derrota nas eleições, a Aliança Liberal continuou ativíssima, não apenas articulando a deflagração do movimento armado, mas também disputando a opinião pública da época com todos os instrumentos a seu alcance, inclusive músicas e versos.

“Quando lá no Norte
(.....) a comitiva
Nos jardins da morte,
Alguém massacra a vida

Não chega a apagar


A sacra luz de um ideal
Que hoje tanto brilha
(....................)no quintal

Getúlio, Getúlio


Herói para varonil
Estrela pungente
No céu do Brasil

Getúlio, Getúlio


E a calma febril(?)
Tu vais aprender
................do Brasil

E o nome, então,


do herói sacrificado
Nós em cada canto
do nosso Brasil amado
Que em nós confia
Para lutar, para vencer
E a pátria nos (.....)
Para poder livre viver

Getúlio, Getúlio


Herói varonil
Estrela pungente
No céu do Brasil

Getúlio, Getúlio


E a calma febril
Tu vais aprender

07-Itararé (1930)


Autor: Jararaca
Intérprete: Jararaca
Gênero: Embolada
Gravadora: Columbia

“Itararé” talvez seja uma das músicas mais conhecidas sobre a Revolução de 30. A 10 de outubro, Getúlio partiu de trem do Rio Grande do Sul, em direção ao Rio de Janeiro, à frente de suas tropas. Avançou sem encontrar resistência significativa até a fronteira do Paraná com São Paulo, nas proximidades da cidade de Itararé, onde havia uma forte agrupação das forças legalistas.

O estado-maior revolucionário marcou para o dia 25 o ataque a Itararé, decisivo para abrir caminho para a tomada de São Paulo, mas no dia 24 Washington Luís foi deposto e preso no Rio de Janeiro por um grupo de oficiais-generais, que se constituíram em Junta Governativa Provisória e decretaram o cessar-fogo. Em homenagem à batalha que ficou famosa mas não houve, o humorista Aparício Torelly mais tarde adotaria o pseudônimo de Barão de Itararé.

A música registra também o avanço das tropas revolucionárias no Norte do país, sob o comando de Juarez Távora. Um dos mais ativos integrantes do movimento tenentista, Juarez desempenhou papel de destaque na Coluna Prestes. Preso nos arredores de Teresina (PI), no início de 1926, fugiu da cadeia no ano seguinte, fugiu da prisão, passando a viver na clandestinidade. Em fevereiro de 1929, exilou-se na Argentina. Em fevereiro de 1930, retornou clandestinamente ao Brasil. Comandou a Revolução de 30 no Norte e no Nordeste.



“Quando vim de minha terra
Vim brigado com a muié
Invêis di vim a cavalo
Eu vim mesmo de a pé
Sou filho do Rio Grande
Da cidade de Bagé
Vim numa marcha forçada
Vim parar em Itararé

Itararé, Itararé


Tava tudo em pleno fogo
Churrasco, mate, café

Espingarda, carabina


Revolver, laço e cuité
Metralhadora e facão
(...............)
(.............) e granada.
Carro forte, Chevrolet
Cavalaria e trincheira
Tudo tinha em Itararé

Itararé, Itararé ...

Tudo ali se reunia
General e coroné
Cabo, sargento e sordado
Pai, criança e muié
A gente andava deitado
E corria mesmo em pé.
Tinha cobra na picada
Mas chegamos em Itararé

Itararé, Itararé...

General Juarez Távora
Montado num corcé
Dominando todo o Norte
Que (.............) do Norte é
De Sergipe ao Amazonas
Os chefes batendo pé
Quando ia pra Bahia
Nós ia pra Itararé

Itararé, Itararé...

Que batuta os nossos chefes
Todos os dias estão em pé
Que nunca temeram a morte
Dizendo por São José
Vamos tomar o Catete
Porque o povo requer
Agora você me diga
Se é assim mesmo ou não é”


08 - Samba da boa vontade (1930)

Autor: João de Barro (Braguinha) e Noel Rosa
Intérprete: João de Barro (Braguinha), Noel Rosa e Bando dos Tangarás
Gênero: Samba
Gravadora: Parlophon

Vitoriosa a revolução de 30, as autoridades deflagraram uma campanha para convencer o povo a não perder o otimismo diante das dificuldades econômicas provocadas pela crise de 29 e pela derrubada dos preços do café. O lema era “É melhor apertar agora para que a fartura venha depois”.

Noel Rosa e Braguinha, fazendo eco ao sentimento popular, trataram logo de gozar o discurso oficial: “Viver alegre hoje é preciso/ Conserva sempre o teu sorriso/ Mesmo que a vida esteja feia/ E que vivas na pinimba/ Passando a pirão de areia”. O “aterro de café”, nas últimas estrofes do samba, refere-se à decisão do governo de jogar ao mar ou queimar três milhões de sacas de café, na tentativa de segurar o preço do produto.

“Viver alegre hoje é preciso
Conserva sempre o teu sorriso
Mesmo que a vida esteja feia
E que vivas na pinimba
Passando a pirão de areia

Gastei o teu dinheiro
Mas não tive compaixão
Porque tenho a certeza
Que ele volta à tua mão
E, se ele acaso não voltar
Eu te pago com sorriso
E um recibo hás de pagar
(Nesta questão solução sei dar)

Neste Brasil tão grande
Não se deve ser mesquinho
Pois quem ganha na avareza
Sempre perde no carinho
Não admito ninharia
Pois qualquer economia
Sempre acaba em porcaria
(Minha barriga não está vazia)

Comparo o meu Brasil
A uma criança perdulária
Que anda sem vintém
Mas tem a mãe que é milionária
E que jurou, batendo pé,
Que iremos à Europa
Num aterro de café
(Nisto eu sempre tive fé)”.

09 - Seu Getúlio ou Gê-Gê (1931)


Autor: Lamartine Babo
Intérprete: Almirante, com o Bando de Tangaras.
Gênero: Marchinha
Gravadora: Parlophon

A marchinha "Gê-Gê", apelido carinhoso usado pelos partidários de Getúlio Vargas, canta com bom humor e talento as esperanças desatadas pela Revolução de 30. Parabélum é o nome de uma pistola automática muito usada na época; Encantado é um bairro da Zona Norte do Rio; encarnado (vermelho) era a cor dos lenços dos revolucionários de 1930.



Comentário:

A música "G-e-ge" de Lamartine Babo de 1930, é conduzida em ritmo de marcha, enquanto a letra evoca claramente o artifício de memorização do "Be-a-ba" para firmar na cabeça do povo o nome do novo líder, Getúlio Vargas. Tem clara conotação de propaganda política, com exaltação da nova ordem para a população. A música defende a mudança a qualquer custo, uma vez que a própria Revolução de 1930 só havia logrado sucesso pela força das armas, com a tomada de poder pelos militares e fazendeiros, tendo por liderança o gaúcho Getúlio Vargas



Contexto e Autores:

Essa música que também tinha o título de ''Seu Getúlo'' foi composta por Lamartine Babo, que às vezes , nessa época , assinava também como ''dr. Boato'' . Foi gravada por Almirante e o Bando dos Tangarás com participação de Noel Rosa . Então a formação era: Noel , Braguinha , Almirante , Alvinho e Henrique Brito, além é claro de Lamartine (às vezes), o Luperce e o Paulo Neto. A gravação é de janeiro de 1931, portanto, quando Getúlio já estava no poder. Por isso, provavelmente essa marcha tenha sido executada como "jingle" político, na construção do apoio ao golpe: "... graças ao rádio e ao parabelo...", quer dizer ,custe o que custar vai ter transformação, mudança. Com o rádio, que era o símbolo da comunicação de massa que se iniciava na época, possibilitando os meios para uma política de massas até então inexistente no Brasil. e o parabelo ( marca de um revolver da época) símbolo da força. A música propõe a transformação política sem perder as raízes da cultura brasileira e ao mesmo tempo tirando a hegemonia governamental das mãos do eixo São Paulo - Minas Gerais. Isto porque, em "a menina do Encantado...ao ver o povo de encarnado, sem se pintar mudou de cor...", podemos perceber o dito acima. Encantado é um bairro do Rio de Janeiro e encarnado simboliza a cor vermelha, que por sua vez é a cor da oposição, da esquerda e dos lenços dos caudilhos gaúchos. Não se quer com a música fazer apologia ao comunismo,que também usava essa cor como símbolo. A mocinha do Encantado provavelmente ficou branca ao ver o povo nas ruas e envolvido com a mudança política, tão ao contrário do que se estava acostumado, na capital federal, durante a Primeira República (na qual o seu "papai" tinha sido senador). Ironicamente, a música afirma o espanto e o medo das elites cariocas.



"Só mesmo com revolução
Graças ao rádio e ao parabélum,
Nós vamos ter transformação
Neste Brasil verde-amarelo
Ge-e-Gê-/t-u-tu/l-i-o-lio/ Getúlio

Certa menina do Encantado,
Cujo papai foi senador
Ao ver o povo de encarnado
Sem se pintar mudou de cor
Ge-e-Gê-/t-u-tu/l-i-o-lio/ Getúliol

10 - O teu cabelo não nega (1931)


Autor: Irmãos Valença e Lamartine Babo
Intérprete: Castro Barbosa
Gênero: Marcha
Gravadora: Victor

A marchinha, uma das mais famosas de todos os tempo no Brasil, faz referência à nomeação de tenentes como interventores na maioria dos estados logo depois da Revolução de 30.



“O teu cabelo não nega, mulata
Que és mulata na cor
Mas como a cor não pega,
Mulata, eu quero teu amor

Tens um sabor bem do Brasil


Tens a alma cor do de anil
Mulata, mulatinha, meu amor
Fui nomeado seu tenente interventor

Quem te inventou, meu pancadão


Teve uma consagração
A lua te invejando fez careta
Porque, mulata, tu não és deste planeta

Quando meu bem vieste à terra


Portugal declarou guerra
A concorrência então foi colossal
Vasco da Gama contra o batalhão Naval




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