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O QUARTO PRESSUPOSTO
Paulo Cesar Sandler1
O “amor apaixonado” é a coisa mais próxima que consigo chegar de uma transformação verbal que “representa” a coisa-nela-mesma, a realidade última, o “O” como eu o denominei” (Bion, Uma Memória do Futuro, 1977, pp. 197).
INTRODUÇÃO
O presente estudo foi gerado nas questões que encontramos na clínica diária, da qual foram extraídas muitas das experiências que formam a base empírica que o respalda. Insere-se no âmbito da psicanálise propriamente dita, de consultório, e da psicanálise aplicada aos grupos. Tenta contribuir para um encaminhamento psicanalítico do que tem sido visto como “crises” no movimento psicanalítico. Pode interessar aos colegas que se dedicam à atividade institucional, e se refere ao relacionamento intra-grupal dos analistas, à formação analítica, aos problemas que muitos estão sentido, quando à escassez de pacientes em seus consultórios. Tem uma amplitude macro-social: em triste presciência, tendo sido escrito antes do bestial acontecimento descrito como gigantesco ato terrorista, ilumina-lhe parcialmente.2

Bion observa que grupos sociais forjam-se na alucinação compartilhada; favorecem guerras contra a realidade (Bion, 1961, 1965) na medida que proporcionem um lócus social para abrigar e estimular uma característica psicótica, a fantasia de superioridade vinculada a narcisismo primário (Freud), inveja primária (Klein) e congelamento na posição esquizo-paranóide; produz desprezo à verdade e à vidai.

O estudo explicita o material, métodos, hipótese, fornece ilustrações que originaram a hipótese e a discute. A descrição da base empírica é anexada no final.


O QUARTO PRESSUPOSTO BÁSICO: ALUCINAÇÃO DE “EXCLUSÃO/PERTINÊNCIA”

MATERIAL E MÉTODOS


Material (1) Trabalho com psicanálise em consultório; (2) Tentativas de aplicação de psicanálise em comunidade; (3) Tentativas de implantação de mentalidade de “comunidade terapêutica” em hospital tradicional; (4) Observação de seis grupos psicanalíticos e sua traumática divisão (sendo dois deles, no exterior); (5) Tentativas de inserção da psicanálise no meio universitário e médico3; (6) Milícia e Maternidade. A observação se estendeu por vinte e cinco anos; a hipótese surgiu como fato selecionado, que parece ter dado coerência a dados que ficaram dispersos por quinze anos.

Métodos Foi utilizada a observação participante4 psicanalítica no setting analítico e grupal dos chamados “grupos Bion”. Nestes grupos, a observação intuitiva analiticamente treinada permite observar-se participantemente três modos subjacentes de organização grupal, os “pressupostos” (Bion, 1961): Ataque-fuga ocorre quando o grupo se fragmenta na mútua destruição entre os membros; Pareamento, quando a fragmentação se dá em torno de parelhas; Grupo Messiânico (dependência) se dá quando o grupo se aglutina em torno de um líder. Estes três pressupostos impedem a consecução de Grupos de Trabalho.
HIPÓTESE
Penso ter observado a existência de um quarto “pressuposto básico”, obstáculo à formação de um grupo de trabalho, além dos três descritos por Bion. O quarto pressuposto pode ser chamado, “Alucinose de Exclusão/Pertinência”. Podemos usar também uma notação simbólica, como Grupos {“A” e “Fora de A”}.
ALGUMAS EXPRESSÕES FENOMÊNICAS QUE ORIGINARAM A HIPÓTESE (Material, ítens 4 a 6)
O movimento psicanalítico é, dolorosamente, pródigo em exemplos: a exclusão de Freud do meio universitário e médico de Viena; os usos autoritários do “tripé de formação” (análise pessoal, supervisão e cursos); a violência na reação dos auto-intitulados “freudianos” e “annafreudianos” contra Melanie Klein; a violência contra Winnicott por parte de alguns que haviam passado a se intitular “kleinianos”; a exclusão de Lacan; a exclusão de Bion, contra quem se brandiu a acusação de que seu trabalho “não era mais psicanálise” ii, e mais tarde, que ele estaria “senil”. (Meltzer, 1981; Segal, 1981, 1987).
PSIQUIATRAS E PSICANALISTAS Ecoando o ocorrido em Viena nos primórdios do século, na década de quarenta, em São Paulo, alguns psiquiatras ligados à Universidade estatal formaram o Grupo “A” (alucinação de pertinência); os psicanalistas, os “Fora de A” (alucinação de exclusão). Na década de cinqüenta, por “reversão de perspectiva”, uma expressão de identificação projetiva como demonstrou Bion (Bion, 1963, pp. 55, 60, 66), os psicanalistas “tornaram-se” o Grupo “A” (alucinação de pertinência), ao fundar sua própria instituição, que recebeu reconhecimento de vários modos, notadamente o fato de granjearem inigualado respeito social. Agora, “Fora de A” (alucinação de exclusão) eram os psiquiatras ligados à Universidade. Desempenhando suas novas funções de “podados”, desejaram ingresso no grupo que havia sido “Fora de A”, e agora era o “A”. Ciclos de aproximadamente vinte anos tem se repetido, nestes termos, não-observados. A destruição que causa tal estado desintegrado, em termos científicos, do atendimento a pacientes e das personalidades envolvidas individualmente parece incalculável.
PSICANALISTAS EM GUERRA As cisões de sociedades psicanalíticas parecem-me alucinações de pertinência e exclusão, {“A” e “Fora de A”}. Processos judiciais ocorreramiii, no terror ligado à desconfiança com a psicanálise. Atestamo-nos incompetentes para nosso próprio ofício ao imaginar que advogados, administradores, leis e regras, poderiam resolver turbulências emocionais do convívio humano iv. {A e Fora de A} dá morada a mania, inveja e rivalidade; é um lócus social sedutor a quem substitui análise ou re-análise por acting-out institucional. Dentro das sociedades de psicanálise, organizam-se grupos em torno de lutas fratricidasv. Os “Fora de A”, alucinando estarem excluídos, sentem-se bloqueados em suas aspirações societárias e fazem movimentos para transformarem aqueles que eram os “A”, os que alucinam serem pertinentes, em novos “Fora de A”. Mais cedo ou mais tarde têm sucesso e muitos dos novos “Fora de A”, antigos “A”, assumem as novas funções com certa disposição. {“A”-“Fora de A”} é inconsciente; as pessoas que compõem o quarto pressuposto são emergentes grupais inconscientes. A confusão aumenta em grupos maiores onde as pessoas não mais se conhecem; consolida-se a esperança que soluções e manipulações políticas poderiam ser substitutos à ciência e à análise pessoal. Ocorre então a institucionalização de rótulos de “inimigos a serem combatidos”, “-anos” e “-istas”; pessoas se debatendo politicamente substituem o debate científico. O passo seguinte é a emissão de regras, leis e códigos de conduta, na esperança que elas resolvam problemas de relacionamento humano.

Ocorre a ereção de líderes míticos, em geral já mortos e que não podem esclarecer se estão de acordo com a outorga de tal status5. O desprezo pela verdade inflige injustiça e sofrimento às pessoas. Os “A” se sentem “vitoriosos” por algum tempo, mas acabam sofrendo por ocuparem funções que não têm condições de exercer. Os “Fora de A”, sofrem por serem receptores adequados para a identificação projetiva. As aparências são: questões pessoais, rivalidades, pretensões políticas, cooptação, manipulações políticas, “amigos de ocasião”. Estes são, a meu ver, meros epifenômenos mediatizantes do quarto pressuposto básico, que penso permanecer não reconhecido. Embora não se registrem casos de analistas dando tiros em analistas, concretamente, a violência, o número de vítimas e destruição decorrentes das dissensões nas instituições psicanalíticas (chamadas por Bion, “guerras entre psicanalistas”; Bion, 1977, p. 77; ver p. 7, adiante) são consideráveis. Talvez estejam implicadas na inviabilização, decadência e descrédito destas instituições. Parthenope Bion Tálamo, que jamais se envolveu nestes eventos, mesmo quando eles culminaram com uma violenta cisão na sociedade dos psicanalistas italianos, um dia comentou, “Não sei como os psicanalistas ainda têm costas, depois de tanta facadas-pelas-costas6.


Estes fatos são familiares a quem experimentou a vida assim chamada “universitária”, e condomínios de qualquer espécie, como agremiações “esportivas”, “beneficientes” e outras. O que talvez seja notável é a ineficiência do treinamento, lembrando médicos têm percepção sobre o estado de saúde e ausência dela em seus pacientes -- mas descuidam da sua própria.
A questão é a reprodução, no micro-cosmo científico, de características do macro-cosmo. Isto pode ser colocado em termos da ingerência de política em ciência e arte, que sempre extinguem as últimas. Poderemos não repetir inconscientemente as características da sociedade englobante no convívio entre colegas, o micro-cosmo “sociedades de psicanálise”? “PAUL: (em solilóquio) Todo mundo pensa que os psicanalistas nunca brigam. Quando começarem as Grandes Guerras da Psicanálise aí é que vamos ver alguma coisa -- e não vai haver nenhum golpe proibido. Santayana temeu o dia em que as bestas e canalhas científicos tomassem conta do mundo. (Bion, 1977, p 77)”. Identifico dois tipos de guerras intestinas: i. o desapontamento quanto ao método psicanalítico; ii. a diminuição na ênfase na análise do analista, função de desequilíbrios entre os impulsos humanos básicos de desprezo, amor à mentira e alucinação, e os que expressam compaixão, respeito pela verdade, apreensão da realidade.
ATIVIDADES MÉDICAS, MILITARES E MATERNIDADE Estas três atividades guardam semelhanças básicas7, subjacentemente a aparências tão diversas: pessoas se dispõem ser úteis a seus contemporâneos em práticas que colocam em jogo a sobrevivência humana de um modo excepcionalmente compactado no tempo. Nas três parece predominar consideração à verdade e à vida. Experimentam-se fatos reais, tais como eles são. Poucos emergem impunes da experiência de ter alguém morrendo em suas mãos, como soldados e médicos. Poucas mães emergem impunes de terem alguém nascendo de si, “ó pedaço de mim, metade afastada de mim” na formulação verbal do poeta Chico Buarque. Alguns, nestas experiências de vida, percebem de vez que as leis da ciência natural não seguem as leis do funcionamento mental. Outros usam tal experiência para insuflar a onipotência psicótica que porventura já alberguem. Em termos psicanalíticos: narcisismo e inveja primários, intolerância à dor e frustração de desejo. Medicina, Milícia, Maternidade, atividades de grupo, expressam paradoxal e irretorquívelmente a bestialidade humana, o interesseirismo, o ódio brotando sem razões, o ciclo auto-alimentante de avidez, inveja, rivalidade, a iniqüidade e hostilidade, assim como seus pares complementares, a sublimidade amorosa, o real interesse humano, a generosidade e a gratidão.
ALGUNS FATORES DO QUARTO PRESSUPOSTO:


  1. Subserviência ao Desejo O princípio do prazer/desprazer contra o princípio da realidade é guerra de duas grandes Armas: evasão da dor e busca infindável por prazer. Dinamita a ponte onde flui o trânsito entre as Posições Esquizo-Paranóide e Depressiva;

  2. Desconsideração à vida Falta de compaixão significa desprezo ao que é vivo e animado; produz-se uma busca incessante de conforto material. O inanimado substitui alucinatoriamente o que é animado. Expressões: socialmente, é o consumismo; na ciência, forma o “realismo ingênuo”; na política, delírios de fama e substituição do conhecer por instituições, ídolos e edificações. Conseqüência: guerras contra a Natureza, Édipo, dificuldades quanto à feminilidade e masculinidade; contra a Mãe, o desrespeito à Mulher, ao Par Criativo Parental; abandono dos filhos; a máscara da sanidade vi; a ferocidade do covarde, do pseudo-amigo, travesti de interesse.

  3. Desconsideração à verdade (realidade) implica tomar os produtos alucinados da mente como substitutos dos fatos (o chamado “idealismo” em filosofia; em psiquiatria, psicoses “produtivas”). Fantasias de poder e de superioridade expressam-se pela ação de manter a dignidade de uns às custas da indignidade de outros. Há sensações de posse da verdade absoluta. Psicanaliticamente, suas expressões são Transferência, Negação, Clivagem, Identificação projetiva, Falso self; ou seja, transformações em alucinose – a psicanálise fornece os nomes de nossas mentiras.

  4. Juízos de Valor, Identificação Projetiva, Fantasias de Superioridade Auto-crítica se transforma em poesia; Hetero-crítica, em retórica, observou T.S. Elliott. Psicanaliticamente, autocrítica se expressa por meio dos Sonhos; heterocrítica, por acting-out. Juízos de valor expressam crença em uma Verdade Absoluta, e crença em sua possevii. Com a ajuda de Klein, Bion formula o que me parece um dos seus maiores legados ao analista praticante: o “Senso de Verdade” (Bion, 1962a, p. 119). Ele se forma quando a pessoa percebe que o objeto amado e o objeto odiado são o mesmo e único objeto. Sem ele, perde-se contato com a realidade, verdade “O” (Bion, 1970, p 29), produzindo o sentimento que Certo ou Errado pode substituir Verdadeiro ou Falso. A verdade parece ser um fardo insuportável que a besta do desejo não pode carregar viii.

Quantos de nós, analistas, principalmente os que se envolvem em “guerras” contra colegas, podemos perceber que identificação projetiva é uma fantasia? Como lidar com as limitações dos outros, sem atacá-los?ix Como transformar orgulho em auto-respeito, e não em arrogância? Eu penso que isto envolve um problema ético, pois o que determina o analista de amanhã é a atitude-exemplo dos didatas. Quando falamos de algum colega, penso que estamos falando de nós mesmos. A fofoca informa mais sobre o fofoqueiro do que sobre o fofocado x. Socialmente, há um uso delinqüencial da identificação projetiva. “A encrenca com esses diabos de Cristãos, é que, apesar deles serem tão cheios de altos ideais, e tão entusiasmados, e tão determinados que o certo vai triunfar, acabam fracassando em se dar conta dos lados mais difíceis do negócio. Na minha opinião, quando finalmente isso entra na cabeça deles, têm um modo repelente de ficarem malucos. Recordo-me de um pobre diabo. Todos pensavam mundos e fundos dele, mas ele ficou p. da vida ao descobrir que o seu coronel estava tentando passá-lo para trás. Este coronel estava receoso de, ao promover um oficial tão promissor, arriscaria seu próprio posto. O sujeito ficou tão perturbado que sofreu um tipo de colapso. Isso teve o efeito de provar que o Coronel estava totalmente certo quando na verdade ele estava totalmente errado” (Bion, 1958, p. 232). Como me disse alguém ascendendo em um establishment, em uma disputa “política” com um “colega”: “É só dar a corda, ele se enforca sozinho”.



5. Narcisismo, Social-ismo e Delinqüência Quando os instintos de morte preponderam contra o próprio indivíduo, os instintos de vida se defletem a favor do grupo; Bion chamou isto de “social-ismo”. Aqui, a identificação projetiva se liga à delinqüência; o líder forma máfias e é bem aceito por partes do grupo que ele faz questão de dividir para governar, por meio de seduções, manipulações, e cooptações. O delinqüente tem um agudo senso de realidade, pois assim evita tropeçar nela, por algum acaso. Tem um senso do belo, para poder destruí-lo. É um suicida, mas não sem antes ser um homicida para o grupo, travestido de protetor do grupo.xiE não é apenas a veemência do ódio incontrolável do indivíduo mas também a de seu amor que coloca o objeto em perigo” (Klein, 1934, p. 286). Quando os instintos de vida proponderam a favor do indivíduo, os de morte se voltam contra o grupo: é o “narcisismo” na extensão de Bion sobre a obra de Freud. A identificação projetiva se liga à psicose paranóide, com produção de alucinação e delírio pouco efetivos no meio ambiente. O psicótico tem um lampejo profundo da realidade, mas não suporta o que viu. Volta-se para suas elucubrações idiossincráticas.
Poderemos não repetir inconscientemente as turbulências da sociedade englobante no convívio entre colegas, o micro-cosmo “sociedades de psicanálise”? “PAUL: (em solilóquio) Todo mundo pensa que os psicanalistas nunca brigam. Quando começarem as Grandes Guerras da Psicanálise aí é que vamos ver alguma coisa -- e não vai haver nenhum golpe proibido. Santayana temeu o dia em que as bestas e canalhas científicos tomassem conta do mundo. (Bion, 1977, p 77)”. Identifico dois tipos de guerras intestinas: i. o desapontamento quanto ao método psicanalítico; ii. a diminuição na ênfase na análise do analista, função de desequilíbrios entre os impulsos humanos básicos de desprezo, amor à mentira e alucinação, e os que expressam compaixão, respeito pela verdade, apreensão da realidade.



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