Representações de Doença e Cura no Contexto da Prática Popular da Medicina: Estudo de caso sobre uma benzedeira Disease and Cure representation in the contexto of Medicine Popular Practice: Case study of a healer Fabiano Lucena de Araújo



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ISSN: 1517-6916

Caos – Revista Eletrônica de Ciências Sociais

Número 18 –setembro de 2011

Página. 81-97




Representações de Doença e Cura no Contexto da Prática Popular da Medicina: Estudo de caso sobre uma benzedeira
Disease and Cure representation in the contexto of Medicine Popular Practice: Case study of a healer

Fabiano Lucena de Araújo1
Resumo:

O presente trabalho visa apresentar os modos interpretativos da doença e da cura para a benzedeira Dona Severina e como se articulam com a práxis social, no contexto cultural, o qual está imersa, e reunir o seu repertório de procedimentos curativos como forma de manter o patrimônio de uma tradição oral. Como estudo de caso de uma agente de cura popular, pretende analisar, a partir dos dados concernentes à literatura explorada, as relações da benzedura e, por conseguinte, do sagrado com a (re)significação das vivências intersubjetivas.


Palavras-chave: Cura e religião, Doença e religião, Rezadeiras, Medicina popular, Eficácia Simbólica, Benzeduras.

Abstract:

This work aims to introduce ways of interpretations for the cure and illness evolved by a prayer called Dona Severina, and the manners of her speech joins with the empirical, according to a cultural context, her procedures of cure united like a form to maintains an archive of traditions. Intends, as a study of a particular event, to analyses the prayer and the sacred relationships with the other signs in subjective livings.


KeyWords: Cure and religion, Illness, Religion, Prayers, Cultural Illness, Symbolic, Empirical Medicine, Griots

INTRODUÇÃO

A partir de relatos narrados pela minha mãe sobre uma benzedeira, que exercia sua atividade de forma bem sucedida, em uma comunidade vizinha ao meu bairro, nutri um interesse instantâneo, pela personagem que me era apresentada. Resolvi, então, fazer um artigo sobre o tema que cercava o contexto da pessoa que me foi, inicialmente, apresentada. Algum tempo depois, quando maturava a iniciativa de empreender o trabalho de campo, fui logo estabelecer um contato com Dona Severina, a benzedeira, o que foi permitido, pela intermediação de minha mãe, que, além de amiga e cliente da mesma, foi imprescindível para agilizar o processo – que foi realizado através de cinco visitas à casa da Senhora.

Por meio de conversas informais com a primeira, da observação participante no processo ritual da benzedura, e de entrevistas semi-estruturadas, gravadas e baseadas na literatura a que tive acesso, e desenvolvi o presente trabalho. Este se propõe a exibir um perfil de uma vivência baseada no simbólico, presente no nicho da benzeção católica, e da cultura popular, fortemente estabelecida nas raízes do ideário religioso, socialmente condicionante das posturas dos atores sociais frente às visões de mundo, o que os conduzem a assumir condutas bem delimitadas nas suas representações e ações na esfera trabalhada, que é a da doença e da cura.

Contexto sócio-histórico das agências populares de cura

Desde os idos tempos coloniais, o curandeirismo e as demais práticas populares de cura, têm encontrado oposição por parte das instituições oficiais, porém, mesmo assim, têm resistido de forma muito eficaz nos meios sociais mais diversos, nos quais encontra total credibilidade para seu exercício. Extremamente difundidos e bem quistos, constituíam-se como a única alternativa médica existente, o que por sua vez, justificava-se pela inacessibilidade aos medicamentos – tanto pela deterioração dos medicamentos, importados através das naus portuguesas, culminando em pelos altos preços estipulados pelos boticários e o conhecimento incipiente acerca das moléstias tropicais e seus antídotos, o que veio a ser elucidado, aos poucos, com a associação da farmacopéia dos jesuítas com a dos indígenas. As próprias condições e o desenvolvimento da medicina naquela época, auxiliavam esse processo de identificação com as agências populares - ausência de interesse dos médicos portugueses em se estabelecerem no Brasil, impulsionada pela óbvia precariedade de locomoção num país tão extenso territorialmente, e uma prática médica totalmente imatura, se comparada àquela encontrada no século XIX, com a evolução do conhecimento dos processos etiológicos, a partir da microbiologia de Pasteur e o fisiologismo de Claude Bernard (RIBEIRO, 2004).

Perseguidos pelos órgãos de fiscalização da medicina erudita, os curandeiros representavam um ‘’mal necessário’’ onde não existia um suporte médico adequado, o que os ajudou a se solidificarem no imaginário popular, e sedimentar um conhecimento tradicional que nutre o folclore e os “causos’’ perpetuados por nossos antepassados. A luta travada entre autoridades sanitárias e o empirismo vem sendo documentada por historiadores a partir de vários registros oficiais. O Protomedicato, órgão criado em 1782, foi um precursor do que hoje viria a ser os departamentos de vigilância sanitária, porém, naquela época, ocupava-se em combater o exercício do curandeirismo e a regularizar o exercício da profissão médica. Antes da vinda da família real ao Brasil, em 1808, não havia escolas de medicina cirúrgica – as mesmas tornaram-se faculdades, em Salvador e no Rio de Janeiro em 1832 – o que salvaguardava as práticas populares a realizarem operações invasivas - vide os cirurgiões-barbeiros e barbeiros-sangradores – e pouco diferenciava os médicos oficiais dos curandeiros, rezadores e demais categorias de agências terapêuticas. (RIBEIRO, 2004)

As regulamentações dos ofícios destinados a fins curativos, conhecidas como Provedoria-mor e Fisicatura-mor, perduraram até 1832, e consistiam em distribuir cartas de referência e atestado de conhecimentos empíricos aos barbeiros-sangradores e cirurgiões-barbeiros, boticários, dentistas-práticos e parteiras. Após a referida data, apenas os médicos, cirurgiões, boticários e parteiras puderam exercer suas atividades e os curandeiros foram relegados ao plano da ilegalidade (WITTER, 2005). A visão das práticas populares de cura como um “mal necessário’’, associado diretamente à falta de médicos e a inacessibilidade a algum sistema de saúde, revela antes de tudo, um preconceito relacionado às classes sociais. Witter (2005), citando Betânia Figueiredo, ressalta tal visão:

(...). A inferioridade do trabalho manual em relação às chamadas artes liberais, por exemplo, continuou ao longo dos oitocentos a exercer um papel fundamental na constituição da escala social dos curadores. A associação com o sangue, o corpo e as suas partes “sujas” acabou sempre por degradar o ofício de barbeiros e cirurgiões, enquanto os médicos se identificavam com as artes liberais, que exigiam maior estudo e menor grau de trabalho manual. Isto fez com que boa parte dos barbeiros-sangradores e mesmo alguns cirurgiões existentes no Brasil deste período fossem escravos, forros ou mulatos, com quem o trabalho manual era identificado (...). (WITTER, 2005: p. 20)
A identificação da população, com os agentes da cura informais, revela, antes de tudo, um compartilhamento de linguagem ou identificação de classe social, fazendo com que tais práticas, persistam até hoje, arraigadas culturalmente, minando a base de qualquer argumento elitista e hierarquizante que delega às funções curativas populares, um papel menor e relacionado à ignorância. Reforçando tal posição, RIBEIRO (2004: p. 69) diz que:

“Sentindo-se ameaçados com a concorrência, médicos e cirurgiões aliavam-se às autoridades sanitárias na luta contra os empíricos, os quais geralmente eram preferidos por partilharem de crenças e costumes familiares à maior parte da população.” (RIBEIRO, 2004: p. 69)


Ao mesmo tempo em que, ainda, ocorre a resistência de tais comportamentos envolvendo agentes populares de cura e identificação religiosa, nas comunidades, em geral, mais carentes, existe a perseguição a alguns desses agentes. Quintana (1999) registrou através dos relatos de Dona Helena, uma das benzedeiras acompanhadas pelo mesmo, que a mesma sofreu forte oposição no lugar onde morava:

“Dona Helena mora num bairro relativamente afastado do centro da cidade, com características de classe média baixa. Sua prática, segundo Dona Helena, trouxe-lhe problemas com a vizinhança, pois recebeu muitas solicitações para se mudar para outro local” (QUINTANA, 1999: p. 68).


Quintana (1999) afirma que o plano mítico que sustenta as práticas sociais em geral, pertence à sobre-significação, que supre as lacunas de sentido, quando as instituições sociais se deparam com o real. O organismo social, composto de legislações e costumes específicos, é assimilado pelos atores sociais como uma ordem natural dos fatos, a qual é constantemente contrariada pelos eventos profanos de um mundo real arbitrário e determinado pelo acaso – a morte, as doenças e as intempéries. Essas brechas abertas sobre as potencialidades e a hipotética onipotência do homem, que escancaram sua fragilidade diante do universo material, provocam um abalo de caráter simbólico na instituição social, são preenchidas novamente pelo sagrado; a sobre-significação pertencente ao plano do mito, que cura as feridas simbólicas evidenciadas pela realidade orgânica e tangível. (QUINTANA, 1999: p. 33)

A procura por determinado agente popular de cura, de determinado domínio religioso, está, não só, atrelada à busca da cura propriamente dita, como está, também, associada à busca de sentido para a situação em que se encontra o consulente. Ou seja, a prática de cunho religioso fornece um patamar de significação para as feridas simbólicas desencadeadas pela doença – a qual promove uma perturbação na ordem natural de compreensão da vivência do indivíduo - o que se constitui como o cerne da Eficácia Simbólica levi-straussiana. (LEVI-STRAUSS, 1967).

Para operar qualquer modalidade de cura, é estritamente necessário para o curador, inserido em algum domínio religioso, que o seu consulente partilhe da sua crença, assim estabelecendo-se elos simbólicos entre eles, sintonizando a fé no divino (OLIVEIRA, 1983; RABELO, 1993)

Na contemporaneidade, o exercício da cura popular na informalidade, mantém-se firmemente, como foi constatado por OLIVEIRA (1983) em Campinas, local onde o papel da pesquisa e do corpus biomédico é bem estabelecido. A procura pelos agentes informais de cura, promove o deslocamento de consulentes de outros bairros, inclusive os de classe média alta, para as comunidades periféricas, conforme relatos colhidos por QUINTANA (1999) e OLIVEIRA (1983) e visualizados na minha prática de campo, ao presenciar a ida de um veterinário, para obter a bênção de Dona Severina, que reside numa parte “mais nobre’’ do bairro (João Agripino), onde moro. Além da identificação óbvia do mesmo discurso inserido na classe social, o benzimento extrapola esse contexto, e oferece conforto e sentido para os distúrbios em que estão aderidos os protagonistas de um campo simbólico e religioso, da sociedade.

A benzeção como atividade legítima da expressão popular, no contexto da atualidade, é enaltecida nesse trecho da música “Sucrilhos”, do rapper Criolo, presente no disco ”Nó da Orelha” (2011), que tematiza a problemática da identidade cultural das favelas:

“Di Cavalcanti, Oiticica e Frida Kahlo

têm o mesmo valor que a benzedeira do bairro

Disse que não valia um recém-formado, entende

Vou esperar você ficar doente”. (CRIOLO, 2011, faixa 08)
Exemplifico a função religiosa como a base da percepção e concepção da doença e cura, afirmando o mito não como uma explicação causal ou mera narração, mas “uma realidade vivida, o código ou estatuto de uma instituição’’ (DURHAM, 1986: p. 20) reflexo do posicionamento de Malinowski, no transcrito:
“(...) Afirmo que existe um tipo especial de histórias, tidas como sagradas, incorporadas ao ritual, à moral e à organização social e que formam uma parte integrante e ativa da cultura primitiva. Essas histórias não existem apenas em função do ócio, nem como simples narrativas, fictícias ou verdadeiras; para os nativos elas constituem a afirmação de uma realidade primeva, maior e mais relevante, que determina a vida presente, os destinos e as atividades da humanidade, e cujo conhecimento fornece ao homem, motivos para ações morais e rituais, tanto quanto indicações para desempenhá-las. (MALINOWSKI, 1986: p.166)

A benzeção como agência simbólica e terapêutica

A benzeção, basicamente, consiste em promover um acesso direto do plano profano ao plano sagrado, regido por um agente que apresenta tal capacidade de recorrer à divindade para expor os problemas dos fiéis e conseguir êxito, que é reconhecido por todos que partilham de uma crença em comum (QUINTANA, 1999)

OLIVEIRA (1983: p. 123) identifica os seguintes domínios religiosos para a prática da benzeção, localizados em Campinas-SP, que apresento, resumidamente:


  1. Benzeção católica: O rezador identifica-se como adepto do catolicismo e, assim, os freqüentadores de seus serviços o indicam. Caracteriza-se basicamente por professar a fé nos santos do catolicismo, na evocação da Santíssima Trindade e pela ausência de possessão mediúnica. Realizada em ambiente domiciliar, não reservado ao cliente, de modo que pode ser presenciada por todos. Geralmente não cobram retribuições ou a cobrança é implícita

  2. Corrente católica: Os clientes indicam a benzeção como espírita, mas o benzedor se identifica como católico. Ocorre a evocação aos guias ou médicos espirituais que são incorporados na possessão. A cobrança é ainda menos implícita que a da católica. É utilizada uma sala reservada e caracterizada para a bênção do cliente.

  3. Kardecista: Professa o espiritismo kardecista como elemento coordenador da bênção. O agente do benzimento é possuído por espíritos, chamados guias, as mesmas da corrente católica. Existe espaço destinado e restrito ao beneficiado pelo serviço. A cobrança é explícita.

  4. Crente: Regida pela fé cristã e a Trindade. Vale-se de elementos típicos do universo evangélico: a imposição de Bíblias e óleo para unção. Existe a cobrança e local específico para o procedimento.

  5. Umbandista: Como na benzeção kardecista, e, na corrente católica, ocorre a possessão mediúnica pelas entidades, porém, estas, são as consagradas do culto umbandista e não os guias médicos. Cobra pelo serviço feito, com valores fixos e também executa trabalhos e demandas típicas da religião afro-brasileira, responsáveis pela ambigüidade e repulsa com que são vistas as práticas de qualquer ato relacionado a este culto. Pode realizar tarefas associadas ao esoterismo como leitura de mão, astrológicas e cartomancia.

  6. Esotérica: Do mesmo modo que a corrente católica, apresenta um caráter intermediário entre o católico e o espírita. Não ocorrem as possessões, o agente só necessita de um esforço de concentração. Realiza trabalhos de quiromancia, cartomancia e contra feitiços. Cobra pelos serviços com taxas estabelecidas

Em todas as modalidades de benzeção, foram encontradas referências às imagens e rezas aos santos católicos (com exceção da crente). Ainda faz alusão à outra classificação das benzeduras, citando BRANDÃO (1980) em: a) católicas b) evangélicas e c) mediúnicas. (OLIVEIRA, 1983: p. 169).

Para o presente trabalho, vou me ater à benzeção católica, como objeto de estudo, por sê-la atinente ao discurso de Dona Severina. Na prática católica dos ofícios de cura populares, o primeiro contato dos agentes com a experiência do benzimento se dá através da aquisição do dom. O dom é a forma unânime de explicação para os eventos relacionados a esta prática e pode ser percebido e adquirido de duas formas – ou por intermédio da transmissão e aprendizagem com parentes ou pessoas próximas, ou por experiência sobrenatural, a qual pode estar relacionada a uma superação de uma doença sem solução ou à revelação obtida num sonho.

Esta segunda modalidade de apreensão do dom é vista como “mais sagrada’’, porque, não só, o indivíduo é um eleito pela divindade e tem uma missão enviada por ela, para ser cumprida, como é visto como um possuidor de uma experiência inacessível a todos, de uma intimidade maior com a divindade, na intermediação com o poder místico (QUINTANA, 1999: p. 79)

O processo ritual da prática da benzedura é formado basicamente de três momentos: a) o diálogo b) a bênção e c) a prescrição (QUINTANA, 1999: p. 56)



  1. O diálogo que se estabelece entre o cliente e o benzedor nem sempre trata do mal a ser curado, o qual pode ser extraído de uma conversa informal fora do âmbito da benzedura. Mas, no diálogo já encaminhado para a prática de benzeção, o paciente sempre surge com um discurso revestido de conscientização dos males tratados pelo viés do saber popular. FRY & HOWE (1975) apud OLIVEIRA (1983: p. 04) categoriza as aflições presentes em tais discursos, em três planos:

“a) saúde b) manipulação do sistema (subemprego, não pagamento de dívidas de salários e dívidas, questões com a polícia, encontro com autoridades burocráticas, etc. e c) aflições decorrentes de relações interpessoais: problemas afetivos, sofrimentos pessoais, perda de um ente querido ou de um ente desgarrado da família, conflitos familiares, relacionamento com parentes, vizinhos ou amigos’’ (OLIVEIRA, 1983: p. 04).


  1. A benzeção propriamente dita consiste da parte não-material, que é a reza verbalizada, pelas agentes de cura, de forma inacessível à audição, ou não – quando parte da reza é proferida, e o cliente participa da mesma, por exemplo, na oração contra o cobreiro, onde a benzedeira pergunta ‘’O que te corto?’’, e o consulente responde “Cobreiro brabo’’ (CAMARGO, 2010) - e da parte material, que são os instrumentos – folhas, brasas, tesouras, fogão, forno a lenha, barbante, toalha, ovos, etc. - de que se valem as mesmas para completar o ritual.

  2. A prescrição oferecida, basicamente, refere-se às condutas de como que os clientes devem agir para não anular o tratamento, ervas medicinais, alguns medicamentos industrializados e rezas mais simples como ‘’rezar três vezes, o Pai Nosso, a Ave Maria e Santa Maria, na sexta-feira, que é o dia que a reza é mais forte’’, conforme Dona Severina.



Estudo de caso: Dona Severina como portadora de uma tradição oral na benzeção católica.

Dona Severina, 73 anos, alfabetizada, natural de Princesa Isabel, município localizado na microrregião da Serra do Teixeira, sertão do Estado da Paraíba, mudou-se para João Pessoa, aos 40 anos de idade, onde ficara viúva. Aposentada e recebendo também a pensão previdenciária do marido, atualmente reside na Rua Edmundo Filho, nº 674, a principal via de circulação do Bairro São José, uma comunidade carente, marcada pela violência oriunda do tráfico de entorpecentes, notadamente, um problema para os bairros circunvizinhos que contém a elite que cerceia a orla marítima da Zona Leste pessoense, na qual se insere a comunidade de 8.175 habitantes (referente a dado fornecido pela Associação de Moradores do Bairro São José), incrustada por entre os bairros mais representativos da classe média alta, na capital.

Aprendera o ofício de rezadeira, com parentes do sexo feminino, da linhagem materna – bisavó, avó e mãe - e recebera as rezas da sua bisavó; aos 8 anos já apresentava um dom para cura, percebido por todas as pessoas mais próximas. Em todas as visitas que realizei a Dona Severina, no horário da tarde, sempre havia pessoas a procurando, para receber a sua bênção. Segundo a própria, em média, um pouco mais de 20 pessoas a procuram por dia, não havendo restrição de dias e horários reservados às consultas; as pessoas a procuram sempre, até nos domingos. Quando relatei, em uma conversa informal, que, em outras localidades, rezadeiras se permitem horários específicos para atendimento da população, ela as chamou de “preguiçosas”. Evita e repele qualquer tentativa de retribuição às suas rezas, pois, para a mesma, não se deve cobrar por um dom recebido de Deus, o que poderia ultrajá-lo e tornar indigna a sua atividade de intermediadora do sagrado.

As pessoas a procuram para os mais diversos problemas do cotidiano, além dos da esfera relacionada à saúde física – desde a resolução de relacionamentos amorosos (“abrandar o coração’’) a conflitos com vizinhos (“fechar o corpo contra os maus vizinhos”), problemas financeiros, aparecimento de objetos roubados - para isso, é utilizada a reza do “rosário apressado’’, o que desencadeia, para Dona Severina, a visão do bem roubado e do ladrão. Inclusive, relatou-me um caso recente de um furto de uma moto, que ela ajudou a solucionar – mau-olhado e quebranto (o que, segundo ela, pode desencadear até diarréia), até simpatia para afastar espíritos que incomodam, ou obsessores (feita com um banho de patchouli, manjericão e boa-noite). Para viajar, seus clientes vão à sua casa para perguntar se nada de mal irá acontecer nos seus itinerários ou receber uma bênção de proteção, para que tudo ocorra da forma prevista e segura.

Esse caso remete a uma manifesta clarividência que, frequentemente, na conversa informal mantida com ela, a mesma se referia a uma mediunidade adquirida com o dom e que era reconhecida por todos, já que é bastante respeitada, até na principal Igreja Católica do Bairro. Presenciei uma situação bastante inusitada, em que, um homem, portador de “espinhela caída e peito aberto’’, ao retornar para a segunda das três vezes visitas indicadas para todo tratamento realizado, foi admoestado por não ter cumprido com a prescrição de repouso do trabalho - sem ter dito uma palavra. Dona Severina “adivinhou” que o mesmo havia atentado contra suas recomendações, o que foi confirmado pelo próprio paciente.

Além desta ocorrência, fui testemunha de algo que irrita sobremaneira Dona Severina: a descrença na sua relação privilegiada com Deus e os Santos, em sua fé e a atribuição de seu dom a poderes de bruxaria. Duas moças vieram ao seu encontro, para que benzesse um recém nascido contra “espremedeira’’ - enfermidade caracterizada por dor intensa no umbigo dos neonatos, cuja reza é realizada com o sinal da cruz e um movimento feito a partir de um molho de chaves, em substituição das folhas, corriqueiramente usadas. Ambas estavam na porta da casa, e uma das quais era a mãe da criança, que vinha para o retorno da consulta – seria a segunda vez que o bebê receberia a benzedura. A mãe entrou com o bebê e enquanto a outra moça ficou do lado de fora da porta, deixando transparecer certa hesitação para adentrar na sala de Dona Severina. Antes de rezar para a criança, reclamou contra as pessoas que duvidavam de seu poder e o associavam a “catimbós e bruxaria”, realizando um discurso para persuadir do contrário a moça que supostamente a vê como bruxa ou “charlatona”. Após a bênção, a mãe havia dito que a criança já estava bem melhor e mais calma, desde a primeira vez que viera para benzê-la.

Outro relato, bastante contundente, acerca da sua fé católica, me foi dito sobre sua aversão aos cultos afro-brasileiros, que, irremediavelmente, os associa ao poder de fazer o mal. Dona Severina declarou que ao presenciar a realização de um “trabalho de macumba’’, certamente um despacho para Exu, numa encruzilhada, os executores do trabalho, pararam imediatamente de “montar’’ a oferenda, quando a viram e esperaram-na passar para continuar com o trabalho, o que, segundo ela, atribui-se ao fato de os seguidores dos “catimbós” e feitores das forças malignas, saberem que ela trabalha a favor das forças benignas.

Pessoas de outros bairros, como Mangabeira, só para exemplificar um dos quais, Dona Severina havia me citado, a procuram também, e, inclusive, por indicação de médicos, em casos de cobreiro e outras moléstias, em que, tradicionalmente nas práticas populares de cura, ocorre uma co-participação das forças espirituais às forças alopáticas. Uma vez que, a própria indica alguns produtos farmacêuticos, em suas prescrições, após o procedimento da benzedura, como, por exemplo, o Emplastro Sabiá, cujos casos há vermelhidão, decorrente de inflamação e pancada – nesse caso é rezada uma oração que evoca Santa Sofia. E por ser diabética do tipo II, utiliza medicamentos alopáticos e, simultaneamente à terapia medicamentosa, aplica em si própria as rezas. Em todas as minhas visitas, acompanhei a evolução da cicatrização de uma ferida na perna direita, em decorrência de seu quadro diabético. Para promover a cicatrização, fazia uso de um creme manipulado, cuja fórmula apresentava extrato de girassol.

Mas, em contraposição ao tratamento alopático tradicional, Dona Severina prefere as ervas medicinais, presença obrigatória em quase todos os procedimentos de benzeduras utilizados pela mesma e nas suas prescrições para tratamento caseiro. Para a feitura do ritual do benzimento, as plantas são utilizadas para fazer o sinal da cruz, acompanhado de um movimento ligeiramente afastado da pessoa, que é constante, e perdura durante toda a pronúncia das rezas. As energias negativas, em conseqüência do mau-olhado e outras afecções, são descarregadas nas plantas, que murchas, diagnosticam a presença dos problemas referidos. Geralmente, os beneficiados com o seu serviço, já trazem para a realização do benzimento, ramos de pinhão-roxo e arruda, dentre as plantas prescritas para a atividade – outras espécies utilizadas são a erva-cidreira, mamona ou carrapateira e a jitirana. Todas estas plantas citadas são usadas para afastar o mau-olhado e para o “descarrego’’ de toda energia negativa. Quase toda consulta é acompanhada da indicação de condutas que devem ser seguidas pelo paciente e prescrições de inúmeras plantas curativas.

Representações do benzimento na literatura e na oralidade de Dona Severina.

Segundo Dona Severina, o dom de um benzedor (a) torna-se fortalecido, quando este propaga a reza para alguém do sexo oposto. Mesmo afirmando eu, que estaria fazendo um “trabalho de faculdade’’, e que seria este publicado e acessível ao meio acadêmico, não ofereceu nenhuma oposição, muito pelo contrário: viu em mim um benzedor em potencial, para quem ela poderia transmitir seu dom e suas rezas, sem maiores comprometimentos, e com isso, aumentando seu poder de agir sobre a cura das outras pessoas (PORTO, 1976: p. 125): “Algumas pessoas, no entanto, tem afirmado, que se mulher benzedeira, o segredo deveria ser passado a alguém do sexo masculino e deste ao sexo feminino”

PORTO(1976) em estudo sobre as relações do negro com a economia açucareira e a escravidão, Paraíba em Preto E Branco, registrou, conforme relatos e inúmeras explanações do Professor, Historiador e testemunha dos acontecimentos do final do século XIX, Coriolano de Medeiros, todo um perfil da vida social do período às vésperas da abolição:

“As benzedeiras de cobreiro, mau-olhado, de garganta, eram comuns naqueles tempos coloniais, permanecendo, até nos primeiros albores do nosso século. O saudoso fundador da Academia Paraibana de Letras, deu-nos mais um nome à lista de tipos populares: a negra sinhá Joaquina – que, usando o talo da carrapateira, espécie de canudo, batia no local atingido pela enfermidade e dizia:

“Que é que eu corto?

Cobreiro brabo

Corto a cabeça

E o rabo”.

E, em seguida, rezava uma oração somente sabida por ela, pois se passasse adiante o seu segredo, as suas forças se quebrariam. Só quando se via na obrigação de se “aposentar”, por não mais poder consigo mesma, passava o segredo do “dom” à pessoa de sua escolha, a fim de continuar o seu ofício” (PORTO, 1976: p. 125).

CAMARGO (2010) em artigo que trata do cobreiro - cientificamente conhecido como herpes-zoster, uma afecção virótica, caracterizada por erupções bolhosas e avermelhadas, na pele - analisando-o, sob o âmbito terapêutico e lingüístico, compilou um repertório de rezas e práticas populares, do folclore nacional, encontrado na literatura e em sua pesquisa de campo, nas favelas de Ibiúna-SP, encontrando um repleto panorama semântico, que remonta ao período do Brasil Colônia, como demonstrado no excerto:

(...) a primeira informação referente à cura de cobreiro está ligada à forma religiosa acrescida de medicação tópica indicada por Anchieta a Francisco Dias, conforme relata Simão de Vasconcelos, sobre a viagem de Pernambuco ao Rio de Janeiro, empreendida em 1578 por Anchieta (...) (CAMARGO, 2010: p. 02)

Dona Severina, ao assemelhar o cobreiro a uma cobra, que apresenta uma cabeça e um rabo, afirmando que se o mesmo completar uma volta em torno do abdome, ou seja, ocorrendo um encontro da “cabeça” com o “rabo”, ocasiona a morte do paciente; concomitantemente à reza que me foi apresentada, os seus dados corroboram os registros encontrados por ARAGÃO (1894) em Portugal apud CAMARGO (2010: p. 04):

“Te corto, côbro

Cabeça, rabo e corpo todo.”

E em sua própria pesquisa de campo em Ibiúna (CAMARGO, 2010: p. 05),

“Em nome de Deus eu curo

Cobreiro brabo

Corto a cabeça e rabo

Reza-se, em seguida, três vezes três ave-marias e três Santa Marias.”

Tais rezas se parecem bastante com a de Dona Severina e a da negra sinhá Joaquina, supracitada (PORTO, 1976).

O elemento água como forma de purificação e purgador de moléstias foi encontrado em várias orações usadas por Dona Severina, nas quais ela enuncia: “vai para as ondas do mar sagrado”. Tal elemento foi encontrado em uma reza contra mau-olhado, bem parecida com a de Dona Severina, por uma benzedeira do Morro da Conceição, em Recife por ALEXANDRE (2006):

“Quebrou o teu corpo e hoje se admirou da tua esperteza, do teu comer, do teu trabalhar, da tua sabedoria. Tu ta querendo vivência, eu tiraria com o poder dos teus pais, do Espírito Santo. Ar de morto, olhar de vivo é mardiçoado. Será Lançado esse mal que tu tem nas ondas do mar sagrado para sempre. Amém! Glória ao Pai! Amém! (declama a Salve Rainha). (Nome do Paciente), criou o seu corpo e hoje se admirou. Eu te benzo-te por frente e te benzo-te por trás, e te benzo toda a junta do corpo. Será lançado esse mal que tu tem nas ondas do mar sagrado, para sempre, amém!” (ALEXANDRE, 2006: p. 71).

Um fragmento de reza contra quebranto e mau olhado presente em SANTOS (2009) apresenta alguns elementos semelhantes aos contidos nos versos de Dona Severina, contra o mesmo mal, no transcrito abaixo:

[...] Com dois te botaram, com três Jesus benzeria, com as palavras de Deus Pai, o Espírito Santo e a Virgem Maria. Fulano, botaram olhado nos seus cabelos, no seu tamanho, no seu corpo, na sua boniteza, na sua feiúra, na sua riqueza, na sua pobreza, na sua sabedoria, na sua alegria, na sua doença [...]. (SANTOS, 2009: p. 21).

No mesmo trabalho de SANTOS (2009), realizado no Seridó Potiguar, encontra-se uma reza contra queimadura, praticamente idêntica a que é apresentada aqui, neste estudo:

“Santa Sofia tinha três filhas:

Uma fiava, outra cosia.

Perguntava os anjos com que Sofia curava.

Sofia respondia:

Com três Pai-Nossos e três Ave-Marias.”. (SANTOS, 2009: p. 14)



Repertório de rezas e procedimentos rituais realizados durante as benzeduras de Dona Severina.

Em boa parte das atividades realizadas, paralelamente às rezas propriamente ditas, são utilizados vegetais para executar movimentos que “afastam do corpo e depositam as energias negativas’’ – dor de intrusidade, cobreiro brabo, ferida de boca, vermelhão, mau olhado, ranho dos olhos, dor de cabeça e queimadura. E em praticamente todos os benzimentos, as rezas devem ser executadas três vezes, assim como o número de consultas realizadas para o tratamento, o que, segundo Dona Severina, alude à Santíssima Trindade.



Reza contra Espremedeira

Espremedeira é uma dor localizada na região umbilical do recém-nascido, cuja mãe não soube tratar e limpar adequadamente, ocasionando infecção e inflamação. Limpa-se o umbigo da criança com azeite de oliva, farelo queimado de castanha de caju e umbu-cajá. O termo “espremedeira’’, de acordo com Dona Severina, refere-se ao contínuo contorcer decorrente do incômodo e a expressão que o bebê faz, de algo “espremido’’, contraído. Para o benzimento é utilizado um molho de chaves, o qual a rezadeira “gira’’ em torno da região do umbigo, para “matar a dor’’, trancando-a, como se estivesse lidando com uma fechadura; ocorre concomitantemente à reza.

‘’Fulano o que é você sente?

Dor de barriga, dor de facada, dor de umbigo e dor de espremedeira

Vai para as ondas do mar sagrado que essa dor não vai fazer mais nada

Fulano o que é você sente?

Dor de barriga, dor de facada, dor de umbigo e dor de espremedeira

Água corrente onde passou Jesus Cristo e Ave Maria

Rezar uma Salve Rainha e depois:

Desterrai essa dor de cólica

Desterrai essa dor de umbigo

Desterrai essa dor de barriga

Desterrai essa dor de espremedeira

Desterrai essa dor apressada

Desterrai essa dor que não posso suportar

Para as ondas do mar sagrado

Amém

Rezar o Pai Nosso, Ave Maria e Santa Maria

(Repetir tudo 3x)’’

Reza para eliminar “dor de intrusidade”

Dor de intrusidade, conforme Dona Severina, é aquela dor que se sente nos ossos, que acomete a todas as idades, “causada pelo vento”, a qual se agrava com o clima frio, quando o “ar gelado bate na pele’’. É uma dor “intrusa’’ que, erroneamente, é atribuída à velhice e ao reumatismo. Para espantá-la, ao invés de movimentar os ramos de pinhão roxo, com uma moderada distância, como se verifica nas outras benzeduras, em que se utilizam as plantas, são necessárias intervenções mais veementes – bate-se na pessoa com os galhos do vegetal referido, para, assim, retirar a intrusidade.

‘’Fulano o que é que tu sente?

Dor que não posso suportar

Dor de chuçada

Dor agressada

Dor de facada

Dor de pontada

Eu vi o sol, a lua e as estrelas

Todas as qualidades

Com as três pessoas da Santíssima Trindade

Te afugenta carne podre, que é dor de intrusidade.

Rezar Pai Nosso, Ave Maria e Santa Maria

(Repetir tudo três vezes)’’

Reza para “tirar engasgo”

Para iniciar a reza, ao mesmo tempo, deve-se colocar um pedaço de pau ou um fósforo grande, para queimar no fogão ou num forno à lenha.

São Braz príncipe

Desengasgai Fulano mais pra riba ou mais pra dentro

Casinha varrida

Esteirinha no meio da casa.

Vai dizer a São Braz que venha desengasgar Fulano

Desengasgai Fulano mais pra fora ou mais pra baixo

Homem, bom e mulher, mau

Vai dizer a São Braz que desengasgai Fulano

Mais pra fora e mais pra baixo

Rezar o Pai Nosso, Ave Maria, Santa Maria 3x

(Repetir tudo 3x e oferecer a São Braz)”

Reza “para tirar landra’’ (Inchaço das ínguas)

(Dizer o nome da pessoa, marcando três estrelas no céu)



Estrela diz que é mais formosa do que vós

Morra landra e viva vós (coloca o dedo na landra)”

Oração para sair de casa, protegido (Oração de Padre Frei Clemente)

Faz o sinal da cruz, Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo



(Olhando para o Céu)

Deus te salve ao anoitecer

Deus te salve ao amanhecer

Com a chave de São Pedro

Trancai bem o corpo, com toda a família

Deus à frente, Paz na guia

Encomendo a Deus e a Virgem Maria

Livrai-me do perigo e da tentação

Amém, Jesus”

(Cospe e pisa o cuspe com o pé direito, vai embora, sem olhar pra trás)”



Oração para “tirar mau-olhado e quebranto”

Fulano, quem foi que te botou olhado



Se foi a sua boniteza

Se foi no comer

Se foi na alegria

Se foi no sorrir

Se foi no dormir

Se foi olho grande

Se foi inveja

Se foi no trabalho, foi nos pés, nas mãos e na pele

No sangue, nos ossos, nos nervos

Com dois te botaram

Com dois eu te tiro

Com três eu te benzo

Com três eu te curo

Olhado, quebranto, zanga, porqueira

Vai pras ondas do mar sagrado, que aqui tu não faz mais nada

Rezar o Pai Nosso, Ave Maria, Santa Maria e oferece às cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo. (Repete 3x)”

Procedimento de diagnóstico para “espinhela caída e peito aberto”

Espinhela caída e peito aberto, segundo Dona Severina e SANTOS (2007), constituem sintomas decorrentes de esforço físico demasiado, que irrompem na região toráxica como dores localizadas na região do osso esterno (“a espinhela, um nervo”).

Com uma toalha, trazida pelo cliente, tirar a medida de comprimento:

- Da extremidade superior do dedo mínimo até quase o pulso do cotovelo (metade do cotovelo, divisão do braço com o antebraço). Equivale, aproximadamente, a dois palmos. Essa medição refere-se ao diagnóstico de espinhela caída. (1)

- Medir da inserção do dedo mínimo, na palma da mão, até o pulso do cotovelo. Equivale, aproximadamente, a dois palmos. Utilizada para identificar peito aberto (2)

- Comprimento do pulso até a altura dos ombros. Essa medida é usada para marcar a região da clavícula. (3)

- A distância de uma clavícula à outra (largura do tronco) (4)

Se (4) for maior que (2) ou (1) a pessoa apresenta peito aberto ou espinhela caída (se a largura do tronco for maior que a distância de, aproximadamente, dois palmos) A oração é realizada para “fechar o peito’’, ou seja, diminuir a referida distância. Segundo Dona Severina (1) e (2) são utilizadas para diagnosticar, respectivamente espinhela caída e peito aberto e (4) é utilizada para confirmar tais prognósticos.



Oração para remover “peito aberto e espinhela caída”

(Envolver a toalha enrolada na região que divide tórax e abdome - linha do diafragma - até o dorso)

Quando Deus andou no mundo

Três coisas, veio curar

Ai que espinhela veio levantar

Alevanta espinhela caída e peito aberto pro teu lugar

Rezar Pai Nosso, Ave Maria e Santa Maria, oferece ao anjo da guarda e às cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo. (Repetir 3x)”

Oração “para tirar cobreiro brabo”

Para Dona Severina, o ‘’cobreiro brabo’’ é causado por um ‘’bicho cabeludo’’, que entra em casa pelas telhas, ou por aranhas, que entram em contato com a pele do afetado, infectando-a. No processo do benzimento contra o cobreiro, a rezadeira vale-se de pinhão-roxo ou outros ramos, os quais são cortados com uma tesoura, quando é proferido o verso ‘’ Corto a cabeça e o rabo’’. Se o cobreiro percorrer todo o abdome, resultando em uma volta completa com o encontro da cabeça com o rabo, a pessoa pode morrer.

Vem de romaria

Vem de Roma e romaria

Curando cobreiro e cobraria

Cobreiro brabo verde

Assim mesmo te corto

A cabeça e o rabo

Deixo bem pequenininho

Rezar Pai Nosso, Ave Maria e Santa Maria

Oferece a São Lázaro e às cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo”

*Repete-se 3x

Oração e procedimento para estancar hemorragia

No altar de Virgem Maria tinha três virgens



Uma dizia: Eu vi

Outra dizia: Eu não vi

E a outra disse: Eu estanquei

(Repetir três vezes)”
Procedimento: Sujar com o sangue proveniente da hemorragia, o dedo polegar da mão direita. Pegar uma pedra do chão, com a mão esquerda e desenhar uma cruz, utilizando o dedo manchado com o sangue, no lado da pedra que estava voltado para o chão. Emborcar a pedra, novamente, no mesmo lugar, com o lado da cruz desenhada voltado para o chão. Sair do recinto sem olhar para trás.

Benzimento para “afastar dor de cabeça”

Procedimento: Colocar uma toalha branca na cabeça. Emborcar uma garrafa tampada, com água pela metade de sua capacidade, sobre a toalha. Segurar a garrafa sobre a cabeça.



Reza:

Andavam Jesus e José pelo mundo



Encontrou Santa Pelonha (Apolônia)

Sentada numa pedra de ouro fino

Santa Pelonha, que estás fazendo aí?

Tou rezando por Fulano

Tou rezando pra curar dor de dente, dor de cabeça, dor de chuçada, dor de pontada, dor agressada, dor que não posso suportar. Rezando para as ondas do mar sagrado, levar.

Amém.

Rezar o Pai Nosso (Repete-se 3x)”

Para “tirar ranho dos olhos” (inflamação nos olhos, conjuntivite)

Lá vem o sol saindo



Lá vem o sol clareando

Se foi de ranho

Se foi de compaixão

Se foi de vermelhão

Se foi de fogo selvagem

Se foi de “madremonto (mal de monte)”

Vai para o meio do mato

Com os poderes de São Frutuoso

Amém

Rezar o Pai Nosso

(Repetir 3x)”



Para “tirar vermelhão’’ das pernas e dos olhos

Santificados roxo e amarelo



Todas as qualidades

Em “zipe” e “zipelite”

Do tutano vai pro osso

E do osso vai pra pele

E da pele vai pro sangue

E do sangue vai para as ondas do mar sagrado

Que aqui não vai fazer mais nada

Rezar Pai Nosso, Ave Maria e Santa Maria

(Repetir 3x)

Oferecer às cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo.”

Oração para curar queimaduras

Santa Sofia tinha três filhas



Uma fiava

Outra cozia

E o fogo se ardia

Rezar o Pai Nosso, Ave Maria e Santa Maria.

Após, retornar à Santa Sofia

(Repetir 3x)”

Oração para “sarar ferida de boca”

Feridinha, feridé



Laranjinha, laranjá

Quando Jesus Cristo foi em Roma

E São Mascate, foi em Pascoá

As feridas de Fulano, sarou cá

Chagas abertas

Corpo ferido

Anjo Custódio pendente da cruz

Chagas abertas

Corpo Ferido

Enquanto São Romão foi em Roma

E São Mascate foi em Pascoá

As feridas de fulano, sarou cá.

Pai Nosso, Ave Maria, Santa Maria (3x)

(Repete-se 3x)”



Reza para se proteger de “pessoas aperreadas, nervosas e que falam palavrões”

Santa Rosa tem o cabelo grande



Nossa Senhora tem o cabelo maior

(Repete 3x)

Com o sangue de Jesus Cristo, serei coberto

Te afugenta da cruz, como o padre se aconchega no altar

(Oferecer ao anjo da guarda)”

Considerações finais

Conforme observado no trabalho de campo, atendo-se aos processos de intersubjetividade, detectados no mundo da práxis dos atores sociais e confrontando os dados coletados com a base teórica selecionada na literatura, por meio de um posicionamento dialético, observa-se que as atitudes humanas, defronte ao inesperado e do perturbador, provocado pela doença e por qualquer alteração interativa no corpus social, são direcionadas para o domínio do religioso.

As representações presentes na medicina oficial e na popular de Dona Severina, conforme Laplantine, oscilam entre os modelos etiológicos exógeno, ontológico e maléfico - a doença vista como algo prejudicial, um ser externo, que se apodera do corpo do paciente - o modelo terapêutico exorcístico – o mal deve ser retirado, enfaticamente, do organismo – e a doença-punição - quando é desobedecida alguma prescrição do médico ou da benzedeira, o responsável pela moléstia é o próprio doente. (LAPLANTINE, 2010).

A Medicina Erudita não oferece o conforto e a cosmogonia dos processos míticos, e descontextualiza o indivíduo do ser cultural, ao defender a convergência do todo patológico a uma região do corpo, e ao agir de forma invasiva para extirpar o mal, que, como no cristianismo, é visto como uma coisa intrusa que invade o corpo do homem à sua revelia – a doença como um ser ontológico não é uma mera coincidência de pontos de vista entre as representações cristã e médico-científica, ambas se interrelacionam continuamente neste imaginário social. Dona Severina, em certo momento, asseverou sobre “dores da intrusidade’’, o que corrobora essa visão compartilhada pela cultura, de que todo processo maléfico ser de origem externa, e não ter qualquer relação disfuncional com o corpo humano - a não ser em um mal fatalista, do acaso ou acidental, como as doenças hereditárias ou congênitas, o que é traduzido como doença-maldição LAPLANTINE (2010).

O fato de, a mesma valer-se da medicina oficial para tratar seu diabetes mellitus, e indicar certos casos para o médico, haver um discernimento entre ‘’doenças de médico’’ e as de ‘’benzedeira’’, revela uma complementaridade entre as duas atividades curativas, tanto no campo da ação, como no da representação – a produção coletiva da vida social e nos significados subjetivos da mesma

Por mais que na, maioria das vezes, as práticas populares de cura, sejam vistas como “produto da ignorância de uma população pobre e desassistida, num meio insalubre”, é impossível separar tais práticas do contexto social total, arraigado culturalmente com essas ações, e que sobrevivem por apresentar uma eficácia simbólica, e, externamente ao seu locus de atuação, por configurar-se como um processo de resistência da identidade cultural contra a suposta infalibidade da Medicina Tradicional – uma quebra de sentido no discurso médico é provocada pelos fatos noticiados pela mídia, que informa, amiúde, à população, uma situação de descaso com a saúde pública.

Pessoas das mais diversas camadas sociais procuram os agentes populares de cura, não só pela identificação imediata com a linguagem mágico-religiosa de seus discursos, mas como uma evasão ao próprio corpus médico oferecido pelo Estado, que não oferece alternativas confortáveis à população, apenas desentendimentos com a já frágil representação social da instituição médica.

Uma vez que o incompreensível para a representação social gera o escândalo, o que religiosamente equivale à quebra de um dogma. Em suma, o elemento religioso condiciona o medicinal popular e o erudito, como toda e qualquer representação social, independentemente da classe social a qual está inserido o indivíduo, o que proporciona a oscilação das pessoas de um campo de atuação médica ao outro, extinguindo qualquer chance de dicotomia entre o popular e oficial, que atuam conjuntamente a favor da construção de sentido para a vivência social.

NOTAS


1 Fabiano Lucena de Araújo é graduado em Farmácia pela UFPB, pesquisando sobre religiões e cura. Contato> fab_farm@yahoo.com.br.

Referências Bibliográficas

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CAMARGO, Maria Tereza Lemos de Arruda. O cobreiro na medicina popular. Disponível em: http://www.aguaforte.com/herbarium. Acesso em: 5 mai 2010

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CAOS – Revista Eletrônica de Ciências Sociais, n. 18, setembro de 2011 Página

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