Relatório Final do ºCiclo do Curso de Psicologia



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Universidade da Beira Interior

Departamento de Psicologia e Educação



Relatório Final do 2.ºCiclo do Curso de Psicologia

Nuno Fernandes

Dissertação apresentada no âmbito do Estágio curricular do curso de Psicologia Clínica e da Saúde, realizado no Centro de Atendimento ao Toxicodependente (CAT) da Covilhã
Covilhã, 2008

AGRADECIMENTOS

A toda a equipa que trabalha no CAT da Covilhã, pelo apoio constante.

Ao professor Dr. Henrique Pereira pela sua paciência e acompanhamento.

A toda a população utente do CAT da Covilhã, pela sua participação e compreensão.

Um muito obrigado.

ÍNDICE

Introdução pág. 4
Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT) pág. 5
CAT da Covilhã pág. 10
Actividades desenvolvidas durante o estágio pág. 13
Casos Clínicos pág. 15

Caso clínico I pág. 18

Caso clínico II pág. 37
Actividade de Investigação pág. 42

Método pág. 49

Resultados pág. 52

Discussão pág. 58

Considerações Finais pág. 64
Reflexão Pessoal pág. 66
Bibliografia pág. 71


Introdução
O presente trabalho, constitui a tese/relatório final equivalente ao 2.º ciclo do curso de psicologia. É por tanto, o ano referente às actividades desenvolvidas pelo estagiário, no Centro de Atendimento ao Toxicodependente (CAT) da Covilhã no ano lectivo 2006/2007.

É iniciado por uma descrição do IDT, enquanto instituição, tocando pontos como a sua formação, legislação associada, atribuições inerentes à sua função e prática, não esquecendo a sua estrutura e unidades especializadas, que estão sobre a sua alçada e administração.

Posteriormente, é desenvolvida uma descrição mais específica do CAT da Covilhã, que engloba quer uma caracterização mais física da instituição, mas também uma descrição mais funcional e organizacional das actividades desenvolvidas por este organismo, bem como, umas descrição de todos os recursos humanos implicados no desempenho das suas funções e objectivos. É descrito o percurso do utente, desde que chega ao CAT, tal como, os processos que são necessários cumprir e respeitar, para obter um processo terapêutico positivo, visando sempre o bem-estar do utente e daqueles que o rodeiam.

Apresenta-se também, relativamente ao CAT, algumas limitações que no ponto de vista do estagiário, poderão dificultar muitas vezes o desempenho da própria instituição, bem como a concretização dos objectivos que a instituição tem para como os seus utentes e com a população em geral.

Após esta caracterização da instituição onde foi realizado o estágio, são apontadas actividades desenvolvidas pelo estagiário, bem como, actividades em que o estagiário participou ao longo de todo o ano curricular. Posteriormente, são expostos dois casos seguidos pelo estagiário ao longo de todo o segundo semestre. São casos de utentes que vieram ao CAT pela primeira vez, e como tal, o estagiário teve oportunidade de os seguir desde a primeira consulta, até ao final do período do estágio curricular.

De seguida, é descrita a investigação que o estagiário levou a cabo ao longo de todo o ano lectivo, sendo caracterizado todo o processo de elaboração bem como os resultados e conclusões obtidas.

No final, achou-se por bem, construir uma reflexão pessoal que permitisse desenvolver mais claramente essas actividades, expressando o que sentiu no desenrolar de algumas delas. Aproveita também o momento, para tentar explicar de uma forma geral, qual os ganhos e dificuldades apreendidas, durante toda a estadia na instituição.

Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT) (informação recolhida no Plano de Actividades para 2007)
O IDT é um instituto público dotado de personalidade jurídica, autonomia administrativa e património próprio, exercendo a sua actividade sob a tutela e superintendência do Ministério da Saúde. Tem sede em Lisboa, onde estão instalados os Serviços Centrais, e exerce a sua actividade a nível do território através das suas cinco Delegações Regionais: Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve. Estas Delegações Regionais, são por sua vez, serviços descentralizados, de natureza operacional, que coordenam um conjunto de Unidades Especializadas, constituindo estruturas locais, às quais compete a planificação, execução e avaliação de actividades no âmbito da prevenção primaria, dissuasão, tratamento, redução de danos e reinserção do utente.

Foi criado pelo Decreto-Lei nº 269-A/2002 de 29 de Novembro, resultando da fusão do Serviço de Prevenção e Tratamento da Toxicodependência (SPTT) e do Instituto Português da Droga e da Toxicodependência (IPDT). Tem por missão, a unidade intrínseca do planeamento, da concepção, da gestão, da fiscalização e da avaliação das diversas fases da prevenção, do tratamento, e da reinserção, no domínio da droga e da toxicodependência na perspectiva da melhor eficácia da coordenação e execução das políticas e estratégias definidas.



No âmbito da sua missão o IDT tem assim entre muitas atribuições:

  1. Desempenhar as tarefas de coordenação e execução da Estratégia Nacional de Luta contra a Droga que lhe forem atribuídas pelo Ministro da Saúde;

  2. Promover, planear, coordenar, executar e avaliar programas de prevenção, de tratamento, de redução de danos e de reinserção social no âmbito da toxicodependência, através da intervenção na comunidade por si e em colaboração com entidades públicas e privadas que actuem neste domínio;

  3. Promover, coordenar, apoiar e avaliar as iniciativas de entidades públicas e privadas no domínio da prevenção do consumo de droga e da toxicodependência;

  4. Apoiar as comissões para a dissuasão da toxicodependência previstas na Lei n.º 30/2000, de 29 de Novembro;

  5. Recolher, tratar e divulgar dados, informação e documentação técnico-científica na área da droga e da toxicodependência, nomeadamente a relativa ao consumo e tráfico de estupefacientes, substâncias psicotrópicas e precursores;

  6. Instituir e assegurar o funcionamento de um sistema nacional de informação sobre droga e toxicodependência;

  7. Assegurar, na sua qualidade de ponto focal nacional, o cumprimento das obrigações do Estado Português junto do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (OEDT);

  8. Proceder à avaliação da execução das políticas de luta contra a droga e a toxicodependência;

  9. Assegurar a cooperação com entidades externas no domínio da droga e da toxicodependência;

  10. Desenvolver, promover e estimular a investigação sobre o fenómeno da droga e da toxicodependência;

  11. Apoiar a formação dos profissionais que intervêm no domínio da droga e da toxicodependência;

  12. Estudar e propor medidas legislativas e administrativas em matéria de droga e toxicodependência, bem como acompanhar e apoiar a sua aplicação;

  13. Responder às consultas formuladas pelos serviços da Administração Pública ou por outras entidades públicas ou privadas em matéria das suas atribuições;

  14. Facultar apoio técnico a entidades públicas e privadas;

  15. Propor as medidas que considere convenientes no domínio do regime e circulação de medicamentos ou outras substâncias que possam causar toxicodependência, sem prejuízo das competências próprias do Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento;

  16. Licenciar unidades privadas de prestação de cuidados de saúde na área da toxicodependência;

  17. Colaborar com a Direcção-Geral da Saúde na garantia da continuidade de tratamento dos toxicómanos entre serviços prestadores de cuidados de saúde integrados no sistema de saúde e as unidades prestadoras de cuidados do IDT.

Estes aspectos, são alguns entre muitos que o IDT tem actualmente ao seu encargo. No entanto, todos eles visam o combate em todas as frentes do fenómeno da toxicodependência, não esquecendo o bem-estar dos indivíduos que dela padecem e cujas vidas giram em torno do consumo e dependência de substâncias.

Assim, com a entrada em vigor da nova Lei Orgânica, o IDT terá por objectivo primário, promover a redução do consumo de drogas lícitas e ilícitas, bem como, a diminuição das toxicodependências. Para tal, disponibiliza tratamento em ambulatório e em regime de internamento, nomeadamente em Centros de Atendimento, Unidades de Desabituação e Comunidades terapêuticas, bem como a permanência em Centros de Dia.

O carácter interdependente e complementar que se verifica entre as várias atribuições do IDT, levou à criação de duas medidas de intervenção, que se caracterizam por uma optimização de saberes e recursos e por uma maior eficácia e eficiência. É o chamado Plano de Intervenção Focalizada (PIF) e o Plano Operacional de Respostas Integradas (PORI). O PIF, visa criar condições para o desenvolvimento de projectos na área da prevenção das toxicodependências, baseados em evidência científica, que vão ao encontro das problemáticas de grupos específicos, introduzindo no processo de selecção, monitorização e avaliação um sistema mais rigoroso e estruturado.
Por sua vez, o PORI, é uma medida estruturante ao nível da intervenção integrada, no âmbito da redução do consumo de substâncias psicoactivas, assumindo-se como um plano de acção territorial que integra respostas interdisciplinares (prevenção, dissuasão, tratamento, redução de riscos e minimização de danos e reinserção).

Serviços Centrais
Departamento de Prevenção (DP);

Departamento de Tratamento, Redução de Danos e Reinserção (DTRDR);

Departamento de Planeamento e Administração Geral (DPAG);

Observatório de Drogas e Toxicodependência (ODT);

Departamento de Apoio às Comissões para a Dissuasão da Toxicodependência (DACDT);

Gabinete de Relações Interpessoais (GRI);

Gabinete de Estudos Jurídicos (GEJ);

Gabinete de Relações Exteriores (GRE);

Gabinete de Formação (GF);

Assessoria do Conselho de Administração (ACA).


Delegações Regionais – Unidades Especializadas
São serviços locais as unidades especializadas, que prosseguem as atribuições do IDT nas áreas da prevenção, dissuasão, tratamento e reinserção social dos toxicodependentes, que são:

Centros de Atendimento ao toxicodependente (CAT) – São unidades-tipo prestadoras de cuidados compreensivos e globais, em regime ambulatório, a toxicodependentes que procuram tratamento e as suas famílias, individualmente ou em grupo, de acordo com o pedido e a indicação terapêutica. Estas unidades assentam a sua intervenção em equipas multi-disciplinares, constituídas por médicos de várias especialidades (com destaque para a psiquiatria, mas também medicina interna, medicina familiar, saúde publica), psicólogos, enfermeiros, técnicos de serviço social e psicossociais. A intervenção nestas unidades baseia-se no modelo bio-psicossocial, que procura fazer uma abordagem global do toxicodependente com o objectivo da sua integração social plena.

Existem ainda extensões do CAT, locais de consultas descentralizadas e núcleos de atendimento a toxicodependentes (NAT). Estas extensões visam desenvolver um trabalho de proximidade que permita chegar àqueles que não procuram tratamento, quer pela sua tendência à imobilidade, quer pelas dificuldades de acessibilidade aos locais de consulta. Estas intervenções privilegiam sempre a perspectiva de trabalho em parceria com outras estruturas de intervenção local, nomeadamente os centros de saúde.



Centros de Dia (CD) – São dispositivos não contemplados na lei orgânica, que promovem o processo de reinserção a par do processo de tratamento. Através do recurso a actividades ocupacionais lúdicas, pedagógicas e terapêuticas dão resposta à necessidade de melhor enquadrar e reforçar o tratamento em regime ambulatório dos toxicodependentes.
Unidades de Desabituação (UD) – Têm por objectivos tratar, através de internamentos de curta duração, sob supervisão e acompanhamento médico, o sindroma de privação em toxicodependentes que não dispõem de condições individuais ou sociais para o fazer em regime ambulatório.
Comunidades Terapêuticas (CT) - São estruturas residenciais em regime de internamento de longa duração, onde através de apoio psicoterapêutico e socioterapêutico se procura ajudar à organização do mundo interno dos toxicodependentes. Estes dispositivos ao proporem uma ruptura com o meio onde os consumidores se inserem e através de apoio especializado, sob supervisão psiquiátrica, têm como objectivo o reaprender a viver sem drogas e visam uma “reordenação” da história de vida que permita uma reinserção sentida como gratificante.
Unidades de Prevenção (UP) – Têm como missão executar, na área do seu distrito, as acções promovidas pelas Delegações Regionais e Serviços Centrais, em articulação com outras entidades, desenvolvendo programas e projectos no âmbito da prevenção das toxicodependências ao nível distrital, incentivando e motivando a participação das instituições da comunidade no desenvolvimento de acções co-relacionadas.


O CAT da Covilhã
Surgiu a 7 de Outubro de 1993, e constitui um dos dois CAT’s do distrito de Castelo Branco, por sua vez, pertencente à Delegação Regional do Centro. Funciona no local do antigo Posto Médico (avenida 25 de Abril) e tem um horário de funcionamento de segunda à sexta-feira, das 9:00 às 13:00 e das 14:00 às 19:00. Tem uma área de atendimento composta pelos concelhos da Covilhã, Fundão, Belmonte e Penamacor.

As instalações foram cedidas pela Administração de Saúde, possuindo actualmente uma equipa de trabalho multidisciplinar que abrange a Enfermagem (4 elementos), a Psicologia (2 elementos), o Serviço Social (2 elementos), a Reinserção Social (1 elemento), a Medicina (3 elementos), o Serviço Administrativo (2 elementos), o Serviço de Apoio (1 elemento) e por último, a Segurança (1 elemento), que se dividem por um gabinete de enfermagem, um gabinete de medicina clínica geral, um gabinete para consultas de psicologia, dois gabinetes para o serviço social, um gabinete de psiquiatria, um gabinete de reinserção social, uma sala de apoio, uma sala de reuniões, a área de serviço administrativo, uma sala de descanso, uma sala de espera e duas casas de banho.

A equipa técnica reúne-se uma vez por semana, maioritariamente, à segunda-feira, dando lugar às reuniões clínicas onde são comentados os casos que mais merecem a atenção da equipa, e onde a mesma delineia a melhor estratégia a considerar para cada caso comentado. A reunião semanal é também um espaço onde são informados e debatidos outros aspectos referentes ao CAT enquanto instituição, ficando essa tarefa ao encargo do Director do CAT, Dr. João Fatela, que também acumula o mesmo cargo e função no CAT de Castelo Branco.

Como já foi referido, também o CAT da Covilhã funciona em regime ambulatório. Segundo Patrício (2002), na prática do regime ambulatório, o doente que frequenta a consulta não vive na casa onde é consultado, no local de tratamento. Por isso é nas consultas que se faz a avaliação médica e psicológica, o diagnóstico, e que, sob responsabilidade médica, se desenvolve o tratamento. Sem pressas nem pressões, é na consulta que tudo se discute, se avalia, e que se decide o tratamento a efectuar.

Ao utente que chega pela primeira vez ao CAT, é-lhe feito o acolhimento ou seja, são recolhidos os seus dados pessoais e familiares, tentando recolher o máximo de informação que possa ajudar a conhecer o mais possível o percurso do indivíduo, e avaliar numa primeira fase, a sua situação. Posteriormente, o processo do já utente é avaliado em reunião de equipa, e decide-se qual será a melhor estratégia tendo em contas as características do utente e todos os aspectos que o acompanham. Como tal, é atribuído um terapeuta de referência ao utente, bem como se necessário à sua família, sendo assim, marcada a primeira consulta.

Com a primeira consulta, dá-se início ao acompanhamento, onde o utente é seguido regularmente pelo seu terapeuta, que vai funcionar em sintonia com outros técnicos, visando sempre o bem-estar do indivíduo e o sucesso do seu processo terapêutico. Quando o utente possui um bom suporte familiar e motivação, é promovida a desabituação física neste regime ambulatório. No entanto, há casos em que é necessário recorrer ao internamento como forma mais apropriada, não esquecendo que cada caso é um caso e cada indivíduo tem a sua particularidade.

Para se manter a abstinência, quando a substância principal consumida pelo utente, é opiácea, geralmente heroína, é proposto ao indivíduo uma desabituação através de um tratamento que tem por base, antagonistas opiáceos. Sendo muitas vezes solicitado uma terceira pessoa (familiar ou pessoa próxima), que se possa responsabilizar pela administração da medicação a horas e nas quantidades certas ao utente, e assim cumprir o mais fielmente possível a prescrição médica.

Como cada caso é um caso, existem também doentes aos quais é indicado um tratamento de substituição. Este tratamento tem por base duas substâncias substitutas, que podem ser a metadona ou a buprenorfina (subutex ®). No caso da metadona, esta é administrada diariamente no CAT, pela equipa de enfermagem, nos horários apropriados. O subutex ®, pode também ser tomado no CAT, no entanto, na maioria das vezes, esta medicação fica ao encargo de alguém próximo do utente, que fica responsável pela administração da dose diária e pela segurança do medicamento.

Quando se registam múltiplas tentativas de paragem de consumos, ou perante uma dificuldade ou impossibilidade do tratamento em regime ambulatório, o utente pode ser proposto para internamento, existindo uma articulação com o Departamento de Saúde Mental, ou pode ser encaminhado para uma comunidade terapêutica. Para além das comunidades terapêuticas, existe também uma articulação do CAT com outras unidades especializadas.

De uma forma geral, podemos verificar que todo este procedimento visa o bem-estar do indivíduo e a sua aceitação incondicional, de forma a proporcionar um percurso terapêutico positivo para todos os utentes. Desta forma, verifica-se uma mobilização geral de todas as equipas que constituem o CAT da Covilhã, que num esforço contínuo tentam promover a abstinência do utente, mantendo o acompanhamento psicológico, médico e social, com o objectivo de estabelecer uma relação saudável e positiva, baseada na aceitação, confiança e respeito.

Cada técnico, procura assim, contribuir com a sua actividade não só individual, mas também colectiva, para exercer um papel proeminente na recuperação do utente, prestando não só um apoio ao utente em causa, mas também não esquecendo a sua família e as esferas mais próximas do indivíduo. Trata-se assim de um esforço contínuo e incansável, de promover a recuperação do utente, tentando ao mesmo tempo, salvaguardar o desenvolvimento da sua autonomia, quer física quer psicológica, e emocional, de forma a alcançar a sua recuperação e equilíbrio.

Porém, vários são os problemas e limitações com que o CAT se depara, e que de uma forma ou de outra, poderão constituir dificuldades a todo o processo terapêutico dos seus utentes. Essas dificuldades passam pela intensificação do consumo que se tem vindo a verificar em todo o distrito, e que contribui para o aumento da população toxicodependente. Outro problema que assola fortemente a instituição, prende-se com a elevada taxa de dropouts que se verificam, talvez explicados pela faltam de motivação dos utentes para a abstinência da substância, bem como, a falta de empenhamento no seu processo terapêutico e consequentemente, na sua recuperação. Este aspecto pode também influenciar o processo de reinserção social e profissional, na medida em que a desistência por parte do utente, aliada às frequentes dificuldades que o Programa Vida – Emprego enfrenta, contribui para uma dificuldade crescente da progressão positiva, desta iniciativa.

As dificuldades financeiras e humanas do IDT, vão inevitavelmente ter repercussões sobre os CAT’s e como tal, também no CAT Covilhã, obrigando muitas vezes aos vários técnicos, mobilizarem-se de uma forma dinâmica, para tentar colmatar essas dificuldades e obter um maior espaço de manobra (ressalve-se o esforço realizado por alguns técnicos, para a obtenção de material para o espaço infantil). Outra dificuldade com que o CAT se depara diariamente, mas que também se compreende a sua inevitabilidade, prende-se com a acentuada dependência que alguns utentes têm para com a instituição, nomeadamente no que diz respeito ao tratamento de substituição, onde o utente tem que se dirigir diariamente (no caso da metadona) ao gabinete de enfermagem, para realizar a toma do agonista. Este aspecto, pode fortemente contribuir para diminuir a autonomia do indivíduo, já por si muitas vezes limitado, dependendo muitas vezes da sua família ou de amigos, quer financeiramente, quer humanamente.

Porém, estas dificuldades são sempre enfrentadas em equipa, havendo toda uma acção por parte de todos os elementos, para que estas limitações sejam minimizadas o mais possível, promovendo-se acima de tudo, o bom funcionamento da instituição e a sua total dedicação aos seus utentes.



Actividades Desenvolvidas Durante o Estágio
As actividades descritas foram realizadas ao longo de todo o estágio, e foram sempre acompanhadas pela orientadora de estágio (Dr.ª Natália Nogueira), ou na sua ausência, por outro técnico do CAT, existindo por isso, um carácter profissional e responsável em cada actividade realizada ou participada.

Assim, desta forma, o ano de estágio curricular passou pelas seguintes actividades e acções:

- Observação de consultas de psicoterapia individual de utentes de ambas as psicólogas do CAT, Dr.ª Sónia Filipe e Dr.ª Natália Nogueira, orientadora de estágio;

- Participação nas reuniões clínicas realizadas semanalmente, pela equipa multidisciplinar do CAT, onde o estagiário teve oportunidade de expor alguns dos seus casos;


- Realização de alguns acolhimentos a utentes admitidos pela primeira vez, no CAT da Covilhã;
- Intervenção Psicológica e seguimento de 3 utentes, encaminhados para o estagiário pela Dr.ª Natália Nogueira e pela Dr.ª Marta Vilarinho;
- Visita ao Hospital do Fundão com o mediador do CAT, Dr. Neves Dias, no âmbito de uma apresentação do Programa Vida – Emprego aos utentes da consulta de extensão do CAT da Covilhã, realizada nesse mesmo Hospital;
- Presente nas Conferências “As Drogas, Tu Constróis o Teu Futuro”, na Escola Profissional da Serra da Estrela, no dia 20 de Março de 2007;
- Participação no XXVI Encontro do Grupo Português de Psiquiatria Consiliar/Ligação e Psicossomática, subordinado ao tema “Diálogos e Recursos de Psiquiatria C/L”, realizado nos dias 11 e 12 de Maio de 2007;
- Presente na formação no âmbito do Programa Klotho, realizada no CAT da Covilhã, juntamente com a equipa do CAT de Castelo Branco, sendo administrada pela Equipa Dinamizadora Local.
- Realização do Seminário de Investigação com uma amostra de 50 utentes do CAT da Covilhã, sobre o tema “Análise do Perfil de Personalidade dos Utentes do CAT da Covilhã, sendo utilizado para o estudo, o inventário de personalidade NEO-PI-R, que assenta no modelo teórico dos Cinco Grandes Factores;
- Realização do Seminário de Intervenção tendo por base, o estudo de caso de um utente seguido em consulta de psicoterapia individual, pelo estagiário, sendo utilizado o inventário de personalidade NEO-PI-R, a Escala Geral (SPM), das Matrizes Progressivas de Raven e o Questionário de Estilos Parentais de Young;
- Visita à Comunidade Terapêutica “Casas de Santiago” em Belmonte, com o Dr. Neves Dias, com o objectivo de conhecer as instalações e o modelo adoptado e seguido na instituição;
- Participação e cooperação com a Dr.ª Marta Vilarinho e com as colegas estagiárias de Serviço Social, no “Grupo de Esposas” do CAT, elaborado pela Dr.ª Marta, com reunião mensal, nas instalações do CAT (anexo IV, relatório gentilmente cedido pelas colegas estagiárias de Serviço Social).


Casos Clínicos

As informações relatadas foram recolhidas ao longo das várias consultas, e fazem parte do diário terapêutico que acompanha a ficha do processo de cada utente. Foram, salvaguardas todas as informações que pudessem de alguma forma, por em causa o anonimato dos utentes, e por isso, não foram divulgados aspectos como o nome do utente, a sua morada ou número de bilhete de identidade. Essas informações continuam apenas ao dispor dos técnicos do CAT e como tal, não correm o risco de serem divulgadas.

Procede-se a seguir, à descrição de dois caso clínicos, que o estagiário teve a oportunidade de seguir, sendo dado destaque em particular a um deles, visto constituir um estudo de caso.
Metodologia

O método de investigação do estudo de caso, poder-se-á definir de forma simplista, como um estudo intensivo e descritivo de um dado indivíduo, organização ou evento. Historicamente o método de estudo de caso encontrou a suas origens na medicina, pelo que o seu uso no campo da psicologia fundou-se pela via da especialidade psiquiátrica. Assim sendo, muitos são os estudos de caso em psicologia que se centram em casos individuais relativos à psicopatologia, mas também de uma forma geral, ao desenvolvimento e intervenção psicoterapêutica (Oliveira, 2001).


Instrumentos

Para a realização do estudo foram utilizados três instrumentos. Foram aplicados ao longo do seguimento no contexto de consulta, sendo primeiramente aplicado um inventario de personalidade, neste caso o NEO-PI-R, de seguida foi passado o Questionário de Estilos Parentais desenvolvido por Young e por último procedeu-se à aplicação das Matrizes Progressivas de Raven, mais propriamente da Escala Geral (SPM). De seguida serão descritos mais aprofundadamente estes três instrumentos de avaliação para que possamos entender o porque da sua aplicação.


NEO-PI-R

A escolha deste inventário, prende-se com o facto deste instrumento se encontrar aferido e validado para a população portuguesa, com um índice de fidelidade (alfa de Cronbach e correlações item/total) que apresenta na generalidade resultados satisfatórios (Lima & Simões, 2000). No entanto, é também importante referir que nesta escolha pesou também o facto de autores como Manita (2002), referirem quer o NEO-PI-R, quer o NEO-PI, como sendo instrumentos particularmente úteis no domínio da avaliação da personalidade e mais concretamente, na avaliação da personalidade da população toxicodependente.

É um inventário composto por 240 afirmações, que nos permite avaliar cinco domínios da personalidade, sub-divididos cada um deles em seis facetas. Assim, temos o domínio Neuroticismo englobando as facetas Ansiedade; Hostilidade; Depressão; Auto-consciência; Impulsividade e Vulnerabilidade. O domínio Extroversão, que apresenta as facetas Acolhimento caloroso; Gregariedade; Assertividade; Actividade; Procura de excitação e Emoções positivas. Por sua vez, Conscienciosidade apresenta as facetas Competência; Ordem; Obediência ao dever; Esforço de realização; Auto-disciplina e Deliberação. A seguir temos o domínio Abertura à Experiência, englobando as facetas Fantasia; Estética; Sentimentos; Acções; Ideias e Valores. Por último, o domínio Amabilidade apresenta como facetas, a Confiança; Rectidão; Altruísmo; Complacência; Modéstia e Sensibilidade.

Foi elaborado por Costa e McCrae, em 1992, e constitui a última versão da revisão do NEO-PI. Tem uma administração individual ou colectiva, com uma duração entre 40 e 50 minutos, destinando-se a adultos e adolescentes a partir dos 17 anos, que não sofram de perturbações como por exemplo, psicose e demência, e que estejam aptos a completar medidas de auto-avaliação, de forma fiel e válida (Lima & Simões, 2000).

Aos sujeitos é solicitado que classifiquem cada afirmação, utilizando para tal, uma escala de tipo Likert de 5 opções (discordo fortemente, discordo, neutro, concordo, concordo fortemente), de acordo com o grau de concordância com cada uma delas. É assim, obtida uma nota bruta para cada faceta, que corresponde ao somatório da pontuação em cada um dos oito itens que lhe dizem respeito, e também para cada domínio, através do somatório da pontuação obtida em cada uma das seis facetas que o compõem. Essas notas brutas são posteriormente transformadas em notas T, que nos indicam o posicionamento dos sujeitos relativamente quer aos domínios, quer a cada uma das facetas anteriormente referenciadas. É precisamente a análise do modo como os sujeitos se posicionam em cada um dos domínios e facetas, que permite descrever o perfil de personalidade

Questionário de Estilos Parentais

Trata-se de um questionário utilizado para identificar a origem mais provável de determinados esquemas que o paciente em particular, possui em relação aos seus progenitores. Assim, permite verificar se os progenitores do paciente tiveram atitudes recorrentes que levaram à formação dos esquemas. Foi desenvolvido por Jeffrey Young, e é constituído por 72 itens com uma escala de resposta que vai do 1 ao 6 (1= completamente falso; 2= falso na maioria das vezes; 3= ligeiramente mais verdadeiro que falso; 4= moderadamente verdadeiro; 5= verdadeiro a maioria das vezes; 6= descreve-o(a) perfeitamente). Cada item reflecte comportamentos dos pais que estão relacionados com um dos 17 esquemas negativos. Todos os itens são cotados directamente, excepto os cinco primeiros que são invertidos e que correspondem ao esquema privação emocional (pe). O questionário cota-se através de uma tabela onde estão presentes os 17 esquemas existentes, tendo em conta a pontuação que cada progenitor obtém em cada um dos esquemas. Pontuações elevadas são indicadoras de uma percepção em que os pais se comportaram de uma forma em que se torna muito provável a formação dos esquemas relacionados. A média a ter em conta é de 3 ou 4 (Sheffield, Waller, Emanuelli, Murray & Meyer, 2006).

A sua tradução e adaptação para a língua portuguesa, foi realizada por M. C. Salvador, D. Rijo e J. Pinto Gouveia.
Matrizes Progressivas de Raven – Escala Geral (SPM)

Este teste avalia a capacidade de observação e clareza de pensamento, baseando-se na teoria de inteligência multifactorial de Spearman (Campos, 1997). Foi criado na metade da década de 30 por J. C. Raven e teve algumas revisões ao longo do tempo. Desenvolveram-se inicialmente para serem usadas no estudo das origens genéticas e ambientais do comportamento intelectual. Primeiramente foi criada a Escala Geral (SPM), estando destinada a sua aplicação quer as crianças quer aos adultos, podendo estes ser muito dotados ou pouco. Posteriormente foram desenvolvidas as Matrizes Coloridas (CPM) e a Escala Superior (APM). A Escala Geral foi a utilizada no estudo. A sua administração pode ser individual ou colectiva, tendo uma duração variável, entre 40 a 90 minutos, sendo aplicada a crianças, adolescentes e adultos (Raven, Court & Raven, 2001).

Assim, o teste consiste na busca de um complemento de um sistema de relação ou matrizes, com uma, duas ou mais variáveis, devendo o sujeito deduzir relações ou correlações. É composto por cinco séries (A, B, C, D, E), com 12 problemas em cada uma, e quando somadas, fornecem a pontuação total, sendo as séries ordenadas por uma dificuldade crescente. Por sua vez, as séries A e B, são do tipo fortemente gestáltico, onde o individuo deverá completar uma figura com uma das opções que lhe são apresentadas. Como tal, é necessário que perceba as semelhanças, diferenças, simetrias e continuidade das partes, em relação ao todo. As séries C, D e E, constituem um sistema de relações que implica questões de raciocínio, exigindo assim, operações analíticas de dedução de relações. Deste modo, a capacidade referente à leitura e escrita, não são aspectos imprescindíveis para a realização deste teste.

Preconiza-se que até aos 11 anos, o desenvolvimento intelectual não estaria apto para compreender muito para além dos problemas apresentados nas séries A e B. o numero total, de respostas certas dadas pelo sujeito, corresponde à pontuação total obtida no teste, a qual, é então comparada com a tabela apropriada, segundo a idade do indivíduo, permitindo a classificação do seu desempenho, isto de acordo com a respectiva faixa em percentis. Através da diferença entre as respostas certas dadas pelo indivíduo, e as respostas que seriam esperadas em cada série do teste, avalia-se o nível de discrepância aceitável, que é responsável pela consistência do teste (Santos et al. 2002).


Caso Clínico I

Dados Sócio-demográficos
Fontes de Referencia: Família/Amigos;

Tratamentos Anteriores: Não;

Data de Admissão: 06-03-07

Sexo: Masculino;

Data de nascimento: 25-04-84;

Nacionalidade: Portuguesa;

Naturalidade: Teixoso;

Estado Civil: Solteiro;

Situação Conjugal dos Pais: Casados;

Escolaridade: 6.ºano;

Situação Laboral: Empregado a tempo inteiro (na data de admissão);

Situação de Coabitação: Familiares ascendentes;

Situação de Residência: Habitação condigna;

Situação Judicial: Nada a apontar.
Dados de Consumo
Droga Principal: Heroína;

Via de Administração: Fumada/inalada;

Frequência de Uso: Diariamente;

Utilização Endovenosa: Nunca;



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