Relatório final – “Em torno da obra ficcional de Joaquim Manuel de Macedo: circulação, repercussão e crítica”



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Leandro Thomaz de Almeida (Mestrando em Teoria e História Literária - UNICAMP)

RECEPÇÃO CRÍTICA OITOCENTISTA DA prosa ficcional de Joaquim Manuel de Macedo

Introdução.

Este artigo procura analisar a recepção crítica da prosa ficcional de Joaquim Manuel de Macedo, detendo-se naquela que foi veiculada nos periódicos oitocentistas, contemporânea, portanto, ao lançamento de seus romances.

Tal recorte é proposto para que, a partir de sua análise, se perceba os critérios que balizavam as expectativas dos leitores letrados daquela época, esclarecendo, dessa forma, os motivos que fundamentaram a elogiosa recepção crítica da prosa ficcional macediana no oitocentos. Este artigo procura mostrar que a prosa macediana dialogava com as expectativas que incidiam sobre o romance na época de seu lançamento, mostrando que o elogio destinado a obras como A moreninha superava meras motivações pessoais advindas do bom relacionamento que Macedo experimentava na sociedade da Corte de então.
Críticas veiculadas nos periódicos oitocentistas.

Uma das primeiras críticas de maior fôlego da literatura brasileira (sobre romances) é a do jovem crítico Dutra e Mello, que, no periódico Minerva Brasiliense de 01/10/1844, comentou detidamente o primeiro romance de Macedo, A moreninha. Nesta análise, procuro destacar seu diálogo com critérios clássicos de análise, uma vez que estes perpassam todo seu artigo. O crítico, então com apenas vinte e um anos, inicia seu artigo esboçando um quadro geral do desenvolvimento do romance, que chama de “nova fórma litteraria” (provavelmente indicando, assim, o quanto o gênero é recente se comparado a outros como o drama e a poesia). Para ele, apenas o romance atingiria a “espirituosidade” das “cenas domésticas”, chegaria à “vida objetiva” e retrataria os “caracteres meio trágicos, meio-cômicos”. Nem a épica e nem a tragédia poderiam, segundo o crítico, realizar aquilo que se vê no gênero em que Macedo foi mais prolífico. No entanto, o romance perdeu-se, do ponto de vista do autor, a partir do momento em que se esqueceu de que deveria “fazer a educação do povo”. Dutra e Mello inicia sua argumentação, então, retrocedendo no tempo, criticando o romance “na sua mocidade”, exatamente por ter este perdido a oportunidade de expor “o horror do vício”. É assim que, diz ele, podem-se encontrar apenas alguns exemplos que vão na direção contrária da tomada pelo gênero em tempos passados. Alguns destes, que escaparam, portanto, de encaixar-se na crítica negativa de Mello seriam Os Sofrimentos do Jovem Werther e Notre Dame de Paris. Percebemos que, neste momento, o crítico recorre ao passado para justificar seu posicionamento em relação ao romance na atualidade. É como se, ao olhar para seu passado, encontrasse argumentos para seus posicionamentos presentes (isso se perceberá, também, ao vermos, mais à frente, que A moreninha contrapõe-se aos exemplos negativos dos quais o crítico agora se queixa). Este recurso de recorrer ao passado em busca de argumentos encaixa-se em um dos preceitos do gênero de discurso chamado de epidítico, justamente aquele que tem por finalidade louvar ou censurar algo. É o que se vê, por exemplo, em um manual de retórica usado pelos alunos dos colégios da Corte, as Lições Elementares de Eloquencia Nacional, de Francisco Freire de Carvalho, que usaremos como referência a partir de agora.

Ao adentrar o enredo do romance, o jovem crítico destaca aqueles aspectos que servem de motivos para justificar o elogio a Macedo. Um destes motivos, que vemos como recomendação para a obtenção de um estilo agradável nos manuais de retórica, é a simplicidade no modo de expressar os pensamentos. Por isso Dutra e Mello louva o romancista por ter poupado, com o enredo simples d’A moreninha, “um labirinto de fatos” aos leitores. Segundo o manual de Freire de Carvalho, a simplicidade consiste no “modo fácil e natural de expressar os pensamentos” (CARVALHO, 1861, p. 189). Por isso, ao comentar um trecho que hoje nos parece tão banal, qual seja, o momento em que, no romance de Macedo, Carolina, após quase morrer afogada, perde uma concha no mar1, Dutra e Mello exclama: “que verdade, que harmonia, que graça em tão poucas palavras!” Para ele, esta cena move os afetos a ponto de dizer ele que tudo nela é “patético”. Do ponto de vista retórico, o patético faz parte das provas intrínsecas da invenção, que é uma das partes do discurso. Segundo o manual que vimos citando, o patético é o que excita fortes e animados afetos.

Se o assunto do romance deve ser dirigido para um fim útil, então mesmo no caso d’A moreninha, que Dutra e Mello reconhece ser um romance que apresenta “um ou outro pequeno defeito”, tais aspectos negativos são completamente suplantados pelos méritos da história que “apresenta-nos o quadro edificante da virtude” ao invés de deter-se no “pavoroso aspecto do crime”. A virtude do romance de Macedo é que ele apresenta aquilo que para o crítico, em consonância com as prescrições retóricas (que falam da importância da persuasão pelo exemplo), contribui para a educação moral, pois para ele “o belo e o bom têm por si sós bastante força para atrair as almas bem formadas”.

Finda esta análise de uma crítica contemporânea ao romance macediano, pudemos perceber o quanto ela está balizada por critérios que extrapolam a mera aproximação impressionista do crítico, pois até mesmo expressões que nos parecem, hoje, por demais subjetivas, como falar da “vivacidade” de um trecho, estão, na verdade, correspondendo a estilos previstos e até recomendados por manuais e cursos de retórica há muito estudados, por exemplo, pelos alunos do Colégio Pedro II. Apenas para que seja possível perceber a necessidade de se levar em consideração este critério de análise, ressalto que, em consulta a histórias literárias que abordam a prosa macediana, posteriores, portanto, à época de lançamento dos romances do autor, não percebi, em nenhum momento, qualquer observação crítica que se aproximasse da preocupação demonstrada pelos leitores letrados contemporâneos dos romances. Essa ressalva talvez seja importante para compreendermos a disparidade que envolve o juízo crítico lançado à prosa macediana se comparadas a recepção contemporânea e a posterior.

Tais observações sobre a utilização de critérios de análise que levam em consideração preocupações previstas nos manuais de retórica são corroboradas pelo trabalho de Valéria Augusti, que estudou o processo de canonização do romance no Brasil. Ela indica a prevalência de critérios clássicos de análise em obras como o Curso de Literatura Nacional, do cônego Fernandes Pinheiro, antologia de textos utilizada pelos alunos do Colégio Pedro II: “nas análises de romances empreendidas por Fernandes Pinheiro no Curso de Literatura Nacional é possível notar claramente que suas expectativas com relação ao gênero foram informadas por essa regra de composição clássica que tanto preocupava os homens de letras na Europa” (AUGUSTI, 2006, p. 45). Percebe-se que a crítica de Dutra e Mello, embora anterior à edição desta obra de Pinheiro, não é realizada por critérios aleatórios, mas por aqueles definidos e em voga na época.

Outra crítica mais extensa, desta vez sobre o romance Vicentina, é encontrada na Revista Guanabara, edição de março de 1855. Nela, fica explícita a preocupação com a função moralizante que o romance deveria apresentar. O autor da crítica anônima começa apontando a modernidade do gênero, tomado como substituto das “novellas e historias que tanto deleitavam nossos paes”. Para ele, o romance tem o poder de trazer ao povo “verdades metaphysicas” que de outro modo lhe escapariam. Além disso, tal gênero tem o poder de alcançar um grande número de pessoas, desde o mais rico ao mais pobre, uma vez que, se aquele tem meios de adquirir obras luxuosas que lhe indicam o caminho da religião e da moral, este se achega a estas por meio dos romances. No entanto, para que cumpra esse nobre fim, o autor da crítica expõe os critérios aos quais deve o romance corresponder, caso contrário tornar-se-á “uma taça de deleterio veneno”, caso, segundo o crítico, dos romances Paulo e Virgínia de Bernardin de S. Pierre e René e Atala de Chateubriand, postos nessa condição por abusar das “graças da linguagem e das seduções da poesia”. Exemplos de bons romances podem ser percebidos em O conde de Monte Christo e Os sete peccados mortaes, de Alexandre Dumas e Eugenio Sue, respectivamente, além é claro, em Vicentina de Macedo. Este último alcança esta condição por ser de “plano simples e de summa moralidade”. Estas qualidades o tornariam propício às moças, que ficariam, por meio da lição que dele aprenderiam, protegidas contra a “volúpia” da sociedade. Percebemos aqui o que já notamos na crítica de Dutra e Mello comentada acima: a presença de um critério clássico de analise, qual seja, estabelecer um padrão de qualidade para com ele cotejar a obra que se vai analisar.Vemos presente aqui uma idéia bastante em voga quando o assunto é a forma de se encarar esse gênero “jovem” que é o romance. Para sua análise e julgamento, não são meramente critérios subjetivos que são levados em consideração. É pela análise de autores considerados modelo que o critério de julgamento de uma obra se estabelece (cf. ABREU, 1999, p. 222).

Elogiados, ainda, são os “tipos” do romance, como o do personagem Dr. Bendito, exemplo de “honradez nunca desmentida”. Digno de nota também, na visão do crítico, é o talento de Macedo para servir-se do “maravilhoso” e sua habilidade nas descrições, tão naturais e ao mesmo tempo de grande dificuldade para serem elaboradas. Além de tudo isso, outro motivo elencado para elogiar Vicentina são seus diálogos, “vivos e animados”. Tais aspectos correspondem ao que a retórica esperaria de um discurso eficiente, uma vez que as características aqui apresentadas para elogiar o romance de Macedo concordam com a idéia de que o discurso deve “excitar os afetos” (CARVALHO. Op.cit., p 189). Se os “tipos” macedianos são “vivos e animados”, têm tudo para atrair a atenção e benevolência dos leitores.

Ao final do artigo, seu autor deixa claro aquilo que se espera de um bom romance: ele deve servir “como um poderoso antidoto contra o veneno corrosivo da sociedade”. Esta preocupação do autor anônimo desta crítica está em perfeita consonância com o discurso dos primeiros defensores do romance, preocupados em justificá-lo diante de seus detratores dizendo que, “enquanto a vida em sociedade favoreceria os vícios e ensinaria como disfarçá-los, o romance os poria a nu e conduziria os leitores para o caminho da virtude” (ABREU, 2003, p. 308). Em outras palavras, o gênero se justifica ao ser moral e instrutivo.

Um último aspecto presente na análise desta obra de Macedo destaca aquilo que pode ser tomado como um outro critério também importante para se perceber as expectativas que incidiam sobre o romance. Vicentina teria o mérito de familiarizar o leitor com as cenas campestres brasileiras, a fim de que este aprecie o que é próprio de seu país. Nestas circunstâncias, a descrição das paisagens e dos costumes conhecidos dos leitores conta pontos a favor da obra. Fica evidente que esta observação sobre o romance de Macedo se insere em uma das questões candentes no Brasil à época: a busca pela expressão do nacionalismo brasileiro. Segundo Candido, “sobretudo nos países novos e nos que adquiriram ou tentaram adquirir independência, o nacionalismo foi manifestação de vida, exaltação afetiva, tomada de consciência, afirmação do próprio contra o imposto. Daí a soberania do tema local e sua decisiva importância em tais países, entre os quais nos enquadramos” (CANDIDO, 2000, p. 15).

É o que indica também Leonel de Alencar em um pequeno artigo publicado na Revista Popular de julho-setembro de 1862, quando, ao comentar uma das histórias que compõem Os romances da semana de Macedo, defende que o que se destaca é a “nacionalidade do assunto”. O irmão de José de Alencar enxerga um ponto em comum presente nos romances do escritor, de sorte que aqueles que travaram contato com obras como A moreninha e Vicentina não teriam qualquer dificuldades em reconhecer o mesmo autor em obras como O moço loiro ou O forasteiro. E este ponto de contato que perpassa toda a obra do escritor é, na concepção de Alencar, a nacionalidade do assunto. Esta recorrência nas obras macedianas faria parte do estilo de Macedo. Tal característica é percebida no fato de que ninguém, como o autor de Rosa, “sabe melhor distribuir as côres locaes, nem pintar uma scena de costumes” (ALENCAR, 1862, p. 223). É importante notar estes motivos que levam ao elogio da obra macediana, pois os mesmos servirão para denegri-lo posteriormente. Valéria Augusti, na tese acima mencionada, explica que estas descrições locais, estes retratos de costumes acabaram por servir como resposta à busca dos críticos por uma literatura que traduzisse a autonomia literária da nação recém independente (AUGUSTI, 2006, p. 54). Ao comentar a presença do gênero romanesco nas antologias de textos literários, Augusti destaca que o critério prevalecente na análise do romance era exatamente a substituição de critérios clássicos, anteriormente em vigor, por critérios românticos. Ao falar sobre a obra de Ferdinand Wolf, O Brasil literário: história da literatura brasileira, utilizada pelos alunos do Colégio Pedro II, ela escreve: “comentando o Forasteiro, de Joaquim Manuel de Macedo, [Wolf] observava que nessa obra o romancista conseguira assemelhar-se a Walter Scott, sobretudo em virtude da ‘minúcia com que descre[via] os costumes, usos, a região, etc.”(Ibid., 2006, p. 54). A obra de Wolf é de 1862, mesmo ano deste comentário de Leonel de Alencar, o que indica que o elogio ao romance de costumes está além de ser meramente ocasional, sendo motivado por uma concordância entre a expectativa da elite letrada e o oferecido pelo romancista.

O comentário que acompanha a nota de publicação do romance As mulheres de mantilha, veiculada no Diário do Rio de Janeiro de 17/06/1871, parece, por sua vez, indicar que Macedo estava realmente sintonizado com as expectativas do público leitor, inclusive aqueles que podiam manifestar suas opiniões nos periódicos da época. O autor desta nota anônima elogia a fidelidade histórica do romance ao retratar o Brasil colônia e diz que, nele, o leitor verá descritos “os vexames do governo colonial, os costumes familiares e sociaes dos fluminenses daquelles tempos e [isso] com tal minuciosidade e erudição que o leitor verá no seu trabalho antes uma chronica do que uma ficção”. Aponta, em seguida, a utilidade do romance histórico na difusão da memória e conhecimento dos fatos nacionais. Alerta, no entanto, que, para que isso aconteça, a ficção não deve sobrepor-se à verdade da história, nem a “licença da imaginação” levar a certo anacronismo. E Macedo parece ter cumprido bem esse propósito, ao menos na visão do autor desta nota, pois é comparado a Walter Scott e Fenimore Cooper, autores famosos de romances históricos sobre a Inglaterra e os Estados Unidos. Augusti, na mesma tese acima referida, e que tem sido tomada aqui para auxiliar na compreensão dos meandros da crítica oitocentista, mostra que a imprensa procurou encontrar uma finalidade elevada para o gênero, encontrando-a, por exemplo, na afirmação da nacionalidade, uma das questões caras à intelectualidade da época. Para isso, nada como um romance histórico nacional, semelhante aos lançados na Europa. Esta nota sobre As mulheres de mantilha parece franquear esta conquista a Macedo.

Nesta caminhada pelas críticas que Macedo recebeu contemporaneamente ao lançamento de suas obras, chegamos finalmente aos necrológios que acompanharam a morte do romancista. Estes se caracterizam pela brevidade e pelo intento de resumir a trajetória de Macedo. Isso leva, inevitavelmente, ao comentário de sua atuação enquanto escritor. Se a nota de falecimento não pode se desvencilhar da tarefa que a ela parece estar determinada de antemão, ou seja, traçar um perfil favorável do morto em questão, também não devemos pensar que não traga elementos que ajudem a compor um retrato que esperamos ter do autor e do modo como foi visto no período.

O primeiro necrológio que localizamos, veiculado na Gazeta de Noticias de 12/04/1882, tributa a Macedo a afirmação do romance no Brasil, gênero considerado pelo autor deste necrológio como “tão característico da nossa época”. Até 1882 era possível, segundo este autor anônimo, encontrar “apreciadores enthusiastas” de A moreninha, Rosa e de O moço loiro. Permanecem ainda os mesmos motivos que em décadas passadas serviram para glorificar Macedo, pois percebemos nesta nota de falecimento, quando da tentativa de explicar o sucesso do autor, menção à presença, em seus romances, de “scenas e personagens que até então só appareciam ao longe, em terras estrangeiras e desconhecidas”. Após estes elogios, a nota faz um balanço da atuação de Macedo no teatro (onde estaria o que Macedo escreveu de melhor) e como autor de poemas, notadamente A nebulosa, cujos trechos, na previsão do autor destas considerações, deverão ficar “com assento permanente em nossa litteratura”. Ao falar dos últimos momentos da vida de Macedo o necrológio tem um tom bastante melancólico: “os últimos annos da vida de Macedo são contristadores. O sopro que hontem extinguiu-lhe a lâmpada vital, quasi nada achou a apagar”. A última menção ao romancista é de gosto duvidoso: “desde muito o velho valetudinario e triste não era este Macedo que todos lemos, e que tanto apreciamos aos 12 annos”.

Estas últimas palavras parecem não ter agradado o autor do necrológio veiculado n’O Binóculo de 19/04/1882. Aparentemente referindo-se ao que fora publicado na Gazeta, quando diz que os únicos apreciadores dos escritos de Macedo eram “as inteligências de 12 anos”, rebate a afirmação dizendo que “não convém entendê-la literalmente” e que, se for entendida de outra forma, destacará a “reputação literária que o escritor, só com muitos anos de mortificações e de esforços, conseguiu construir”. Para este articulista, se é possível perceber em Macedo certa ausência de preocupação com os processos artísticos e com o que ele chama de “exterioridades formulisticas de hoje”, é mister reconhecer sua “fecundidade numerica”, que faz com que seja “o seu grande edifício litterario sua própria defesa, solida, mássica e inconcussa (sic)”. Este “edifício literário” estaria bem representado por obras como Memórias da rua do Ouvidor, O moço-loiro, Rosa e Os dois amores, além d’A nebulosa e várias de suas peças. Observando as obras presentes nestes necrológios, foi possível notar que o conjunto de romances do autor que são citados como exemplo de sua produção já sofreram uma “seleção”, por assim dizer, como que apontando o que se repetiria freqüentemente nas histórias literárias posteriores. A esta última lista de romances que compõem seu “edifício literário”, a partir dos necrológios somente se acrescentaria “A moreninha”, (única) obra mencionada por Araripe Junior, que vem a seguir.

Este mesmo Araripe foi um dos que fizeram questão de não deixar passar em branco o falecimento do romancista. Em nota publicada na Gazeta da Tarde de 15/04/1882, lamenta que tamanho “vácuo” tenha se formado em torno do nome de Macedo ao final de sua vida. E este lamento advém da distância que o separa da glória alcançada quando do lançamento d’A moreninha, que serviu, acredita Araripe, para despertar em José de Alencar a veia de romancista. Em concordância com o que disse Leonel de Alencar no comentário ao lançamento de Luxo e vaidade, ao qual já nos referimos acima, também este crítico reconhece que Macedo cumpriu satisfatoriamente a tarefa de legar à pátria uma obra que fizesse frente ao empreendimento dos grandes autores europeus. Araripe entende que não bastava meramente imitar Walter Scott, Alexandre Dumas ou Victor Hugo; era necessária “uma immensa perspicacia na organização dos scenarios, na escolha dos personagens typicos, na propriedade dos dialogos e na apresentação dos caracteres”, alvos estes somente alcançados por “uma vocação poderosa”, que, segundo o crítico, Macedo possuiu. Por conta disso, Araripe sentencia: “os seus romances, com todos os seus vícios e imperfeições são nossos; não se confundem com produtos de outra procedência”. Mas Macedo não teria resistido às novas gerações, finaliza o autor deste necrológio, que por ele teriam passado “com o escarneo nos labios e a indifferença no coração”. Talvez pudéssemos identificar estas “novas gerações” com os escritores que atenderam as novas demandas, seja do público seja da elite letrada da época, cujo gosto literário não permaneceu perenemente o mesmo.

A hipótese de Augusti, que aqui tomo como possibilidade de compreensão deste movimento ocorrido na trajetória da crítica macediana, que foi da aclamação ao escritor ao seu ostracismo, é sugestiva. Segundo ela, com a popularização e barateamento dos livros, e a entrada de novos escritores na cena literária, aqueles que passaram a ser valorizados pela crítica foram os que não se preocuparam em atender à demanda popular, mas escreveram obras destinadas a corresponder aos anseios da elite letrada:
“passaram a ter valor literário os romances que, produzidos exclusivamente em virtude da necessidade criativa do autor, não tinham em vista sua recepção imediata entre a massa ignara, mas sim o ganho simbólico obtido a longo prazo, em virtude de sua apreciação pelos doutos. Em contrapartida, passaram a ser desvalorizados aqueles que, orientados pela satisfação do público leitor mais amplo – a quem se creditava a ausência de gosto e a incapacidade de compreender os exemplares dotados de valor artístico –, visavam retorno financeiro imediato” (AUGUSTI, 2006, p. 135).
Ao acompanhar a trajetória da crítica sobre os romances macedianos veiculada nos periódicos, percebemos que Macedo parece ter sido visto como exemplo positivo de romancista na medida em que correspondia aos critérios empregados pelos leitores letrados: primeiramente, correspondência com os critérios clássicos, cuja manifestação se dava nos manuais de retórica, e que Macedo alcançou logo com sua primeira obra, a se tomar por base a análise de Dutra e Mello; em seguida, a necessidade de satisfazer o anseio por uma literatura que expressasse de algum modo a nacionalidade da nação recém-independente, alvo atingido pelos romances de costume tão característicos de Macedo, tomados, às vezes, como é o caso de Leonel de Alencar e de Araripe Junior, como exemplos satisfatórios de romances históricos, pela fidelidade que apresentam na descrição das cenas nativas. Dessa forma, Macedo encontrou recepção favorável da crítica na medida em que suas obras, apesar de fazerem sucesso junto ao público, fato esse perceptível pelas sucessivas reedições de seus primeiros romances, como A moreninha e O moço-loiro em curto espaço de tempo, também correspondiam aos anseios dos leitores letrados, que balizavam seus juízos pela preocupação que tinham com a moral e com certas regras clássicas de composição. Seu declínio teria se iniciado com a introdução de um novo critério por parte dos letrados, critério esse que parece ter se estendido para além do oitocentos, e que teria se iniciado por volta do fim deste mesmo século: uma obra seria tão mais reconhecida na medida em que menos procurasse atender as expectativas da grande massa, mas tivesse como preocupação o diálogo com os pares cultos.

Conclusão.

As análises e interpretações aqui propostas são preliminares, uma vez que este artigo expressa os resultados obtidos por uma pesquisa em andamento. Esta pesquisa se deterá, ainda, em uma análise das recepções críticas veiculadas nas histórias literárias, posteriores à época de lançamento e primeira recepção dos romances, a fim de se ter uma idéia da trajetória da crítica em relação ao romance macediano.

Até o momento, foi possível perceber que a boa recepção crítica da prosa macediana deveu-se à sua correspondência com as expectativas iniciais dos críticos, as quais foram mudando com o passar do tempo, notadamente a partir do final do século XIX, como indicam alguns dos necrológios analisados neste artigo.

Ressalto que o interesse deste artigo não é “resgatar” Macedo do lugar desonroso que lhe foi atribuído posteriormente, quando foi retratado nas histórias literárias como mero escritor para moças ou autor de meras histórias sentimentais sem maiores preocupações do que retratar o meio em que viveu, mas elucidar os meandros da crítica oitocentista, a fim de que, atualmente, tenhamos uma melhor compreensão dos critérios com que se lia uma obra e dos fundamentos dos juízos críticos a elas lançados.



Notas:
Dutra e Mello a transcreve da seguinte forma: “- Ah!.. eu hia morrer afogada! Depois vendo-se com o vestido cheio de arêa começou a rir-se muito, sacudindo-o e dizendo ao mesmo tempo: -Eu cahi! Eu cahi!... E como se não bastasse essa passagem rapida do susto para o prazer ella olhou de novo para o mar e tornando-se levemente melancolica balbuciou com voz pesarosa apontando para a concha. –Mas ... a minha concha!..”
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Periódicos mencionados neste artigo:
Minerva Brasiliense de 01/10/1844
Revista Guanabara, edição de março de 1855
Revista Popular de julho-setembro de 1862
Diário do Rio de Janeiro de 17/06/1871
Gazeta de Noticias de 12/04/1882
O Binóculo de 19/04/1882
Gazeta da Tarde de 15/04/1882

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