Relações entre literatura e cinema: de Edgar Allan Poe a Federico Fellini



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Relações entre literatura e cinema: de Edgar Allan Poe a Federico Fellini
Alessandra Camila Santi Guarda(PIBIC/CNPq/Unioeste), Lourdes Kaminski Alves(Orientadora), e-mail: alessandracamila.s.g@gmail.com.
Universidade Estadual do Oeste do Paraná/Centro de Educação, Comunicação e Artes/Cascavel, PR.
Linguística, Letras e Artes - Letras
Palavras-chave: Estudos Inter Artes, Narrativas Breves, Edgar Allan Poe
Resumo

O presente texto busca desenvolver reflexões sobre a transcriação fílmica, observando-se os aspectos relevantes no processo de tradução de uma obra literária para o cinema, na perspectiva dos estudos comparados, teorizados por autores como Tânia Carvalhal e Haroldo de Campos. Focando-se na transcriação feita por Fellini do conto Nunca Aposte sua Cabeça com o Diabo (1850), de Edgar Allan Poe, intitulado Toby Dammit (1968), no qual a personagem-título do filme encontra uma morte fantástica em Roma. Busca-se, dessa forma, analisar de que modo o conto de Poe, autor aclamado pela crítica e possuidor de obras representativas do gênero fantástico defendido por Todorov em obras como Introdução à literatura fantástica (2008) e em Os gêneros do discurso (2003), é lido pelo diretor italiano. Reflete-se também sobre a problemática do conceito de fidelidade no campo dos Estudos Inter Artes e as visões deturpadas do público leigo para com as obras chamadas “adaptações”, visões estas baseadas em uma tradição hierárquica das artes. Estes estudos são embasados em teóricos como Robert Stam (2006), Randal Johnson (2003), André Bazin (1991), Jacques Aumont (1993), Ismail Xavier (1983), entre outros. O estudo aqui apresentado relaciona-se ao projeto de pesquisa subsidiado pela Capes/CNPq intitulado Construção narrativa e intertextualidade na transcriação de contos de Edgar Alan Poe para o cinema, articulado ao grupo de pesquisa Confluências da Ficção, História e Memória na Literatura e nas Diversas Linguagens.



Introdução
No Manifesto das Sete Artes, “escrito em 1911, mas só publicado em 1914” (Rizzo Junior, 2011), Riciotto Canudo (1877-1923) afirmou que o cinema é a sétima arte, sendo a literatura a sexta. Há tempos entende-se a obra cinematográfica e fílmica como uma forma de arte, fato que foi reafirmado por grandes nomes do cinema, como Ingmar Bergman, Federico Fellini, Sergei Eiseinstein, Orson Welles e Woody Allen, entre outros. Há muito, textos literários servem de base para narrativas fílmicas e vice-versa. É instigante refletir sobre os motivos para a significativa utilização de obras literárias na produção de filmes, de novelas, animações, minisséries e outras formas artísticas, é importante pensar sobre o preconceito relativo a traduções, como o pensamento, extremamente arraigado, de que um determinado filme não teria qualidade se não fosse "fiel" à obra “original”, visto que fidelidade, originalidade e autoria não são exigências no contexto da literatura comparada. É sabido que um filme baseado em um livro é um produto diverso ao livro que lhe dá vida, sendo, pois, outra obra, que possui seu próprio estatuto e originalidade.
Revisão de literatura
A pesquisa é de cunho bibliográfico com base nos pressupostos teóricos da Literatura Comparada e dos estudos Inter Artes. Utiliza-se de autores como Stam e Bazin para tratar da relação entre Cinema e Literatura, enquanto recorre-se a Todorov e Cortázar para analisar o gênero Conto e a modalidade, chamada de gênero por Todorov, do Fantástico nas obras de Poe e Fellini.
Resultados e Discussão
O filme de Fellini recortado para esta análise é parte da obra tríplice em conjunto com Malle e Vadim, Histórias Extraordinárias, de 1968. Fellini nos mostra a turbulenta passagem do ator inglês Toby Dammit por Roma. Dammit é um homem tomado pelo alcoolismo, cuja carreira, antes tão brilhante devido à sua atuação como Hamlet, está decaindo. Logo de início, ao chegar ao aeroporto, Dammit mostra sua personalidade destrutiva atacando os paparazzi presentes devido ao seu desconforto com os flashes. Durante a entrevista, seu estranhismo também é palpável: Toby afirma odiar seu público e, ignorando a existência de Deus, acreditar no Diabo. O Ator afirma, inclusive, que o conhece, mas que não o vê em uma perspectiva cristã, vê-o como uma menina de longos cabelos loiros e vestido branco carregando uma bola branca, sempre rodeando-o, seduzindo-o. O clima do filme é de muita desorientação, como se o público pudesse abstrair um pouco da percepção obscura do protagonista, cuja realidade como uma estrela do cinema destrutiva e viciada, parece ser acelerada e entorpecida. Após sua participação na premiação, Dammit sai desorientado com sua nova Ferrari, dirigindo a esmo e, posteriormente, tentando encontrar Roma. Em seu caminho, Toby se depara com uma ponte quebrada e, ainda sob os avisos consternados dos moradores do local, decide saltar com o carro sobre ela após ver o demônio provocando-o do outro lado, que acaba por ter a cabeça em suas mãos ao final.

O narrador que Poe nos traz, com exceção dos momentos finais do conto, segue o ideal do narrador de literatura fantástica. Todorov (2008, p. 92), ao falar sobre as condições para que o fantástico aconteça, menciona que “para facilitar a identificação, o narrador será um “homem médio”, em que todo (ou quase todo) leitor pode se reconhecer. [...] Os acontecimentos são sobrenaturais, o narrador é natural”. Este se apresenta como um amigo íntimo de Toby Dammit, dando a entender que sempre esteve presente na vida do protagonista e, como um bom amigo, sempre tentou ajudar Dammit vencer seus vícios e a superar falhas. O narrador nos conta que, desde seu nascimento, Toby demonstrava possuir uma personalidade destrutiva. Desde a mais tenra idade acostumou-se a propor apostas, talvez na esperança de obter algum lucro, uma vez que era muito pobre. Isso tornou-se um vício discursivo e Toby o repetia tanto que ninguém realmente pensava em aceitar as apostas. Depois de um tempo, o bordão do protagonista se tornou mais específico, passando a dizer o tempo todo que apostaria a cabeça com o diabo. O narrador relata que, certo dia, passeando, ele e Dammit encontraram uma ponte coberta de aparência amedrontadora e decidiram atravessá-la e, ao final dela, encontraram uma roleta. Toby disse que apostaria a cabeça com o diabo que conseguiria pular sobre ela. Surge então, um homem idoso, mancando, fomentando a ideia de Dammit de saltar sobre a roleta. Toby poderia realmente ter conseguido o salto, porém havia uma barra de ferro acima da roleta, em meio à escuridão, que fez com que o apostador batesse a cabeça e caísse inconsciente no chão, sem a cabeça, que logo em seguida foi apanhada pelo velho e enrolada em seu avental. Tamanha é a estranheza da situação que nos faz recordar da afirmação de Cortázar de que “o anormal, em Poe, pertence sempre a uma grande espécie (Cortázar, 2013, p. 108)”. Talvez o elemento propulsor da tensão e da estranheza desse conto venha, justamente, das conjecturas sobrenaturais mencionadas por Cortázar. Por meio da absurda perda da cabeça de Dammit após ter afirmado que a apostaria com o Diabo, temos também outro ponto que nos leva ao fantástico. Em Todorov (2003), vemos que o fantástico se manifesta quando, “num mundo que é bem o nosso, tal qual o conhecemos, sem diabos, sílfides nem vampiros, produz-se um acontecimento que não pode ser explicado pelas leis deste mundo familiar (Todorov, 2003, p. 148)” e que, diante disso, pode-se tomar dois caminhos, “ou o diabo é um ser imaginário, uma ilusão, ou então existe realmente, como os outros seres vivos, só que o encontramos raramente. O Fantástico ocupa o tempo dessa incerteza (Todorov, 2003, p. 148)”. Se houvesse a escolha, ou o ocorrido pertenceria à esfera do maravilhoso, ou simplesmente do estranho. No filme, esse elemento parece se tornar em maravilhoso, uma vez que, ainda que as visões de Dammit ao longo da história possam ser questionadas, o espectador vê o diabo pegando a cabeça do ator, e essa sequência coloca em cheque o uso do fantástico no enredo.
Conclusões
Vê-se em Cortázar que os contos de Poe “provam sua perfeita compreensão dos princípios que regem o gênero. [...] Poe percebe, antes de todos, o rigor que exige o conto como gênero, e que as diferenças deste com relação ao romance não eram uma questão só de tamanho (Cortázar, 2013, p. 122)”, e aproveitando-se da riqueza literária de Poe e da maior segurança que se tem ao transcriar um texto literário, Fellini apresentou um filme que, não só manteve o clima de estranhismo e morbidez do contista, como traduziu o conto para um contexto mais contemporâneo ao espectador da época. Ressalta-se que, embora o enredo do filme tenha se diferenciado em alto grau do enredo do conto, há diversos pontos de conexão entre as duas obras que vão muito além do nome da personagem. A atmosfera criada por Fellini também é causadora de uma estranheza fantástica digna de uma transcriação de Poe. Toby Dammit, em ambos os casos, surge como uma personagem destrutiva, cheia de vícios e rebeldias, que, no fim, perde a cabeça para o Diabo. Ainda que a personagem do filme não seja de classe baixa e não tenha o vício discursivo da personagem do conto, ainda existe uma espécie de sedução diabólica que remete ao conto e, embora quebrada e diferente, a ponte ainda está lá. Nesse sentido, fica comprovado que a riqueza de uma obra fílmica não reside na fidelidade à obra “original”.
Agradecimentos
Agradecimentos aos docentes do curso de Letras Português/Inglês/Espanhol/Italiano da UNIOESTE à equipe da Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-graduação – PRPPG/UNIOESTE e ao CNPq pela bolsa de incentivo à pesquisa.
Referências
Cortázar, J. (2013). Valise de Cronópio. São Paulo: Perspectiva.
Fellini, F.; Malle, L.; Vadim, R. (1968). Histórias Extraordinárias. Duração 121 minutos. França, Itália.
Poe, E.A. (2003). Histórias Extraordinárias de Allan Poe. São Paulo: Ediouro.
Rizzo Junior, S.A. (2011). Educação audiovisual: uma proposta para a formação de professores de Ensino Fundamental e Ensino Médio no Brasil. Tese de Doutorado, Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo.
Stam, R. (2006). Teoria e prática da adaptação: da fidelidade à intertextualidade. Ilha do Desterro, 51, 19-53.
Todorov, T. (2003). As Estruturas Narrativas. São Paulo: Perspectiva.
______ (2008). Introdução à Literatura Fantástica. São Paulo: Perspectiva.








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