Relações de trabalho de catadores no Brasil a partir de quarto de despejo e homens de papel



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Relações de trabalho de catadores no Brasil a partir de quarto de despejo e homens de papel (1950-1960)
Sara Munique Noal(PIBIC/CNPq/Unioeste), Antônio de Pádua Bosi(Orientador),

e-mail: saramunique@hotmail.com


Universidade Estadual do Oeste do Paraná/Centro de Ciências Humanas, Educação e Letras/Marechal Cândido Rondon-PR
Grande área e área: Ciências Humanas - História
Palavras-chave: História, Literatura, Catadores de Papel.
Resumo
Este trabalho visa discutir as relações de trabalho de catadores de papel no Brasil durante as décadas de 1950 e 1960, tendo como fonte a autobiografia “Quarto de Despejo” de Carolina Maria de Jesus e a peça “Homens de Papel” de Plínio Marcos. Carolina escreveu sua obra entre os anos de 1955 e 1961, na qual demonstra aspectos da vida das classes muito pobres, moradoras das periferias de São Paulo durante o período do populismo de Juscelino Kubistchek. Já Plínio Marcos escreve em 1968, período ditatorial do Brasil, onde a repressão e a ausência do Estado marcavam a vida das classes marginalizadas. A exploração, a fome, a violência, entre outras questões, são constantemente denunciadas em ambas às obras, demonstrando que, embora o regime de Estado tenha se modificado, existem inúmeras continuidades nas políticas sociais (ou na falta delas).
Introdução
Este trabalho teve como objetivo discutir as relações de trabalho de catadores no Brasil durante as décadas de 1950 e 1960 a partir da autobiografia “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus (1976), e da peça “Homens de Papel”, de Plínio Marcos (1978). Carolina de Jesus escreveu sobre a vida na favela e o trabalho de catador na periferia de São Paulo, ao longo de 1955 a 1961. Plínio Marcos escreveu a peça “Homens de Papel” em 1967 (encenada primeiramente em 1968), sublinhando a exploração, a violência e a sociabilidade de trabalhadores que viviam da cata de papel também na periferia de São Paulo.

A partir disso, duas questões nos foram primordiais para o desenvolvimento do trabalho, a primeira diz respeito à visão de trabalhadores muito pobres sobre o Estado brasileiro durante a década de 1950, período em que as práticas paternalistas de políticos, ou o “populismo” como é chamado na historiografia tradicional, estava diretamente relacionado com a vida das classes pobres. Em segundo, mais presente na obra de Plínio Marcos, retrata a violência sofrida por trabalhadores que vivem da cata de papel. São subalternos de um negociante que lhes compra o papel e os agride de variadas formas, lembrando-lhes o lugar social de cada um. A obra, escrita no contexto da Ditadura Militar, tem traços que nos levam a analisar as políticas econômicas desenvolvidas nesse período, que facilitava o acumulo de capital pelas classes dominantes e permitia a violência e a exploração das classes marginalizadas.

O processo de desenvolvimento capitalista, iniciado ainda no governo de Getúlio Vargas, se manteve constante nos governos de Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, João Goulart, Castelo Branco e Costa e Silva. Baseado no arrocho salarial, esta política penalizou os trabalhadores e mais ainda os trabalhadores informais, agravando ainda mais as condições de vida e de trabalho desses sujeitos. Assim, embora os governos de JK (período em que escreve Carolina) e de Costa e Silva (período em que Plínio Marcos escreve sua peça) possuam regimes distintos, um democrático e outro ditatorial, as políticas que penalizam os trabalhadores se mantem constantes.

Desse modo, os padrões encontrados na comparação desses escritos são fortes e apontam para um imaginário subalterno do segmento mais empobrecido da classe trabalhadora que habita favelas. Seu cotidiano parece ser permanentemente improvisado e ligado à sobrevivência mais elementar dos trabalhadores. Dia a dia busca-se ganhar a vida, catando papel para trocar por comida, e esta é a rotina tanto de Carolina de Jesus como dos catadores de Plínio Marcos.


Materiais e Métodos
Quarto de Despejo e Homens de Papel, assim como todas as fontes utilizadas para a construção da pesquisa histórica, são uma representação do real, ou seja, para analisarmos as obras é importante que elas não estejam apartadas de seus respectivos contextos históricos. Desse modo, nesta pesquisa as literaturas utilizadas como fontes foram abordadas dessa maneira, pois é certo que cada um deles foi envolvido e impregnado por seu respectivo tempo histórico. Saber sobre isso ajuda a esclarecer as intenções dos autores, o que buscaram mostrar e silenciar.

A partir das questões organizadas nos objetivos da pesquisa, coube mapear e insular as informações e interpretações contidas nos dois escritos e prepará-las para análise. Esta etapa implicou na comparação das duas conjunturas sob a hipótese, já anunciada, de continuidade da política econômica. Aprofundando nesta direção, buscamos esclarecer o significado do trabalho para os catadores e sua relação com a violência física e simbólica: brigas, agressões verbais, estigmatização e diversos tipos de privação.

Cabe esclarecer que a fronteira entre narradores e escritores, tanto no caso de Carolina de Jesus como em Plínio Marcos, é bastante fluída, de modo que seus escritos valem como parte de suas próprias experiências sociais. Neste particular a imaginação literária tem nítidos vínculos com a realidade, de modo que a seleção de eventos e dramas que compõem as narrativas corresponde a preocupações dos autores que são vividas.

Portanto, no trabalho de investigação histórica desses dois escritos, vistos também como documentos de época, para além do esforço de heurística, buscamos identificar o que significou viver e trabalhar como catador nas perspectivas expostas por Carolina de Jesus e Plínio Marcos. Ajuda-nos neste ponto a reflexão de Edward Thompson acerca do que pode ter (e geralmente tem) de singular e complexo em narrativas construídas por trabalhadores ou mesmo sobre trabalhadores, desde que as dimensões propriamente subjetivas da experiência social, de vida e de trabalho, não sejam represadas. (THOMPSON, 1988; 2002).


Resultados e Discussão
Até o presente momento da pesquisa tivemos o trabalho de ler e analisar a bibliografia apresentada na proposta, assim como demais livros e artigos que tratam sobre o contexto histórico apresentado, para entendermos as relações que existem entre os escritos de Carolina e Plínio Marcos e o momento em que suas obras foram escritas. Esse trabalho de entender o momento de feitura das obras é essencial para a compreensão da vida de favelados e das relações de trabalho dos catadores de papel nas décadas de 50 e 60.

Além da análise sobre a história e historiografia da época, também buscamos ler e analisar textos que relacionam a História e a Literatura como fonte, para assim encontrarmos a historicidade com a qual originalmente ambos debateram, ou a sua contextualização, pois como já dito, é certo que cada um deles foi envolvido e impregnado por seu respectivo tempo histórico.

Assim, mais do que entender e contextualizar as obras selecionadas, também procuramos ler textos que nos permitissem entender o que é a literatura, suas estruturas e a linguagem utilizada, para assim compreendermos melhor a diferenciação entre história e literatura, não levando como uma verdade absoluta os escritos de Carolina e Plínio Marcos, mas sim, como indícios de um passado. Mas também, entendendo a relação do autor com a obra, para poderemos indagar a visão que os trabalhadores projetavam relativamente aos “de cima” e aos “de baixo” iguais a eles.
Conclusões
Até o presente momento podemos concluir que este trabalho nos revela modos de pensar e agir próprios das classes marginalizadas das décadas de 50 e 60, principalmente os catadores de papel, que além de possuírem um trabalho precarizado, sofriam com a falta de assistência por parte do Estado, que além de permitir a degradação física e moral desses trabalhadores, ainda usava desta condição para reafirmar a acumulação do capital por segmentos privilegiados da sociedade.

Esse trabalho é importante, pois embora este tema (cata de recicláveis, trabalho precário e marginalidade social) tenha recebido razoável atenção na atualidade, ele ressente-se de abordagens retrospectivas que, no campo da História, investiguem outras temporalidades conforme se propõe aqui, principalmente recorrendo à literatura como fonte e narrativa problematizadora.



Agradecimentos
Ao CNPq pela bolsa de pesquisa.
Referências
DREIFUSS, R. A. (1981). 1964: A conquista do Estado (ação política, poder e Golpe de Classe). Rio de Janeiro: Vozes.
JESUS, C. M. (1976). Quarto de Despejo. São Paulo: Edibolso.
MARCOS, P. (1978). Homens de Papel (Teatro). São Paulo: Global Editora.
WEFFORT, F. (1980). O Populismo na Política Brasileira. 2ª ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra.
THOMPSON, E.P. (1988) A Formação da Classe Operária Inglesa. 3v. Rio de Janeiro: Paz e Terra.







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