Relações de gênero nas brincadeiras de meninos e



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FINCO,Daniela. Relações de gênero nas brincadeiras de meninos e meninas na educação infantil. In: Pro-posições. Campinas: v.14, n.3 (42), set./dez. 2003. p.89-101.
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Relações de gênero nas brincadeiras de meninos e

meninas na educação infantil


Daniela Finco*[Nota de Rodapé]
Resumo: Este artigo discute as formas de brincadeiras de meninos e meninas, em uma escola municipal de educação infantil, buscando questionar o fato "natural" de que meninos e meninas possuem papéis e comportamentos pré-determinados. Apresenta uma reflexão sobre a troca de papéis sexuais nas brincadeiras, fazendo uma discussão sobre os brinquedos considerados "certos" e "errados" para cada sexo. A análise se opõe às pesquisas que consideram que meninos e meninas demonstram comportamentos, preferências, competências, atributos de personalidade mais apropriados para o seu sexo, seguindo, desde bem pequenos, as normas e padrões estabelecidos. Deste modo o estudo propõe-se a tratar o tema das relações de gênero de uma perspectiva diferenciada, na tentativa de um olhar não "adultocêntrico", observando atentamente as transgressões dos papéis de gênero nos momentos de brincadeira, possibilitando enxergar novas formas de ser menino e de ser menina.
Palavras-chave: Educação infantil, relações de gênero, meninos e meninas, brincadeiras, cultura infantil.
Abstract: This article discusses the play of boys and girls, in a municipal center of Early Childhood Education, discussing the conceived idea that boys and girls have predetermined roles and behaviors. It presents a reflection on the exchange of sex-roles in play, discussing about the toys considered "right" and "wrong" for each sex. The analysis opposes to researches that consider that boys and girls demonstrate behaviors, preferences, abilities and personality's attributes appropriated for their sex, following, since very young, the established norms and standards. Thereby, intently observing the transgressions of the sex-role during the play, this study proposes to deal with the subject of gender relationships from a differentiated perspective, where the "adult is not the center", making possible to realize new forms of being boy and being girl.
Key-words: Early childhood education, gender relationships, boys and girls, play, childhood culture.
* Nota – Página 89. Mestranda em Educação pela FE- Unicamp. Membro do Grupo de Estudos de Educação Infantil do GEPEDISC - FE- Unicamp. dfinco@unicamp.br
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Introdução
Este artigo traz questões sobre as brincadeiras de meninos e meninas, sobre o modo como se relacionam e se manifestam culturalmente frente às questões de gênero [1 Nota de Rodapé]. Analiso como as hierarquias de gênero são contestadas e mantidas por crianças, de 4 a 6 anos, que vivem no ambiente coletivo e público de uma Escola Municipal de Educação Infantil de Campinas - SP. Discuto as formas de brincadeiras de meninos e meninas, buscando questionar o fato "natural" de que ambos possuem papéis e comportamentos pré-determinados.

Será verdade o que nós aprendemos sobre as formas de brincadeira que meninos e as meninas praticam? Pesquisas afirmam que "Elas preferem as bonecas, eles os carros" [2 Nota de Rodapé], e também que “Elas brincam de roda e eles jogam bola” [3 Nota de Rodapé]. Devemos enxergar como natural o fato de que meninos e meninas possuem papéis e comportamentos pré-determinados?

Este estudo parte da concepção de criança, não do ponto de vista do adulto, apenas como dependente dele, mas como um indivíduo capaz, produtor de cultura e portador de história. Tais considerações revelaram-se importantes para pesquisar a cultura infantil, sua produção e as condições em que esta se dá.

Ao pensar a criança e a produção da cultura infantil, encontrei na brincadeira uma das suas múltiplas formas de expressão: a forma como a criança se manifesta culturalmente. A brincadeira apresentou-se como um meio para conhecer e observar a criança mais de perto, um momento em que a riqueza das relações favorece a produção da cultura infantil.

Porém o estudo se defrontou com as dificuldades em trabalhar com as questões de gênero na infância, o que se traduz na carência de pesquisas sobre o tema. Tal escassez é ainda maior na área da educação de crianças de 0 a 6 anos, onde pesquisas que articulam gênero, relações entre crianças e práticas educacionais são raras.

Faria (2002a) aponta que a questão de gênero na pesquisa educacional ainda é um tema pouco explorado. De acordo com a autora, as inúmeras pesquisas que tratam das relações de gênero não costumam abordar as especificidades das diferentes idades e fases da vida, principalmente aquelas que dizem respeito às crianças. Por outro lado, as investigações que privilegiam as diferenças etárias, e a infância

em particular, raras vezes fazem análises de gênero. Rosemberg (2001)
Nota 1 – Página 90. Esta análise é parte integrante de minha pesquisa para o mestrado, em andamento, sobre as relações de gênero nas brincadeiras de meninos e meninas na educação infantil,realizada na

Faculdade de Educação da Unicamp.

Nota 2 – Página 90. Saavedra e Barros (1996).

Nota 3 – Página 90. Guareschi (1994).


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também denuncia a falta de produção acadêmica nacional sobre a condição da criança na educação. A autora ainda afirma que raríssimos estudos parecem ter ido à busca do lugar da infância na construção social das relações de gênero no sistema educacional. Ao analisar a produção de pesquisas na área e tentar compreender a ausência do tema educação e gênero, aponta para a “auto-referência” das pesquisas sobre mulher e relação de gênero, ou seja, o que vem chamar do "adultocentrismo" nas pesquisas: mulheres adultas estudam mulheres adultas, "o foco continua sendo a mulher adulta ou as relações de gênero da ótica da vida adulta" (ROSEMBERG, 2001, p.64).

Portanto, partindo da ótica adulta, os resultados das pesquisas parecem apontar sempre para a mesma direção. Segundo Graciano (1978), um dos maiores problemas com os resultados das pesquisas, além de que nem todas as pesquisas sobre as diferenças sexuais chegam a ser publicadas, é que geralmente são divulgados somente os estudos nos quais a existência da diferença é confirmada.

Os trabalhos já realizados sobre as relações de gênero e crianças (GUARESCHI, 1994; SAAVEDRA; BARROS, 1996) confirmam que meninos e meninas demonstram comportamentos, preferências, competências, atributos de personalidade mais apropriados para o seu sexo, seguindo, desde bem pequenos, as normas e padrões estabelecidos.

Por essas razões, procurei analisar as relações nas brincadeiras entre crianças pequenas considerando-as como atores sociais, capazes de múltiplas relações. E, ao considerar que nem sempre elas estão fazendo aquilo que os adultos querem ou esperam que elas façam, propus-me a tratar o tema das relações de gênero a partir de uma perspectiva diferenciada, na tentativa de um olhar não "adultocêntrico", observando atentamente as transgressões.

Esta perspectiva permeia as análises deste estudo e é ela que possibilita a forma diferenciada de reflexão sobre as relações de gênero, apontando para novas possibilidades de ser menino e de ser menina. Desta forma, a transgressão possibilita "ser diferente" e este "ser diferente" passa a não mais carregar uma conotação negativa e preocupante.

Gênero como categoria de análise


O conceito de gênero se apresentou como uma importante categoria de análise das brincadeiras. Segundo Joan Scott (1995), gênero é um elemento constitutivo das relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos, que fornece um meio de decodificar o significado e de compreender as complexas conexões entre as várias formas de interação humana. É a construção social que uma dada cultura estabelece ou elege em relação a homens e mulheres. O conceito de gênero implica conhecer, saber mais sobre as diferenças sexuais e seus significa-
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dos. Compreender como são produzidas, pelas culturas e sociedades, as diferenças nas relações entre homens e mulheres. Portanto, como nos diz Scott (1995), gênero pode ser entendido como a organização social da diferença sexual.

Ao utilizar o gênero como categoria de análise para observar as diferentes formas de brincadeiras dos meninos e meninas, procurei abordar questões relativas às práticas educativas das professoras e, sobretudo, fazer relação com o que as crianças constroem entre elas, reproduzindo ou transgredindo as regras impostas pelo adulto.

Atualmente, podemos destacar expressivo crescimento de estudos sobre gênero na população acadêmica de diferentes áreas. O número de teses defendidas, assim como cursos, seminários, encontros, colóquios, mostra o amadurecimento dessa área de estudos; o expressivo crescimento da produção acadêmica aponta para a legitimação do campo. Iniciativas como a Revista Estudos Feministas da UFSC, os Cadernos PAGU da Unicamp e núcleos de pesquisa como o GEERGE [4 Nota de Rodapé] da UFRGS vêm aumentando suas publicações e mostram o crescimento desse campo de estudos.

Com um levantamento bibliográfico na produção das revistas e nas bases de dados [5 Nota de Rodapé], foi possível observar diferentes enfoques teóricos, em diversos campos disciplinares, sobre a temática gênero. A diversidade de áreas das pesquisas possibilitou o diálogo entre as disciplinas e favoreceu a visão dos diversos campos de conhecimento, possibilitando a percepção da multiplicidade no uso do conceito de gênero.

Ao enfocar as questões de gênero nos ambientes educativos é necessário, como afirma Louro, que os sentidos estejam afiados para que sejamos capazes de ver, ouvir, sentir as múltiplas formas de constituição dos sujeitos implicadas na concepção, na organização e no fazer do cotidiano escolar. "Atentas aos pequenos indícios, veremos que até mesmo o tempo e o espaço da escola não são distribuídos e usados - portanto não são concebidos - do mesmo modo por todas as pessoas". (LOURO, 1997, p. 59).

As pesquisas sobre gênero e educação mostram que as instituições escolares, através de regimentos, organização dos espaços e da distribuição do tempo, constituem importantes espaços para a formação de crianças e jovens. "As crianças aprendem o sexismo na escola ao se defrontar com a hierarquia do sistema escolar,


Nota 4 – Página 92. Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero da Universidade Federal do Rio Grande de Sul.

Nota 5 – Página 92. Além das produções nestas revistas, duas bases de dados se destacaram no levantamento bibliográfico: a Biblioteca Ana Maria Poppovic - BAMP,que inclui também a publicação dos Cadernos de Pesquisa da Fundação Carlos Chagas e os anais do encontro internacional Fazendo Gênero, organizado pela Universidade Federal de Santa Catarina.


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onde os papéis feminino e masculino estão determinados". (ALAMBERT, apud VALENZUELA; GALLARDO, 1999, p.25).

Muitas pesquisas apontam que a escola possui mecanismos sutis que constroem e mantêm as diferenças entre os sexos. Porém não se sabe como essa construção aparece na escola de educação infantil. Nesta etapa da educação a escola já ensina a ser menino e a ser menina? Como as crianças se manifestam frente às relações de gênero?

É através de uma analogia com a história Faca sem ponta, galinha sem pé, de Ruth Rocha (1998), que relato como as crianças vêm construindo suas formas de ser menino e menina, nos momentos de brincadeira, na escola de educação infantil pesquisada.
As trocas dos papéis sexuais nas brincadeiras
Quais as diferenças que existem realmente entre meninos e meninas? Há mesmo coisas que uns podem fazer e outros não? Em Faca sem ponta, galinha sem pé, Ruth Rocha (1998) conta a história de dois irmãos, Joana e Pedro, que têm que enfrentar esse problema.

Um dia, Pedro e Joana, ao passearem juntos embaixo de um arco-íris trocam de sexo. Então, eles percebem que as diferenças entre meninos e meninas são meras convenções e que não existe essa história de "coisas de menino" e "coisas de menina".

Ruth Rocha vai desmistificando, através de uma narrativa, os comportamentos esperados de meninos e meninas:

Pedro implicava com a irmã por ela querer fazer coisas de meninos tais quais jogar bola, subir em árvore; Joana implicava com o irmão por ele às vezes ter "atitudes femininas" como chorar por causa de um filme triste, ou ficar olhando-se no espelho. Os dois sofriam cobranças de atitudes correspondentes com seu sexo por parte de seus pais, como: "menina tem que ser delicada, boazinha..." ou "filho meu não foge! Volte pra lá agora e bata nele também. E vamos parar com essa choradeira! Homem não chora!".

Um dia, voltando da escola, passam por debaixo do arco-íris e mudam de sexo. E a situação se complica. Logo na esquina, Pedro, quer dizer, Pedra, que agora era menina, deu o maior chute numa tampinha que estava no chão.

-Vamos parar com isso?- disse Joano - Menina não faz essas coisas.

-E eu sou menina?

-É, não é?

-Ah, mas eu não me sinto menina! Tenho vontade de chutar tampinha, de empinar papagaio, de pular sela...
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-Ué, eu também tinha vontade de fazer tudo isso e você dizia que menina não podia-reclamou Joano.

-Mas é que todo mundo diz isso- disse Pedra- que menina não joga futebol, que lugar de mulher é dentro de casa...

-Pois é, agora agüenta! Não pode, não pode, não pode...

Pedra descobre também as vantagens de ser menina, como poder demonstrar seus medos, seus choros, sua vontade de ver novela... Porém a implicância entre os irmãos está cada vez maior, sem compreender tantas proibições... até que o arco-íris apareceu:

Joano e Pedra deram-se as mãos. E correram, juntos, em direção ao arco-íris. E finalmente perceberam que alguma coisa, novamente, tinha acontecido. Então riram, se abraçaram e começaram a voltar para casa. Então Joana viu uma tampinha na calçada. Correu e chutou a tampinha para Pedro. Pedro devolveu e os dois foram jogando tampinha até em casa.

A diferença entre os gêneros, neste livro, é representada pela permissão ou não de jogar futebol. Na cena final, vemos que os dois irmãos superam as diferenças, percebendo, afinal, que elas são construídas e não naturais. Não há mais possibilidade de pensar que apenas suas características biológicas determinam a personalidade, mesmo porque essa viagem para dentro deles mesmos confirma a existência de características tidas como femininas ou masculinas em ambos.

A leitura proporciona uma visão questionadora quanto à manutenção de uma sociedade sexista. Deste modo, a história de Ruth Rocha vem ao encontro do contexto por mim observado na instituição de educação infantil pesquisada. São muitos os "Joanos" e "Pedras": meninos que têm vontade de brincar de cozinhar na casinha, brincar com boneca, brincar de salão de beleza e meninas que têm vontade de subir em árvores, jogar futebol e brincar com espada e carrinho.

Através da observação na instituição de educação infantil, foram registradas brincadeiras coletivas, nas quais meninos e meninas se revezam nos papéis, sem menosprezar ou desprezar papéis considerados masculinos ou femininos; as crianças buscavam um companheiro para brincar e vivenciar momentos agradáveis, não importando ser homem ou mulher, ser menino ou menina.

A variedade dos brinquedos e as diversas opções de brincadeiras que o ambiente da escola de educação infantil pesquisada proporciona, favorecem para que todos os espaços sejam ocupados por meninas e meninos indiscriminadamente. As crianças brincam espontaneamente com os brinquedos que escolhem sem constrangimentos. Meninos participavam de brincadeiras como cuidar da casa, cozinhar, passar roupa, cuidar dos filhos, que são vistas como funções das mulheres; assim as crianças trocavam e experimentavam os papéis considerados masculinos ou femininos durante os momentos de brincadeira.
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Observando vários momentos de brincadeira foi possível levantar a hipótese de que as crianças ainda não possuem práticas sexistas em suas brincadeiras e, portanto, não reproduzem o sexismo presente no mundo adulto. Esses meninos e meninas ainda não possuem o sexismo da forma como ele está disseminado na cultura construída pelo adulto: as crianças vão aprendendo a oposição e a hierarquia dos sexos ao longo do tempo que permanecem na escola.

Louro (1997; 2000; 2002) afirma que a escola é parte importante neste processo. Seus estudos apontam para o modo como as instituições e suas práticas ensinam certas concepções, fazendo com que certas condutas e formas de comportamento, diferenciadas pelo sexo, sejam aprendidas e interiorizadas, tornando-se quase "naturais". "Tal 'naturalidade' tão fortemente construída talvez nos impeça de notar que, no interior das atuais escolas, onde convivem meninos e meninas, rapazes e moças, eles e elas se movimentam, circulam e se agrupam de formas distintas". (LOURO, 1997, p. 56).

Ao questionar a naturalidade dos agrupamentos de meninos e meninas nas brincadeiras, percebi como meninos e meninas criam novas formas de agrupamento em suas brincadeiras.

Considera-se que as relações das crianças na educação infantil apresentam-se como forma de introdução de meninos e meninas na vida social, quando passam a conhecer e aprender seus sistemas de regras e valores, interagindo e participando nas construções sociais. Porém, ao observar as relações entre as crianças, foi possível levantar a hipótese de que os estereótipos dos papéis sexuais, os comportamentos

pré-determinados, os preconceitos e discriminações são construções culturais, que existem nas relações dos adultos, mas ainda não conseguiram contaminar totalmente a cultura da criança.

São os adultos que esperam que as meninas sejam de um jeito e os meninos de outro. Mas até onde irão esses costumes, esses hábitos construídos culturalmente? Será que nossa sociedade vem se transformando em relação a tais conceitos? O que esses meninos e meninas estão nos mostrando? O que estão querendo nos ensinar?

A observação das brincadeiras, na escola pesquisada, tornou possível concluir que as relações entre meninos e meninas podem ser consideradas dados importantes para se construir uma relação não-hierárquica, uma relação de respeito entre os gêneros. Deste modo, o profissional de educação infantil tem papel fundamental para que essas relações possam acontecer de forma livre, sem cobranças quanto a um papel sexual pré-determinado.

Porém é muito freqüente, ainda, que meninos e meninas, ao demonstrarem comportamentos não apropriados para seu sexo, causem preocupação e sejam motivo de incômodo e dúvidas para profissionais da educação infantil.


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As crianças, capazes de múltiplas relações, estão a todo momento experimentando diferentes formas de brincadeira, buscando novos prazeres, fazendo coisas movidas pela curiosidade e vontade de conhecer o mundo.

Na medida em que meninas e meninos transgridem o que é pré-determinado para cada sexo, mostram que a instituição de educação infantil pode apresentar mais uma característica positiva quanto às formas dessas relações: o ambiente da educação infantil pode ser um espaço propício para o não-sexismo. É importante que o profissional que trabalha na educação de crianças pequenas tenha consciência deste potencial, para, desse modo, repensar sua prática educativa.

As relações não-sexistas podem ser observadas entre as crianças da escola pesquisada, onde as fronteiras da divisão dos gêneros são freqüentemente ultrapassadas ou recusadas. As fronteiras entre os gêneros se dissolvem e meninos e meninas interagem descontraidamente, não mantendo nítidas as divisões de gênero, estando, por vezes, separados e, em outros momentos, juntos.

A escolha e a utilização dos brinquedos pela criança foram pontos importantes de análise para refletir sobre as relações entre meninos e meninas. É importante ressaltar que os brinquedos são compreendidos como elementos culturais, portadores de significados e de um enredo social e as crianças estão a todo momento recriando novos significados.

A tradução do livro de Elena Gianni Belotti (1975) contribui para a reflexão, trazendo um estudo sobre as relações de gênero na infância, ao apresentar a educação escolar das meninas na Itália. A autora relata observações desde os primeiros anos da criança, analisando o comportamento dos adultos a seu respeito, as relações que estabelecem com ela nas diversas idades, o tipo de exigências que lhes são feitas e a maneira como lhes apresentam, as expectativas que envolvem o fato de

pertencer a um sexo e não a outro.

Ao buscar conhecer as causas sociais e culturais das diferenças entre os sexos [6 Nota de Rodapé], Belotti afirma que podemos descobrir sua gênese em pequenos gestos cotidianos tão corriqueiros que chegam a passar-nos despercebidos; em reações automáticas, cujas origens e objetivos nos escapam, e que repetimos sem ter consciência do seu significado, porque os interiorizamos no processo educacional; são preconceitos que não resistem à razão nem aos novos tempos, mas que continuamos a considerar como verdades intocáveis, nos costumes e nas regras inflexíveis.

Em Bellotti (1975), a diferenciação com base nos gêneros aparece em evidência quando fala especificamente dos brinquedos. Ela afirma que existem brinquedos "neutros", considerados "próprios" tanto para meninas quanto para meninos.

Em geral, esses brinquedos são compostos de materiais não-estruturados, como
Nota 6 – Página 96. A autora não utiliza o conceito de gênero ao longo de seu trabalho, referindo-se apenas a sexos.
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jogo de construção, mosaico, quebra-cabeça, jogos de encaixar, instrumentos musicais... Mas, quando se trata dos brinquedos compostos por elementos perfeitamente identificáveis e estruturados, a autora afirma que se torna bem clara a diferenciação:

Para as meninas existe uma vastíssima gama de objetos miniaturizados que imitam os utensílios caseiros, como serviços de cozinha e toilette, bolsas de enfermeira com termômetro, faixas, esparadrapo e seringas, dependências como banheiros, cozinhas completas com eletrodomésticos, salas, quartos, quartinhos para bebês, jogos para coser e bordar, ferros de passar, serviços de chá, eletrodomésticos, carrinhos, banheirinhas e uma série infinita de bonecas com o respectivo enxoval.

Para os garotinhos em geral os brinquedos divergem completamente: meios de transporte terrestre, navais e aéreos de todas as dimensões e de todos os tipos: navios de guerra, porta-aviões, mísseis nucleares, naves espaciais, arma de todo o tipo, desde a pistola de Cow-boy perfeitamente imitada até alguns sinistros fuzis-metralhadoras que diferem dos verdadeiros apenas pela menor periculosidade, espadas, cimitarras, arcos e flechas, canhões: um verdadeiro arsenal militar (BELOITI, 1975, p.75-76).

Observando atentamente a categorização descrita nos estudos de Bellotti, podemos nos perguntar: existem brinquedos "certos" e "errados" para cada sexo?

Qual o significado de se destinar alguns tipos de brinquedos para meninas e outros para meninos? O que estamos proporcionando para as crianças com essa categorização? O que mudou, das relações de gênero descritas por Bellotti (1975, p.75-76), nos dias de hoje? As relações de gênero vêm sofrendo modificações? O que as crianças com suas brincadeiras nos mostram e nos dizem a esse respeito?

A transgressão em relação à utilização dos brinquedos considerados "certos" e "errados" para cada sexo foi observada em vários momentos de brincadeira. Os meninos e meninas brincavam de tudo que lhes dava prazer: de bola, de boneca, de empinar pipa, de carrinho, de casinha, de panelinha, de espada. Ao brincar com todos os brinquedos que desejavam, não deixavam que idéias, costumes e hábitos limitassem suas formas de conhecer e vivenciar o mundo, determinando o que deveriam ser, o que deveriam pensar e que espaços deveriam ocupar.

Ao brincar, as escolhas eram feitas de acordo com aquilo que lhes dava prazer, de acordo com a curiosidade. Não existiam fronteiras para os espaços ocupados na brincadeira. As fronteiras do que é permitido e do que não é permitido, para cada sexo, não eram consideradas nos momentos das brincadeiras. Desse modo, ao refletir sobre a utilização dos brinquedos pelas crianças, foi possível afirmar que as categorizações dos brinquedos são construções criadas por adultos e não têm significado para as crianças nos momentos das brincadeiras.

Esse conjunto de construções categorizadas, ou seja, a norma cultural de que existem brinquedos certos para meninas e outros para meninos, pode estar relaci-


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onado à preocupação que se tem com a futura escolha sexual da criança. É importante que se compreenda que o fato de um menino brincar com uma boneca ou de uma menina brincar com carrinho não significa que eles terão uma orientação homossexual [7 Nota de Rodapé]. De acordo com Louro (1998) e Felipe (1999), a preocupação do adulto em relação à orientação sexual da criança aponta para a "obsessão com sexualidade normalizante": há uma vigilância exercida desde os primeiros anos de vida não só pela família, mas também pela escola, para que se possa garantir a manutenção de uma masculinidade considerada hegemônica. "Qualquer possibilidade de rompimento das fronteiras de gênero aponta para uma classificação no campo da patologia, da anormalidade" (FELIPE, 2000, p.123).

Essa preocupação do adulto está relacionada com a dificuldade de diferenciar a identidade de gênero da identidade sexual, "essas identidades estão inter-relacionadas; nossa linguagem e nossas práticas muito as confundem, tornando difícil pensá-las distintivamente. No entanto elas não são a mesma coisa". (LOURO, 1997, p. 27).

A utilização dos brinquedos pelas crianças apontou para algumas questões referentes às práticas educativas na educação infantil, tais como as formas de organização, os processos e as condições que estabelecem os termos de polaridade no dia-a-dia da escola.

A forma como a professora organiza sua prática, deixando disponível e dando acesso a uma diversidade de brinquedos para as crianças experimentarem e conhecerem diferentes papéis, sem determinar posições e comportamentos para meninos e meninas, favorece que não sejam determinados papéis específicos em função de seu sexo.

Porém, quando a professora não reflete sobre sua influência nas relações dos meninos e meninas, ela pode organizar a brincadeira de uma forma a favorecer o sexismo, a prática da professora pode fazer com que as crianças se organizem em grupos distintos de meninas e meninos, sem que haja uma ordem explícita para isso. Por que a separação entre os gêneros, muitas vezes, acontece espontaneamente?

Esta questão nos leva a refletir intensamente a respeito do antagonismo masculino/feminino, menino/ menina, nas práticas educativas dentro das creches e pré-escolas. O conceito de gênero possibilita a introdução da discussão sobre a desconstrução do antagonismo masculino/feminino.

Louro (2000) nos lembra que, na nossa forma usual de compreender e analisar as sociedades, empregamos um pensamento polarizado sobre os gêneros: muitas
Nota 7 – Página 97. A respeito deste assunto ver a produção da ECOS - Comunicação em Sexualidade (http://www.ecos.org.br), principalmente o vídeo Boneca na Mochila (1995), que trata da sexualidade na infância e na adolescência,com destaque especial para os medos e fantasias dos adultos quanto à questão da homossexualidade.
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vezes nós concebemos homem e mulher como pólos opostos que se relacionam dentro de uma lógica invariável de dominação-submissão. Para a autora, a "proposta desconstrutiva" visa romper com esta forma de pensar. A proposta da desconstrução das dicotomias significa problematizar a constituição de cada pólo, demonstrar que cada um, na verdade, supõe e contém o outro; mostrar que cada pólo não é único, mas plural; mostrar que cada pólo é internamente fraturado e dividido. O mesmo processo pode ser utilizado para desconstrução das dicotomias, ao pensar nas categorias de brinquedos ditos femininos ou masculinos.

Ao propor a desconstrução, Scott (1994) demonstra que o pensamento moderno é marcado por dicotomias: presença/ausência, teoria/prática, ciência/ideologia, homem/mulher, etc. "Neste 'jogo das dicotomias', os dois pólos diferem e opõem-se, marcando a superioridade do primeiro elemento" (SCOTT, 1994, p.23). É dentro desta lógica que aprendemos a pensar; a proposta que se coloca, porém, é a da desconstrução das dicotomias.

A desconstrução trabalha contra a lógica de que existe um lugar fixo e "natural" para cada gênero (LOURO, 1997), levando a perceber que a oposição é construída, e não inerente e fixa. A desconstrução sugere que se procurem os processos e as condições que estabeleceram os termos de polaridade. Supõe que se busque a origem da polaridade e a hierarquia nela implícita. Desmonta, assim, a lógica dualista que rege as polaridades, demonstrando não apenas a idéia de que cada um dos pólos (masculino e feminino) está presente no outro, mas também que as oposições foram e são historicamente construídas. A desconstrução dos pólos masculino e feminino traz uma proposta de reflexão e nos aproxima das formas como as crianças se relacionam frente às diferenças de gênero na infância.

Surgem muitos questionamentos ao observar as brincadeiras registradas. Presenciar momentos de brincadeiras das crianças, observando as vontades de meninos e de meninas, trouxe outras questões relativas à forma como profissionais da educação infantil vêm se relacionando com os meninos e meninas.

Apesar de estas questões estarem implícitas no dia-a-dia da escola, permeadas nas práticas pedagógicas, ainda estão longe das discussões nos cursos de formação do professor e pouco se discutem as questões de gênero no âmbito de reuniões pedagógicas. Devemos nos perguntar o porquê dessa ausência; o que significa não discutir as questões de gênero e o que isso implica. Por que a escola parece propor um "acordo do silêncio"?

Podemos iniciar a discussão sobre as relações de gênero reconhecendo que a escola não está neutra: ela participa sutilmente da construção da identidade de gênero e de forma desigual. E essa construção inicia-se desde as primeiras relações da criança no ambiente coletivo da educação infantil.

Discutir as questões de gênero na educação significa refletir sobre relações das práticas educacionais cotidianas, desconstruindo e redescobrindo significados.
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Significa questionar conceitos pré-concebidos, determinações que sutilmente permeiam nossas práticas. Discutir as relações de gênero é, antes de tudo, remexer e atribuir novos significados à nossa própria história.

Relacionar gênero e infância permite que possamos enxergar as múltiplas formas de ser menino e de ser menina que as categorizações não nos deixam ver. Assim estaremos dando a esses meninos e meninas a possibilidade de serem eles mesmos e percorrerem novos caminhos, vivendo a infância com sua inteireza, em sua plenitude.


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