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MEMÓRIA E IDENTIDADE CULTURAL: O CHORO E A ESCOLA PORTÁTIL DE MÚSICA

Claudia dos Santos GÓES


Mestranda em Comunicação

ECO/UFRJ (RJ)



Resumo:

O objetivo deste trabalho é analisar o papel da tradição na construção da identidade cultural para os grupos de choro no Rio de Janeiro, com foco no trabalho de  formação musical, recuperação de acervos e formação de novas platéias desenvolvido pela Escola Portátil de Música (EPM). Pretendemos discutir as nuances dessa experiência a partir da análise do funcionamento da EPM e identificar que apropriações e referências do passado os grupos utilizam para se legitimarem como tradicionais, “de raiz”. Buscaremos descrever as formas pelas quais uma memória coletiva é organizada e transmitida em um espaço urbano, onde a musicalidade se coloca como um marco local.



Palavras-chave: música, choro, memória, identidade.


Quando bandolins, cavaquinhos e violões começam a tocar, recordações e sensações circulam na memória humana. São lembranças que não estão na palavra, mas no dedilhar de cordas do instrumento que chora o tempo passado, presente e futuro.

Introdução
Na mitologia grega, a música começou com a morte dos Titãs. Conta-se que foi solicitado a Zeus a criação de divindades capazes de cantar as vitórias dos Olímpicos. Zeus deitou-se com Mnemosina, a deusa da memória, e desse encontro nasceram as nove Musas. Entre as Musas estavam Euterpe (a música) e Aede, (o canto). Mnemosine, protetora das artes e da história, possibilitava aos poetas lembrar o passado e transmiti-lo aos mortais. A memória e a imaginação têm a mesma origem: lembrar e inventar têm ligações profundas. Diversos povos têm um deus ou algum tipo de representação mitológica ligado à música. Para os egípcios, por exemplo, a música teria sido inventada por Tot ou por Osíris; para os hindus, por Brama; para os judeus, por Jubal e assim por diante, o que prova que a música é algo intrínseco à historia do ser humano sobre a Terra e uma de suas manifestações mais antigas e importantes.

Já a origem não-mitológica da música divide-se na expressão de sentimentos através da voz humana e no fenômeno natural do soar em conjunto de duas ou mais vozes; a primeira seria a raiz da música vocal; a segunda, a raiz da música instrumental. A música seria então a capacidade que consiste em saber expressar sentimentos através de sons artisticamente combinados ou a ciência que pertence aos domínios da acústica, modificando-se esteticamente de cultura para cultura.

Sobre a importância sociocultural do fenômeno musical para a interpretação de aspectos da cultura brasileira, Hermano Vianna (1995:33) escreveu recentemente sobre a expressão da música popular na obra de grandes intérpretes do Brasil:

“Já vimos como Antônio Cândido se referiu ao ‘triunfo avassalador da música popular nos anos 60’, gerando um dos ‘fatos mais importantes de nossa cultura contemporânea’. O modernista Mário de Andrade escreveu, em 1939, que a música popular tornava-se ‘ a criação mais forte e a caracterização mais bela da nossa raça’. Gilberto Freyre chegou a dizer: ‘ a música vem sendo a arte por excelência brasileira no sentido de ser, desde os começos nacionais e até coloniais do Brasil, aquela – dentre as belas-artes – em que de preferência se tem manifestado o espírito pré-nacional e nacional da gente luso-americana: da aristocracia e burguesia tanto quanto plebéia ou rústica’ A música, portanto, mais que as outras artes, é descrita como tendo essa capacidade de, como dizia Antônio Cândido, realizar uma ‘quebra de barreiras’, servindo de elemento unificador ou de canal de comunicação para grupos bastante diversos da sociedade brasileira”.


As transformações do capitalismo colocam em destaque o tema das identidades culturais1. Insiste-se tanto na redefinição do espaço de grupos e indivíduos, que chega a causar a impressão de que as reações coletivas não se baseiam mais em argumentos políticos ou partidários, mas em micro-revoluções capazes de alterar o sentimento de integrar-se a esse mundo. Isso acontece pela busca de identificações com aspectos culturais, como a busca pelas chamadas “tradições populares”.
Chorando o Passado

Para falar sobre a construção de identidades culturais, lembrarei aqui alguns conceitos sobre memória de Maurice Halbwachs (1990). A memória é uma construção feita das vivências/experiências ocorridas no passado a partir do presente. Para ele, mesmo a memória individual remete a um grupo. Nossas lembranças são construídas e alimentadas das diversas memórias oferecidas pelo grupo, a que o autor chama de 'comunidade afetiva'. Assim, a memória coletiva garante o sentimento de identidade do indivíduo calcado numa memória compartilhada. Outro aspecto acerca da memória é a sua relação com os lugares. Estes são uma referência importante para a construção das memórias individual e coletiva. Ou seja, as mudanças ocorridas nesses lugares causam mudanças importantes na vida e na memória dos grupos.

De certa forma, esses elementos constitutivos da memória, vividos pessoalmente ou por tabela (Halbwacks) é que configuram a sensação de pertencimento ou ainda ocorre um fenômeno de projeção ou de identificação com determinado passado, tão forte que se pode falar numa memória quase herdada. É importante lembrar também que a memória é um objeto de luta pelo poder entre classes, grupos e indivíduos. O que deve ser lembrado ou esquecido integra os mecanismos de controle de um grupo sobre o outro.

(...) os diferentes elementos que formam um indivíduo são efetivamente unificados (...) Podemos, portanto dizer, que a memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade, tanto individual como coletiva, na medida em que ela é também um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si.(POLLACK, 1992).


Para Michael Pollak (1992: 204,) o conceito de identidades coletivas está ligado a todos os investimentos e trabalhos que um grupo deve realizar ao longo de um tempo que o desperta para um sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou grupo em sua reconstrução, para si e para os outros, sendo este último essencial para a construção da identidade, pois, como afirma "ninguém pode construir uma auto imagem isenta de mudanças, de negociação, de transformação em função dos outros". Como assinala o autor, “Esse último elemento da memória – a sua organização em função das preocupações pessoais e políticas do momento – mostra que a memória é um fenômeno construído”.

É com base nestas conceituações que este estudo lançou seu olhar sobre a experiência vivenciada pela Escola Portátil de Música (EPM), conhecida como “Escola de Choro”. A EPM, com sua destacada atividade de educação musical, profissionalização de jovens músicos, recuperação de acervos e formação de platéia, se constituiu como construtora de uma preciosa memória sobre o choro no Rio de Janeiro.



Breve história do choro

Dizer que a música popular feita no Brasil é caracterizada por sua riqueza é essencial para defini-la. A história da música popular do Brasil acontece quando do encontro entre a música dos jesuítas e a música dos indígenas. Ela se tornaria mais forte no final do século XVII, com o lundu e a modinha, de cunho intimista, amoroso e sentimental. Já no século XIX surge o choro e os conjuntos de chorões — nome que se dá aos músicos que integram os conjuntos de choro — que adaptam formas musicais européias ao gosto brasileiro.

Os primeiros grupos de chorões eram compostos por flauta, violão e cavaquinho. No final do século XIX são incorporados instrumentos de sopro e corda, tais como o bandolim, o flautim e a clarineta. Em termos de estrutura musical, o choro costuma ter três partes (ou duas, posteriormente), que seguem a forma rondó (sempre se volta à primeira parte, depois de passar por cada uma).

A obra de Ernesto Nazareth foi fundamental para a formação da linguagem do gênero. Pixinguinha também foi essencial, pois introduziu elementos da música afro-brasileira e da música rural nas polcas, valsas, tangos e schottische. Outro músico importante na história do choro foi Jacob do Bandolim, famoso por seu virtuosismo e também pelas rodas de choro que promovia em sua casa, nos anos de 1950 e 1960. Jacob também fundou um importante grupo de choro, o Época de Ouro.

O choro acabou por tornar-se o gênero mais representativo da música brasileira por seu caráter de elo entre diversos segmentos sociais e estéticos que persiste até hoje. Pode-se pensar o choro como uma síntese primordialmente instrumental de toda uma história musical brasileira.

Escola Portátil de Música (EPM)

Escola: espaço que tem como objetivo o exercício do professorado e a formação de alunos; Portátil: móvel, volante, que se pode transportar com facilidade e eficiência;
de Música: porque específica no ensino desta arte. “Os lugares de que falamos portanto são mistos, híbridos, mutantes, unidos intimamente à morte e à vida, ao mesmo tempo e à eternidade; emaranhados no coletivo e no individual, no sagrado e no profano, no imutável e no móvel”. (NORA, 1985, p.22).

Idealizado pelo compositor Hermínio Bello de Carvalho, o projeto Escola Portátil de Música é um programa de educação musical voltado para a capacitação e profissionalização de músicos através da linguagem do choro.


Criado no ano 2000, pelo violonista, arranjador, compositor e professor Maurício Carrilho com o nome de Oficina de Choro, o projeto foi sediado até 2003, na Escola de Música da UFRJ. Em 2004, com o apoio do Instituto Jacob do Bandolim, foi criado o Núcleo Avançado no bairro da Glória, que atendeu a mais de 500 alunos. A partir de 2005, A EPM passou a funcionar na Universidade do Rio de Janeiro (UNI-Rio), na Urca.

Tendo como objetivo a formação de novas platéias e espaços, o projeto implementou oficinas de choro nas cidades de Vassouras (RJ) e Niterói (RJ), e realizou pelo segundo ano consecutivo o Festival Nacional do Choro, na cidade de Mendes (RJ), atraindo cerca de 300 alunos de diversas regiões do país e do mundo. Com o mesmo objetivo, realiza, ainda, em parceria com a sala Baden Powel, uma série de apresentações de grupos de choro formados por alunos da escola (Orquestra Furiosa Portátil, Os Matutos, entre outros).

Na EPM, os alunos selecionados têm bolsa integral e recebem materiais didáticos como apostilas, CDs de bases instrumentais, partituras e todos os suportes necessários ao ensino do choro. As turmas são divididas de acordo com o instrumento e com o nível musical dos instrumentistas e as aulas são ministradas por músicos reconhecidos internacionalmente como Luciana Rabello, Pedro Amorim, Celso Silva entre outros. Durante o curso, os alunos mais capacitados passam a desempenhar a função de monitores na implementação de novos núcleos do projeto, criando assim oportunidades de inserção para jovens músicos no mercado de trabalho.

O curso oferece a disciplinaHistória do Choro’, ministrada pelos professores Anna Paes e Pedro Aragão, que é obrigatória para todos os alunos da escola. A disciplina apresenta um panorama da história do choro desde o século XIX até os dias atuais e aborda descrições biográficas dos principais compositores, análises e audições das obras mais representativas de cada período, exibições de vídeos, bem como discussões a respeito do papel de acervos de partituras na disseminação do choro.

Para suprir a falta de registro do choro, a escola montou um acervo de áudio (CDteca) que reúne cerca de 200 títulos de choro. Estão disponíveis desde gravações raras de Pixinguinha e Jacob do Bandolim, até contemporâneos como Altamiro Carrilho, Raphael Rabello e Paulinho da Viola. A Escola vem trabalhando na recuperação de acervos importantes da história da música brasileira que alimentará seus dois novos projetos: uma videoteca e uma biblioteca sobre o choro. (Escola Portátil de Musica – site)

Tradição e Lugares de Memória
A idéia de tradição vista como herança viva (COUTINHO, 2002), compreende a tradição “como ação criadora do sujeito sobre as formas do passado” ou ainda “como articulação orgânica entre sujeito social e sua herança cultural objetiva, isto é, como atividade criadora de reinterpretação dos signos do passado”. A cultura torna-se por excelência um marcador de grupos onde cada tipo de comunidade revela uma ordem social. Assim, percebemos a EPM como uma mantenedora de memórias coletivas, visto que estas vêm se tornando um processo importante na construção de suas identidades culturais próprias.
(...) A construção da identidade é um fenômeno que se produz em referência aos outros, em referência aos critérios de aceitabilidade, de admissibilidade, de credibilidade, e que se faz por meio da negociação direta com outros. Vale dizer que memória e identidade podem perfeitamente ser negociadas, e não são fenômenos que devam ser compreendidos como essências de uma pessoa ou de um grupo.(POLLACK, 1992, p.200-212).


Sobre o papel do outro na construção das identidades, pode-se considerar que a Escola Portátil de Música dialoga com seus integrantes através de questionários semestrais de avaliação, espaço onde os alunos podem sugerir novos formatos de aula, palestras etc, e que são utilizados pelos professores para a formulação da grade curricular do período seguinte.

Percebe-se também que na realização de palestras e encontros com os antigos chorões, em busca de conhecimento, aprofundamento e experiências, a escola tenta se legitimar como “tradicional” e assim criar uma identidade. A informação sobre um passado justificaria assim a sua identificação com aquela prática, com o seu gosto. Esses encontros com os mestres nos parece ser uma prática que levaria a uma sensação de pertencimento a este estilo musical e de vida.

A tradição de que fala o autor aparece na construção da identidade cultural dos grupos de choro, entre outros vestígios, na escolha dos seus nomes. Grupos como o Regional Carioca e Camerata Carioca remetem aos tradicionais grupos de choro do século passado. O nome regional tem origem nos inúmeros grupos instrumentais que, na década de 1920, por dedicarem-se à música regional foram chamados de Regionais. Dentre os mais reverenciados estavam o Regional do Canhoto e o Regional de Benedito Lacerda. No interior do estado, a escolha do nome do jovem grupo Os Matutos, formado por adolescentes da cidade de Cordeiro (RJ), foi uma homenagem ao choro Matuto, de Ernesto Nazareth.




A partir do momento em que a memória coletiva é construtora de uma identidade, ela pode ser capaz de agir como um elemento de coesão social de uma determinada organização, como uma escola. A EPM sintetiza então aquilo que Pierre Nora chama de lugares de memória. Segundo o autor, o papel da escola é transmitir e conservar valores coletivamente lembrados (NORA p.18).

Estes lugares de memória são fundamentalmente vestígios do passado, as últimas encarnações de uma consciência da memória que sobrevive numa época histórica que não recorre à memória, pois a abandonou. Eles aparecem em virtude da desritualização de nosso mundo – produzindo, manifestando, estabelecendo, construindo, decretando e mantendo artificialmente e intencionalmente uma sociedade profundamente absorvida em sua própria transformação e renovação, que invariavelmente valoriza o novo em detrimento do antigo, o jovem em lugar do velho, o futuro em relação ao passado. (NORA, 1984, p. 22).

Segundo Barbosa (2005), com a aceleração do tempo e a volatilidade do presente, cria-se uma espécie de unificação entre os homens e uma conseqüente perda da própria identidade em nome de uma igualdade. Na pretensão de recriar a sua identidade e particularidade, criam-se então os “santuários de memória”.

A sociedade atual valoriza o futuro, desacralizando-se e, em função disso, cria a ilusão de preservar o passado, multiplicando os “lugares de memória”, signos de reconhecimento e de pertencimento de um grupo a uma sociedade que só tende a reconhecer indivíduos iguais e idênticos. Esses lugares de memória – com características material, funcional e simbólica – seriam os arquivos, as bibliotecas, os monumentos, as obras de arte, as comemorações, as datas nacionais. Na medida em que no mundo moderno não há mais uma memória espontânea seria preciso registrar, em profusão, a própria vida presente e relembrar o passado a cada instante. (BARBOSA, 2005, p.1).



Instituto Jacob do Bandolim (IJB)

Outro local de preservação e construção de uma certa memória do choro no Rio de Janeiro é o Instituto Jacob do Bandolim(IJB) que tem como objetivo maior, a recuperação do arquivo do bandolinista Jacob do Bandolim, o maior arquivo de choro no mundo, que estava abandonado no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.

Além da EPM e do IJB, existem outros circuitos de divulgação e preservação do choro no Rio de Janeiro. Podemos citar o programa de rádio Época de Ouro, transmitido ao vivo, toda sexta-feira, às 17horas, pela Rádio Nacional; a feirinha da Rua General Glicério, no bairro de Laranjeiras, onde há quase uma década se apresenta o grupo ‘Choro na Feira’. É lá que, aos sábados, o conhecido Luizinho, maior distribuidor de CDs autônomo da cidade, vende raros discos de samba e choro. Como lugar de memória podemos citar ainda: ‘Movimento Artístico da Praia Vermelha’, que acontece às segundas, quartas e sextas-feiras no calçadão da Praia Vermelha, no bairro da Urca; o projeto de educação musical ‘Canto pra Viver’, na Tijuca; o ‘Choro na Praça’, em Niterói; o ‘Comuna do Semente’, no Bar Semente, na Lapa, o site Agenda do Samba-Choro, entre outros.

Dia do choro

Os lugares da memória se originam da idéia de que não há mais memória espontânea, de que nós temos que criar deliberadamente arquivos, manter aniversários, organizar celebrações, fazer apologias e testar descrições, pois tais atividades não ocorrem mais naturalmente. Nesse sentido, a defesa, por certas minorias, de uma memória privilegiada, direcionada a proteger zelosamente certos enclaves, ilumina intensamente a verdade dos lugares de memória - de que, sem tal vigilância comemorativa, a história rapidamente os varreria para longe. “(NORA, 1984, p. 22).

Nesse “boom” das identidades, a memória existe enquanto for importante para o grupo. E as datas fazem com que essa memória esteja sempre viva, alimentando o grupo. Cada data comemorativa representa o nascimento, assim como os aniversários. Para que a memória seja re-significada, o grupo cria datas para atualizar essa memória (POLLAK, 1992, pág 3). O dia 23 de abril foi escolhido como o Dia Nacional do Choro, por ser a data de nascimento de Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha. Proposto pelo senador Artur da Távola, o decreto que criou o Dia Nacional do Choro foi aprovado pelo ex-presidente FHC em setembro de 2000 e teve a intenção de fixar a data pelo país.

Considerações Finais:

O choro sempre esteve em estado de ressurgimento e renovação. Durante os anos de 1950 e 1960, perdeu força, mas reapareceu na década seguinte marcada pelo impulso dos festivais. Nessa época, realizou-se o primeiro Seminário Brasileiro de Música Instrumental, na cidade de Ouro Preto (MG). Atualmente, iniciativas individuais de divulgação e preservação fazem com que cada vez mais jovens se interessem em conhecer o choro. Nesse cenário de fortalecimento e de preservação do gênero é importante ressaltar o papel da Acari Records, gravadora criada em 1999, por Luciana Rabello e Maurício Carrilho, e a única no Brasil especializada em choro, que vem realizando um importante trabalho de divulgação dos chorões do passado.

A fim de manter sua memória em movimento, as pessoas, como autoras têm de inventá-la, refleti-la, experimentá-la, recordá-la, discuti-la, interpretá-la e transmiti-la. Estas ações fazem com que o gênero se torne um evento de vidas continuamente construídas em um presente.
(...) A memória é a vida, vivenciada por sociedades vivas, fundadas em seu nome. Ela permanece em perene evolução, aberta à dialética do lembrar e do esquecer, inconsciente a suas sucessivas deformações, vulnerável a manipulações e apropriações, suscetível a longos repousos e periódicos renascimentos. (NORA, 1984, p. 19).

Considerando que o choro é uma tradição secular vale salientar que o gênero sempre viveu momentos de efervescência e ostracismo e resiste até hoje.

“O choro sempre foi estudado, preservado e respeitado desde a sua criação. Embora tenha passado por momentos de ostracismo, nunca deixou de ser admirado pelas novas gerações e cultivado pelos grandes chorões”.2
Referências Bibliográficas:
AGENDA SAMBA-CHORO [ 28/06/2005. www.samba-choro.com.br]

BARBOSA, Marialva. Tempo e Memória: Dois arcabouços do sentido. Rio de Janeiro, 2005.

CARRILHO, Maurício. Entrevista para a pesquisa Cadeia Produtiva da Música, coordenada por Micael Herschmann. RJ, Julho, 2005.

CAZES, Henrique. Choro do quintal ao municipal. São Paulo: Editora 34,1998.

COUTINHO, Eduardo Granja. Velhas histórias, memórias futuras. Ed. UERJ. RJ, 2002.

ESCOLA PORTÁTIL DE MÚSICA. [ 01/07/2005. www.ijb.com.br/portatil]

GIDDENS, Anthony. As Conseqüências da Modernidade.São Paulo: Ed. Da UNESP, 1991.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.

HALL, Stuart. Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1999.

INSTITUTO JACOB DO BANDOLIM. [ 01/07/2005. www.ijb.com.br/]

NORA, Pierre. Les lieux de mémoire, Paris, Gallimard, 1985.

POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento, Silêncio. In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol 2, n.3, 1989, p. 3-15.

_______________ Memória e Identidade Social. In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol 5, n.10, 1992, p.200-212.
TINHORÃO, José Ramos. Pequena História da Música Popular. Ed. Vozes LTDA, Petrópolis, 1978.

VIANNA, Hermano. O Mistério do Samba. Rio de Janeiro, Editora UFRJ/ Zahar, 2002.




1 Sobre o tema, ver Stuart Hall, Identidade Cultural na Pós-Modernidade, em especial os caps. 1 e 4. Sobre as transformações sociais no capitalismo, ver Anthony Giddens, As Conseqüências da Modernidade.

2 Entrevista com Maurício Carrilho concedida à pesquisadora para a pesquisa Cadeia Produtiva da Música, coordenada por Micael Herschmann. RJ, Julho, 2005.








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