Rádio-Suite



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II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho

Florianópolis, de 15 a 17 de abril de 2004



GT História da Mídia Sonora


Coordenação: Prof. Ana Baum (UFF)


Rádio Suite:

ecos da Rádio Sociedade numa FM

do século 21


Lilian Zaremba1




R E S U M O

Este artigo procura refletir sobre a herança histórica da Radio Sociedade em seu atual modelo a MEC-FM, única emissora voltada para a música clássica no Rio de Janeiro. Recortando na História o episódio ocorrido em 1936, quando a emissora fundada por Edgard Roquette-Pinto e Henrique Moritze é doada ao governo federal, procura-se destacar a permanência de parte do projeto educativo cultural original e os atuais impasses colocados frente a sua possível continuidade.


Palavras chave : Rádio, História, Educação, Cultura, Rádio MEC-FM

Ouverture


Naquela noite a platéia do Teatro Municipal do Rio de Janeiro permanecia imóvel agarrando emoções pelos ouvidos, encantada na delicadeza daquela sarabanda. Parte da suite para violoncelo solo escrita há mais de duzentos anos pelo alemão Johann Sebastian Bach, a dança renascia nas mãos do brasileiro Antonio Menezes como se não houvessem relógios ou continentes, como se o tempo estivesse suspenso e o espaço limitado aos corpos que sintonizavam aquela música dita patrimônio da humanidade.

Qual seria esta dança que não se dança com os pés ?

Nascidas na Europa durante o século XVII, as alemandas, gigas, gavotas, minuetos com o passar do tempo foram sendo exportadas, reinventadas e formalmente travestidas em divertimentos ou parte de sinfonias até alcançar o ballet moderno, a música incidental e as diversas formas adotadas no ambiente de concerto contemporâneo.

Muitas vezes esta idéia de algo com nome de dança sem ser dança, nascido em outro lugar sem ser o nosso lugar, sobrevivendo à multiplicação de sua forma através dos séculos, permanecendo fiel ou não a cultura original, nos remete a outra dúvida: qual a pertinência de uma emissora de rádio voltada para a música clássica2 no Rio de Janeiro do século 21 ? Clóvis Marques radicaliza afirmando: a música clássica morre nas praias cariocas3 . Segundo aponta o crítico embora existam milhares de apreciadores em potencial, as instituições estaduais e municipais não investem o necessário para ampliar o acesso a este tipo de música redobrando sua percepção de arte produzida por e para uma elite. O capital privado faz coro nesse silencio amplificado em fatores como a retirada do ensino musical obrigatório nas escolas públicas, o alto custo dos instrumentos musicais e estudos particulares, ou a ausência de ações voltadas para formação de platéias. São danças de uma suite que insiste em não ser tocada. Enquanto isso, a única emissora voltada para a difusão da música clássica sediada no Rio busca interferir nesse intervalo, demonstrando a pertinência de sua opção e as consideráveis possibilidades de avanço observando as melhores faces herdadas em sua História.
contradança:

o homem brasileiro e o adulto contemporâneo
olha o passado: heróis ardentes

saltam das tumbas, brilham quais sóis

... quantos heróis !

que povo pode, por toda terra

mostrar tais feitos, ser tão viril ?

(hino de Heitor Villa-Lobos)

Estavam todos ali diante daquele esboço de estátua pensando no que deveria ser feito. A encomenda saíra meio fora de tom afinal, o escultor Celso Antonio concebera a imagem do homem brasileiro naquele tipo de feições sertanejas, atarracado, barrigudo, pouco atlético... desenho um tanto distante da concepção grandiosa (...) qualquer coisa de parecido com os colossos de Menon, em Tebas, ou com as estátuas do tempo de Amon, em Karnak sonhada pelo ministro Capanema.4

O corpo para vestir esta nova identidade do homem brasileiro requisitado pelo Estado Novo ao salão mais progressista da administração pública, seria capaz de equilibrar ações modernistas por um Brasil mais autêntico sob o alicerce da construção de símbolos nacionais distantes do real, como esta figura do homem brasileiro moldada na antiguidade grega ?

Algum paradoxo comandava a busca de autenticidade contornando o autoritarismo político nesta “modernização conservadora”, terreno para acontecimentos marcantes na vida cultural brasileira até hoje audíveis e visíveis como a criação em 1930 do Ministério da Educação e Saude Pública. Ali, em torno do ministro Gustavo Capanema, articulações de mecenato cultural se fundiriam aos debates sobre educação (quem dela deveria se encarregar, Igreja ou Estado?) patrimônio (o que refulge nesta casa não é o ouro e sim a dedicação, a proficiência, o apurado bom gosto dos responsáveis pela coisa pública... - Lucio Costa ), nacionalidade (tupy or not tupy, that’s the question - Oswald de Andrade), procurando sentido que transcendesse a simples disputa de poder. As regras ditadas valorizavam o mecenato, a construção de monumentos, as artes como locus privilegiado de modelagem, aonde o Ministério chefiado por Capanema se destinava a preparar, a compor, a aperfeiçoar o homem do Brasil. Ele é verdadeiramente o Ministério do Homem.5

Este ser ideal teria a alta cultura como fim sendo o Estado responsável por sua educação e formação de cidadania.

Sertanejo, modernista, urbano, rural, o homem brasileiro encontraria na educação os instrumentos necessários para formação de caráter moral e isso determinaria o futuro da nação. Para tanto o Ministério da Educação e Saúde –MES desempenharia papel central dando forma e conteúdo a todo sistema educativo e indo além das escolas e universidades atuando diretamente sobre a cultura e a sociedade criando normas e instituições que mobilizassem os jovens, redefinissem o lugar das mulheres6 num país em franco desejo por expansão industrial.

Sergio Miceli disseca o papel do grupo seleto de intelectuais convocado para assumir cargos de cúpula do Executivo, prestando diversos tipos de colaboração à política cultural do regime Vargas no trabalho de construção institucional. Observado por Raimundo Faoro



... o brasileiro que se distingue há de ter prestado sua colaboração no aparelhamento estatal, não na empresa particular, no êxito dos negócios, nas contribuições à cultura, mas numa ética confuciana do bom servidor, com carreira administrativa e curriculum vitae aprovado de cima a baixo 7

Nesta suite não se escapa dos movimentos de censura e cooptação sob os quais é preciso manter o ritmo. A intenção de abrir mão de obra pessoal para levar adiante a idéia de contribuir no projeto de construção da nação foi justificativa muitas vezes utilizada, álibi nacionalista, acabando por criar mesmo uma seara a parte, um campo de produção abrigado das críticas mais contundentes do consumo. Verdadeiro mercado paralelo da produção intelectual patrocinado pelo Estado legaria ao poder público padrões de legitimidade intelectual onde a alta cultura é idéia reinante.

Não será objetivo deste artigo avaliar ou ampliar a observação sobre o indiscutível legado destes “tempos Capanema”, como hoje costumam se referir aos onze anos do homem público progressista a frente do MES. Faoro, Swartzman, Badaró, Bomeny, Costa, o já citado Miceli, são alguns dos que mergulharam com eficiência nesta parte da História sem falar no próprio arquivo do ministro a disposição dos pesquisadores na Fundação Getúlio Vargas e a produção intelectual da época. Precisamente inventariado também

está o projeto político aonde Estado e Nação se fundem no amálgama do homem brasileiro. Mas com o objetivo de observar o lugar de uma emissora como a Rádio Sociedade neste recorte histórico e seu legado atual assinalamos algumas reflexões reunidas pelos estudiosos sobre estes anos :


1 - A rede de intelectuais trançada empenhou-se na promoção da educação e cultura tomando como eixo sua própria formação ao adotar determinados padrões de linguagem e transmissão de conhecimentos retirados da alta cultura européia. Ainda que houvesse a preocupação em inserir antropofágicamente a estética elaborada na música de concerto, por exemplo, procurando diversas referências regionais em ritmos e melodias tradicionais espalhados pelo território brasileiro, transformando-os em bens culturais passíveis de serem assimilados pela maioria e desta forma elevando o status social. Na tradução de Oswald de Andrade, o biscoito fino a ser degustado pelas massas.

2 - A política centralizada numa administração burocrática acabaria por determinar sua própria falência na medida em que suas ações dificilmente sobreviveriam longe da proteção e patrocínio do Estado.


3 - A introdução da mídia radiofônica como veiculo capaz de viabilizar a multiplicação eletromagnética deste projeto do governo no imenso e diverso território nacional, promovendo a idéia de integração através da educação e cultura.
4 – Nos passos de uma contradança os rastros sobreviventes deixados por uma instituição privada, sem fins lucrativos, que pretendeu levar adiante seu projeto um tanto em paralelo ao projeto público: a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, e seu movimento para tornar-se um grande movimento civilizador, que seria a prática da radiotelefonia educadora.

Estas questões em movimento herança ainda hoje latente na vida das instituições públicas evoluem num rabisco de coreografia verdadeiro pas de deux entre Estado e Cultura, enriquecendo nossa observação cotidiana oferecendo espaço para reflexão sobre a percepção já apontada por Lourenço

Filho da “educação não apenas em termos das questões limitadas do ensino, mas das mais graves e complexas realizações de ordem social”.8

A Rádio Sociedade funcionaria durante treze anos independente de governo, vivendo da contribuição dos sócios ouvintes que não interferiam na programação. A intenção educativa de saída já apresentava o paradoxo da emissora ser fechada, destinada a ouvintes pagantes em sua maioria pessoas cultas já escolarizadas, além do conteúdo transmitir música clássica, notícias comentadas, comunicações científicas, num primeiro momento delineando a emissora conforme o perfil de seus programadores isto é, profissionais relacionados à Academia de Ciências. Curiosamente não foi este paradoxo inicial que impediria sua sobrevivência até o século 21 muito pelo contrário, como observaremos mais adiante foram exatamente o ideais identificados como “alta cultura” os escudos protetores, embora alterados na gangorra das interpretações como aquela confusa noção de rádio educativa.

A intenção na verdade nunca fora transformar a Radio Sociedade em uma rádio escola. Beatriz Roquette-Pinto Bojunga filha, espécie de braço direito do pai e totalmente engajada na defesa da emissora esclareceu

... ele queria mais uma cultura do que escola. Ele queria uma coisa mais geral (...) o ideal dele eu acho que seria aquilo como ele fez: era para irradiar boa música, era para ensinar as pessoas, enfim, textos bonitos, um bom jornal, limpo, sem direita, sem esquerda, sem frente, sem atrás, é um jornal corrido. Porque o ideal dele é que aquele pessoal todo que está no Brasil afora, ele dizia: “A Rádio é escola”, não é ? Sem ser escola, quer dizer, um instrumento de instrução sem ser escola.9

Os conceitos embaralhados no tempo acabaram por forjar uma identidade que se não chega a ser falsa, certamente é inexata. O próprio Roquette-Pinto teria oportunidade de fundar em 1933 a Rádio Escola do Distrito Federal PRD5, fornecendo material técnico e pessoal, contando com apoio do educador Anísio Teixeira. Ali sim, informa Regina Salles, o objetivo era escolar: as radioaulas combinadas com material impresso – distribuído pelos Correios – chegaram a contar com 20.400 alunos inscritos, número significativo para a população da época10.

Nesta linha difusa entre os conceitos de rádio educativo cultural e rádio escola hoje se enrola a emissora pública, por vezes evocando um passado que nem chegou a existir. A prática da Rádio Sociedade foi a difusão de informações científicas, estéticas, literárias, suplementos musicais voltados para o repertório clássico, entre noticiários, tentativa de promover e ampliar o diálogo culto, funcionando como verdadeira Academia falando para acadêmicos. Uma dança em ritmo um tanto distinto da música orquestrada pelo governo e mercado da época Vargas, as transmissões da Sociedade visavam a expansão do campo intelectual aberto a inovações refletindo o espírito pioneiro de seus fundadores. Espécie de parêntesis destinado a fechar.

Dobramos outro milênio entrando no século 21continuando a fabricar modelos de homem. Não mais aquele capaz de construir a nação mas este outro rotulado “adulto contemporâneo”11 destinado a caracterizar audiência, grupo tão impreciso quanto àquele outro, perfil de ninguém, que no entanto insiste em existir.


Minueto,

1936: a encruzilhada
Na evolução da produção radiofônica brasileira assinala-se o ano de 1932 como divisor de fronteiras: o decreto-lei número 21.111 assinado em primeiro de março pelo presidente Getúlio Vargas regulamentava a propaganda comercial nas emissoras, salto estratégico para o impulso dos canais. É curioso observar como a expressão time is money traduz esse momento porque a rigor foi exatamente quando se percebeu ser possível vender o tempo de transmissão radiofônico que se encontra função lucrativa para sua tecnologia. À partir dali a viabilidade das emissoras de rádio se tornara atraente, cada unidade de tempo podendo servir para vender um produto ou serviço, além de propaganda política, ideológica. O decreto surge como medida disciplinar pois desde 1924 aparecem no Rio de Janeiro emissoras perseguindo um padrão diferente daquele iniciado por Roquette-Pinto tecendo concorrência como a Rádio Clube do Brasil (PRAB depois PRA-3) ainda sem anunciantes mas já objetivando programação popular, moldando o rádio caixinha de música do futuro. O empresário Antenor Mayrink Veiga tornara-se proprietário do prefixo PRAK, depois PRA-9 em 1927, antecipando os holandeses fabricantes de aparelhos elétricos e rádios Phillips no país desde 1924 e agora em 1931, dispostos a vender seus produtos através do prefixo PRAX, a Rádio Phillips.12

O tempo passa a valer e por isso sua divisão, organização e controle serão necessários. Na esteira deste decreto veio a concessão de canais a particulares e o barateamento dos aparelhos receptores, fator decisivo no crescimento de audiência. Mudanças velozes na engenharia eletromagnética solicitavam investimentos, aumento de potência dos transmissores para fazer frente a concorrência das outras emissoras, mas para isso era preciso recursos financeiros além das mensalidades pagas pelos sócios da Rádio Sociedade. Parecia mesmo uma encruzilhada do futuro: a emissora deveria crescer, aceitar anunciantes e abandonar seus objetivos iniciais ?

Em maio de 1936 outro decreto, número 20.047 daria o golpe de misericórdia nesta dúvida: estava ali instituído que a Rádio Sociedade deveria se transformar em companhia comercial, exploradora de publicidade. A solução encontrada recorreu ao próprio estatuto da Sociedade apontando a doação ao governo federal como saída. Este ato, assinado dia sete de setembro de 1936 transferia para o Ministério da Educação e Saúde o valioso prefixo PRA-2, além de móveis, instrumentos, arquivo musical, biblioteca e mais um terreno de dez mil metros quadrados próximo a Cascadura.13

Beatriz Roquette-Pinto Bojunga destaca este valor quando indica a quantidade de emissoras viabilizadas através do prefixo ... este prefixo, o PRA2 (...) núcleo de onde se originaram dezenove emissoras de rádio (...) hoje vinculadas à programação educativa do MEC (...) Roquette-Pinto criou a matriz de nada menos que quarenta e seis emissoras dedicadas a formação do cidadão brasileiro ...14

É conhecido o esforço empreendido por Roquette-Pinto para que a emissora fosse doada ao ministério chefiado por Capanema e não ao Ministério da Justiça, onde dois anos mais tarde seria criado o Departamento de Imprensa e Propaganda. O caráter erudito da programação radiofônica seguramente contribuiu para deixar a emissora sob as asas do Ministério da Educação e Saúde, talvez por considerarem pequena sua utilidade como instrumento de propaganda populista. Mas o MES não possuía órgão competente para administrar serviço desta natureza, então o governo foi obrigado a baixar a lei número 378 de treze de janeiro de 1937, criando o Serviço de Radiodifusão Educativa, destinado a promover, permanentemente, a irradiação de programas educativos.15

No recorte nos interessa destacar: a Rádio Sociedade fundada como empresa privada, produzida por intelectuais, não como modelo de rádio escola mas emissora destinada a difusão de padrões de conhecimento de alta cultura, transformou-se na Rádio Ministério da Educação e Cultura, passando a ser comandada por um grupo de intelectuais comprometidos com o projeto político cultural amalgamado na habilidade política de Gustavo Capanema. A partir dali a emissora sofreria seguidas alterações em função das diferentes administrações públicas enfrentando a instabilidade deste processo e mesmo assim mantendo-se como único bastião do gênero no atual dial carioca.

Na esteira de uma reforma administrativa o governo brasileiro emancipa no ano de 1998 instituições entre elas a Rádio Ministério da Educação e Cultura, dando-lhes novo status através da implantação do modelo de Organização Social. Pessoa jurídica de direito privado, modelo administrativo sem fins lucrativos, independe de concessões do Poder Público, embora esteja sujeito a fiscalização e fomento do Estado. A princípio um modelo mais apto a captar receita no mercado. A questão que se impõe é: qual mercado ? O mercado de consumo de produtos ?

Revivendo a encruzilhada poderíamos no ano de 2004 observar a expansão do mercado de radiodifusão impulsionado pelas novas tecnologias, por exemplo, a mobilização do consórcio DRM ou Digital Radio Mondiale que reúne cerca de oitenta empresas européias e acaba de lançar o sistema que digitaliza transmissões em ondas médias e curtas (AM e OC) dando-lhes a mesma qualidade e freqüência de som de uma estação FM. Significa o interesse de redes como a BBC britânica, a Deutsche Welle alemã, a Difusora Portuguesa (RDP) e a Radio France em ocupar o espaço no dial do ouvinte consumidor brasileiro. Paulo Lages, engenheiro eletrônico português vê o Brasil como público alvo de muitas emissoras estrangeiras. Várias rádios têm interesse em divulgar seus programas aqui. 16

Esta movimentação internacional demonstra não ser isolado o caso nacional. Emissoras estrangeiras como a norteamericana National Public Radio também estão sujeitas as necessidades de redução de custos, garantindo o funcionamento com baixa alocação de mão de obra numa reengenharia da produção, procurando aumentar faturamento e por isso a busca de outros mercados. De qualquer forma é importante destacar as observações de Gisela Ortriwano

Se a emissora é explorada comercialmente, na chamada livre iniciativa, as verbas para a manutenção da radiodifusão são oriundas da veiculação de anúncios publicitários: o custo recai sobre os produtos ou serviços anunciados e, consequentemente, sobre o consumidor. Se a emissora é estatal, seja no sistema pluralista (no qual convivem emissoras comerciais e estatais) seja no sistema monopolista (o estado detém o monopólio, explorando a radiodifusão diretamente) as verbas são originadas nos tributos pagos pelo cidadão ao Estado (em alguns países vigora o pagamento de licenças para que se possa ter um receptor. Vale ressaltar que no caso da exploração comercial, muitas vezes o cidadão paga duplamente para a manutenção dos meios de comunicação, uma vez que o Estado é um dos maiores anunciantes, Portanto, se é o próprio ouvinte quem subsidia os meios de comunicação, é um direito básico deste ouvinte cobrar das empresas de radiodifusão um retorno condizente.17

Além do custo embutido nos impostos, o consumidor deve arcar com as despesas adicionais. Os atuais aparelhos de rádio não possuem a tecnologia apropriada para receber as ondas curtas com qualidade de som digital, portanto será preciso comprar outro equipamento. No presente a encruzilhada se renova na mesma necessidade de mutação técnica: os equipamentos de transmissão digital, a potência, a informatização dos aparelhos de gravação e reprodução sonora, e também na alteração do perfil dos programadores. Os cientistas programadores da Radio Sociedade provavelmente hoje estariam desempregados no ramo. O profissional de rádio hoje se alinha ao trabalhador cultural apontado por Heidi Grundmann, curadora da Kunstradio de Viena, como alguém que se depara com a pressão por resultados, e de quem se requer adaptação aos mecanismos do mercado e agilidade, negociações das responsabilidades sociais18 e ainda precisando apresentar criatividade, assumir riscos em iniciativas inovadoras e conhecimento técnico dos equipamentos envolvidos, assumindo diferentes tarefas como: roteirista, digitador de textos e planilhas, apresentador, supervisor de edição e montagem, produtor musical, entrevistador, e muitas vezes operador de áudio.

O público também não é mais constituído por cientista sócios. Pesquisa realizada pelo IBOPE entre julho e setembro de 2003 no estado do Rio de Janeiro fornece o seguinte perfil de audiência para a MEC-FM : público majoritariamente masculino, classes A e B, concentrado na zona sul e Tijuca, escolaridade universitária, faixa etária entre 40 e 59 anos (26% ) e mais de 60 anos (80%).





20 a 29

30 a 39

40 a 49

60 e +

MEC FM

6%

8%

51%

80%

MEC AM

-

5%

26%

43%




Escolaridade

Analfabeto à ginásio

Superior Incompleto

Superior completo

Pos graduados

MEC-FM

2%

39%

59%

?

Salta aos olhos a primeira e mais urgente conclusão: ou a emissora renova sua audiência ou é provável que fique sem ouvintes nos próximos vinte anos.

O desafio será adaptar seu conteúdo sem descaracterizá-lo. Aceitar ocupar um segmento explorando suas possibilidades atuais de tecnologia e linguagem, ampliando a abrangência de sua mensagem, interagindo com experiências comandadas por professores e pesquisadores.19 A multiplicação da audiência não é utopia – caso contrário, porque o interesse de emissoras públicas estrangeiras ?
Coda

memórias de uma amnésia20
No auditório do Centro Cultural Banco do Brasil parcialmente vazio a platéia ouve o crítico Luis Paulo Horta pedir: não usem o termo “música erudita” isso espanta os jovens 21... No mesmo dia um periódico paulista noticia: ...lotou o primeiro domingo de apresentação de música clássica na Sala São Paulo, a R$1,00 o ingresso. Além de estudantes, a platéia era formada por vários moradores de cortiços das redondezas.22

O que será que atrai ou afugenta as pessoas ?

Nikolaus Harnocourt, conceituado regente e violoncelista alemão, sugere observar que na História do Ocidente a música foi

... parte indissociável da vida dos homens (...) e a formação musical figurou dentro dos domínios essenciais da educação. Se existia por um lado o músico, aquele que podia tocar e teorizar sobre a linguagem, existia, na mesma medida, aquele homem que necessitava da música, que possuía o desejo de compreendê-la.23

Assim, entre o músico e seu público havia o desejo de música percebida como parte de suas vidas e extensão da cultura geral. Fragmentada esta comunhão, a música vai deixando de ocupar espaço central transformada em simples ornamento a ser consumido ou na observação do filósofo ...a arte se converte em mero representante da sociedade e não um estímulo a mudança (...) reduz toda imagem espiritual em simples função, a uma entidade que existe somente para outra coisa, e , em suma, um artigo de consumo.24

Parece ser esta a pergunta na encruzilhada do século 21: como inserir no contexto de uma cultura voltada principalmente para o entretenimento e consumo de produtos, um projeto de emissora que trabalhe na aparente contramão desse movimento ? Frente ao discurso dos que imaginam perda de tempo ativar o raciocínio e memória diante da agilidade das máquinas de cálculo ouve-se a pergunta: ... será que devemos concluir que a sociedade de informação conduz a uma sociedade caracterizada pela amnésia e ignorância ?25

Impressiona a resistência de uma instituição após oitenta anos de transformações radicais. Um conjunto complexo de elementos ecoa até hoje na MEC-FM algo de original herdado da pioneira Rádio Sociedade. Não arriscaríamos explicação simples cabendo aqui o comentário a título de encerramento: sendo a História feita por homens não se pode deixar de lembrar a influência de algumas mentes abertas ao seu próprio tempo, capazes de atuar em conjunto nesta dança de idéias conflitantes e mesmo assim acrescentar, fazendo avançar. Luiz de Castro Farias antropólogo professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, conviveu com Roquette-Pinto dele guardando a seguinte conclusão



...quando dizem que o Roquette foi pioneiro, é porque ele realmente tinha todo o caráter do pioneiro, porque é um homem que precisa sempre encontrar coisas para desbravar, ele ia adiante (...) creio que ele conseguiu o que sempre desejou que foi inovar abrir caminhos para outros, ele conseguiu e deixou, não um caminho só, mas vários abertos.26

Compreender este legado roquetteano não será exceção elitista perdida no dial radiofônico. Jérôme Bindé, diretor da Divisão de Antecipação e Estudos de perspectivas da UNESCO destaca a importância de se diferenciar informação e conhecimento. Sendo a informação, uma técnica que tem por objetivo eliminar o elemento do ruído na comunicação ou seja, é uma ferramenta do conhecimento. Calibrar as palavras e mensagens melhora a transmissão do conhecimento, mas não o cria. A inovação ocorre apenas quando existe uma busca pelo que é novo; não existe pesquisa - logo não há progresso – sem conhecimento, e sem a curiosidade e a experiência, as falhas e as tradições que ele pressupõe. É o conhecimento que dá sentido a informação.27

Educar sem ser escola está em sintonia com o intercâmbio de conhecimento potencial chave de investimento em todas as esferas da atividade humana.28

Não se trata mais de buscar o homem brasileiro nem o adulto contemporâneo.

Referencias Bibliográficas
Badaró, Murilo - Gustavo Capanema, a revolução na cultura. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2.000.
Cavalcanti, Lauro - As preocupações do belo. Rio de Janeiro: Taurus Editora, 1995.
Costa, Maria Elisa (org) - Com a palavra, Lucio Costa. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2001
Dantas, Marcos - A lógica do capital-informação, a fragmentação dos monopólios e a monopolização dos fragmentos num mundo de comunicações globais. 2.ed., Rio de Janeiro: Contraponto, 2002.
Del Bianco, Nelia R., Moreira, Sonia Virginoa (org) - Rádio no Brasil, tendências e perspectivas. Rio de Janeiro: Editora EURJ e Editora UNB, 1999
Harnoncourt, Nikolaus – Le Discours Musical.Paris:Éditions Gallimard, 1984.
Miceli, Sergio - Intelectuais a brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2001
Mello, Luiz Antonio - A Onda Maldita, como nasceu e quem assassinou a Fluminense FM . 2.ed. São Paulo: Xamã, 1999.
Moraes, Denis(org) - Por uma outra comunicação. Rio de Janeiro: Record, 2003.
Moreira, Sonia Maria Virgínia - O rádio no Brasil. Rio de Janeiro: Mil Palavras, 2000
Theodor, Adorno Wiesengrund - Filosofia da Nova Música. São Paulo: Editora Perspectiva, 1974.
Tinhorão, José Ramos - Música popular – do gramofone ao rádio e tv. São Paulo: Editora Ática, 1981.
Wisnik, José Miguel - O coro dos contrários, a música em torno da semana de 22. São Paulo: Duas Cidades, Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, 1977.



1 Mestre e Doutora em Comunicação e Cultura pela ECO/UFRJ, pesquisadora e produtora radiofônica da MEC-FM RJ

2 embora este termo “música clássica” seja inexato, afinal “clássica” é apenas parte de uma forma dentro da história estética da música no Ocidente onde talvez fosse mais adequado mencionar “música de concerto” , mas por força de sua utilização já banalizada manteremos o padrão.

3 Clovis Marques – A Crítica e a Música Clássica, o Rio precisa de clássicos ? artigo no Jornal do Brasil online, Caderno B, 18 de março de 2004.

4 Carta de 14 de junho de 1937, Arquivo Capanema, CPDOC/FGV Rio de Janeiro, citada por Cavalcanti, Lauro - As preocupações do belo, p.78. Rio de Janeiro: Taurus Editora, 1995.

Perguntado sobre o tema, Roquette-Pinto respondeu: ... de preferência o moreno que parece bem próximo do mediterrâneo, o branco mais facilmente aclimatado do país (...) meus estudos provaram que é para ele que tendem os outros tipos, mesmo mulatos e caboclos (...) penso que o homem brasileiro deve ser representado na posição de quem marcha ...sentado ? nunca. Cartas enviadas por Roquette-Pinto a Capanema em 30/08/1937 e 14/09/1937 Arquivo Capanema CPDOC/FGV.



5 Schwartzman, Simon; Bomeny, Helena Maria Bousquet; e Costa, Vanda Maria Ribeiro – Tempos de Capanema . São Paulo: Paz e Terra: Fundação Getúlio Vargas, 2.000. p.14 carta de Capanema a Vargas.

6 ibidem, p.31

7 Sergio Miceli, Intelectuais à Brasileira – pp 209-218, São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

8 Filho Lourenço, Manoel Bergström – Tendências da Educação Brasileira , p.12, 2 ed. Organizada por Ruy Lourenço Filho e Carlos Monarcha. Brasília: INEP:MEC, 2002.

9 Entrevista gravada em 1990 por ocasião da produção do programa radiofônico especial sobre Roquette-Pinto, para a Radio MEC, Rio de Janeiro. Texto transcrito e disponível no site www.aminharadio.com/brasil80_beatriz.html

10 a professora Regina Salles foi diretora da Radio MEC. Este relato pode ser encontrado no Amigo Ouvinte, Informativo da Sociedade dos Amigos Ouvintes da Radio MEC, ano XI, número 35, novembro de 2003. A emissora PRD5 ainda existe, administrada pelo governo do Estado do Rio de Janeiro, rebatizada como Rádio Roquette-Pinto.

11 Também rotulado classe A ou light , este modelo foi primeiro elaborado em 1984 pelo jornalista Luiz Antonio Mello, mentor da histórica Fluminense FM, quando recebeu proposta para reformular a programação da emissora Globo FM. Ver: Mello, Luiz Antonio – A Onda Maldita, como nasceu e quem assassinou a Fluminense FM. 2ed. São Paulo: Editora Xamã, 1999.

12 O cronista e pesquisador José Ramos Tinhorão tece interessante panorama dessa fase em seu livro Música Popular – do Gramofone ao Rádio e TV: São Paulo: Editora Ática, 1981.

13 Mais detalhes no site www.radiomec.com.br

14 op.cit, entrevista Beatriz Roquette-Pinto Bojunga.

15 Moreira, Sonia Virgínia – O Rádio no Brasil, p.24,Rio de Janeiro: Mil Palavras, 2.000.

16 artigo São Paulo terá ondas curtas com som de FM. – Laura Mattos, Folha de São Paulo, caderno E, p.2, 17 de março de 2004.

17 Ortriwano, Gisela Swetlana – Rádio: Interatividade entre rosas e espinhos. Texto disponível no site Akademia, Biblioteca on-line de Ciências da Comunicação. http://bocc.ubi.pt/

18 Josephine Bosma entrevista Heidi Grundmann, curadora da Kunstradio de Viena, em 15 de julho de 1997 para nettime, on-line.

19 os professores e pesquisadores Mauro Costa (UERJ), Clarice Abdalla (PUC), Ana Baum (UFF) são destaques entre os profissionais que vêm trabalhando no sentido de ampliar a percepção das possibilidades do rádio entre o público universitário.

20 Peço licença a Erik Satie ao reproduzir parte do título de suas Memórias.

21 Aragão, Helena – reportagem Procuram-se ouvintes. Caderno B, JB online, 20 de março de 2004.

22 Bergamo, Monica – Folha de São Paulo, coluna caderno E p.2, 20 de março de 2004.

23 Harnoncourt, Nikolaus – Le Discours Musical. Paris: Éditions Gallimard, 1984.

24 Adorno, Theodor Wiesengrund – Filosofia da Nova Música. São Paulo: Editora Perspectiva, 1974.

25 Bindé, Jérôme; e Goux, Jean-Joseph – Quem sabe ? caderno A, p.3, 23 de novembro de 2003, Folha de São Paulo

26 Entrevista ainda inédita realizada em 2004, a ser publicada no próximo número do Amigo Ouvinte, editado pela SOARMEC

* com a licença de Erik Satie, de quem pego emprestado o título de suas memórias publicadas.



27 Bindé, Jerôme – quel avenir pour les médias Conferência Internacional “Mídia e Percepção Social”, realizada dias 18, 19 e 20 de maio de 1998, Rio de Janeiro, Universidade Candido Mendes, com apoio da UNESCO.

28 Ibidem.






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