Rádio continental am: história e peripécias de uma emissora porto-alegrense (1971-1981)



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RÁDIO CONTINENTAL AM: história e peripécias de uma emissora porto-alegrense (1971-1981)1

Sergio Francisco Endler2

Resumo:

O trabalho propõe uma história do protagonismo da Rádio Continental AM, de Porto Alegre, com olhar analítico sobre a década iniciada em 1971, período de maior realização pepipecial da emissora. Metodologicamente, articulamos recursos advindos da história oral para constituição do corpus e da reflexividade sobre os fazeres radialísticos em repertório da Rádio. O trabalho, neste sentido, empreende uma particular problematização sobre o uso de entrevistas nas ciências sociais. Na abordagem histórica das interações sociais da Continental, identificamos o que denominamos paidéia radiofônica . Igualmente, examinamos as narrativas-slogans e metonímicas da Rádio como realizações radiofônicas da emissora, bem como a customização da publicidade, o uso do humor e das falas livres e editadas.


Palavras-chave:

Rádio; História Oral; Narrativas; Cultura urbana.


PAIDÉIA RADIOFÔNICA E A TEORIA DA ESCUTA

A paidéia radiofônica da Continental tem início na construção empreendida pela programação complexa, através das narrativas próprias, sobretudo, encontrando ressonância e produzindo valor cultural junto aos ouvintes, junto aos sujeitos da produção da própria Rádio e junto à comunidade porto-alegrense em geral, em diferentes modos e intensidades de importância.

Trata-se de construção interativa ofertada de modo a contribuir com as instâncias do real, do simbólico e do imaginário dos sujeitos históricos, à época, a contar das transmissões da Continental e suas respectivas audiências. É a construção singular resultante da experiência de produção-escuta da Continental.

Partimos da idéia de que a vida societária está organizada em torno da comunicação e que, dentro da especialização desta em comunicação de massa, a linguagem específica assume aspecto central do problema, quer pelos aspectos técnicos específicos da mídia, quer pela complexidade de modos de compartilhamento nas interações, em busca da construção/desconstrução de identidades. Especificamente, vislumbramos a articulação societária da Continental, enquanto voz da enunciação e, vale dizer, da articulação identitária da certa juventude universitária porto-alegrense, entre 1971 e 1981, aproximadamente. A interação pelo rádio, em nossa proposta, oportuniza uma autoconstrução do sujeito, inicialmente postado na condição de escuta, mas em audição tornada ação, tanto quanto o dizer é fazer, como em Austin. A esta situacionalidade construída, a esta oportunidade de ouvir ali e ouvir além, a partir do cotidiano, denominamos experiência Continental ou paidéia.

O termo paidéia, deslocamos, originalmente, a partir do estabelecido por Werner Jaeger, em obra homônima (1989), e inserimos como eventual resultante, como denominação, ao mesmo tempo, de espaço social possível e da práxis de experiência, a partir das ações complexas e interligadas de produção-recepção da Continental.

A paidéia radiofônica é o modo particular de a Continental intervir, falar e, sobretudo, fazer cultura dentro do real e datado continente da cultura porto-alegrense, contando com a ação de fidelização do sujeito ouvinte. É o modo próprio de inscrição na cultura pelas sonoridades midiatizadas. Ali, a Rádio se notabiliza por ser sujeito do entretenimento, da informação e da formação de opinião junto ao público. Entretanto, distingue-se, ainda, por alcançar, pelo antagonismo aos modelos de emissoras educativas até ali existentes, uma programação que terá função pedagógica, quando não didática e educativa, em sentido amplo. A ação comunicacional da Continental está, igualmente, inserida em certo nível de oferta pedagógica na opção deliberada de falar com o jovem, construindo linguagem radiofônica do jovem, centrando nesta especial conversação oportunidades de experiências e aprendizados.

A paidéia radiofônica oportunizada, portanto, é expressa por uma Rádio Continental pedagógica, autoral, atualizada e adequada, não somente à acomodação e ao gosto do público estudantil e universitário à época, mas dialogal e interpelante e com protagonismo de exercício continuado em busca de apropriada linguagem de expressão comunicacional, fazendo com que a própria equipe da emissora aprendesse, no espaço público onde, igualmente, comunicava e, em termos relativos, ensinava e politizava a audiência.

Trata-se de programação não somente produzida para universitários e secundaristas, mas, igualmente, por frações do grupo universitário maior, mesmo que dividindo com outros segmentos, no dia-a-dia, as rotinas produtivas da emissora. Entretanto, os universitários, dentro da Continental, na produção, constituíam grupo de sujeitos em número suficiente para garantir certa circularidade das informações, de agendamentos dos gostos, desde a fonte até a recepção, desde a recepção à fonte transmissora, em retroalimentação.

O capital simbólico para construção desta oferta para a experiência Continental nascia da associação entre a alta qualificação técnica de radialistas do mercado associados por vínculos profissionais e desejo vital de fazer com aquele grupo de jovens universitários do jornalismo, da publicidade e da música recém-chegados das universidades porto-alegrenses.

O caráter pedagógico deste ciclo produção-recepção, além de mover-se segundo o processo de semiose cultural presente em qualquer modelo comunicacional, terá características próprias dado o caráter iconoclasta, criativo e contestatório antiautoritarismo daqueles grupos envolvidos com a produção e a audiência da Continental.

Dentro dessa perspectiva, a Continental não seria somente a porta-voz, pela linguagem autoral, daquela fração da juventude. Ao enunciar, pelo modo e pelo registro dos conteúdos, a Continental ficaria melhor configurada como a contravoz e, em assim sendo, oportunizando novo espaço de diálogos para a audiência de oposição, do contra, em relação ao estabelecido e também formação, até mesmo, para quem em outra posição e vivência política, estética e existencial estivesse.

Igualmente, a paidéia radiofônica exerce função pedagógica, ainda, ao nível individual, ao situar e possibilitar dados e modos de compreensão de mundo aos sujeitos particularizados. Igualmente, a paidéia é pedagógica, na história e na cultura, ao ser co-formadora não apenas de sujeitos isolados, mas de grupos e coletivos segmentados em diferentes lugares sociais na cidade. Assim, a paidéia poderia estar ocorrendo, ao mesmo tempo, no bairro Bom Fim e no Partenon, no Menino Deus e na Azenha , para alunos da PUC e da UFRGS, jovens, em tudo, muito semelhantes e, ao mesmo tempo, dotados de particularidades distintivas existenciais existentes.

Comum a todos, entretanto, a idéia que captamos como a educação sentimental pela mídia sonora radiofônica da Continental: uma experiência de vida relacionada com aquela experiência de audiência; uma escuta à Rádio Continental mesclada ao desenvolvimento de um estilo de vida atual, difuso, ao mesmo tempo individualista e compartilhável com o outro, o próximo; uma paidéia que aproximava o sujeito ouvinte, ao mesmo tempo, da situação inusitada, nova, de consumo e, pela informação jornalística posicionada e oposicionista, lançava ponte para articulações de cidadania, igualmente, marcada pelo que denominamos “ética de negação”, frente ao status quo, pelo posicionamento político democratizante, antimilitar e antitotalitária.

Queremos, aqui, ensaiar uma hipótese de aproximação. A paidéia radiofônica da Continental queremos aproximar à experiência de formação pela escuta, como podemos falar em formação pela leitura. Para tanto, estamos considerando a escuta à Continental como um processo de formação pela informação, pela opinião, pela música, pelo consumo e pelo humor, a partir das propostas do discurso radiofônico específico da Rádio eleita, a escuta à Rádio sendo uma forma para a autoformação do sujeito, como ação de diferentes aprendizagens. Tratar-se-ia, então, esta paidéia radiofônica como algo semelhante a uma espécie de Bildungsrroman (romance de formação), espaço discursivo oportunizado pelo fluxo produção-escuta radiofônico para a formação do sujeito, espaço de interação eu-mundo, numa aprendizagem e socialização a distância.

À expressão de paidéia, neste sentido, aproximamos a possibilidade de instauração, ali, de uma Rádio pedagógica, não no sentido formal do termo, mas no sentido comunicacional, se possível. Prosseguindo, delimitamos a Continental e a aproximamos da concepção de emissora de referência e de Rádio formadora, em aspectos mais específicos, isto é, radiofônicos. Podemos relacionar, neste caso, como um exemplo, o fato de a emissora, formada por comunidade diversa de colaboradores, ter fornecido elenco saído de seus quadros, em número expressivo, de professores de comunicação social, em nível universitário. A saber Cíntia Nahra, Eduardo Meditsch, Luiz Milman, Dedé Ribeiro, Heloísa Herscovitz e Wladimyr Ungaretti. A maioria destes voltada para o ensino de Jornalismo. Já tinham carreira como professores e atuaram na Continental, igualmente, José Fogaça, Clóvis Duarte, Airton Knaipp e Luiz Coronel (todos professores em cursos pré-vestibulares).

Emissora formadora, também, no sentido de ter sido ouvida e considerada como relevante para a formação profissional de grupo expressivo de professores de comunicação social, mesmo sem que estes tenham atuado profissionalmente na emissora, em especial, o grupo de professores que atuam com ensino de radialismo.

Igualmente, a paidéia, como instância formadora, pode ser relacionada com ouvintes que, formados radialistas e, no ciclo de desenvolvimento profissional, terão diferentes intervenções e assumirão diferenciados protagonismos no radialismo local. A saber, Flávio Dutra, que será diretor de programação da FM Cultura, após ter coordenado equipes nas Rádios Guaíba e Gaúcha; também, Mauro Borba, DJ da Band e Ipanema FM, atual diretor da Pop Rock FM; o mesmo caso pode-se dizer ocorre com Paulo Torino, ex-diretor da Unisinos FM; e, ainda, com o jornalista Lucio Flávio Haeser, atualmente, escrevendo livro-reportagem sobre a Continental. O mesmo pode-se dizer do próprio Autor da presente tese. Em comum a todos, além da experiência singular de ouvintes da Continental, o indicativo em reconhecimento público da Continental como emissora de referência e formação para cada uma das específicas experiências e trajetórias profissionais.

É neste sentido que a paidéia radiofônica projeta e produz certa oportunidade de tradição na inovação e, igualmente, induz muita inovação sobre a tradição dali em diante, fazendo da Continental, a partir de 1971, ao mesmo tempo, a principal liderança inovadora no dial e o elo atualizador do radialismo porto-alegrense para experiências futuras.

A recorrência ao termo “experiência”, em Ciências Sociais, é, notadamente, de uso amplo e tem crescido em referências, sobretudo, em relação às interações complexas da modernidade e pós-modernidade. A nossa perspectiva de trabalho entende a experiência, conceitualmente, sobretudo, a partir dos ensinamentos de Walter Benjamin, por sua vez, apreendidos sob inspiração em Kant, conforme anota Subirats (1993, p. 65). Entendemos por experiência, com Benjamin, àquilo que ele destaca como epistemologicamente fundamental, onde existe uma integração do conceito crítico da experiência do conhecimento ao sujeito empírico, ou melhor, à pluralidade social e histórica de sujeitos empíricos. Na busca pela singularidade histórica da experiência Continental, entendemos, ao contrário da interpretação de Subarits, que Benjamin sugere, não a experiência metafísica, mas a construção/reconstrução das figuras históricas da experiência para a transformação da cognição em processo, mesmo a partir de fragmentos (apud MATTOS, 1993, p. 12), o narrador moderno, em contraposição ao narrador tradicional, neste universo onde mesmo a narrativa encurtou, conforme anota Benjamin, em “O Narrador” (1983, p. 63), pode ser o sujeito da narrativa do rádio que, ao mesmo tempo, informa e forma opinião, possibilitando espaço para a reflexividade.

O narrador tradicional, ensina Benjamin, tem expressividade na narrativa oral, que se funda na experiência; o narrador moderno, no rádio, inverte a equação. Funda a experiência a partir e dentro da expressividade oral, sonora, radiofônica, sempre descolada, retirada da realidade vivida pelos sujeitos, mas concretizada, realizada no espaço singular do ao vivo radiofônico. O viajante e o artesão, outrora, eram os sujeitos do conhecimento e da experiência. Naquela oportunidade, a experiência possibilitadora da narrativa, se não de conhecimento, também, encontra-se no território, na zona de domínio do enunciador radialista, na nossa hipótese. E, mesmo que a narrativa esteja mais para a “doxa” do que para a “episteme”, ainda assim, a experiência moderna pressupõe a interação social como possibilidade para o conhecimento, neste caso, recaindo sobre a instância da audiência, por hipótese.

Em suma, não existe peripécia humana sem algum nível possível de aprendizagem, de experiência, seja para si ou para outrem. E é neste direcionamento que as peripécias comunicacionais-midiáticas apresentam-se com enorme potencial seja de aprisionamento, seja de alienação, seja de liberdade, seja de autonomia do sujeito. Isto dado, sempre e continuamente, através dos suportes midiáticos, em sistemas, com fluxos vertiginosos de ofertas e demandas cotidianas.

Nossa proposta de trabalho, em específico, entende que a Continental não aprisionou, nem alienou, tampouco libertou, a priori, mas, certamente, na interação com o sujeito coletivo da produção-audiência da Continental, possibilitou espaço acústico comunicacional, inicialmente, físico. Criando espaço público para socialização, histórico e concreto, a distância, pela ação dos sujeitos. Através da Rádio, ocorreram, então, as diferentes aprendizagens potenciais do sujeito, de ordem estética, política, musical etc.

Neste contexto, a informação assume espaço distinto e eficiente, mesmo inserida em processo midiático difuso e diferido, tornando-se mais do que útil verdadeiramente necessária, ainda mais no caso da Continental, dadas as circunstâncias, marcadas por carências e censuras, no cotidiano politicamente autoritário.

Associado ao processo de produção-recepção de radiojornalismo informativo, ocorre, concomitante, a oportunização de ofertas discursivas de opinião, fundamentais em todo processo jornalístico e singularizadas pelo protagonismo da voz autoral da Continental. Localizava-se no recorte, captação, seleção, formatação e apresentação editada, editorializada dos fatos a vox pluridiscursiva da Continental como atuação interativa na polis. A edição de opinião, tanto quanto a apresentação da informação ocorriam desde um ponto de vista da cidadania. Cidadania ampla, na defesa dos direitos humanos, na busca pela relevância nos produtos de cultura, na identificação de nicho de consumo para público jovem e universitário e – sobretudo – no direito à informação e ao entretenimento, ofertados, na prática, pela própria Continental. Era em meio a estes diferentes fluxos comunicacionais que certa paidéia podia ser construída pelo trabalho de audiência, erguida pela ação singular do sujeito da escuta.

Todo o manejo com a informação e com a opinião, necessariamente, ergue pistas, delimita rastros, constrói caminhos de cunho ético, desde a instância da produção, chegando, pelo efeito do “ao vivo” do rádio, praticamente, instantaneamente, ao pólo da recepção. Construir mundos, discursivamente, em ação interativa pelo rádio, significa erguer, através da realidade das falas, valores éticos. Estes valores são cravados, simbolicamente, no campo espacial interativo protagonizado pela produção-escuta, mesmo quando a ação venha a transcorrer em situação de dispersão ou eventual desatenção. A ética da Continental, desde sempre, é uma ética da negação, diante da instância da informação cotidiana e da política e é uma ética de busca de distinção intergrupo e de diferenciação frente aos diferentes grupos de atores sociais no campo do consumo, seja de bens materiais ou simbólicos. O acionamento ético, originado de diferentes escopos e instâncias, também constitui e delineia a paidéia Continental. A técnica e a ética jornalística precisaram deparar-se com obstáculos como o AI-5, a Lei de Segurança Nacional e o decreto 477, criado especialmente para punir estudantes universitários e, também, professores, gestores e funcionários.

Ainda no aspecto propositivo, ordenador e possibilitador de uma paidéia, a partir do registro de radiojornalismo informativo, foi importante a técnica deliberada de entretecer a microistória. A narrativa Continental, neste sentido, aproxima-se daquilo que Gaye Tuchman (1977, p. 134) identifica na notícia, enquanto “uma janela para o mundo”:

Através de seu marco as pessoas aprendem sobre si mesma e os outros, sobre as instituições, líderes e estilos de vida, e sobre outras nações e suas gentes [...] A notícia tende a dizer o que queremos saber, que necessitamos saber, e o que deveríamos saber.

Em trabalho de tese de doutoramento, Eduardo Meditsch (2001) investigou as técnicas e teorias da comunicação e do jornalismo para dar conta do novo radiojornalismo. Anteriormente, em 1992, o Autor já se preocupara com a questão do conhecimento do jornalismo. No trabalho de tese, mais recentemente averiguou, exaustiva e sistematizadamente, questões específicas referentes ao rádio, a partir de articulações de pesquisa empreendida com auxílio advindos da Teoria da Notícia e do Jornalismo, bem como da Teoria do Discurso e da Argumentação. Para Meditsch interessa estudar as articulações entre teoria e técnica do rádio, contemporaneamente, e, nesta direção o pesquisador investiga questões referentes à percepção, ao sentido, à significação e à cognição do sujeito em interação, especificamente, com o fenômeno rádio-informativo, na atualidade. O trabalho empreende importante atualização e análise teórica das funções e protagonismos sociais do rádio, hoje, trazendo-o para embates e tensões no campo da comunicação, em contraposição à idéia defasada de uma “idade do ouro” do rádio ideal e pretérita.

Para nossa pesquisa, além de usufruir o acompanhamento do texto do Autor no esforço argumentativo de valoração do rádio, interessa-nos o arremate da pesquisa. Ali, Meditisch (2001, p. 276) considera o rádio informativo como “ator social que intervém na construção da realidade”. A partir disso, a influência do rádio é mediada “não apenas pelo filtro de cada receptor, mas também pela segmentação da audiência”. Consideramos estas condições básicas, no exemplo da Continental, para estabelecimento da comunidade de escuta que determinaria a amplitude sociocultural e midiática da experiência da Rádio. Segundo Meditsch,

O grupo social que a utiliza é também o que dispõe das melhores e mais diversificadas fontes de informação. Sua credibilidade, em conseqüência, não depende apenas de seus artifícios, mas também da consonância com a visão de mundo de um auditório específico, do qual eventualmente participa também o emissor.

Essas observações dialogam com a nossa pretensão em fazer ver para a Continental uma realidade comunicativa construída que interliga produção e audiência, sendo esta ação uma práxis distintiva, ao mesmo tempo, da emissora, do grupo da produção e do grupo de audiência, organicamente articulados, numa comunidade.

A audiência da Continental distinguia-se, enquanto sujeito coletivo, pelo consumo e pelo contato com a informação posicionada da emissora e, ainda, pelo consentimento e fidelização, tornando-se co-autora daquela voz radiofônica Continental. A instância da produção, por seu turno, necessariamente, nutria-se, em retroalimentação, através de conteúdos, de carências e de desejos advindos da comunidade de escuta. A este ciclo realizado, a partir do protagonismo da Rádio, atribuímos caráter pedagógico não formal daquela geração. Diante do radiojornalismo posicionado, do humor, da crítica e de uma nova estética musical, igualmente, podia se erguer o sujeito ouvinte, protagonista da cognição radiofônica e do prazer pela escuta da Continental.

Pesquisas recentes procuram abordar as complexas relações existentes entre a comunicação, os meios de comunicação e as possibilidades de aprendizagem do sujeito, também colocado no campo da educação. Entre estes estudos, acompanhamos José Luiz Braga e Regina Calazans (2001), em aspectos que destacamos. Os autores partem de uma afirmação kantiana educadora que sublinha a condição de aprendizagem como algo inerente ao ser humano e, a seguir, naquilo que mais interessa à nossa tese, investigam e sustentam a possibilidade de qualidade educativa, formadora do sujeito, pela comunicação midiática.

Os autores asseguram existir espaços sociais, em torno e diferente do sistema escolar, onde circulam conhecimentos, saberes, processos de elaboração e transmissão de informações, isto é, aprendizagens. Estas aprendizagens sociais têm lugar na família, na vida prática, na cultura, e é, justamente neste entrelugares que visualizamos a paidéia radiofônica erguendo-se como possibilidade de experiência de aprendizagem. No dizer da Continental, pode-se falar em “lugar para curtição”, sendo esta expressão designativa de experimentação humana ampla e, assim sendo, desdobrada em possibilidade estética, existencial, estética, sensual. Braga e Calazans (2001, p. 91) apontam a sociedade como fonte dos saberes e das instâncias de aprendizagens, sendo que o “sistema de circulação é o mediático”.

A proliferação midiática, o aumento da acessibilidade geral das tecnologias de registro de som e imagem, o aumento desmesurado de informações midiatizadas oferecidas, criam contexto, conforme Braga e Calazans (2001, p. 91), em que “a quantidade se evidencia como qualidade, e nos vemos envolvidos em um outro processo geral de circulação de saberes”.

Para os autores (2001, p. 91), as aprendizagens midiáticas ocorrem diante de uma grande diversidade de ofertas, já organizadas, de intencionalidades reveladas e interpelativas do sujeito da audiência. Os usuários selecionam, articulam critérios, são e estão ativos no processo, “movidos por critérios pessoais, mas sobretudo culturais-sociais”. Para nosso trabalho, é na direção desta possibilidade de interação social que localizamos a paidéia radiofônica como possibilidade e, no caso da Continental, como realização da audiência.

Calazans e Braga (2001, p. 92) são enfáticos na afirmação de possibilidades de aprendizagem na interação com produtos midiáticos, desde a tomada de decisão na escolha e seletividade para resolução de problemas, pois, “selecionados seus produtos mediáticos, os usuários não simplesmente os ‘absorvem’, mas interagem com estes, sofrem suas interpelações, reagem, interpretam. E aí já temos aprendizagem”.

A perspectiva dos autores, que é também a nossa, aponta e caracteriza a existência de “receptor ativo” justamente “por esta capacidade de, na interação com os produtos mediáticos, aprender”. Nesta concepção, os receptores não se tornam ativos pelo acionar de acerco extramidiático, pelo fato de usar a cultura como resistência na interação, naquilo que ensejaria uma abordagem em redução de Jesús Martin-Barbero, com a proposta de passagem dos “meios às mediações”.

Calazans e Braga (2001, p. 93) reafirmam a condição de aprendizagem do usuário que aceita e participa do processo de experiência, diríamos, contido na esquematização das ofertas dos produtos e sistemas midiáticos, configurados como interpelantes externos, no processo. Diante disto, resistir, tão somente, seria uma forma muito elementar de atividade, por “recusar as interpelações feitas pelos produtos mediáticos e preferencia totalmente o já conhecido”. O que ocorre é da ordem de uma interpretação. “E interpretar é usar o seu acervo cultural para processar as interpelações recebidas. Há boas e más interpretações – mas o saldo, positivo ou negativo – é uma aprendizagem”.

Nossa pesquisa propõe uma possibilidade de paidéia nesta direção, onde o saldo, no caso, é interpretado como positivo. Curiosamente, a positividade desta paidéia está centrada, justamente, numa ação coletiva estruturada na negação. Dizendo com Calazans e Braga, o “receptor ativo” da Continental é “ativo porque interativo”, e porque esta interação ocorre numa convergência, onde Rádio e audiência se posicionam contra o autoritarismo, a falta de liberdades civis, a censura à informação e a massificação, inclusive.

Relevância do sistema midiático para construção desta estimulação da aprendizagem de competências autoformadoras. Na imensa conversação social através das mídias, os usuários e os produtores e receptores pensam, revêem articulam esquemas de reflexividade sobre a própria mídia. A isto, Braga denomina, em outro lugar, “subsistema crítico-interpretativo mediático (ENDLER, 2001, p. 9-30).

Esta ação crítica dos usuários, referida pelos autores, recaindo sobre diferentes escopos de produção midiática, sobre linguagens, gêneros socialmente compartilhados, sobre a cultura de geração/interpretação de sentidos, nós localizamos, exemplarmente, na Continental. Os autores indicam como exemplo, pela capacidade interpretativa e processo de aprendizagem crítica, a experiência com cine-clubes, na década iniciada em 1970 (CALAZANS; BRAGA, 2001, p.132).

A experiência Continental, como uma aprendizagem, visualizamos oportunizada, igualmente, pela tentativa de certa ordenação orgânica de oferta de programação. Mesmo que ordenada em forma mosaica, a programação da Continental, deliberadamente estruturada, como vimos, buscou construir nexos, por exemplo, entre a linguagem musical e a linguagem publicitária e, também, com aquela outra do radiojornalismo informativo (conforme sugestões de articulações discursivas propostas por Rosental Calmon Alves).

Esta articulação discursiva e midiática possibilitava, em nosso entendimento, relevante oportunidade de interpretação crítica da audiência sobre os materiais jornalísticos de atualidade e sobre os temas musicais e publicitários, igualmente. A atualidade da programação, assim, articulava um antes e um depois histórico, contextualizado. Desta perspectiva, a microistória pode ser articulada pelo trabalho do sujeito da escuta, retirando da interação com o fato ou evento midiático algo a mais do que a fruição imediata e fugaz.

Assim, a peripécia radiofônica da Continental enseja níveis de aprendizagem pela experiência da escuta cotidiana. É pela mesma via que vislumbramos, também, a instauração de uma ética da negatividade, uma ética-do-não, expressão de uma cultura de época, encontrável em diversos movimentos juvenis de contestação em diferentes lugares do mundo, à época. Esta ética da Continental residia em fazer comunicação onde o eu reconhecia e estabelecia, na práxis, o diálogo possível, em tentativa de construções de igualdades, de justiça. Mas esta ética, para se estabelecer, precisou agir contra a lógica instrumental, burocrática, dentro de ambiente fortemente censurado, pelo trabalho autoritário de órgãos como a Polícia Federal. A voz autoral da Continental, nesta direção, é contra-voz. E, assim, se candidatou a ser a Rádio da geração, da juventude, a partir de 1971, sob o AI-5 e sob o decreto 477.

Postada sob efeito de fenômenos como os fluxos vertiginosos da indústria cultural, à época, e em sintonia, mesmo quando discreta, com valores do chamado movimento de contracultura internacional, os usuários da Continental (produtores e audiências) vivenciavam experiências de subjugação sob o AI-5, com desejos e práticas liberalizantes, ou mesmo libertárias, através da oferta e consumo de bens simbólicos, culturais e, sobretudo, pela tentativa de articulação de novos feixes de sentidos e significação.

Dissemos que o rádio é som e sentido. A partir de uma apropriação ampliada de definições de Paul Ricouer, aqui, queremos dizer que a paidéia Continental produziu som, sentidos e significação próprios e determinados.

Os sons produziam oportunidades de escuta em processos diferentes e articulados. A exemplo do que Gilles Thérien (apud Jouve, 2002, p. 17-22) estabelece para a leitura, em comparação, adaptamos para a escuta. A saber, verificamos o processo neurofisiológico (como ato concreto, uma operação de percepção, de identificação e de memorização de signos), um processo cognitivo (ora de “progressão” da escuta, ora de “compreensão”), um processo afetivo (onde a emoção é motriz para a identificação), um processo argumentativo (onde o ouvinte é interpelado pela intenção ilocutória da voz autoral).

É sob essa processualidade que o sentido instaura-se, remete para o deciframento operado durante a escuta, enquanto a significação é o resultado do trabalho do sujeito sobre esta escuta. É a significação que faz da escuta uma experiência concreta, realizando o processo de significação na passagem de absorção do texto para a realidade, a exemplo do que referia Jouve (2002, p. 129) sob a leitura. É neste processo que a Rádio consegue realizar “uma outra escrita (a escrita do Outro), consegue escrever fragmentos de nossa própria cotidianidade, enfim, quando se produz uma co-existência”, dizia Roland Barthes (1971, p. 13).

A paidéia, pela nossa concepção, trata de erguer uma co-autoria, um macrotexto compartilhado, com projeção sobre a realidade. Identificamos esta experiência da paidéia Continental aplicada como vivência exemplar aproximada do que Howard Becker e Henry Giroux indicaram por fugitive cultures, isto é, estruturas juvenis que permitem construir, diariamente, a identidade própria, concretizada em projetos de criação de sentidos para e dentro da experiência vivida cotidiana de grupo ou subgrupo. Esta certa “cultura de evasão” da Continental ocorria de modo dinâmico, dotada de zonas de tensão e conflito, de negociações e acomodações, de autoconstruções e invasões, ou seja, de processos específicos da cultura urbana ali constituída naquela paidéia, também, oportunizadora de uma comunidade de vida midiática.

Desde Oliver Sacks, e antes deste, com Sigmund Freud, sabemos que é possível, através da escuta, construir nexos, desvendar proposições, investigar enigmas, construir sentidos e significações. O rádio possibilita ao ouvinte uma experiência particular. Socialmente, ergue-se como “cortina sonora” e “capa protetora” para sujeitos da identidade de escuta, seja na fruição do consumo, seja na estesia da música. Individualmente, oportuniza desde o zapping despretencioso até o mergulho em rios profundos intrapsíquicos, “fontes de espaço auditivo”, diria Mcluhan (1967, p. 335). A presente pesquisa advoga para a Continental a realização de partes destes trabalhos, mesmo que em processo de descontinuidade, configurando uma paidéia radiofônica situada na cidade de Porto Alegre, na década iniciada em 1971, para jovens universitários e estudantes da classe média.

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1 Este texto é resumo de subcapítulo da pesquisa geral apresentada como tese de Doutorado junto ao PPG em Ciências da Comunicação da Unisinos em 07 de janeiro de 2005


2 Universidade do Vale do Rio do Sinos – Unisinos





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