Razões da crise marcos Fabrício Lopes da Silva



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RAZÕES DA CRISE

Marcos Fabrício Lopes da Silva*


Não adianta buscar no monstro a solução para a monstruosidade. O mundo continuará em crise eterna enquanto a humanidade promover sistematicamente o terrorismo econômico. 84 pessoas físicas dispõem de renda equivalente à que possuem 3,5 bilhões de pessoas – metade da humanidade, segundo a Oxfam. Salienta François Bourguignon, em A globalização da desigualdade (2015), que o voraz e piramidal capitalismo foi responsável direto pela constituição de 3 bilhões de pessoas, sobrevivendo com menos de R$ 8 por dia! Muito difícil esperar que a solução da crise venha por parte dos donos dos meios de produção. A respeito, Thomas Piketty, em O capital no século XXI (2014), demonstra que a concentração da riqueza mundial em mãos de poucas famílias se deve ao aumento da especulação financeira agravado por um injusto sistema de transmissão de heranças.

Como funciona a mentalidade do financiador que exalta as desigualdades em nome do livre mercado? O escritor Fernando Pessoa (1888-1935), em O banqueiro anarquista (1922), já nos dava preciosas pistas para desvendar a questão. O protagonista do texto substitui a argumentação, o respeito e a busca de solidariedade pelo agir instrumental, ou seja, passa a mediar suas relações pelo dinheiro e pelo poder, objetivando exclusivamente a eficiência como valor soberano: “Sou materialista, pensava eu; não tenho mais vida que esta; para que hei de ralar-me com propagandas e desigualdades sociais, e outras histórias, quando posso gozar e entreter-me muito mais se não me preocupar com isso? Quem tem só esta vida, quem não crê na vida eterna, quem não admite lei senão a Natureza, quem se opõe ao Estado porque ele não é natural, ao casamento porque ele não é natural, ao dinheiro porque ele não é natural, porque cargas-d’água é que defende o altruísmo e o sacrifício pelos outros, ou pela humanidade, se o altruísmo e o sacrifício também não são naturais? Sim, a mesma lógica que me mostra que um homem não nasce para ser casado, ou para ser português, ou para ser rico ou pobre, mostra-me também que ele não nasce para ser solidário, que ele não nasce senão para ser ele-próprio, e portanto o contrário de altruísta e solidário, e portanto exclusivamente egoísta”.

Movido pelo cinismo e pela falência da crítica, o banqueiro defende a liberdade incondicional e, consequentemente, o citado agente financeiro se arvora em chamar a solidariedade de “tirania do auxílio”. Um dos mais tenazes preconceitos criados pelo utilitarismo vulgar é a ideia de “interesse como posse ou aquisição”. Nada escapa ao fôlego da intenção possessiva. Será? A ação, sem dúvida, obedece às “razões da razão”, mas também às “razões do coração”, como disse Pascal. Desconhecer isso é produzir tensões, conflitos e sofrimentos desnecessários. Acreditar que só agimos porque queremos reter ou acumular é dar provas da mais flagrante miopia em relação ao que somos ou fazemos. Segundo o renomado psicanalista Donald W. Winnicott (1896-1971), a dádiva, o dom, a doação não são ornamentos dispensáveis da vida subjetiva. Ao descrever os interesses do indivíduo, do self, em linguagem técnica, Winnicott dá ênfase especial a um deles: justamente a capacidade de se preocupar com o outro, expressa no “interesse de doação”. A doação é a contrapartida psíquica da aquisição. Não havendo solidariedade, o pífio e asfixiante universo do consumismo toma conta do pedaço, tornando o que possuímos sem valor, e o que doamos, irrelevante.

Sugere filosoficamente o professor Renato Noguera, no texto “Ubuntu como modo de existir: elementos gerais para uma ética afroperspectivista” (Revista da ABPN, nov. 2011), a máxima zulu e xhosa, umuntu ngumuntu ngabantu (“uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas”) para o enfrentamento do modelo egoísta predominantemente no mundo: “um ser humano só se realiza quando humaniza outros seres humanos. A desumanização de outros seres humanos. A desumanização de outros seres humanos é um impedimento para o autoconhecimento e a capacidade de desfrutar de todas as nossas potencialidades humanas. O que significa que uma pessoa precisa estar inserida numa comunidade, trabalhando em prol de si e de outras pessoas”. Noguera dá prosseguimento à reflexão, referindo-se a um provérbio desenvolvido pelo grupo étnico “Gikuyu”, localizado no Quênia: “Kiunuhu gitruagwo (a avareza não alimenta) diz muito da perspectiva ubuntu e pode facilmente ser associada à ética ubuntu, porque se a realização de uma pessoa passa pelas outras, significa que a capacidade de partilhar com as outras é fator indispensável na construção individual. [...] Em outros termos, num sentido afroperspectivista, não ser avarento é compreender que o resultado de um trabalho individual nunca é realmente obra de uma pessoa; mas, sempre contou com a participação direta e indireta de outras pessoas. Portanto, o valor das coisas precisa ser compartilhado para reconhecermos as diversas faces de nossa existência junto com os outros”.



Resolver a crise de verdade consiste, portanto, em combater os riscos que atravessam as sociedades atuais, seduzidas pelo idealismo do mercado. O mercado transformou pessoas em massas sem vontade e direção, tornando-as indivíduos totalmente privatizados. A democracia é fundada sobre a diversidade de opiniões. Ao mesmo tempo, esta depende da diversidade de valores. O mercado as destrói, reduzindo todos os valores ao preço. Logo, é necessário incriminar a mentalidade que faz da economia o centro de tudo.
* Professor da Faculdade JK, no Distrito Federal. Jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da UFMG.



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