Raintree 1 Linda Howard



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Encontro12.04.2018
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― Senti como se esta enorme força simplesmente… se fechasse dentro de mim. Não podia respirar. Tinha medo de desmaiar. Mas então disse algo, e o pânico se foi.

Afastou-se recostando no cubículo, franzindo o cenho.

― Eu não representava nenhum perigo para você. Por que teria uma reação tão forte?

― Você é o perito. Diga-me isso você.

― Minha primeira reação a você foi que te queria nua. A menos que o sexo a aterrorize, e não acredito que seja o caso… ― Deu um olhar com as pálpebras entreabertas que endureceu os seus mamilos outra vez ― …não poderia ter captado nada de mim que a fizesse sentir dessa forma.

Novamente o calor formava redemoinhos no baixo ventre, e não era pelo café. Posto que estavam em um McDonald’s e havia um menino de quatro anos sentado no cubículo do lado, afastou o olhar e removeu à força os pensamentos de ir para a cama com ele.

― Ao menos parte disso vinha de você ― insistiu. ― Lembro ter pensado que inclusive o ar parecia diferente, rarefeito, algo que nunca senti antes. Quando se aproximou, pude dizer que a sensação vinha de você. É um homem perigoso, Raintree.

Só ficou olhando-a, esperando que continuasse, porque realmente não podia negar essa acusação em particular.

― Podia sentir você ― disse, em voz baixa quando entrou na lembrança. ― Me atraindo, quase como se estivesse me tocando. As velas estavam se descontrolando. Queria correr, mas não podia me mover.

― Estava tocando você ― disse. ― Em minha imaginação, ao menos.

Recordou como tinha sido surpreendida pela fantasia sexual dele, atraída, roubando sua respiração.

― Sabia que algo estava errado ― sussurrou. ― Não estava controlada. Senti como se tivesse sido apanhada em uma onda de poder que continuava oscilando, indo e vindo, me desequilibrando. Então se voltou tão frio, como no carro. Não era um frio normal, com calafrios e tremores, mas algo tão intenso que me doeram os ossos. Logo essa sensação de temor voltou, a mesma sensação que tive no beco. Estava falando a respeito de como eu era sensível às correntes da sala…

― Estava falando de correntes sexuais ― disse aborrecido. ― O solstício do verão é em poucos dias, e o controle é mais difícil quando há tanta luz do sol. É por isso que as velas dançaram. Estava excitado, e meu poder flamejava continuamente.

Lorna meditou a respeito disso. Sentiu-se atraída por ele desde o primeiro momento em que o olhou nos olhos. A pesar do medo e pânico que sentiu no princípio, quando encontrou seu olhar, caiu de cabeça na luxúria. O debilitante frio tinha chegado depois e não tinha afetado a resposta física a ele, porque quando o frio se foi a atração permaneceu… igual.

― O frio se foi ― disse. ― Como se algo estivesse pressionando contra a cadeira e logo depois de repente se foi. Pensei que cairia da cadeira, porque tinha estado empurrando tão forte em resposta, e de repente a pressão se foi. Isso foi tudo. Falamos algo mais, e em seguida o alarme de incêndios disparou. Fim da cena, começo de inclusive mais raridades.

― E sentiu a mesma coisa no carro?

Assentiu.

― Exatamente o mesmo. Exceto pelo sexo. Quanto mais longe estávamos da casa, mais ansiosa e deprimida me sentia, como se verdadeiramente estivesse exposta e vulnerável. Logo senti muito frio.

― Definitivamente estava absorvendo energias negativas externas, provavelmente do tráfego que nos rodeava. Nunca sabe quem está no carro do lado. Pode ser alguém que não queria te encontrar nem sequer em uma abarrotada rua ao meio dia. O que me deixa perplexo é por que sentiu o mesmo em meu escritório. ― Sacudiu a cabeça. ― A menos que tenha percebido o fogo que ia começar abaixo no cassino, o que é possível, se tiver alguma habilidade precognitiva.

― Penso que poderia, mas só quando as coisas se relacionam com números. ― Contou-lhe a respeito dos números 11/916 flutuando, e o fato de que não teve visões de choque de aviões ou edifícios em chamas, só números flutuando se inserindo em seu subconsciente. ― O que senti antes do fogo foi diferente. Possivelmente porque eu…

Deteve-se e o olhou ferozmente. Ele arqueou as sobrancelhas.

― Você… o que?

― Tenho uma obsessão com o fogo. ― Esperou, e, exasperada, finalmente disse: ― Tenho medo dele, ta certo.

― Qualquer com um pouco de inteligência é precavido com o fogo. Eu sou precavido com ele.

― Não é precaução. Tenho medo. Como em, me aterra. Tenho pesadelos a respeito de ser presa em um edifício em chamas. ― Podia ser precavido com o fogo, pensou ela, mas ainda assim o excitava. Podia se converter em um excelente pirómano. Parados diante do incendiado cassino, tinha podido sentir sua fascinação e apreciação pelas chamas, sentir sua excitação, porque o tinha expresso muito fisicamente. ― De qualquer maneira, possivelmente é por isso que senti tanto pânico nesse momento, e tanta ansiedade. Mas o por que me senti assim hoje… a menos que vá me forçar a entrar em outro edifício em chamas na próxima hora ou algo assim, em cujo caso me diga isso agora, para que possa matar você.

Riu enquanto recolhia os restos da comida, e os colocava na bandeja de plástico. Ela saiu do cubículo, caminhado diante dele enquanto deixavam o restaurante. ― Aonde agora?

― Ao hotel.

Em uns minutos estavam de volta na interestadual. Dante a olhou de soslaio.

― Sente-se bem?

― Sinto-me bem. Não sei que esta acontecendo comigo.

Sentia-se bem. Estava montada em um Jag com o homem mais incomum que já tinha conhecido, e estava pensando em ir para a cama com ele. Deu-lhe um olhar, pensando em como ficaria vestindo só aquela cueca, e sentindo a prazenteira calidez da antecipação.

Gostava de vê-lo conduzir. No domingo de noite, enquanto se dirigiam a sua casa, não tinha estado em forma para apreciar a suavidade, a economia de movimentos, com a qual dirigia um carro. Um bom condutor era muito sexy, pensou. O jogo de músculos de seus antebraços, deixados ao descoberto devido às mangas curtas da camisa pólo que vestia, era incrivelmente sexy. Devia exercitar-se em algum lugar, de forma regular, para manter-se nessa forma.

Estavam andando pela via do meio. Um carro com um ruidoso escapamento estava se aproximando pela direita, e o viu olhar pelo espelho retrovisor.

― Idiotas ― murmurou, acelerando brandamente e se metendo dentro da via esquerda. Lorna voltou a cabeça para ver do que estava falando. Uma amassada Dodge branca, com fumaça cinza saindo do escapamento, estava se aproximando rapidamente. Pôde ver várias pessoas dentro. O que tinha incitado a Dante a se mover e lhes dar bastante espaço era o Nissan azul que ia bem próximo ao pára-lama da Dodge.

― Esse é um acidente à espera de acontecer ― disse ela, justo quando o Nissan azul oscilou dentro da via central, a que eles acabavam de deixar vaga, e disparou para frente até que esteve ao lado da Dodge branca. O Nissan virou para a Dodge, e o condutor da Dodge parou sobre os freios, causando uma reação em cadeia de chiados de freadas e fumaça de aros detrás dela. O motor do Nissan estava chiando quando o carro chegou ao nível de Dante e Lorna. Dentro, ela pôde ver quatro ou cinco hispanos, rindo e indicando para trás a Dodge.

O tráfego na interestadual era bastante denso, como sempre, mas não tão denso para que o condutor da Dodge branca não estivesse ultapassando-os rapidamente.

― Galeras ― disse Dante em uma voz cortante, freando para deixar que o desastre sobre rodas que estava se desenvolvendo o adiantasse. Não podia acelerar, porque havia um carro adiante; não podia rodear o carro, porque o Nissan azul estava bem ao lado, encaixotando-o. Ninguém dentro do Nissan parecia estar prestando atenção a eles; estavam todos olhando a Dodge. Como do nada, o condutor do Nissan soltou o acelerador, como se quisesse que a Dodge o alcançasse.

― Merda! ― Desviou para a esquerda tudo o que pôde quando a Dodge deslizou junto ao Nissan. Lorna viu um borrão quando o passageiro de atrás à direita na Dodge baixou o vidro e tirou uma arma; então a mão direita de Dante se fechou sobre seu ombro em agarrando-o que parecia chegar até o osso, e a empurrou bruscamente para a frente e abaixo justo quando a janela junto a sua cabeça se quebrava em cem pedaços. Houve várias profundas explosões surdas, alternadas com rangidos mais leves e seguidos, logo um estremecedor impacto quando Dante girou o volante e os enviou patinando contra a barreira de concreto.

Capítulo 18
De algum jeito Dante tinha liberado o ombro da correia do cinto de segurança, mas as correias do colo se esticaram com a sacudida. Algo tinha arranhado a parte direita da cabeça e havia golpeado o ombro direito tão forte e rápido que a atirou para trás, e terminou de cabeça, com a parte de cima do corpo cruzada sobre o painel e torta entre os assentos dianteiros. Todos os horríveis sons de pneus chiando e de metal esmagando tinham cessado, e um estranho silêncio enchia o carro. Lorna abriu os olhos, mas tinha a visão imprecisa, por isso os fechou de novo.

Nunca tinha estado em um acidente de carro antes. A absoluta velocidade e violência disso a aturdiu. Não sentia dor, só… se sentia intumescida, como se um gigante a tivesse levantado e atirado contra o chão. Provavelmente a dor viria muito em breve, pensou vagamente. O impacto tinha sido tão brutal que se sentia um pouco surpresa de estar viva.

Dante! O que tinha acontecido com Dante?

Incitada por este premente pensamento, abriu os olhos novamente, mas a visão imprecisa persistia e não pôde vê-lo. Nada era familiar. Não havia volante, nem painel…

Pestanejou e lentamente se deu conta que estava olhando o assento de atrás. E o impreciso era… névoa? Não, fumaça. Levantou-se com repentino pânico, ou tratou de fazê-lo, mas parecia que não conseguia nenhum ponto de apoio.

― Lorna?


A voz era tensa e áspera, como se tivesse dificuldades para falar, mas era Dante. Veio de algum lugar detrás e por cima dela, o que não tinha nenhum sentido.

― Fogo. ― As arrumou para dizer, tentando dar patadas com as pernas. Por alguma razão só pôde mover os pés, o que a aliviou já que eram sua parte mais longínqua; se podiam se mover, tudo entre eles e a coluna estava bem.

― Fogo não… são bolsas de ar. Está ferida?

Se havia alguém que podia saber se era ou não fogo, essa pessoa era Dante. Lorna tomou um profundo fôlego, relaxando-se um pouco.

― Não acrho. Você?

― Estou bem.

Estava em uma posição tão incômoda que a dor ferroava através dos músculos das costas. Retorcendo-se, as arrumou para tirar o braço esquerdo de debaixo de seu corpo para empurrar com a mão contra o chão de atrás, tentando se levantar e voltar-se para poder deslizar para seu assento novamente.

― Espera? disse Dante, lhe agarrando o braço. ― Há vidros por todos os lados. Cortaria você em tiras.

― Tenho que me mover. Esta posição está matando as minhas costas. ― Mas se deteve, porque a imagem mental do que fariam os cristais deslizando sobre sua pele não era boa.

Chegavam gritos vindos de fora, aproximando-se, ao tempo que os transeuntes se detinham e corriam em sua ajuda. Alguém bateu na janela de Dante.

― Hei, cara! Estão bem?

― Sim. ― Dante levantou a voz para que pudessem ouvi-lo. Sentiu a mão contra o flanco enquanto ele tentava soltar o cinto de segurança. O fecho estava emperrado; deixou escapar uma impetuosa maldição, logo tentou de novo. Na terceira tentativa, saltou abrindo. Livre dessa restrição, deu a volta, e ela sentiu as mãos descesdo pelas suas pernas. ― Seu pé direito está enrolado na bolsa de ar. Pode movê-lo…? ― A mão agarrou seu tornozelo. ― Move seu joelho para mim e o pé para sua janela.

Mais fácil dizer que fazer, pensou, porque mal podia se mover. Se ajeitou para mover o joelho direito um pouco.

O homem fora da janela de Dante agarrou a maçaneta da porta e tentou abri-la, sacudindo o carro, mas a porta estava travada.

― Tente do outro lado! ― ouviu Dante gritar.

― Esta janela se avariou ― disse outro homem, recostando-se sobre a janela do co-piloto, ou onde antes tinha estado, e perguntou com urgência: ― Estão feridos?

― Estamos bem ― disse Dante, recostando-se sobre ela e empurrando seu tornozelo direito enquanto lhe girava o pé.

O gancho do pé se afrouxou um pouco, o que lhe permitiu mover um pouquinho o joelho.

― Isto prova uma coisa ― disse ela, ofegando pelo esforço que lhe exigiu essa pequena mudança.

― Ponha os pés de ponta como uma bailarina. Que isto prova?

― Definitivamente, Auhh!, não sou precognitiva. Não o vi vir.

― Acredito que se poderia dizer que nenhum dos dois é precognitivo ― grunhiu, em seguida disse: ― Aqui está. ― Com um último puxão, liberou seu pé. Ao homem apoiado no guichê disse: ― Pode encontrar uma manta ou algo para atirar sobre este vidro para que possa tira daqui?

― Não há necessidade que me agarrem ― resmungou ela. ― Se posso me mexer, poderei sair daqui.

― Tenha paciência ― disse Dante, girando para poder deslizar o braço direito debaixo do peito e os ombros e suportar um pouco de seu peso para dar a seus músculos um pouco de descanso.

Podiam ouvir as sirenes soando através do ar árido, mas ainda a certa distância.

Uma nova cara, vermelha e suada, e pertencente a um tipo corpulento que usava uma boina de Caterpillar17, apareceu na janela quebrada.

― Tinha uma manta na parte traseira da cabine ― dijo, reclinando-se para arrumar o tecido sobre o assento, dobrando em seguida o restante formando uma ampla almofadinha para cobrir os pedaços de vidro que ainda estavam presos na janela quebrada.

― Obrigado ― disse Lorna animadamente quando Dante começou a puxá-la para endireitá-la no assento. Os músculos gritaram pelo esforço, e o alívio por voltar para uma posição mais natural foi tão intenso que quase gemeu.

― Aí vai! ― disse o caminhoneiro, estirando-se uma vez mais e agarrando-a por debaixo dos braços, tirando-a pela janela quebrada antes que pudesse fazer isso ela mesma.

Agradeceu a ele e a cada um dos que ajudaram, em seguida se voltou e olhou pela primeira vez o carro enquanto Dante saía com o mesmo garbo que um piloto de corridas, como se sair através de uma janela fosse algo que fizesse todos os dias.

Mas por mais calmo e sexy que parecesse saindo do carro, o que a aturdiu até deixá-la muda foi o carro.

O elegante Jaguar era somente uma enrugada e despedaçada chapa de metal. Tinha patinado quase até dar meio giro, a parte dianteira tinha batido contra a barreira de concreto, o lado do condutor fazia quase um T com o tráfego que subia. Se outro carro tivesse se chocado depois que golpeassem a barreira, Dante poderia estar morto. Não sabia porque outro veículo não bateu contra eles; o tráfego era suficientemente denso pelo que isto não era nada menos que um milagre. Olhou para o congestionamento de carros e caminhões detidos em todos os ângulos pela colisão múltipla, como se as pessoas estivessem pisando nos freios e patinado. Havia três pára-lama torcidos na via da direita, a uns treze metros para baixo, mas as pessoas estavam fora dos veículos examinando os danos, então estavam bem.

Ela não esta bem. Tinha o estômago revolto, e sentia o coração como se alguém tivesse dado um murro no peito. Tinha uma lembrança muito clara de Dante dando voltas no volante, mandando o Jaguar a uma controlada derrapagem… virando para afastar o lado do passageiro da rajada de balas e colocando o lado dele de frente ao tráfego que circulava.

Ia matá-lo.

Não tinha direito de assumir esse tipo de riscos por ela. Nenhum. Não eram amantes. Conheceram-se há menos de 48 horas, sob circunstâncias realmente terríveis, e a maior parte desse tempo gostosamente o teria empurrado dentro do tráfego ela mesma.

Como se atrevia a ser um herói? Não queria que fosse um herói. Queria que fosse alguém cuja ausência não pudesse feri-la. Queria poder se afastar dele, inteira e contente consigo mesma. Não queria pensar nele depois. Não queria sonhar com ele.

Seu pai não tinha se importado o suficiente para ficar perto, assumindo que soubesse a respeito dela. Não tinha uma verdadeira idéia de quem era… e tampouco tinha sua mãe. Sua mãe certamente não teria arriscado uma unha, muito menos a própria vida, para salvar Lorna de nada. Então o que estava fazendo este… este desconhecido, pondo a própria vida em perigo protegendo-a? Odiava-o por lhe fazer isto, por se tornar alguém cujo rastro sempre permaneceria em seu coração.

O que se supunha que devia fazer agora?

Voltou a cabeça, procurando por ele. Estava só a alguns metros de distância, o que supôs tinha sentido, porque se tivesse se movido um pouco mais longe haveria se sentido obrigada a segui-lo. Não podia se livrar do maldito controle mental que usava para prendê-la, mas tinha arriscado a vida por ela… o cretino.

Normalmente mantinha o comprido cabelo negro penteado para trás, mas agora lhe caía ao redor do rosto. Havia uma fina linha de sangue correndo por sua bochecha esquerda de um pequeno e inchado corte que tinha na parte de cima da maçã do rosto. A pele ao redor estava inchando e se tornando escura. O braço esquerdo parecia machucado, também; o trecho entre o pulso e o cotovelo estava de uma cor vermelha escura. Não estava embalando o braço nem tocando a bochecha, coisas que a maioria das pessoas faz instintivamente quando está ferida. As feridas bem poderiam não existir pela atenção que ele lhes dava.

Parecia em completo domínio de si mesmo e da situação.

Lorna pensou que poderia ficar doente, de tão zangada que estava. O que tinha feito não era justo… de todas formas não era como se tivesse parecido preocupado pela justiça antes.

Como se estivesse sintonizado com seus pensamentos, voltou a cabeça abruptamente e centrou o olhar nela. Com duas velozes pernadas estava a seu lado, segurando-a pelo braço.

― Não tem absolutamente, nenhuma cor no rosto. Deveria se sentar.

― Estou bem ― disse automaticamente. Uma repentina brisa soprou uma mecha de cabelo a atirando pelo rosto, e levantou a mão para afastá-lo. Duas patrulhas estavam se aproximando pelo outro lado da auto-estrada, com as sirenes ligadas, e quase teve que gritar para fazer-se ouvir. ― Não estou ferida.

― Não mas está abalada. ― Ele também elevou a voz, girando a cabeça para observar as patrulhas que se detinham do outro lado da barreira. As sirenes morreram, mas outros veículos de emergência estavam se aproximando, e o estrondo estava crescendo outra vez.

― Estou bem! ― insistiu, e estava… fisicamente, ao menos.

A mão dele se fechou sobre seu braço, levando-a para a barreira de concreto.

― Vamos, sente-se. Me sentirei melhor se fizer isso.

― Não sou eu que esta sangrando ― assinalou.

Tocou a bochecha, como se tivesse esquecido completamente do corte, ou possivelmente desde o começo nem o tinha notado.

― Então vem se sentar comigo e me faça companhia.

Tal como resultaram as coisas, nenhum dos dois chegou a se sentar. Os policiais estavam tentando averiguar o que tinha acntecido, endireitar e pôr em movimento o tráfego novamente, embora fosse muito lentamente, e conseguir que qualquer pessoa ferida fosse levada para o hospital para ser avaliada. Logo um total de sete patrulhas estavam na cena, junto com um caminhão de bombeiros e três ambulâncias. Os condutores dos carros danificados que ainda eram conduziveis receberam instruções para que movessem seus veículos para a beira da estrada.

Havia várias testemunhas do que tinha acontecido. Nenhum sabia se um arrebatamento de fúria entre condutores tinha causado o tiroteio ou se tudo tinha sido um conflito entre turmas rivais, mas todos tinham uma opinião e uma ligeiramente diferente versão dos acontecimentos. A única coisa em que todos estavam de acordo era que as pessoas da Dodge branca tinham disparado ao Nissan, e os do Nissan tinham respondido.

― Alguém tomou os números das placas de qualquer dos veículos? ― perguntou um patrulheiro.

Dante imediatamente olhou para Lorna.

― Números?

Ela pensou na Dodge branca e três números lhe vieram à mente.

― A Dodge é 873. as placas de Nevada eram três dígitos seguidos de três letras.

― Chegou a ver alguma das letras? ― perguntou o patrulheiro, com o lápis preparado.

Lorna sacudiu a cabeça.

― Só recordo os números.

― Isto estreitará a muito a busca. E a do Nissan?

― Hmm… 612.

Anotou isso, também, depois se voltou para falar pelo rádio.

O celular de Dante tocou. Tirou-o do bolso dianteiro das calças e olhou quem chamava.

― É Gideon ― disse, abrindo o telefone. ― O que aconteceu? ― Escutou um momento, logo disse: Magnificamente fodido.

Uma breve pausa.

― Recordo.

Falaram menos de um minuto e logo Lorna o ouviu dizer:

― Uma olhada no futuro. ― O que a fez se perguntar o que estava acontecendo. Estava rindo de algo que seu irmão disse quando repentinamente ela tiritou, envolvendo-se com os braços embora a temperatura estava rapidamente subindo por volta dos 35 graus. Esse horrível, frio que lhe provocava dor nos ossos havia se apoderado dela tão repentinamente como se tivesse se atirado dentro de uma piscina de água gelada.

O olhar de Dante se aguçou, e abruptamente terminou a ligação, colocando o telefone de volta ao bolso.

― O que está errado? ― perguntou, mantendo o tom baixo enquanto a puxava, para aproximá-la.

Lutou contra as ondas de vertigem, trazidas pelo frio intenso.

― Acho que o depravado assassino em série deve ter nos seguido ― disse.

Capítulo 19


Dante a abraçou, apertando-a contra o calor de seu corpo. Seu corpo sempre estava quente, pensou ela, como se sempre tivesse febre. Esse calor agora a fazia se sentir maravilhosamente bem, esquentando sua pele fria.

― Concentre-se ― disse ele, inclinando sua cabeça para que ninguém mais pudesse ouvir. ― Pensa em construir esse refúgio.

― Eu não quero construir um maldito refúgio ― disse irritada. ― Isto não acontecia comigo de te conhecer e quero que pare.

Dante esfregou a bochecha contra seu cabelo e ela sentiu como movia os lábios enquanto sorria.

― Verei o que posso fazer. Enquanto isso, se não quiser construir refúgios, veja se pode me dizer o que causa o problema. Feche os olhos, busque mentalmente ao nosso redor e me diga se capta algo, como uma mudança de padrões de energia em uma área concreta.

Essa idéia lhe pareceu mais prática que a de construir refúgios imaginários para imaginários espelhos. Preferia fazer algo para deter esses repentinos sentimentos mórbidos, em vez de simplesmente aprender a dirigi-los. Fez o que Dante dizia, inclinou-se sobre ele e deixou que suportasse parte de seu peso enquanto fechava os olhos e mentalmente começava a procurar algo estranho. Não sabia o que estava fazendo ou o que estava "procurando" mas se sentia melhor tentando.

― Supõe-se que isto funcionasse de verdade? ― perguntou contra o ombro dele. ― Ou está só me distraindo?

― Isto deveria funcionar. Cada um tem um campo de energia pessoal, mas alguns são mais fortes que outros. Uma pessoa sensitiva tem uma consciência mais ampla de ditos campos de energia. Deveria ser capaz de dizer de onde vem um mais enérgico, algo assim como a capacidade de dizer de onde vem o vento.

Tinha sentido para ela, exposto de forma que pudesse entender. A questão se baseava em se era sensitiva… por que não sentia isso de forma regular? Além daquela vez em Chicago, quando tinha ficado morta de medo pelo que a tinha espreitado naquele beco, nunca tinha sido consciente de nada insólito.

Alguns são mais fortes que outros, havia dito Dante. Talvez a maior parte de sua vida tinha estado rodeada de gente normal. Por isso, estes sentimentos deveriam significar que as pessoas que tinha agora ao redor não eram e seus campos de energia eram muito potentes.

O mais forte de todos era da pessoa que a tinha em seus braços. Concentrando-se nisso, decidiu tomá-lo como medida, como modelo para comparar tudo o que descobrisse. Podia sentir fisicamente toda a força dos poderes de Dante, quase como se alguma energia estática lhe rodeasse o corpo inteiro. A sensação era muito poderosa para resultar agradável mas tampouco era desagradável. Melhor excitante e sexual, como se pequenas pontas de alfinetes de fogo entrassem em seu corpo.

Mantendo uma parte da sensação em primeiro plano de seus pensamentos, começou a ampliar sua consciência, procurando lugares que tivessem fortes correntes. Era, pensava ela, como tentar pescar uma truta.

Ao princípio, não havia nada mais que um fluxo normal de energia, embora de muitas pessoas diferentes. Dante e ela estavam rodeados por policiais, bombeiros, médicos, gente que tinha vindo em sua ajuda. Seu fluxo de energia era afetuoso e consolador, preocupado, protetor. Eram boas pesssoas, todos tinham suas esquisitices mas no fundo eram bons.

Ampliou o círculo mental. O padrão aqui era ligeiramente diferente. Estavam os espectadores, os fofoqueiros, os que tinham curiosidade mas não se moviam para ajudar. Queriam mexericar sobre o acidente, sobre ter estado na fila X número de horas como se fosse algo difícil de agüentar, mas não queriam fazer nenhum esforço. Eles…

― Ali!

Sobressaltou-se, um pouco alarmada pelo que estava sentindo.



― Onde está? ― sussurrou Dante contra seu cabelo, apertando os braços.

Provavelmente as pessoas ao redor deles pensava que a estava consolando, ou que se aferravam o um ao outro agradecidos por não ter sofrido nenhum dano.

Ela não abriu os olhos.

― A minha esquerda. Aproximadamente… não sei cem metros, talvez. A um lado, como se estivesse encolhendo o ombro.

― Ele?

― Ele ― respondeu ela, definitivamente.



***

― Nossos amigos falharam completamente ― disse o capanga de Ansara indignado, baixando os binoculos que sustentava com uma mão para se concentrar no telefonema. ― Ele destroçou o carro mas não estão feridos.

Rubén amaldiçoou em voz baixa. Supôs que isto só provava o velho refrão: "Se quiser que algo se faça bem, faça você mesmo".

― Suspende a vigilância ― disse ― tenho algo mais em mente.

Os planos tinham sido muito complexos. O melhor plano era o mais simples. Havia menos detalhes em que podiam falhar, menos gente que pudesse estragar as coisas, menos oportunidades de que o objetivo notasse.

Em vez de tentar fazer que a morte de Raintree parecesse um acidente, o mais fácil era esperar até o último minuto, quando seria muito tarde para que o clã se reunisse no santuário, então simplesmente lhe colocar uma bala na cabeça.

O simples sempre era o melhor.

― Já vejo de quem está falando ― disse Dante ― mas não posso descobrir nada dessa distância. Não parece estar fazendo algo, só está parado fora de seu carro como várias pessoas.

― Olhe ― disse Lorna ― está nos olhando.

― Pode me dizer algo de seu campo de energia?

― Está enviando um monte de ondas. Ele é mais forte que qualquer pessoa senti por aqui, mas, hum… diria que em nenhum lugar próximo há alguém tão forte como você.

Ela levantou sua cabeça e abriu os olhos.

― Ele é o único estranho pelo que sei. Está certo de que não estou imaginando isso?

― Estou certo. Tem que começar a confiar em seus sentidos. Provavelmente ele simplesmente está…

― Senhor Raintree ― disse um dos policiais fazendo gestos para Dante.

Deu um beijo rápido na boca de Lorna, logo a soltou e foi até o policial. Quisesse ou não, Lorna o seguiu, embora parou asssim que pôde, quando o controle já não a estava empurrando para avançar.

A cena do acidente começava a se esclarecer; as testemunhas tinham feito suas declarações, e cada vez mais pessoas conseguiam manobrar seus veículos ao redor do destruído Jag, os restos do choque e todos os veículos de resgate. Tinham chegado duas gruas, uma para rebocar o jaguar de Dante, a outra para pegar o carro envolvido no acidente porque tinha o radiador quebrado. Antes que levassem seu pobre carro, Dante tirou sua carteira e seu seguro do porta-luvas, assim como o controle da porta da garagem. Dado o destroços em que tinha ficado o carro, encontrar algo inteiro era um descobrimento.

Tudo o que Lorna sabia era que Dante não estava absolutamente aborrecido pelo Jaguar. Parecia-lhe uma moléstia, mas o carro em si mesmo não significava nada para ele. Já tinha tomado providências, um carro de aluguel o esperaria no hotel e um de seus muitos empregados estava a caminho para buscá-los. Como ela sempre tinha suspeitado, o dinheiro sempre ajuda a salvar as dificuldades na vida.

Pensar em dinheiro a impulsionou a colocar despreocupadamente a mão no bolso esquerdo dianteiro. O dinheiro continuava ali, sua licença de motorista e as pequenas tesouras estavam no bolso direito. Não tinha nem idéia de que bem poderiam fazer aquelas tesouras em uma situação realmente perigosa, mas as conservava de todos os modos.

Notou que se sentia muito melhor. Que a desagradável, fria sensação, foi embora. Deu a volta e observou onde tinha estacionado o observador. Não estava ali, nem seu carro tampouco. Coincidência, perguntou-se, ou causa e efeito?

E não era estranho que ela tivesse aquela insuportável sensação de frio antes do incêndio no cassino, como antes de que quase fosse baleada no tiroteio entre guangues? Talvez não estava reagindo a uma pessoa em concreto, e sim a algo que estava a ponto de ocorrer. Ou melhor a frieza era uma advertência. Certamente, também tinha tido esse sentimento pouco antes de que Dante lhe desse um Mcmuffin para tomar no café da manhã, mas a idéia ainda podia seguir em pé: Cuidado! Mcmuffin aproximando-se!

Quase havia chegado a aceitar aquilo da clarividência, porque mesmo quando tinha passado parte de sua vida insistindo em que simplesmente era boa com os números, sempre soube que era mais que isso. Não queria descobrir ainda seus outros talentos, em particular um que parecia ser inútil. Uma advertência estava bem se soubesse o que estava enfrentando. De outra maneira, para que se incomodar?

― Nosso carro esta aqui ― disse Dante, aparecendo por trás e descansando a mão na curva da cintura de Lorna. ― Quer vir ao hotel comigo ou voltar para casa?

― Casa? Estava se refirindo a sua casa como se fosse a dela também? Olhou para ele, lista para desfazer seu engano e as palavras morreram em seus lábios. Olhava-a com uma ardente e firme intenção; não tinha sido um lapsus linguae e sim uma advertência de outra classe.

― Ambos sabemos aonde vamos com isto ― disse ― tenho uma suíte no hotel e os eletricistas arrumaram a luz ontem, então está em ordem. Pode vir ao hotel ou ir para casa, mas de qualquer forma vai estar por minha conta. A única diferença é que se for para casa terá mais tempo, se precisar.

Lorna ia precisar mais que tempo, mas estar de pé na beira da interestadual não era o lugar ideal para ter a discussão que sabia que se aproximava.

― Ainda não decidi se vou dormir contigo ou não, e irei no meu ritmo, não no teu ― respondeu. ― Irei contigo ao hotel porque não quero passar outro dia fechada nessa casa, assim não fique todo metido, Raintree.

A expressão de intensa concentração desapareceu, para ser substituída por uma de ironia. Avisando a si mesmo disse:

― Muito tarde.

Capítulo 20


Lorna estava muito agitada para apenas se sentar na suíte de Dante, enquanto ele estava literalmente por toda parte do hotel, dirigindo a limpeza e os reparos, andando com os peritos do seguro, reunindo-se com empreiteiros. Seguiu seus passos, escutando mas sem participar. Os detalhes entre os bastidores de um hotel de luxo eram fascinantes. O lugar estava à espera também. Em lugar de esperar até que a companhia de seguros pagasse, ele havia trazido os peritos para tirar fotos; depois continuaria com os reparos usando seu próprio dinheiro.

Que fosse capaz de fazer algo assim lhe dizia que era extremamente rico, o que fazia de seu estilo de vida algo mais que uma declaração a respeito de Dante. Não tinha um exército de criados esperando por ele. Vivia em uma magnifica casa, mas não era uma mansão. Conduzia carros caros, mas os conduzia ele mesmo. Preparava seu próprio café da manhã, carregava sua própria lava-louça. Gostava do luxo, mas estava satisfeito com muito pouco.

Quando aconteceu isto ao hotel, entretanto, foi inflexível. Tudo tinha que ser de primeira classe, do papel higiênico dos banheiros aos lençóis nas camas. Um quarto que tivesse sido prejudicado pela fumaça não podia ser limpo e descrito como "bastante bom." Tinha que ser perfeito. Tinha que ser melhor do que tinha sido antes do incêndio. Se o aroma de fumaça saía das cortinas, as cortinas eram desprezadas; igual aos quilômetros de tapete.

Lorna descobriu que no dia anterior tinha sido uma casa de loucos, com hóspedes com permissão para ir a seus quartos e recuperar seus pertences. Devido ao fato de que o cassino destruído estava anexo ao hotel, por questões de segurança os hóspedes tiveram que ser escoltados para se assegurar de que sua curiosidade não os conduzisse aonde não devessem ir.

Um cassino existia por uma só razão, e essa razão era o dinheiro. Em um breve momento em que teve tempo para conversar, contou a Lorna que mais de seis milhões de dólares por dia tinham que passar pelo cassino só para que ele cobrisse seus gastos, e já que todo o sentido de um cassino era sua generosa margem de lucro, a quantidade de dinehiro vivo com a que ele realmente lidava diariamente era alucinante.

A sucata acre de máquinas caça-níqueis, derretidas e carbonizadas, continham milhares e milhares de dólares, por isso os destroços tiveram que ser vigiados durante vinte e quatro horas até que as máquinas pudessem ser transportadas e salvar seu conteúdo tanto quanto pudessem ser. Aproximadamente a metade delas tinha vomitado boletos impressos em vez de despejar cuartos18, que salvaram tanto tempo como dinheiro. A caixa forte de moedas e a câmara blindada principal eram incombustíveis, salvando assim uma quantidade de dinheiro enorme, os empregados situados nos caixas tinham evitado sair até ter salvo o dinheiro, o qual tinha sido muito leal por parte deles, mas não muito inteligente: as duas vítimas tinham sido de suas filas.

O inspetor do departamento de bombeiros estava finalizando sua investigação quando Dante o encurralou.

― O incêndio foi provocado? ― exigiu sem rodeios.

― Tudo indica que sua natureza era elétrica, senhor Raintree. Não encontrei nenhum rastro de aceleradores na fonte do incêndio. As chamas alcançaram temperaturas excepcionalmente altas, assim tenho suspeitas, admito.

― Então quando os detetives me interrogavam aqui, imediatamente depois do incêndio no domingo de noite, você não tinha começado sua investigação. Isto não era a cena de um delito.

O inspetor do departamento de bombeiros esfregou o nariz.

― Não o informaram? Entrou uma chamada aproximadamente no momento em que começou o incêndio. Algum louco afirmou que estava incendiando o cassino. Quando o localizaram, resultou que esta pessoa estava comendo em um dos restaurantes e quando o alarme de incêndios disparou, ele tirou seu cômodo celular e fez uma tentiva de levar a glória. Tinha bebido muito.

O chefe sacudiu a cabeça.

― Algumas pessoas estão malucas.

Dante encontrou com o olhar fixo de Lorna; ambos pesarosos.

― Perguntávamo-nos que era que tinha acontecido. Já começava a me sentir como um teórico de conspiração ― disse.

― Coisas estranhas acontecem nos incêndios. Uma delas é como é que vocês dois estão vivos. Não tinham nenhuma proteção absolutamente, mas o calor e a fumaça não os feriram. Assombroso.

― Senti como a fumaça nos alcançava ― disse Dante em um tom seco. ― Pensei que estava em meus pulmões.

― Mas suas vias respiratórias não tinham nenhum dano significativo. Vi morrer pessoas que enfrentaram menos fumaça que a que vocês dois respiraram.

Lorna se perguntou o que ele pensaria se pudesse ver como ficou o Jaguar de Dante, já que os dois andavam sem uma contusão.

Não, não era correto. Franzindo o cenho, olhou para Dante, realmente o olhou. Tinha tido um corte no rosto, onde o impacto da bolsa de ar literalmente tinha aberto a pele sobre o maçã do rosto. Estava machucado e inchado e seu braço esquerdo ferido.

Só alguumas horas mais tarde, sua bochecha parecia bem. Ela não podia ver nada do corte. Não havia nenhum inchaço, nenhuma contusão. Sabia que não tinha imaginado porque havia sangre em sua camisa e ele tinha ido à suíte para se trocar; em vez da camisa de pólo, agora usava uma camisa branca social com os jeans, as mangas enroladas até expor seu antebraço esquerdo, não machucado.

Ela não tinha nenhuma contusão, tampouco. Depois do modo que tinha sido golpeada por toda parte, deveria ter ao menos alguns músculos rígidos e doloridos, mas se sentia bem. O que acontecia?

― Era um beco sem saída ― comentou depois o inspetor do departamento de bombeiros, que tinha se afastado e inspecionava o dano feito ao cenário.

― A estupidez de algumas pessoas é alucinante.

―Sei ― disse ela distraídamente, ainda perseguindo mentalmente o mistério do desaparecimento do corte. Havia alguma forma de perguntar diplomaticamente a um homem, você é humano?

Mas e sua própria falta de contusões? Sabia que ela era humana. Era parte de suas habilidades? Tinha uma maneira de mantê-la segura dos ferimentos?

―O corte em seu rosto ― perguntou, muito inquieta para se calar. ― O que aconteceu com ele?

―Me curo rápido.

― Não me solte essa tolice ― disse, mais zangada que quando a havia obrigado. ― Sua maçã do rosto estava machucada e inchada, e a pele estava aberta faz apenas umas horas. Agora não há uma só marca.

Fez para ela um gesto rápido como um relâmpago, então disse:

― Vamos até a suíte, então poderemos conversar. Há algumas coisas que não mencionei.

― Sem brincadeiras ― resmungou ela quando passaram pelos escritórios do hotel para o elevador privado, que ia apenas para sua suíte.

O escritório estava no mesmo andar, mas estava separado da suíte, do outro lado do hotel. Quando o chefe de segurança a havia arrastado até ali, tinham usado um dos elevadores públicos. “Não me estranha que não houvesse nenhuma outra pessoa no andar quando eles o evacuaram”, pensou; “o andar inteiro era dele”.

A suíte de mil metros quadrados se sentia e se parecia com qualquer suíte de hotel de luxo: completamente impessoal. Ele havia dito que as únicas vezes que passava a noite ali era quando alguma complicação o mantinha no cassino, tão tarde que conduzir até a casa era ridículo. Os quartos eram grandes e confortáveis, mas não havia nada dele ali, exceto as mudas de roupa que guardava para as emergências.

Era estranho pensou, ela conhecia seu gosto em mobiliário, suas cores preferidas, as obras artísticas que ele tinha escolhido pessoalmente. Algum desenhista de interiores que se especializava em hotéis, não em casas, tinha decorado a suíte.

Ele desceu os dois degraus que levavam a sala de estar rebaixada e às janelas. Tinha notado que ele tinha preferência pelas janelas. Gostava do vidros e aos montes, mas gostava mais de estar fora, que era pelo que a suíte tinha uma varanda banhada pelo sol, grande o bastante para conter uma mesa e cadeiras, uma sala de jantar ao ar livre.

― Bem ― disse ela ― agora me diga como as contusões e os cortes se desvaneceram só em algumas horas. E enquanto está nisso, me diga por que não estou machucada também. Não estou nem sequer dolorida!

― Isso é fácil ― disse tirando um amuleto de prata de seu bolso e cobrindo a corda com sua mão, de maneira que o amuleto enchia sua palma. ― Isto estava no porta-luvas do carro.

O pequeno amuleto era alguma espécie de ave em vôo, talvez uma águia. Ela sacudiu a cabeça.

― Não compreendo.

― Este é um amuleto de proteção. Falei para você sobre eles. Gideon me fornece isso. No geral me envia amuletos de fertilidade.

Lorna se sacudiu para trás, fazendo uma cruz com os dedos como se afugentasse um vampiro.

― Mantenha essa coisa longe de mim!

Ele riu entre dentes.

― Disse que isto é um amuleto de proteção, não um amuleto de fertilidade.

― Quer dizer que isso é como uma camisinha que se coloca ao redor de seu pescoço em vez de colocá-lo em seu pênis?

― Não esse tipo de proteção. Este tipo previne o dano físico ou o minimiza.

― Pensa que por isso que não fomos feridos hoje?

― Sei que foi isso. Desde que é polícial, Gideon usa um o tempo todo. Este chegou pelo correio sábado, o que significa que acabou de fazê-lo. Não sei por que fez um amuleto de proteção em vez de um amuleto de fertilidade, a menos que agora tenha um complô diabólico para disfarçar finalmente um amuleto de fertilidade como um amuleto de proteção, mas esse é o verdadeiro trato. Com o solstício perto, seus dons devem estar fora dele, assim como fazem os meus às vezes. Deve ter infundido um inferno de encantamento ― disse admiradamente. ― Não o tinha usado. Só o coloquei no porta-luvas e me esqueci dele. Normalmente os amuletos são para indivíduos específicos, mas quando nenhum de nós foi ferido hoje... Suponho que deve afetar a qualquer um dentro de uma certa distância. Essa é a única explicação.

Realmente, aquilo era um pouco tranqüilizador. Até gostou do modo em que ele o tinha expresso: Infundido um inferno de encantamento.

― Faz que se cure mais rápido, também?

Dante sacudiu a cabeça quando deslizou o amuleto em seu bolso.

― Não, isto é só uma parte de ser Raintree. Quando digo que me curo rápido, quero dizer realmente, realmente rápido. Um pequeno corte assim não é nada. Um corte mais profundo poderia levar toda a noite.

― Que terrível para você ― disse ela franzindo o cenho. ― Que outras injustas vantagens tem?

― Vivemos mais tempo que a maioria dos humanos. Não muito mais, mas nossa expectativa de vida média é aproximadamente de noventa a cem anos. São no geral bons anos também. Tendemos a estar realmente saudáveis. Por exemplo, nunca estive resfriado. Somos imunes aos vírus. As infecções bacterianas ainda podem nos afetar, mas os vírus basicamente não reconhecem nossa composição celular.

De todas as coisas que havia dito, não ter tido alguma vez um resfriado lhe parecia o mais maravilhoso.

― Isso significa também que nunca teve gripe e… Não pode se contamoinar com a AIDS!

― Isso. Nós funcionamos mais quentes que os humanos, também. Minha temperatura está geralmente ao redor dos cem graus. O tempo tem que se estar realmente, realmente frio antes de que me sinta incômodo.

― Isso é tão injusto ― se queixou ela. ― Quero ser imune aos resfriados e à AIDS também.

― Nem sarampo ― murmurou ele. ― Nem varicela. Nem herpes. Nem resfriado. ― Seus olhos dançavam com alegria. ― Se realmente quer ser Raintree e não ter nunca o nariz congestionado outra vez, há uma forma.

― Como? Enterrar um frango no lado escuro da lua e correr para trás ao redor de um toco sete vezes?

Ele fez uma pausa, detido pela imagem.

― Tem uma imaginação muito estranha.

― Me diga! Como alguém se torna Raintree? Qual é o ritual de iniciação?

― É um antigo. Já ouviu dele.

― O do frango é o único que conheço. Vamos, que é?

Seu sorriso era lento e quente.

― Tenha um bebê meu.

Capítulo 21


Lorna ficou pálida, em seguida se ruborizou e em seguida empalideceu de novo.

― Não tem graça ― disse em um tom sufocado, se levantando para dar voltas inquietamente ao redor do quarto. Ela recolheu uma almofada e a acomodou, mas em lugar de recolocá-la no sofá, levantou-se com ela abraçada ao peito, inclinando a cabeça.

― Não estou brincando.

― Não... não deveria ter um bebê como um meio para conseguir um fim. As pessoas que não querem bebês para eles mesmos nunca, nunca deveriam tê-los.

― De acordo ― disse ele brandamente, afastando-se das janelas e caminhando para ela pausadamente como se ele não tivesse um destino, nenhum plano.

― Não é algo para fazer a toa. ― Ele jogava sujo, dizendo Tenha um bebê meu como se fosse a sério. Não podia dizer isso a sério. Só fazia dois dias que se conheciam. Isso era algo que os homens diziam para seduzir as mulheres, porque centenas de séculos atrás algum ardiloso bastardo supôs que à maioria das mulheres podiam ser controladas por meio dos bebês.

― Estou levando isso muito a sério, prometo isso. ― Seu tom era cortês enquanto tocava seu ombro, curvando a palma sobre seu contorno antes de deslizar a mão por suas costas. Ela sentiu o calor se transferindo de sua pele para a dela, ardendo através de suas roupas. As gemas dos dedos procuraram sua coluna vertebral, acariciando-a para baixo, apagando brandamente a tensão que pulsava sob a pele.

Ela não se deu conta de que estava tão tensa, ou que a suave massagem a deixava como a manteiga. Permitiu-lhe que a aproximasse contra ele, apoiando a cabeça em seu ombro, porque tudo o que fazia a deixava bem. Tranqüila... o olhou com olhos entreabertos.

― Não ache que não notei o quanto essa mão está perto do meu traseiro.

― Estaria desiludido se não notasse. ― Um sorriso curvou sua boca quando depositou um beijo quente, e depois outro, em sua têmpora.

― Não a desca mais ― avisou.

― Tem certeza?

Começando no côs de seu jeans, ele deslizou um dedo pela costura central, descendo, pressionando ligeiramente, enquanto sua cálida palma massageava o traseiro. Esse dedo deixava um rastro de fogo atrás de si, fazendo ela se retorcer e estremecer e começar, ao menos dez vezes, a dizer que não. Ele se deteria se dissesse. A decisão de continuar ou não, era dela ― mas essa segurança era o que a impedia de pronunciar uma só palavra. Em lugar disso, o que fez foi ficar sem fôlego com angustiada antecipação, e se arquear, e agarrar ― esperando, esperando, centrando sua atenção no lento avanço de sua carícia, como sua mão deslizava lentamente entre suas pernas desde detrás. Ele então pressionou mais forte, seus dedos roçando contra sua entrada através de seu jeans, de forma que a fricção da costura raspava ligeiramente sua carne que estava suave e elástica.

Ele a esteve atraindo a este ponto durante dias, desde essa primeira vez que se beijaram em sua cozinha, alimentando pacientemente a faísca do desejo até que se converteu em uma pequena chama, depois, mantendo a chama com toques fugazes e algo ainda mais difícil de resistir: seu manifesto desejo por ela. Podia reconhecer o que ele fazia, ver os sutis avanços, e inclusive apreciar o domínio de sua contenção. Se meter na cama com ela a passada noite, sem tocá-la, tinha sido diabólicamente inteligente. Desde o momento em que se conheceram, ele a tinha obrigado a fazer várias coisas, mas não tentou nem sequer uma vez forçar sua resposta. Ela teria se fechado em banda se tivesse feito. A faísca teria se apagado, e ela não teria deixado que fosse acesa de novo.

Seu boca cálida percorreu a linha de sua mandíbula, mordiscando com suavidade e deleneando, como se ele não quisesse nada mais que isso e tivesse todo o tempo do mundo para saboreá-la. Só a duríssima protuberância em seu jeans deixava transparecer urgência, e ela estava tão fortemente apertada contra ele que podia sentir cada contração nervosa, cada pulsação, que a incitavam a separar suas pernas e lhe permitir aproximar-se ainda mais.

Depois, sua boca se fechou sobre a sua e o último farrapo de controle se dissolveu. O beijo era duro, profundo e faminto, sua língua tomando sua boca. O desejo chispava por seus nervos, deixava-a quente, rendida e como se não tivesse ossos. Sua mão livre se moveu até seus seios, encontrou seus mamilos através das camadas de tecido, beliscou-os brandamente para endurecê-los. Ele a tinha agora; Ela não impedia nenhuma de suas carícias, e a roupa que separava seu corpo do dele era repentinamente enloquecedora. Ela queria o resto, tudo o que ele tivesse para dar, e com um brilho de clareza, ela soube que tinha que dizer o que queria dizer agora. Um minuto mais poderia ser muito tarde.

A prova do longe que ela tinha chegado estava na quantidade de força de vontade que precisou para separar sua boca da dele.

― Precisamos conversar ― disse ela com voz tensa e rouca.

Ele gemeu e riu ao mesmo tempo.

― Oh, Meu Deus! ― resmungou, a frustração era evidente em seu tom. ― As quatro palavras que garantem que um homem se paralise de medo. Não pode esperar?

― Não, se trata disso. De nós. Agora.

Ele lançou um suspiro e pressionou sua testa contra a dela.

― Tem um sádico senso de oportunidade, sabia?

Lorna deslizou as mãos pela seda negra de seu cabelo, sentindo o frescor das mechas, o calor de seu couro cabeludo.

― É culpa sua. Quase o esqueço. ― Sua língua parecia um pouco grosa, seu discurso mais lento que o normal. Sim, isto era definitivamente culpa dela, tudo isso.

― Falemos então. ― A resignação era evidente em suas palavras, a resignação de um simples macho que só queria ter relações sexuais. Ela teria rido, se não fosse pelo pesado puxão do desejo que ameaçava turvar todo o resto.

Ela tragou saliva, lutou para conseguir alinhar as palavras em sua cabeça para poder dize-las de forma coerente.

― Minha resposta... sobre se faremos ou não... depende de você.

― Voto sim ― respondeu ele, mordendo seu lóbulo.

― Esta coisa de controle mental... tem que parar. Posso ser sua prisioneira ou sua amante, mas não serei ambas.

Ele levantou então sua cabeça, seu olhar se tornou frio e afiado.

― Não há nenhum controle mental envolvido nisto. Não estou forçando você. ― A cólera entrecortava suas palavras.

― Sei ― disse ela, lançando um trêmulo suspiro. ― Posso notar a diferença, acredite em mim. É que... tenho que ter escolha, seja de ficar ou ir. Tem que haver liberdade. Não pode continuar me guiando como uma boneca.

― Era necessário.

― A princípio. Depois odiava isso, odeio isso agora, embora tivesse razões válidas no princípio. Agora não. Acho que está muito acostumado a fazer tudo a sua maneira, Dranir.

― Teria escapado ― disse ele categricamente.

― Minha escolha. ― Ela não podia se render nisto. Dante Raintree era uma força da natureza; lidar com ele em uma relação seria o suficientemente desafiante mesmo sem sua habilidade para prende-la com um pensamento. Ele tinha que ceder ante o livre-arbítrio dela ou sua única relação seria a de carcereiro e prisioneira.

― Somos iguais... ou não somos nada.

Lê-lo não era fácil, mas ela podia ver que não gostava de renunciar ao controle absolutamente. Intuitivamente, ela captou seu dilema. A um nível puramente intelectual, ele entendia. A um nível mais primitivo, ele não queria perdê-la, e ele estava disposto a ser tão autocrático e autoritário quanto fosse necessário.

― Tudo ou nada. ― Encontrou seu olhar, enfrentando ele como lutadores em um ringue de boxe. ― Não pode usar o controle mental sobre mim nunca mais. Não sou sua inimiga. Em algum momento tem que confiar em mim, e esse momento é agora. Ou pensava me conservar presa para sempre?

― Não para sempre ― resmungou ele. ― Só até…

― Até o que?

― Até que quisesse ficar.

Ela sorriu ante essa áspera admissão e agarrou seu cabelo com ambas as mãos.

― Quero ficar ― disse simplesmente, e o beijou no queixo. ― Mas em algum momento poderia querer ir. Tem que fazer sua escolha, e se esse dia chega, tem que me deixar ir. Eu faço a mesma escolha contigo, que um dia poderia não me querer a seu lado. Quero sua palavra. Me prometa que nunca mais usará o controle mental comigo.

Ela via sua fúria e sua frustração, via sua mandíbula marcar-se ao apertar os dentes. Sabia o que estava pedindo a ele, renunciar a um poder estava contra cada instinto que ele tinha, tanto como homem e como Dranir. Ele vivia em dois mundos, o normal e o paranormal, e em ambos ele era o chefe. Mesmo subestimando como mantinha as coisas, ele ainda era o chefe. Se não fosse o Dranir Raintree, seu natural predomínio estaria mais controlado, mas a realidade era a que era, e ele era um rei nesse mundo.

Abruptamente ele deixou cair seus braços e deu um passo atrás. Seus olhos estavam entreabertos e ferozes.

― Pode ir.

Lorna mal controlou um protesto pela perda de seu tato, de seu calor. O que ele estava dizendo?

― Está me dando sua permissão… ou uma ordem?

― Uma promessa.

De repente respirar foi difícil. Seus lábios tremiam, ela os apertou e começou a falar, mas ele levantou uma mão para detê-la.

― Uma coisa.

― O que?


O verde de seus olhos quase resplandecia, estavam tão determinados.

― Se ficar... os freios acabam.

Um aviso oportuno, pensou ela aturdida, um pouco trêmula pela antecipação.

― Fico ― conseguiu dizer, dando meio passo a frente.

Meio passo foi tudo o que ela teve tempo de dar antes que ele se movesse, uma explosão de poder contido, agora era livre de toda restrição. Se ela era livre, então ele também. Ele a levantou e a levou ao dormitório, movendo-se tão rápido que sua cabeça dava voltas. A lenta e cuidadosa sedução tinha terminado, e só ficava o puro desejo. Lançou-a sobre a cama e a seguiu, puxando suas roupas, seus movimentos eram bruscos pela urgência, embora ela o ajudasse com mãos trêmulas, enquanto abria botões e zíperes, ganchos e cordões. Ele tirou de um puxão os sapatos e os jeans, enquanto ela lutava por desabotoar sua camisa, deslizou a roupa interior pelas pernas dela, enquanto ela lutava por descer seu zíper, com dificuldade pelo impulso de sua ereção.

Ele desceu de um puxão seu jeans e cueca, e os chutou fora. Lorna tentou alcança-lo, tentou acaricia-lo, mas ele era uma onda gigantesca que a comprimia contra a cama e a esmagava sob seu peso. Sua penetração não foi cuidadosa, foi dura, rápida e poderosa, levando-o até o fundo.

Ela lançou um grito sufocado, seu corpo se estremeceu pelo impacto embora se elevou para encontrá-lo. Seu calor a queimava, por dentro e por fora. Ele se separou, empurrou outra vez, e outra. Seu cérebro gaguejou uma advertência do que esse calor queria dizer, e ela conseguiu dizer:

― Camisinha.

Ele preguejou, separou-se, e abriu bruscamente uma gaveta da mesinha. Ele rompeu a primeira camisinha, ao desenrolá-la. Preguejando ainda mais, foi mais devagar, teve mais cuidado com a segunda. Quando estava embainhado de forma segura, empurrou nela outra vez, a mantinha presa a ele, seus corpos se moviam juntos enquanto o alívio os estremecia. As lágrimas rolavam por seu rosto. Isso não era um orgasmo, era... alívio puro, como se a dor incontrolável repentinamente tivesse desaparecido. Era uma culminação… não uma sexual, e sim algo que foi mais profundo, como se uma parte de si mesma houvesse se perdido e aparecesse de repente.

Estava completa, quando ela não sabia o quanto estava vazia; Farta, quando ela não sabia que tinha fome.

Ele se levantou, suportando seu peso em seus braços enquanto retrocedia, em seguida avançando com um impulso lento, profundo.

― Não chore ― murmurou, beijando as lágrimas de sua cara molhada.

― Não estou ― disse ela ― só é um desabafo.

― Ah.


Disse isso como se entendesse, e talvez entedesse. Ele prendeu seu olhar e a suspendeu enquanto se movia para frente e para trás, provocando sua resposta, indo até o fundo para encontrar mais. Ela estava relaxada e tensa ao mesmo tempo: relaxada porque sabia que ele não ia abandona-la, e tensa pelo crescente prazer.

Ocorreu mais rápido do que ela teria acreditado possível. Em lugar de flutuar fora de seu alcance, elevando-se lentamente, ela experimentou abruptamente uma sensação que rugiu através de todo seu corpo. Dante se deixou ir, impulsionando-se rápida e profundamente, e a seguiu.

Quando ela conseguiu respirar de novo, abrir os olhos, a primeira coisa que viu foi fogo. Todas as velas do quarto estavam acesas.

***


― Me diga por que renunciou a seu dom.

Jaziam entrelaçados, a cabeça dela no ombro dele, mal tinham se recuperado do que haviam sentido, tal cataclismo que nenhum deles tinha falado durante muito tempo. Em lugar disso se acariciaram lentamente um ao outro, o tato substituindo às palavras, toques de tranqüilidade e conforto, de silenciosa alegria.

Ela suspirou, pela primeira vez em sua vida se sentia um pouco distanciada da infelicidade de sua infância.

― Acho que já sabe. Não é uma história original, ou interessante.

― Provavelmente não. Me conte de qualquer forma.

Ela sorriu contra de seu ombro, contente que ele não fizesse um grande problema disso, embora o sorriso murchou quase tão rápido como tinha florescido. Falar de sua mãe era difícil, embora tivesse quinze anos a última vez que a viu. Talvez nunca seria fácil, mas ao menos a dor e o medo eram menos imediatos.

― Embora seja ruim, para uma grande quantidade de crianças é pior. A única razão porque ela não me abortou foi que assim podia obter o cheque mensal. Ela me dizia isso todos os meses quando chegava. Sacudia o envelope em frente a mim e dizia, “esta é a única razão pela que está viva, monstro”. Esse cheque a permitia conseguir drogas e bebida.

Ele não disse nada, embora sua boca estivesse apertada.

Sua cabeça encontrou um lugar mais confortável em seu ombro, e se aconchegou contra ele, absorvendo seu calor. Ela sabia que ele sentia calor, mas era bonito saber que não tinha imaginado coisas.

― Havia bofetadas constantemente, e me lançava as coisas, taças, garrafas de vinho vazias, um abridor de latas. O que quer que tivesse perto. Uma vez lançou uma lata de sopa de frango com macarrão, bateu na minha cabeça, e me deixou inconsciente. Tive dor de cabeça durante dias inteiros. E ela não me deixou me comer a sopa.

― Quantos anos tinha?

― Essa vez... seis, acho. Tinha começado à escola e tinha descoberto os números. Algumas vezes estava tão excitada que tinha que contar a alguém o que tinha aprendido sobre os números esse dia, e ela era a única que tinha. Disse a minha professora que tinha caído e golpeado a cabeça no meio-fio.

― Estaria melhor a cargo dos serviços sociais ― grunhiu ele.

― Acabei ali quando tinha dezesseis anos. Ela saiu um dia e nunca retornou. Recordo... embora ela tinha deixado claro quanto me odiava, quando partiu foi como se parte de mim faltasse, porque ela era o que conhecia. Então não estava indefesa, mas era pequena... não importa o quanto seja ruim, as crianças fazem qualquer coisa para se agarrar que consideram uma família, sabe? ― suspirou. ― Sei que exagerei sobre o bebê. Sinto muito. Disse “bebê”, e isso é um de meus interruptores.

Um pequeno sorriso curvou sua boca.

― Não se incomode outra vez, mas não estava brincando. Quando uma mãe humana dá a luz a um bebê Raintree, ela se converte em Raintree. Não, não entendo a ciência disso. Algo a ver com hormônios e a mistura de sangue, e o bebê sendo geneticamente dominante. Não estou seguro de haver alguma ciência que explique. A magia não precisa ser lógica.

A explicação a intrigou. Tudo o que tinha aprendido a respeito dos Raintree a intrigava. Era um mundo tão diferente, uma experiência diferente, e existia normalmente dentro do mundo real, não no mundo real que conheciam, porque se isso alguma vez acontecia, então sua existência não só não seria normal mas também poderia deixar de existir absolutamente. Lorna tinha poucas ilusões sobre o mundo em que vivia.

― O que acontece aos homens humanos que têm bebês com mulheres Raintree? O que muda para eles?

― Nada ― disse Dante ― permanecem humanos.

Isso não parecia justo, e assim disse. Dante encolheu de ombros.

― A vida não é perfeita. Tem que aceitar isso.

Não era mais que a verdade. Ela sabia aceitar. Também sabia que, agora mesmo, estava muito contente.

A mais ou menos dúzia de velas que havia no quarto dava calor o suficiente para começar a se sentir incômoda. Olhando a seu redor, ela se deu conta de que Dante e o fogo, anavm de mãos dadas. Não gostava do fogo, sempre lhe daria medo, mas... a vida não era perfeita. Tem que aceitá-lo.

― Pode apagar essas velas? ― perguntou.

Ele levantou sua cabeça do travesseiro e as olhou, como se não soubesse que ardiam.

― Maldita seja. Sim, não há problema. ― De repente, apagaram-se, as mechas fumegando brandamente.

Lorna subiu em cima dele e o beijou, sorrindo quando sentiu um salto de interesse contra a parte interior de sua coxa.

― Agora, menino grande, vejamos se pode acendê-las outra vez.

Capítulo 22
Domingo pela manhã.
Ela tinha ficado.

Dante voltou para o quarto vindo da varanda onde tinha presenciado o amanhecer, uma intensa satisfação o preenchia enquanto via Lorna ainda placidamente adormecida na cama. Só a parte superior de sua cabeça era visível, o cabelo de um vívido vermelho escuro contra o branco do travesseiro, mas era agudamente consciente do que significava o fato de não estar coberta pelo lençol.

Estava se sentindo mais segura. Não completamente segura, ainda não, mas mais segura. Quando estava na cama com ela, dormia estirada, relaxada, abraçada contra ele. Quando deixava a cama, embora fosse só por cinco minutos se encolhia em uma hermética, protetora bola. Um dia ― talvez não esta semana nem este mês, ou inclusive este ano, mas um dia ― desejava poder vê-la estirada durante o sono, com a cabeça descoberta, talvez não completamente coberta. Então poderia saber que se sentia segura.

E quando chegasse o dia que não sentisse a necessidade de checar constantemente seu paradeiro, poderia saber que se sentia seguro, também.

Ele não a checava constantemente; o orgulho não lhe deixava fazer isso nem a ela ou a ele mesmo, mas a necessidade, a ansiedade, estava sempre aí.

Na quarta-feira não foi com ele. Telefonou para a concessionária de Jaguar e lhe mandaram um carro novo, e ela ficou ali para recebê-lo. O vendedor telenou para dizer que a entrega tinha sido feita, mas Dante esperou que Lorna também telefonasse e lhe dissesse. Não tinha feito. Ele havia também recebido um carro, o dela ― um escândalo ao passar as marchas, um Corolla vermelho ligeiramente oxidado ― entregue aquela manhã, tinha sido agudamente consciente de que ela era livre, tinha carro, e dinheiro no bolso. Se quisesse partir, não poderia detê-la. Tinha dado sua palavra.

Tinha desejado telefonar, só para assegurar a si mesmo que ainda estava ali, mas não fez. Podia ir embora assim que que terminasse a chamada, assim falar com ela em qualquer momento era inútil. O único que podia fazer, que poderia fazer, era desejar. E rezar.

Não tinha reduzido seu trabalho. Sem importar o que acontecesse, se ficava ou partia, o trabalho tinha que ser feito. Conseqüentemente, era quase o anoitecer quando conduziu até ver o carro estacionado na garagem, com o completamente novo Jaguar estacionado fora, exposto ao sol e ao pó do ambiente. Enquanto a toda velocidade introduzia o Lotus em seu lugar, o único que tinha notado era o alívio tão grande que sentia e que o tinha deixado fraco. Deixou que o Jaguar ficasse fora; ver seu Corolla ainda ali era mais importante para ele que qualquer carro, sem importar o quanto era caro.

Reuniu-se com ele na porta da cozinha, usando um short curto e uma de suas camisas de seda, a cara carrancuda.

― São oito e meia. Estou faminta. Trabalha até tão tarde em circunstâncias normais? Tem alguma idéia do que vamos fazer para jantar?

Ele riu e avançou, e mostrou exatamente o que queria para jantar. Não havia dito nenhuma outra palavra sobre comida até depois das dez.

Na quinta-feira, foi ao hotel com ele. O trabalho continuava a um ritmo frenético. Tinha obtido a permissão para derrubar as ruínas carbonizadas do cassino, assim poderia ser reconstruído, e as coisas estavam tão agitadas que tinha delegado alguma autoridade a ela, porque ele não podia estar em dois lugares ao mesmo tempo. A um nível perverso, tinha desfrutado ao ver Lorna dando ordens a Al Franklin. Al, sendo Al, era otimista em respeito a tudo, mas Lorna conseguiu um monte de satisfação com o acordo. E ele conseguiu um montr de diversão por sua satisfação.

No almoço, foram à suíte e acenderam as velas. Duas vezes.

Na sexta-feira, não foi com ele, e tinha suado até o final desse dia, também. Quando chegou em casa, o alívio ao ver ainda ali seu carro tinha sido tão forte como tinha sido na quarta-feira, e então foi quando encarou a verdade.

Amava-a. Isto não era só sexo, só uma breve aventura, ou apenas algo. Era a verdadeira sensação. Amava sua coragem e valentia, seu mau humor. Amava os comentários embaraçosos, a tenacidade e a vulnerabilidade que odiava que visse qualquer outra pessoa.

Gideon se mijaria de rir quando descobrisse, não só tanto porque Dante foi agarrado, depois de tanto tempo, e se os anjos sorrissem, logo perderia sua posição como herdeiro natural.

O estomago de Dante se revolveu e sua barriga se tensionou. Na outra noite estava desembrulhando uma camisinha quando de repente se deu conta que não queria usar proteção. Lorna estava olhando, esperando, e ela tinha notado sua vacilação. Finalmente, sem uma palavra, tirou a camisinha e a tinha atirado a um lado, então encontrou seu olhar. Se ela quisesse que colocasse outro, faria. A decisão era dela.

Tinha lhe alcançado e atraído para si e a seu interior. Só de recordar a intensa meia hora que tinha seguido, o deixava de tal forma que a vela junto à cama flamejava com força.

Hoje era o solstício, e se sentia como se pudesse prender o mundo em chamas, como se sua pele ardesse com todo o poder que fervia dentro dele. Queria atrai-la debaixo dele, montá-la até que estivesse completamente vazio, até que ela tivesse tomado tudo o que ele tinha para dar. Primeiro, pensou, deviam ter uma conversa séria. Na noite anterior tinham feito algo que era muito importante para eles para deixar escapar.

Enquanto se sentava na borda da cama, apagou a vela, porque uma vela que já estava acesa era inútil como barômetro de seu controle. Esta conversa deveria estar carregada emocionalmente, por isso deveria ser muito cuidadoso.

Introduziu a mão sob o lençol e tocou a coxa nua.

― Lorna. Acorda.

Sentiu sua tensão, como sempre; então relaxou, e um sonolento olho cor avelã piscou e olhou por cima da borda do lençol.

― Por que? É domingo, o dia de descanso. Estou descansando. Pare com isso.

Puxou o lençol para baixo.

― Acorda. O café da manhã está pronto.

― Não está. Está mentindo. Estiva na varanda. ― Agarrou o lençol e o pôs sobre a cabeça.

― Como sabe isso, se estava dormindo?

― Não disse que estava dormindo, disse que estava descansando.

― Comer não é considerado como um trabalho. Venha. Tenho suco de laranja recém espremido, café, os bagels já estão na torradeira, e o amanhecer é genial.

― Para você, talvez, mas são cinco e meia de um domingo pela manhã, e não quero comer o café da manhã tão cedo. Quero um dia da semana em que não me arraste da cama ao “amanhecer e trinta”.

― No próximo domingo pode dormir, prometo. ― Melhor que lutar com ela pela custódia do lençol, introduziu a mão sob os cobertores, encontrou a coxa de novo e rapidamente para cima consegui beliscar o traseiro.

Chiou e saiu a toda pressa da cama, esfregando o traseiro.

― A vingança será um inferno ― avisou, enquanto empurrava o cabelo emaranhado fora do rosto e ia raivosamente para o banheiro.

Imaginava que seria. Dante sorriu amplamente enquanto voltava para a varanda.

Saiu cinco minutos depois, envolta em seu grosso penhoar e ainda carrancuda. Não usava nada debaixo do penhoar, assim desfrutou ao dar umas olhadas enquanto se deixava cair na cadeira em frente a ele. Também se abriu pela zona do pescoço, mostrando a corrente de ouro da que prendia o amuleto protetor que tinha lhe dado na noite da quarta-feira. Tinha feito especialmente para ela, aqui fora, na varanda, e a deixou olhá-lo. Estava encantada pelo modo em que ele sustentava o amuleto e o manteve elevado para que o fôlego o esquentasse enquanto murmurava umas poucas palavras em gaélico. O amuleto tinha ganho um suave brilho verde que se extinguiu rapidamente. Quando deslizou a corrente por sua cabeça ela tocou o amuleto, parecia que ia chorar. Não o tinha tirado depois disso.

Tão resmungona como quando despertou, não permaneceu muito tempo desse modo. No momento em que deu uma segunda dentada no bagel parecia muito mais alegre. Ainda assim, esperou que terminasse o bagel e que seu copo de suco estivesse vazio antes de dizer:

― Se casará comigo?

Teve a mesma reação de quando tinha mencionado o bebê. Empalideceu, depois ficou vermelha, depois saltou da cadeira e parou na balaustrada com as costas voltada para ele. Dante sabia muito sobre mulheres, mas mais especificamente, conhecia Lorna, assim não deixou que ficasse parada sozinha. Envolveu-a com os braços, pondo as mãos em cima das suas na balaustrada, não a segurava muito apertada mas lhe dava calor.

― É uma pergunta tão difícil de responder?

Sentiu seus ombros estremecerem. Alarmado, girou-a. As lágrimas estavam escorrendo pelo rosto.

― Lorna?


Não estava soluçando, mas os lábios estavam trêmulos.

― Sinto muito ― disse, limpando o rosto. ― Sei que isto é tolo. É só que... ninguém nunca me quis.

― Duvido. Provavelmente não notou que a queriam. Eu quis você desde o minuto em que a vi.

― Não esse tipo de querer ― outra lágrima caiu. ― O outro tipo, o de ficar perto.

― Amo você ― disse brandamente, amaldiçoando mentalmente a puta que tinha dado a luz por não alimentar o sentimento de segurança que toda criança deve ter, o conhecimento de que, sem importar o que, alguém a amava e a queria.

― Sei. Acredito em você ― tragou. ― de certo modo imaginei quando deliberadamente destroçou seu Jaguar para me proteger.

― Sabia que podia comprar outro ― disse simplesmente.

― Foi quando soube que tinha me arruinado, que não seria capaz de deixar você a não ser que me atirasse. Mantive a esperança de que fosse a tradicional luxúria o que estava sentindo, mas soube, e me assustou até a morte ― riu trêmula, a pesar do lento cair de outra lágrima. ― Em só dois dias, me arruinou.

Esfregou um lado do nariz.

― Não passamos muito tempo juntos, mas foi um tempo de qualidade.

― Qualidade! ― Olhou-o estupefata, com a boca aberta. A indignação secou suas lágrimas. ― Me maltratou, arrastou dentro de um incêndio, abriu violentamente a cabeça e fez em pedaços o cérebro, arrancou a minha roupa e me manteve prisioneira!

― Não disse que era de boa qualidade. Tem um dom com as palavras, sabia ― “abriu violentamente a cabeça”, minha bunda.

― Você não gostou quando chamei “violação de cérebro” ― disse asperamente. ― E penso que tinha um melhor conhecimento de como parecia que você.

― Acredito que tem, nesse caso. Quando voluntariamente se conecta com alguém, não...?

― Bom Deus ― parecia horrorizada. ― Algum de vocês realmente faz voluntariamente?

― Já te disse isso, não dói quando se faz corretamente. Se alguém precisa aumentar seu poder, encontra alguém com quem se conectar voluntariamente. Cada vez mais freqüentemente Gideon e eu vamos para casa ao Santuário, e nos conectamos com Mercy para realizar uma invocação protetora sobre o lar. Fazer isso bem leva seu tempo, mas não dói. Responderá a...?

― Espero que tenham uma lei contra fazer isso sem permissão.

― Uh... não.

Parecia horrorizada.

― Quer dizer que a gente Raintree pode ir por aí irrompendo na cabeça das pessoas, e ninguém faz nada para evitar isso?

Começava a se sentir frustrado. Poderia a mulher não responder a pergunta?

― Não disse isso. Muito poucos de nós somos o suficientemente fortes para dominar a mente de outros sem que eles colaborem.



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