Raintree 1 Linda Howard



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Encontro12.04.2018
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O que for que estivesse acontecendo, de qualquer esses forma dois detetives estavam envolvidos, Dante pretendia averiguar, inclusive se precisasse traria Mercy, cujo dom de telepatia era tão forte que uma vez quando ela tinha dez anos e ele dezesseis, irrompeu em sua cabeça em um momento muito inoportuno - ele estava com sua namorada do momento - e disse: “Eh! Asqueroso!” o que o sobressaltou tanto que perdeu a concentração, a ereção e a namorada. As garotas de dezesseis anos, aprendeu, não levavam bem com algo que vissem como um insulto para seu atrativo em geral. Esse foi o dia em que começou a bloquear Mercy em sua cabeça, o que a enfureceu nesse momento. Inclusive contou a seus pais o que ele tinha feito, o que deu como resultado um compridissimo, seriíssimo bate-papo com seu pai sobre a importância de ser preparado, usar anticoncepcionais e tomar a responsabilidade das ações.

Enfrentando a severa convicção de seu pai de que Dante se casaria com qualquer garota que deixasse grávida e que permaneceria casado com ela o resto de sua vida, deixou extremamente cuidadoso. Os Raintree Dranir definitivamente não tinham uma atitude despreocupada sobre os seus. Um Raintree, qualquer Raintree, era geneticamente dominante; qualquer criança herdaria os dons dos Raintree. Igualmente certo era para os Ansara, que era perque os Ansara tinham matado imediatamente a qualquer criança nascida da união de um Raintree e um Ansara. Quando duas facetas dominantes se mesclavam, podia resultar algo… e o resultado podia ser perigoso.

O dom de Mercy só se fortaleceu mais enquanto crescia. Entretanto, Dante não acreditava que sua presença fosse necessária; os Raintree tinham outros telépatas que poderia chamar. Não seriam tão fortes como Mercy, mas bem, tampouco precisavam ser. Mercy estava mais cômoda no Santuário, o lar do clã Raintree, onde não tinha que bloquear seu dom do implacável assalto emocional e mental por parte dos humanos, que não tinham idéia de como se defender. Ocasionalmente ela e Eve, sua filha de seis anos, visitavam a ele ou Gideon - Mercy era uma verdadeira fêmea no que diz respeito a seu amor pelas compras, e ele e Gideon estavam sempre encantados de cuidar de Eve o Diabinho enquanto sua mãe se regalava com uma pequena terapia - mas Mercy era a guardiã do lugar. O Santuário era sua responsabilidade, seu para governá-lo, e o amava. Não lhe pediria ajuda se tinha outras opções.

Todo o tempo em que ele esteve fazendo ligações, Lorna se manteve em pé onde a tinha obrigado a ficar, soltando fumaça, protestando e se zangando mais cada minuto, até ele esperava que todo esse cabelo vermelho escuro se arrepiasse pela pressão. Poderia tê-la soltado, ao menos dentro dos limites da casa, mas certamente utilizaria essa liberdade para atacá-lo com algo. Como fosse, tinha que admitir que se divertia mais com sua fúria e menos com as adulações.

O fato era, que se divertia com ela.

Nunca tinha estado tão enfeitiçado… ou tão emocionado. Quando tinha ouvido esse lastimoso e pequenoa choramingo que fez em sonhos, sentiu o coração realmente em um punho. O que realmente, realmente tinha chegado a ele era que obviamente ela sabia que som tinha feito… provavelmente o fazia sempre… mas decididamente o negou. Roncando que nada.

Negava-se a ser uma vítima. Gostou disso. Inclusive quando algo ruim acontecia com ela - como ele, por exemplo - furiosamente rechaçava qualquer sinal de vulnerabilidade, qualquer indício de simpatia, qualquer sugestão de que era, de qualquer forma, mais fraca que King Kong. Não tomou a moléstia de se defender; em lugar disso atacou, com valentia feroz e uma língua afiada, assim como o soco casual.

Tinha sido brusco com ela… em mais de um sentido. Não só a tinha aterrorizado, tratado brutalmente com a mente, a tinha humilhado e envergonhado arrancando suas roupas e examinando-a da forma em que tinha feito. Se tivesse apenas cooperado… Mas não o fez, e ele não podia culpá-la. Nada do que tinha feito ontem à noite tinha-lhe inspirado sua confiança, em todo caso essa confiança não surgiria facilmente. Inclusive não podia dizer a si mesmo que nunca teve a intenção de lhe machucar. Se a marca de nascimento, a meia-lua azul, dos Ansara estivesse em suas costas… pois bem, seu corpo nunca teria sido encontrado.

A brutalidade de seu alívio ao não encontrar a marca de nascimento tomou por surpresa. Queria tomá-la entre seus braços e reconfortá-la, embora, a menos que não a prendesse com um controle mental a machucaria, provavelmente teria arrancado seus globos oculares com as unhas, e no que diz respeito a suas outras bolas... não quis pensar no que teria feito com elas. Nesses momentos não tinha querido nada mais dele que sua ausência.

A forma em que tinha crescido era uma desonra. Deveria ter sido treinada para controlar e desenvolver seus dons, aprender o modo de se proteger. Ela tinha a naior reserva de energia pura que já tinha visto em um extraviado, o que queria dizer que tinha uma enorme possibilidade de ter abusado ou ter sido abusada.

Agora que pensava nisso, seu dom provavelmente não era de videncia tanto quanto era de clarividência. Não tinha visões, como seu primo Echo; melhor, simplesmente “sabia” coisas... tais como qual seria a seguinte carta, se uma certa caça-niqueis daria o prêmio, quanto custaria os sapatos novos. Ele não podia dizer por que escolhia jogar em cassinos em lugar de comprar um bilhete de loteria, a menos que tivesse escolhido instintivamente permanecer tão invisível quanto possível. Certamente tinha a habilidade de ganhar a quantidade de dinheiro que quisesse, desde que seu dom se revelou para os números.

Sobretudo, se destacavam duas verdades bem definidas:

O tirava do sério.

E a desejava.

Deveriam ter se negado mutuamente, mas não podiam. Inclusive quando o zangava, o que era freqüente, ela fazia com que quisesse rir. E não só a queria fisicamente, queria que aceitasse sua própria singularidade, que aceitasse a ele com todas suas diferenças, que aceitasse sua proteção, seu guia na aprendizagem de como moldar e controlar seu dom... tudo o que ela rejeitava, o que andava dando voltas lhe irritando.

Soou a campainha, indicando a chegada dos sapatos de Lorna. Deixou-a soltando fumaça e foi para a porta, onde alguém de seu pessoal do hotel esperava, com a caixa em mãos.

- Sinto muito chegar tarde, senhor Raintree, - disse o jovem, secando o suor da testa. - Havia um acidente na interestadual que parou o trânsito...

- Nenhum problema - disse, aliviando a ansiedade do jovem. - Obrigado por nos tirar desta. - Posto que continuava pagando os salários do pessoal, pensava que podia utiliza-los da maneira em que os precisasse.

Levou a caixa de sapatos para a cozinha, onde Lorna ainda estava plantada no lugar.

- Aqui está, experimente - disse, entregando a caixa para ela.

Olhou-o furiosa e evitou segurá-los.

Achou que não podia culpá-la.

Tirou os sapatos da caixa, as bolas de papel deles e se agachou sobre um joelho. Esperou que ela recusasse terminantemente que levantasse seu pé, mas o deixou fazer isso, limpando com a mão a planta do pé de qualquer areia fina, e deslizando o suave e negro sapato baixo no pé. Repetiu o processo com o outro pé, em seguida permaneceu sobre um joelho e elevou o olhar para ela.

- Serviram? Estão apertado em algum lugar?

Os sapatos eram muito parecidos com os seus danificados, sabia: simples pretos e baixos. Mas ali acabava toda a semelhança. Este par era fabricado com pele de qualidade, com um bom apoio para a sola do pé e bem feitas. Seu outro par tinha solas finas como o papel, e as costuras começavam a desfiar. Ela estava levando cerca de sete mil dólares, e usava sapatos de quinze dólares. No que fosse que gastava o dinheiro, não era em roupa.

- Serviram - disse a contra gosto. - Mas não valem cento e vinte e oito dólares.

Ele riu baixinho enquanto se levantava e a olhou no rosto por um instante, totalmente enfeitiçado outra vez por sua obstinação. Era uma dessas mulheres cuja personalidade a fazia mais bonita do que realmente era, se a pessoa considerava unicamente seus traços. Não era que não fosse bonita; era. Nem vistosa, nem bela, simplesmente agradável à vista. Era essa atitude, essa boca sarcástica e descarada, os olhos de vá-ao-inferno-e-volte, que lhe davam a faísca de vitalidade. A única forma em que Lorna Clay nunca seria descrita era relaxada.

Deveria solta-la do controle que a mantinha ali, mas se fizesse, ela iria embora… não só desta casa, como também de Reno. Sabia isto com uma certeza que o deixava pasmado.

Dante se virava muito bem no mundo normal, humano, mas era o Dranir Raintree, e em seu reino, era obedecido. Tinha sido Dranir durante dezessete anos, desde que tinha vinte, mas mesmo antes disso, não tinha levado uma vida normal. Era da Família Real Raintree. Tinha sido Príncipe, o Herdeiro e depois o Dranir.

“Não” não era uma palavra que ouvisse muito freqüentemente, e não lhe importava ouvi-la de Lorna.

- Pode ir onde quiser dentro desta casa - disse, e acrescentou silenciosamente uma condição que no caso de perigo, o controle acabaria. Se a casa começasse a arder, ele queria que ela pudesse escapar. Depois de ontem à noite, coisas assim passaram pela sua mente.

- Por que não posso sair? - Seus olhos verde avelã se abriram com ira, mas ao menos não lhe deu um murro, beliscou ou chutou.

- Porque escapará.

Não podia negar, em lugar disso estreitou os olhos.

- Ah é? Não me buscam por assassinato.

- Mas me sinto responsável por você. Precisa aprender muito sobre seus dons, e eu posso ensinar. - Essa era uma razão tão boa como qualquer outra, e soava lógica.

- Eu não… - Começou a negar que tivesse algum dom, mas se deteve e inspirou profundamente. Não era lógico negar o óbvio. Quando ele abordou o tema pela primeira vez, em seu escritório, a negativa tinha sido imediata e absoluta. Ao menos agora começava a aceitar o que era.

Como tinha chegado a negar tão inflexivelmente tudo o que ela era? Suspeitava que sabia, mas a menos que estivesse disposta a falar disso, não bisbilhotaria.

Depois de um momento disse obstinadamente:

- Sou responsável por mim mesma. Não quero nem necessito sua caridade.

- Caridade, não. Conhecimento, sim. Acho que me equivoquei quando disse que era vidente. - Observou o brilho de alívio em seu rosto, em seguida morreu imediatamente quando continuou. - Acho que poderia ser clarividente. Já ouviu algumo a respeito disso?

- Não.


- O que sabe sobre el-sike?

- Isso é um nome árabe.

Ele sorriu. El-sike se pronunciava el-see-kay... e ela estava certa, soava árabe.

- É uma forma de controle da tempestade. Meu irmão Gideon tem esse dom. Ele pode atrair os relâmpagos.

Deu-lhe um olhar compassivo.

- Soa como uma forma de dano cerebral. Que louco quer estar perto de um relâmpago?

- Gideon. Ele se alimenta de eletricidade. Também tem telecinese elétrica, a qual em resumidas contas significa que se dá muito mal com a eletrônica. Faz explodir o sistema de iluminação pública. Frita os computadores. Não é seguro para ele voar a menos que lhe envie um encantamento de proteção.

Isso captou seu interesse, embora a contra gosto. Viu o volúvel brilho em seus olhos.

- Por que não faz seus próprios encantamentos de proteção?

- Isso é de certo modo o mesmo porque videntes não são capazes de ver seu próprio futuro. Unicamente na família real se podem dar de presente feitiços, mas nunca a si mesmos. É um tira, um detetive de homicídios, por isso que o mantenho abastecido de feitiços de proteção, e se tiver que voar, o envio um feitiço que bloqueia sua energia elétrica, assim não frita os computadores do avião.

- Telecinese elétrica - disse devagar, provando as palavras. - Soa enloquecedor.

- Ouvi dizer - disse secamente. Também tinha ouvido que Gideon às vezes resplandecia depois do sexo… ou possivelmente era antes. Ou durante. Há algumas coisas sobre as quais um irmão não faz muitas perguntas. Mas se Lorna estava por fim interessada em aprender sobre todos os tipos das habilidades paranormais, não se importava de utilizar alguns do mais exóticos dons para mantê-la intrigada.

- O que me diz? - disse ele, como se tivesse ocorrido agora a idéia, quando de fato esteve considerando algo pelo estilo toda a manhã - por que não aceita um curto período de prova, digamos, uma semana, e me deixa te ensinar as coisas básicas para se proteger? É tão sensível a todas as ondas de energia que estou surpreso que seja capaz de estar com as pessoas.

- Posso confeccionar alguns testes simples, conseguir uma idéia aproximada de quão dotada estas nas diferentes áreas.

Viu a rejeição instantânea a essa ideia em sua expressão, um rápido brilho, logo a curiosidade se elevou para rebatê-lo. Seguindo quase imediatamente, a cautela; não ficaria facilmente nas mãos de outro.

- O que teria que fazer? - perguntou com receio.

- Não tem que fazer nada. Se se opuser completamente à idéia de aprender mais, então não posso atar você a uma cadeira e fazer que aprenda as lições. Exceto que de todas as formas, vai estar aqui uns dias, também pode usar o tempo para aprender algo sobre si mesma.

- Precisarei de minhas roupas - disse, o que era provavelmente o mais próximo a uma capitulação que ouviria dela.

- Me dê seu endereço e as trarei aqui.

- Isto é só uns dias. Depois disso, quero sua palavra que me liberará desta estúpida coisa de controle mental e me deixará partir.

Dante considerou. Ele era o Dranir; não, não podia dar sua palavra à toa. Finalmente disse:

- Depois de uma semana, considerarei. É esperta, pode aprender muito em uma semana. Mas não posso fazer uma promessa definitiva.

Capítulo 13

― O que, exatamente, deu errado?

O tom de Cael Ansara foi agradável e sereno, o que não enganou em nada a Rubén McWilliams. Primo ou não, sempre tinha havido algo sobre Cael que fazia que Rubén andasse com muita cautela a seu redor. Quando Cael estava mais amável, era quando merecia a pena estar mais cauteloso. Rubén não gostava do filho da puta, mas aí estava, a rebelião os fazia estranhos companheiros de cama.

Sua intuição havia lhe dito que retardasse em contatar Cael, assim não o tinha telefonado na noite anterior; em vez disso, tinha posto gente no terreno, fazendo perguntas, e sua jogada tinha dado fruto… ou pelo menos tinha proporcionado uma interessante variável. Ainda não sabia exatamente o que tinham descoberto, só que tinham encontrado algo.

― Não sabemos… não exatamente. Tudo foi perfeitamente bem por nossa parte. Elyn estava conectada a mim, Stoffel e Pier, tirando nossa energia e alimentando o fogo. Ela disse que tinha o Raintree dominado, que estava perdendo terreno… e rápido. Então… algo aconteceu. É possível que visse que não podia dirigir o fogo e se retirasse. Ou que seja mais poderoso do que pensamos.

Cael estava em silêncio, e Rubén se moveu inquieto na cama do motel. Tinha esperado que Cael saltasse à suculenta possibilidade de que o poderoso Dante Raintree tivesse entrado pânico e escapado de um incêndio, mas como era habitual, Cael era imprevisível.

―O que diz Elyn? ― perguntou Cael finalmente. ― Se Raintree fugiu, se parou de tentar combater o fogo, sem sua resistência teria se descontrolado. Ela saberia, não é? Haveria sentido a quebra de onda.

― Não sabe. ― Elyn e Ele tinham discutido o acontecido desde o começo ao final, tentando identificar o que tinha saído errado. Ela deveria haver sentido a quebra de onda, se tivesse acontecido… mas não só não a havia sentido, mas também não tinha notado o retrocesso quando o departamento de bombeiros apagou as chamas. Teve que haver algum tipo de interferência, mas não sabiam o que dizer para explicá-lo.

― Não sabe? Como não pode saber? É uma Mestre do Fogo, e essa era sua chama. Deveria saber tudo dela desde sua concepção.

O tom de Cael foi mordaz, mas não mais do que tinham sido os seus quando Elyn e ele tinham analisado os acontecimentos. Elyn não queria que o dedo acusador a apontasse, é obvio, mas tinha estado verdadeiramente perplexa.

― Tudo o que sabe é que, justo quando estava atraindo o fogo para o hotel, perdeu contato com ele. Podia dizer que ainda estava ali, mas não sabia o que estava fazendo. ― Deteve-se. ― Está dizendo a verdade. Eu estava unido a ela. Pude sentir sua surpresa. Acredita que deve ter havido algum tipo de interferência, possivelmente um escudo protetor.

― Está dando desculpas. Escudos como esse só existem na casa familiar. Nunca detectamos nada como isso em nenhuma das outras propriedades dos Raintree.

― Estou de acordo. Não a respeito do Elyn dando desculpas, mas sim da impossibilidade de que houvesse um escudo. Ela simplesmente perguntou. Disse-lhe que não, que eu teria sabido se houvesse um.

― Onde estavam os outros Raintree?

― Estavam todos controlados. ― Nenhum dos outros Raintree estava o suficientemente perto para que seu Dranir se unisse a eles e usasse seu poder para aumentar o próprio, como tinha feito Elyn unindo-se a ele e aos outros. Tinham posto algumas pessoas para seguir os distintos membros do clã Raintree em Reno. Só eram oito, sem contar o Dranir, e nenhum deles tinha estado perto do “Inferno”.

― Então, apesar de todas as garantias que me deu, falhou, e não sabe por que.

― Ainda não. ― Ligeiramente Rubén recalcou o ainda. ― Há outra possibilidade. Outra pessoa, uma mulher, estava com o Raintree. Nenhum de nós os viu ser resgatados porque os caminhões de bombeiros cobriram a nossa vista, mas nos fizemos passar por agentes de seguros e fizemos perguntas. — Não tinham levantado nenhuma suspeita; os agentes de seguros já estavam pululando, e não só os que representavam à companhia de seguros do Raintree. Uma multidão de veículos tinham sido danificados. Clientes habituais tinham perdido objetos pessoais. Tinha havido feridos, e dois mortos. Somado aos advogados de danos corporais à mistura, e havia um monte de gente fazendo muitas perguntas; ninguém notava umas poucas pessoas ou perguntas a mais e ninguém comprovava os créditos.

― Como se chama?

― Lorna Clay. Um dos médicos tomou seu nome e endereço. Não estava registrada no hotel, e o endereço de seus papéis era do Missouri. Não é válida. Já chequei.

― Continua.

― Evidentemente estava com Raintree desde o começo, em seu escritório do hotel, porque evacuaram juntos o edifício. Estavam na escada oeste com muita gente. Ele dirigiu todos os outros para fora, através do andar do estacionamento, mas foi com a mulher na outra direção. Muitas coisas são suspeitas. Primeiro, ela não estava queimada… no mínimo. Dois, tampouco estava Raintree.

― Uma bolha protetora. Judah também pode construi-las. ― O tom de Cael se tornou plano quando disse o nome de Judah… Judah era seu meio-irmão legítimo e o Dranir dos Ansara. A inveja de Judah, a amargura de que fosse o Dranir em vez de Cael, o tinha carcomido toda sua vida.

Rubén estava impressionado pela bolha. Fumaça? A fumaça tinha presença física; qualquer Mestre do Fogo poderia se defender da fumaça. Mas o calor era uma entidade diferente, parte do ar mesmo. Os Mestres do Fogo, inclusive os da Casa Real, ainda tinham que respirar. Separar de algum jeito o calor do ar, atrair um mas manter o outro de fora, era uma façanha que ia muito além de controlar o fogo.

― A mulher ― apontou Cael bruscamente, tirando Rubén de sua silenciosa admiração.

― Vi cópias da declaração que deu depois do acontecido. Concorda com a dele, e nenhuma é possível, dado que sabemos o horário. Estimo que esteve ocupado com o incêndio pelo menos meia hora. ― Isso era uma eternidade, em términos de sobrevivência.
― Deveria ter sido vencido. Deveria ter gasto tanta energia tentando controlar o incêndio que não poderia ter mantido a bolha. É do tipo heróico ― disse Cael com desprezo. ― Sacrificaria-se para salvar às pessoas do hotel. Isto deveria ter funcionado. Sua gente não teria suspeitado. Teriam esperado que ele fizesse o valente e honorável. A mulher tem que ser a chave. Tem que ter dons. Uniu-se a ela, e ela o alimentou de poder.

― Ela não é Raintree ― disse Rubén. ― Tem que ser uma extraviada, mas estes não são tão poderosos. Se estivessem vários deles, talvez haveria energia suficiente para que ele contivesse o incêndio. Ainda poderoso que indubitavelmente é Dante, acrescentar o poder de uma extraviada, inclusive de uma forte, seria como acrescentar um copo de água a uma banheira cheia.

― Segue sua própria lógica ― disse Cael com brutalidade. ― Extraviados não são tão poderosos, por isso não pode ser uma.

― Ela não é Raintree ― insistiu Rubén.

― Não é uma Raintree oficial. ― Cael não usou a palavra “ilegítima”. O velho Dranir o tinha reconhecido como filho, mas isso não tinha dado a Cael preferência sobre Judah, ainda considerando que era o mais velho. A injustiça sempre o tinha carcomido, como um ácido corrosivo. Todos ao redor de Cael tinham aprendido a não sugerir nunca que talvez Judah era Dranir por seu poder, não por seu nascimento.

― Tem que ser de linhagem real para ter poder suficiente para que Dante pudesse conter o incêndio durante tanto tempo contra quatro de nós ― disse Rubén com dúvida, porque isso era impossível. O nascimento de um membro da realeza se tomava muito a sério para que não se notasse. Simplesmente eram muito poderosos.

― Assim no melhor é. Mesmo que a divisão aconteceu faz mil anos, o poder herdado não teria diminuído.

Sendo geneticamente dominantes, inclusive se um membro de um dos clãs se reproduzia com um humano ― o que faziam freqüentemente ― a descendência era completamente Ansara ou Raintree. As famílias reais de ambos os clãs eram as mais poderosas entre as que tinham dons, que era como se converteram em realeza em primeiro lugar; como dominantes, seu poder se transmitia intacto. Segundo a maneira de pensar de Rubén, isso só reforçava seu argumento de que, passasse o que passasse, um nascimento real não seria ignorado durante nenhum tempo, certamente não por um milênio.

― Seja o que ela seja, onde está agora?

― Na casa de Dante. Levou-a a noite passada, e ainda está ali.

Cael ficou em silêncio, por isso Rubén simplesmente esperou enquanto seu primo repassava isso em seu retorcido cérebro.

― Bem ― disse Cael abruptamente. ― Ela tem que ser a chave. De qualquer lugar de que venha, seu poder é forte o suficientemente para levar os quatro a um empate. Mas isso é o passado. Não podem voltar a usar fogo sem que o bastardo comece a suspeitar, assim têm que pensar em outra coisa que pareça um acidente ou que não possa se associar a nós. Não me importa como fazem, simplesmente façam. A próxima vez que escute sua voz, será melhor que me diga que Dante Raintree está morto. E enquanto está nisso, mate também à mulher.

Cael desligou com força o telefone. Rubén colocou o auricular mais devagar, depois beliscou a ponte do nariz. Taticamente, matar à realeza Raintree era inteligente. Ao cortar a cabeça de uma serpente, se ocupar do corpo era simples. A comparação não era completamente exata, porque qualquer Raintree era uma força a considerar, mas também eram os Ansara. Com toda a família real morta, a vantagem seria toda sua e o desenlace inevitável.

O erro que tinham cometido fazia duzentos anos foi não se encarregar primeiro da família real, uma falha que tinha tido desastrosos resultados. Como clã, o Ansara quase tinha sido destruído. Os sobreviventes tinham sido desterrados a sua ilha do Caribe, onde a maioria permaneciam. Mas tinham usado esses duzentos anos para reconstruir em segredo sua força, e agora eram o suficientemente fortes para voltar a combater ao inimigo. De todas formas, Cael opinava assim, igual a Rubén. Só Judah os tinha refreado, aconselhando prudência. Judah era banqueiro, pelo amor de Deus; o que sabia sobre correr riscos?

O descontentamento nas filas Ansara tinha crescido durante anos, e tinha alcançado o ponto de crise. O Raintree tinha que morrer, igual a Judah. Cael nunca o deixaria viver, nem sequer no exílio.

O poder de Rubén era substancial. Por isso, e porque era primo de Cael, tinha lhe dado a tarefa de eliminar ao mais poderoso dos Raintree… uma tarefa mais complicada porque Cael insistia em que a morte parecesse acidental. O último queria era todos os Raintree correndo para a casa familiar para protegê-la. O poder do Santuário era quase místico. Quanto disso era real e quanto percebido, Rubén não sabia e não lhe importava.

O plano era simples: matar à realeza, romper os escudos protetores ao redor de Santuário e tomar a casa familiar. depois disso, o resto dos Raintree estariam grandemente debilitados. Destrui-los seria brinacadeira de criança.

Não ter destruído a casa familiar dos Ansara duzentos anos atrás, não ter destruído a cada membro do clã, tinha sido o engano dos Raintree. Os Ansara não lhes devolveriam o favor.

Rubén se sentou durante um longo momento, sumido em seus pensamentos. Alcançar o Raintree seria fácil se estivesse distraído. Ele e a mulher, Lorna Clay, evidentemente eram amantes; de outra maneira, para que levá-la para casa com ele? De todas as formas, ela seria a mais fácil de matar dos dois… e que ela fosse o objetivo óbvio em vez do Raintree, não levantaria o alarme do clã.

A idéia de Cael tinha sido muito boa: matar a mulher.

Capítulo 14

Segunda-feira a tarde

― O que acontece se você morrer? ― perguntou-lhe Lorna, franzindo o cenho enquanto, com as chaves do carro na mão, Dante abria a porta da garagem. ― O que acontece se tem um acidente e despenca montanha abaixo? E se tiver uma embolia pulmonar? E se um transportador de frangos sofre uma falha nos freios e esmaga este patinete que você chama de carro? Fico presa? Essa pequena maldição, ou o que seja, me manterá aqui embora morra ou fique inconsciente?

Dante parou a meio caminho para a porta, girando para ela com uma expressão metade divertida, metade incrédula.

― Um transportador de frangos? Não pode pensar em alguma outra forma mais digna de me matar?

Lorna sorveu pelo nariz.

― A morte é a morte. O que mais seria? ― Então algo lhe ocorreu, algo que a deixou muito intranqüila. ― Oh, porque pode morrer, não? ― O que aconteceria se a situação era ainda mais estranha do que pensava? E se em uma escala de esoterismo de um a dez, ele tinha um treze?

Dante riu ante isso.

― Agora devo me perguntar se está planejando me matar.

― É só um pensamento ― disse francamente. ― E aí?

Dante se apoiou no marco da porta, com descuido e relaxado, tão condenadamente sexy que Lorna quase teve que olhar para outro lado. Estava se esforçando muito para ignorar suas respostas físicas ante ele, e a maioria do tempo conseguia, mas às vezes, como agora, seus olhos verdes pareciam que iam arder, e em sua imaginação podia sentir outra vez o duro e musculoso torso de Dante contra ela. O fato de que, pela segunda vez, tivesse podido sentir sua ereção contra ela quando a segurava, só fazia sua luta muito mais difícil. O mútuo desejo sexual era um potente ímã, mas só porque ela sentia a força da atração, não significava que tivesse que agir em conseqüência. Às vezes também queria ultrapassar um semáforo, porque estava ali, porque não queria parar, porque podia… mas nunca fazia, porque fazê-lo seria estúpido. Fazer sexo com Dante Raintree entraria dentro da mesma categoria: estúpido.

― Sou tão mortal como você… ou quase. Graças a Deus. Por muito que a mortalidade seja uma merda, a imortalidade seria ainda pior.

Lorna deu um passo atrás.

― O que quer dizer com quase?

― Essa é outra conversa, e não tenho tempo para ela agora. Respondendo a sua outra pergunta, não sei. Talvez, sim, talvez, não.

Lorna quase se consumia pela indignação.

― O que? O que? Não sabe se terei que ficar aqui ou não se acontecer algo com você, mas vai sair e me deixar aqui de todos os modos?

Dante pensou brevemente, e disse:

― Sim ― E saiu pela porta.

Lorna deu um salto e agarrou a porta antes que se fechasse.

― Não me deixe aqui! Por favor.

Odiava ter que suplicar, e o odiou por fazê-la suplicar, mas de repente, alarmou-se além da razão ante o pensamento de ficar encerrada ali pelo resto de sua vida.

Dante entrou no Jaguar, dizendo:

― Estará bem.

E então o ruído da porta da garagem se elevando abafou qualquer outra coisa que ela houvesse dito.

Furiosa, fechou de repente a porta da cozinha, e em um ataque de ressentimento, trancou tanto a fechadura como o ferrolho. Deixá-lo fora de sua própria casa era inútil, já que ele tinha suas próprias chaves, mas ao menos o incomodaria.

Lorna ouviu o Jaguar sair; então a porta da garagem começou a baixar.

Maldito, maldito, maldito fora! Realmente tinha ido e a tinha deixado fechada ali. Não, fechada, não… encarcerada.

Suas roupas tinham sido entregues cedo, e tinha trocado as calças arruinadas ― e a enorme camisa de seda de Dante ― então que ele não teria tido que esperar que ela se arrumasse nem nada. Não tinha nenhuma razão para deixá-la ali, dado que ele poderia impedir facilmente que escapasse, com uma de suas condenadas ordens mentais.

Impotente, olhou raivosa ao redor da cozinha. Ser um Drainer… rei… ou o que demônios houvesse dito, o tinha deixado muito presumido. Virtualmente sempre fazia o que tinha vontade, sem se preocupar com que os outros queriam. Era óbvio que nunca tinha sido casado e certamente nunca estaria, porque nenhuma mulher que se apreciasse faria isso.

Sal.

Percorreu de novo a cozinha com o olhar, e viu o grande saleiro e o pimentero de aço inoxidável ao lado da vitrocerâmica. Começou a abrir as portas até que encontrou a despensa… com uma reserva de sal muito satisfatória.



Lembrou que Dante dava uma colherada de açúcar no café. Com muito cuidado, tirou o sal do saleiro, substituindo-o pelo açúcar do açucareiro, então pôs o sal no açucareiro. Dante não desfrutaria muito da primeira xícara de café da manhã, e algo que salgasse saberia muito ruim.

Então Lorna se tornou criativa.

Ao redor de uma hora depois que Dante partiu, soou o telefone. Lorna olhou o identificador de chamadas, mas não se incomodou em responder; ela não era sua secretária. Quem quer que estivesse telefonando, não deixou nenhuma mensagem.

Explorou a casa… melhor, registrou-a. Era uma casa grande para uma só pessoa. Não tinha um referente para estimar quantos metros quadrados tinha, mas contou seis dormitórios e a metade de banheiros. O dormitório de Dante ocupava todo o andar superior, uma vasta extensão que cobria mais espaço do que muitas famílias de quatro pessoas tinham para viver. Era um quarto muito masculino, com tons dominantes em azul aço e verde-oliva claro, mas aqui e ali ― nos quadros, em uma inesperada terrina decorativa, em uma almofada ― tinha pinceladas de um rico e profundo tom vermelho.

Havia uma área separada para descansar, com uma televisão de tela grande que saiu de um armário quando apertou um botão, e que voltou a afundar em seu esconderijo depois. Ela sabia, porque tinha encontrado o controle remoto e tinha apertado todos os botões, só para ver o que fazia cada um. Havia um móvel-bar com uma pequena geladeira e uma cafeteira para quando não queria se incomodar em descer as escadas para fazer-se café ou pegar algo para comer. Lorna substituiu o açúcar por sal também ali… e misturou terra das plantas no café.

Então se sentou em meio da cama de casal, em um colchão de sonho, e ficou pensando.

Embora a casa fosse grande e confortável, não era o que ela chamaria uma mansão. Não era ostentosa. Dante gostava dos bens materiais, mas ainda assim, notava-se que era um lugar em que viver, e não para exibir.

Ela sabia que Dante tinha dinheiro, e muito… suficiente para permitir uma casa dez vezes maior que esta. Considerando o fato de que vivia sozinho, sem um serviço diário que se cuidasse dele e de sua casa, chegou à óbvia conclusão de que a privacidade era mais importante para ele que ser mimado. Assim por que a obrigava a ficar ali?

Ele dizia que se sentia responsável por ela, mas podia se sentir assim onde quer que ela estivesse, porque devido ao maldito talento recentemente descoberto, com o qual podia fazer as pessoas fazerem o que ele queria, Lorna não poderia escapar se ele tivesse ordenado que ficasse. Possivelmente Dante estava interessado no destreinado “poder” de Lorna, e queria ver até onde podia chegar, só para satisfazer sua curiosidade. Novamente, não era necessário que ela permanecesse ali para que lhe desse aulas, ou realizar alguns experimentos com ela.

Dante queria fazer sexo com ela, então talvez era isso o que o motivava. Podia fazer que viesse a ele, fazer sexo, mas não era um violador. Talvez fosse um louco, um intimidador, sem dúvida, mas não era um violador. Ele queria que Lorna estivesse disposta, verdadeiramente disposta. Assim, acaso a mantinha ali para seduzi-la? Não poderia fazer se partia e a deixava ali, sem mencionar que ao fazer aquilo, estava conseguindo que se zangasse com ele.

De algum modo, a opção de que fazia isso pelo sexo tampouco era muito boa. Se ele queria colocar Lorna em sua cama, fazê-la prisioneira não era a melhor forma de consegui-lo. Não só isso, ela não era uma mulher fatal. Simplesmente, não podia imaginar que ninguém tomasse tantas moléstias para ter sexo com ela.

Devia haver outra razão, mas maldita fora se podia compreendê-la. E até que averiguasse… bem, não havia nada que ela pudesse fazer, apesar disso. A menos que pudesse deixá-lo inconsciente e escapar, estava presa até que ele estivesse preparado para deixá-la partir.

A noite passada, desde o momento em que o gorila a tinha “escoltado” da mesa de blackjack e a levou de rudemente ao escritório do Raintree, tudo tinha sido um puro pesadelo. Um sobressalto era seguido de perto por outro ― de algum modo, cada um pior que o anterior ― tanto, que ela pensava que tinha perdido o contato com a realidade em algum ponto ao longo do caminho.

Ontem a essa mesma hora era uma pessoa anônima, e gostava que fosse assim. Oh, as pessoas podia vir e falar com ela, como faziam com os ganhadores, e isso lhe parecia bem, mas estar sozinha também era bom. De fato, estar sozinha era melhor que bom, era seguro.

Raintree não sabia o que estava lhe pedindo, fazendo-a ficar ali, aprendendo sobre seus “dons”. Nem sequer tinha perguntado. Não tinha dado nenhuma oportunidade.

Dante a esteve surrupiando até admitir que tinha certo talento com os números, mas ele não sabia quanto a enojava pensar em sair do armário do paranormal. Lorna teria preferido permanecer em uma metafísica sacola de roupa, bem pendurada nas costas.

Dante tinha crescido em uma cultura clandestina, onde os talentos paranormais eram a norma, onde os animava, os celebrava, os treinava. Tinha crescido como um príncipe, pelo amor de Deus. Um príncipe do estranho, mas príncipe no fim das contas. Não tinha nem idéia do que era crescer nos subúrbios, muito fraca, não querida, e diferente. Nunca houve um pai a seu redor, só um interminável desfile de “namorados” de sua mãe. Nunca o haviam jogado mesa, literalmente, atirado da cadeira por dizer algo que sua mãe pudesse considerar estranho.

Sendo uma menina, não entendia por que sua mãe pensava que o que ela dizia eram coisas estranhas. O que tinha de mau em dizer que o ônibus que sua mãe pegava para ir trabalhar em um bar do outro lado da cidade estava com seis minutos e vinte e três segundos de atraso? Ela pensava que sua mãe queria saber. Em troca, a tinha atirado de seu assento com uma bofetada.

Os seus eram os números. Se algo tinha um número, ela sabia qual era. Recordava ter começado a escola primária ― não houve creche para ela, sua mãe dizia que as creches eram uma estúpida perda de tempo ― e o alívio que sentiu quando finalmente alguém lhe explicou os números, como se uma enorme parte de si mesmo finalmente encaixasse em seu lugar. Agora tinha nomes para as formas, significados para os nomes. Toda sua vida tinha estado fascinada com os números, fossem em uma casa, em um pôster, em um táxi, ou em qualquer outro lugar, mas era como uma linguagem estrangeira que não podia compreender. Estranho, ter tal afinidade com eles mas não entendê-los. Tinha pensado que era tola, como sua mãe dizia, até que tinha ido à escola e tinha encontrado a chave.

Quando tinha uns dez anos, sua mãe tinha caído no álcool e nas drogas, e os bofetões progrediram quase a surra diária. Se sua mãe se deixava cair uma noite e decidia que não gostava de algo que Lorna fazia durante o dia, ou no dia anterior ― ou na semana anterior, não importava ― agarrava a primeira coisa que tinha à mão e o atirava em qualquer lugar que estivesse. Muitas vezes, a transição entre o sono e a vigília tinha sido para ela um golpe, na cara, na cabeça, qualquer lugar onde sua mãe pudesse golpeá-la. Tinha aprendido a dormir em um estado de silencioso terror.

Sempre que pensava em sua infância, o que mais recordava era o frio, a escuridão e o medo. Tinha medo de que sua mãe a matasse, e ainda mais medo de que sua mãe não se incomodasse em voltar para casa alguma noite. Se havia algo que Lorna sabia além de toda dúvida, era que sua mãe não a tinha querido antes de nascer, e era muito seguro que tampouco a queria depois. Sabia porque essa tinha sido a música de fundo em sua vida.

Lorna tinha aprendido a esconder o que significavam os números para ela. A única vez que havia dito alguém ― a única ― tinha sido no ginásio, quando se tinha assanhado por um menino de sua classe. Ele era doce, um pouco tímido, não era dos meninos mais populares. Seus pais eram muito religiosos, e nunca o deixavam participar das festas do colégio, ou aprender a dançar, nem nada similar, o que Lorna achava bom, já que ela tampouco fazia nenhuma dessas coisas.

Falavam muitas vezes, davam-se as mãos, beijavam-se às vezes. Então Lorna, se armando de coragem, tinha compartilhado seu segredo mais profundo com ele: às vezes sabia coisas antes que acontecessem.

Ainda recordava a expressão de absoluta repugnância que apareceu em seu rosto. “Satã”, tinha-lhe cuspido, e nunca mais voltou a falar com ela. Ao menos, ele não contou a ninguém, mas foi provavelmente porque não tinha nenhum colega a quem contar.

Ela tinha dezesseis anos quando sua mãe finalmente partiu e não se incomodou em voltar. Lorna tinha voltado para casa do colégio ― sua “casa” trocava de endereço com bastante freqüência, normalmente quando o aluguel se atrasava ― para encontrar que as coisas de sua mãe tinham sido retiradas, as fechaduras trocadas, e seu exíguo vestuário jogado no lixo.

Sem um lugar onde viver, fez o único que podia fazer: contatou ela mesma os funcionários da cidade e entrou no sistema de adoções.

Viver em casas de acolhida durante dois anos não tinha sido uma maravilha, mas sua vida não foi tão má como tinha sido anteriormente. Ao menos pôde acabar a escola secundária. Nenhum de seus pais de acolhida a tinha golpeado ou abusado dela. Tampouco nenhum deles tinha demonstrado que gostassem muito dela, mas depois de tudo, sua mãe sempre havia dito que ela não era agradável.

Se arrumou como pôde. Quando completou dezoito, saiu do programa de adoções e ficou sozinha. Nos treze anos seguintes ― toda sua vida, de fato ― fazia o possível para estar fora do radar, para evitar que se fixassem nela, para não ser nunca, nunca uma vítima. Ninguém poderia rejeitá-la se não se oferecia a ninguém.

Tinha tropeçado com os jogos de azar em pequena escala, em um pequeno cassino da reserva dos Seminolas11, na Florida. Estava acostumada a ganhar pequenas quantidades, mas algumas centenas de dólares significava muito para ela. Um tempo depois foi a alguns outros cassinos no Rio Mississippi, e ganhou algo mais de dinheiro. Havia pequenos cassinos em todas as partes. Foi a Atlantic City, mas não tinha gostado. Las Vegas era boa, mas tudo era muito: muito néon, muita gente, muito calor, muita estridência. Reno era melhor. Menor, mas tampouco muito. Melhor clima. Oito anos depois daquela primeira pequena vitória na Florida, Lorna ganhava entre cinco e dez mil dólares por semana de maneira regular.

Esse tipo de dinheiro era uma carga, porque não era capaz de gastar muito mais do que normalmente fazia. Agora já não passava fome, nem frio. Tinha um carro se por acaso queria fazer as malas e partir, mas nunca um novo. Tinha contas bancárias em todas as partes, além de que normalmente levava um monte de dinheiro vivo, perigoso, sabia, mas se sentia mais segura se tinha dinheiro suficiente em mãos se por acaso precisasse. A menos, e até que se instalasse em um lugar concreto, o dinheiro era um problema, porque quantas cadernetas de poupança e talões se supunha que devia conduzir através do país?

Essa era sua vida. Dante Raintree pensava que tudo o que tinha a fazer era educá-la um pouco em seu talento com os números, e… bem, o que esperava o que acontecesse? Ele não sabia nada da vida de Lorna, assim não podia ter planejado nenhuma mudança específica. Acaso devia ela se converter em uma pequena Mary Sunshine12? Encontrar outras pessoas como ela, talvez desenvolver sua própria comunidade fechada, na qual se você ficava sem líquido para acender o churrasco, um de seus vizinhos podia soprar sobre as brasas para acendê-la? Talvez ela poderia escrever um blog sobre suas experiências, ou participar de uma transmissão radiofónica.

Oh, oh. Preferia comer vidro moído. Gostava de viver sozinha, estar sozinha e depender somente dela mesma.

O telefone voltou a tocar, sobressaltando-a. Engatinhou através da cama para olhar o identificador de chamadas, embora para que se incomodar, não tinha nem idéia de quem era. Não reconheceria o número de ninguém que ligasse para Dante Raintree, de todas formas. Assim tampouco respondeu essa chamada.

Tinha estado sentada na cama, pensando, durante tanto tempo que as sombras da tarde começavam a se alargar, e estava adormecendo. Menos mal por essa chamada, ou teria dormido na cama de Dante, e não teria sido uma situação interessante quando ele tivesse retornado a casa? Lorna não tinha nenhuma intenção de brincar de ser a Cahinhos de Dourados.

Mas estava com sono, e fome. Depois do café da manhã tardio, não tinha comido nada. Por que não comer um jantar rápido agora e ir cedo para a cama? Não podia pensar em nenhuma razão pela qual devesse esperar o Raintree, já que ele não tinha tido a cortesia de lhe dizer quando estaria de volta.

O menos que podia fazer era telefonar… embora ela não tivesse respondido ao telefone, ao menos podia ter deixado uma mensagem.

Definitivamente, tinha sentido esperá-lo. Fez uma incursão à geladeira e se preparou um sanduíche frio. Depois olhou os livros das estantes ― Dante tinha vários livros de temática paranormal, mas escolheu um romance de suspence ― e se acomodou no estúdio para ler um momento. Por volta das oito da tarde, estava cabeceando sobre seu livro, o qual, evidentemente, não era o suficientemente intrigante para mantê-la acordada. O sol ainda não tinha se posto, mas não se importou; ainda estava cansada da noite anterior.

Quinze minutos, e uma ducha depois, já estava na cama, enroscada em um quente novelo, com os lençóis lhe tampando até a cabeça.

O brilho de um abajur ao se acender a despertou. Suportou o habitual medo agudo, o pânico, sabendo que sua mãe não estava ali, embora depois de todos estes anos, seu subconsciente ainda não tinha captado a mensagem. Antes de poder relaxar o suficiente para baixar o lençol de sua cabeça, as colchas se elevaram e um quente e virtualmente nu Dante Raintree se deslizou dentro da cama junto a ela.

― Que demônios está fazendo? ― tagarelou meio adormecida, olhando da borda dos lençóis.

Dante se acomodou a seu lado e estirou um comprido braço musculoso para apagar a luz do abajur.

― Parece que há areia em minha cama, então dormirei aqui.

Capítulo 15
― Não seja bobo. Não podia deixar a casa, então como conseguiria a areia? Isto é sal. ― Talvez esperava que ela negasse qualquer participação, mas isso seria absurdo, já que ela tinha sido a única pessoa na casa depois que ele saiu. Talvez ele também esperava que se sentisse indignada e empertigada, porque estava na cama com ela, mas por alguma razão, não estava alarmada. Aborrecida por ser despertada, sim, mas não alarmada.

― Eu tinha razão. ― Ele utilizou seus músculos superiores e peso para empurrá-la sobre a cama. ― Se mexa. Preciso de mais espaço.

Já a tinha expulsado de seu quente e agradável lugar, o que a incomodou ainda mais.

― Então por que não entra pelo outro lado, em vez de fazer com que me mova? ― queixou-se ela enquanto escapulia para o outro lado da cama, que uma king-size13, como todas as outras camas na casa.

― Você é quem pôs o sal em minha cama.

Os lençóis estavam frios ao redor dela, fazendo ela se enroscar em uma bola mais apertada do que o habitual. Inclusive o travesseiro estava frio. Lorna levantou a cabeça e colocou o travesseiro debaixo dela. Sacudindo, antes, em cima dele.

― Me dê meu travesseiro. Este está frio.

Ele fez um som se queixando, mas empurrou o travesseiro morno para ela e colocou o outro sob sua cabeça. Ela se encolheu na calidez; o tecido suave já tinha a essência dele a seu redor, o que descobriu não era algo ruim. Conhecia-o fazia pouco tempo, mas muito deste o tinham passado em contato íntimo. A parte primitiva de seu cérebro reconhecia sua essência e estava reconfortada.

― Que horas são? ― perguntou ela sonolenta, enquanto deslizava para o sono.

― Sabe que horas são. É um número. Pense nele ― soava sonolento também.

Ela nunca teria pensado no tempo como um número, mas logo que o fez, a imagem de três números surgiu dentro de sua cabeça.

― Um, zero, quatro.

― Bingo.

Ligeiramente alegre, dormiu

Despertou antes dele, o que não era surpreendente, dado o cedo que foi à cama e o tarde que ele se deitou. Ela jazia ali deitada pensado na tensa espera que começava a atravessá-la, então lentamente relaxou. A cama estava comodamente morna; ele emitia tanto calor que podia sentir sua tepidez ainda que não estivessem se tocando.

Sonolenta e curiosa para ver se a coisa do tempo funcionava outra vez, pensou na hora como uma série de números e imediatamente viu um quatro, um cinco e um um. Tirou o lençol que lhe cobria a cabeça: o quarto se estava ficando um pouco mais claro. Sem maneira de checar ― a não ser que saísse da cama e descesse para a cozinha, o que não estava disposta a fazer ― supôs que era aproximadamente 4:51. Como seria útil isso, não necessitar de um relógio?

Dante estava deitado ao seu lado, o rosto voltado para ela, um braço dobrado sob sua cabeça, a respiração suave e profunda. O quarto ainda estava muito escuro para que ela distinguisse muitos detalhes, mas isso era bom, porque não estava pronta para os detalhes ainda; a impressão geral era suficientemente sexy tal como estavam as coisas.

O que se supõe que devia pensar uma mulher quando um homem saudável e heterossexual dorme com ela pela primeira vez e nem sequer trata de roubar uma carícia? O que tinha ela de errado? Por que não se sentia atraído por ela?

Acreditava que ele era perigosamente inteligente e intuitivo.

O sexo definitivamente era parte de sua relação, se conhecer alguém há aproximadamente umas trinta e seis horas poderia se descrever como uma relação. Algumas dessas trinta e seis horas pareciam largos anos, especialmente as primeiras quatro ou cinco. Tampouco poderia dizer se o tempo passado juntos tinha sido de qualidade. Por outro lado, posto que não o tinha visto em seu melhor momento, pensava que o conhecia melhor que muitos que o conheciam há fazia muito, mas só no âmbito social, assim não estava surpreendida que não tivesse atirado pedras nela durante essa noite.

Não estava pronta para o sexo com ele, poderia não estar nunca, e ele sabia. Se tivesse tratado de assaltar suas defesas, como ela esperava, teria redobrado sua resistência. Pelo simples feito de dormir com ela e não realizar nenhum movimento abertamente sexual, ele estava, em certa forma, rebatendo aquelas terríveis primeiras horas juntos, fazendo do sexo uma possibilidade, no mínimo.

Ainda não estava nu, embora os boxers que estava usando ao deitar-se não cobriam muito. Ela tampouco estava nua; ele tinha tido que trazer toda sua roupa, assim estava dormindo com seu habitual pijama de algodão. Perversamente, posto que ele não tinha tentado ter sexo, começou a se perguntar como seria se eles…, logo ela suspeitou que ele tinha previsto sua reação.

O sexo não era fácil para ela. Não confiava facilmente; não se excitava facilmente. Ceder deliberadamente seu senso pessoal da intimidade era difícil, e o pagamento não era no geral o valor do custo. Gostava da sensação do sexo, e quando pensava nisso em abstrato, queria. A realidade, entretanto, consistia em que a execução não cumpria com a expectativa. Sem importar o que fizesse, raras vezes se relaxava completamente, o que pensava, era isso o que provavelmente requereria o bom sexo.

A questão era, que estava mais relaxada com Dante do que tinha estado em longo tempo, muito tempo. Ele sabia o que ela era, sabia que era diferente e não se importava ― porque ele era ainda mais diferente do que ela. Não tinha que esconder nada dele, porque não se preocupava se gostava ou não. Certamente ela não tinha tratado de esconder seu caráter ou adoçar sua língua ácida. Igualmente, ela não tinha uma visão suave do caráter dele. Sabia que era desumano, mas também sabia que não era ruim. Sabia que era autoritário, mas que da sua maneira tratava de ser respeitado.

Por isso, talvez poderia se deixar ir e realmente desfrutar do sexo com ele. Não teria que se preocupar com seu ego; se ele começava a ir muito rápido, poderia lhe dizer que reduzisse a velocidade, e se não gostava disso... pois que se agüente! Não teria que estar preocupada com seu prazer; ele se asseguraria disso por si mesmo.

Perguntou-se se ele tomaria seu tempo, ou se gostava de ir direto ao ponto.

Perguntou-se o quanto ele era grande.

Talvez poderia se relaxar o suficiente para desfrutar, e mesmo que não fizesse, pelo menos teria satisfeito sua curiosidade.

Com uma brutalidade que a assustou, ele retirou os lençóis e saiu da cama.

― Onde vai? ― perguntou ela, surpresa quando ele se dirigiu para a porta em vez do banheiro.

― É o amanhecer. ― Foi tudo o que ele disse.

E daí? O sol sai todos os dias. Queria dizer que sempre despertava a essa hora, mesmo que só tivesse gozado de quatro horas de sono? Ou tinha um encontro cedo?

Ela não o seguiu. Tinha seu próprio encontro ― com o banheiro. Também queria lhe dar tempo suficiente para que tivesse essa primeira xícara taça de café

Quando abandonou o quarto, quarenta e cinco minutos mais tarde, depois de ter feito a cama e guardado em a roupa em seu lugar, foi à cozinha, mas viu que esta estava vazia. Entretanto uma xícara de café tinha sido feita e ela sorriu com satisfação.

Onde ele estava? Na ducha?

Não tinha a intenção de estar de pé esperando que aparecesse. Estava na sala de estar, junto a seu dormitório, quando ele apareceu no balcão dois andares acima.

― Venha aqui ― a chamou. ― Estarei fora.

Seu dormitório tinha uma coberta ― ou este também era um balcão? ― que dava ao leste. Tinha visto ontem, mas não tinha saído, porque sua maldita ordem a tinha impedido de andar fora. Havia duas cadeiras que pareciam cômodas e uma pequena mesa ali, e tinha pensado que este devia ser um lugar confortável para se sentar a tarde quando o sol tinha passado seu cume e esse lado da casa estava sombreado.

Subiu dois andares pela escada até o dormitório dele. Observou que a cama tinha sido desfeita; isto lhe deu uma sensação de satisfação. Podia vê-lo sentar-se fora em uma das cadeiras, então se dirigiu à porta francesa aberta. Com uma xícara de café na mão, ele estava sentado com a cabeça inclinada um pouco para trás, seus olhos quase fechados contra a luz do brilhante sol da manhã, a expressão em sua cara era quase... feliz.

― É hábil com o sal, não é? ― disse ele neutramente, bebendo em goles o café, mas ela sentiu que não estava zangado. É obvio, o café da cozinha não tinha sabor ruim. Quando ele fez a seguinte cafeteira aqui dentro, podia não ser tão otimista sobre isso.

― Retribuição.

― Adivinhei.

Ele não disse nada mais, e depois de um momento ela alternou seu peso.

― Era isto tudo o que queria, só dizer isso?

Ele olhou ao redor, como se tivesse perdido dentro de uma fantasia e estivesse ligeiramente surpreso por sua presença.

― Não fique apenas aí pé, venha aqui fora e sente-se.

Só pensar em fazer isso sentiu a sensação de chocar-se contra uma parede.

― Não posso.

Obteve um rápido sorriso dele quando se deu conta que ainda permanecia atada à casa. Não disse nada, mas imediatamente a parede mental desapareceu.

― Merda ― disse ela, saindo e sentando-se a seu lado.

― O que?

― Não disse nada, só pensou. Esperava que tivesse que dizer a ordem em voz alta, para que pudesse ouvi-la, antes que funcionasse.

― Sinto muito, tudo o que tinha que fazer era pensar. Ontem a tarde, estive tentado a usar o dom e ordenar a algumas pessoas que saltassem no lago, mas me contive.

― É um santo entre os homens ― disse ela secamente, e ele deu uma rápida piscadela.

― Estava me enfrentando com os meios de comunicação, assim, considerando o nível de tentação, tentarei estar de acordo contigo.

Os meios de comunicação, ufff? Não se surpreendeu que se negasse a levá-la.

― Telefonei ontem à noite para dizer que não retornaria até tarde, mas não atendia o telefone.

― Por que faria? Não sou sua secretária.

― A ligação era para vocêi.

― Não sabia disso, não é?

― Deixei uma mensagem.

― Não escutei. ― A secretária eletrônica estava na cozinha e ela estava no quarto quando o telefone tocou da última vez, que devia ser ele telefonando.

― Isso é porque você não se incomoda em responder ― soava irritado agora.

― Por que o faria? Não sou…

― Minha secretária, sei. É um pé no saco, sabia?

― Tento ser ― disse ela, dando um sorriso que era mais uma exibição de dentes que um pouco relacionado com o humor.

Ele grunhiu e sorveu o café por um momento. Lorna subiu o pé descalço sobre a cadeira e se fixou nas montanhas e os extensos vales, desfrutando estar fora depois de todo um dia confinada na casa. A manhã estava suficientemente fria para fazê-la desejar usar médias, mas não tão fria para forçá-la a voltar para dentro.

― Você gostaria de ir comigo hoje? ― perguntou ele finalmente, com aparente desinteresse.

― Depende, O que fará?

― Fiscalizar a limpeza, falar com a seguradora e ainda não tenho uma resposta de por que dois detetives estiveram fazendo perguntas imediatamente depois do fogo, assim estou buscando indo diretamente à fonte.

― Soa divertido.

― Estou contente que alguém ache ― disse ele ironicamente. Se arrume e tomaremos o café da manhã fora. Por alguma razão, não confio na comida daqui.

Capítulo 16
Terça-feira pela manhã, 7:30 a.m.
O homem que estava sentado, oculto detrás de uns matagais, encontrava-se no lugar desde antes da alvorada, quando tinha dispensado o infeliz idiota que tinha vigiado a noite inteira. Quando viu a porta da garagem deslizar para cima, agarrou os binóculos que pendiam de uma correia ao redor do pescoço e os enfocou para a casa. As luzes de freio vermelhas brilharam na escura garagem; então um Jaguar começou a sair de ré.

Recolheu um rádio e adaptou o microfone.

― Está saindo agora.

― Está sozinho?

― Não posso dizer… não, a mulher está com ele.

― Dez-quatro. Estarei preparado.

No momento seu trabalho estava feito, deixou cair os binóculos antes que a luz cintilasse sobre as lentes delatando-o. Agora podia relaxar. Seguir o Raintree não era seu trabalho.

***


― O inspetor do departamento de bombeiros disse como começou o incêndio? ― perguntou Lorna enquanto conduziam pelo escarpado e tortuoso caminho. O ar estava muito limpo, o céu era uma zona cheia de azul profundo. As sombras lançadas pelo sol da manhã bruscamente delineavam cada arbusto, cada rocha.

― Só que tinha começado ao redor de um armário de utensílios.

Ela colocou a correia do cinto de segurança de tal forma que o nylon não roçasse seu pescoço.

― Então faz com que um de seus adivinhos mentais dê olhadinha e diga o que pensa o inspetor do departamento de bombeiros.

Dante teve que rir.

― Parece que pensa que há muitos de nós, que tenho um exército de gente dotada que posso chamar.

― Bem, não é verdade?

― Dispersos por todo mundo. Aqui em Reno, há nove, incluindo eu. Nenhum deles está dotado em telepatia.

― Significa que não pode chamar o telepata mais forte e lhe dizer…

― Ela.


― …o nome do inspetor do departamento de bombeiros e que o leia de onde seja que se encontre?

― A telepata é minha irmã, Mercy, e ela só poderia fazer isso se já conhecesse chefe de bombeiros. Também poderia fazer se o encontrasse pessoalmente. Mas uma leitura a frio, sobre um desconhecido, a uma distância de aproximadamente duas mil e quinhentas milhas? Não funciona dessa maneira.

― Adivinho que tem suas vantagens a menos que precise ler a mente de um estranho a umas mil milhas de distância. Suponho que isto significa que adivinhar o pensamento não é um de seus talentos. ― De todos os modos, ela esperava que não. Se ele tivesse lido sua mente aquela manhã…

― Posso me comunicar telepaticamente com Gideon e Mercy, se deliberadamente baixarmos nossos escudos, mas estamos mais cômodos com os escudos em seu lugar. Mercy era uma pequena menina curiosa. Depois, quando cresceu, quis se assegurar de que não podíamos entrar subitamente em sua cabeça sem adverti-lo, então se blindou, talvez muito.

― De todas as formas o que pode fazer? Além de brincar com fogo e essa coisa do controle mental.

― Linguagens. Posso entender qualquer língua, o que é prático quando viajo. Chama-se xenoglossia. Um… sabe que tenho o suave dom da empatia. Um pouco divertido é que posso fazer luz fria, psicoluminiscencia. No geral chamada luz de bruxa.

― Creio que é útil quando acaba a luz.

― Tem seus momentos ― admitiu ele rindo. ― Era especialmente divertido quando era criança e mamãe fazia que apagasse a luz e fosse para a cama.

Esse tipo de vida caseira era tão alheio a ela como se tivesse crescido em Marte e isto a fazia se sentir um pouco insegura. Para mudar de assunto, perguntou:

― Algo mais?

― Não algo em grande medida.

Ela ficou calada, refletindo sobre toda aquela informação. Havia tanto que desconhecia sobre esta matéria. No caminho Dante falou de sua família e ele, como os dons se desenvolveram com a idade e como suas habilidades tinham crescido igual a qualquer outra habilidade, pelo uso constante. Se ela começasse a aprender mais sobre o que podia fazer, encontraria mais dons dentro de seu poder? Não estava segura de querer isso. De fato, estava quase segura de não fazer. Suficiente era suficiente.

Agora que estava fora da casa, sentiu-se exposta e vulnerável. Embora ao mantê-la encerrada desse modo autocrático a tinha enfurecido, talvez devia admitir que fez o correto. Ali tinha estado isolada do mundo, capaz de pensar calmamente que era uma dotada… embora modesta “extraviada” em comparação com os Raintree ou os Ansara, o que assemelhava ser um Volkswagen comparado com um Jaguar, por isso não foi necessário se proteger. Com cada minuto que se aproximavam de Reno e com cada minuto crescia mais e mais sua ansiedade. Quando ele coduziu o Jaguar perambulando pela costa para a interestadual e se uniram ao pesado trafego, estava quase em estado de pânico.

Velhos hábitos e padrões eram difíceis de romper. Uma vida de precaução e segredos não podiam mudar facilmente. Em solidão era bastante fácil de refletir e parecia completamente diferente do mundo real. A mãe de Lorna não tinha sido a única pessoa em sua vida que reagiu de maneira tão negativa ante seus dons. Dante podia chamá-lo um dom, mas em sua vida, isto tinha sido mais uma maldição.

De repente sentiu vertigem e se sentiu doente tão somente de pensar com mais profundidade neste novo mundo no que se encontrava. Nada mudaria. Se permitia a alguém conhecê-la, poderia se abandonar abertamente a exploração, ao ridículo, a perseguição ou algo pior.

― O que está errado? ― perguntou-lhe Dante bruscamente, observando-a fixamente. ― Está quase hiperventilando.

― Não quero fazer isto ― disse ela, os dentes batendo pelo repentino frio. ― Não quero ser parte disto. Não quero aprender como fazer mais.

Ele murmurou uma maldição, deu uma olhada rápida sobre o ombro para checar o tráfego e encaixou o Jaguar entre um semiautomático e um caminhão de pizzas congeladas. Na saída seguinte, separou-se da interestadual.

― Respira uma vez profundamente e prende o fôlego ― disse ele, enquanto entrava no estacionamento de um MacDonald’s. ― Maldita seja, deveria ter imaginado, isto é por que necessita treinamento. Disse a você que era muito sensível. Recolhe todos os padrões de energia a seu redor, tem que ser todo este tráfego e isto a sobrecarrega. Como demônios funcionou alguma vez? Como sobreviveu em um cassino, ou em qualquer lugar?

Obediente a sugestão anterior, Lorna tomou fôlego o mais profundo que pôde e o manteve. Estava hiperventilando? perguntou-se fracamente. Supunha que sim. Mas tinha frio, tão frio, da mesma maneira em que tinha estado no escritório de Dante antes do fogo.

Ele pôs uma mão calmante sobre seu braço nu, franzindo um pouco o cenho quando sentiu o quanto fria estava a pele.

― Se enfoque ― disse ele. ― Pensa que sua sensibilidade é como um cristal brilhante e com facetas, recolhendo o sol e lançando um arco íris por todo seu redor. Ou se você não gosta dos cristais, faça-o mais frágil e quebrável. Está fazendo? Pode vê-lo em sua imaginação?

Ela lutou por concentrar-se.

― Que forma tem o cristal? Hexagonal? Quantos lados tem?

― Que diferença há… não importa. É redondo. O cristal é redondo e com facetas. Consegue?

Ela formou uma imagem mental de um cristal redondo, só ela estava refletida. Não despedia um arco íris, despendia reflexos. Não mencionou isto. A concentração ajudava a dissipar aquela debilitante frieza, por isso estava disposta a pensar em cristais todo o dia.

― Consigo.

― Bom. Uma chuva de granizo se aproxima. O cristal se romperá a não ser que construa um refúgio a seu redor. Mais tarde pode voltar e construir um refúgio realmente forte a seu redor, mas agora mesmo tem que utilizar qualquer material que tenha ao alcance da mão. Olhe a seu redor.Vê o que pode usar para proteger o cristal?

Em sua mente ela olhou a seu redor, mas nenhum prático tijolo e cimento estavam perto. Havia alguns arbustos, mas não eram robustos. Talvez pudesse encontrar rochas planas e começar a empilha-las em camadas para formar uma barreira.

― Depressa ― disse ele. ― Só tem uns minutos.

― Há algumas rochas aqui, mas não são suficientes.

― Então pensa em algo mais. O granizo é do tamanho de bolas de golfe. Derrubará as rochas.

Em sua mente ela o olhou irritada; então, decepcionada e incapaz de pensar em nada mais, mentalmente se ajoelhou e começou a cavar um buraco na terra arenosa. Os lados do buraco eram suaves e mantinham a cavidade, então tirou um pouco mais. Podia ouvir a tormenta se aproximando com um rugido ensurdecedor enquanto o granizo golpeava todo o caminho. Tinha que se refugiar ela mesma. O buraco era profundo o bastante? Pôs o cristal no buraco e apressadamente começou a rastelar a terra ao redor e sobre isso. Não, isto era muito superficial; a bola de cristal não estava completamente coveira. Começou a juntar a terra de um círculo mais amplo, amontoando-o em cima do cristal. O primeiro granizo golpeou seu ombro, um golpe como um punho e soube que a terra não ia fazer o trabalho. Sem tempo e nenhuma outra opção, ela lançou seu próprio corpo na terra amontoada sobre o cristal, protegendo-o com sua vida.

Ela se sacudiu a imagem e o olhou exaperada.

― Bem, isto não funcionou ― espetou ela.

Ele se inclinou aproximando-se, seus olhos verdes concentrados em seu rosto, a mão ainda sobre seu braço.

― Lancei-me sobre a granada de mão, por assim dizer.

― O que?


― Tentava enterrar o maldito cristal mas não podia fazer profundo o bastante, então me lancei em cima dele e a chuva de granizo me golpeou até a morte. Não se ofenda, mas sua imaginação contagia.

Ele soprou e liberou o braço, recostando-se sobre seu assento.

― Essas não eram minhas imagens, eram as tuas.

― Você pensou no estúpido cristal.

― Sim. Funciona, também não é?

― O que?


― As imagens. Ainda sente e não sabe como se sentia, mas acredito adivinhar que era como se te atacassem por toda parte.

Lorna fez uma pausa.

― Não ― disse ela pensativamente. ― Não sinto isso agora. Mas não era como se atacassem. Era mais como um sentimento de ansiedade, uma sensação de desastre. Em seguida, tive tanto frio, do mesmo modo que em seu escritório antes do fogo.

― Só depois? Nunca havia se sentido assim aflita exceto em meu escritório? ― Ele considerou a idéia, franzindo um pouco o cenho.

Ela se esfregou a parte posterior do pescoço, sentindo os nós de tensão.

― Contrariamente ao que possa pensar, eu podia ir a todos os lugares e fazer as coisas sem sentir todos esses redemoinhos e correntes, como se o mundo chegasse a seu fim. Pensava que era você que fazia tudo isto, recorda? ― Qualquer que fosse essa coisa nova, não gostava absolutamente. Não era uma pessoa despreocupada, nunca o tinha sido… era duro ser a Pequena Miss Sunshine quando a golpeavam na mão sempre que abria a boca… mas nunca se sentiu derrotada, afligida pelo escuro desespero que a levava além da depressão.

― Não sou um sensitivo ― disse ele. ― Nunca senti o que descreve. Sei que emito um campo de energia, porque outros sensitivos o recolheram, mas nunca ninguém me disse que os fiz sentir como se chegasse o fim do mundo.

― Talvez eles não o conheciam da maneira em que eu ― disse ela docemente.

― Tem razão sobre isso ― respondeu ele, rindo um pouco e justo então o rápido ar entre eles se fez pesado e quente, como se uma tormenta de verão se aproximasse. Seu olhar desceu para seus seios, acariciando suas curvas com uma sensação quase física. Nunca havia tocado seus seios, não a tinha tocado sexualmente absolutamente a não ser que contasse as vezes que ela tinha sido capaz de sentir sua ereção contra ela. Voltar a pensar nisto, era uma preciosa maldição sexual. Com uma sacudida de auto-honestidade, ela compreendeu que tinha gostado de saber que podia deixa-lo duro; pensando em como ele a tinha feito sentir tensos os músculos abdominais sob seu ventre.

Como podia fazer isto, fazê-la responder tão rápido? Os mamilos se sentiam como pérolas, assim cada respiração os fazia roçar contra o sutiã, deixando-os mais duros. Ela quase curvou os ombros para aliviar a pressão, mas sabia que seria um caminho morto. Seu sutiã era bastante substancial para que ele não pudesse ver seu entusiasmo, o que era uma boa coisa. Ele poderia suspeitar, ela podia sentir em suas bochechas como aumentava a cor, mas ele não podia saber.

Seu olhar relampejou, apanhando o seu. Devagar, mas nada vacilante, ele levantou a mão e esfregou a parte posterior de um dedo sobre o mamilo esquerdo, deixando ela saber que se enganou: ele sabia. Suas bochechas ficaram mais quentes e sentiu o delicioso aperto outra vez e a profunda brandura em seu interior. Se ela não tivesse pensado em fazer sexo com ele… se não tivesse pensando só algumas horas antes de vê-lo nu… talvez não teria respondido tão facilmente. Mas tinha feito e fazia.

― Quando estiver pronta ― disse ele, sustentando o olhar durante um longo momento. Então deixou cair a mão e cabeceou para o restaurante de comida rápida. ― Vamos tomar o café da manhã.

Ele tinha aberto a porta e estava saindo quando, em tom de assombro, disse:

― Me trouxe para tomar o café da manhã em um MacDonald’s?

― São os arcos dourados ― disse ele. Me atraem o tempo todo.

Capítulo 17


― Estão entrando no McDonald’s. ― informou um dos observadores Ansara.

― Não se mova daí ― disse Rubén McWilliams, sentado na cama do quarto do motel. Por que nos motéis não colocavam os malditos telefones na estúpida mesinha para que um homem pudesse se sentar em uma cadeira quando falava ao telefone, em vez de ter que se sentar curvado no incômodo colchão?. ― Mantenha-os à vista, mas não se aproxime mais. Algo o assustou. Me faça saber quando se forem.

Algo tinha incitado Raintree a cruzar abruptamente duas vias de tráfego e tomar a rampa de saída para 110 quilômetros por hora, mas Rubén duvidava que esta repentina urgência fosse por um McMuffin14. Não era como se não pudesse esperar passar por mais algumas saídas para encontrar outro McDonald’s, sem necessidade de fazer essas manobras perigosas.

Não acreditava que sua gente tivesse feito algo que causasse o anormal comportamento, mas não estava no lugar, assim não podia estar seguro. Supunha-se que sua gente vigiaria e perseguiria, isso era tudo. Raintree não era um clarividente, por isso não deveria ter captado nenhum aviso dessa maneira, mas podia ter tido uma premonição. A premonição era uma habilidade muito comum, inclusive simples humanos a tinham. Raintree deve ter sentido uma pontada de intranqüilidade, e já que era um dos dotados, nunca descartaria o aviso; agiria segundo ele, onde a maioria dos humanos ordinários não fariam.

Dado que aí não tinha um perigo imediato ― isso viria despois ― talvez tivesse pressentido um acidente no futuro imediato se ficava na auto-estrada, por isso a deixou na saída seguinte. Era possível. Sempre havia variáveis.

O posicionamento na cena do incidente planejado tinha sido impossível em tão pouco tempo. Não sabiam quando Raintree ia deixar a casa, ou aonde iria quando o fizesse. Agora que estavam atrás de seu rastro, podiam mandar os amigos15 até ele, onde quer que estivesse; logo se retirariam e deixariam que os amigos fizessem seu trabalho.

***

Sobre um McMuffin, Dante disse:



― Diga exatamente que sentiu quando estava em meu escritório.

Lorna sorveu o café, pensando. Depois das estranhas sensações que tinha tido no carro, tinha precisado de algo quente para beber, mesmo embora Dante tinha dissipado todo o frio físico. O calor do café não podia alcançar o vestígio de calafrios mentais que ainda sentia, mas de todas as formas era reconfortante.

Examinou sua memória. Que normalmente era excelente, mas tudo tinha passado tão recentemente que os detalhes ainda estavam ainda frescos em sua mente.

― Assustou-me de morte ― replicou finalmente.

― Por que foi apanhada fazendo trapaças? ― incitou quando não continuou falando imediatamente.

― Não fiz trapaças ― insistiu, franzindo o cenho. ― Saber algo não é o mesmo que trapacear. Mas, não, não foi isso. Uma vez, em Chicago, estava voltando para casa uma noite e estava a ponto de tomar um atalho através de um beco. Utilizava o beco freqüentemente… como muita gente fazia. Mas essa noite, não pude. Congelei. Já sentiu alguma vez um medo tão intenso que faz você se sentir doente? Senti-me dessa forma. Retrocedi pelo beco e tomei outro caminho para casa. Na manhã seguinte o corpo mutilado de uma mulher foi encontrado nesse beco.

― Pressentimento ― disse. ― Um dom que salvou sua vida.

― Senti o mesmo quando o vi. ― Viu pela expressão que isso não o tinha agradado em nada, mas ele perguntou, então respondeu.



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