Raintree 1 Linda Howard



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Capítulo 7

Dante tristemente retornou onde tinha deixado Lorna, relutante em ir embrora, mas sabendo que não havia nada mais que pudesse fazer ali. Uma vez que a polícia acabou de interrogá-lo, seu único pensamento tinha sido inspecionar seus empregados para averiguar se tinha havido alguma vítima. Para sua profunda pena e ira, a resposta a esta última pergunta foi sim. Um corpo já tinha sido tirado das ardentes ruínas do cassino, e os tiras estavam trabalhando com as pessoas para estabelecer se havia algum amigo ou parente perdido, o que levaria tempo. Não poderia haver uma recontagem final até alguns dias.

Encontrou Al Rayburn, rouco e tossindo pela inalação de fumaça mas se negando a ir ao hospital, ajudando em troca a manter a ordem entre os hóspedes evacuados. O pessoal do hotel estava fazendo um trabalho admirável. O hotel mesmo tinha sofrido comparativamente poucos danos, e a maioria estava na área do vestíbulo que conectava o hotel e o cassino, onde Dante ficou. Todo mundo no hotel, hóspedes e empregados, tinham sido evacuados. Havia algumas pessoas com feridas leves, tornozelos torcidos e similares, mas nada de importância. Havia danos por causa da fumaça, naturalmente, e o hotel inteiro teria que ser limpo para tirar o fedor. As boas notícias, as que haviam, eram que a coberta do estacionamento não foi afetada, e o hotel não tinha danos estruturais. Provavelmente poderia reabrir o hotel em duas semanas. A questão era: por que alguém iria querer ficar ali sem o cassino?

O cassino se perdeu completamente. Os aproximadamente vinte veículos no estacionamento em frente à entrada do cassino tinham sido danificados, o estacionamento era um desastre nesse instante. Vinte ou trinta pessoas se queimaram em maior ou menor grau, e outros tantos estavam padecendo os efeitos da inalação de fumaça; todos eles tinham sido enviados a hospitais locais.

Os meios de comunicação tinham vindo em massa, é obvio, seus constantes gritos e interrupções e pedidos/exigências de entrevistas interfirindo nas suas tentativas de organizar a seus empregados, arrumar outro alojamento para os hóspedes de seu hotel, e acertar com Al para que os hóspedes recuperassem seus pertences e ao mesmo tempo proteger o hotel contra ladrões que pudessem fazer-se passar por eles. Tinha sua própria asseguradora com a que tratar. Tinha que ligar para Gideon e Mercy, para que soubessem sobre o fogo e que estava bem, antes de que vissem tudo isto nos noticiários. Ambos estavam na Zona Horária a Leste, o que significava que seria melhor que ficasse em contato com eles malditamente logo.

Finalmente tinha aceito que havia pouco mais que pudesse fazer essa noite; seus empregados eram excelentes e tinham os problemas sob controle, além disso sempre podia estar em contato por telefone. Bem que podia ir para casa e tomar uma necessária ducha.

E isso lhe deixava o problema de Lorna.

Esta noite era uma noite de estréias. Antes desta noite, nunca tinha usado o controle mental, nunca soube que podia. Não tinha idéia de quais eram os parâmetros. Ao princípio tinha pensado que seu próprio senso de urgência tinha proporcionado o impulso, mas mesmo depois que a evacuação acabou, tinha sido capaz de controlar Lorna só com as palavras e um empurrão de sua mente, então a adrenalina não tinha sido o catalisador. Tinha entrado em um novo território, e tinha que andar com cautela já que este poder em particular podia ser facilmente mal utilizado. Demônios, já tinha abusado dele, não era? Lorna diria definitivamente que sim a isso, quando a deixasse falar.

Esta noite também tinha sido a primeira vez que tinha invadido brutalmente a mente de alguém e literalmente tinha roubado o poder disponível. Depois da desgraça, ela tinha ficado aturdida, entorpecida, incapaz de recordar sequer seu nome, todos os sintomas atribuíveis a um choque emocional. O quanto extensa era a amnésia, e por quanto tempo, era algo que ficava a se ver. Ela tinha começado a se recuperar muito rápido, mas ainda não lembrava grande parte da experiência, a menos que tivesse recuperado a memória em sua ausência, em cujo caso provavelmente deveria encontrar alguma equipe de cuidados antes de liberá-la do controle.

Ela era Ansara? Essa era a questão pendente que tinha que ser respondida, e logo.

Seu pensamento ia em ambos os sentidos. Parte dele dizia, não, ela não podia ser, ou não seria capaz de dominar sua mente tão facilmente, tampouco ela séria tão suscetível ao controle mental. Uma Ansara, treinada desde o nascimento para dirigir e controlar suas incomuns habilidades, como o era os Raintree, teria resistido automaticamente ao controle mental. O poder era excepcional, tão excepcional que nunca tinha conhecido ninguém capaz de exercitá-lo, embora a história da família dizia que uma tia seis gerações atrás tinha sido perita nisso. Excepcional ou não, porque o poder existia, ele e cada um dos Raintree tinham sido adestrados em construir escudos mentais. Os Ansara basicamente refletiam os Raintree em seus dons, e indubitavelmente, também, ensinavam a sua gente a proteger-se, o que queria dizer que a completamente desprotegida Lorna não podia ser Ansara.

A menos…


A menos que tivesse tanto talento que ele não pudesse detectá-lo. A menos que simplesmente estivesse fingindo ser controlada pelo controle mental. Ele havia dito sua vontade em voz alta, então ela sabia o que queria. Se também tinha o dom de controlar o fogo, podia ter estado reforçando o fogo, ressuscitando as chamas cada vez que ele conseguia derrotá-las. Não. Rechaçou essa idéia. Se ela tivesse sido a que alimentava o fogo, teria sido capaz de extingui-lo completamente depois de que se apropriou de seu poder. Alguém mais devia ter alimentado o fogo, mas ela podia tê-lo distraido, desviando algo de seu poder.

Era ou não era? Saberia logo. Se não era... então tinha jogado um pouco duro com uma mulher que podia não ser uma inocente, mas que ainda estava longe de ser uma inimiga. Embora, não sabia se tivesse feito algo diferente. Quando tinha dominado sua mente, tinha sido um ato de desespero, e não teve o luxo do tempo para explicar-lhe as coisas. Poderia compensá-la, mas não estava arrependido do que tinha feito. Estava contente de que ela tivesse estado ali, contente de que fosse dotada e tivesse uma reserva de energia mental para extrair.

Rodeou um caminhão de bombeiros, onde os tripulantes estavam preparando suas mangueiras para recolhê-las, aproximou-se do beira da calçada. Agora podia vê-la. Isso era mais do que podia dizer, ela estava no lugar exato em que a tinha deixado, que ao menos era a um lado, assim não estava no caminho de nenhum dos bombeiros. Estava muito suja, seu cabelo endurecido pela desagradável mescla de fumaça, fuligem e água, sua postura gritava esgotamento. Ainda aferrava uma manta ao redor dela e estava literalmente cambaleando onde estava de pé. Sentiu um repentino acesso de impaciência, mesclada com simpatia. Por que não se sentou? Não a tinha impedido de fazer isso.

Olhando para ela, fez uma careta mental de dor em nome dos assentos de seu carro, então encolheu os ombros imediatamente já que ele também estava asqueroso. O que importava de todas formas? O couro podia ser limpo.

Quando o viu, pura fúria brilhou em seus olhos, dissipando a fadiga. Se tinha esperado dela que fosse covarde, teria ficado decepcionado. Como fora, um pequeno vislumbre de antecipação disparou através dele. Inclusive depois de tudo pelo que tinha passado, ela ainda estava se defendendo por si mesma. Recordando a vasta reserva de poder que tinha encontrado quando havia tocado sua mente, perguntava-se se ela sequer sabia o quão forte era realmente.

- Vem comigo - disse, e, obedientemente, o seguiu.

- Não havia nada obediente no modo em que agarrou seu braço, embora, o aproximou. Olhou-o furiosamente, indicando sua boca com um gesto breve e impaciente. Queria falar; provavelmente tinha um montão de coisas memorizadas que dizer.

Dante começou a liberar o controle, então se deteve e fez uma careta.

- Acho que desfrutarei de um pouco mais do silêncio - disse, sabendo que realmente poderia enrolar suas calças em um nó. - Não há nada que tenha a dizer que não possa esperar até que estejamos sozinhos.

Al tinha arrumado para que um dos de segurança fosse procurar o carro de Dante do estacionamento, onde tinha uma vaga reservada perto de um elevador privado. Ele tinha sido discreto com isto, porque alguns dos hóspedes, os que não tinham identificação, não seria permitido que tirassem seus carros do estacionamento. Já tinham solucionado esse problema de segurança com aqueles hóspedes que consideravam realmente que tinham que ter um carro esta noite, embora Dante estava proporcionando transporte para levar todo mundo aos diversos hotéis onde seus empregados tinha encontrado alojamento. Estava fazendo todo o possível para cuidar de sues hóspedes, mas sabia que ainda podia haver um montão de ressentimento que se formaria por detalhes como ele conseguindo seu carro quando eles não podiam.

O Lotus Exige negro estava ligado em ponto morto, com as luzes de freio ligadas, no final do enorme estacionamento do cassino, oculto da maioria da multidão de curiosos pelo enorme grupo de veículos de emergência com suas luzes brilhantes. Dante guiou Lorna ao passarem pela borda do estacionamento, quando se aproximaram do carro, a porta do condutor se abriu e um dos homens da segurança saiu.

- Aqui está, senhor Raintree.

- Obrigado, José. - Dante abriu a porta do passageiro. Lorna lhe dirigiu um olhar letal enquanto subia ao carro e de algum jeito conseguiu cravar um cotovelo nas suas costelas. Ele dissimulou uma careta, depois fechou a porta com um firme clique e o rodeou para a porta do condutor.

O Lotus tinha o chão baixo e não era de tudo confortável para seu corpo musculoso de um metro e noventa, mas adorava dirigi-lo quando estava com ânimo para isso. Quando queria mais comodidade, dirigia seu Jag5. Esta noite teria preferido conduzir por uma paisagem despovoada e pisar fundo, para aliviar a ira e o agudo fio de dor com absoluta velocidade e agressividade. O Lotus podia ir de zero a cem em onze segundos, o que era uma rajada. Precisava ir a duzentos quilômetros por hora agora mesmo, precisava empurrar a maquininha de alto rendimento até a seus limites.

Em vez disso conduziu calma e prudentemente, consciente de que não podia afrouxar a tensa correia que estava segurando seu gênio. O fato era que a noite ajudava, mas a data estava muito perto do solstício do verão para correr qualquer risco. Demônios - Ele poderia ter começado o maldito fogo? Era responsável pela perda ao menos de uma vida?

O oficial de incêndios disse que as entrevistas preliminares indicavam que tinha começado na parte de atrás, onde estava o interruptor diferencial, mas o lugar ainda estava muito quente para que os investigadores entrassem ali a comprovassem. Se o fogo tinha começado por um problema elétrico, então ele não tinha nada a ver, mas lhe dava voltas à possibilidade de que o fogo resultasse ter se iniciado por algo completamente diferente. Seu controle vacilou quando tinha visto Lorna pela primeira vez, com os últimos raios do sol poente convertendo seu cabelo em um rico fogo. Tinha aceso as velas sem nem sequer pensar nelas; tinha aceso algo mais?

Não, não tinha feito. Estava seguro disso. Se tivesse sido a causa, as coisas teriam estalado em chamas por todo o hotel e o cassino, não em um lugar distante. Tinha contido seu poder, mantendo-o sob controle. O fogo do cassino tinha sido causado por algo mais; o momento tinha sido só coincidência.

Transcorreu quase meia hora antes que abrisse sua porta com um controle remoto e guiasse o Lotus por uma estrada com curvas até sua casa de três andares localizada em uma ladeira voltada para o leste de Serra Nevada. Outro botão do controle remoto levantou a porta da garagem, e situou o Lotus em sua vaga como um astronauta acoplando um foguete com a Estação Espacial, em seguida fechou a porta atrás dele. O Jag prateado brilhou em seu lugar ao lado do Lotus.

- Vamos - disse a Lorna, e ela saiu do carro. Olhou para frente enquanto ele dava um passo a um lado para permitir que o precedesse dentro da brilhante cozinha. Pressionou seu código no sistema de segurança para deter o assobio de alarme, em seguida se deteve. Brevemente considerou levá-la a cidade depois de ter falado com ela, então descartou a idéia. Estava cansado. Ela podia ficar aqui, e se tivesse que fazer isso - como sem dúvida seria - usaria o controle para mantê-la aqui e fora de problemas. Se não gostasse, má sorte; as últimas horas tinham sido uma droga, e não tinha vontade de fazer o trajeto.

Com isso em mente, reativou o alarme e se girou para ela. Estava de pé dando-lhe as costas, a menos de dois metros, os ombros rígidos e, a julgar pelo ângulo da cabeça, com o queixo levantado.

Lamentando a iminente perda de silêncio, disse:

- Certo, pode falar agora.

Ela girou para enfrentá-lo, e ele se preparou para uma inundação de impropérios enquanto os punhos se fechavam a seus flancos.

- O banheiro! - gritou.

Capítulo 8
A mudança em sua expressão poderia ter sido cômica se Lorna estivesse de humor para apreciar. Ele rodou os olhos com compreensão, e rapidamente indicou para um pequeno vestíbulo.

- Primeira porta à direita.

Deu um passo desesperado, e logo ficou gelada. Maldito seja, ainda a controlava! O olhar abrasador que lhe deu deveria conseguir o que o fogo do cassino não pode, concretamente chamuscar cada cabelo de sua cabeça.

- Não se afaste - resmungou ele, se precavendo que não tinha acabado o controle.

Lorna correu. Bateu a porta do banho mas não perdeu tempo em fechá-la. Mal a fechou, e a sensação de alívio foi tão grande que tremeu com estremecimentos involuntários. Uma cena do Tom Hanks em Uma Equipe Muito Especial cruzou por sua mente, e mordeu o lábio para se abster de gemer em voz alta.

Então ficou apenas sentada, os olhos fechados, tentando acalmar os nervos excitados. Tinha levado-a para sua casa! Que intenção tinha? O que ele fosse, não importava, ele a controlava, estava indefesa para se libertar. Durante todo o tempo em que ele esteve fora, se dispos repetidas vezes a dar um só passo, dizer uma palavra... e não pôde. Metade de sua mente estava assustada, a outra metade traumatizada, e se por acaso fosse pouco, estava tão zangada que pensou poderia ter uma fúria chiando, fora-de-controle e esperneando de mal humor só para aliviar a pressão.

Abrindo os olhos, começou a colocar a corrente, mas ouviu sua voz e permaneceu quieta, tentando ouvir o que estava dizendo. Haveria mais alguém aqui? Justo quando começava a relaxar um pouco, notou que estava falando por telefone.

- Sinto acordar você. - Fez uma breve pausa, então disse: - Houve um incêndio no cassino. Poderia ter sido pior, mas é suficientemente mau. Não quis que visse nos noticiários da manhã e fizesse perguntas. Ligue para Mercy em algumas horas e conte a ela que estou bem. Tenho o pressentimento que vou estar muito ocupado nos próximos dias.

Outra pausa.

- Obrigado, mas não. Não tem que subir em nenhum avião esta semana, e aqui está tudo bem. Só queria telefonar antes que ficasse tão enrolado com a papelada burocrática que não pudesse telefonar.

A conversa continuou durante um minuto, e se manteve em assegurar a quem quer que estivesse do outro lado que não, não precisava de ajuda; que tudo estava bem... bom, não bem, mas sob controle. Havia pelo menos uma vítima. O cassino se perdeu completamente, mas o hotel tinha sofrido um dano mínimo.

Finalizou a chamada, um momento mais tarde Lorna ouviu uma selvagem maldição murmurada, em seguida um ruído surdo, como um murro na parede.

Não parecia do tipo que dava murros às paredes, pensou. No entanto, não o conhecia. Poderia ser um golpeador de paredes em série. Ou talvez desmaiou ou algo assim, e o golpe surdo tinha sido o corpo golpeando o chão.

Gostou dessa idéia. Aferrou-se à idéia de chutá-lo enquanto ele estava no chão. Literalmente.

A única maneira de ver se estava caído ali inconsciente era saindo do banheiro. A contra gosto, colocou a corrente, em seguida foi para para o lavabo lavar as mãos... um lavabo com a bancada escura de granito marrom dourado e elementos dourados. Quando conseguiu abrir a água, o contraste entre a riqueza do lavabo e sua mão completamente imunda e escura com a fuligem, a fez se envergonhar interiormente quando levantou a cabeça.

Um imundo pesadelo surgiu no espelho em frente a ela. Tinha o cabelo embaraçado com fuligem e água, e fedia a fumaça. Tinha a cara tão negra que unicamente se definiam os olhos, e estavam sanguinolentos. Com os olhos vermelhos, parecia um demônio do inferno.

Estremeceu, recordando o quanto as chamas tinham chegado perto. Sendo que não podia imaginar como ainda tinha algum cabelo na cabeça, não deveria se queixar que estivesse embaraçado. O xampu (em grandes quantidades) se encarregaria disso. A fuligem poderia se esfregada. As roupas estavam arruinadas, mas tinha outras. Estava viva e ilesa, e não sabia como.

Enquanto ensaboava as mãos imundas, clareou-as, e as ensaboou de novo, tentou reconstruir uma seqüência exata dos acontecimentos. A dor de cabeça, que tinha se acalmado, retornou tão ferozmente que teve que se agarrar com as mãos ensaboadas a borda do lavabo.

Os pensamentos formaram redemoinhos tentando conectar uma seqüência coerente, mas logo os segmentos estiveram fora de seu alcance outra vez.

- Deveria ter se queimado...

- o cabelo chamuscado...

- bolhas...

- nem queimada...

- agonizante...

Choramingando pela dor na cabeça, caiu de joelhos.

Raintree amaldiçoou.

Algo que a lembrava de alguma coisa. De estar presa em frente a ele, com os braços fechados a seu redor, enquanto as maldições ressonavam em sua cabeça e seu... seu...

As lembranças desapareceram, evitando a tentativa de agarra-las. A dor banhava sua visão, e fixou os olhos nas bolhas de sabão das mãos, tratando de unir energia para agüentar. Estava tendo uma premonição? A dor era tão intensa, ardia, e enchia sua cabeça até que pensou que seu crânio explodiria pela pressão.

Bolhas de sabão.

As trêmulas bolhas (algo sobre elas a fazia recordar) tinha havido algo ao redor...

Uma trêmula bolha. A memória explodiu em seu dolorido cérebro, tão clara que lhe provocou lágrimas. Tinha visto, rodeando-os, mantendo o calor e a fumaça do lado de fora.

Sentia a cabeça como se realmente tivesse explodido. Tinha tido um impacto tão grande que não podia compará-lo com nada que tivesse experimentado, mas imaginava que a sensação seria a mesma se tivesse sido atropelada por um trem... ou golpeada por um meteoro. Era como se as membranas celulares de seu cérebro houvessem se disolvido, como se tudo o que tivesse sido, foi, e seria, tivesse sido sugado, tomado o controle e usado. Tinha estado indefesa, completamente indefesa como um recém-nascido, para resistir a dor ou ao homem que cruelmente tinha tomado tudo.

Com um estalo, tudo voltou para seu lugar, como se essa lembrança tivesse sido a peça que precisava para ter o quebra-cabeças completo.

Recordou tudo: cada momento de indescritível terror, sua incapacidade para agir, o modo em que ele a tinha utilizado.

Tudo.

- Já teve tempo de sobra - a chamou da cozinha. - Ouvi como colocou a corrente. Venha aqui, Lorna.



Como uma marionete, levantou-se e saiu do banheiro, com o sabão ainda grudado em suas mãos e com o humor aceso. O via carrancudo, ali de pé esperando por ela. Com cada passo vacilante que dava, seu temperamento chegava em outro nível na estratosfera.

- Imbecil! - gritou, chutando seu tornozelo quando passou a seu lado. Só conseguiu dar alguns passos mais à frente antes que o invisível muro a detivesse, então girou rapidamente e retrocedeu.

- Asno! - cravando um cotovelo nas suas costelas.

Não deve tê-lo machucado muito porque parecia mais assombrado que dolorido. O que a enfureceu muito mais, e quando o muro a obrigou a dar a volta outra vez, alcançou um nível completamente novo de fúria enquanto começava a andar para cima e para baixo dentro dos limites da vontade dele.

- Obrigou-me a ir para o fogo... - o golpeou na cintura rapidamente como uma serpente.

- Tenho terror ao fogo, mas você se importa? - Outro chute, esta vez diretamente no joelho.

- Oh, não, tive que estar ali enquanto fazia seus rituais... - Nesta volta, dirigiu o golpe para o plexo solar.

- Depois violou meu cérebro, imbecil, gorila, feiticeiro de merda... - Na viagem de volta, golpeou o rim.

- Depois, se por acaso fosse pouco, todo o tempo esteve esfregando sua ereção contra minha bunda! - Estava tão indignada que gritou a última parte, e sesta vez colocou todo seu empenho no golpe contra seu queixo.

Ele o bloqueou com um veloz movimento do antebraço, então que lhe deu um pisão.

- Ai! - uivou ele, mas o imbecil estava rindo, maldito, e em outro de seus movimentos relâmpago, capturou-a entre seus braços, atraindo-a solidamente contra ele. Abriu a boca para protestar, ele inclinou a cabeça e a beijou.

Diferente das táticas repressivas que tinha usado com ela toda a noite, o beijo foi suave, ligeiro como uma pluma e quase doce.

- Sinto muito - murmurou e a beijou de novo. Fedia tanto quanto ela, possivelmente mais, mas o corpo sob as roupas danificadas era rocha pura com músculos e muito quente no frescor da casa com ar condicionado. - Sei que dói... Não tive tempo de explicar... ?Entre as frases, continuou beijando-a, cada toque sucessivo de seus lábios se tornando um pouco mais profundo, durando um pouco mais.

A emoção a manteve quieta: emocionada porque ele queria beijá-la; emocionada porque o deixava beijá-la, depois de todo esse antagonismo entre eles; depois de fazer tudo o que tinha feito; depois que ela o tivesse submetido a essa serie de ataques. Não a obrigava lhe deixar beijá-la; isto era como querer caminhar e não poder. Tinha as mãos em seu peito musculoso, mas não fazia nenhum esforço para afastá-lo, nem sequer mental.

Ele deslizou a boca para o suave espaço sob a orelha, depositou uma suave dentada na curva de seu pescoço.

- Teria preferido esfregar minha ereção contra sua parte dianteira - disse, e retornou a sua boca com um beijo que não tinha nada de ligeiro ou doce. A língua entrou rapidamente, deixando-o conhecer seu sabor, enquanto a mão direita descia até seu traseiro, deslizando carinhosamente sobre as curvas, em seguida pressionou seus quadris para encontrá-lo.

Estava fazendo exatamente o que havia dito que preferia ter feito.

Lorna não confiava na paixão. Pelo que tinha visto, a paixão era egoísta e egocêntrica. Não era imune, mas não confiava nela... não confiava nos homens, os quais por sua experiência diziam mentiras só para ter relações sexuais. Não confiava em ninguém que queria cuidar dela, olhar por seus interesses. Se acaso se abriu à paixão lentamente, com receio.

Se não estivesse tão cansada, tão estresada, tão traumatizada, teria se controlado completamente, mas tinha perdido o equilíbrio no minuto em que o chefe de segurança a tinha escoltado até seu escritório. Agora estava desequilibrada, a cabeça dava voltas como se a cozinha estivesse girando a seu redor, como se o chão se inclinasse sob seus pés. Em contraste, ele era sólido e muito quente, os braços fortes como nenhum que a tivessem segurado antes, e o corpo respondeu como se nada existisse mais à frente do que o simples prazer do momento. Estar presa contra ele era bom. O calor de seu corpo ardente era bom. A grosa longitude de sua ereção, empurrando contra sua barriga, era bom... tão bom que se pôs na ponta dos pés para acomodá-lo melhor, e não lembrava ter feito.

Tardiamente alarmada por não mostrar sua cautela habitual, separou a boca dele e empurrou contra seu peito.

- Isto é estúpido - resmungou.

- Descerebrado - ele estava de acordo, com a respiração um pouco acelerada. Demorava para soltá-la, então o empurrou outra vez, e, a contra gosto, deixou cair os braços.

Não deu um passo atrás, então ela deu, olhando fixamente pela cozinha, assim não tinha que olhar para ele. Supôs que como todas as cozinhas era bonita. Não gostava de cozinhar, por isso é que no esquema geral das coisas, para ela as cozinhas eram mais ou menos um desperdício.

- Me seqüestrou - ela foi à carga com o cenho franzido.

Ele considerou, então inclinou brevemente a cabeça.

- Fiz isso.

Por alguma razão este assentimento a zangou mais que se tivesse discutido sua afirmação.

- Se vai me acusar de trapaceira, faça logo - estalou. - Não pode provar nada, e ambos sabemos, como está ficando ridículo, melhor, o que me preocupa, porque logo poderei ir e não o verei...

- Não vou apresentar queixa contra você - interrompeu. - Tem razão. Não posso provar nada.

Sua repentina admissão a deixou perplexa.

- Então por que me arrastaram até lá em cima?

- Disse que não posso provar que fez. Isso não quer dizer que seja inocente. - Deu-lhe um estreito e taxativo olhar. - De fato, é culpada como o demônio. Utilizar suas habilidades paranormais nos jogos de azar é trapaça, pura e simplesmente.

- Não tenho... - Automaticamente, começou a negar que era psíquica, mas ele levantou uma mão para cortá-la.

- Por isso é que fiz a “violação de cérebro”, como você chama. Precisava de uma reserva extra de poder para afastar o fogo, e sei que está dotada... mas me surpreendi o quanto. Não pode me dizer que não sabia. Há muito poder para fazê-lo passar só como sorte.

Lorna não soube como reagir. A fria aceitação do que lhe tinha feito arrepiou de novo os cabelos de sua nuca, mas a acusação de que ela estava “dotada” a inquietou tanto que começou a negar com a cabeça antes de que ele acabasse de falar.

- Números - resmungou. - Sou boa com os números.

- Teimosa.

- Isso é tudo! Não leio a sorte ou leio as folhas de chá ou nada do estilo! Não soube que o 11 de setembro ia acontecer...

Mas os números de vôo derrubados a tinham atormentado durante dias antes do ataque. Se tentava marcar um número, os números marcados eram esses números de vôo... na ordem em que os aviões se chocaram.

Essa recordação em particular surgiu como um salmão saltando fora da água, e um calafrio a estremeceu. Não tinha pensado nos números de vôo depois. Tinha enterrado as lembranças profundamente, onde não causassem problemas.

- Sai - sussurrou a suas lembranças.

- Não vou a lugar nenhum - disse ele. - E você tampouco. Ao menos, não imediatamente. - Suspirou e lhe deu um olhar arrependido. - Tire as roupas.

Capítulo 9
- Não vou fazer isso! - uivou Lorna, se afastando o quanto podia dele, o que é obvio não era muito.

- Então farei eu, provavelmente - respondeu ele ironicamente, aproximando-se mais, se inclinando ameaçador sobre ela. - Ninguém a ajudará. Olhe, não me excederei. Só tire as roupas e acabe logo com isso.

Retrocedeu quando ele avançou, agarrando a blusa como se fosse uma ultrajada virgem vitoriana e procurando uma arma, qualquer arma. Era uma cozinha, maldita seja; supunha-se que devia ter facas localizadas em um extravagante bloco nessa bancada extravagante. Em vez disso, não havia nada mais que uma vasta extensão de gentil granito.

Respirou fundo, em seguida suspirou como se estivesse aborrecido.

- Posso fazer sem necessidade de tocar em você. Você sabe, e eu sei, então por que fazer da maneira difícil?

Tinha razão, pensou com impotência. Algo que tivesse em mente fazer com a mente dela, poderia fazer quando quisesse.

- Isto não é justo! - gritou-lhe, apertando as mãos em punhos. - Como pode me fazer isto?

- Sou um médico bruxo de merda, lembra?

- Não esqueça todo o resto! Bastardo! Asno…

- Sei, sei. Agora tire as roupas.

Ela sacudiu com força a cabeça, embaraçando o cabelo com o movimento. Amargamente, esperou que tomasse o controle de sua mente, mas não o fez. Ele só avançou inexoravelmente quando ela retrocedeu, seguindo a rota da passagem do pórtico do banehiro que tinha utilizado, atravessando o que assumiu era um estúdio muito elegante. Embora não ousasse tirar seu olhar dele, deu uma olhada rápida o suficientemente a seu redor.

Tocava-a, notou, como se fosse uma ovelha e não tivesse escolha, mas não podia fazer nada mais além de ser conduzida com o rebanho. Os olhos verdes injetados de sangue brilharam na suja cara, fazendo-o parecer completamente selvagem. O coração dela pulsava desenfreadamente. Era algum tipo de louco assassino em série que deixava corpos desmembrados dispersos por toda parte de Nevada? Um Rasputin moderno? Um fugitivo de alguma instituição para doentes mentais? Na verdade, não parecia nem agia como o milionário dono de um casino-hotel de primeira categoria. Agia como se fosse algum tipo de caudilho, o amo de tudo o que contemplava.

Apoiou-se no marco de uma porta, brevemente desequilibrada, então enfrentou outra surpresa ao dar-se conta de que a tinha dirigido para outro banheiro, desta vez um banheiro completo, e muito mais opulento que o meio banheiro da cozinha. Nenhuma das luzes estava acesa, mas a iluminação que provinha da porta aberta revelou seu reflexo no brilhante espelho a sua esquerda.

Alcançou-a e acendeu as luzes, tão brilhantes e brancas que teve que levantar uma mão para proteger os olhos.

- Agora - disse ele - sem mais atrasos. Tire as roupas você mesma, ou farei isto da maneira difícil.

Lorna deu uma olhada a seu redor. Estava abandonada.

- Vá para o inferno - disse ela, e fez o que todos os animais abandonados fazem sempre: Atacou.

Durante algum tempo ele somente bloqueou seus murros, desviou seus chutos, evitou suas dentadas, e a facilidade com que o realizou, fez com que ela se zangasse ainda mais. Perdeu um sapato na batalha, a sandália barata atravessou o quarto para se chocar com estrépito contra a imensa banheira. Então, sentiu uma repentina onda de impaciência vindo dele, e em menos de três segundos a teve inclinada sobre o lavabo com as mãos presas atrás dela.

Ele se concentrou na tarefa, utilizou suas poderosas pernas para controlar os chutes, e agarrou o decote de seu Top. Três fortes puxões trouxeram o som de vários fios cedendo, mas as costuras resistiam. Ele amaldiçoou e puxou mais forte, e a costura do lado esquerdo se rasgou. Sem piedade rompeu o objeto até convertê-la em farrapos, pendendo de seu braço direito. Seu sutiã era abotado nas costas, e foi presa fácil do rápido toque de dedos que soltaram dos cochetes.

Retorceu-se como uma enguia, chiando até que ficou rouca. Ele ignorou completamente tudo o que disse, cada insulto e súplica que lançou, silenciosa e cruelmente concentrando em despi-la. Ela alternava entre a fúria e um pânico soluçante quando ele abriu o botão de suas calças e baixou o zíper, mas se deteve antes de empurrar suas calças e a roupa interior até abaixo de seus quadris.

Ela estava sem forças, soluçava, sua cara pressionada contra a fria pedra do lavabo. Deixou de baixar suas roupas, e em troca o calor de sua mão se mudou para o pescoço, levantando o cabelo preso por um momento, para em seguida delinear os ombros. Mudou a maneira como segurava as mãos dela, para empurrá-las para cima e sobre a cabeça antes de reiniciar o que se sentia como uma busca centímetro a centímetro em sua pele. Os flancos de seus seios, as costelas, a curva da cintura, os quadris cheios, ele examinou tudo isso, baixando ainda mais suas calças para revisar as curvas inferiores das nádegas. Mortificada, retorceu-se e soluçou, mas ele foi inexorável.

Então ele suspirou e disse:

- Devo outra desculpa a você.

Liberou as mãos dela e retrocedeu, libertando ela da pressão de seu corpo. Quando se retirou disse:

- Trarei algumas roupas para você. Pensa em tomar uma ducha, recupera o fôlego e depois falaremos. - deteve-se, adicionando - não saia deste quarto. - Em seguida fechou brandamente a porta.

Soluçando, deslizou do lavabo ao chão e se curvou sobre si mesma vencida. Ao princípio tudo o que podia fazer era chorar e tremer. Depois de um momento seu gênio ressuscitou e cintilou em um silencioso grito. Chorou um pouco mais. Finalmente se incorporou, limpou a cara com as partes de sua blusa, e gritou:

- Bastardo!.. - Na porta. Agora se sentia levemente melhor graças ao insulto.

Seus olhos estavam inchados e o nariz congestionado, mas se sentia tranqüila o bastante para levantar, embora não fosse fácil com as calças ao redor dos joelhos. O ultraje se acrescentou à humilhação, mas não tinha objetos que arremessar. Em lugar disso se despiu completamente e parou ali extranhamente indecisa.

A sugestão de tomar uma ducha, descobriu, era apenas isso: uma sugestão. Se não queria, não tinha porque fazê-lo. Poderia tomar um banho longo na jacuzzi, se desejasse. Não tinha que se banhar depois de tudo, embora tenha desprezado imediatamente esta opção.

Entrar na banheira não seria prático, porque se não acabaria por sentar-se em água suja. Uma larga-muito-larga ducha quente era a única forma de ficar limpa.

A ducha não tinha porta. A entrada era uma parede curva de pedra que tinha um armário embutido, no qual se amontoavam grossas e acobreadas toalhas, desceu três degraus que a levaram ao cubículo da ducha de mais ou menos um metro e meio quadrado com múltiplas torneiras. Os controles estavam perto, e quando os girou, a água jorrou pelas três paredes e de cima. Esperou até que sentiu o calor do vapor subir ao rosto, então deu um passo dentro dos jorros de água.

Concentrando-se em estar limpa, e nada mais, concedeu a seus nervos um descanso muito necessário. A água quente correndo sobre seu corpo era tranqüilizadora, uma vibrante massagem. Pos xampu no cabelo e o esfregou, em seguida fez isso outra vez, e outra vez mais, até que sentiu o cabelo limpo e desembaraçado. Ensaboou-se e esfregou com o fragrante gel de banho, e comprovou que não tirava toda a fuligem e a imundície. Uma segunda refrega não produziu melhores resultados, então trocou pelo xampu; se tinha funcionado com o cabelo, devia funcionar na pele.

Finalmente se deu conta de que tinha ficado na ducha tanto tempo que as gemas de seus dedos se enrugaram e a água quente há muito tempo se esgotou, já era suficiente. Estava empapada. Com pesar, fechou a água, e os fluidos jorros desapareceram tão de repente como se tivessem sido absorvidos pelos grifos. Só os sons do ar condicionado e da água drenando chegaram a seus ouvidos.

Não tinha ligado o ar condicionado. A menos que ligassem automaticamente quando o nível de umidade alcançava certo ponto… Ele tinha estado no banheiro.

Apressadamente, subiu os três degraus, agarrou uma das esponjosas toalhas e a envolveu ao redor de si mesma, logo conseguiu outra e a retorceu em um turbante sobre o cabelo molhado. Apoiando-se na parede curvada, caminhou até que pôde ver a parte principal do banheiro. O espelho de parede atrás do lavabo duplo retornava seu reflexo, mas era o único reflexo. Estava sozinha… agora. O grosso robe felpuda colocado no tamborete da penteadeira lhe indicou que ele tinha estado ali.

Lorna se olhou fixamente no espelho. Parecia pálida, ainda para ela mesma. A pele ao redor das maçãs do rosto estava tensa, dando uma expressão embotada e alterada.

Isso estava bem. Ela se sentia embotada e alterada.

Havia dito a ela que não saísse do banheiro. Estava tão desanimada que nem sequer fez a tentativa, assim não sabia se isso tinha sido outra sugestão ou uma de suas estranhas ordens mentais que não podia desobedecer. Nesse momento não se importou se era uma sugestão ou uma ordem. Estava contente simplesmente de permanecer ali, onde não havia nada mais difícil de fazer que secar o cabelo.

Registrando nas gavetas da penteadeira, encontrou uma loção de banho, assim como um secador de cabelo e escova, que era tudo o que precisava nesse momento. O xampu tinha feito com que sua pele se sentisse tensa, então esfregou a loção por todas as partes que podia alcançar, então começou a tarefa de secar o cabelo.

Seus movimentos com a escova se fizeram mais lentos, logo ainda mais lentos. O cansaço fez que seus braços tremessem. Tinha sorte que seu cabelo fosse em sua maior parte liso e tivesse um bom comprimento, porque qualquer tentativa de dar uso a ele estava além de suas forças. Só queria que o cabelo estivesse seco antes que desabasse, isso era tudo.

Com essa tarefa cumprida, colocou o robe, o qual evidentemente era dele; as mangas caíam vários centímetros além das pontas de seus dedos e a barra quase roçava o chão. Divertido, pensou confusamente, ele não parecia do tipo que usasse robe.

Então esperou, cambaleando, os pés descalços pisando no tapete felpudo. Poderia pelo menos ter aberto a porta, mas não tinha nenhuma pressa em encará-lo, nem para averiguar se a porta se abria, estava encarcerada neste quarto. Muito tempo. Era tempo de enfrentar o inimigo outra vez.

Falariam, havia dito a ela. Não queria falar com ele. Não tinha nada que lhe dizer que não incluísse muitos palavrões. Tudo o que queria era ir embora... bem, não para casa exatamente, porque não tinha um lar nesse sentido. Desejava retornar aonde se hospedava, aonde estavam suas roupas. Isso era o mais próximo a um lar para ela. Por enquanto, só queria dormir até tarde na cama a que estava acostumada.

Sem aviso, a porta se abriu e ele parou ali, alto e de ombros largos, tão cheio de vitalidade como se a noite não tivesse sido longa e traumática. Ele também tomou banho; o comprido cabelo negro, ainda úmido, estava penteado para trás revelando cada linha forte e ligeiramente exótica de seu rosto. Barbeou-se também; seu rosto tinha um aspecto fresco.

Usava umas leves calças de pijama... e nada mais. Nenhum sorriso.

Os agudos olhos procuraram seu rosto, notando-se em sua palidez, sinal de total esgotamento.

- Conversaremos pela manhã. Duvido que pudesse formular uma oração coerente neste momento. Vamos, mostrarei a você onde fica seu quarto.

Retrocedeu, e ele a olhou com uma expressão ilegível.

- Seu quarto - enfatizou ele. - Não o meu. Não estava dando nenhuma ordem com isso, mas farei se for necessário. Não acredito que seja cômodo dormir no banheiro.

Estava o suficientemente acordada para replicar:

- Terá que dar uma ordem, do contrário não posso sair do banheiro, de todos os modos.

Tinha decidido que a ordem para não sair do banheiro significava uma forma de curto-circuito que lhe permitisse fazer sua própria vontade, e pelo brilho de irritação, viu que ela tinha razão.

- Me siga - disse ele bruscamente, uma ordem que a liberou do banheiro mas a sentenciou a segui-lo como um patinho.

Levou-a para um espaçoso dormitório com janelas de dois metros que revelavam as cintilantes cores de néon de Reno.

- O banheiro privado está ali - disse ele, indicando uma porta. - Está a salvo. Não a incomodarei. Não a machucarei. Não saia deste quarto. - Com isso, fechou a porta detrás dele e a deixou plantada no dormitório fracamente iluminado.

Ele poderia recordar acrescentar esta última condenação, maldito - agora não se sentia capaz de fugir por causa disso. Nesse momento sua força se limitava a subir a enorme cama, usando ainda o robe muito grande. Se encolheu sob o lençol e o edredom, mas ainda se sentia muita exposta, então puxou o lençol sobre sua cabeça e dormiu.

Capítulo 10
Segunda-feira
- Está bem?

Lorna despertou, como sempre, com uma sensação persistente de temor e medo. Não a alarmaram as palavras, já que imediatamente reconheceu a voz. Entretanto, estavam longe de ser bem-vindas. Sem ter em conta onde estava, o temor sempre estava aí, dentro dela, sendo uma parte tão grande, que era como se o tivessem gravado nos próprios ossos.

Não podia vê-lo, porque ainda tinha o lençol sobre a cabeça. Raras vezes se movia quando dormia, por isso ainda estava enroscada de forma tão apertada, que o enorme robe não havia se deslocado nem desabotoado.

- Está bem? - repetiu ele, com mais insistência.

- Ótima - grunhiu, desejando que partisse outra vez.

- Estava fazendo ruídos.

- Estava roncando - disse categoricamente, agarrando o lençol se por acaso tentasse tira-lo como se pudesse pará-lo se ele realmente quisesse fazer. Tinha aprendido a inutilidade disto com a humilhante luta de ontem à noite.

Ele soprou.

- Sim, bom. - Fez uma pausa. - Como você gosta do café?

- Eu não gosto. Sou uma bebedora de chá.

Durante um momento só houve silêncio; então Dante suspirou.

- Verei o que posso fazer. Como bebe o chá?

- Com amigos.

Ela ouviu o que soou notavelmente como um grunhido, então a porta do dormitório se fechou com mais força do que a necessária. Tinha soado ingrata? Bom! Depois de tudo o que tinha lhe feito, se pensava que a oferta do café ou do chá a compensava, estava tão longe da base que nem sequer estava no estádio de beisebol.

Para falar a verdade, tampouco era muito bebedora de chá. A maior parte de sua vida só pôde se permitir o que era grátis, o que queria dizer que tomava muita água. Nos últimos anos, tinha tomado um café de vez em quando ou um chá quente em tempo muito frio, mas realmente não lhe importava nenhum dos dois.

Não queria levantar-se. Não queria ter aquela conversa que ele parecia empenhado, embora não podia imaginar o que ele pensava que tinham a falar. Ontem à noite a tinha tratado muito mal, e embora evidentemente se deu conta que estava equivocado, não parecia inclinado a compensá-la. Por exemplo, não a tinha levado ontem à noite para sua casa. Tinha prendido ela neste quarto. Nem sequer tinha alimentado prisioneira!

O vazio em seu estômago disse que tinha que sair da cama se queria se alimentar. Sair da cama não garantia que seria alimentada, é obvio, mas ficar nela certamente garantia que não comeria. A contra gosto, jogou o lençol para trás, e a primeira coisa que viu foi Dante Raintree, de pé na porta. O valentão não partiu; só tinha fingido ir.

Ele levantou uma sobrancelha em uma pergunta silenciosa e sardônica.

Zangada, ela estreitou os olhos.

- Isso é desumano.

- O que?

- Levantar só uma sobrancelha. Uma pessoa de verdade não pode fazer isto. Só os demônios.

- Eu posso fazer.

- O que demonstra meu raciocínio.

Ele sorriu amplamente, o que a zangou ainda mais, porque não queria diverti-lo.

- Se você quer levantar, este demônio lavou sua roupa…

- A que não destroçou - interrompeu acidamente, para ocultar seu alarme. Tinha esvaziado primeiro os bolsos? Não perguntou, porque se não o tivesse feito, talvez seu dinheiro e carteira de motorista ainda estivessem ali.

- … e emprestou uma de suas camisas de demônio. Provavelmente terá que jogar as calças fora, porque as manchas não sairão, mas ao menos estão limpas. Servirão no momento. Suas opções para o café da manhã são cereal e fruta, ou um bagel6 e queijo cremoso. Quando se vestir, venha para a cozinha. Comeremos ali. - Então partiu… realmente partiu, porque o viu ir.

Dante assumia que compartilharia a comida com ele. Infelizmente, tinha razão. Estava morta de fome, e se o único modo de conseguir alimento era sentar-se em algum lugar próximo a ele, então se sentaria ali. Uma das primeiras lições que tinha aprendido sobre a vida era que as emoções não tinham muito peso quando a sobrevivência estava do outro lado da balança.

Sentou-se devagar, sentindo dores e pontadas em cada músculo. Suas calças recém lavadas, manchadas sem remédio, estavam ao pé da cama, assim como sua roupa interior e uma camisa branca feita de um material mole e justo. Agarrou as calças e colocou a mão em cada bolso, seu coração afundou. Não apenas seu dinheiro não estava, sua licença tampouco. Ou ele os tinha, ou tinham caído ao lavá-los, o que queria dizer que tinha que encontrar a lavanderia deste lugar e procurar na máquina de lavar roupa e na secadora. Talvez tinha alguém que se encarregava de lavara a roupa; talvez essa pessoa tinha tomado seu dinheiro e identificação.

Saiu da cama e caminhou coxeando ao banheiro. Depois de atender suas necessidades mais urgentes, olhou nas gavetas da penteadeira, esperando que fosse um bom anfitrião - embora fosse uma pessoa péssima - e tivesse abastecido o banheiro com provisões de emergência. Precisava desesperadamente de uma escova de dentes.

Era um bom anfitrião. Encontrou tudo o que precisava: um fornecimento de escovas de dentes em suas embalagens fechadas de plástico, pasta de dente, enxágüante bucal, a mesma loção perfumada que tinha utilizado a noite anterior, um pequeno equipamento de costura, até escovas novas para o cabelo e barbeadores elétricos de barbear disponíveis.

O fabricante da escova de dentes evidentemente tinha tido a intenção de que ninguém sem uma faca ou tesouras pudesse ser capaz de usar seu produto. Depois de lutar para rasgar a embalagem de plástico, primeiro com os dedos e depois com os dentes, agarrou as tesouras diminutas do equipamento de costura e laboriosamente apunhalou, serrou e cortou até que liberou a escova de dentes presa. Observou as tesouras pensativamente, depois as colocou na penteadeira. Eram muito pequenas para lhes dar muito uso, mas...

Depois de escovar os dentes e lavar o rosto, passou a escova pelo cabelo. Bastante bem. Inclusive se tivesse seu pequeno conjunto de maquiagem, não teria posto nada para benefício do Raintree.

Voltando para o dormitório, fechou a porta com chave no caso dele voltar a entrar ou lgo do tipo, e logo tirou o robe e começou a se vestir. A precaução era inútil, pensou amargamente, porque se ele quisesse entrar, tudo o que tinha a fazer era ordenar que abrisse a porta e ela faria o que ele dissesse, quisesse ou não. Odiava isto, e odiava a ele.

Não queria usar sua camisa. Recolheu-a e a girou para poder ver a etiqueta. Não reconhecia a marca, mas não era isso o que estava procurando, de todos os modos. A etiqueta com as instruções de cuidado dizia: 100 % seda. Só lavar a seco.

Talvez pudesse derrubar um pouco de gelatina na camisa. Acidentalmente, é obvio.

Começou a colocar os braços nas mangas e fez uma pausa, recordando como tinha expresso seu último comentário: Quando estiver vestida, venha para a cozinha. Uma vez que estivesse vestida, provavelmente não teria mais opção do que ir à cozinha, então qualquer coisa que quisesse fazer, tinha que fazê-la antes de colocar aquela camisa.

Deixou cair a camisa na cama e recuperou as diminutas tesouras do banheiro, guardando ela em seu bolso direito. Então sistematicamente procurou tanto no banheiro como no dormitório, procurando algo que pudesse usar como arma ou que a ajudasse de algum jeito a escapar. Se visse uma oportunidade, por menor que fosse, tinha que estar pronta para aproveitá-la.

Um grande obstáculo era que não tinha sapatos. Duvidava que os que estavam usando antes pudessem se salvar, mas ao menos protegeriam seus pés. Raintree não os havia trazido para o dormitório, mas poderiam estar ainda no banehiro que tinha usado ontem à noite. Não queria correr com os pés descalços pelo campo, embora fizesse isso se fosse necessário. Que distância teria que percorrer antes de ser livre? Que distância teria a esfera de influência do Raintree? Tinha que haver uma distância em que seus truques mentais não funcionassem, não? Tinha que escutá-lo dar a ordem, ou simplesmente tinha que pensá-la para ela?

Com inquietação, esperava que de alguma forma, simplesmente a tivesse hipnotizado, porque do contrário, estava tão profundamente metida no cilindro da Além da Imaginação7que talvez nunca tirasse a porcaria estranha do seu pé.

Além das tesouras, nem o banheiro nem o dormitório forneceram algo útil. Não havia nenhuma pistola nas gavetas embutidas, nenhum martelo perdido que pudesse usar para golpeá-lo na cabeça, nem sequer mais roupa no enorme armário que pudesse usar para asfixiá-lo. Com pesar, sem nenhuma outra opção, finalmente colocou a camisa de seda. Enquanto enrolava as mangas compridas, perguntou-se quando a golpearia o assunto do controle mental. O material escorregadio não se enrolava muito bem, por isso refez as mangas várias vezes antes de desistir e deixar que as dobras caíssem sobre seus pulsos. Inclusive então, não sentiu um impulso irresistível de ir à cozinha.

Estava sozinha. Não tinha colocado seu estranho controle mental sobre ela.

Tremendamente zangada de que, por sua própria vontade, de todos os modos estava fazendo o que ele tinha ordenado, abriu a porta do dormitório e saiu ao vestíbulo.

Duas escadas se abriam ante ela, a da direita ia ao andar seguinte e conduzia ao que parecia ser um balcão. A da esquerda descia, alargando-se em um elegante leque para ao fundo. Franziu o cenho, já que não recordava nenhuma escada na noite passada. Tinha estado tão mal? Definitivamente recordava ter chegado à casa, recordava ter notado que tinha três andares separados, por isso é obvio havia escadas… só que não as recordava. Ter este tipo de buraco em sua memória era espantoso, porque, que mais não recordava?

Tomou a escada que descia, fazendo uma pausa ao chegar ao final. Estava em um lugar espetacular... uma sala de estar? Se fosse, não se parecia com nenhuma sala de estar que tivesse visto antes. O teto arqueado se elevava três andares acima de sua cabeça. Em um dos extremos havia uma enorme chaminé, enquanto que a outra parede era de cristal. Claramente se via que era aficionado ao cristal, porque tinha muito. A vista era literalmente impressionante. Mas tampouco recordava isto. Nada disto.

Um corredor se comunicava com uma lateral, e com cautela o seguiu. Ao menos algo disto lhe parecia familiar. Abriu uma porta para descobrir o banheiro em que tomou banho ontem à noite… e aonde Dante tinha arrancado sua roupa. Apertando a mandíbula, entrou e olhou ao redor procurando seus sapatos. Não estavam ali. Resignando-se a estar descalça, caminhou pela sala, passando pelo lavabo que tinha usado e entrou na cozinha.

Dante estava sentado no balcão, com as pernas compridas enganchadas em um tamborete, uma xícara de café em uma mão e o jornal da manhã na outra. Elevou a vista quando ela entrou.

- Encontrei um pouco de chá, e a água está fervendo.

- Beberei água.

- Porque o chá é o que compartilha com os amigos, verdade? - Deixou o jornal e se levantou, abrindo uma porta do armário e baixando um copo de cristal para a água, que encheu na torneira. - Espero que não espere água de marca, porque penso que é uma enorme perda de dinheiro.

Ela encolheu de ombros.

- Água é água.

- Deu-lhe o copo de cristal, e em seguida levantou ambas as sobrancelhas.

- Cereais ou bagel?

- Bagel.


- Boa escolha.

Só então notou um pequeno prato com o bagel de Dante, à vista quando tinha deixado o jornal. Talvez era mesquinho por sua parte, mas desejava que não comessem o mesmo. Entretanto, não desejava o suficiente comer os cereais.

Ele pôs um bagel aberto na torradeira e tirou da geladeira o requeijão. Enquanto torrava, ela olhou ao redor.

- Que horas são? Não vi nenhum relógio.

- São dez e cinqüenta e sete - disse sem se voltar. - E não tenho nenhum relógio… exceto o do forno atrás de você. E talvez o do microondas. Sim, suponho que um microondas deve ter um relógio hoje em dia.

Ela olhou para trás. O relógio do forno era digital, e mostrava as dez e cinqüenta e sete em números azuis. A única coisa era que esteve bloqueando o forno de sua vista… e ele não se girou, de todos os modos. Devia ter olhado quando tirou o requeijão.

- Meu celular também tem a hora - continuou. - E meus computadores e carros têm relógios. Assim suponho que realmente possuo relógios, mas não tenho simplesmente um relógio. Todos estão ligados a algo mais.

- Se acha que este pequeno bate-papo me relaxará e esquecerei que o odeio, não está funcionando.

- Não pensei que faria. - Deu-lhe uma olhada, e o verde em seus olhos era tão intenso que Lorna quase retrocedeu um passo. - Tinha que saber se era Ansara, e para conseguir a resposta a tratei de forma grosseira. Peço perdão.

A frustração ferveu nela. Metade do que havia dito não tinha nenhum sentido, e estava cansada disso.

- Quem demônios é essa gente da Tia Sarah, e onde demônios estão meus sapatos?

Capítulo 11


- A resposta da segunda parte de sua pergunta é simple. Joguei-os fora.

- Genial - resmungou, olhando os pés nus, com os dedos encolhidos sobre os frios ladrilhos de pedra.

- Encomedei um par de sapatos para você no Macy’s. Um de meus empregados está a caminho com eles.

Lorna franziu o cenho. Não gostava de aceitar nada de ninguém, e muito menos gostava de aceitar nada dele, mas parecia que teria que fazer isso muitas vezes, sem importar como se sentisse. Por outro lado, ele tinha jogado fora seus sapatos e destruído sua camisa, assim substitui-los era o mínimo que poderia fazer.

- E essa gente, os Tia Sarah? - Sabia que ele havia dito “Ansara”, embora isso não tivesse muito mais sentido para ela, mas esperava que pronunciar errado a palavra o incomodasse.

- Isso requer uma explicação mais longa. Mas depois da noite passada, tem direito de ouvi-la.

Um pequeno ding soou, e a torradeira cuspiu um bagel. Utilizando uma faca para o requeijão, Dante tirou as 2 metades do pão da torradeira e as pôs em um prato pequeno; então lhe passou a faca, o prato e o requeijão.

Lorna agarrou o tamborete que estava mais longe dele, e começou a passar o requeijão em uma das metades.

- Vamos ouví-la - disse secamente.

- Há algumas outras coisas que eu gostaria de esclarecer. Primeiro. - Tirou um maço de notas do bolso dianteiro de seu jeans, e as deslizou até ela.

Lorna as olhou. Sua licença de motorista estava guardada entre as notas.

- Meu dinheiro! - disse, agarrando-os cobiçosamente e enfiando ele nos bolsos.

- Quer dizer meu dinheiro, não? - perguntou severamente, mas não tinha insistido em ficar com ele. - E não volte a me dizer que não trapaceou, porque sei que fez. Nem sequer estou seguro de que saiba que está fazendo trapaças, ou de como as faz.

Lorna centrou a atenção no bagel, com uma expressão fechada. Ia começar de novo com suas teorias esotéricas, mas ela não tinha por que segui-lo no cilindro.

- Não fiz trapaças - disse obstinadamente, porque ele havia dito que não dissesse.

- Não sabe... Espera, meu celular está vibrando. - Tirou um pequeno telefone do bolso, levantou a tampa para abri-lo. - Raintree… Sim, perguntarei. - Olhou para Lorna e perguntou - Quanto disse que custavam seus sapatos novos?

- Cento e vinte e oito e noventa - replicou automaticamente, e deu uma dentada no pãozinho.

Fechou o telefone e voltou a meter-lo no bolso.

Depois de uns segundos, o silêncio da sala fez que Lorna levantasse a vista. Os olhos dele eram de um verde tão brilhante que pareciam incandescentes.

- Não tinha uma ligação no celular - disse ele.

- Por que perguntou, então? - calou-se de repente, se dando conta do que havia dito quando perguntou por seus sapatos, e o ligeiro rubor que tinha recuperado se desvaneceu de seu rosto. Abriu a boca para lhe dizer que certamente tinha mencionado o preço dos sapatos, mas a fechou de novo, porque sabia que ele não tinha feito. Tinha um sentimento de ansiedade na boca do estômago, quase o mesmo que tinha cada manhã quando se levantava.

- Não sou um bicho estranho - disse ela com voz débil.

- A palavra é “dom”. Tem um dom. Acabo de demonstrar isso a você. Não precisei de necessitei nenhuma prova, porque já sabia. Eu inclusive tenho um dom maior que o seu.

- É um louco, isso é o que é.

- Sou ligeiramente telepático, o suficiente para ler bem as pessoas, especialmente se as toco, por isso sempre cumprimento com um aperto de mãos quando tenho reuniões de negócios - disse ele, falando por cima dela, como se não o tivesse interrompido. - Como bem sabe, só utilizando minha mente, posso forçar as pessoas a fazer coisas contra seus desejos. Isto é novo para mim, mas que demônios! Estamos perto do solstício do verão. Isso, além do fogo, provavelmente tenha desencadeado tudo. Posso fazer um monte de coisas diferentes, mas sobre tudo, sou o Mestre do Fogo Número Um da Classe A.

- E isso o que significa? - perguntou sarcasticamente, para esconder o fato que estava abalada até o fundo. - Que está multiempregado em um circo como bombeiro?

Ele estirou uma mão, com a palma para cima, e uma delicada chama azul ganhou vida no meio da palma. Apagou-a com um sopro indiferente.

- Não pode fazer isso durante muito momento - disse ele - ou se queimaria.

- É só um truque. Os efeitos especiais o fazem o tempo todo nos filmes…

Seu bagel se acendeu.

Lorna o olhou fixamente, paralisada, enquanto a grosso pedasso de pão ardia e lançava fumaça. Dante agarrou o prato e rapidamente lançou o pão ardente à pia, jogando água em cima dele.

- Não queremos que dispare o alarme contra incêndios - explicou Dante, e deslizou o prato que tinha a outra metade do pãozinho diante dela.

Detrás dele, uma vela se acendeu.

- Sempre tenho várias velas ao redor - disse. - São meu equivalente a um canário em uma mina de carvão8.

Um pensamento crescia e crescia até que não pôde mais contê-lo.

- Você incendiou o cassino! - disse ela horrorizada.

Ele negou com a cabeça enquanto se recostava no tamborete e tomava seu café.

- Meu controle é melhor que isso, inclusive estando tão perto do solstício. Não era meu fogo.

- Isso é o que você diz. Se for um Classe A, Super Mestre do Fogo, por que não o apagou?

- É o mesmo que me estive perguntando.

- E a resposta é…?

- Não sei.

- Uau! Que esclarecedor!

Um brilhante e zombeteiro sorriso cintilou em seu rosto.

- Alguém já disse a você alguma vez que é como um pé no saco?

Ela com muita dificuldade conseguiu evitar encolher-se, em uma resposta automática. Sim, já lhe haviam feito esse comentário antes, várias vezes, e sempre acompanhado, ou inclusive precedido, por uma bofetada.

Não levantou o olhar para checar se ele tinha notado algo estranho em sua resposta, mas em vez disso continuou concentrada em passar o requeijão na metade restante do bagel.

- Como nunca pratiquei o controle mental até ontem à noite, é possível que tenha ficado sem energia - continuou ele depois de um momento. Ela ainda se negava a olhá-lo, mas podia sentir a intensidade de seu olhar em seu rosto. - Não me sentia cansado. Tudo estava normal, mas até que não explore os parâmetros, não saberei quais são os efeitos do controle mental. Provavelmente não estava totalmente concentrado. Talvez minha atenção estava dividida. Diabos, sei que estava dividida. Ontem à noite havia um monte de fatores anômalos.

- Honestamente acredita que teria podido apagar aquele fogo?

- Sei que teria podido… normalmente. Embora certamente o chefe de bombeiros teria pensado que o sistema de aspersores tinha feito um bom trabalho. Em troca…

- Em troca, arrastou-me em meio de um alarme de incêndio de nível quatro e quase nos mata aos dois!

- Está queimada? - perguntou ele, sorvendo seu café.

- Não - respondeu a contra gosto.

- Inalou fumaça?

- Não, maldito seja!

- Não acredita que ao menos deveria ter alguns cabelos chamuscados?

Ele só estava dizendo o que ela já se perguntou. Não entendia que tinha passado durante o fogo, e não entendia nada do que tinha passado após. Desesperada, desejou passar sobre a superfície de tudo, fingir que nada estranho estava acontecendo, e abandonar esta casa com suas pretensões ainda intactas, mas ele não ia deixar que isso acontecesse. Podia sentir sua determinação, como um campo de força que emergia dele.

Não!, disse a si mesma com desespero. Nenhum campo de força, nenhuma emanação. Nada disso.

- Criei um escudo de proteção ao nosso redor. Então, ao final, quando estava usando todo seu poder combinado com o meu para conter o fogo, o escudo se solidificou um pouco. Você o viu. Eu o vi. Brilhava como…

- Bolhas de sabão - murmurou ela.

- Ah - disse brandamente, depois de pensar um momento. - Então isso é o que provocou suas lembranças.

- Tem idéia do que dói o que fez?

- Tirar seu poder? Não, não tenho nem idéia, mas posso imaginar.

- Não - disse categoricamente - não pode.

A dor que sentia estava além de qualquer descrição possível. Se dissesse que se sentia como se uma bigorna tivesse caído sobre a cabeça, era pouco.

- De novo, sinto muito. Não tive outra opção. Era isso, ou morrer os dois, além de toda as pessoas do hotel que não tinham saído ainda.

- Tem uma forma de pedir desculpas que diz que voltaria a fazer o mesmo se fosse o caso, assim é bastante difícil acreditar-se nesse “sinto muito”.

- Isso é porque não só é uma precognitiva embora não esteja treinada, mas também além disso é muito perceptiva à energia paranormal de seu redor.

O que queria dizer que voltaria a fazer, nas mesmas circunstâncias. Ao menos não era um hipócrita.

- Ontem, em meu escritório - continuou - estava reagindo a umas energias que não poderia ter percebido se não tivesse o dom.

- Pensei que era perverso - disse ela, e mordeu grosseiramente o bagel. - Nada do que tem feito após me tem feito mudar de opinião.

- Porque me excitou? - perguntou brandamente. - Só dei uma olhada em você, e todas as velas da sala se acenderam. Normalmente não estou tão fora de controle, mas tive que me concentrar para mantê-lo. Então continuei olhando para você, pensando em fazer sexo contigo, e maldita seja se não se conectou com minha fantasia.

Oh, Deus, notou isso? Sentiu como sua cara ardia, e transformou sua confusão em ira.

- Está insinuando isso? - perguntou incrédula. - Realmente tem o descaramento de pensar que deixaria que me tocasse com um pau de 3 metros depois do que me fez ontem à noite?

- Bom, não é tão comprido - disse, sorrindo ligeiramente.

Vá, procurou aquele comentário ela sozinha. Atirou com violência o bagel no prato e se levantou do tamborete.

- Não quero estar na mesma sala que você. Quando partir daqui, não quero voltar a ver sua cara nunca mais. Pode pegar sua asquerosa fantasia e que se dane, Raintree!

- Dante - corrigiu, como se não houvesse dito que morresse. - E isto nos leva aos Ansara. Estava procurando uma marca de nascimento. Todos os Ansara têm uma lua crescente azul em algum lugar das costas.

Estava tão zangada que uma névoa vermelha nublou sua vista.

- E enquanto procurava essa marca de nascimento em minhas costas, decidiu revistar meu traseiro também, não?

- É um traseiro muito bonito, bem valeu a pena revistá-lo. Mas, não, em todo momento tive a intenção de comprovar. Dizer “costas” é um pouco impreciso. Tecnicamente, as “costas”9 ocupam da cabeça até os calcanhares. Cheguei a encontrar até debaixo da cintura, e nas histórias há informações, em alguns casos excepcionais, de que se pode encontrar essa marca nas nádegas. Dada a seriedade do fogo, e do fato de que não podia apagá-lo, tinha que me assegurar de que não tivesse estado me impedindo.

- Impedindo, como? - chiou, nada calma com sua explicação.

- Se você também fosse uma Mestra do Fogo, poderia ter alimentado o fogo enquanto eu tentava apagá-lo. Nunca tinha visto um fogo que não pudesse controlar, até ontem à noite.

- Mas disse que nunca antes tinha usado seu controle mental, assim não sabia como podia afetar você! Por que decidiu automaticamente que eu tinha que ser um desses Ansara?

- Não fiz. Sou consciente de todas as variáveis. Mas devia eliminar todas as possibilidades de que fosse uma Ansara.

- Se for bom lendo as pessoas quando as toca, já deveria ter sabido que eu não era - lhe acusou.

- Muito bem - reconheceu, como se ele fosse o professor e ela sua aluna avançada. - Mas os Ansara são treinados desde seu nascimento para controlar seus dons e proteger-se, igual os Raintree. Um Ansara poderoso talvez poderia ter construído um escudo que eu não teria sido capaz de detectar. Como disse, minhas habilidades telepáticas são escassas.

Sentia que ia explodir de frustração.

- ?Se tivesse feito um desses escudos, pedaço de idiota, não teria sido capaz de violar minha mente!

Ele tamborilou ligeiramente com os dedos em cima da mesa, estudando-a com os olhos entreabertos.

- Realmente, eu não gosto nada desse termo.

- Pois se chateie. Realmente, eu não gostei nada que violasse meu cérebro. - Lançou-lhe as palavras como facas, e desejou que o tivessem cravado profundamente na carne.

Considerou-as um momento, então assentiu.

- Acredito que seria justo. Voltemos para o tema do escudo. Você tem, mas não do tipo que eu estou falando. O seu se desenvolveu naturalmente, com a vida. Você protege suas emoções. Eu falo de um escudo mental construído deliberadamente para esconder parte da energia de seu cérebro.  Em quanto a me manter afastado, carinho, só há outra pessoa, ao menos que eu tenha conhecimento, que poderia me bloquear sua mente, e você não é essa pessoa.

- Oooh, então é terrivelmente poderoso, não?

Assentiu lentamente.

- Diria que sim.

- Então, o que é, como o Rei do Mundo ou algo assim?

- Sou o rei dos Raintree - disse, se levantando e deixando seu prato na lava-louça. - É suficientemente bom para mim.

Era estranho, mas de todas as coisas realmente estranhas que havia lhe dito, esta era a mais incrível. Escondeu a cabeça entre as mãos, desejando que esse dia acabasse de uma vez. Queria esquecer que o tinha conhecido. Obviamente, ele era um louco. Não, não podia se consolar com essa ilusão. Tinha atravessado o fogo com ele, literalmente. Ele podia fazer coisas que ela nunca teria pensado que fossem possíveis. Então possivelmente - só talvez - realmente era algum tipo de líder, embora se considerar “rei” era levar as coisas um pouco longe.

- Está bem, acredito - disse cansadamente. - Quais são os Raintree e os quais os Ansara? Algo assim como dois países diferentes mas habitados só por tipos um pouco estranhos?

Seus lábios se moveram como se quisesse rir.

- Temos um dom. Um dom. Somos dois clãs diferentes, clãs em guerra, se quer concretizar. Nossa inimizade se remonta a milhares de anos.

- Algo equivalente aos Hatfields e os McCoys10?

- Ele riu então, com um brilho de dentes brancos.

- Nunca tinha pensado desse modo, mas… sim. Um pouco parecido. Exceto o que há entre os Raintree e os Ansara não é uma simples inimizade, é uma guerra. Aí está a diferença.

- Sim, a diferença entre inimizade e guerra. Mas qual é a diferença entre o clã dos Raintree e o dos Ansara?

- O modo de ver a vida, suponho. Eles usam seus dons para extorquir, para fazer mal, para seu benefício pessoal. Os Raintree consideram suas habilidades como verdadeiros dons, e tentam utilizá-los corretamente.

- São os meninos do chapéu branco.

- Se considerarmos em termos humanos, sim. O senso comum me diz que alguns Raintree não estão muito longe dos Ansara no que se refere a atitude. Mas se querem seguir pertencendo ao clã dos Raintree, terão que fazer o que eu ordene.

- Assim nem todos os Ansara têm que ser totalmente malvados, mas se desejam seguir com seu clã, seus amigos e suas famílias, têm que se comportar como ordena o Rei Ansara.

Assentiu com a cabeça.

- Isso.

- Admite que podem ser mais similares que diferentes.



- Em alguns aspectos. Em características gerais, estamos em pólos opostos.

- Em quais?

- Desde o início, se um Raintree e um Ansara se uniam e tinham descendência, o Ansara matava à criatura. Sem exceções.

Lorna esfregou a testa, que começava a doer de novo. Sim, isso era mau. Matar crianças inocentes porque sua herança não era a oportuna era mau, com M maiúsculo. Parte de sua filosofia de vida era que havia algumas pessoas que não mereciam viver, e as pessoas que machucavam crianças pertencia a esse grupo.

- Então, suponho que não terá havido muitos matrimônios cruzados entre os clãs, verdade?

- Nenhum em séculos. Que Raintree iria querer tentar? Terminou com seu bagel?

Destraida pela pergunta prosaica, Lorna olhou seu bagel. Comeu quase a metade. Embora antes estivesse esfomeada, a conversa durante o café da manhã tinha eliminado eficazmente seu apetite.

- Suponho que sim - disse sem interesse, lhe passando o prato.

Ele devorou o restante do pão e pôs o prato também na lava-louça.

- Necessita de treinamento - disse. - Seus dons são muito fortes para que fique por aí desprotegida. Um Ansara poderia usar você.

- Como você fez? ?Nem sequer tentou dissimular o tom amargo de sua voz.

- Como eu fiz - assentiu. - Só que ele alimentaria o fogo, em lugar de lutar contra ele.

Conforme ia considerando as implicações do que ele dizia, ia se dando conta de que, gradualmente, estava se familiarizando com esses “dons”, e que em algum ponto ao longo da conversa, tinha passado de rejeitá-los a aceitá-los. Agora se dava conta do que ele pretendia, e um velho pânico profundamente enraizado nela floresceu de novo.

- Oh, não - disse, sacudindo a cabeça enquanto retrocedia uns passos. - Não penso deixar que me “treine” em nada. Acaso tenho a palavra “imbecil” tatuada na testa, ou algo assim?

- Irá procurar problemas se não receber algum treinamento, e rápido.

- Então tentarei dirigi-los como posso, como sempre tenho feito. Além disso, você já tem seus próprios problemas que resolver, não?

- As próximas semanas vão ser duras, mas nem tanto para mim como para as pessoas que já perderam alguém. Outro corpo foi retirado logo depois do amanhecer. Com isso já temos duas vítimas. - Sua expressão era severa.

- Não estou falando disso. Falo dos tiras. Algo estranho está acontecendo, porque se não, por que dois detetives foram interrogar as pessoas antes que o chefe de bombeiros esclarecesse se o fogo era provocado ou acidental?

A expressão nos olhos dele se tornou fria enquanto Dante a olhava. Esse pequeno detalhe tinha escapado da sua grande sabedoria, de seus dons de vidência, ela se deu conta. Mas se havia uma coisa que uma vida dura tinha lhe ensinado, era como funcionava a lei. Os detetives não deveriam estar ali até que estivesse claro que havia algo a investigar, e o chefe de bombeiros não faria suas declarações até o dia de hoje, provavelmente.

- Maldita seja - murmurou ele, e tirou seu telefone. - Não vá a lugar nenhum. Tenho que fazer algumas chamadas.

Havia dito de maneira literal, Lorna descobriu quando tentava sair da cozinha. Seus pés deixaram de caminhar quando chegou à soleira da porta.

- Maldito seja, Raintree! - grunhiu, girando-se para ele.

- Dante - corrigiu ele.

- Maldito seja, Dante!

- Muito melhor - disse ele, e piscou um olho.

Capítulo 12


Dante começou a fazer ligações, começando por Al Rayburn. Lorna estava certo: estava acontecendo algo estranho, e estava aborrecido porque ela havia indicado. Teria que ter prestado atenção a esse detalhe. Em lugar de responder às perguntas dos detetives, teria que ter perguntado ele, algo como: O que estavam fazendo ali? A cena de um incêndio não era a cena de um crime a menos que, e até que, a causa fosse determinada como um incêndio provocado ou pelo menos existisse a suspeita. Oficiais uniformizados deveriam ter estado ali para controlar à multidão, o tráfego, a segurança - por muitas razões - mas não detetives.

Não surgiram respostas a suas perguntas, mas tampouco as esperava. O que estava fazendo agora era inverter o fluxo da informação, e isso levaria seu tempo. Agora que as perguntas eram formuladas - por Al, por um amigo que Dante tinha na prefeitura, por um dos membro do clã Raintree a quem gostava da vida um pouco do lado tormentoso e dessa forma tinha alguns contatos interessantes - um monte de coisas podiam ser vistas com uma luz diferente.



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