Raintree 1 Linda Howard



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Capítulo 1



Domingo


Dante Raintree estava de pé, com os braços cruzados, enquanto olhava a mulher no monitor. A imagem era em preto e branco, para mostrar melhor os detalhes sem a distração da cor. Concentrou-se em suas mãos, observando cada movimento que ela fazia, mas o que mais o impactou foi sua tranqüilidade. Ela não se agitou, ou brincou com suas batatas fritas, ou olhou para os outros jogadores. Lançou uma olhada em sua carta, não voltou a tocá-la e fez gestos pedindo outra, golpeando a mesa com a unha. Só porque não prestava atenção aos outros jogadores não significava que estivesse tão distraída como parecia.

- Qual é seu nome? - perguntou.

- Lorna Clay - respondeu seu chefe de segurança, Al Rayburn.

- Esse é seu nome verdadeiro?

- Está registrado.

Se Al já não a houvesse investigado, Dante estaria decepcionado. Pagava muito dinheiro a Al para que fosse eficiente e cuidadoso.

- No princípio pensei que estava contando - disse Al. - Mas não presta muita atenção.

- Está prestando atenção, muita - murmurou Dante. - Só que você não a vê fazendo.

Um contador de cartas tem que recordar cada carta jogada. Supostamente contar cartas era impossível com o número de naipes usados nos cassinos, porque ninguém queria um contador de cartas em suas mesas. Mas existiam indivíduos singulares que podiam calcular as probabilidades até com maços múltiplos.

- Também pensei isso - disse Ao. - Mas olhe o fragmento de fita que vem a seguir. Alguém que a conhece se aproxima e fala com ela, ela olhe ao redor e começa a conversar, esquecendo completamente o jogo da pessoa situada a sua esquerda e não olha nem quando é sua vez, só dá um toque com o dedo. E maldita seja se não ganhar, outra vez.

Dante olhou a fita, rebobinou-a, olhou-a outra vez. Voltou a olhá-la pela terceira vez. Tinha que haver algo que estava deixando passar, porque não podia descobrir nenhuma artimanha.

- Se está trapasseando - disse Al com respeito - é o melhor que vi.

- O que diz seu instinto? - Dante confiava em seu chefe de segurança. Al tinha trabalhado trinta anos no negócio de cassinos, e algumas pessoas juravam que podia reconhecer trapaceiros assim que passavam pela porta. Se Al achava que ela estava trapasseando, então Dante teria intervindo e não estaria observando a fita, mas havia algo que o fazia sentir-se muito intranqüilo.

Al coçou a mandíbula enquanto pensava. Era um homem corpulento, mas ninguém que o observasse muito tempo pensaria que era lento, física ou mentalmente. Finalmente disse:

- Se ela não está trapasseando, é a pessoa mais afortunada. Ela ganha. Semana após semana, ganha. Nunca uma grande quantia, mas revisei os números, e nos leva uns cinco dos grandes por semana. Demônios chefe! Na saída do cassino irá parar em uma máquina caça-niqueis, introduzirá um dólar nela e sairá ao menos com cinqüenta. Nunca é a mesma máquina. Estive seguindo ela, procurei os mesmos rostos no cassino cada vez que está aqui, e não encontrei um denominador comum.

- Está aqui agora?

- Entrou faz aproximadamente meia hora, joga blackjack, como de costume.

- Quem é o croupier?

- Cindy.


Cindy Josephson era a melhor croupier de Dante, quase tão aguda em reconhecer um trapaceiro quanto Al. Estava com ele desde que tinha aberto Inferno, e confiava nela para dirigir um jogo honesto.

- Leve a mulher ao meu escritório - disse Dante, tomando uma decisão rápida. - Que não faça uma cena.

- Entendido - disse Al, deu a volta e saiu do centro de segurança, onde os monitores mostravam cada ângulo do cassino.

Dante partiu também, para seu escritório. Seu rosto estava tranqüilo. Normalmente deixava que Al lidasse com os trapaceiros, mas sentia curiosidade. Como ela fazia? Havia muitos trapaceiros maus, alguns poucos bons, e a cada certo tempo vinha um desses que inspiravam as lendas: o trapaceiro que não se podia detectar, mesmo quando as pessoas estavam alerta e as câmaras estavam fixas sobre ele - ou, neste caso, ela.

Era possível para uma pessoa ter simplesmente sorte, como a maior parte de pessoas entendia a sorte. A possibilidade podia converter um perdedor habitual em um ganhador de alto nível. Os cassinos, de fato, prosperavam com aquela esperança. Mas a sorte em si mesmo não era habitual, e sabia que o que acontecia a sorte era, freqüentemente, algo mais: trapassa. Então havia outro tipo de sorte, o tipo que ele mesmo possuía, mas isto não dependia de uma possibilidade, e sim quem e o que era ele, sabia que era um poder inato e não um sorriso errático da dama fortuna. Já que seu poder era excepcional, as probabilidades diziam que a mulher que tinha observado era só uma estelionatária muito hábil.

Sua habilidade poderia proporcionar um ótimo estilo de vida, pensou, fazendo alguns cálculos rápidos em sua cabeça. Cinco dos grandes por semana eram duzentos e sessenta mil dólares por ano, e isso só em seu cassino. Ela provavelmente lesava a todos, se tomava o cuidado de manter os números relativamente baixos, assim ficava fora do radar.

Perguntou-se quanto teria lhe tirado, quanto havia ganho um pouco aqui, um pouco ali, antes que Al notasse.

As cortinas ainda estavam abertas na janela que tomava toda a parede seu escritório, dando a impressão, quando alguém abria a porta, de sair para um balcão coberto. Dava para o oeste, para que pudesse ver o por-do-sol. O sol estava baixo agora, o céu se via colorido de púrpura e ouro. Em sua casa nas montanhas, a maior parte das janelas davam o leste, permitindo a vista do amanhecer. Algo necessário para ele, tanto a nascer quanto o pôr-do-sol. Sempre se sentia atraído pela luz solar, talvez porque o fogo era seu elemento a convocar, a controlar.

Checou seu relógio interno: quatro minutos até o crepúsculo. Sabia exatamente, sem checar as mesas cada dia, quando o sol se deslizaria detrás das montanhas. Não tinha um despertador. Não precisava de um. Estava tão em sintonia com a posição do sol que só tinha que checar dentro de si mesmo para saber a hora. Quanto a despertar em um momento em particular, era uma dessas pessoas que podia dizer a si mesmo: acorda, quando precisava, e o fazia. Aquele talento em particular não tinha nada a ver em ser um Raintree, não tinha que escondê-lo; muitas pessoas comuns tinham a mesma habilidade.

Havia outros talentos e capacidades, entretanto, que requeriam ser cuidadosamente protegidos. Os largos dias de verão o induziam a um alto nível de excitação sexual, quando podia sentir o poder contido zumbindo sob sua pele. Tinha que ser muito cuidadoso para não fazer com que as velas saltassem em chamas só com sua presença, ou que começasse um incêndio com um olhar para escova seca como a isca. Amava Reno; não queria incendiá-la. Só que se sentia tão malditamente vivo, com toda a luz do sol que se derramava, que queria deixar a energia emanar por ele, em vez de contê-la dentro de si.

Era assim que devia se sentir seu irmão Gideon, enquanto o relâmpago o atraía, todo esse poder quente queimando por seus músculos, suas veias. Eles tinham isso em comum, a conexão com o poder puro. Todos os membros do extenso clã Raintree tinham um pouco de poder, alguma forma aumentada de capacidade, mas só os membros da família real podiam canalizar e controlar as energias naturais da terra.

Dante não era apenas da família real; ele era o Dranir, o líder do clã inteiro. "Dranir" era sinônimo de “rei", mas a posição que ele tinha não era cerimonial, esta era de puro poder. Era o filho mais velho do Dranir anterior, mas teria sido tirado da posição se não houvesse herdado também o poder para mantê-la.

Gideon era o segundo no comando; se algo acontecesse com Dante e morresse sem um filho que tivesse herdado suas capacidades, Gideon se converteria no Dranir, uma possibilidade que enchia seu irmão de temor, daí o encanto de fertilidade que atualmente estava no escritório de Dante. Este tinha chegado no correio nessa mesma manhã. Gideon com regularidade os enviava, em parte como uma brincadeira, mas principalmente porque fazia todo o possível para assegurar-se que Dante tivesse um descendente que aumentasse as possibilidades de que ele nunca herdasse essa posição. Sempre que eles conseguiam se reunir, Dante tinha que procurar com cuidado em todos os lugares, assim como em toda sua roupa, para checar que Gideon não tinha deixado um de seus pequenos mas inteligentes encantamentos em algum lugar escondido.

Gideon estava melhorando em seu preparo, refletiu Dante. Depois de tudo, a prática faz a perfeição, e Deus sabia que ele tinha feito muitos encantamentos em anos passados. Não só eram mais potentes agora, como variavam em sua preparação. Alguns deles eram óbvios, peças de prata para ser usadas ao redor do pescoço como um amuleto - não que Dante fosse do tipo de usar amuleto. Os outros eram diminutos, sutis, como o que Gideon tinha encravado no cartão de visita mais recente que tinha enviado, sabendo que Dante colocaria provavelmente o cartão em seu bolso. Só tinha se equivocado em que o mesmo poder do encanto o delatava; Dante havia sentido o zumbido de seu poder, embora houvesse perdido um tempo do demônio para encontrá-lo.

Detrás dele sentiu o característico golpe na porta de Al. O escritório externo estava vazio, a secretária de Dante havia ido para casa horas antes.

- Entre - disse, sem deixar de olhar o pôr-do-sol.

A porta se abriu, e Al disse:

- Senhor Raintree, esta é Lorna Clay.

Dante deu a volta e olhou para a mulher, todos seus sentidos estavam alertas. A primeira coisa que notou foi a cor vibrante de seu rico cabelo, vermelho escuro, rodeado de múltiplas sombras de cobre a Borgonha. A cálida luz âmbar dançava ao longo dos fios brilhantes, e sentiu um forte puxão de luxúria em suas vísceras. Olhar seu cabelo era quase como olhar o fogo, e tinha a mesma reação.

A segunda coisa que notou foi que ela tragou nervosa.

Capítulo 2
Várias coisas ocorreram sucessivamente, tanto que poderiam ter sido simultâneas. Com seus sentidos amplificados, a rápida chicotada de desejo se chocou com a reação visceral de Dante de abrasar, enviando explosões graduais de emoção ao longo de todos os seus neurônios, muito rápido para controlar. Do outro lado da sala, viu todas as velas acendendo repentinamente, os pavios queimando muito rápido, muito selvagem, de modo que várias chamas pequenas ondulavam, maiores e mais brilhantes do que deveriam. E em sua mesa, o maldito pequeno encanto de fertilidade de Gideon começou a zumbir com força, como se tivesse um interruptor que tivesse sido pressionado de repente.

Que demônios...?

Não tinha tempo para disecar e analisar tudo o que ocorria; tinha que controlar-se e rápido, ou a sala inteira estalaria em chamas. Não tinha sofrido uma perda tão humilhante do controle de seus poderes desde que tinha entrado na puberdade e o aumento de hormônios havia lhe trazido problemas com tudo.

Implacavelmente, começou a exercer sua vontade sobre seu aumento de poder. Não era fácil; embora se mantivesse perfeitamente calmo, mentalmente se sentia como se montasse um grande touro de temperamento perigoso. A inclinação natural da energia era ser livre, e resistia a qualquer esforço de domesticação, de luta para contê-la dentro de seu muro mental. Seu controle era no geral prodigioso. Depois de tudo, ter poder não era o que o fazia um Dranir; era tê-lo e controlá-lo. A falta de controle induzia à devastação, e por último à exposição. Os Raintree tinham sobrevivido durante séculos, em grande parte graças a sua capacidade para mesclar-se com a gente normal, assim era um assunto que não devia ser encarado com brincadeira.

Dante treinou toda sua vida para dominar o poder e as energias que o atravesavam, e embora soubesse que quando o solstício de verão se aproximava, seu controle sempre se expandia, não estava acostumado a este grau de dificuldade. Gravemente se concentrou, contendo-se, freando-se, exercendo sua vontade sobre as mesmas forças da natureza. Poderia ter apagado as velas, mas com uma força de vontade ainda maior, deixou-as arder, pois fazer com que as diminutas chamas piscassem apagando-se poderia chamar inclusive mais a atenção, que sua repentina iluminação.

A única coisa que escapava de seu controle era o maldito feitiço de fertilidade em sua mesa, que zumbia, palpitava e quase despedia um efeito estroboscópico1. Mesmo sabendo que Al e a Senhorita Clay não podiam perceber a energia que essa coisa emanava, não olhá-lo tomou todo seu autocontrole. Gideon tinha se excedido com isto. Esperaria a próxima vez que visse seu irmão mais novo, prometeu-se Dante em tom grave. Se Gideon pensava que isto era emgraçado, ambos veriam o quanto engraçado seria quando os papéis se invertessem. Gideon não era o único que podia realizar feitiços de fertilidade.

Com todos os indomáveis fogos novamente sob controle, voltou a atenção a sua convidada.

Lorna tratou novamente de puxar seu braço para se afastar do gorila que a segurava, mas ele a agarrava forte o bastante para segura-la sem aplicar uma pressão excessiva. Enquanto uma pequena parte dela apreciava que tentasse não machucar-lhe, no entanto, a maior parte dela estava tão furiosa - e, também, assustada - que queria arremeter contra ele com toda sua força, arranhando, dando chutes e dentadas, qualquer coisa para poder escapar.

Então seu instinto de sobrevivência a golpeou a toda velocidade, tanto que todo seu cabelo se arrepiou quando entendeu que o homem que estava de pé tão silencioso e quieto diante das enormes janelas, era para ela uma ameaça muito maior que o gorila.

Sua garganta se fechou, um punho de medo se apertou ao redor de seu pescoço. Ela não poderia explicar que era que tanto a alarmava a respeito dele, só uma vez havia se sentido desta maneira antes, em um beco em Chicago. Estava acostumada a tomar cuidado nas ruas e usava normalmente o beco como um atalho para sua casa - um desmantelado e singelo quarto em um edifício em ruínas - mas uma noite quando tinha começado a caminhar pelo beco, o medo tinha formigado por seu couro cabeludo e congelou, incapaz de dar outro passo. Não podia ver nada suspeito, não podia ouvir nada, mas não podia avançar. Seu coração tinha estado martelando com tanta força em seu peito que mal podia respirar, e havia se sentido repentinamente doente de medo. Devagar, tinha retrocedido até a entrada do beco e tinha fugido rua abaixo tomando o caminho mais longo para sua casa.

Na manhã seguinte o corpo de uma prostituta tinha sido encontrado no beco, brutalmente violentda e mutilada. Lorna sabia que a mulher morta poderia ter sido ela, se não fosse o repentino pânico que lhe deixou de cabelos em pé e que a tinha avisado que se afastasse.

Isto era igual, como ter o corpo golpeado por uma percepção de perigo. O homem que tinha a sua frente, quem quer que fosse, era uma ameaça para ela. Duvidava - ao menos a um nível racional - que a assassinasse e mutilasse, mas havia outros perigos, outras destruições que poderia sofrer.

Sentiu que se asfixiava, sua garganta tão apertada que pouquíssimo ar podia passar pelo nó. As espetadas de luz flamejavam ao redor de sua visão, e em silencioso horror soube teve consciência de que poderia desmaiar. Não se atrevia a perder os sentidos; estaria completamente indefesa se o fizesse.

- Senhorita Clay - disse ele com uma voz calma, suave como a nata, como se seu pânico fosse completamente invisível para ele e ninguém mais na sala soubesse que estava a ponto de gritar. - Sente-se, por favor.

O prosaico convite/ordem teve o bendito efeito de tira-la da armadilha de pânico. De algum jeito, conseguiu tomar inspirar sem ofegar audivelmente, depois outra. Não ia acontecer nada. Não era necessário sentir pânico. Sim, isto era ligeiramente alarmante e provavelmente não retornaria ao “Inferno” para jogar, mas não tinha quebrado nenhuma lei ou regra do cassino. Estava segura.

Aquelas espetadas de luz flamejaram outra vez. O que...? Perplexa, girou a cabeça e se encontrou contemplando dois enormes pilares com velas, cada um deles facilmente de oitenta centimetros de altura, um no chão e o outro sobre uma laje de mármore branco que servia como chaminé. As chamas dançavam ao redor dos múltiplos pavios das velas.

Velas. Ela não tinha estado a ponto de desmaiar. As piscadas de luz ao redor de sua visão tinham vindo daquelas velas. Não as tinha notado quando a tinham arrastado literalmente para dentro da sala, mas era compreensível.

As luzes das velas dançavam e se balançavam, como se estivessem colocadas no meio de uma corrente de ar. Também era compreensível. Não sentia nenhum movimento perceptível de ar, mas era verão em Reno, e o ar condicionado dirigiria um vento forte. Em qualquer caso, ela sempre usava mangas compridas quando ia a um cassino; fora isso, estava muito fria.

Alarmada, se deu conta que estava contemplando as velas e que nenhum dos dois se moveu, nem tinha respondido ao convite de sentar-se. Bruscamente voltou sua atenção ao homem que estava de pé na janela, tentando se lembrar como o gorila o tinha chamado.

- Quem é você? - exigiu ela bruscamente. Mais uma vez puxou seu braço, mas o gorila simplesmente suspirou enquanto a segurava. - Me deixe!

- Pode soltá-la - disse o homem, parecendo ligeiramente divertido. - Obrigado por trazê-la aqui.

O gorila imediatamente a liberou e disse:

- Estarei no centro de segurança. - E silenciosamente deixou o escritório.

Imediatamente Lorna começou a avaliar a possibilidade de sair correndo, mas no momento se manteve firme. Não queria correr; o cassino tinha seu nome, sua descrição. Se corresse, a poriam na lista negra - não só no “Inferno”, mas também em cada cassino de Nevada.

- Sou Dante Raintree - disse o homem, em seguida esperou um instante para ver se ela reagia ao nome.

Este não lhe disse nada, etão ela simplesmente levantou interrogativamente suas sobrancelhas.

- Sou o proprietário do “Inferno”.

Merda! Um dono tinha um peso importante na comissão de jogo. Teria que tomar cuidado aonde pisava, mas tinha uma vantagem. Ele não podia provar que ela tinha trapaceado, pela simples razão de que não tinha feito.

Dante. Inferno. Compreendo - respondeu ela com um pequeno fio de E o que? em seu tom.

Ele era provavelmente tão rico que pensava que todos deveriam estar intimidados em sua presença. Se queria intimidá-la, teria que encontrar algo mais além de sua riqueza para fazer a tarefa. Apreciava o dinheiro tanto como qualquer um; certamente fazia a vida mais fácil. Agora que tinha um pequeno pé de meia, estava assombrada do quanto dormia melhor - o alívio que era não ter que preocupar-se de onde viria sua próxima refeição, ou quando. Ao mesmo tempo, desprezava as pessoas que pensava que sua riqueza os lhes dava um tratamento especial.

Não era apenas que seu nome fosse ridículo. Talvez seu sobrenome realmente fosse Raintree, mas ele tinha escolhido provavelmente seu nome para dar dramatismo e encaixar com o nome do cassino. Seu nome verdadeiro talvez fose algo assim como Melvin ou Fred.

- Por favor, sente-se - convidou ele outra vez, indicando o sofá de couro cor nata a sua direita. Uma mesa de centro, de jade, estava situada entre o sofá e duas cadeiras de clube que pareciam confortáveis. Ela tratou de não fixar seus olhos na mesa enquanto se sentava em uma das cadeiras, que era tão confortável quanto parecia. Certamente a mesa era só da cor do jade e não realmente feita da autentica pedra, mas parecia real, como se fosse ligeiramente translúcida. Certamente era só cristal. Por isso, o artesanato era magnífico.

Lorna não tinha muita experiência com artigos de luxo, mas tinha uma espécie de sexto sentido a respeito de seu entorno. Começou a sentir-se afetada pelas coisas ao redor dela. Não, não afetada; essa não era a palavra correta. Tratou de cortar de uma vez o que sentia, mas havia uma característica estranha desconhecida no mesmo ar, a seu redor, que não podia descrever. Esta era pouco familiar, e definitivamente implicava o fio de perigo que tanto a tinha alarmado quando tinha notado isso pela primeira vez.

Enquanto Dante Raintree passava perto, precaveu-se que estava centrada nele. Tinha razão; ele era o perigo.

Movia-se com graça indolente, mas não havia nada lento ou preguiçoso nele. Era um homem alto, aproximadamente vinte ou vinte cinco centímetros mais alto que seus próprios um metro e setenta, e embora sua roupa feita à medida desse uma aparência magra, não havia nenhum alfaiate perito o bastante para disfarçar completamente o poder de seus músculos sob o tecido. Não como um leopardo, melhor, como um tigre.

Notou que tinha evitado olhar seu rosto, como se não ter esse conhecimento lhe desse uma pequena medida de segurança. Ela sabia bem; a ignorância nunca era uma boa defesa, e Lorna tinha aprendido fazia tempo a não esconder a cabeça na areia e esperar o melhor.

Ele se sentou do outro lado da mesa, e reforçando-se interiormente, foi ao encontro de seu olhar, conectando totalmente.

Seu estômago se desprendeu até o fundo.

Tinha uma fraca e vertiginosa sensação de queda; que apenas refreou agarrando os braços da cadeira para estabilizar-se.

Seu cabelo era negro. Seus olhos eram verdes. Cores comuns, e ainda assim nada nele era comum. O cabelo era liso e lustroso, caindo por seus ombros. Não gostava do cabelo comprido nos homens, mas o seu parecia via limpo e suave, e quis enterrar as mãos nele. Afastou essa idéia e rapidamente se viu presa em seu olhar fixo. Seus olhos não eram apenas verdes, eram verdes, tão notavelmente verdes que seu primeiro pensamento foi que ele usava lentes de contato coloridas. Uma cor tão enigmaticamente rica e pura não podia ser verdadeira. Eram apenas lentes muito realistas, com diminutas estrias negras como nos olhos verdadeiros. Tinha visto anúncios publicitários delas nas revistas. Só que, quando as velas flamejaram e suas pupilas se contraíram brevemente, a cor de sua íris pareceu expandir-se. Poderiam as lentes de contato dar aquele aspecto?

Ele não usava lentes de contato. Por instinto soube que tudo o que via, da lisa escuridão de seu cabelo até aquela intensa cor de olhos, era autentico.

Atraía-a. Algum poder que não podia entender a prendia com uma sensação quase física. As chamas das velas dançavam grosseiramente, mais brilhantes agora que o sol tinha se posto e o crepúsculo se fazia mais profundo do lado de fora da janela. As velas eram a única luz no agora sombrio escritório, enviando sombras que cortavam através dos duros ângulos de seu rosto, e contudo, seus olhos pareciam resplandecer com uma cor ainda mais brilhante da que tinham um momento antes.

Não haviam dito uma palavra desde que ele se sentou, entretanto, sentiu como se estivesse em uma batalha por sua vontade, sua força, sua vida independente. Profundamente em seu interior, o pânico flamejou a vida com a luz das velas, dançando e saltando. Ele sabe, pensou, e se preparou para correr. Esquecer os cassinos, esquecer o agradável dinheiro que tinha conseguido, esquecer tudo exceto a sobrevivência. Corre!

Seu corpo não obedeceu. Seguiu sentada ali, congelada... hipnotizada.

- Como você faz você? - perguntou ele finalmente, seu tom ainda tão calmo e sereno como se não soubesse dos redemoinhos e as ondas de poder que a golpeavam.

Uma vez mais, sua voz pareceu abrir caminho através de sua confusão interior e devolve-la a realidade. Desconcertada, contemplou-o. Pensava que ela fazia todas essas coisas estranhas?

- Eu não sou - resmungou. - Pensei que era você.

Poderia estar enganada, porque à luz das velas ler uma expressão era complicado, mas pensou que ele parecia ligeiramente assombrado.

- Trapaças - disse ele em elucidação. - Como está me roubando?

Capítulo 3

Talvez ele não soubesse.

Sua brutalidade foi um perverso alívio. Lorna tomou ar profundamente. Pelo menos agora estava tratando com algo que entendia. Ignorando as estranhas correntes ocultas na sala, a sensação quase física de estar rodeada por… algo… elevou o queixo, estreitou os olhos e respondeu com um olhar igual.

- Não estou trapaceadno! ?Isso era certo… pelo menos até certo ponto, e no significado normal da palavra.

- É obvio que sim. Ninguém tem tanta sorte como você parece ter, a não ser que ele, perdoe, ela, esteja trapaceando. - Agora seus olhos estavam brilhando, mas em seu dicioário, brilhar era muito melhor que esse estranho resplendor. De todas as formas os olhos não resplandeciam. O que estava acontecendo com ela? Alguém tinha colocado uma droga em sua bebida quando não observava? Nunca bebia álcool quando estava apostando, atendo-se a café ou bebidas sem álcool, mas tinha achado a última taça de café amarga. Nesse momento tinha pensado que tinha tido a má sorte de receber a última xícara da cafeteira, mas agora se perguntava se não tinha sido quimicamente melhorada.

- Repito. Não estou trapaceando. - Lorna espetou as palavras, sua mandíbula rígida.

- Esteve vindo aqui há um tempo. Vai com cinco mil a cada semana. Isso faz um bom quarto de milhão ao ano… e isso só do meu cassino. Quantos mais está visitando? - Seu olhar frio a percorreu da cabeça aos pés, como se se perguntasse porque não se vestia melhor, com a quantidade de dinheiro que tinha.

Lorna sentiu como se seu rosto acalorava, e isso a deixou furiosa. Ela não tinha se sentido envergonhada por nada fazia muito tempo, a vergonha era um luxo que não se podia permitir, mas algo a respeito dessa avaliação a fez querer se retorcer. Certo, não era a pessoa que melhor se vestia no mundo, mas era arrumada e limpa, e isso era o que importava. Qual o problema se tinha comprado sua calça e sua camisa de manga curta no Wal-Mart2? Simplesmente não podia gastar cem dólares em um par de sapatos quando um par de doze dólares serviriam igualmente bem. Com a diferença de oitenta e oito dólares poderia comprar um montão de comida. E a seda não só custava muito, mas também era difícil de cuidar; antes preferiria uma agradável mescla de algodão e poliéster, que não tinha que ser engomada, no lugar da seda em qualquer momento.

- Perguntei, quantos cassinos visita a cada semana?

- O que faço não é assunto seu. - Fulminou-o com o olhar, contente pelo broto de energia que lhe dava o aborrecimento. Sentir-se zangada era muito melhor que sentir-se magoada. Não ia deixar que a opinião deste homem importasse o suficiente para feri-la. Pode ser que suas roupas fossem baratas, mas não estavam maltrapilhas; ela era limpa, e se negava a sentir-se envergonhada por elas.

- Pelo contrário. Apanhei-a. portanto deveria fazer que Al avisasse os outros chefes de segurança.

- Não me apanhou fazendo nada! - Estava completamente segura disso, porque não tinha feito nada que ele pudesse notar.

- Tem sorte de que eu seja eu no comando - continuou ele como se ela não houvesse dito nenhuma palavra. - Há um certo número de elementos em Reno que acreditam que trapacear é um crime que merece a pena de morte.

O ritmo de seu coração acelerou. Tinha razão, e ela sabia. Havia sussurros pelas ruas, histórias de gente que tinha tentado inclinar as apostas a seu favor… e que, ou tinham desaparecido por completo, ou tinham adotado uma temperatura ambiente no momento em que foram encontrados. Ela não tinha a alegre ignorância que lhe deixaria pensar que simplesmente estava exagerando, porque tinha vivido no mundo onde aconteciam essas coisas. Conhecia esse mundo, a gente que o habitava. Tinha sido cuidadosa em mantê-lo menos visível possível, e nunca tinha usado as freqüentes cartas dos jogadores que permitiam os cassinos controlar quem estava ganhando e quem não, mas ainda assim tinha feito algo errado, algo que tinha atraído a atenção para sua pessoa. Sua inocência não importaria a muitas pessoas; uma palavra à pessoa errada, e seria uma mulher morta.

Estava dizendo que não ia entrega-la, que deixaria o problema como um assunto privado do “Inferno”?

Por que faria isso? Só dois raciocínios possíveis vieram a sua mente. Uma era o velho jogo de trocar sexo por favores: “Seja boa comigo, menina, e não contarei o que sei”. A outra era que talvez suspeitasse que trapaceava mas não tinha provas, e tudo o que pretendia era enganá-la para que confessasse, ou pelo menos proibir sua entrada ao “Inferno”. Se sua razão era a primeira, então era um pervertido, e ela sabia como lidar com eles. Se sua razão era a última, bom, então era um bom tipo.

O que seria má sorte para ele.

Estava olhando para ela, realmente olhando, sua completa atenção centrada em ler cada vislumbre de emoção em seu rosto. Lorna lutou contra o impulso de se mover nervosamente, porque ser o centro desse tipo de concentração a deixava muito inquieta. Preferia misturar-se com a multidão, estar em segundo plano; ser anônima significava segurança.

- Fique relaxada, não vou chantagear você para fazer sexo comigo… embora não que não esteja interessado - disse ele, mas não preciso de coação para ter sexo quando quero.

Ela quase pulou. Ou tinha lido sua mente, ou estava ficando bastante descuidada em ocultar sua expressão. Sabia que não era descuidada; durante muito tempo, sua vida tinha dependido de permanecer alerta; os hábitos defensivos de toda uma vida estavam profundamente arraigados. Tinha lido sua mente. Oh, Deus, tinha lido sua mente!

Um verdadeiro pânico começou a nublar sua mente; então se dissipou imediatamente, forçado a sair por uma vívida e detalhada imagem dos dois fazendo sexo. Por um momento desorientador sentiu como se estivesse fora de seu corpo, vendo os dois na cama… nus, seus corpos suados pelo exercício estendendo-se juntos. O musculoso corpo a pressionava para baixo, esmagando-a sobre os lençóis revoltos. Seus braços e pernas, pálidos contra a pele masculina de tom oliváceo, estavam envolvendo-o. Sentiu as fragrâncias de sexo e pele, sentiu o calor e o peso dele em cima dela enquanto empurrava brandamente em seu interior, ouviu seu próprio gemido quando a levantou com seus lentos e controlados impulsos. Estava a ponto de chegar ao clímax, igual a ele, suas estocadas ficando mais duras e rápidas…

Saiu de um impulso da cena, de repente horrivelmente segura de que se deixase que continuasse até o final, se humilharia tendo um autentico clímax ali mesmo, na frente dele. Mal podia se manter no presente; o atrativo do prazer imaginário era tão forte que queria voltar, perder-se no sonho, ou alucinação, ou o que demônios fosse.

Algo estava errado. Ela não tinha controle sobre si mesma, mas em vez disso estava sendo sacudida por estranhos redemoinhos de poder que surgiam e se afastavam pela sala. Nem sequer podia agarrar-se a algo tempo o suficiente para examiná-lo; justo quando pensava que tinha pego, via-se lançada para outra reação, outra selvagem emoção borbulhando até a superfície.

Ele falou outra vez, aparentemente sem se dar conta de nada mais que seus próprios pensamentos. Como podia não sentir tudo o que estava acontecendo? Estava imaginando tudo? Agarrou-se nos braços da cadeira, perguntando-se se estaria tendo uma espécie de crise nervosa.

- É precognitiva. - Ele inclinou a cabeça como se estivesse estudando um espécime interessante, com um ligeiro sorriso nos lábios. - Também é sensitiva, e talvez também há um pouco de telecinésia mesclada. Interessante.

- Está louco? - soltou, horrorizada, e ainda lutando por concentrar-se. Interessante? Ou ele estava a ponto de destruir sua vida ou ela estava ficando louca, e ele pensava que era interessante?

- Acredito que não. Não, estou bastante seguro de que estou com razão. - A diversão apareceu a seus olhos, fazendo-os mais quentes. - Adiante, Lorna, dá o salto. A única maneira de saber que é uma precognitiva é… - sua voz baixou um tom, convidando ela a terminar a frase.

Ela ficou gelada, olhando fixamente para ele. Estava dizendo que realmente podia ler mentes, ou a estava colocando em algum tipo de armadilha que não podia ver?

Um repentino frio gelado varreu a sala, tão frio que doeu até nos seus ossos, e com ele veio o mesmo entristecedor sentimento de pavor que tinha sentido ao entrar na sala e vê-lo. Lorna se abraçou e apertou os dentes para impedir que batessem. Queria fugir e não podia; seus músculos simplesmente não obedeceriam o instinto de escapar.

Era ele a fonte desta… confusão na sala? Ela não podia pensar em uma melhor descrição que essa, porque nunca antes havia se sentido dessa maneira, como se a realidade estivesse estratificada com alucinações.

- Pode relaxar. Não há maneira de prová-lo, por isso não acusarei você de trapacear. Mas soube o que é assim que disse que pensava que eu “estava fazendo”. Fazendo o que? Não disse, mas a afirmação era bastante intrigante, porque queria dizer que é sensível às correntes na sala. - Entrelaçou os dedos e os apoiou contra os lábios, observando-a por cima deles com um olhar firme. - As pessoas normais nunca teriam sentido nada. Muitas vezes, uma forma de habilidade psíquica vem muito unida a outras formas, é óbvio, agora, como ganha tão regularmente. Sabe que carta irá sair, não é? Sabe que máquinas caça-niqueis darão dinheiro. Talvez inclusive possa manipular o computador para que saiam três seguidos.

O frio deixou a sala tão abruptamente como entrou. Ela se tinha tensionado para resistir a ele, e a repentina diminuição da pressão a fez sentir como se fosse cair da cadeira. Lorna apertou a mandíbula com força, temerosa de dizer algo. Não podia deixar-se levar a uma discussão sobre habilidades paranormais. Por tudo o que sabia, essa sala poderia ter instalações de vídeo e áudio, e estivesse gravando tudo. O que acontecia se uma dessas estranhas alucinações tomava o controle outra vez? Poderia dizer o que ele quisesse que dissesse, admitir qualquer descabelada acusação. Demônios, tudo o que estava sentindo podia ser resultado de alguns efeitos especiais estranhos que tivesse instalados.

- Sei que não é Raintree - continuou brandamente. - Conheço os meus. Então a grande pergunta é… é Ansara, ou simplesmente uma extraviada?

A comoção a resgatou uma vez mais.

- Uma extraviada? - repetiu, voltando de repente para um mundo que se sentia real. Ainda havia um subjacente sentido de desorientação, mas pelo menos essa imagem sexualmente perturbadora se foi, igual ao frio e o pavor.

Tomou ar profundamente e lutou contra a rajada quente de ira. Acabava de compara-la com um cão guia de ruas não desejado. Sob a ira, entretanto, estava a ponta corrosiva do amargo e velho desespero. Não desejada. Sempre tinha sido isso. Durante um momento, por um maravilhosamente doce momento, tinha pensado que isso mudaria, mas então até essa última esperança tinham tirado dela, e não tinha o coração, a vontade, de voltar a tentar. Algo dentro dela a tinha abandonado, mas a dor não se apagou.

Ele fez um gesto descartando.

- Não esse tipo de extraviada. Usamos para descrever a uma pessoa com habilidade que não está filiada.

- Não filiada a que? Do que está falando? - Sua perplexidade ante este ponto, ao menos, era real.

- Alguém que não é nem Raintree nem Ansara.

Suas explicações foram em círculos, igual aos pensamentos dela. Frustrada, assustada, Lorna fez um movimento abrupto com a mão e soltou:

- Quem demônios é a Tia Sarah3?

Inclinando a cabeça para trás, Dante pôs-se a rir, o som foi rápido e fácil, como se o fizesse muitas vezes. O fundo de seu estômago revoou. Imaginar fazer sexo com ele tinha baixado as defesas que normalmente tinha levantada, e o distante reconhecimento de sua atração se converteu em uma consciência bem firme. Contra a sua vontade, notou as linhas musculosas de sua garganta, a escultural linha de sua mandíbula. Era… bonito, de uma maneira particular, uma palavra muito feminina para descrevê-lo. Era impressionante, suas feições muito irresistíveis para ser meramente bonito. Tampouco tinha sido seu físico o primeiro que tinha notado dele; de longe, sua primeira impressão tinha sido uma de poder.

- Não “Tia Sarah” - disse ele ainda rindo. - Ansara. A-N-S-A-R-A.

- Nunca ouvi falar deles -disse Lorna com cautela, se perguntando se estava falando de algum tipo de máfia. Ela não se deixava enganar pensando que o crime organizado estava restrito as velhas famílias italianas de Nova Iorque e Chicago.

- Não? - disse com amabilidade, mas Lorna, com suas terminações nervosas nuas como estavam, sentiu a dúvida, e a ameaça inerente, tão clara como se a tivesse gritado.

Tinha que controlar suas reações. As coisas estranhas que aconteciam nessa sala a tinham pego de surpresa, envolvendo-a em uma vulnerabilidade que normalmente não permitia, mas agora que tinha um momento, sem nenhum assalto a seus sentidos, começou a recuperar a compostura. Mentalmente voltou a recompor suas barreiras internas; foi uma luta, porque era difícil concentrar-se, mas persistiu com severidade. Pode ser que não soubesse o que estava acontecendo, mas sabia que se proteger era de vital importância.

Ele estava esperando que respondesse a sua pergunta retórica, mas ela o ignorou e se concentrou em seus escudos…

Escudos?


De onde tinha vindo essa palavra? Nunca tinha se considerado como uma pessoa de ter escudos. Se considerava forte, seu coração erodido e endurecido por tempos difíceis; considerava-se insensível.

Nunca tinha se considerado como uma pessoa que tinha escudos. Até agora.

Era a sensitiva mais desprotegida que tinha visto, pensou Dante enquanto a via lutar contra o fluxo e as ondas de poder. Reagia como uma completa novata tanto ante os pensamentos dele como a sua afinidade com o fogo. Ele agora tinha seu dom sob estrito controle, mas para testá-la, tinha enviado pequenas descargas pela habitação, fazendo que as velas dançassem. Ela tinha se agarrado aos braços da cadeira como se precisasse de uma âncora, seu olhar alarmado movendo-se ao redor como se procurasse monstros.

Quando tinha captado sua previsão de ser chantageada por sexo - o que não tinha sido exatamente difícil de adivinhar - permitiu-se uma breve e agradável pequena fantasia, a que ela tinha respondido como se realmente tivesse nua na cama. Sua boca tinha ficado vermelha e suave, suas bochechas ruborizadas, seus olhos com as pálpebras pesadas, enquanto debaixo de seu pulôver barato os mamilos tinham ficado tão duros que sua forma tinha sido visível até através do sutiã.

Maldição. Durante um momento, ela tinha estado em verdadeiro perigo de que sua fantasia se tornasse realidade.

Talvez fosse Ansara, mas se era, não estava nada treinada. Ou isso ou tinha a habilidade suficiente para parecer não treinada. Se era Ansara, apostaria no último. Ser Raintree tinha várias vantagens e uma grande desvantagem: um inimigo implacável. A hostilidade entre os dois clãs tinha estalado em uma enorme batalha campal fazia uns duzentos anos, e os Raintree tinham saído vitoriosos, os Ansara quase destruídos. Os restos esfarrapados do que uma vez tinha sido um poderoso clã estavam divididos por todo mundo e nunca se recuperaram até o ponto de poder voltar a fazer uma guerra coordenada com os Raintree, mas isso não queria dizer que um ocasional Ansara solitário não tentasse causar problemas.

Como os Raintree, os Ansara tinham diferentes dons de diversos graus de força. Aqueles com os que Dante ocasionalmente cruzava, tinham sido treinados tão bem como qualquer Raintree, o que significava que nenhum deles podia ser ignorado. Embora não eram a ameaça de antigamente, sempre tinha consciência de que qualquer um deles adoraria a oportunidade de atacar de qualquer forma.

Seria típico de um Ansara lhe dar um golpe roubando. Havia cassinos maiores em Reno, mas roubar “O Inferno” seria anotar um enorme tanto… se era Ansara.

Ele tinha alguma capacidade telepática, não tanto quanto sua irmã mais nova, Mercy, mas suficiente para poder ler a maioria das pessoas assim que a tocava. As exceções, principalmente, eram os Ansara, porque tinham sido treinados para defender-se de uma forma que os humanos normais nunca fariam. Os sensitivos tinham que defender-se ou seriam afligidos pelas forças a seu redor… como Lorna Clay parecia estar.

Talvez fosse somente era uma boa atriz.

A luz das velas era magia em sua pele, em seu cabelo. Era uma mulher bonita, com uma estrutura óssea elegantemente modelada, talvez um pouco ressentida e hostil em sua atitude, mas que demônios, se o tivessem apanhado trapaceando, provavelmente também seria hostil.

Queria tocá-la, para ver se podia ler algo.

Embora se a tocasse, provavelmente sairia correndo e gritando da sala. Estava tão tensamente vulnerável que poderia se lançar para trás na cadeira se lhe dizia “Buu!” Pensou em fazê-lo, só por diversão.

Teria feito isso, se não fosse pelo sério problema de trapacear.

Inclinou-se para frente para deixar claro um ponto, e…

Um ruidoso mas não desagradável tom soou, seguido por outro, e logo outro. Uma corrente de adrenalina percorreu seu sistema e ficou em pé, agarrando seu braço e arrancando a da cadeira antes de que o aviso gravado pudesse começar.

- O que é isto? - gritou ela, seu rosto empalidecendo, mas sem tentar separar-se dele.

- Fogo -disse brevemente, quase a arrastando para a porta. Uma vez que o alarme de incêndios soou, todos os elevadores pararam respondendo a chamadas… e eles estavam no andar dezenove.

Capítulo 4
Lorna tropeçou e quase caiu de joelhos quando a arrastou para a entrada. Seu quadril golpeou dolorosamente contra o marco da porta; então recuperou o equilíbrio, cambaleou até acima e se precipitou tão rápido que se chocou contra o outro lado da parede. Seu braço, suspenso por uma garra de ferro, estava torcido enquanto ele implacavelmente a puxava para frente. Não disse uma palavra, não lançou nenhum grito, não notou a dor, porque o pesadelo vivo excluía todo o resto.

Fogo!


Ela viu como lhe dava uma abrasadora, compreensiva olhada; então ele liberou seu braço e em troca a segurou com seu braço esquerdo ao redor da cintura, a abraçando do seu lado, e sustentando enquanto corria para a escada. Só estavam eles no vestíbulo, mas assim que abriu a porta da Saída de Emergência, pode ouvir passos, debaixo deles, quando as pessoas saíram em disparada pela escada.

O ar do vestíbulo estava espaçoso, mas quando a porta ressoou fechando-se detrás, ela o cheirou: o fedor da fumaça queimava a garganta. O batimento de seu coração vacilou. Tinha medo do fogo, sempre, e não era só a precaução de uma pessoa racional. Se tivesse que escolher o pior modo neste mundo de morrer, séria o fogo. Tinha pesadelos sobre estar presa atrás de uma parede em chamas, incapaz de alcançar alguém, um menino, talvez? - que era mais importante para ela que sua própria vida, ou até salvar-se. Quando as chamas a alcançavam e sentia que sua carne começava a queimar, ela despertava, tremendo e com lágrimas de horror.

Não gostava de nenhuma vela com a chama descoberta, chaminés, ou até mesmo uma cozinha de gás. Agora Dante Raintree a levava para o coração da besta, quando todos seus instintos gritavam que subisse, acima, ao ar fresco, tão longe do fogo quanto pudesse ficar.

Quando giraram o primeiro patamar da escada, o caos e o pânico começaram a se fortalecer e a prenderem, mas o dominou. Logicamente sabia que eles tinham que descer, que saltar do telhado não era uma opção viável. Apertando os dentes para se impedir de gritar, concentrou-se em manter o equilíbrio, se assegurando que seus pés pisassem com segurança, embora pelo modo em que ele a sustentava, duvidava que pudesse tropeçar. Ela não queria lhe atrapalhar ou, Deus não o quisesse, fazer com que ambos caíssem.

Alcançaram um grupo de pessoas que também descia a escada, mas o caminho estava bloqueado, e as pessoas gritavam para que outros se retirassem do caminho. O alvoroço era confuso; ninguém podia se fazer ouvir, e alguns tossiam por causa da densa fumaça.

- Vocês, não podem subir! - gritou Raintree, sua voz profunda se ouviu sobre a gritaria, e só então Lorna notou que o alvoroço era causado por pessoas que tentavam de empurrar para cima enquanto outros se concentravam em descer.

- Quem demônios é você? - bramou alguém de baixo.

- O dono do “Inferno”, esse é quem demônios sou - espetou Raintree. - Construí este cassino, e sei aonde vou. Agora gire seu traseiro e vá para o térreo, é a única saída.

- A fumaça é pior por aquele caminho!

- Então tire a camisa e a amarre sobre seu nariz e boca. Todo mundo deve fazer isto - ordenou, as palavras retumbando de novo de tal maneira que todos pudessem ouvir. Dando exemplo, liberou Lorna para tirar o caro casaco. Ela estava de pé intumescida a seu lado, vendo como ele rapidamente tirava uma navalha do bolso, abrindo-a e cortava o forro de seda cinza do casaco. Então rapidamente rasgou o forro em dois pedaços retangulares. Dando um a ela, disse:

- Use isto - Enquanto fechava a navalha deslizando-a em seu bolso traseiro.

Ela esperava que um pequeno grupo seguisse para cima, sem considerar o que ele disse, mas ninguém fez isso, ao contrário, vários homens, que vestiam seus casacos, seguiram seu exemplo e arrancaram os forros da roupa. Os outros tiraram as camisas, as rasgando e oferecendo pedaços as mulheres que estavam pouco dispostas a tirar suas blusas. Lorna depressa atou a seda sobre seu nariz e boca, apertando ele contra seu rosto como uma máscara cirúrgica. Ao seu lado, Raintree fazia o mesmo.

- Vamos! - pediu, e como ovelhas obedientes o seguiram. O amontoado de pessoas começou a se desenredar, como um cordão para baixo. Lorna se encontrou movendo seus próprios pés como se não fossem seus, levando-a para baixo, descendo, mais perto, ao inferno que chispava esperando a eles. Cada célula de seu corpo gritava em protesto, seu fôlego chegava em grunhidos estrangulados, mas de todos os modos continuava descendo a escada como se não tivesse vontade própria.

A mão dele pressionou sua cintura, movendo-a para um lado.

- Deixem-nos passar - disse. - Mostrarei a saída a vocês.

As pessoas a frente deles se moveu a um lado, e embora Lorna ouvisse vários murmúrios zangados, foram abafados por outros que diziam que se calassem, que este lugar era dele e saberia sair do edifício.

Cada vez mais pessoas se apinhavam no vão da escada diante deles deixando os andares vazios, mas sairam para o lado quando Raintree se moveu com Lorna para frente. A fumaça acre picava seus olhos, fazendo-os chorar, e ela podia sentir a temperatura que se elevava enquanto desciam. Quantos andares tinham descido? No patamar seguinte olhou atentamente a porta e o número pintado nela, mas as lágrimas nos olhos turvavam as figuras, dezesseis, talvez. Ou quinze. Era tudo? Não tinham ido mais longe que isto? Tentou lembrar quantos andares tinham passado, mas estava muito intumescida pelo terror para emprestar atenção.

Ia morrer neste edifício. Podia sentir o fôlego gelado da Morte esperando por ela, do outro lado das chamas que não podia ver, mas entretanto, podia sentir, como se fossem uma grande força que a puxava. Era este o porque sempre tinha tido tanto medo do fogo; sabia de algum jeito que estava destinada a se queimar. Logo iria, sua força vital queimada ou asfixiada. E ninguém a sentiria sua falta.

Dante vigiava cada movimento para baixo, obrigando sua mente a forçá-los a uma evacuação ordenada. Nunca tinha tentado usar este poder em particular, não sabia que o possuía, e se não tivessem estado tão perto do solstício do verão, duvidava que pudesse fazer isto. Infernos, não estava seguro de poder fazê-lo funcionar absolutamente, muito menos em um grupo tão grande, mas com o fogo que ameaçava destruir o cassino que tanto trabalho lhe havia custado construir, tinha vertido toda sua vontade de pensamento, em suas palavras, e eles obedeceram.

Podia sentir as chamas cantando, o canto de sereia o chamando. Talvez elas alimentavam seu poder, porque a proximidade do fogo fazia com que seu coração pulsasse mais rápido com a adrenalina vertida. Inclusive embora a fumaça picasse seus olhos e se filtrasse pela seda amarrada sobre seu nariz e boca, sentia-se tão vivo que sua pele mal podia contê-lo. Queria rir, queria elevar os braços e convidar o fogo, ter uma batalha com ele, então poderia exercer sua vontade sobre o fogo como com estas pessoas.

Se não fosse pelo nível de concentração que tinha que manter no lugar, já teria estado mentalmente engajado na batalha. Tudo nele desejava a luta. Venceria as chamas, mas primeiro tinha que conseguir levar estas pessoas para um lugar seguro.

Lorna seguiu o ritmo ao lado dele, mas uma olhada rápida ao seu rosto - que podia ver por cima da seda cinza - percebeu que só por força de vontade baixava a escada. Estava branca como papel, e seus olhos tinham quase o olhar vazio pelo terror. A aproximou de seu lado, querendo ela ao seu alcance quando chegassem ao térreo, porque por outra parte, seu pânico poderia ser forte o bastante para se sais de seu controle e fugir. E ainda não havia terminado com ela. De fato, com este maldito fogo, pensava que teria muito mais para discutir com ela do que as trapaças no blackjack.

Se fosse Ansara, se estivesse de algum jeito metida com o início do fogo, ela morreria. Era simples.

Havia tocado nela, mas não podia saber se ela era Ansara ou não. Seu poder telepático era fraco de todos os modos, e agora mesmo não podia realmente se concentrar na leitura dela. Não captou nada que desse a entender se era uma extraviada ou uma Ansara, e com força suficiente para se defende realmente dele. De qualquer maneira, a questão teria que esperar. A fumaça se fazia mais densa, mas não dramaticamente. Alguns estavam falando, embora em maior parte as pessoas guardavam o fôlego para conseguir descer a escada. Havia entretanto, um constante murmúrio de tosses.

O Fogo, sentia, estava concentrado até agora no cassino, mas se estendia rapidamente para a parte do hotel. A diferença da maioria dos hotéis/casinos, que eram construídos de tal modo que os convidados estavam obrigados a passar pelo cassino no caminho a qualquer lugar, para aumentar as probabilidades que parassem para jogar, Dante tinha construído o “Inferno” com os quartos de hóspedes a um lado, longe. Havia uma área comum onde ambos se conectavam e se sobrepunham, mas também proporcionava um pouco de distância para o convidado que queria. Arriscou-se, mas o desenho era calculado. Concentrando-se em um nível de elegância incomparável a qualquer outro hotel/casino em Reno, fazia o “Inferno” diferente e portanto desejável.

Aquele desenho salvaria muitas vidas esta noite. Quantos convidados tinham estado no cassino, embora... não soubesse sobre eles. Não podia se permitir preocupar-se com eles, ou poderia perder o controle das pessoas na escada. Não podia ajudar as pessoas do cassino, ao menos não agora, então deixou de pensar. Se estas pessoas entrassem em pânico, começariam a empurrar e correr, não só algumas pessoas cairiam e seriam pisoteadas, a multidão poderia esmagar a barra de saída e impedir que a porta se abrisse. Isto tinha acontecido antes, e aconteceria outra vez - mas não em seu local, não se podia ajudá-los.

Alcançaram outro patamar, e olhou atentamente através da fumaça o número na porta. Três. Só dois mais andares, graças a Deus. A fumaça se fazia tão espessa que seus pulmões se queimavam.

- Estamos quase lá - disse, mantendo focadas as pessoas que estavam atrás dele, ouviu que começavam a repetir as palavras a aqueles empilhados na escada por cima deles.

Ele estreitou seu braço ao redor da cintura da Lorna e a segurou com força a seu lado, a levantando de seus pés quando desceu os andares restantes de dois em dois degraus de uma vez. A porta aberta não dava ao exterior mas sim a um corredor de escritórios. Sustentou a porta aberta com seu corpo, e quando as pessoas tropeçaram no corredor, disse:

- Girem à direita. Passem pelas portas duplas ao final do corredor, dêem a volta à direita outra vez, e a porta que está antes das máquinas de refresco dará acesso ao nível do estacionamento. Vão, vão, vão!

Foram-se, impelidos por ele - tropeçando e tossindo, mas apesar de tudo, movendo-se. O ar ali estava denso e quente, sua visão só alcançava a ver uns pés, e as pessoas que subiam a frente dele pareciam fantasmas e desapareciam em segundos. Só as tosses e o som de seus passos marcavam seu progresso.

Sentiu o movimento da Lorna, tentando sair de seu braço que estava ao redor dela, tentando obedecer não só sua ordem mental, mas também as ordens de seu próprio cérebro preso de pânico. Apertou seu braço ao redor dela. Talvez pudesse reajustar o controle o suficiente para exclui-la agora mesmo. Não, isto não valia o risco. Enquanto tinha todos sob seu controle, os mantinha ali e em movimento. Tudo o que tinha que fazer era agarrar Lorna para impedir que escapasse.

Podia sentir o fogo em suas costas. Não literalmente, mas agora mais perto, muito mais perto. Tudo nele desejava dar a volta e enfrentar-se com a força da natureza que era sua para convocá-la e controlá-la, sua para possui-la. Ainda não. Ainda não...

Então quando nenhuma figura coberta de fumaça surgiu da escada, e com Lorna firmemente presa, deu a volta e abandonou o estacionamento e a segurança, para o vermelho demônio rugente.

- Noooo.

O som foi pouco mais que um gemido, ela resistia grosseiramente no círculo de seus braços. Depressa lhe deu um último impulso mental a corrente de pessoas que encabeçava a saída do estacionamento, logo transferiu o controle para uma ordem diferente, esta vez dirigida unicamente a Lorna:

- Fica comigo.

Imediatamente deixou de lutar, embora pudesse ouvir os estrangulados sons de pânico que ela fazia enquanto caminhava rapidamente através da fumaça para a outra porta, uma que abria ao vestíbulo.

Lançou-se pela porta aberta e caminhou no inferno, arrastando-a com ele.

O sistema de aspersão automático fazia um valente esforço, orvalhava água no vestíbulo, mas o calor era um monstro incinerador que evaporava a água orvalhada antes de que tocasse o chão. Este ia estalar como uma onda expansiva, um golpe físico, mas ele murmurou uma maldição e o fez retroceder. Porque eram produzidos pelo fogo, eram partes do fogo, ele possuía o calor e a fumaça tão seguro como possuía as chamas. Agora que podia concentrar-se, desviou-as, criando uma bolha protetora, um campo de força, ao redor de Lorna e dele, que enviou a fumaça em espiral e manteve fora o calor, protegendo a eles.

O cassino estava completamente ocupado. As chamas eram ávidas línguas em vermelho, grandes folhas em laranja e negro, transparentes forcas de ouro, que dançavam e rugiam em sua impaciência por consumir tudo a seu alcance. Várias das elegantes colunas brancas se incendiaram como enormes tochas, e a enorme tapete era muito pequenos fogos, acesos pelos escombros que caiam. As colunas atuavam como velas, mechas de chamas que chegavam ao teto. Começou ali, tirando o poder do fundo de seu interior e usando-o para dobrar o fogo a sua vontade. Devagar, devagar, as chamas que lambiam as colunas começaram a extinguir-se, vencidas por uma força superior.

Fazendo tanto, que até manter a bolha de seguramça ao redor deles, tomou cada grama do poder que tinha. Algo não estava bem. Deu-se conta quando se concentrava nas colunas, sentindo a tensão profundamente. Sua cabeça começou a doer; a morte das chamas não deveria tomar muito esforço. Elas eram lentas em responder a sua ordem, mas não as deixou subir, inclusive enquanto se peguntava se a energia que tinha usado no controle de mentes em grupo o tinha drenado de algum jeito. Não sentiu que era isso, mas algo definitivamente estava errado.

Quando apenas brincos da fumaça se originavam nas colunas, mudou sua atenção para as paredes, empurrando para trás, empurrando para trás.

Pelo canto de seu olho, viu as colunas irromper em chamas outra vez.

Com um rugido de fúria e incredulidade, fez explodir sua vontade nas chamas, e remeteram outra vez.

Que demônios?

A janela explodiu, enviando fragmentos de cristal por toda parte. O brutal jorro de água se verteu através da fachada, cortesia do Corpo de Bombeiros de Reno, mas as chamas pareceram dar uma rouca gargalhada antes retroceder rugindo mais vivas e mais quentes que antes. Um dos dois enormes lustres de cristal, caiu do debilitado teto para o chão e se espatifou lançando uma brilhante orvalhada de letais estilhaços de cristal. Estavam tão longe que só poucos os alcançaram, mas um dos estilhaços de cristal cortou bochecha, provocando um filete de sangue em seu rosto. Talvez devesse ter se esquivado dele, pensou com abstraído humor.

Podia sentir Lorna pressionada contra ele, tremendo convulsivamente e fazendo pequenos sons de terror, mas estava indefesa para romper o controle mental que tinha posto nela. O cristal a tinha golpeado? Não havia tempo para chcar. Rapidamente, uma enorme língua de fogo rodou através do teto, consumindo tudo em seu caminho assim como o que pareceu a maior parte do oxigênio disponível; então começou a comer seu caminho para baixo pela parede atrás deles, fechando qualquer fuga.

Mentalmente, empurrou as chamas, complacentes se retiraram, tomando todas suas reservas de força e poder. Ele era o Dranir dos Raintree; o fogo o obedecia.

Exceto que não o fez.

Em troca começou a avançar lentamente através do tapete, pequenos fogos que se combinavam com outros maiores, e aqueles unindo-se com outros até que o chão esteve em chamas, aproximando-se mais, mais perto.

Não podia controlá-lo. Nunca tinha encontrado antes uma chama que não pudesse dobrar a sua vontade, mas isto era algo além de seu poder. Usar o controle mental deve tê-lo debilitado de algum jeito; não era algo que tivesse feito antes, por isso não sabia quais eram as conseqüências. Bem, sim, sabia; a menos que ocorresse um milagre, as conseqüências seriam duas mortes: Lorna e ele.

Rechaçou aceitar isto. Nunca se tinha rendido, nunca deixou que um fogo o golpeasse; não ia começar com este.

A bolha de segurança vacilou, deixando que a fumaça se infiltrar. Lorna começou a tossir convulsivamente, lutando contra ele embora não fora capaz de correr a menos que a liberasse do controle. De todas as formas não havia para onde correr.

Com todas suas forças, confrontou as chamas. Precisava de mais poder. Tinha usado tudo para extinguir o fogo, e não era suficiente. Se Gideon ou Mercy estivessem aqui, eles poderiam se unir a ele, combinar suas forças, mas aquele tipo de associação requeria a proximidade, assim só contava consigo mesmo. Não havia nenhuma outra fonte de poder que pudesse tomar… exceto Lorna.

Não perguntou; não tomou tempo para lhe avisar o que ia fazer; simplesmente pôs ambos os braços ao redor dela por trás e rompeu seus escudos mentais, implacavelmente tomando o que precisava. O alívio se derramou através dele pelo que encontrou. Sim, ela tinha poder, mais do que tinha esperado. Não se parou a analisar que tipo de poder tinha, porque não importava; neste nível, o poder era o poder, como a eletricidade. As máquinas podiam tomar o mesmo poder e fazer diversas coisas descontroladas, como passar o aspirador pelo chão ou tocar música. Este era o mesmo princípio. Ela tinha poder; tomou, e o usou para sustentar seu próprio dom.

Ela deu um grito atenuado e resistiu em seus braços, em seguida ficou rígida.

Furiosamente ele atacou as chamas, enviando uma rajada mental de 360 graus que literalmente arrebentou o muro de fogo detrás dele e tomando também a parede física. A rajada de oxigênio renovado fez que o fogo diante dele flamejar, assim que se juntou e o fez outra vez, vertendo mais energia na batalha, sentindo suas próprias reservas renovar-se quando tomou cada grama de poder e força de Lorna e o mesclou com o seu.

Seu corpo inteiro zumbia, seus músculos se queimavam pelo esforço de se conter e concentrar. A bolha invisível de segurança ao redor deles começou a brilhar e tomou um débil resplendor. Suando, jurando, ignorando à dor em sua cabeça, verteu a energia de sua vontade no fogo uma e outra vez, fazendo-o retroceder, enquanto tratava de contar o tempo que estava ali de pé, quanto tempo tinha que dar às pessoas do hotel para escapar. Havia múltiplos espaços na escada, e estava seguro que nem todas as evacuações tinham sido tão ordenadas como a que tinha controlado. Todos já estariam fora? E as pessoas deficientes? Teriam que ajuda-los a descer as escadas. Se parasse, o fogo se levantaria avançando, engolindo o hotel em algo que não poderia parar. Até que o fogo fosse controlado, não podia se deter.

Não podia apagá-lo, não completamente. Por alguma razão, fosse porque se esgotava, se distraía ou mesmo que fogo fosse de algum jeito diferente, não podia apagá-lo. Aceitava isto agora. Tudo o que podia fazer era manter sob controle chamas até que o corpo de bombeiros o tivesse controlado.

Foi no que se concentrou, controlar o fogo em vez de extingui-lo. Isto conservou sua energia, e precisava de cada pingo que tinha, porque a ferocidade do fogo nunca deixou de empurrar, nunca parou de lutar por sua liberdade. O tempo não significava nada, porque não importava quanto tomasse, não importava quanto doía sua cabeça, tinha que agüentar.

Em algum lugar caminho perdeu a linha divisória entre ele e o fogo. Este era seu inimigo, mas era formoso em sua destruição; dançava para ele como sempre, mágico em seu movimento e suas cores. Sentia sua beleza como lava fundida que transpassava suas veias, sentiu que seu corpo respondia com irrefletida luxúria até que sua ereção se esticou dolorosamente contra seu zíper. Lorna tinha que senti-lo, mas não havia uma maldita coisa que pudesse fazer para controlá-lo. O melhor que podia fazer, dadas as circunstâncias, era não se mover contra ela.

Finalmente, os gritos roucos se impuseram através do atenuado rugido da besta. Girando ligeiramente a cabeça, Dante viu as equipes de bombeiros que avançavam com suas mangueiras. Rapidamente deixou que a bolha de segurança amparo se dissolvesse, abandonando Lorna e ele na fumaça e ao calor.

Com seu primeiro fôlego, a fumaça quente queimou seus pulmões. Afogou-se, tossiu, tentado inalar. Lorna dobrou seus joelhos, e ele se deixou cair ao lado dela quando os primeiros bombeiros os alcançaram.

Capítulo 5
Lorna se sentou sobre o pára-choque do caminhão médico dos bombeiros e colocou uma manta gasta a seu redor. A noite era cálida, mas estava empapada, e ao que parecia não podia deixar de tremer. Tinha ouvido o médico dizer que não estava em choque; embora sua tensão arterial estivesse um pouco alta, o que era compreensível, o número de pulsações estava perto do normal. Só tinha friou por estar molhada.

E tudo a seu redor parecia ter… emudecido, como se houvesse um muro de cristal entre ela e o resto do mundo. Sentia a mente nublada, capaz apenas de funcionar. Quando o médico tinha perguntado seu nome, por sua vida que não tinha sido capaz de recordá-lo, muito menos pronunciá-lo. Mas recordou que nunca trazia a carteira ao cassino, por causa dos ladrões, e que guardava o dinheiro em um bolso e a carteira de motorista no outro, assim tinha tirado a licença e a tinha mostrado. Era uma licença do Missouri, por que não tinha obtido uma daqui. Para conseguir uma de Nevada tinha que ser residente e com “trabalho remunerado”. E o trabalho remunerado era o que tinha falhado.

- Você é Lorna Clay? - perguntou o médico e ela assentiu.

- A garganta está doendo? - perguntou-lhe depois e parecia uma explicação tão razoável para continuar em silencio como qualquer outra que assentiu de novo. Examinou sua garganta, pareceu um pouco perplexo. Então lhe deu oxigeno para respirar e disse que devia ser examinada no hospital.

Sim, claro. Não tinha nenhuma intenção de ir a um hospital. O único lugar que queria ir era para longe dali.

E ainda assim permaneceu exatamente onde estava enquanto Raintree era examinado. Tinha sangue no rosto, mas o corte parecia pequeno. Escutou-o dizer aos médicos que estava bem. Que não, não acreditava ter se queimado em nenhum lugar, que tinham tido muita sorte.

Sorte, sua bunda. O pensamento foi claro como água, surgindo do pântano inativo que era seu cérebro. Tinha-a segurado em meio desse inferno rugente pelo que pareceu uma eternidade. Deveriam ser insetos tostados, teriam ao menos que estar lutando por respirar através de suas danificadas vias respiratórias, em vez de se encontrar bem. Sabia o que o fogo fazia, tinha visto, tinha cheirado e era feio, destruía tudo em seu caminho. O que o tinha feito dançar a seu redor e deixá-los ilesos?

Apesar disso aqui estava ela… ilesa. Relativamente de qualquer modo. Sentia-se como se um caminhão a tivesse atropelado, mas ao menos não estava queimada.

Deveria estar queimada, deveria estar morta, de qualquer modo, só contemplava o fato de que não só não estava morta, nem sequer estava ferida. Doía-lhe muito a cabeça e a duras penas podia estar de pé respirando e o muro de cristal entre ela e a realidade se fez um pouco mais espesso, assim não pensou em estar viva ou morta ou qualquer outra coisa. Simplesmente se sentou ali enquanto a cena de pesadelo girava a seu redor, as luzes piscando, a multidão os rodeando. Os bombeiros ainda ocupados com suas mangueiras, apagando as chamas remanescentes e fazendo que não aumentassem de novo. Os caminhões de bombeiros ressonaram tão forte que o ruído reverberou sobre ela e a fez desejar cobrir os ouvidos, mas não o fez tampouco, simplesmente esperou.

O motivo, não estava segura. Não podia deixá-lo. Pensou centenas de vezes em afastar-se na noite, mas entrar em ação parecia impossível. Não importava quanto desejasse partir, estava atada pela inércia Não podia lutar, tudo o que podia fazer era… sentar-se.

Então Raintree se levantou e abruptamente, encontrou-se levantando também, levada por algum impulso que não entendia. Só sabia que se ele se levantava, ela deveria se levantar. Estava muito cansada mentalmente para encontrar uma razão que tivesse sentido.

Sua cara estava tão negra pela fuligem que só via o branco de seus olhos, então imaginou que ela estava bastante parecida. Grandioso. Isso significava, que não teria muitas oportunidades de passar inadvertida. Ele tomou um trapo que alguém lhe ofereceu e o passou por sua enegrecida cara, o que não fez muita diferença. A fuligem era gordurosa; só o sabão adequado poderia eliminá-la.

Com determinação ele dirigiu seus passos, moveu-se para um pequeno grupo de policiais, três uniformizados e dois vestidos de civil. Um vago alarme se elevou em Lorna. Ia entrega-la? Sem provas? Desejou desesperadamente afastar-se, mas imediatamente se encontrou seguindo-o docilmente.

Por que fazia isto? Por que não o abandonava? Lutou com as perguntas, tratando de conseguir que seu cérebro funcionasse. Ele não olhou em sua direção, não tinha nem idéia de onde ela estava, se retrocedesse agora e se misturasse com a multidão… como se pudesse se misturar com alguém, coberta de fuligem como estava. Mas outros também mostravam os efeitos do fogo, alguns dos empregados do cassino por exemplo, e os jogadores. Provavelmente podia afastar-se silenciosamente, se fosse capaz de fazer o esforço.

Por que seu cérebro estava tão inativo? Em um nível muito superficial os processos de seus pensamentos pareciam normais, mas debaixo disso, nada. Não havia nada mais que lodo. Havia algo importante que devia recordar, algo que brevemente emergiu, só o suficiente para causar um ponto de preocupação, então desapareceu de sua memória como um fio de fumaça. Franziu a testa tentando extrair a lembrança, mas o esforço só intensificou a dor em sua cabeça, e se deteve.

Raintree se aproximou dos dois policiais vestidos de civis e se apresentou. Lorna tentou passar desapercebida, o que provavelmente era uma causa perdida considerando como reluzia além do fato de que estava esperando só a uns passos. Todos a olharam com uma mescla de desconfiança e curiosidade que somente os tiras podiam ter. Seu coração começou a acelerar. O que faria se Raintree a acusava ou traía? Correr? Olhá-lo como se fosse um idiota? Talvez a idiota fosse ela, esperando aí, como um cordeiro para o sacrifício.

A imagem a galvanizou como nenhuma outra coisa poderia. Não seria uma vitima disposta, trataria de afastar-se, mas por alguma razão a ação parecia ultrapassá-la, o único desejava era permanecer com ele.

Fica comigo.

As palavras ressoaram através de seu fatigado cérebro, fazendo doer sua cabeça. Cansadamente esfregou a testa, se perguntando onde tinha escutado as palavras e por que lhe importavam.

- Onde estava quando começou o incêndio senhor Raintree? - perguntou um dos detetives. Ele e o outro detetive, se apresentaram, mas seus nomes flutuaram fora da cabeça de Lorna assim que os escutou.

- Em meu escritório, falando com a senhorita Clay - indicou Lorna, sem olhar realmente em sua direção, como se soubesse exatamente onde estava esperando.

Olharam-na com mais seriedade agora; então o detetive que estava falando com Raintree disse:

- Meu companheiro poderia tomar declaração enquanto eu tomou a sua, assim podemos economizar tempo.

Com certeza, pensou Lorna sarcasticamente. E também tinha uma propriedade frente à praia aqui em Reno que desejava vender. Os detetives desejavam separa-la de Raintree, assim não escutaria o que ele dissesse e não poderiam coordenar suas declarações. Se um negócio ia por água a baixo, às vezes o dono tratava de minimizar as perdas queimando e cobrando a apólice do seguro. O outro detetive se deteve seu lado. Raintree a olhou sobre seu ombro.

- Não vá longe, não quero perder você entre a multidão.

O que é que procurava? perguntou-se. Havia soado como se tivessem uma relação ou algo. Mas quando o detetive disse:

- Caminhemos por aqui. - Lorna obedientemente caminhou atrás dele cerca de vinte passos, então abruptamente se deteve como se não pudesse dar nenhum mais.

- Aqui - disse, surpreendendo-se com o quanto áspera e fraca era sua voz. Tinha tossido um pouco, é certo, mas sua voz soava como se tivesse estado se deteriorando por dias, mal era audível sobre o ruído dos caminhões de bombeiros.

- Está bem. - O detetive olhou ao redor e casualmente se colocou para que Lorna estivesse de costas para Raintree. - Sou o detetive Harvey, seu nome é…

- Lorna Clay. - Ao menos recordava seu nome desta vez, por um horrível segundo, não tinha estado segura. Esfregou a testa de novo, desejando que esta confusa dor de cabeça se afastasse.

- Vive mora aqui?

- No momento. Não decidi se ficarei. - Soube que não poderia. Nunca tinha permanecido em um lugar por muito tempo, alguns meses, seis no máximo e se mudava. Ele perguntou seu endereço e se desconcertou. Se tratasse de investigar, encontraria que a coisa mais lamentável contra ela era uma multa expedida fazia três anos. Tinha pago a multa sem discussão. Não havia problemas nisso, contanto que Raintree não a denunciasse ou a enganasse, estaria bem. Desejava poder olhar para ele por cima de seu ombro, mas sabia que era melhor não ficar nervosa ou algo pior se observava que respostas ele dava.

- Onde se encontrava quando começou o fogo?

Ele tinha ouvido Raintree, quando respondeu uma pergunta idêntica; disse que tinha estado com ela, mas era assim como os tiras operavam.

- Não sei onde começou o fogo - disse um pouco irritada. - Estava no escritório do senhor Raintree quando soou o alarme.

- A que hora foi isso?

- Não estava com tinha relógio, não sei, de qualquer modo não teria podido olhar a hora, o fogo me deixa nervosa.

O canto esquina da boca dele se torceu um pouco mas a controlou. Tinha um rosto agradável, um pouco flácido nas bochechas, enrugado ao redor dos olhos.

- Está bem, podemos obter a hora do sistema de segurança. Há quanto tempo estava com o senhor Raintree quando soou o alarme?

Agora, essa era a pergunta. Lorna retrocedeu ao episódio de pânico que experimentou nesse escritório, às confusas alucinações ou a desconcertante fantasia sexual. Nada nessa sala quarto tinha sido normal e embora normalmente tinha uma boa noção do tempo, encontrou-se incapaz de estimá-lo.

- Não sei, era o entardecer quando, entrei lá, é tudo o que posso lhe dizer.

Anotou sua resposta. Só Deus sabia o que acreditava que fizeram, pensou cansadamente, mas não pôde consegui que lhe importasse.

- O que fez quando soou o alarme?

- Corremos pelas escadas.

- Em que andar estavam?

Agora isso, sabia porque tinha visto os números ao subir no elevador.

- No dezenove.

Anotou também. Lorna pensou que se pretendesse queimar um edifício, não iria ao andar dezenove esperar o alarme. Raintree não tinha nada a ver com o que tinha causado o fogo, mas os tiras teriam que checar tudo ou não estariam fazendo seu trabalho. Embora… foram os detetives normalmente à cena de um incêndio? Um inspetor de incêndios ou um investigador de bombeiros, o que Reno tivesse, teria que determinar que um fogo era causado com premeditação antes de que o tratassem como um crime.

- O que aconteceu então?

Havia muita gente nas escadas - disse em voz baixa, tentando recuperar a lembrança. - Lembro… muita gente, só pudemos avançar alguns passos antes que nos barrassem, porque algumas pessoas dos andares inferiores tentavam subir. A fumaça devia ser espessa porque a visibilidade era horrível. As pessoas caminhavam como fantasmas… Não, isso deve ter sido depois. Não havia muita fumaça dentro das escadas. Depois... - Não estava segura sobre o que ocorreu mais tarde. A seqüência de sucessos estava toda mesclada, e ao que parecia não podia classificá-la.

- Prossiga - estimulou o detetive Harvey quando guardou silêncio por uns instantes.

- O senhor Raintree disse, às pessoas que subiam as escadas, que tinham que retornar, que não havia saída se continuassem subindo.

- Discutiram?

- Não, todos deram a volta, ninguém entrou em pânico.

Exceto ela, tinha sido apenas capaz de respirar, e não era a causa da fumaça. A lembrança estava se tornando clara, e se maravilhou de como a evacuação tinha sido ordenada. Ninguém tinha se empurrado, ninguém tinha corrido. As pessoas tinham se apressado, certamente, mas não imprudentes para arriscar-se a uma queda. Em retrospectiva, seu comportamento tinha sido condenadamente antinatural. Como podiam estar todos tão calmos? Sabiam o que causava o fogo?

Mas ela tampouco tinha corrido, compreendeu, não tinha empurrado, tinha caminhado com passo estável, segura no braço do senhor Raintree.

Espera, então a tinha agarrado? Não acreditou que o tivesse feito, tocava-a na cintura, guiando-a para fora, mas tinha sido livre para correr, assim… por que não o tinha feito?

Tinha avançado como todos outros em uma ordenada fila. Por dentro, estava gritando, mas por fora estava controlada.

Controlada… não autocontrolada, e sim controlada como uma marionete, como se não tivesse vontade por si mesma. Sua mente estava gritando que corresse, mas seu corpo simplesmente não obedeceu.

- Senhorita Clay?

Lorna se sentiu respirar mais rápido quando recordou esses momentos. Fogo! Aproximando-se mais e mais perto, não queria ir, queria correr, mas não podia, estava presa em um desses pesadelos onde tenta correr mas não pode, onde tenta gritar mas não sai nenhum som.

- Senhorita Clay?

- Eu… o que? - Aturdida o olhou, pela mescla de impaciência e preocupação em seu rosto, pensou que devia tê-la chamado várias vezes.

- O que fez você quando saiu?

Estremecendo, abraçou-se.

- Não o fizemos, acredito. Fomos até o térreo e o senhor Raintree mandou os outros para a direita, para o andar do estacionamento. Então ele… nós… - sua voz vacilou.

Tinha lutado contra ele, tentando seguir os outros, recordava isso. Então ele havia dito “fica comigo” e tinha feito, sem vontade de fazer outra coisa, apesar de ter estado meio louca de terror.

Fica comigo.

Quando ele se sentou, ela se sentou; quando ficou de pé, ela também. Quando ele se movia ela se movia. Até então, tinha sido incapaz de dar um só passo longe dele.

Só uns momentos antes, ele havia dito: - Não vá longe. - E tinha sido capaz de afastar-se de seu lado então. Mas não tinha ido longe antes de deter-se como se batesse em um muro de tijolos.

Uma horrível suspeita começou a crescer. Estava-a controlando, talvez com algum tipo de sugestão pós-hipnótica. Embora quando e como a tinha hipnotizado, não tinha idéia. Todo tipo de coisas estranhas tinham ocorrido em seu escritório. Talvez todas aquelas condenadas velas, em realidade tinham emanado alguma espécie de gás que a tinha drogado.

- Prossiga - disse o detetive Harvey, irrompendo em seus pensamentos.

- Fomos para a esquerda - disse, começando a tremer. Abrigou-se com os braços ao redor, segurando a manta perto em um esforço para controlar seus caprichosos músculos, mas em segundos, tremia de pés a cabeça. - No vestíbulo. O fogo… - O fogo tinha saltado sobre eles como uma besta enfurecida, rugindo com prazer. O calor a tinha chamuscado durante uma mínima fração de um segundo. Tinha se sufocado com a fumaça. Logo... não havia nada de fumaça, nenhum calor. Ambos tinham se afastado. Ela e Raintree deveriam ter sido vencidos em segundos, mas não tinha sido assim. Tinha sido capaz de respirar. Não havia sentido o calor, mesmo quando olhou as línguas de fogo lambendo avidamente o tapete até ela. - O fogo fez algum tipo de c-chaminé através do teto e saltou detrás de nós, e estávamos presos.

- Gostaria de sentar-se? - perguntou interrompendo sua linha de pensamento, mas considerando quão violentamente estava tremendo, provavelmente acreditou que sentá-la antes que caísse era uma boa idéia.

Ela poderia ter tido o mesmo pensamento. Se sentar não significasse se acomodar no asfalto coberto com as ruínas do fogo e repleto de água escurecida. Provavelmente queria dizer sentar-se sobre algum outro lugar, do que teria gostado se tivesse se sentido capaz de dar um só passo além de onde estava agora. Sacudiu a cabeça.

- Estou bem, só molhada e fria e um pouco aturdida. - Se dessem algum prêmio à negação descomunal, acabava de ganhá-lo.

Olhou-a durante um momento, então decidiu claramente que ela saberia se realmente precisava sentar. De todos os modos, tinha tentado, o que o liberava de qualquer obrigação.

- O que você fez?

Melhor não lhe dizer que se havia sentido rodeada por algum tipo de campo de força. Isto não era Star Wars, assim poderia não entender. Melhor não dizer que havia sentido uma brisa fria no cabelo. Devia ter sido drogada, não havia outra explicação.

- Não havia nada que pudéssemos fazer. Estávamos presos. Recordo o senhor Raintree soltando uma enxurrada de maldições. Lembro que sufocava e estava no chão, então os bombeiros chegaram a nós e nos resgataram.

Em altares da credibilidade, tinha condensado os sucessos da noite como os recordava, mas certamente não tinham estado no vestíbulo por muito tempo, não mais de trinta segundos. Um campo de força imaginário não teria resistido ao calor e a fumaça reais. Os bombeiros deviam estar perto deles. Mas estava muito presa pelo pânico para notar.

Havia algo mais, provavelmente esse preocupante vazio em sua memória, esse que não podia compreender. Algo mais tinha ocorrido, sabia, simplesmente não podia pensar no que era. Talvez depois que tomasse banho e lavasse o cabelo - várias vezes - e tivesse umas vinte ou trinta horas de sono, poderia recordar.

O detetive Harvey olhou sobre seu ombro, então fechou seu pequeno caderno.

- Tem sorte de estar viva. Já a examinaram pela inalação de fumaça?

- Sim, estou bem. - O médico estava perplexo por sua boa condição, mas não ia dizer isso ao detetive.

- Imagino que o senhor Raintree estará preso por aqui um momento, mas você é livre para partir. Tem algum número onde possa ser localizada em caso de futuras perguntas que lhe fazer?

Começou a perguntar Como quais, mas em troca disse:

- Certo. - E deu o número de se celular.

- É local?

- É meu celular. - Agora que os números móveis podiam ser trasferidos, não perdia tempo com uma linha local se tinha serviço de celular onde quer que ficasse temporariamente.

- Conseguiu um número local?

- Não, isso é tudo, sinto muito, não vejo a necessidade a conseguir uma linha local sem ter decidido se vou ficar.

- Não há problema, obrigado por sua cooperação. - Deu uma sacudida de cabeça como breve agradecimento.

Porque parecia o que devia fazer, Lorna compôs um débil sorriso enquanto ele retrocedia para o outro detetive, mas rapidamente se desfez. Estava exausta e suja, sua cabeça doía. Agora que o detetive Harvey tinha terminado de entrevistá-la, iria para casa.

Tentou, fez vária tentaivas de afastar-se, mas por alguma razão não podia fazer que seus pés se movessem. Encheu-se de frustração. Tinha caminhado por aí fazia alguns minutos, não existia nenhuma razão para que não fosse capaz de caminhar agora. Só para ver que era totalmente capaz de mover-se, retrocedeu, aproximando-se de Raintree. Não havia problema. Todas suas partes se moviam como deviam.

Experimentalmente, deu um passo adiante, e suspirou de alívio quando seus pés e pernas em realidade obedeceram. Estava mais que esgotada se o simples ato de caminhar se tornou tão complicado. Suspirando, começou a dar outro.

E não pôde.

Não podia ir mais longe. Era como se tivesse alcançado o final de uma corda invisível.

Congelou-se com a incredulidade. Isso a enfurecia. Devia tê-la hipnotizado, mas como?, quando? Não podia recordar dele lhe dizendo “Está dormindo”, e de qualquer modo, estava bastante segura de que a hipnose não funcionava dessa maneira. Supunha-se que devia estar profundamente relaxada, não algo do tipo fazer-coisas-contar-sua-vontade, independente de tudo o que os filmes mostravam.

Lamentava não estar usando um relógio, então poderia ter notado qualquer discrepância de tempo quando tinha entrado no escritório de Raintree e quando o alarme contra incêndios tinha tocado. Tinha que averiguar que hora tinha sido, porque sabia aproximadamente a que hora era o pôr-do-sol. Tinha estado em seu escritório durante meia hora talvez... acreditava. Não podia estar segura. Aquelas desconcertantes fantasias poderiam ter tomado mais tempo de que estimou.

Independentemente de como tinha feito, ele controlava seus movimentos. Sabia. Quando disse, “fica comigo", ficou, inclusive quando se enfrentavam com o inferno. Quando disse, "Não vá longe", tinha sido capaz de ir só até onde estava agora e nem um passo mais à frente.

Girou a cabeça para olhá-lo sobre seu ombro e o encontrou esperando mais ou menos sozinho, claramente tendo terminado de responder a quaisquer que fossem as perguntas que o outro detetive tinha feito. Olhava para ela, sua expressão severa. Seus lábios se moveram. Com todo o ruído de fundo não podia ouvir o que dizia, mas leu seus lábios com muita claridade

Disse:

- Venha aqui.



Capítulo 6
Ela foi. Não podia parar. Sua cabeça latejava e tinha calafrios, mas continuava, seus pés se moviam automaticamente. Seus olhos totalmente abertos pelo alarme. Como ele fazia isto com ela? Não era o “como” o que importava; o que importava era o que ele estava fazendo. Ser incapaz de controlar a si mesma, estar sob seu controle, poderia conduzi-la a situações desagradáveis.

Nem sequer podia pedir ajuda porque ninguém acreditaria. No melhor dos casos, as pessoas pensariam que estava drogada ou que era mentalmente instável. Todas as simpatias estariam com ele porque tinha perdido seu cassino, seu sustento; o último que precisava era que uma louca lhe acusasse de estar controlando seus movimentos de uma forma ou outra. Podia ver a si mesma gritando:

- Ajuda! Não posso parar de andar! Ele me obriga a fazer isso!

De acordo, não funcionaria.

Deu-lhe um pequeno e forçado sorriso de autosatisfação quando ela se aproximou, e isso a tirou do sério. Estar zangada a fazia sentir-se bem; não gostava de se sentir desvalida de nenhuma forma. Muito atenta para deixar de ver suas intenções, manteve os olhos abertos, com expressão de alarme, entretanto quanto de seu rosto ele poderia ver através da fuligem e a imundície era um enigma. Manteve o braço direito preso do seu lado, seu cotovelo se dobrou um pouco, e esticou os músculos das costas e o ombro. Quando esteve perto dele, tão perto que quase poderia beijá-lo, lançou-lhe um gancho direto no queixo.

Não o viu vir, e o punho se chocou no queixo com uma força que lhe fez bater os dentes. A dor percorreu os nódulos dela, mas a satisfação de golpea-lo fez com que valesse a pena. Ele cambaleou para trás meio passo, então recuperou o equilíbrio com graça atlética, alargando uma mão com rapidez para agarrar seu pulso com seus dedos compridos antes que pudesse golpeá-lo outra vez. Usou o agarre para atrai-la contra ele.

- Mereci um soco - disse aproximando-a enquanto inclinava a cabeça o suficiente para lhe falar ao ouvido - não aceitarei um segundo.

- Me solte - disse bruscamente - e não me refiro somente a sua mão.

- Então compreendeu - disse serenamente.

- Sou meio lenta, mas ser empurrada em meio de um enorme e maldito incêndio estava me distraindo. - Recorreu ao sarcasmo tanto quanto pôde. - Não sei como está fazendo ou por que...

- O "por que”, ao menos, deveria ser óbvio.

- Então devo estar privada de oxigênio desde que inalei a fumaça, caramba, pergunto-me de quem foi o lapsus, porque não esta claro para mim!

- Está o pequeno assunto de que me fraudou. Ou pensou que esqueceria isso ante a comoção de ver como se queimava meu cassino até os alicerces?

- Eu não... Espera um minuto. Espera um maldito minuto. Não pode ter me hipnotizado enquanto íamos descendo dezenove lances de escadas, e se fez enquanto estávamos em seu escritório, então isso foi antes sequer que se iniciasse o fogo. Explica isso, Lucy4!

Ele sorriu abertamente, seus dentes brilharam na cara enegrecida pela fuligem.

- Supõe-se que deveria dizer: Oh, Ricky!?

- Não me preocupa o que diga. Somente desfaz o vodu, ou o feitiço, ou o hipnotismo ou o que seja que tenha feito. Não pode me reter aqui assim.

- Isso é ridículo, quando é óbvio que não estou retendo assim.

Lorna pensava que poderia sair fumaça de suas orelhas. Tinha ficado zangada muitas vezes em sua vida - inclusive tinha estado exasperada algumas vezes - mas esta era a vez que mais enfurecida havia se sentido.

Até esta noite haveria dito que as três palavras significavam o mesmo, mas agora sabia que estar enfurecida suportava uma grande quantidade de frustração. Estava indefesa e odiava isso. Sua vida inteira estava construída ao redor da premissa de não sentir-se indefesa, de não ser uma vítima nunca mais.

- Me-dei-xe ir.

Apertou os dentes, sua voz era quase gutural. Seu autocontrole se sustentava só por um fino fio, mas somente porque sabia que gritar não levaria a lugar nenhum, e só a faria parecer idiota.

- Ainda não, temos alguns assuntos que discutir.

Completamente indiferente a seu mau humor, ele levantou a cabeça para observar a cena de destruição a seu redor. O fedor da fumaça impregnava todas as coisas, e os brilhos vermelhos e azuis das distintas luzes de emergência criavam um efeito estroboscópico que o fazia sentir-se como se um prego estivesse golpeando na sua testa. Alguns pontos quentes ainda brilhavam com carmesim vida nas ardentes ruínas, até que os vigilantes bombeiros os apontavam com suas mangueiras. Uma multidão se pressionava contra a fita que a polícia tinha posto para delimitar a área.

Viu os mesmos detalhes que ele e as luzes intermitentes recordavam uma bola de fogo... não, não de fogo... algo mais. Ofegou quando sentiu um violento batimento de coração em sua cabeça.

- Então vamos discuti-los, agora - disse bruscamente, pondo a mão na cabeça em um gesto instintivo para conter a dor.

- Aqui não. - Olhou-a de cima abaixo. - Está bem?

- Tenho uma horrível dor de cabeça, poderia ir para casa e me deitar se não fosse tão babaca.

Estudou-a com o olhar.

- Mas sou um babaca, assim como me chama. Agora fique calada e seja uma boa garota. Estarei um momento ocupado. Quando acabar, iremos a minha casa e teremos essa conversa.

Lorna se calou, e quando ele saiu, ela ficou fixa no lugar. Maldito seja, pensou, enquanto furiosas lágrimas emanavam de seus olhos e corriam por suas sujas bochechas. Levantou as mãos e limpou as lágrimas. Pelo menos, a tinha deixado usar as mãos. Não podia andar e não podia falar mas podia secr o rosto, e se Deus fosse realmente amável com ela, poderia golpear Raintree da próxima vez que estivesse ao alcance.

Então, sentiu um frio, se arrepiando toda. O breve calor que sentia devido ao aborrecimento desapareceu destruído por um medo repentino que lhe paralisou a mente...

O que era ele?
Um homem e uma mulher que haviam estado, atrás do cordão policial, olhando o gigantesco fogo, finalmente deram a volta e trabalhosamente começaram a caminhar para seu carro.

- Merda - disse a mulher sobriamente.

Seu nome era Elyn Campbell, e era a mestra de fogo mais poderosa do clã Ansara, excetuando o Dranir. Tudo o que sabiam sobre Dante Raintree, e tudo o que Elyn sabia sobre o fogo - ajudada por poderosos feitiços - uniu-se para formar um plano que deveria ter causado a morte do Raintree Dranir e em vez disso não tinha completado sua missão.

- Sim - Rubén Williams sacudiu sua cabeça. Tudo seu cuidadoso planejamento, seus cálculos, converteram-se em fumaça. - Por que não funcionou?

- Não sei. Deveria ter funcionado. Ele não é tão forte. Ninguém é, nem sequer um Dranir. Isto foi demais.

- Então evidentemente é o Dranir mais forte que alguém já viu. Ou isso ou é o mais afortunado.

- Ou saiu antes do que prevíamos. Talvez se acovardou e correu para cobrir-se em vez de tentar controlá-lo.

Rubén deu um profundo suspiro.

- Talvez. Não vi quando o tiraram, então talvez tinha estado um momento em algum lugar fora de vista antes que finalmente eu o descobrisse. Todo esse maldito equipamento estava atrapalhando.

Ela elevou a vista para o céu estrelado.

- Assim temos duas possíveis opções. A primeira é que se acovardou e saiu correndo. A segunda, e infelizmente a mais provável, é que seja mais forte do que esperávamos. Cael não ficará contente.

Rubén suspirou outra vez e enfrentou ao inevitável.

- Suponho que o postergamos tempo suficiente. Temos que ligar.

- Tirou o celular do bolso, mas a mulher pôs a mão sobre sua manga.

- Não use seu celular, não está codificado. Espere até que voltemos para o hotel e usaremos uma linha fixa.

- ?Boa idéia.

Algo que atrasasse a ligação para Cael Ansara era uma boa idéia. Cael era sua primo por parte de mãe, mas o parentesco não reduzia a frieza com o bastardo - e dizia bastardo tanto em sentido literal como figurado. - Talvez aquela secreta associação com Cael contra o atual Dranir, Judah, não era a coisa mais inteligente que tinha feito. Inclusive embora estivesse de acordo com Cael em que os Ansara já eram o suficientemente forte, depois de duzentos anos de reconstrução, para enfrentar os Raintree e destrui-los, talvez tinha se equivocado. Ou melhor Cael estava equivocado.

Sabia que Cael aceitaria automaticamente a primeira opção possível, que Dante Raintree se acovardou e tinha escapado, em vez de tentar apagar o fogo, desprezando completamente a possibilidade que Raintree era mais forte do que qualquer um deles tivesse imaginado. Mas, e se Raintree era realmente tão poderoso? A tentativa de golpe planejada por Cael seria um desastre, e os Ansara teriam sorte de sobreviver como clã. Tinha levado dois séculos reconstruir sua atual fortaleza, depois de sua última batalha campal com os Raintree.

Cael era incapaz de conceber que estivesse equivocado. Se o plano falhasse - o que aconteceria - Cael somente veria duas possibilidades: ou que Rubén e Either não tinham executado o plano corretamente, ou que Raintree tinha mostrado uma veia covarde. Rubén sabia que eles não tinham cometido nenhum engano. Tudo tinha funcionado como um relógio, exceto o resultado. Supunha-se que Raintree seria consumido por um fogo que não poderia controlar, uma deliciosa ironia, porque os mestres do fogo tinham uma estranha relação de amor-ódio com o fogo que dançava ao ritmo que eles mesmos marcavam. Em vez disso, tinha saído ileso. Asqueroso, com fuligem, talvez um pouco chamuscado, mas essencialmente ileso.

Uma bala na cabeça teria sido mais eficiente, mas Cael não quis fazer algo que alertasse o clã Raintree, e um assassinato certamente o faria. Fez tudo para que parecesse um acidente, o que naturalmente fez garantir com quer o resultado fose mais problemático. A família real, os mais poderosos Raintree, tinha que ser derrotada de forma tal que ninguém suspeitasse de um assassinato. Um fogo - pensariam que a perda de seu Dranir em um incêndio era um trágico e amargo final -mas entenderiam completamente que tivesse lutado até o final para salvar seu cassino e seu hotel, sobretudo o hotel, com todos os hóspedes alojados nele.

Cael, é obvio, não teria em conta o fato de que provocar incidentes que não apontassem aos Ansara não era uma ciência exata. As coisas podiam sair erradas. Definitivamente, algo tinha saído errada aquela noite.

Dante Raintree estava ainda vivo. Isso era o que de pior podia acontecer...

O grande assalto ao lar dos Raintree, o Santuário, estava planejado para o solstício do verão, que era uma semana depois. Elyn e ele tinham uma semana para matar Dante Raintree ou Cael mataria a eles.



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