Quando Conde de Lippe esteve por aqui também chegou lá



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Então o mundo ve surgir duas personalidades que novamente alteram o equilíbrio, Felipe II e Alexandre. Com eles o Império Macedônico. Se é certo que produziram o seu império sobre uma atmosfera de terror (Alexandre, seguindo os passos do pai, antes mesmo de completar vinte e cinco anos já havia mandado passar a espada a aproximadamente vinte mil mercenários gregos, sem antes lembrar que vendeu todas as mulheres e crianças de Tebas e Tiro, como escravas). Discípulo de Aristóteles, restaurador da democracia na Grécia, era também audaz sob o prisma político, ao ponto de permitir que as faixas populacionais da nobreza sob o seu poder participassem em parte do seu governo. Não abria mão do pragmatismo da tirania e execuções com o fim de intimidar qualquer manifestação mais arisca. Conseguiu reunir um grande exército, extremamente heterogêneo, mas coeso ao seu poder. Possuiu uma maravilhosa cavalaria (composta por nobres), onde se foi dado diversas funções tácticas diversas do que até então se aplicava, criando uma cavalaria pesada e outra ligeira, com o fito de atuarem de formas diferentes.

Com a morte de Alexandre, divide-se o Império em três Estados: Grécia Antigónida, a Síria Selêucida e o Egipto Ptolomaico, este último passa a utilizar a cavalaria para combates com outras cavalarias. Tempos depois, ressurge a Macedônia sob as mãos de Felipe V, que obtém o peloponeso e adentra rumo a Grécia, entretanto, encontra em seu caminho um povo pouco conhecido, que saíra em socorro dos atenienses, os Romanos, que até então haviam sofridos algumas derrotas, (uma inclusive provocada por Pirro – que saíra bastante onerosa a este comandante em termos de baixa e demora, o que gerou a expressão vitória de Pirro). Encontram-se e enfrentam a reacendente Macedônia que anos antes havia se aliado a Aníbal que atacara aquele povo da península itálica. Os romanos vencem.


Os Romanos
Eram também vinculados a disciplina e as supertições. Se os Gregos possuíam os arautos, os Romanos tinham o “colegio dos feciais”. 21 Para se declarar uma guerra, bem como, para terminá-la, era necessário uma consulta aos deuses da cidade. A influência religiosa na disciplina militar era tão severa, ao ponto de representar a punição de um general mesmo vitorioso que tivesse iniciado a luta sem autorização divina.22
Como elemento facilitador da enorme disciplina apresentada pelo Exército Romano, o fato de que tal “era uma continuação absolutamente identica da mesma organização disciplinar da cidade; os elementos hierárquicos eram os mesmos n’uma e n’outra; identicos, n’uma e n’outra, eram os principios moraes e jurídicos em vigor; o mesmo substractum jurídico-moral servia de alicerce a uma como a outra.”23 .
Em seu início o “pater-familia”, como os chefes de cúria ou os tribunos eram os elementos que dirigiam a atividade militar, ao depois, Servius Tullius, modifica a inscrição nas legiões conforme o grau de fortuna apresentado, onde as centúrias eram compostas com homens de idênticos recursos. Roma já possuía diversas classes. Com a divisão entre patrícios e plebeus, Tullius, promove um Censo que deveria se repetir a cada cinco anos, através do qual se dedicou a apurar a riqueza de cada um, onde em seu início se dividiu em dois grupos, aqueles a quem eram permitidos formar as forças militares, no caso, os que tinham algum recurso, e aqueles que nada tinham, que por sua vez eram impedidos de pertencerem as armas. Quanto ao primeiro grupo, subdividia-se em vários outros respeitando sempre a equivalência de fortunas em cada um, sempre procurando levar a vida militar a mesma estrutura contida na vida civil. “Na paz como na guerra, na cidade como nos campos de batalha, a mesma engrenagem da hierarchia se fazia sentir, a machina social não se desfazia para dar logar a outro mechanismo — o organismo militar (...)”24.Não há duvidas que tal disciplina contribuiu enormemente para o sucesso militar. Prossegue CHRISÓLITO, em sua obra, afirmando como conseqüência do último trecho transcrito, que tal por si só explicava a disciplina dos soldados romanos, bem como sua calma durante a luta. 25

Sobre tais argumentos ouso aqui divergir, conforme comentário ao fim da página anterior e informações trazidas nos parágrafos seguintes. Só a disciplina e estrato social não foram suficientes para manter o sucesso das legiões, como de resto a história até aqui demonstrou serem insuficientes.


Os Romanos se mostraram mais práticos e organizados do que inovadores. Se pautaram em várias experiências até atingirem a formação táctica que consideraram ideal. Influenciados pelo espírito homérico, incentivaram seus exércitos a lutarem de forma heróica e próxima ao inimigo. Para tal, se preocuparam com o condicionamento psicológico, procurando ao extremo treinarem as tropas, realizarem o planejamento das batalhas e o repouso e apoio logístico necessário.
Roma iniciou o seu desenvolvimento militar praticamente igual aos outros exércitos estrangeiros, com uma cavalaria aristocrática. Com o contato da cultura helênica, esta foi pouco a pouco sendo abandonada, em substituição a falange. Por volta de 400 A.C.26 principiou-se ao que se pode chamar de um exército profissional.27 Nesta oportunidade, iniciou-se o pagamento regular dos soldados. Gerou como conseqüência, uma abertura do sistema político a uma maior participação plebéia, participação esta que se traduziu em maior número de homens ao serviço militar. Ao tempo de Mário, o recrutamento foi aberto a voluntários sem terra. Soube se aproveitar em diversas ocasiões de aliados, concedendo parte da cidadania aqueles que conquistavam, o que contribuía para mais cidadãos romanos em suas legiões. “Pensando-se romanos, lutavam como Romanos”.28 Com Augusto o “recrutamento era cuidadoso e em regra altamente selectivo, requerendo um certificado de plena cidadania romana e um exame médico” (...) “A paga era boa, o tratamento médico e os padrões de alojamento e higiene de um nível que não foi excedido até o século XIX”. 29
O treinamento envolvia não só o exercício de formação e avanço, como também a prática com a espada. “Aos recrutas eram dadas tábuas e escudos de madeira (com o dobro do peso das armas verdadeiras) que empregavam zurzindo postes de madeira em prolongadas sessões de treino duas vezes ao dia. Gradualmente foram sendo introduzidas técnicas mais avançadas: atacar pontos vitais do corpo, capacidade de desferir um golpe sem abrir a guarda (...)”. 30
Natural que assim surgissem as figuras dos gladiadores, cuja intenção inicial eram de situações pedagógicas, mostrando “aos homens a morte, endurecendo-os para a vista dela. Com efeito, para além do treino, o outro elemento essencial do estilo romano de combater era o sangue-frio absoluto”. 31 Talvez por influência helênica, desprezaram a utilização dos arqueiros. O embate individual sempre foi o preferível.

Com a profissionalização militar, a cavalaria deixa de ser aristocrática, sendo em grande parte absorvida por uma infantaria abastada. A própria disposição cultural romana que em muito influenciou o embate pessoal, incentivou a redução de importância por parte da cavalaria, pois era preferível o combate apeado, individual. Por ironia, ao final do seu império, sofreu justamente com o ataque de arqueiros montados, promovidos por Partos.



A Idade Média


Cavalaria

Com a Idade Média um período de fragmentações dos exércitos, de indisciplinas, de procura homérica por parte da aristocracia, de confusa influência da religião na arte militar. Hostes em sua maioria de homens mercenários e sem identidade com os seus, deserções. Ao contrário da “pax romana”, que apesar de tudo duradoura, lutas, lutas, batalhas e mais guerras.

Inicia-se assim aquela fase, sob a influência da nobreza pártica e sua cavalaria. 32 Esta evolui para um sentido de proteção onde se cobria o cavaleiro com uma malha de aço. Tal sistema ao reduzir a mobilidade permitiu a substituição do arco pela lança. Sem dúvida, uma característica aristocrática, onde se via um homem em cima de um cavalo, o que o posicionava em destaque em relação àqueles que caminhavam. Seu condutor não caminhava, mas sim cavalgava, e o fazia ostentando enorme lança e um manto de ferro. Com o aparecimento do estribo, por volta de 740 d.C., fez-se completo a segurança do armeiro sobre o cavalo condutor. Sua importância alcançou até período posterior a decadência nobiliárquica, tendo inclusive, Conde de Lippe a ela destacado toda uma obra legal, tentando maximizar o seu efeito como instrumento de batalha, no caso, o Regulamento Para a Cavalaria.
A cavalaria como um sistema nobre encontrou campo aberto para progredir no sistema feudal. A cavalaria era um sistema caro, portanto para poucos, como exigia treino, havia necessidade de tempo livre e apoio econômico. Saliente-se que, necessário era o sustento não só do cavaleiro, mas também, a criação do eqüino. Com a formação dos Estados Nacionais, se tornaram constantes as disposições legais referentes ao seu sustento, sendo objetos em muitas vezes de protestos pela nobreza, bem como, de concessões de mais privilégios perante os governantes (Sobre a participação da cavalaria nas forças portuguesas, bem como, de outras armas, principalmente no que concerne aos meados da idade média para o seu final, gostaria de remeter a páginas mais adiante, onde poderá ser narrada com mais vagar).

Mas, seu aspecto não se resumia apenas a um lado plástico. Sua mobilidade e velocidade frente ao pedestre eram fundamentais em um sentido de proteção e comunicação, ressaltando-se que Carlos o Calvo, em 864, d.C. (por força da presença dos Vikings), através do Edito de Pitres, ordenou a todos os francos “possuidores de cavalos ou capazes e manter um cavalo que se apresentassem ao serviço montado”.33 Tal preocupação também se fez sentida em todo o período pela Administração portuguesa.34


Uma luta assimétrica sem dúvida, entre os barqueiros Vikings e os cavaleiros feudais. Uma predominância aquática que não se configurava com a mesma força na terra e uma resistência terrestre que não era capaz de repugnar a investida marítima.

Em razão desta participação nórdica e seu choque com a cavalaria existente é que O’CONNELL chega a afirmar que tal, acelerou e solidificou o sistema feudal35, em letras que aqui merecem serem transcritas, pois, gerou como medidas: “o aumento das fortificações, primeiro nas cidades, depois, mais tarde, por toda a França rural, principalmente sob a forma de castelos com fosso e muralhas fortificadas. Único refúgio de um povo aterrorizado pela mais recente vaga de saqueadores, essas fortificações permitiam aos senhores cobrar uma parte ainda mais volumosa do produto agrícola em constante crescimento e desse modo formalizar melhor o sistema senhorial e a dominação do campesinato que ele implicava.



Com efeito, o significado do castelo era tanto simbólico como real. Perfeita expressão arquitectônica da aristocracia militar, os castelos podiam também controlar, e controlavam, a terra contra salteadores, sendo o seu raio de acção o da cavalaria pesada que albergavam: cerca de quinze quilômetros, para quem quisesse chegar a casa ao anoitecer.
A combinação entre a cavalaria pesada e castelos teve o efeito de difundir o poder e de o espalhar pelos campos, pois se carregando a cavalo se dominava o campo de batalha, não era assim que se tomavam castelos. E assim, um vassalo derrotado, em inferioridade numérica ou simplesmente recalcitrante refugiava-se muitas vezes por trás das muralhas e aguardava fora da autoridade exterior. Politicamente, assim se exprimia a derrocada do governo centralizado, a atomização do poder. A cavalaria e os castelos passaram a formar um sistema cerrado em que ambos se apoiavam e anulavam, mas normalmente imune ou pelo menos muito resistente a agrupamentos políticos mais vastos. ”’36
Como nos lembra o autor acima, a condizer com os tempos, a guerra e o combate tornaram-se uma questão de classe, retirando passagem contida na monografia A Sociedade Cavaleiresca, de WHITE, menciona: “(...) o termo miles deixou de significar soldado e passou a significar cavaleiro”.37 Mas a nobreza não trazia consigo apenas cavalos. Carregava toda uma característica de hereditariedade e sustento. Aos filhos de nobres, nobres permaneciam, e como tal, cavaleiros se tornariam. Como sustento, as guerras e suas pilhagens em muito contribuíam. A cavalaria era “status” não somente social de imagem, mas de riqueza, permitia a luta e comando na guerra, autorizava a recompensa sobre o vencido. Faziam-se fortunas pelas guerras, mas também pelos casamentos. O matrimônio há muito tem mostrado a história, é um belo elemento de mobilidade social. Se os romanos idealizaram os duelos para exposição e engrandecimento de seus gladiadores, os nobres criaram os torneios.
Os romanos retiravam dos embates referentes aos gladiadores, técnicas de batalha (principalmente eles que se vocacionaram para a luta corporal), de estímulo a coragem e exercício e incentivo desta, elementos fundamentais para o estilo dos enfrentamentos bélicos adotados por aquele povo. Os torneios de cavalaria, por sua vez, também possuíam um caráter pedagógico, onde se procurava ensinar aquilo necessário ao combatente na guerra “a disciplina, a manobra, a carga ordenada da cavalaria com lança e espada (...)”38, com a sua rotina foi admitida a presença de donzelas.
Um combate entre iguais quanto a classe social a que pertenciam e nas armas utilizadas. Não deixa de haver aí, um princípio de lealdade e respeito pelo adversário. Algo nobre sem dúvida. Se as mulheres no início das Justas pouco participavam, já no século XII, se tornaram frequentadoras contumazes. Um belo espetáculo onde se mostrava poder, e dependendo da capacidade do lutador, se angariava algumas terras a mais, vindas de um bom casamento. Tudo reunido em uma só arena. Como um cavaleiro metido dentro de um traje não se distinguia de outro, teve inicio a adornagem dos escudos com insígnias (brasões). Com isso identificavam-se os autores dos atos heróicos. Seus feitos eram noticiados e difundidos, se transformavam em figuras emblemáticas para as gerações de lutadores (neste sentido as presenças em Portugal de Gallaz Gallo, Lançarote, Lisuate, Rolim ou Tristão), o que no dizer de JOÃO GOUVEIA MONTEIRO, “estes “romances de aventura”, não só entretinham e empolgavam o público de cavaleiros (e de clérigos) que escutava a respectiva leitura, como transmitiam também ensinamentos militares muito úteis”.39
Daí expôr O’CONNELL: “E assim nasceu uma espécie de sociedade internacional de arautos, reguladores da guerra civilizada, que pairavam como necrófagos pelos campos de batalha e terrenos de torneio, tendo por missão certificar actos de bravura, conferir créditos e citar nomes que mais tarde seriam registados por um corpo de cronistas votados ao embelezamento dos meros factos.” 40
Para aquela sociedade afirmada no parágrafo anterior, a existência necessária da sociedade dos cavaleiros, sendo que esta se fez presente, e por vários e vários séculos. Uma formação social que se iniciava na puberdade, que sempre se procedia na convivência dos pares, onde se instalava uma consciência de grupo, uma permanente manutenção das tradições, códigos que se identificavam entre os iguais, um espírito de corpo, uma solidariedade típica daqueles que se assemelham, e passam anos de sua criação convivendo juntos, um sistema que se auto-alimentava, e que perdurou por muito tempo na história,41 repercutindo em muito na formação social e econômica, ao ponto de ROBERT L. O’CONNELL, buscar apoio na assertiva de F.M. STENTON, para quem na visão de um historiador militar, considerou “a aprendizagem que precedia a entrada para a cavalaria o facto mais significativo da sociedade feudal”. Não é outro o sentido, sublinhado por D. Duarte, cuja notícia nos traz JOÃO GOUVEIA MONTEIRO, ao transcrever que aquele monarca em seu tratado de gineta “empenha-se em apresentar detalhadamente as principais instruções relativas à arte de bem cavalgar, que considera como uma espécie de fundamento das sete modalidades que devem ser praticadas por todos aqueles que pretendem “aver boa soltura”: o “ensayarsse armado de guerra, assy corregido como em ella deve andar”; o “justar”; o “tornear” (segundo o conselho dos bons mestres); o “andar do monte e caça”; o “reger lanças” e “remessállas”; o jogar as “canas”; e, finalmente, o “ferir despada” (ou seja, a esgrima)”.42 Itálicos do autor.
A perseguição por “status” providenciada pela cavalaria em Portugal foi tamanha que mesmo quando seu poder já se fez diminuir frente ao avanço da infantaria e da artilharia no ambiente militar, a metrópole protestou por disposição legal,43 demonstrando ainda uma força “aristocrática-feudal” que perdurou em Portugal em detrimento da burguesia e das novas exigências que a comunidade beligerante requisitava.44

Mas um outro poder se impunha que não só aquele da nobreza. A Igreja Católica se fazia viva e influente. Com uma força política enorme, resolveu contribuir com grande participação junto aqueles guerreiros que se expunham com tamanha desenvoltura.



Participação da Igreja
A nobreza não produzia só cavaleiros, mas também clérigos. Os clérigos não se destinavam apenas a atos sacerdotais, mas também guerreavam. Os Estados eram diversos e fragmentários. Porém se nobres eram pastores de Deus e os Pastores de Deus eram nobres, a guerra extrapolava a classe para atingir a plebe. Se duelavam entre iguais em suas Justas, não tinham os guerreiros de então a preocupação tão nobre de matarem e mutilarem apenas os nobres. A selvageria atingia de forma galopante, poderia se assim dizer, um número indeterminado de pessoas. Se a religião então não tinha o caráter metafísico da superstição que influenciou os gregos e romanos, detinha força intelectual, política e sempre, a ameaça do desconhecido, ou seja, a punição “post mortem”. A carnificina extrema deveria ser estancada.
Resolve então a Igreja interferir nesse contexto bélico. Aos poucos vai sendo vedado aos membros da igreja a participação na cavalaria, nesse propósito as explicações de MARTÍN PEREZ, transcritas por JOSÉ ANTUNES, referente a guerra justa, quando considera entre outros requisitos que seja essa tomada por: “Pessoa conveniente, isto é secular. Aos Clérigos não é permitido tomar armas contra quem quer que seja.”45 O mesmo autor menciona posicionamento eclesiástico referente a cavalaria quando cita: “Sobre os simples cavaleiros escreve João de Deus que estes pecam sobretudo pelas pilhagens que praticam e não se contentando com os respectivos honorários, esquecem o conselho de João Baptista (...) Não pratiqueis a violência nem a defraudeis a ninguém, e contentai-vos com o vosso soldo. (...). Pecam de igual modo os cavaleiros sempre que atacam a própria terra pátria e não prestam fidelidade ao seu senhor, o que vai contra os sagrados cânones.”. 46 Grifos do autor. Tem início assim, lá para o final dos anos 900 d.c. um movimento que ficou conhecido como “Paz de Deus”. Começando como argumento protetor dos servidores e santuários do catolicismo, apoiava-se na ameaça da excomunhão. Posteriormente, passou a incluir sob o signo da proteção os denominados “desarmados” que na época significavam, mulheres, crianças, idosos, enfermos e pobres. Tentou-se com isso, limitar os combates aos “armados”. Sem dúvida um avanço na ética do combate, pois se ao pobre não era dado o direito de lutar sobre um cavalo, porque deveria ele ser abatido por um cavaleiro? Próximo ao término do século X, começa então a incentivar aos cavaleiros que se abstenham das batalhas. Assim como o sexo era proibido em certas datas (quase todas, aliás), procuro-se limitar as contendas a períodos específicos. No caso das guerras, desde a noite de Quarta-feira até as Segundas-feiras pela manhã. Bem, se o ser humano é capaz de viver sem sexo por algum tempo, na hipótese de guerras é mais complicado.
Tal situação se dilata quando, conforme se observou linhas atrás, o componente beligerante na época fazia parte da própria formação do adolescente. O poder político dirigente (em termos governamentais) era precário. As lutas eram formadoras de riquezas. E o combate é sempre um instrumento de poder exercido sobre o outro. Uma sociedade totalmente voltada para a guerra. Quase impossível uma contenção. Com tanta agressividade formada, necessária que fosse canalizada para algum lugar. “A combatividade da classe guerreira iria ser orientada para fora, contra os odiados mulçumanos e votada à missão sagrada de recuperar a Terra Santa. Só que essas forças, uma vez soltas, revelaram-se difíceis de controlar.”47
Se por sua vez, os Romanos eram o exemplo de disciplina e ordem tática em seus combates, os primeiros contigentes de Cruzados podem ser assimilados a uma manada vagabunda de machos ungulados, cujos membros lutam constantemente pelo controlo, separando-se de vez em quando para partirem em diferentes direcções, mas todos movidos por uma força mais poderosa, ao mesmo tempo compulsiva e evanescente 48
A necessidade de homens e recursos financeiros faz com que a Igreja criasse ou incentivasse a formação de diversas ordens militares: Templários, Hospitalários, Ordem Teutônica, etc.. Afinal, a manutenção da conquista representa um custo bem maior que o da simples invasão. Em Portugal, sua presença também se fez relevante, destacando-se as Ordens do Templo,49 do Hospital, de Avis, de Cristo e de Santiago, ao ponto de se admitir que ao final da Idade Média, essas Ordens Militares, somadas aos demais integrantes da nobreza, deveriam compor um efetivo próximo a 4.000 homens.50
Se os cavaleiros quando em combate contra outros cristãos eram hostilizados pela Igreja, em contraste, quando em peleja com os mouros, foram apoiados.51 Sua aceitação social por esse aspecto cresce “e os cavaleiros em breve se tornariam ricos e ferozmente independentes” 52
Mas não só a cavalaria pretendeu um lugar de destaque nesse novo teatro. A infantaria reduzida a um espaço social insignificante, mas existente no ambiente medieval, se apresenta no cenário com um produto desconhecido dos muçulmanos, a besta.53. Tinha duas vantagens: além de atingir um homem até cem metros de distância, para efeito de pontaria, requisitava do besteiro pouco treino, o que permitia a uma classe menos nobre de mostrar sua utilidade no campo de batalha. Só que os infantes foram além. Começaram a utilizar em suas armas a seta de cabeça quadrada, que com o arremesso da besta era capaz de perfurar a armadura de um cavaleiro. Ora, ora, tal fato não era nada bom. Os cavaleiros poderiam ser abatidos por cristãos não cavaleiros. O Concílio Ecumênico de Latrão em 1139 procura reverter tal perspectiva, proibindo o uso da besta contra os cristãos. Apenas contra os cristãos. Em que pese a disposição religiosa, o poder conferido as armas se sobrepôs. A história traz inúmeros exemplos que demonstram que tal veto não foi seguido, 54 sendo comum os governantes incentivarem e organizarem os seus besteiros, ao ponto de graças a obra de JOÃO G. MONTEIRO, A Guerra em Portugal, tem-se hoje a notícia de que Portugal contou não só com os besteiros do conto como também com os besteiros de cavalos, tendo tido ambos uma série de direitos 55 sendo que tais foram em várias passagens utilizados em lutas contra o reino de Castella.
A esses exércitos se adicionavam as figuras dos mercenários e dos homiziados. Se na Europa o aparecimento dessas figuras surge há muito e conforme as necessidades locais, em Portugal, tem-se como indício do surgimento dos mercenários em hostes guerreira, na primeira metade do século XIV, e dos homiziados, já em época de D. Afonso V.56 Com a entrada em cena do Campesinato, a decadência da nobreza, o Estado Absolutista e as descobertas de novos domínios, como adiante se verá, a situação militar, assumiria uma bela complexidade quanto a sua estrutura e formação.
Mas, conforme alertado por O’CONNOL, a utilização dessas armas consideradas abaixo das honoríficas, adicionadas a nova moralidade assumida pela guerra teriam que trazer repercussões “(...) o feudalismo e a supremacia cavaleiresca iriam durar até ao século XIV, mas nunca mais seriam a mesma coisa depois da experiência da Terra Santa.”57 Além disso, pode-se acrescentar, as forças militares passaram cada vez mais a agirem por conta de seus interesses e necessidades, prescrevendo a religião neste aspecto um fator mais coadjuvante, um pretexto, um estímulo para lutas, mas não um comando na engrenagem político-militar que se daria a seguir. A Marinha foi a primeira a se mover de maneira tão independente.


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