Psicolinguística e letramento



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Psicolinguística e letramento

Elena Godoy

Luiz Antonio Gomes Senna


1ª edição, 2011.

Foi feito o depósito legal.

Informamos que é de inteira responsabilidade dos autores a emissão de conceitos.

Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Editora Ibpex.

A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei nº 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Código Penal.


Apresentação

Este livro é dirigido aos estudantes das áreas relacionadas com a linguagem humana e seu desenvolvimento, aos profissionais dessas áreas e àqueles que, por alguma razão, se interessam pelos assuntos aqui tratados. Em todos os capítulos, os autores procuraram apresentar revisões atualizadas da bibliografia especializada com uma intenção claramente didática.

A primeira parte do livro – intitulada Psicolinguística – oferece ao leitor um panorama dessa ciência que integra várias disciplinas que estudam os mecanismos e processos da atividade verbal humana. As diferentes abordagens de análise e descrição se complementam e revelam as diferentes facetas desse complexo fenômeno. Assim, alguns capítulos tratam de assuntos específicos que podem parecer mais periféricos para uma introdução à psicolinguística, mas que são considerados de muita validade nas pesquisas “de ponta”. Adotamos como ponto de referência as propriedades essenciais das línguas naturais para apresentar as contribuições de diferentes áreas e modelos da psicolinguística.

No capítulo 1 definimos o objeto desta ciência eclética que é a psicolinguística e descrevemos os principais métodos usados por essa disciplina. As bases biológicas específicas das quais a espécie humana dispõe para a linguagem e a atividade verbal são examinadas resumidamente no capítulo 2. Já o capítulo 3 é dedicado aos processos envolvidos na aquisição da linguagem falada pelas crianças e aos principais modelos teóricos elaborados para explicar esse fenômeno. No capítulo 4 são analisados os complexos processos de compreensão e produção da linguagem nas suas modalidades oral e escrita. O fenômeno de bilinguismo e as controvérsias com ele relacionadas são tratados no capítulo 5. Por último, o capítulo 6 descreve alguns transtornos da linguagem e introduz a análise relativa à conexão entre a psicolinguística e a neuropsicologia da linguagem.



A segunda parte do livro – intitulada Psicolinguística aplicada ao letramento – define as questões relacionadas ao estudo do processo de construção e uso de línguas escritas, apresentando, assim, um ramo do conhecimento que tende a especializar-se na área da psicolinguística. Tal campo é discutido no capítulo 7, que se desenvolve em torno da discussão acerca da necessidade de um programa de psicolinguística especificamente orientado para o estudo da construção mental da língua escrita, centralmente motivado pelos aspectos que a diferenciam do processo de aquisição da fala. Em consequência de tais discussões, o capítulo 8 avança na questão relacionada ao conceito de desenvolvimento associado à figura do sujeito que constrói a escrita, abordando, então, as relações teóricas que se estabelecem – e devem ser levadas em consideração na pesquisa em psicolinguística – entre o processo de letramento e o desenvolvimento humano em suas diversas singularidades.

Cabe fazer ainda uma observação importante para o leitor. Este livro é fundamentalmente teórico e baseia-se em numerosos textos de um grande número de autores. Para agilizar a leitura, as referências desses textos não aparecem citadas à maneira tradicional, como se faz academicamente, mas, sim, reunidas em seção à parte, na bibliografia final. Acrescentemos que, em um campo de pesquisas tão disperso como este, qualquer lista de referências bibliográficas pecaria por ser incompleta.

Psicolinguística

Elena Godoy




  1. Psicolinguística: definição e
    metodologia


Durante toda a história da humanidade, a mente e a linguagem humanas sempre intrigaram os pensadores. Porém, especialmente nos últimos cinquenta anos, as ciências humanas experimentaram uma verdadeira revolução científica, e esses dois objetos – mente e linguagem – foram o foco especial das pesquisas.

Não sabemos muito sobre a trajetória da evolução biológica da espécie humana que levou à emergência da linguagem. Mas as consequências desse desenvolvimento são muito profundas: a linguagem desempenha o papel central na nossa evolução cultural e tecnológica, ela é intrinsecamente um fenômeno biológico e social ao mesmo tempo. É a linguagem que temos que nos faz seres humanos. Isso não significa que os animais, como lobos e ratazanas, não tenham uma linguagem e uma comunicação sofisticadas. No entanto, como disse uma vez o grande filósofo Bertrand Russell, um cachorro pode latir com muita emoção e eloquência, mas ele nunca poderá nos contar que seus pais eram pobres, mas honestos...

Sobre a importância da linguagem, podemos acrescentar também que ela permeia a nossa vida. Usamos a linguagem para negociar, brigar, namorar, provocar, aconselhar e, ainda, para nos divertirmos ao assistir a uma comédia e para procurar notícias na internet. Usamos a linguagem na igreja, no estádio, no salão de beleza, em casa, na sala de aula; com pessoas bem conhecidas e com outras que não conhecemos tanto, com recém-nascidos e com idosos. Não há muitas coisas que fazemos com tanta frequência e com tanta facilidade como falar e ouvir outras pessoas falarem. Também usamos a linguagem mesmo quando não nos comunicamos estritamente com alguém. Por exemplo, podemos lembrar ou simular mentalmente uma conversa, falar com nós mesmos, ler ou escrever um romance ou estudar um assunto de psicologia − em nenhum desses casos existe uma situação comunicativa com outras pessoas. A linguagem humana permite uma ampliação do conhecimento e uma aprendizagem muito além da experiência direta de cada indivíduo. A existência da linguagem evita que realizemos penosos processos de tentativa e erro que poderiam ser até perigosos. A atividade verbal é natural, corriqueira, comum na nossa vida e não temos consciência explícita de sua execução. O nosso conhecimento da linguagem é tácito.

A psicolinguística procura identificar e analisar os processos subjacentes tanto à compreensão como à produção da linguagem. Como disciplina que lida com a linguagem, tem conexões com a linguística, a neuropsicologia e as ciências cognitivas, mantendo, entretanto, uma perspectiva própria, caracterizada pela análise cognitiva desses processos e pela utilização de uma metodologia essencialmente experimental. Neste capítulo, trataremos do percurso histórico dessa ciência, do objeto de suas pesquisas e dos métodos que a psicolingística utiliza para alcançar seus objetivos.



O que é psicolinguística

A psicolinguística é uma ciência encarregada de estudar como as pessoas compreendem, produzem, adquirem e perdem a linguagem. O nascimento da ciência psicolinguística nos anos 50 do século XX está intimamente ligado a uma tendência geral de aparecimento de novas ciências a partir de fusões entre algumas já existentes. Com efeito, a psicolinguística surge com a necessidade de se oferecerem bases e explicações teóricas a várias tarefas práticas, para as quais as abordagens puramente linguísticas se mostraram insuficientes por focarem a estrutura das línguas e a análise textual excluindo de sua investigação o sujeito falante. Essas tarefas práticas incluem o ensino da língua materna e das línguas estrangeiras, os problemas específicos da fonoaudiologia, a recuperação da fala após traumas e acidentes cérebro-vasculares, a psicologia legal e a criminologia, a tradução automática e a criação da inteligência artificial.

É importante ressaltar que a psicolinguística não é a simples soma da psicologia com a linguística; trata-se de uma ciência que ultrapassa as fronteiras das duas “ciências-mães” e busca novas abordagens e metodologias científicas.

Na história da psicolinguística, podem ser observados quatro principais períodos:

1) Período de formação: com fortes influências da psico­logia behaviorista (comportamental) da linguagem e da linguística estruturalista.

2) Período linguístico: com o predomínio da influência da gramática gerativa de Noam Chomsky1, quando as regras de geração de sentenças dessa gramática, com status de modelo descritivo da linguagem, eram entendidas também como um modelo funcional que pode ser verificado pela experimentação psicológica.

3) Período cognitivo: caracterizado pelas críticas das abordagens anteriores, pela forte atenção à semântica e pelo estudo de falantes reais em contextos reais, sem a formulação de teorias altamente formalizadas.

4) Período atual: com o desenvolvimento da psicolinguística como ciência interdisciplinar que envolve várias tendências teóricas e a coloca em um amplo âmbito de pesquisas sobre a natureza do conhecimento, a estrutura das representações mentais e o modo como esses conhecimentos e representações são empregados nas atividades mentais, tais como argumentações e tomadas de decisões.

Atualmente podemos considerar que várias disciplinas convergem sobre o mesmo objeto de estudo e mantêm uma estreita relação com a psicolinguística. A linguística, que é a ciência da linguagem, divide-se em várias áreas que tratam dos aspectos mais específicos da linguagem: fonética, sintaxe, semântica, pragmática, análise do discurso etc. Em termos muito gerais, o objeto da linguística é a análise dos elementos formais que constituem a linguagem humana e as línguas naturais concretas, bem como das regras e princípios que regem as relações entre esses elementos. Por sua vez, a psicolinguística está interessada no estudo dos processos cogni­tivos que possibilitam a compreensão e a produção da linguagem. Assim, dispor de um bom conhecimento descritivo sobre a estrutura e as regras de funcionamento de uma língua pode proporcionar um ponto de partida muito útil e até mesmo sugerir hipóteses sobre as estratégias que os falantes usam nos correspondentes níveis de processamento. Mas os conhecimentos linguísticos geralmente não são suficientes para explicar como a linguagem é processada. A linguística não diz nada sobre as características funcionais do sistema cognitivo que executa o processamento da linguagem nem sobre os mecanismos e as estratégias usados nesses processos. Uma importante particularidade do processamento da linguagem é que podemos ser conscientes do significado da mensagem verbal que entendemos ou produzimos, mas não temos consciência dos mecanismos de reconhecimento de palavras, de acesso lexical, de processamento morfossintático etc.

É importante notar que, embora determinados psicolinguistas e equipes de pesquisa dedicados à psicolinguística se ocupem de problemas específicos − como as particularidades de aquisição da língua materna na primeira infância ou as especificidades de aquisição de segunda (terceira etc.) língua por diferentes grupos etários em condições diversas (naturais ou de educação formal) −, a psicolinguística como ciência estuda um amplo leque de problemas relacionados com os mecanismos humanos de aquisição e uso da linguagem, com as estratégias e os elementos fundamentais universais,ou seja, próprios da espécie humana como tal, e com as particularidades específicas do uso da linguagem em diferentes condições em razão da ação de fatores internos e externos.

Na prática, os problemas que preocupam a psicolinguística na atualidade incluem as diferenças de percepção e compreensão entre a fala oral e a escrita, o papel do contexto no processamento da fala, os processos de obtenção dos vários tipos de conhecimento, os níveis de representação do discurso na memória, a construção dos modelos mentais do conteúdo textual, o processamento do discurso, a aquisição da linguagem e das línguas particulares por crianças e adultos, a aquisição da leitura, a produção da fala nos mais diferentes níveis de sua geração e os problemas neuropsicológicos da linguagem. Várias publicações destacam a necessidade de incluir no repertório dos problemas próprios da psicolinguística os estudos sobre a comunicação intercultural, a especificidade étnico-cultural do conhecimento linguístico, entre outros. Essa diversidade de assuntos exige que se façam interseções e, às vezes, superposições dos problemas que tradicionalmente pertencem à psicologia cognitiva, à linguística, ao campo da inteligência artificial e à pragmática.

Assim, a psicolinguística está se tornando mais eclética. O estudo do processamento de sentenças como unidades da linguagem continua gozando de uma imensa popularidade entre os psicolinguistas. Entretanto, nas últimas décadas, o foco foi transferido para os estudos do discurso que permitem interligar as pesquisas da linguagem que acontece em situações reais com os estudos sobre o processamento sintático e lexical. E ainda um outro aspecto da linguagem, a pragmática, ou seja, o conhecimento das regras sociais que subjazem à linguagem e fazem com que a fala mude com a situação e com as habilidades linguísticas dos interlocutores, está despertando o interesse de linguistas e psicolinguistas.

Em resumo, podemos afirmar que a psicolinguística caminha para o objetivo de descrever e explicar o funcionamento da linguagem como fenômeno psíquico, levando em consideração a complexa interação de múltiplos fatores internos e externos e incluindo em sua perspectiva de investigação o indivíduo nas interações socioculturais.

Metodologia da psicolinguística

À diferença de outras disciplinas que estudam a linguagem, a psicolinguística é uma ciência experimental. Isso significa que ela exige que as hipóteses e as conclusões geradas no âmbito de suas investigações sejam contrastadas sistematicamente com os dados de observações, experimentos e/ou simulações cuidadosamente controlados.

O método observacional consiste na observação do comportamento linguístico em diferentes atividades verbais de compreensão e produção da fala em situações comunicativas contextualizadas. São feitas gravações ocultas das conversas (o corpus) sem que os participantes tenham sido avisados do fato. Por questões éticas, os nomes destes não são divulgados.

As neurociências em geral e a neuropsicologia especificamente se apoiam nos importantes avanços tecnológicos, tais como as técnicas de neuroimagem, que permitem estudar a atividade cerebral implícita na linguagem. Contudo, os métodos da neuropsicologia focalizam a atividade cerebral apenas parcialmente: os parâmetros cerebrais constituem geralmente as variáveis dependentes (por exemplo, quais são as regiões do cérebro que são ativadas e quando elas são ativadas), sendo as variáveis independentes as tarefas tipicamente cognitivas: decisão lexical, compreensão de sentenças, rotação de imagens mentais etc.

Quando se usa o método experimental, deve existir previamente alguma hipótese ou algum modelo sobre o fenômeno linguístico de interesse e é deduzido o tipo de consequências empíricas que a hipótese/modelo prediz. Com base nessas previsões e deduções, são realizados os experimentos que provam ou negam a realidade empírica ou a validade explicativa da hipótese/modelo. O método experimental parte da suposição de que as meras observação e descrição dos fenômenos do comportamento linguístico são insuficientes. Os experimentos se definem então como situações artificiais de observação, nas quais são controladas as diferentes variáveis importantes para o experimento. Nos estudos da produção da linguagem, é mais difícil realizar experimentos devido ao fato de que o início do processo sempre pertence ao sujeito e não ao experimentador. Por isso, não há como manipular as ideias, as intenções e os conhecimentos a partir dos quais o sujeito produz a fala ou a escrita.

O terceiro método de pesquisa do comportamento verbal é a simulação cognitiva. Tal como a psicologia cognitiva, a psicolinguística se baseia na suposição de que as funções da linguagem possam ser descritas como se fossem programas de computador, ou seja, em termos de representações simbólicas e regras computacionais aplicadas a esses símbolos. Essa proximidade com as ciências da computação permite aos psicolinguistas desenvolver simulações de compreensão e produção da linguagem. No entanto, à diferença dos programas de inteligência artificial, nas simulações psicolinguísticas interessa não apenas que o computador seja capaz de executar uma tarefa com eficácia, mas também que essa tarefa seja executada da mesma maneira como fazem os seres humanos. Assim, o programador precisa ter à disposição um modelo da atuação humana para elaborar o programa. Se este reproduz a execução da tarefa feita por humanos (seus padrões de resposta, tipos de erros etc.), o modelo pode ser considerado validado. Caso contrário, o modelo e, consequentemente, o programa são modificados até que os dados coincidam.

Outra característica importante da pesquisa psicolinguística é que ela enfoca três grupos de sujeitos para compreender os processos linguísticos que participam do comportamento verbal:

1. os adultos competentes em uma ou mais línguas;

2. as crianças que estão adquirindo a linguagem;

3. as crianças e os adultos que têm alguns transtornos em seu comportamento verbal.

Além disso, a abordagem psicolinguística dos fenômenos da linguagem supõe que estes sejam tratados com base na concepção da especificidade do conhecimento individual formado de acordo com as capacidades psicofisiológicas do indivíduo, controladas pelo sistema de normas e valores praticado pela comunidade na qual esse indivíduo está inserido.

Atividades

1. Na sua opinião, que outras ciências, além da psicologia e da linguística, podem ser envolvidas na busca de novas abordagens para dar conta dos fenômenos estudados pela psicolinguística?

2. Que atividades humanas podem ser beneficiadas pelo conhecimento da psicolinguística?

3. Alguns famosos cientistas contam que suas descobertas mais importantes aconteceram primeiro na sua imaginação e só depois foram descritas em palavras. O que esse fenômeno pode sugerir sobre a relação entre a linguagem e o pensamento?

4. Se você encontrasse uma pessoa que fala uma língua que ninguém à sua volta consegue entender, como você faria para se comunicar com essa pessoa? O que essa situação sugere sobre a relação entre a linguagem e a comunicação?


  1. Fundamentos biológicos da
    linguagem


As pesquisas biológicas que focalizam a linguagem procuram responder à antiga pergunta que fazem os humanos sobre o porquê de o ser humano ser o único que pode aprender a falar alguma língua humana. Entretanto, precisamos lembrar que, embora os estudos sobre a anatomia e a fisiologia sejam muito importantes e até fascinantes, as descrições anatômicas e fisiológicas por si sós não proporcionam uma sólida explicação da capacidade do ser humano para a linguagem. Nas páginas seguintes, apresentaremos o suporte biológico que os seres humanos possuem para a comunicação verbal e o processamento da linguagem.

Uma breve excursão à anatomia e à fisiologia humanas para a linguagem

A linguagem é uma faculdade psicológica que se sustenta em um suporte biológico. A atividade verbal se realiza por meio do funcionamento de uma série de sistemas neurofisiológicos altamente especializados. O mais importante de todos é o sistema nervoso central, formado pelo cérebro, pelo tronco do encéfalo e pela medula espinhal. Esse sistema, junto com o sistema nervoso periférico (um conjunto de nervos que, usando a metáfora de cabos de comunicação, conecta o sistema nervoso central com o resto do corpo), participa da recepção e da produção da fala. Dessas atividades verbais participam outros sistemas, que recebem o nome de órgãos periféricos de produção e recepção. Os sistemas participantes da produção são o fonoarticulatório, que usamos para falar, e o manudigital, que nos permite escrever. Para a recepção da fala, usamos os ouvidos e os olhos.

Como este livro não se destina a alunos e profissionais das ciências médicas, discutiremos apenas alguns pontos mais importantes das propriedades biológicas específicas da espécie humana.

Entre seus órgãos periféricos de produção de fala, o ser humano possui um chamado aparato fonador que não compartilha com nenhum outro animal de espécies próximas, embora todos os ossos, músculos e tecidos brandos encontrem paralelos com os dos primatas superiores. As especificidades da evolução da arquitetura do crânio e da mandíbula humanos modificaram a anatomia facial, principalmente das bochechas e de sua relação com o tamanho da boca. Além disso, as bochechas não permitem em momento algum descobrir todos os nossos dentes, como é absolutamente normal em cachorros e outros mamíferos, incluindo primatas. Assim, graças ao músculo das bochechas chamado bucinador e aos músculos labiais, podemos articular sons oclusivos, como [p] e [b]. Como os nossos dentes caninos têm praticamente o mesmo tamanho dos outros dentes, podemos articular sons fricativos como [f] e [v]. A nossa epiglote é muito mais baixa que em outros primatas e não toca no palato mole, fazendo com que o ar que expiramos não precise sair obrigatoriamente pelo nariz e, assim, os sons vogais não são obrigatoriamente nasais. Essas são apenas algumas características da nossa anatomia facial que permitem a fala articulada.

Entretanto, não devemos pensar que essas peculiaridades anatômicas humanas sejam determinantes. Por um lado, conhecemos algumas espécies de pássaros, como os papagaios, que, não possuindo nossa anatomia craniana, são capazes de pronunciar sequências bastante longas de enunciados linguísticos com notável perfeição. Por outro lado, certas defor-mações dos órgãos fonadores, como o lábio leporino, não impedem seus portadores de falarem.

Assim, mais importantes para nosso processamento da linguagem parecem ser as condições neurológicas.

Figura 2.1 – O “escritório central” da linguagem

Fonte: Adaptado de Garman, citado por Anula Rebollo, 2002, p. 20.

Como podemos ver nessa figura, o cérebro representa o elemento nuclear na produção, recepção e processamento da linguagem, sendo o principal responsável pela comunicação verbal. O cérebro humano é muito maior e mais pesado que o cérebro dos primatas e, além disso, tem as circunvoluções mais profundas. Mas isso não explica por que o ser humano fala e os macacos não. Isso só pode explicar que o ser humano seja capaz de falar melhor que eles. O cérebro humano possui uma estrutura neuroanatômica muito complexa que é dividida em duas grandes regiões: o hemisfério esquerdo e o hemisfério direito. Os hemisférios são ligados por uma estrutura conhecida como corpo caloso. No nascimento, os hemisférios não são idênticos quanto à sua estrutura, mas provavelmente são idênticos funcionalmente. Na maioria das pessoas adultas, o hemisfério esquerdo é o dominante para as funções da linguagem, embora o direito também tenha uma participação muito importante, como podemos ver no quadro a seguir.

Quadro 2.1 – A linguagem e sua relação com os hemisférios cerebrais





Função da linguagem

Hemisfério esquerdo

Hemisfério
direito


Prosódia

Ritmo

domina



Entonação

participa

participa

Timbre

participa

participa

Semântica

Significado verbal

domina



Formação de conceitos

participa

participa

Imagens visuais



domina

Sintaxe

Sequenciação

domina



Relações entre os elementos

domina




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