Protestantismos na América Meridional



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Protestantismos na América Meridional
Martin N. Dreher

1. Protestantes, evangélicos, na América Meridional

Ao escrever sua obra O Protestantismo Brasileiro, em 1963, Émile Léonard1 ainda conseguia usar a palavra no singular. Desde o surgimento do estudo de Jean Pierre Bastian, Breve história del protestantismo en América Latina,2 tem-se tornado mais comum usar o plural e falar em “protestantismos”. Aqui houve, aparentemente, uma alteração de conceitos.

Em minha infância, ao ser perguntado a que denominação pertencia, sempre respondia ser “evangélico”. Na minha redondeza, todo o evangélico era “luterano”. Hoje, pode-se falar em “partido evangélico” ou em “bloco parlamentar evangélico no Congresso”. O que é um evangélico? Creio ser necessário clarear conceitos. Busco mostrar o que seria “protestante” e o que seria “evangélico”.

1.1. Protestante

As origens do conceito “protestantismo” estão ligadas à Dieta de Espira (Speyer), de 1529. A primeira Dieta de Espira, realizada em 1526, delegara a questão religiosa, decorrente do movimento reformatório deflagrado pelo monge agostiniano-eremita Martim Lutero (1483-1546), aos estamentos, em responsabilidade “diante de Deus e do Imperador”, até que fosse possível a realização de um Concílio. Tal resolução significou a base legal para a expansão do movimento reformatório e para a criação das futuras igrejas territoriais. Como se sabe, a maior expansão da Reforma situa-se entre a Dieta de Worms, de 1521, e a Dieta de Augsburgo, de 1530. A situação alterou-se, porém, com a vitória de Carlos V sobre o rei francês, Francisco I, e seu aliado, o papa. Tal vitória fez com que o partido católico voltasse a ter grande influência na Alemanha, chegando a ter a maioria na segunda Dieta de Espira, realizada de fevereiro a abril de 1529. O arquiduque Ferdinando, representando seu irmão Carlos V, conseguiu apresentar uma proposição que eliminava a resolução de 1526. A própria Dieta reagiu a essa proposição, proibindo a introdução de inovações no tocante à missa e eliminando a resolução de 1526. Além disso, posicionou-se contra os “sacramentários”, ameaçando as cidades do Sul da Alemanha, partidárias de Ulrico Zwínglio. Em 19 de abril, cinco príncipes da “nova fé” e 14 cidades apresentavam uma solene “Apelação” e um protesto formal e oral, resumindo a “Apelação”, fato que lhes valeu o título de “protestantes”. Uma minoria protestara por questões de fé, pois em questões que dizem respeito à honra de Deus e à bem-aventurança da alma cada um deve responsabilizar-se a si mesmo diante de Deus e prestar contas, não se podendo, portanto, ninguém desculpar com ação ou decisão de uma minoria ou de uma maioria.3

Com esse protesto de leigos, tornou-se evidente pela primeira vez em âmbito jurídico a cisão confessional. Os católicos falavam em nome do Império, os dissidentes falavam em nome da consciência. A Reforma tornara-se uma questão de ordem política. Os conceitos “católico” ou “protestante” passaram a designar partidos políticos.

No entanto, por causa de formulações de Friedrich Daniel Schleiermacher (1768-1834) o conceito “protestantismo” ficou sendo designativo para uma conformação do cristianismo em termos históricos. Dizia Schleiermacher que a característica do protestantismo era que ele fazia depender a relação do indivíduo com a Igreja de sua relação com Cristo. Para o Catolicismo, valia o oposto: da relação do indivíduo com a Igreja dependia sua relação com Cristo4. A questão, porém, é simples demais, pois o protestantismo não cabe nesse esquema, mesmo que Schleiermacher tenha feito uma observação importante ao tematizar cristologia e eclesiologia como características de grupos.

Paul Tillich procurou falar de um “princípio” e de uma “concretização” do protestantismo, levando em conta a sua pluralidade e a sua diversidade5. Verificou que o protestantismo apresenta uma realidade religiosa, social, política e cultural muito diversificada e que diversificadas são também suas formas. Com isso, protestantismo é também uma forma cultural. Em termos da história das confissões, jamais se vai poder determinar em definitivo o que seja protestantismo. Ele também aparece ali onde, como p. ex. no Anglicanismo, se manifesta em uma denominação que em si não é protestante. Existe uma unidade protestante, apesar de uma infinidade de denominações e divisões de ordem teológica; penso, p. ex., nas discussões que vêm desde o Colóquio Religioso de Marburgo, de 1529. Existe uma unidade protestante, apesar de divisões de ordem religiosa; penso, p. ex., nas manifestações batista-espiritualistas, metodistas de reavivamento, separatistas, etc. Existe uma unidade protestante, apesar das divisões confessionalistas; penso aqui em vétero-luteranos e outros. Existe uma unidade protestante apesar das divisões políticas e sociais; penso aqui nas conseqüências da revolução religiosa inglesa do século XVII. A unidade protestante está em um movimento que constantemente quer se orientar no Evangelho, mas no qual a violenta discussão teológica pela descoberta da verdade leva à divisão da união. Essa mesma discussão teológica pela descoberta da verdade levou o protestantismo como um todo a se distanciar do catolicismo romano.

1.2. Evangélico

Quando o conceito é usado na América Latina, deve-se ter o cuidado de verificar que há duas vertentes para ele. Uma tem sua origem na reforma alemã, outra tem sua vertente na Inglaterra.



1.2.1. A vertente alemã

Aqui, “evangélico” é um conceito normativo. Quer caracterizar a doutrina concorde com o Evangelho. Esse é o ponto de partida de Lutero para usar o conceito. Como houve controvérsia em relação à doutrina, surgiu a pretensão de que evangélico é aquilo que é cristão. Foi dessa maneira que Lutero entendeu o conceito e recusou-se a entendê-lo como designação de um partido, o que aconteceu com os dissenters ingleses do século XVII, que eram “evangélicos” para se diferenciarem da Igreja da Inglaterra. Foi por isso que Lutero também rejeitou a designação “luterano”, surgida no século XVI, e que até o século XVIII era sinônimo de “evangélico”. A designação “luterano” foi usada por João Eck, desde 1519, em sentido polêmico. Lembro de Eck como oponente de Lutero no Debate de Leipzig.

O conceito “evangélico” passou a ser usado especialmente no sudoeste alemão, não tendo, no entanto, um significado jurídico ou legal. Conotação jurídica só tinha o conceito “reformatório”, que pretendia expressar a renovação da Igreja a partir da Palavra de Deus. Nesse sentido, era idêntico a “evangélico”. O conceito “reformado" na era das discussões confessionais vai ficar reservado aos calvinistas. Só mais tarde o termo “evangélico” adquiriu um significado jurídico ou legal. Pode-se, no entanto, constatar que os territórios e cidades que haviam “protestado” em 1529 relutavam muito em aceitar designações coletivas para caracterizar seu grupo. Quando a Paz da Westfália (1648) reconheceu os calvinistas como aparentados dos de confissão augustana, passou-se a usar o nome “evangélico” como designação coletiva para luteranos e calvinistas. Em 1653, ambos foram unidos no Corpus Evangelicorum e com este conceito deu-se a luteranos e calvinistas o status de religião lícita dentro do Sacro Império Romano Germânico. Desde então, o conceito tornou-se determinante no contexto da reforma alemã.

Em 1817, foi criada por decreto do rei da Prússia a chamada União Prussiana: reformados e luteranos foram unidos em uma “Igreja Cristã Evangélica”. As comunidades nela congregadas foram designadas de “evangélicas”. Na época, negou-se a possibilidade de a designação querer ser um novo partido confessional, mas se afirmou a origem na Reforma do século XVI. Para diferenciar os “evangélicos” unidos por decreto, passou-se a usar as expressões evangélico-luterano ou evangélico-reformado. Mesmo assim, o mero uso do conceito “evangélico” passou a designar com o tempo uma nova confissão ou denominação, qual seja, a Igreja Unida.6



1.2.2. Vertente inglesa

Desconhecendo o acima exposto, Antonio G. de Mendonça tem exposto em Introdução ao Protestantismo no Brasil7 e em ensaio, publicado em 1992 em Debate. Suplemento do Jornal Contexto Pastoral, sob o título Quem é Evangélico no Brasil?8, outra vertente para o conceito “evangélico”, na qual busca subsumir todas as vertentes protestantes no Brasil. O ensaio profundo merece, porém, algumas correções a partir do acima exposto.

Segundo Mendonça9, a Reforma “apresentou um tríplice e fatal deslocamento das tradições do cristianismo medieval”. Destacou a liberdade, mas expôs o cristianismo “aos riscos de contínuo divisionismo.” Três foram os pontos fundamentais da Reforma: “a autoridade da Palavra de Deus sobre toda e qualquer autoridade; o sacerdócio universal dos crentes; e a salvação pela fé em Jesus Cristo”. Segundo Mendonça, “os princípios da Reforma deslocaram, em nome da liberdade, a fonte da autoridade da Tradição da Igreja e do clero sacerdotal para o indivíduo”. Nesse aspecto, há que discutir, pois a Reforma do século XVI não se centrou ainda no indivíduo, mas na comunidade. O individualismo irrompeu de fato após a Guerra dos Trinta Anos, quando teve no Pietismo seu maior representante. Nesse sentido, por causa da evolução histórica, a tese de Mendonça se aplica aos dissenters ingleses.

Para Mendonça, das três grandes vertentes do século XVI, segundo ele a anglicana, a luterana e a calvinista, deixando de lado a anabatista, a calvinista esteve mais contaminada com o germe “das divisões futuras”. O anglicanismo teve seu episcopado histórico, enquanto o luteranismo “tem seu baluarte numa espécie de perene germanismo cultural". Ele parte obviamente da observação do luteranismo brasileiro, esquecendo outras expressões de luteranismo e deixando de verificar a eclesiologia luterana e seu conceito de ministério10.

Ao voltar-se para o estudo dos conceitos, Mendonça lembra que o conceito “protestante” a rigor só deveria ser aplicado aos luteranos, esquecendo dos sacramentários, de tradição zwingliana, enquanto o conceito “evangélico” teria sua origem “na segunda metade do século XVIII”, na Inglaterra. Quais as razões para essa afirmação? A Igreja da Inglaterra, influenciada pelo movimento metodista e por setores catolizantes, dividiu-se em duas alas: “evangélicos” e “movimento de Oxford”. A ala evangélica buscou um “cristianismo em ação através da criação de organismos interdenominacionais” com o fim da propagação do Evangelho. O movimento de Oxford preconizava a reaproximação com o catolicismo romano.

Surgiram Alianças Evangélicas, que propiciaram, segundo Mendonça, o desenvolvimento do movimento evangélico, principalmente como reação ao divisionismo e como movimento anti-católico. Países europeus e a América do Norte foram atingidos pelo movimento evangélico, que passou a adotar princípios doutrinais, que eram considerados a essência do Evangelho. Esses princípios eram assinados por pessoas e não por denominações e buscavam ser fontes de entendimento entre as denominações protestantes. Dessa fase inicial saíram duas vertentes: o movimento ecumênico e o movimento conservador/fundamentalista. Hoje, nos Estados Unidos, o conceito “evangelical” é sinônimo “de conservador e adversário de tudo quanto cheira a liberalismo, modernismo e ecumenismo”.

No Brasil, a primeira Aliança Evangélica foi formada em 1903, tendo um metodista como presidente e um batista como secretário11. O texto de sua constituição revela o espírito que serviu de base para o que, no futuro, seria a Confederação Evangélica do Brasil, que pretendia reunir os cristãos não-católicos do Brasil. A CEB nunca conseguiu isso, pois o movimento evangélico não unia denominações, mas indivíduos. De fato, no entanto, consagrou-se a designação “evangélico” para os não-católicos. Assim, através do conceito, os luteranos que por sua origem se designavam de “evangélicos” passaram, por razões de ordem conceitual, a fazer parte do mundo evangélico.

Para a compreensão da atual visão do que seja “evangélico” no América Latina é preciso que se verifique que o surgimento das Alianças Evangélicas tem como precedente o Reavivamento dos séculos XVIII e XIX. As Alianças Evangélicas reuniam os “crentes evangélicos”. Para elas, eram centrais a conversão e a santificação, a fé no julgamento do mundo e a salvação eterna. Falavam em “ordenanças” ao invés de sacramentos. Um aspecto não explicitado nos documentos, porém, é o objetivo de formar uma frente única contra o catolicismo. Assim, o “evangélico” de tradição inglesa vai ser conservador teologicamente e anticatólico em termos de estratégia.

Tendo os dois conceitos de “evangélico”, vamos ter dois, no máximo três, tipos de protestantes ou evangélicos na América Latinal, se quisermos considerar o pentecostalismo como terceiro tipo. A verdade dessa tese deverá ser esclarecida ao longo do estudo da história do protestantismo na América Latina. De início, porém, já fica clara a dificuldade de usar um designativo para os cristãos não-católicos na América Latina. Recentemente, essa descoberta tem levado a usar entre nós o anglicismo “evangelical/ais” para designar, pelo menos em parte, a multiplicidade de fenômeno protestante no Brasil. Até aqui sou grato a Antonio G. Mendonça pela discussão permitida num esclarecimento de conceitos.

2. Os protestantismos latino-americanos

2.1. Tipos

A rigor existem cinco tipos de protestantismo na América Latina, que podem ser caracterizados a partir da seqüência de sua entrada no continente meridional. Precedidos por comerciantes anglicanos, aos quais foi garantida, desde 1808, liberdade de culto no Brasil12, em virtude do Tratado de Comércio e Navegação, e por agentes de Sociedades Bíblicas13, os primeiros dissidentes religiosos a se estabelecer em maior número na América Meridional foram imigrantes luteranos que aportaram aqui em 1824. Com eles, surgiu o que se convencionou chamar de “protestantismo de imigração”.14 Este deu origem a dois tipos de igrejas luteranas. Há, porém, grupos menores de imigrantes, que deram origem a algumas comunidades étnicas valdenses, batistas e menonitas.

A partir de 1835/1859, instalou-se entre nós o que se convencionou chamar de protestantismo de missão, iniciado através da atividade missionária de diversas denominações protestantes dos Estados Unidos da América do Norte. Sua atividade concentrou-se, predominantemente, na tentativa de converter para sua denominação os fiéis que não podiam ser acompanhados pela Igreja Católica Romana. Há, porém, já desde 1838 atividade missionária entre indígenas araucanos, no sul do Chile, através do capitão inglês Allan Gardiner. Dos esforços do protestantismo de missão resultaram inúmeras denominações: congregacionais, presbiterianos, metodistas, batistas, adventistas.

Desde 1910, iniciando por São Paulo e Belém, no Brasil, por Valparaíso e Santiago, no Chile, instala-se o pentecostalismo na América Meridional. Representado pelas denominações maiores, a Igreja Evangélica Assembléia de Deus e a Congregação Cristã do Brasil, a Igreja Metodista Pentecostal, no Chile, o pentecostalismo possui também grupos menores, mas expressivos. A importância do pentecostalismo no panorama latino-americano pode ser imaginado, quando se observa um estudo recente que informa que nos anos de 1990 a 1992 surgiu uma nova igreja pentecostal a cada dia útil da semana no Rio de Janeiro. “É este, talvez, o mais importante movimento promotor de mudanças de mentalidade na sociedade brasileira contemporânea, sobretudo em suas camadas urbanas mais pobres.”15

“Pare de sofrer, existe uma solução!” A frase resume o principal objetivo do quarto grupo protestante a ser caracterizado, o neo-pentecostalismo, iniciado na década de 1970. Seu interesse principal está na cura divina, no exorcismo e na prosperidade. Sua mensagem é oferecida segundo os princípios do mercado: informação generosa ao público sobre o produto, demonstração de sua eficácia (cura, prosperidade) e transação econômica (pagamento) pelo produto recebido. Destaque merece a Igreja Universal do reino de Deus. Presente em 32 países, esta igreja tinha, em 1997, 2000 templos no Brasil, com 3 milhões de fiéis, 5 templos no Chile, 4 no Uruguai, 9 no Paraguai, 3 na Bolívia, 22 na Argentina16

Finalmente, não podemos esquecer que existe uma transconfessionalidade protestante. Ela é mais difícil de ser apresentada no que tange à sua história, mas se apresenta em duas facetas principais muito distintas. Começa a implantar-se a partir dos anos sessenta, surgindo, de um lado, como movimento dissidente do que se convencionou chamar de “protestantismo histórico”, o qual não conseguia mais acompanhar um conceito de missão oriundo da ideologia colonialista. Considerando tal postura das denominações tradicionais como uma traição ao Evangelho, começaram a surgir grupos interdenominacionais que se dedicaram, por exemplo, ao trabalho entre indígenas (“Novas Tribos do Brasil”) ou ao trabalho de reevangelização no seio das denominações tradicionais. Muitas vezes, há também uma forte influência carismática. De outro lado, a transconfessionalidade, no mesmo período, pode ser constatada em setores do protestantismo de imigração e de missão que aderiram à Teologia da Libertação. No final do século XX, há um certo retrocesso nessa transconfessionalidade. Parece-me, porém, que há, em nível mundial, uma dupla tendência: um retorno das ortodoxias e, por isso, um abandono da transconfessionalidade e um retorno intra muros; mas também acento em transconfessionalidade que, no momento, é de caráter carismático.

Diante da variedade de tipos de protestantismo, diante da dificuldade de precisão conceitual que acima descrevemos, deve-se perguntar se há uma identidade teológica do protestantismo na América Meridional. Sei que a tentativa de resposta é complicada, mas ouso formulá-la.

2.2. Identidades teológicas

Não há uma identidade teológica no protestantismo latino-americano. Ele é por demais heterogêneo. Mas ele teve, ao longo de sua história, várias identidades, relacionadas ao momento histórico-social da América Latina em cada época.

Quando do ingresso dos primeiros luteranos no Brasil, o país estava saindo da situação de uma sociedade colonial tradicional, onde predominava um capitalismo de mercado. E estava entrando numa sociedade liberal-moderno-burguesa, na qual iria predominar o capitalismo industrial. No setor político, triunfavam as correntes liberal-modernizadoras, que produziram, então, as condições para o ingresso do protestantismo. De modo geral, havia a convicção de que o protestantismo forneceria a transição para uma sociedade moderna17. Na Argentina, não era outra a convicção. Sarmiento expressou-o em seu Facundo e foi secundado por Alberdi18

Se o ideário liberal estava presente nos círculos dirigentes brasileiros e argentinos, também estava presente nas juntas americanas que enviavam seus missionários: todo o mundo será salvo à maneira de ser americana (american way of life) ou à maneira de ser alemã (am deutschen Wesen soll die Welt genesen, diziam as juntas alemãs de missão). A doutrina de Monroe era a esperança também para a América Meridional. É interessante observar que as revistas missionárias norte-americanas da época defendiam a doutrina de Monroe. Não é, pois, por acaso que o protestantismo de missão - deixando uma vez de lado a polêmica tradicional de cunho doutrinal - vai argumentar que o catolicismo é obscurantista, retrógrado, etc. O protestantismo, ao contrário, é a religião que cria o espírito do progresso.

A pregação protestante vai ser do tipo evangelístico, correspondendo às Santas Missões da Igreja Católica Apostólica Romana: transforma o convertido em tipo ideal para a nova sociedade que se quer criar - individualista. Ele é sujeito de sua própria existência. A religião é dele e não mais da família. Básica é a relação: Eu e Deus. O novo homem da conversão é o homem moderno: responsável, honesto, progressista, em busca de cultura. O católico não-convertido vai ser apresentado como o contrário: irresponsável, desonesto, reacionário, inculto. Nos últimos quarenta e cinco anos, esse projeto liberal-modernizador entrou em crise. Essa crise foi cultural, econômica e religiosa. Desde então temos ouvido a pergunta pela identidade do protestantismo na América Latina. São quatro as causas dessa crise: 1. A renovação do catolicismo, após o Vaticano II, surgindo aquilo que alguns protestantes classificaram de “catolicismo evangélico”; 2. As Igrejas de imigração perguntaram pela relação entre herança cultural e país em que se encontram. Por exemplo: “Como ser luterano no Brasil?”; 3. Surgiu a autocrítica, que se tornou muito forte nos jovens que viram suas origens no projeto liberal e no novo pacto colonial19; 4. A ideologia da Segurança Nacional provocou uma crise de identidade dentro das igrejas, levando a repressão para dentro das mesmas.

É interessante observar como o protestantismo respondeu a essa crise. Houve fundamentalmente três caminhos de resposta: 1. Voltar a aferrar-se às posições tradicionais (ortodoxias); 2. Fuga espiritualista; 3. Tentativa de integrar-se às correntes da emergente Teologia da Libertação.

Por trás de tudo isso havia um fator sociológico a pressionar: dentro do projeto liberal-industrial, o protestantismo vinculou-se à classe média, a qual ajudou a criar. Atualmente, a classe média é a mais pressionada, sentindo o empobrecimento. Esse empobrecimento vem levando a uma crise espiritual. Os antepassados protestantes tiveram uma ascensão econômica enquanto ligados ao protestantismo; agora começaram a empobrecer, surgindo a pergunta: “Será que a nossa fé não funciona mais?” Alguns vão exigir a volta da sociedade tradicional, recriando-a em seus cultos; outros vão exigir a identificação com os pobres.

Desde a década de 1960, a identidade teológica protestante vem sendo pressionada pelo crescimento acelerado do pentecostalismo e do neo-pentecostalismo. Segundo as estimativas mais otimistas, os pentecostais serão 30 milhões no ano 2000, somente no Brasil. Em alguns exemplos tomados do neo-pentecostalismo, mais especificamente da Igreja Universal do Reino de Deus, podemos verificar a alteração da identidade protestante. Se antes o protestantismo combatia elementos da religiosidade popular, agora eles irrompem com todo o vigor em seu próprio seio. Se antes se combatia o xamanismo, pastores protestantes funcionam como xamãs. Veja-se, p. ex., o crescimento da crença nos demônios. São eles, conforme pregadores do neo-pentecostalismo, os culpados por todos os males; o ser humano não é mais visto como um pecador e o mal conseqüência de seus atos. O ser humano é vítima da obra dos demônios. Por isso, não há mais a necessidade de pregar arrependimento no sentido do protestantismo tradicional. Não há mais o acento no livre arbítrio; esse acento, aliás, se torna impossível porque o ser humano é presa dos demônios. A única possibilidade que lhe resta é negociar com Deus. Sinal de sua fidelidade a Deus é o dízimo. O dinheiro, aliás, é “o sangue da Igreja do Senhor Jesus”, na expressão do bispo Edir Macedo20, da Igreja Universal do Reino de Deus. Enquanto o protestante tradicional ora pelo doente, o neo-pentecostal o cura. Não se deve orar por um enfermo, mas curá-lo: “Nada de ficar falando: ‘ó Deus, cura! ó Deus, liberta! ó Deus, abençoa!’ Isto é burrice espiritual! Nós é que temos que curar, libertar e abençoar. Em nome do Senhor Jesus Cristo”21. Desaparece a graça, deixa de ter razão de ser, perde seu caráter de dádiva gratuita.




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